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São nossos convidados nesta tarde em directo. Filipa Fortunato e António Costa Lopes são fundadores da Casa Fortunato. É um hotel boutique em Lisboa e que venceu o ano passado. Foi considerado o melhor hotel 2019 por uma plataforma de reservas muito reconhecida, Mr and Mrs Smith Awards, o prémio que distingue os melhores hotéis de todo o mundo é deles. E a partir daí saíram também em várias publicações internacionais. Recordo-me, por exemplo, da Forbes, que os colocou na lista de melhores novos hotéis da primavera 2019. Filipa, António, bem-vindos. Obrigada pela disponibilidade.

Bem-vindos à tarde em direto.

Obrigada.

Muito obrigado.

Fazer o melhor hotel do mundo não deve ser muito difícil, mas como é gerir um hotel? Estou a brincar. Naturalmente, a minha pergunta é: como é que se consegue gerir um hotel com quatro miúdos em casa?

É maravilhoso, é uma aventura e todos participam. Eu acho que o segredo será esse, o facto de todos nós termos um papel ativo na gestão, no acolher dos hóspedes da Casa Fortunato.

Porque a ideia sempre foi essa, foi envolver a família inteira e ter uma nova forma de receber também.

Sim.

António.

Sim, a ideia sempre foi essa. Independentemente, eles saem todos os dias, vão pra escola, eu também saio e vou pro escritório. Mas este entrar e sair, e também da nossa parte, menos a Filipa, que a Filipa está mais a tempo inteiro nessa atividade, sempre fez parte do conceito.

Então, como é esta Casa Fortunato? É uma casa mesmo? Estamos a falar de uma casa de família, é isso? É esse o conceito?

Sim, nós vivemos no sótão da casa. Temos nove quartos no primeiro piso. É uma casa com um primeiro andar e sótão. Maravilhosa, linda, do princípio do século XX, dos anos 1910, por aí. E anteriormente era o escritório do António, que quando se mudou, ou quando pensou em mudar-se, pergunta: "Filipe, o que achas de nos mudarmos para o edifício onde é o escritório e fazermos este tipo"-

E que fica em que rua, que ainda não dissemos. Dissemos na introdução há pouco, mas agora não. Onde é que fica exatamente?

A rua é a Rua Marquês Subserra, número 10, que ninguém conhece, mas é uma perpendicular à Artilharia Um.

Fica numa esquina, não é?

Numa esquina, exatamente. Da Artilharia Um, da rua que desce para o Parque Eduardo Sétimo.

E este edifício, curiosamente, também tem uma história muito rica, não é assim? Isto foi mandado construir por um médico.

Sim, este edifício tem uma história, porque nestes 100 e poucos anos de história, o edifício originalmente foi mandado construir por este médico, para viver. Logo, eu acho que quando o construiu, ou quando mandou construir, os espaços que existiam no piso zero já eram para rendimento, pequenas lojas, pequenas oficinas. Nós soubemos que houve uma que era de neons no princípio dos anos 30, alguma coisa qualquer. E depois também o próprio edifício passou, houve uma altura que foi o Clube Japonês, nos anos 60. Foi o restaurante da Simone de Oliveira, o Candelabro, também nos anos 70. E depois aquilo que também nós sabemos da história, que um dos clientes assíduos do restaurante, depois foi onde montou o primeiro escritório, que era uma destas auditoras, que depois passou a ser Price, e durante 30 e tal anos o edifício foi também Price, e depois durante outros 10 anos ou um pouco mais, também o nosso escritório, o ateliê de arquitetura.

Mas foi o António que teve a ideia agora de transformar a casa no hotel ou foi a Filipa?

A prática foi mais minha. A ideia de fazer um hotel era mais da Filipa, ou de fazer qualquer coisa era mais da Filipa. Era nossa um pouquinho de fazer mais tarde, quando os miúdos começassem a sair, de equilibrarmos a ocupação da casa com a saída deles, com convidados. Mas a oportunidade apareceu bastante mais cedo e os quatro ainda lá estão e a mais nova tem seis anos, por isso ainda vai lá estar muitos anos, e por isso isso foi uma oportunidade.

É que eu fiquei há pouco naquela parte da conversa em que o António disse: "E se nos mudássemos? Vamos ver para o sótão, e ali no primeiro andar abrirmos um hotel."

Não, foi engraçado, porque eu já queria montar qualquer coisa. Até era para um turismo sênior, com uma amiga, e andávamos as duas a ver, porque de facto, cada vez se dura mais tempo. E há muita hipótese e oportunidades de viajar depois dos 60. Mas os hostels são todos pensados para miúdos.

É verdade.

E, portanto-

Não dá jeito de subir para aqueles beliches.

Não. E o António então um dia chegou da casa e disse: "Ó Filipa, nós vamos montar. O que achas de aproveitarmos este espaço? Temos que repensar em tudo, obviamente." E lá estamos.

E depois ajustou-se um pouquinho o conceito.

O programa.

O programa.

Mas foi pacífico nesse dia ao jantar.

Não, nada. Uma alegria.

A Filipa por acaso costuma dizer isto, que termos conseguido fazer esta obra, começar isto, instalar-nos meio em obras, meio em não sei o quê, e termos superado isto tudo, eu acho que a prova casal está mais do que superada. Porque não havia aquelas discussões que existem sempre sobre que cor é que vamos pôr, que acabamento.

Os puxadores.

Todas essas coisas. Cada um quando tinha que resolver, resolveu da melhor maneira e está lá e o outro concorda com tudo.

E o processo de pesquisa para tudo isto? Eu sei, há um detalhe aqui muito curioso, porque a Casa Fortunato tem nove quartos e vocês testaram os quartos todos durante uns meses.

Sim. Cinco meses em quatro quartos.

Cinco meses fomos quase obrigados, porque a questão é que o sótão foi a última coisa a estar pronto e por isso nós tivemos que usar esses cinco meses. Primeiro queríamos, obviamente, experimentá-los. Poderiam não ter sido os cinco meses, porque não era necessário.

Não era preciso tanto.

Não era preciso tanto, mas a verdade foram porque nesses cinco meses nós ainda não tínhamos o sótão pronto, já estávamos abertos, já tínhamos hóspedes a chegarem e nós e os miúdos a circular.

Sim, às vezes havia uma reserva que ia para um quarto onde estava alguém instalado. "Está tudo a sair, vem aí hóspede."

A arrumar as coisas.

Exatamente. Mudou de quarto.

Vocês próprios eram hóspedes do vosso hotel.

Sim.

Há uma preocupação também engraçada com a sustentabilidade, porque vocês aproveitaram muitas mobílias que eram de família também para decorar o hotel.

Sim, o nosso conceito sempre foi o partilhar e desde o nosso estilo de vida e o nosso tipo de alimentação, as práticas de ioga diárias, às nossas histórias e também às nossas peças. Portanto, o nosso espólio está todo partilhado com os hóspedes, nos quartos, na sala de jantar, pela casa toda. Eu às vezes a brincar digo: "António, nós só levamos os colchões para cima, para o sótão, porque tudo o resto ficou no hotel." Porque é muito esse o espírito de partilha e os hóspedes é muito isso até que reconhecem, que agradam e quando saem é muito este storytelling que fica e que depois passam a palavra a outros.

E as coisas têm outro cachê. Quando nós estamos a falar de coisas que já estão conosco há 20 anos, que estão usadas por nós, mas estão boas e que estão ocupadas. Por isso, apesar de ser um hotel novo e de ter aberto agora, as nossas peças têm 20 anos. Por isso, entramos lá e parece que está a funcionar há 20 anos e bem.

E tem uma identidade diferente.

E tem uma identidade muito diferente, porque esta questão que não é um projeto de decoração, não é uma coisa de interiores, não é uma coisa só de arquitetura, mas é uma coisa que, nesses cinco meses também, nós andamos a mudar os móveis, porque de repente, quando passávamos para um quarto, achávamos que afinal aquele candeeiro ou aquela mesa que tinha ficado no outro quarto, se calhar fica melhor aqui e volta a mudar. E andamos em todo esse processo, como eu acho que fazemos todos nós em nossas próprias casas, que o vivemos dessa forma.

E as reações, a Filipa falava nisso, as reações dos hóspedes vão nesse sentido? Dizem-vos: "Aqui sinto-me em casa"? É isso que vos dizem?

Sim, há muitas histórias já ao longo deste primeiro ano. Há hóspedes mais reservados, há outros menos, mas desde termos uma hóspede que tem a rotina em casa de acordar e buscar um café e vir para o quarto arranjar-se, ali fazia exatamente a mesma coisa. Descia de roupão, tirava o seu café e voltava para o quarto e depois então a seguir vinha tomar o pequeno-almoço. Outros que andam descalços pela casa. Muitos é engraçado que nem fecham a porta do quarto à chave. Às vezes andamos todos doidos à procura da chave, está pendurada na porta. Portanto, há de facto este estar e sentirem-se em casa que é o nosso objetivo maior.

E que não se consegue no hotel, pelo menos não no hotel daqueles grandes de cadeia, não é?

Sim.

Aliás, porque eu tenho ideia que esta questão do turismo aumentar por todo lado também torna, se calhar, os hotéis mais impessoais. Com um olhar estritamente comercial daquilo que é um hotel, que é um sítio para ir dormir e depois é apenas isso. No vosso caso, vocês tentam contrariar, obviamente, isso também. Portanto, é um espaço para se estar, para se conhecer. Isso também se nota nas atividades que vocês também vão proporcionando. Já falámos aqui no ioga, por exemplo. Eu gostava que me falasse da comida, porque também é uma parte muito importante.

É. Temos muitos hóspedes que vão ao desconhecido e, portanto, que já ouviram falar da macrobiótica.

Se calhar um pouquinho de medo, ou não?

Exato. E até às vezes com uma conotação muito de tratamentos.

Muito restritiva, muito limitada.

E quase como uma dieta. Não é restritiva nesse aspeto, nesse sentido.

Não, de todo. Não é nada fundamentalista, embora haja muitas vezes até essa ideia. E temos uma chef maravilhosa que Conta as histórias todos os dias de manhã da macrobiótica e do porquê de determinados alimentos em determinada altura do ano. As pessoas saem encantadas.

Com o sentido que tudo faz no todo, no sentido da alimentação, e depois gostam, acabam por gostar também do sabor.

E voltam?

Já há vários. Num ano, já houve várias repetições. É muito interessante.

Isso é muito interessante.

E há troca. Depois perguntam receitas, há e-mails a trocar, a pedir uma receita e dizer como é que correu. Tem havido essa partilha e esse alimentar dessa relação.

Dessas relações, sim.

E como é a outra parte, a parte destes prêmios, deste reconhecimento? Que sensação se tem quando se recebe esta notícia?

Eu quando tive que ler, pai, três vezes o e-mail.

Achou que era engano.

Pensei: "É um bug, só pode". Não. Isto ainda nem um ano tem de abertura, porque nós soubemos do prêmio em agosto. Ainda nem temos um ano. António, isto já é possível? Foi totalmente inesperado, porque nem sabíamos que estávamos a ser avaliados pela Mr and Mrs Smith, e eu acho que até o fato de nós não sermos da hotelaria, somos muito naïfs nestes temas de andar atrás de prêmios ou de reconhecimentos. Quando eles vêm, é uma coisa muito surpresa e preenche-nos completamente. De fato, há um esforço grande todos os dias, obviamente que sim, mas transforma tudo em alegrias e vale muito a pena este trabalho todo, este concretizar de um sonho. O prêmio acho que foi muito um reconhecimento.

Precisamente por não serem da área, o que vos surpreendeu neste meio que não estavam de fato à espera e que se calhar até foi mais difícil do que aquilo que achavam? O António já se está a rir, eu quero saber. Isto, apesar de numa área tão desafiante.

É tudo fácil em Portugal, não é, António?

Sim.

A parte burocrática deve ser incrível.

Passando essa fase, porque quem já faz projetos lida com isso no dia a dia. Mas o lidar com pessoas, realmente, é uma surpresa, e esta área lida muito com pessoas. Lida com pessoas, as internas, que fazem parte da equipa, e isso é um tema, e depois lida com toda a panóplia também de pessoas que são os hóspedes, os clientes que aparecem. E em todos eles houve surpresas extraordinárias, tão positivas. Esta relação que se tem criado com muitos dos hóspedes é formidável. O que eles reconhecem, a conversa que existe de sugerir qualquer coisa, qualquer passeio, que é o que nós fazemos como lisboetas, como estando cá, e não é uma coisa formal de um concierge, do melhor concierge que possa existir, é diferente de nós que vivemos na cidade e que a utilizamos de uma determinada forma e que temos um estudo também, e que gostamos da cidade e que estudamos a cidade. Nós, os dois sendo arquitetos, temos uma visão da estética, da cidade, de todas essas questões, e podemos ter um olhar diferente, que é diferente do que um profissional da hotelaria, que está muito virado só para uma pergunta e resposta.

Para o serviço, não é?

Exatamente.

E clientes insuportáveis e chatos, ainda não tiveram ou não querem...?

Claro que sim.

Alguns.

Claro que já houve.

Não, não houve. A Filipa está a tirar. António.

Não façam isso comigo. São todos maravilhosos.

Não, mas já houve. Claro que há histórias. Mas não chegaram a ser insuportáveis. E, aliás, não chegaram a ser insuportáveis. Por acaso, eu acho que é uma coisa que é interessantíssima, que eu não sei se é de toda a informação que existe ser muito profunda e com muita informação, que às vezes até pode se achar que é demais.

Exato.

Mas há pouco equívoco. Mesmo que as pessoas podem não ser da macrobiótica, podem não ser vegan. Mas não se importam de experimentar. Neste ano, eu acho que se calhar houve dois hóspedes ou dois quartos que não tomavam o pequeno-almoço, que decidiram sair sem tomar o pequeno-almoço. Não lhes agradou o tema, que é pouquíssimo, mesmo quem não seja da área. E por isso eu acho que é muito positivo tudo o que tem acontecido.

É engraçado porque até há clientes que, se calhar, estabeleceram, pelo menos aquilo que estive a ler sobre vocês, estabeleceram quase uma relação de amizade, às vezes com os vossos filhos e convosco também. E acabaram por estabelecer uma relação também diferente. Isso é muito positivo, não é?

É. Isso eu acho.

É. Ainda foi em novembro, tivemos uma hóspede grávida.

Em março. Ela esteve lá em março.

Esteve em março, exatamente. E com quem trocamos e-mails, a minha filha Mercês, vários e-mails, porque era uma atriz de Hollywood fantástica. E a Mercês ia trocando e-mails com ela e conosco. E eu mandei-lhe um e-mail para saber como é que tinha ideia do bebê estar para nascer. E ela: "Filipa, não vais acreditar, o bebê nasceu hoje, no dia em que eu recebi este e-mail". Há um acompanhar alguém que esteve quatro ou cinco dias, umas horas desses dias, mas que fica uma relação para sempre.

Aquela química que resulta logo, não é?

Sim.

E no meio disso tudo, o negócio é bom ou não?

É. É.

Também vos surpreendeu ou estavam à espera?

Aí não houve uma expectativa tão grande. Aí é que pode haver uma grande diferença de nós não sermos da área.

Peço desculpa por interromper, António, porque em Lisboa, com o mercado de turismo, toda a gente acha que pode abrir a casa a turistas, que é um negócio, que é um maná que está aí ao alcance de todos. E às vezes não é bem assim.

Eu não feria nisso.

Tem que haver alguma resiliência financeira. Mas sim, ainda hoje de manhã estávamos os dois a olhar para os nossos mapas. Também temos que olhar para uns mapas de vez em quando. E estava a dizer ao António: "Impressionante, duplicamos de um ano para o outro". Obviamente que os primeiros anos são sempre de investimento, mas sim, funciona.

Não falámos do Cacau. Eu gostava de terminar esta entrevista, não é? Não podemos deixar de falar.

O nosso Cacau é o nosso concierge.

Exatamente, que é um cão lindo. Portanto, claro que faz parte, claro que vai para os quartos dos hóspedes quando quer, também já li sobre o assunto.

Às vezes entra.

Então está em casa, na verdade, é isso.

Não é suposto.

Os hóspedes quase todos perguntam. Também é outro tema, que ele está sempre solto, por isso anda connosco, está à entrada, na maior parte das vezes, e vai ter com os hóspedes. E ele, apesar de tudo, é muito calmo e os hóspedes ficam encantados. Eu acho que também durante este processo todo, houve uma hóspede que no primeiro dia não estava assim tão confortável e no dia seguinte já estava ótima.

Porque o Cacau é simpático, de certeza.

Sim, ele também tem essa qualidade e essas características.

Bom, para quem nos está a ouvir, pode sempre passar pelo site casafortunato.com. A Filipa Fortunato e o António Costa Lopes foram os convidados da tarde em directo. Muito obrigada aos dois. Até à próxima.

Obrigado, Filipa. Obrigado, António.

Obrigada.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada!