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Esta música chama-se "Zappa of Arabia" e é o tema de abertura de "Qu'est-ce qui se passe?", o novo disco de Ramón Galarza, nosso convidado para a conversa de fim de tarde hoje. Ramón, bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por estar conosco.

Eu é que agradeço por se terem lembrado e me aturarem.

É um prazer. Tenho gostado de ouvir estas canções deste disco que fica amanhã disponível, para já, em formato digital. Terá depois, no início do próximo ano, uma edição física. É um registo de jazz fusão com alguns apontamentos do world music. Marca também o regresso aos trabalhos em nome próprio do Ramón Galarza, músico, produtor, compositor, já com mais de 40 anos de carreira, que passa até por diversos gêneros, formações, bandas e projetos. Tocou para vários programas de televisão. As suas participações nos festivais da canção também são muito conhecidas. Mas "Qu'est-ce qui se passe?", este novo disco, foi feito durante a pandemia. Ramón, estas canções refletem de alguma forma esse período? A pandemia serviu de inspiração ou estas canções têm outros significados e exploram outras inspirações?

Não, os temas já existiam antes da pandemia. A pandemia, infelizmente, só dificultou a nossa tarefa. Foi uma produção que demorou muito mais tempo que eu teria uma vez previsto, pelas contrariedades todas implícitas à situação que vivemos todos. Demorou mais tempo do que eu pensava, os temas já existiam. Só tenho pena de ter acabado este trabalho um pouquinho a querê-lo acabar, porque já tinha passado demasiado tempo.

Na banda do Ramón estão músicos de renome, como Bernardo Fez, o António Monteferro, o Diogo Santos e o Moisés Fernandes. Como foi a participação destes músicos na composição do disco? Eles também são co-compositores ou estes temas já lhe chegaram quase concluídos?

Não, estes temas, na grande maioria, são de minha autoria. Esta banda passou a existir no meu anterior trabalho, que se chama "Galarza", que foi editado, salve erro, em 2018. E daí decidimos constituir a banda, porque eu precisava de tornar mais orgânicos os temas que eu componho, porque faço muitas coisas sozinho. E foi uma grande mais-valia ter tido a sorte de ter podido contar com estes músicos que me rodeiam, que fazem parte hoje em dia do meu cotidiano, que sem eles este trabalho não teria sido possível com a qualidade que eu presumo que possa ter. Eu gostaria só de realçar que este é um disco da Ramón Galarza's Band. É a minha banda, não um disco meu, porque eu também tenho outros projetos que são só meus. Este é um trabalho de todos. Houve algumas participações em termos de composição, em dois ou três temas. Tenho uma parceria com o Bernardo Fez, que foi uma pessoa muito importante, que é o baixista da banda, mas também é o coautor do disco. E também foi o grande impulsionador, entre aspas, na aquisição dos músicos, e a quem eu devo muito.

São músicos também já com muita carreira e em várias formações.

São, todos eles. Exatamente.

Eu continuo a achar que o nome, para muita gente, de Ramón Galarza poderá ser associado aos festivais da canção, onde trabalhou com nomes que marcaram estes certames, mais nos anos 80. As Doce, por exemplo. Ramón, tinha esta curiosidade pessoal: não acha que deveríamos ter tido melhores resultados nessa década na Eurovisão? Tivemos belíssimas canções. Lembro-me sempre do playback do Carlos Paião, por exemplo, como é que não ganhou uma Eurovisão, mas o caso das Doces poderia ser outro que espelha essa minha frustração dessa década ser, na pop, tão produtiva e tão inventiva, e depois não ter tido resultados a essa medida, no que toca à Eurovisão.

Eu não queria menosprezar, de forma alguma, as minhas colaborações, e que foram várias e em variadíssimos tipos de participação. Fui produtor, fui compositor.

Das várias participações que teve em programas de televisão, Miguel, e eu acho que uma delas tu vais reconhecer, é esta aqui que continua a ser uma das minhas favoritas de sempre. Ora vê lá se te lembras disto. "Adoro a tua luz, a tua cor, o teu sinal, mas o que mais adoro em ti é o tal canal. Adoro a tua voz, a tua escrita, a tua aura, mas o que mais adoro em ti é o tal canal." O Ramón Galarza participa também como músico nesta parceria com o Herman José no "Tal Canal". Era uma das minhas curiosidades para esta conversa de fim de tarde com ele, perceber também como é que foi este período muito activo do ponto de vista criativo na televisão e no audiovisual português. Este tema do Herman José é apenas só um exemplo. Estávamos aqui a recordar o "Tal Canal" do Herman José, enquanto restabelecíamos esta ligação com o Ramón Galarza, nosso convidado nas conversas de fim de tarde. Ramón Galarza, estava a perguntar-lhe precisamente isso. Já falámos um bocadinho do Festival da Canção, mas também gostava de perceber a sua opinião sobre este novo formato de festival, com o convite para os novos compositores. Agrada-lhe e concorda com este novo formato?

Sim, estou de acordo. Acima de tudo, estou de acordo em que a RTP, já que assume promover esse certame, que o faça de uma forma mais abrangente, uma forma em que dê a conhecer às pessoas o que é que se está a passar. Foi uma coisa que eu por acaso senti bastante na pele. Parecia que era quase um frete que eles andavam a fazer, era uma obrigação. E eu sinto, apesar de já estar afastado dessas minhas colaborações, sinto que há um empenho maior. E isso com certeza que só vai ser benéfico para a indústria da música portuguesa.

E para os novos valores também que têm participado e que têm tido ótimos resultados. Queria voltar à parte da sua carreira dedicada também ao audiovisual e aos programas de televisão. São inúmeros em que participou e há pouco estava aqui com o Miguel Videra também a recordar este "Tal Canal" do Herman José. Como é que era trabalhar com ele nesta altura? Ele próprio com uma grande sensibilidade musical, não é?

Sim, eu lembro de ter ouvido falar no Herman porque ele era um bom baixista.

Essa parte não sabia.

Era. Isto conversas de café e do meio musical.

É muito engraçado.

Apesar de também já ser conhecido nos cafés por ser uma pessoa muito engraçada. Essa curiosidade teve sempre, acho eu, que nasceu com ele. O Tal Canal foi uma experiência maravilhosa para todos nós, actores, músicos, porque foi muito espontâneo. Acho que a espontaneidade foi um dos factores principais para que tivesse acontecido. Eu acho que foi um fenómeno no mundo da televisão. Logicamente, que o Herman tem um peso fundamental. Não só pela sua criatividade, como pela sua capacidade como actor. E ter conseguido conciliar uma data de personagens, de ambientes, que, de facto, acho que nós estamos agora a falar nisso, até porque teve alguma relevância.

Completamente, tantos anos depois. Desses trabalhos em televisão, tem algum que recorde com maior carinho ou com maior até orgulho da sua prestação musical?

Eu acho que sou uma pessoa bastante humilde e agradecida a tudo que fiz na minha vida. Portanto, eu acho que tenho o mesmo carinho por todos os trabalhos que fiz. É evidente que há uns que, pela sua grandiosidade ou pelo seu impacto, ficam mais na memória. E aí, talvez possa, já que falou em televisão, foi a produção de cinco séries da Rua Sésamo, que foi um trabalho enorme, um desafio gigantesco e que eu acho que teve frutos muito bons, porque, olhe, nem que seja para os meus filhos, aprenderam a ler a ver esses programas.

Esse lado didático era muito importante também na Rua Sésamo. E eu também sou da geração que apanhou a Rua Sésamo e era para mim obrigatório vê-la. Ramón, em 86 fundou os estúdios Tchatchatchá. Por lá gravaram grandes nomes da música nacional, os Chutos, o Fausto, Sérgio Godinho, Jorge Palma. Sente que, por causa disso, é também um espectador e em muitos casos também um participante activo do que foi a grande transformação da música nacional com a chegada da pop e a explosão do rock?

Não só por isso, porque eu quando decidi entrar nesse projecto, não foi pensado nesse aspecto, foi por necessidades até pessoais, logísticas. Eu tinha muito trabalho e precisava ter os meus meios de produção. Fui investindo, tornei o estúdio mais atraente e tinha um bom ambiente e uma boa onda. E acho que também por isso, não é porque fosse um estúdio extraordinário, mas as pessoas gostavam de lá estar, gostavam do ambiente e tive a sorte de poder partilhá-lo com muitos grandes fenómenos da nossa música e meus amigos. Mas não foi essa a questão, foi mais, porque quero ser sincero, eu precisava ter um estúdio. E felizmente que o criei e que passado quase 40 anos ainda está muito saudável.

E continuam a sair de lá produções que valem a pena. Vamos voltar aqui ao disco que fica amanhã disponível, "Qu'est-ce qui se passe?" Fiquei também curioso com este título. Por que escolheu esta expressão?

O que é que se passa na nossa existência? Ou seja, nós não somos uma banda de intervenção. O nosso foco é fundamentalmente a música que fazemos e que nos dá prazer fazer. Mas somos pessoas que estão atentas ao que se passa à nossa volta e achamos que podemos contribuir para uma chamada de atenção ao restrito público que poderá gostar da nossa proposta musical, visto que é bastante alternativa, de que existem muitas coisas que estão mal. E usando esta pequena ferramenta que é o disco sair, ser promovido, eu estar aqui a falar consigo, dar outras entrevistas, aparecer na imprensa, talvez voltem a fazer essa pergunta. E acho que há aqui muitas coisas que estão a passar à nossa volta que nos dizem o que é que se passa. Eu escolhi a versão francesa porque eu estudei a língua francesa desde os cinco anos, tenho uma cultura francófona. E houve um dia qualquer no estúdio, até com os meus músicos, e surgiu-me esta pergunta: "Mais qu'est-ce qui se passe?" E achei que era muito musical. Portanto, poderia ser uma chamada de atenção musical e ao mesmo tempo um alerta para este nosso quotidiano.

Há um filme, estava-me a recordar, Ramón, um filme francês que tem precisamente essa pergunta, mas ficou famoso também pela resposta, que é "Je sais qui tu vas bien". "J'ai ce qu'il cite au Fabien". Pode ser um segundo volume para este trabalho que agora chega amanhã.

É uma boa sugestão.

Só para terminarmos esta conversa, Ramon. Já percebi que este disco chega tarde, na perspectiva de ter sido feito há bastante tempo, destas canções já existirem há algum tempo, mas tem também a ambição de as poder apresentar com a sua banda, agora ao vivo, o início de 2022 poderá dar-nos essa possibilidade?

Esse é o nosso grande foco, porque, de facto, não só o prazer que nos poderá vir a dar poder tocar estes temas, porque eu tenho a sorte de estar rodeado de uns músicos extraordinários, não só somos ótimos executantes como somos muito amigos e sempre estamos juntos, é uma alegria. Infelizmente, hoje em dia, a única forma que o músico em Portugal, eu não digo só em Portugal, que o músico no nosso universo atual tem para poder ter alguma remuneração do seu trabalho é com os espetáculos. E ao vivo. Nós não ganhamos nada com os discos, nem com as plataformas digitais. São peanuts, como diria o Jorge. São peanuts, mas tem que ser, temos que fazer, temos que ter trabalhos para apresentar ao público. Nós gostaríamos que gostassem daquilo que fazemos.

Eu tenho gostado muito destas canções. Estamos a ouvir aqui em fundo a Doctor Spencer, que vai fechar esta nossa conversa, mas eu gosto muito daquela faixa de abertura, o Zappa Afaravia, ficou-me também no ouvido.

Foi uma homenagem, porque eu sou um grande fã do Frank Zappa.

Pois, já tinha percebido.

Foi uma pessoa que me marcou muito. E foi uma pequena homenagem que eu tentei fazer.

Bela homenagem. Ramon Galarza, nosso convidado nas Conversas de Fim de Tarde da Rádio Observador. "Que est ce qui se passe" chega amanhã, em formato digital, com a Ramon Galarza Band de regresso a estas composições, que são até um bocadinho difíceis de catalogar, devido a esta fusão, este piscar de olho em alguns temas à world music, mas que vale a pena descobrir a partir de amanhã e no início do próximo ano também com edição física. Aguardamos, Ramon, as datas de apresentação deste novo disco ao vivo. Foi um prazer falar consigo. Muitos parabéns, tem uma carreira invejável.

O prazer foi meu, muito obrigado.

Um abraço, Ramon. Um abraço.

Um grande abraço.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM. Na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.