Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Tenho um periquito dentro da gaiola, que canta sempre que lhe dou uma Coca-Cola. Assobia os êxitos da rádio e em dias de chuva canta um fado.

Leio uma revista na diagonal e consigo ver para lá do meu quintal. Tenho uma visão grande angular, que abarca tudo quanto cabe no olhar.

Quando eu morrer talvez me esfume, em vapor de céu azul.

Talvez me purifique em algum rio ou numa túnica de túmulo. Mas por enquanto eu nem me tenho dado assim tão mal.

Pela Europa do Sul. Viva o fado! Viva o fado! Viva a vizinha do lado. Viva o fandango! Viva o fandango! Viva a vira, vira o frango. Viva o intruso.

Viva o intruso.

O gigantão e o cabeçudo. Que eu estou por tudo, eu estou por tudo.

Tenho uma amiga que se derrete, sempre que me encontra na internet. Acho que me sei o Atlântico, às custas de um poema de Neruda.

"Estou Por Tudo", com Cláudia Pascoal, é uma das canções para as Canções da Esperança, é o novo disco do Miguel Araújo, nosso convidado para as conversas de fim de tarde de hoje. Miguel, muito boa tarde. Bem-vindo à Rádio Observador e obrigado por estar conosco.

Boa tarde. Muito boa tarde a todos. Eu é que agradeço esta oportunidade.

Olha, Miguel.

Estão a ouvir-me?

Estou a te ouvir bem. Sim, por já tudo bem. Olha, as Canções da Esperança é também uma banda sonora para a série "Esperança", da SIC, protagonizada pelo César Mourão, mas é um disco também cheio de convidados. A Cláudia é apenas uma delas, participa neste "Estou por Tudo". Ela realiza também o vídeo, que é muito engraçado. Devem vê-lo pelo YouTube. Miguel, este é também um disco com edição própria, está disponível para compra no teu site. Isso quer dizer que vais apostar numa carreira de editor? Vais tornar-te um executivo da indústria também, um autor independente?

Sim, já sou desde 2017. Agora, não serei um executivo da indústria, porque o meu selo, que se chama ChiU, a minha editora, só serve para editar os meus discos.

Por agora.

Não estou a ver, a menos que apareça um amigo que por uma questão de conveniência burocrática, me peça para usar o meu selo para editar um CD ou coisa assim do gênero. Mas eu não me vejo, nem gosto desse papel de editor. É um mero trâmite burocrático e legal, a existência de um selo para autoeditar. Mas é isso, a minha editora resume-se aos meus discos. Há três já. Há um ao vivo chamado "Uma Noite na Fila Harmonia Luxemburgo", há o "Que é um Peixe Azul", também deste ano, e este, as Canções da Esperança, que é precisamente o que tu estavas a dizer, é a banda sonora. São as canções da banda sonora da série.

Miguel, esta Esperança é uma viúva octogenária, interpretada por César Mourão, de forma brilhante, posso mesmo dizê-lo. Como é que este projeto chegou até ti? Como é que foi escrever estes temas? Já existiam alguns deles, foram compostos de raiz para abrilhantarem também esta série?

Sim, as músicas foram feitas de propósito para a série, todas elas. Se bem que uma ou outra já existiam em versão bastante embrionária e eu adaptei a letra e a música ao que me foi dado conhecer da série. É sempre um trabalho ingrato, porque uma pessoa escreve estas músicas por cima de guiões e não da série acabada. Eu não vi nada, eu só tinha texto com as cenas e essas coisas. E este convite surgiu um pouco na sequência de um trabalho que eu já tinha feito, tanto com o César como com o Pedro Varela. Nesse caso, o César era só ator, não tanto como aqui, que ele também é autor, mas foi o remake da Canção de Lisboa em 2016. O Pedro Varela realizava e o César protagonizava e o Pedro Varela convidou-me para escrever três músicas para esse filme.

E foi mais fácil trabalhar para o cinema ou para uma série?

A dificuldade mesmo é escrever por cima de guiões, termos nós próprios que imaginar como é que aquilo há de ficar. No caso do filme, "Será Amor?", eu fiquei um pouco mais overwhelmed, avassalado, acho que é essa a palavra, porque eu nunca tinha feito. E tanto que eu tinha que fazer quatro músicas e só consegui fazer três. Houve uma cena que ficou sem música, porque eu não consegui acabar, fiquei um pouco à rasca. Agora, neste foi mais simples. Já conhecia melhor o Pedro, já conhecia melhor o César, já conhecia a personagem de outras andanças do teatro, etc. Por isso foi mais fácil, eu fiz estas oito músicas com bastante fluidez, coisa que não é muito comum em mim, porque eu sou um compositor lento. Eu demoro a fazer músicas, mas estas fiz rápido, ao correr da pena.

O César Mourão também entra num dos temas, também se arrisca a cantar safas ou não?

Muito bem. Ele é um grande actor.

Ele toca guitarra também, não é?

Toca, mas não autorizei aqui na minha música.

Era isso que eu ia perguntar.

Não autorizei, mas ele fez uma coisa incrível, que é se ouvir a música até o fim, ele faz um solo de assobio no fim. Ele é o melhor assobiador que eu já vi à minha frente. É uma coisa impressionante ele assobiar, é mesmo incrível. E ele canta super bem. Eu fiquei impressionado em 2015, quando fomos gravar a canção "Será Amor?" do filme, canção de Lisboa, em que ele gravou aquilo à minha frente, before my eyes, à primeira. Foi uma coisa muito impressionante. Eu, que canto há tantos anos, não gravo à primeira nem coisa que pareça. Ele gravou tudo à primeira take, é um cantor com muita facilidade. E por isso eu já conhecia essa faceta dele. Tanto ele como o António Zambujo, o Camané, que foi uma enorme honra para mim, e o Zambujo claro que sim, mas já tinha trabalhado com ele antes. E a Cláudia Pascoal, que também deu-me essa enorme honra, que eu sou muito fã dela.

Eu ia perguntar-te mesmo isso. Estávamos aqui a ouvir em fundo a "Caniche", que é o tema que tem o César Mourão, mas já lá voltamos. Ia perguntar precisamente como é que foi a colaboração com a Cláudia Pascoal. Foi a primeira vez que se juntaram. Eu acho que ela tem um lado castiço, colorido, divertido, que encaixa como uma luva em muitas das coisas que tu também tens feito. Gosto de vos ver juntos e espero que essa colaboração se repita. Como é que foi trabalhar com a Cláudia?

Eu já conhecia a Cláudia há mais tempo. Nunca tínhamos trabalhado propriamente assim juntos. Através do Tiago Nacarato, eu já tinha tocado com ela várias vezes e por isso tive a lata de a convidar para esta música. E sim, eu sou muito fã dela, eu identifico muito com esse lado dela. É um lado que eu não tenho assim muito, mas também tenho, de vez em quando, e tinha mais até na altura de "Zezé Tonnes". E por isso foi natural e fácil trabalhar com ela. Eu já tinha a música feita, mandei-lhe. Por sorte o tom encaixou bem, não foi preciso grandes alterações. Olha aí o César a cantar.

Exato. Aqui está ele.

E também eu sou fã dos videoclipes que ela realiza. Sabia que ela tinha esse talento, então convidei-a para fazer o videoclipe. Ela obrigou-me a fazer umas figuras tristíssimas, que eu fico muito à rasca.

Eu acho que ficou muito fixe. Gosto muito do vídeo. Aliás, ela tem sido também uma ótima realizadora. Diria que já tem uma estética muito própria, não achas? Já dá para perceber quando é um clipe de Cláudia Pascoal. Isso também é interessante.

Completamente, isso é a consagração artística máxima, ter a assinatura própria. E foi um dia bastante bem passado, ali na Marisa Alta. Ela pôs-me a dançar, coisa que eu não faço com facilidade nenhuma. Pôs-me a vestir umas figuretas. Tivemos a assistência do meu filho Joaquim, que foi o assistente, que trazia as roupas. Ele está aqui ao meu lado a rir.

Um abraço.

Um abraço.

Bom Natal para ele.

Bom Natal. Ele só me ouve a mim, não ouve a vocês.

Manda para ele um abraço nosso.

Pronto, ele sauda a galha e manda-te um abraço.

Miguel, já falamos aqui de alguns dos nomes. O Zambujo, já não é a primeira vez que trabalhas com ele. O Camané foi a primeira vez. Foi difícil, surpreendeu-te essa ligação com ele ou não?

Foi um convite. Eu não o conhecia muito bem. Já me tinha cruzado com ele algumas vezes, mas não tinha lata de o convidar. Mas o Pedro Varela encheu-se de lata e ele próprio fez a ponte e mandou-lhe a música, e o Camané gostou da música. Ele gravou lá em Lisboa, eu estudei no Porto. E o Camané gravou em Lisboa porque eu não estava presente nesse momento. Mas no momento em que chegou o ficheiro com a voz dele, eu fiquei completamente arrepiado e passado, que eu sou muito fanático do Camané desde puto. E foi uma alegria, foi uma honra. Se dependesse de mim, eu não o teria convidado, não teria tido coragem. Mas o Varela teve essa desfaçatez e foi poético.

Nestes trabalhos, já falámos um pouco também sobre a dificuldade que é fazer bandas sonoras. Isto, no fundo, acaba depois por também dar algum gozo quando vês, ou no grande ecrã, ou no pequeno ecrã, aquilo ali a bater certo com o que imaginaste serem aquelas cenas para as quais compuseste a música, ou não?

Sim, é uma magia indescritível. Mal me mandaram o genérico com a minha música, parecia feito de propósito para aquelas imagens. Foi fácil entrar no universo da "Esperança" porque estava muito bem descrito como é que seria o apartamento, as madeiras a ranger, ali na zona da Sé, do castelo, que eu conheço aquilo mais ou menos. Por isso foi fácil entrar nesse imaginário. É um imaginário com o qual todos nós nos identificamos. Eu identifiquei-me particularmente, então foi fácil fazer as músicas. Eu sabia que aquilo ia resultar bem, mas não sabia que ia resultar tão bem. De facto, quando eu vi, fiquei muito emocionado, foi muito comovente ver. E depois, o álbum só tem as canções, mas a banda sonora tinha alguns desdobramentos instrumentais das músicas. O trabalho foi muito à volta disso também. O momento em que soce o contrabaixo numa cena qualquer. Depois essa lavoura de desdobrar as músicas em pedacinhos instrumentais, tal o acordeão, foi um trabalho difícil de fazer e que eu nunca tinha feito. Esse foi o mais demorado, até. Isso sim, era difícil. Até o Varela tinha que me explicar, dizer quantos segundos é que aquilo ia demorar. Foi um trabalho que eu não tinha prática nenhuma de fazer e achei giro fazer também, mas o álbum só mostra as canções completas, no formato normal.

Miguel, eu estava recordado de uma altura ter lido uma entrevista tua, e confirmando se a minha memória está mais ou menos correta disso que li na altura. Tu dizias que a tua mãe e que a tua irmã eram as tuas principais consultoras. Quando terminas uma música, mostras sempre primeiro o resultado à tua mãe e à tua irmã e que elas dão as suas avaliações. Ainda usas este método?

Era a minha mãe e a minha mulher, não era a minha irmã.

Ok. Aí já está uma falha da minha memória. Troquei familiares.

Mas eu hoje em dia mudei um pouquinho esse método. Como eu tenho estúdio em casa, enfio-me lá e faço tudo e só mostro depois, quando já está mesmo no fim. Já não mostro os embriões das músicas. Eu antes tinha imensa vergonha de fazer isso, depois houve uma fase em que não tinha e agora voltei a ter. Sinto muito pudor em mostrar as músicas ainda em bruto. Parece que elas ainda não existem. Mas a partir do momento em que eu as gravo, definitivamente já mostro. E já consigo pegar numa guitarra e cantá-las à frente das pessoas. Mas antes, tenho muita vergonha, há uma reserva muito grande que eu tenho em fazer isso.

Miguel, estamos quase a chegar ao final do nosso tempo. Tinha curiosidade para perceber também como é que está a tua agenda para este final de ano e para início de 2022. O próximo ano vai trazer temas novos de Miguel Araújo? Vai ser um ano de pausa, também com alguns concertos? O que é que tens previsto?

Próximamente os concertos estão a ser cancelados, ou adiados. Já se previa. Eu ia tocar aqui em Coimbra na passagem de ano, já não vou. Nem eu nem ninguém, é normal.

Exato.

E depois eu vou tocar, para o ano, faz 10 anos que saiu o meu primeiro disco. Então eu vou dar uns concertos de celebração dessa data. E é no dia 7 de abril no Campo Pequeno e dia 21 de maio no Super Bock Arena, vulgo Rosa Mota, vulgo Palácio de Cristal. Mas não vou tocar o primeiro disco na íntegra. É a data só. Do primeiro disco, eu só toco uma ou duas músicas. Mas antes disso, vai sair um álbum novo, que eu aproveitei estas pandemias sucessivas para passar muito tempo no estúdio. Este ano lancei dois discos e para o ano, logo no início, já vai sair um terceiro desta série das quarentenas, cujo single já saiu, chama-se "Chama por Mim", e faz parte de um álbum chamado "Chalalá", que vai sair no fim de fevereiro, por isso no próximo ano. Mas até aos concertos grandes, tanto de Lisboa como do Porto, vou andar bastante arredado dos palcos, vou fazer um descanso, e também já se espera que a área dos concertos vá ser bastante afetada e vai ser praticamente impossível trabalhar como foi há um ano. Então eu vou aproveitar para fazer umas férias, que eu tenho andado a trabalhar muito.

Acho que fazes bem.

Vou fazer aí um descanso e vou praticamente não dar concertos até esses de abril e maio no Porto.

Acho bem que tires esse tempo também para ti. E gostei das notícias que aqui deixaste também de música nova e desses espetáculos que também assinalam os 10 anos do teu primeiro álbum. Miguel Araújo, muito obrigado por teres vindo à Rádio Observador. Pena que tenha sido assim à distância, mas esperemos que 2022 também nos traga mais encontros presenciais contigo. Fica aqui o tema "A Canção da Esperança" deste disco, "As Canções da Esperança", banda sonora da série da SIC protagonizada por César Mourão. Ele que está uma bela esperança também com toda aquela maquiagem que lhe põem. Está um trabalho fantástico também do César. Miguel, muito obrigado, bom Natal.

Obrigado. Bom Natal igualmente.

E bom 2022. Até breve.

Boa. Um grande Natal para vocês e para quem nos ouve.

Obrigado. Um abraço.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada!