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O convidado de hoje da tarde da "Em Directo" venceu o "The Voice Portugal", o programa da RTP. Hoje estamos à conversa com o Luís Trigacheiro, mas o percurso no programa começou desta forma.

Eu aprendi a cantar.

O que é isto?

Lembrando em terra molhada.

Isto é lindo!

Lá na solidão dos campos. Pensando em ti, minha amada. As monta, as casas.

O som das cadeiras a virar, indiscutível.

As pedras se juntam.

Na prova cega, o Luís Trigacheiro virou as quatro cadeiras dos quatro mentores do "The Voice". E íamos ouvindo também a Mariza Lís a reagir e dizer: "O que é isto? Que bonito que é." O Luís Trigacheiro venceu o "The Voice" e hoje é nosso convidado. Luís, bem-vindo e parabéns.

Boa tarde, obrigado.

Bem-vindo.

Já estás refeito, já conseguiste descansar ou ainda não?

Mais ou menos. Ainda estou a tentar mentalizar-me bem das coisas, mas isto claro que é um processo que leva algum tempo. Não contava com tudo isto, portanto tenho que me interiorizar bem.

Certo. As reações todas que foste tendo. De quem é que partiu a ideia de participar? A ideia foi tua ou não?

Não. A ideia surgiu em Porto Covo, no ambiente de férias e de amigos, e houve uma pessoa que sugeriu e que enviou o meu contacto e depois, a partir daí, tudo surgiu.

Pessoa a quem vais pagar um grande jantar, não é, Luís?

Pode ser já hoje.

Pode ser já hoje. Muito bem. Luís, quando começaste a perceber que tudo isto, de facto, estava a correr muito bem, que eras um caso sério de sucesso nesta edição do "The Voice"? Quando é que te caiu a ficha?

Na verdade, eu nunca pensei muito nisso. Eu participei naquela do "vamos participar e vamos ver o que é que acontece", mas nunca pensei chegar tão longe, muito menos ganhar, porque a verdade é que este ano estava muito renhido, havia imensa qualidade desde o início, mas depois houve um momento em que comecei a perceber que poderia dar mais de mim e que poderia chegar longe.

E foi depois da prova cega que estávamos a ouvir ou não? Porque esta prova cega, na verdade, tornou-se um dos vídeos mais vistos naquela altura no YouTube. Tiveste várias figuras públicas que foram também partilhando aquilo que fizeste. Foi nessa altura ou nem por isso? Ainda demorou um bocadinho.

Não, foi mais pra frente. Claro que a prova cega é um cartão de visita, não é? Porque é o que nos apresenta logo como artistas e o que pode definir ou não o nosso futuro naquele programa, porque a partir daí as pessoas vão acompanhando conforme o gosto pela pessoa em causa. Acho que foi uma prova cega hiperinteressante, como muitas outras que existiram.

Luís, conta-nos lá qual é que é a experiência de fazer uma prova cega. Normalmente, quando se fala de provas cegas, fala-se de vinho. Neste caso, estamos a falar de cantar. Estão ali grandes profissionais, grandes artistas portugueses, também o público presencial, também milhões de pessoas em casa a ver. Como é que é estar nessa prova cega? É muito difícil, muito nervosismo? Conta-nos tudo.

Acho que depende um pouco de pessoa pra pessoa, porque há pessoas que já estão habituadas a pisar palcos e que sabem a presença que têm que ter em determinado tipo de circunstâncias. E isso depois vai-se refletir imenso na prestação. Por exemplo, no meu caso, eu estava supernervoso e então optei por me concentrar e fechar os olhos e pensar que estava a cantar só pra mim e pra um ambiente como se fosse familiar. E mesmo quando os mentores viraram as cadeiras, eu fingi que não estava a acontecer nada e dei o meu melhor até o fim, com algumas limitações, mas penso que correu bem.

E em quem é que pensas quando cantas, Luís? Tens alguém na cabeça ou não?

Não penso. Penso na música, penso na mensagem que a música passa, pelo menos que me passa a mim, e tento com que essa mensagem chegue. Mas não faço para que chegue, interpreto dessa maneira. É a minha maneira de cantar, a minha maneira de interpretar as coisas. Não faço propositadamente, acontece assim.

Nós hoje estamos à conversa com o Luís Trigacheiro, venceu a última edição do "The Voice Portugal". Luís, quando é que começaste a cantar? Tu és muito novo, tens 23 anos, não é?

Sim. Eu comecei a cantar mais a sério, talvez quando comecei a participar nos grupos corais, onde comecei a cantar canto alentejano, que sempre fez parte da minha vida, enquanto cantor. E depois comecei a cantar outras coisas, comecei a ouvir outro tipo de música, que já ouvia, mas que não imaginava cantar, mas comecei a cantarolar outro tipo de música e começámos a fazer outros espetáculos com outra dinâmica, mais divertida. Eu fugi um pouco do canto alentejano, mas fazíamos também questão que estivesse presente a nossa, porque ao fim e ao cabo, acaba por ser a nossa identidade.

Claro, mas de certa forma foste também inspirado pela tua avó, que também já cantava, não é?

Sim, a minha avó cantava. Eu comecei a ouvir a minha avó cantar e ia um pouco atrás daquilo que ouvia e cantarolava, mas não cantava a sério. Era miudinho, pequenino, nem sabia bem o que é que estava a dizer. Provavelmente, até podia nem cantar muito bem, não sei, não tenho noção.

Mas a tua avó cantava a sério. A tua avó fazia parte de grupo de cantares.

Fazia parte de grupos corais e fazia questão de cantar para mim. E eu ficava a ouvir a minha avó e às tantas aquilo, uma hora para mim era um minuto. Deliciava-me a ouvir.

E foi aí que tu também começou, aos 15 anos já fazias parte de um grupo. E aqui falavas da questão do cante ser, de facto, algo nosso, uma linha da nossa tradição musical também. Tu sentes que a tua vitória e a forma como levaste o cante também a este concurso vai inspirar vários jovens a fazer o mesmo, Luís? Sentes essa responsabilidade?

Sinto e, ao mesmo tempo, espero que isso aconteça. Porque estamos a levar mais além uma tradição, algo que nos define a nós do Baixo Alentejo e a nós, Portugal. Espero que isso consiga chegar a outras zonas. É sempre bom ter mais alguém a representar aquilo que é nosso.

Então olha, Luís, nós temos aqui uma novidade para te dar, porque na verdade, já há alguém que se sente muito inspirado por ti e que até nos enviou umas perguntas. Vamos ouvir? Vamos lá.

Olá, Luís. Sou o Manel. Gostei muito da tua prestação no The Voice, daquela moda alentejana que cantaste, as "Mondadeiras", que é de um grande conterrâneo meu. Gostava de te fazer três perguntinhas: como é que foi estar no The Voice à frente dos mentores? Se ficaste nervoso e se ficaste com medo de desiludir os teus amigos e mentores. Como é que estás a lidar com a fama? A capela o Alentejo.

Vês? Ele também já canta.

Olha, e canta muito bem.

Vamos ouvir mais um bocadinho do Manel.

As sereias cantando. Suas penas, seus amores. Não cantam, estão rezando.

Tão bom. Manel, se nos estiveres a ouvir, tenho a certeza que estás, um beijinho pra ti. Ele tem nove anos, é teu fã, Luís. E o Manel enviou-nos estas perguntas e diz que não esquece uma atuação tua em Serpa no aniversário do avô, num restaurante que se chama Molha o Bico. Não sei se te recordas disto ou não, mas ficou esta nota também.

Em relação às perguntas do Manel. Pra já, um beijinho enorme pro Manel e um abraço grande. Espero que ele continue a cantar, porque canta muito bem. Sem dúvida, é um prazer enorme e uma honra ouvir. Perceber que isto consegue chegar não só aos corações, a determinadas faixas, isto vai às faixas etárias todas. Quer dizer, vai dos oito aos 80. E isso é muito gratificante, conseguir perceber isso. Em relação às perguntas que o Manel fez. Quando subi aquele palco, claro que queria que os mentores virassem as cadeiras, não esperava que virassem as quatro, mas não pensei em desilusões, nem em surpreender. Pensei: "Vou cantar. E se gostarem, gostaram. E se não gostarem, não gostaram". Ponto final. Não senti que poderia desiludir ou surpreender alguém. Senti que tinha que cantar aquilo que eu queria que as pessoas ouvissem.

E como é que estás a lidar com a fama? Perguntava também o Manuel.

Com a fama? Depende, tem que saber fazer também essa gestão, porque existe tempo pra tudo. Existe tempo pra responder às mensagens, existe tempo pra conversar com as pessoas, existe tempo pra viver a nossa vida normal. Tenho feito a minha vida igualzinha. Claro que há pessoas que vêm falar comigo e as perguntas são praticamente as mesmas e eu respondo da mesma maneira e é sempre gratificante estar um bocadinho com as pessoas e explicar-lhes as coisas. Foi novidade pra mim, mas acredito que seja novidade pra todos.

Mas a verdade é que pra já, são mesmo muitas as solicitações. Queria só voltar aqui às perguntas do Manel, só pra te perguntar também, Luís. Queria aqui uma resposta mais concreta sobre o fato de alguma forma também inspirares uma criança de nove anos, como é que é, nesta altura da tua vida, enquanto alguém que também está a crescer neste meio musical, servir já de inspiração pra alguém que também gosta de cantar assim como tu?

Nunca pensei ser alguém de inspiração, a verdade é essa, mas servir de inspiração é muito bom, porque vejo que consegui chegar a tocar a todos e espero que ele continue a ouvir e a acompanhar o meu trabalho. Espero que ele consiga chegar muito longe.

E o que é que segue?

É bom porque conseguimos fazer com que o cante não se perca. E não só eu, como o Manel, como outros miúdos conseguem garantir isso. E isso é muito importante.

Eu ia te perguntar precisamente isso, se achas que está, de facto, garantido que o cante não se perde. Porque estamos nesta altura também num reconhecimento importante disso.

Eu creio que não, porque o cante atualmente é cantado por pessoas de 70 ou 80 anos, talvez pelos avós do Manel e por o Manel. Portanto, há aqui um leque de uma diferença de idades grande, que nos garante que se tudo continuar com este processo, o cante pode continuar presente nas nossas vidas por muito tempo. E isso é muito bom.

Luís, deixa-me perguntar-te aqui também uma coisa ainda relacionado aqui com os mentores, também com o canto alentejano. Tu estiveste no The Voice também a cantar perante alguém que de alguma forma também simboliza aquilo que se vai fazendo no Alentejo ao longo dos anos. Falamos do António Zambujo. Como é que foi estar a cantar perante o António Zambujo? Tornou a tarefa ainda mais complicada de um alentejano pra o outro?

Eu creio que não, porque o António tem o percurso que tem. Começou também no canto alentejano e fá-lo muito bem, mas foi quase como se estivéssemos a falar a mesma língua. Eu percebia, mas percebia o que ele estava sentindo. E nós já tivemos a oportunidade de cantar juntos e de trabalhar juntos. Para mim, dava-me até alguma confiança saber que estava ali uma pessoa que sabia aquilo que realmente eu estava a fazer.

E foi te dando algumas dicas ao longo do percurso ou nem por isso?

Claro que sim, foi um marco importante no percurso, sem dúvida. Ainda que não como mentor.

Não era o teu mentor, lá está, mas era da equipe rival, por assim dizer, mas foi te dando algumas dicas ao longo do percurso.

Sim, porque acima de tudo, nós temos alguma intimidade, somos amigos. Isto foi um percurso, mas a nossa relação continua e continua muito boa, e espero que assim seja. Isto foi apenas uma rampa de lançamento e ainda bem que aconteceu assim. O António claro que me dava algumas dicas, mas a pessoa majoritária, a partir de determinado tempo, que começou a dar mais dicas, foi sem dúvida a Mariza.

E, portanto, isso significa que já convidaste algum dos mentores para fazer parte do teu primeiro disco, Luís?

Não.

Ainda não. Mas já estás a pensar nele, que é o que se segue, não é? Começar a trabalhar no disco.

Sem dúvida que sim, mas o disco vai ter que ser uma coisa muito ponderada, porque fazer e gravar um disco tem que saber bem aquilo que se está a fazer. Não pode ser uma coisa feita à pressão, porque senão não vai ter nem metade da identidade, nem metade daquilo que se pretende.

Claro, e o teu grande objetivo agora também é poder descansar um bocadinho. Depois desta corrida de entrevistas, de todas as reações depois do concurso.

Sem dúvida que descansar é importante, meter as ideias no lugar, mas o meu objetivo maior nem é muito descansar, é o de trabalhar para conseguir chegar a novos sítios e conseguir trabalhar mais ainda, perceber bem o que é que sou, o que é que quero fazer a partir daqui e com quem é que quero trabalhar.

E a propósito disso, onde é que fica aqui, no meio disto tudo, o curso de Agronomia?

O curso de Agronomia este ano vai se continuar a fazer. Vou tentar concluir tudo nestes dois semestres que faltam. Depois, provavelmente terei que congelar a matrícula para iniciar o curso de música, que sinto que me vai trazer muita coisa boa, que me vai ensinar muito e isso vai ser muito útil na minha formação enquanto músico e enquanto artista daqui para frente.

E é ótimo não descurar a formação. Queria te perguntar também, Luís Trigacheiro. Estás nesta altura a começar um percurso musical, vences um concurso visto por milhões de pessoas. Tens essa ambição também de cantar, parto eu do princípio, para um vasto público em muitas salas, mas estás a começar numa altura em que praticamente não há concertos, estamos aqui com uma pandemia. Como é que é também começar uma carreira musical numa altura em que estamos numa situação destas para o meio artístico?

Nesse sentido, claro que gostava de trabalhar. Claro que gostava de dar concertos, como todos os artistas querem, mas também me leva a conseguir trabalhar e montar uma estrutura para que, assim que exista a possibilidade de começar a dar concertos, conseguir apresentar uma coisa, um projeto que as pessoas consigam e que gostem de ouvir. Portanto, vou ter sempre que dedicar grande parte do tempo a montar essa estrutura e não posso, nem me sinto preparado para pisar um palco agora e fazer um concerto de uma hora, uma hora e meia, porque não tenho matéria-prima para isso. Aliás, tenho, mas tem que ser limada, tem que ser trabalhada, tem que ser ponderada. Como digo, as coisas para serem bem feitas requer dedicação. Não é chegar e fazer. Isso não me vai levar a lado nenhum.

Certo, lá chegarás, um dia de cada vez. Luís, recordando aqui ainda as tuas atuações no The Voice, houve alguma que te marcou especialmente?

Existiram várias, mas há umas que me marcam mais. Falo das que me marcam nos pontos positivos, que foi a gala onde cantei com a Simone, sem dúvida que é um dos pontos de referência sempre, porque partilhei um palco com uma senhora que é um ícone na música portuguesa, é uma responsabilidade enorme partilhar e cantar uma música da Simone de Oliveira. Portanto, senti-me imensamente honrado. E depois gostei imenso de cantar aquela versão do "Meu Fado Meu". Acho que foi uma música que me deu mesmo gozo cantar.

E olha, Luís, nós temos todas as tuas atuações aqui e vamos ficar com o "Meu Fado Meu" para terminar esta entrevista. Parece-te bem?

Parece-me muito bem.

Luís, tudo a correr bem. Nós vamos conversando, obviamente, porque vamos ouvir falar de ti muito, imenso, por aquilo que nos foste também demonstrando. Portanto, desejamos-te um ano 2021 incrível e estás convidadíssimo a visitar-nos em estúdio quando tudo isto melhorar. Combinado?

Obrigado pelo convite.

Obrigada.

E bom ano também para vocês e muitos sucessos.

Bom ano, Luís, tudo de muito bom.

Muito obrigada. Luís Trigacheiro venceu o The Voice Portugal, a última edição. Foi o nosso convidado de hoje. E já agora também um beijinho novamente para o Manuel Leocádio, de nove anos. Enviou-nos várias perguntas, cantou também aqui um bocadinho. Portanto, Manuel, esta também é para ti.

E força nessas canções.

Exatamente. Vamos recuperar a atuação no The Voice, "Meu Fado". Luís Trigacheiro foi o convidado de hoje da tarde em direto.

Trago um fado no meu canto. Canto a noite até ser dia. Do meu povo trago um pranto

No meu canto, amor seria. Tenho saudades de mim, do meu amor mais amado. Eu canto um país sem fim, o mar, a terra, o meu fado, o meu fado, o meu fado, o meu fado, o meu fado. O meu fado, o meu fado, o meu fado, o meu fado, o meu fado. Trago um fado no meu canto, na minha alma bem guardado. Vem por dentro do meu espanto, à procura do meu fado, o meu fado, o meu fado, o meu fado, o meu fado. O meu fado, o meu fado, o meu fado, o meu fado, do meu fado.

Das boas memórias que o Luís Trigacheiro vai guardar do The Voice, foi ele o vencedor da última edição, foi também o nosso convidado de hoje. Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos on-line, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada!