Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Se você pensa que o samba é só alegria, pergunte a quem faz samba todo dia. O samba navega no mar da agonia, flutua num barco de hipocrisia. Martin da Vila mora no Leblon, Zeca Baleiro só come bombom. O Dudu Nobre nos passou um calote, o Samba Sem Fronteira nem tem passaporte. Martin da Vila mora no Leblon, Zeca Baleiro só come bombom. O Dudu Nobre nos passou um calote, o Samba Sem Fronteira nem tem passaporte. Se você pensa que o samba é só alegria, pergunte a quem faz samba todo dia. O samba navega no mar da agonia, flutua num barco de hipocrisia. Nelson Sargento não vai ao quartel e o Cartola nunca usou chapéu. Não é flor que se cheira, é rosa de Noel. Demônios da Garoa querem ir pro céu. Nelson Sargento não vai ao quartel e o Cartola nunca usou chapéu. Não é flor que se cheira, é rosa de Noel. Demônios da Garoa querem ir pro céu. Se você ainda pensa que o samba é só alegria, pergunte a quem faz samba todo dia. O samba navega no mar da agonia, afunda num barco de hipocrisia. Nelson Cavaquinho toca uma viola, Paulinho da Viola toca cavaquinho. Carlos Cachaça toma Coca-Cola e o rei do samba é o Zeca Pagodinho. Nelson Cavaquinho toca na viola, Paulinho da Viola toca um cavaquinho. Carlos Cachaça toma Coca-Cola e o rei do samba é o Zeca Pagodinho. E o rei do samba é o Zeca Pagodinho. E o rei do samba é o Zeca Pagodinho.
Muito bom. Felipe Vargas é guitarrista, é natural de Porto Alegre, é um dos membros do Samba Sem Fronteiras, que ainda destacamos aqui há pouco, a propósito do concerto no domingo, aqui no Jardim do Morro, em Vila Nova de Gaia. Felipe, muito obrigado por teres vindo à Rádio Observador.
Muito obrigado, é um prazer.
É um ótimo arranque de últimas horas de emissão, nada melhor que fazê-lo com este samba. Tinha uma pergunta pra te fazer, a propósito desta música que tu acabaste de cantar. O samba, de facto, não é tão contente nem feliz como às vezes pode parecer, apesar de ser muito dançável e alegre na sua sonoridade, tem alguns paralelos com o fado, naquela questão de lamento, muitas vezes, de vida difícil, de amargura.
Sim, eu acho que o samba é simplesmente uma outra alquimia com a tristeza. O fado faz um tipo de alquimia que culmina no lamento. O samba, da mesma dor, faz um outro tipo de alquimia, que talvez afetado por toda a miscigenação que o Brasil acolheu, que formou o Brasil, na verdade, acaba sendo uma espécie de lamento eufórico, jocoso, um lamento às vezes irônico. Muitas vezes a gente ri de um samba, porque acha ele engraçado, mas, na verdade, a única forma de reação que aquelas pessoas tinham naquele momento era fazer uma piada ou uma sátira com alguma situação que era muito opressiva e que eles não tinham como enfrentar diretamente.
Há uma forma mais leve e bem-disposta de encarar as dificuldades quando se canta em brasileiro.
Parece que sim. Eu acho que é aquela coisa de rir da desgraça. Tem um pouco disso. Eu acho que a dor e a sensação de fardo que a vida traz, que a existência traz, levando ainda mais em consideração as condições da América Latina, do Brasil, um dos jeitos de lidar com o fardo é esse, é rir da desgraça, é rir na cara da morte.
Felipe, fala-me um bocadinho deste projeto, como é que nasceu o Samba Sem Fronteiras? De resto, a cidade do Porto tem aqui alguns coletivos. Estava me a lembrar do Bamba Social, da Orquestra Bamba Social, o próprio trabalho que o Lu Argello tem feito, o Tiago Nacarato também participa desse coletivo. Esta é uma outra roda de samba, o Samba Sem Fronteiras, que partilha até alguns elementos com a Bamba Social, no caso do Lu.
A promiscuidade é muito forte na cena do samba.
Estou a ver que sim. Achei particularmente curioso que tenham sido dois projetos de brasileiros do Porto e que estão no Porto.
Na verdade, se a gente seguir uma linha meio sociológica, a gente começou junto. Essas rodas de samba começaram há uns oito, nove anos atrás aqui no Porto, ali no Espaço Compasso, ali pela baixa, no Rua.
Já se tocava música brasileira aqui no Porto, mas o repertório que a gente trazia era um repertório ainda mais antigo, daquele samba dos anos 40, dos anos 50, que é o chamado samba de raiz, entre aspas. E esse movimento já tinha acontecido no Brasil. Quando eu saí do Brasil, já tinham bandas fazendo resgate de sambas antigos em roda de samba, criando aquele revival da roda de samba como era nos anos 40, anos 50. De certa forma, o Samba Sem Fronteiras nasceu ali, há uns quase 10 anos, nesse ambiente, tocando em festinhas pequenas, pra pouca gente e insistindo naquele samba antiquado. Tinha gente que vinha: "Não, mas vamos tocar um pagode mais moderno." "Não, a gente não está no nosso repertório." A gente insistiu um pouco nessa vertente de samba e acabou que fomos nos mantendo inteiros, firmes e fortes até hoje. Outros grupos surgiram e além desses que você mencionou, existem dezenas já habitando a noite do Porto. Quer dizer, a roda de samba proliferou muito nesses últimos 10 anos.
E ainda bem, temos gostado desse ressurgimento. Acho que o samba está também passando por uma altura em que está permeável a mais gêneros e está modernizando-se de alguma forma também.
Acho que sim. Isso é até uma curiosidade minha, o que vocês veem no samba que o torna assim tão interessante, que faz tanto sentido aqui pras festas portuguesas?
Há alguma coisa mais alegre do que samba? Não sei, não me estou a lembrar. Quer dizer, o funk é bem dançável. Mas eu acho que não há nada tão efusivo como o samba. Acho que é isso. E acho particularmente interessante que isso esteja acontecendo numa região que tradicionalmente até é mais fria do que Lisboa, em termos de temperatura. Se bem que você é de Porto Alegre, não é bem daquele Brasil.
O frio não me assusta.
Exato. Já vamos continuar a falar com o Filipe Vargas, ele vai tocar-nos mais uma canção já daqui a pouco.
Simbora, nega, balançar só eu e tu. Lá no Baile do Peru. Lá no Baile do Peru. Simbora, nega, balançar só eu e tu. Lá no Baile do Peru. Lá no Baile do Peru. Lá não dá problema, é um samba tranquilo, só tem alegria. Não vai muita gente porque normalmente a bebida tá quente, a comida tá fria. A pista de dança vazia é tão grande, minhas pernas até dão nó. Com a roda de samba tocando forró. Ah, simbora, nega, balançar só eu e tu. Lá no Baile do Peru. Lá no Baile do Peru. Simbora, nega, balançar só eu e tu. Lá no Baile do Peru. Lá no Baile do Peru. Vamos lá que eu vou te apresentar o Peru, comandante da galeria, cuidando das mesas, tratando do som, vendendo bilhete lá na portaria. Ainda por cima é DJ, esse homem não cansa. E se der confusão, ele compra a briga como segurança. Vem simbora, nega, balançar só eu e tu. Lá no Baile do Peru. Lá no Baile do Peru. Simbora, nega, balançar só eu e tu. Lá no Baile do Peru. Lá no Baile do Peru. O samba rola de segunda a domingo, depois da missa, antes do bingo. Se chegar bem cedo, entra sem pagar. O Peru tá dormindo, não vai se importar. O ambiente é seleto, eu já reparei, quase sempre os mesmos, não vai mais ninguém. Nesses anos todos nunca perguntei quanto custa a cerveja, eu nunca paguei.
O Filipe, se faz esta festa sozinho, imagina o Samba Sem Fronteiras.
São cinco, não é?
São cinco.
Multiplica por cinco.
Exatamente. Eu gostava de voltar. Há pouco falaste do fado e do samba e da ligação entre as duas coisas. É curioso porque a nossa dor, nós não abanamos a anca quando sentimos dor. Mas os brasileiros fazem isso com o samba.
É, eu acho que talvez, de certa forma, porque eu acho que o lamento, isso é uma coisa meio filosófica, mas acho que o lamento precisa de um colo pra poder chorar. Ninguém chora sem colo, ninguém chora sem um amparo. Acho que quando tu não tens o amparo, não adianta chorar. Isso é uma visão filosófica, meio antropológica, que eu tenho dessa diferença de modo de lidar com a dor. O samba lida com a dor diretamente. E tem muitos sambas que são lamento, e tem muito samba, o samba tango, o bolero, que são mais lentos, mais lamentosos. Mas eu acho que em uma circunstância onde tu não tens Um colo, um acolhimento, alguma proteção pra poder chorar. Eu acho que às vezes é preciso buscar a energia da vida direto da dor mesmo.
Pra dar a volta por cima, como dizia a Elza Soares.
É, mais ou menos. E essas mensagens de levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, são arquetípicas dentro do Brasil. Apesar que tem o "quem não chora não mama" também.
Também.
Mas aí já tem uma certa sacanagem.
Muito conhecido aqui também.
Já tem uma certa sacanagem.
A nossa fadista Carminho diz que o fado canta a alegria com tristeza e o samba canta a tristeza com alegria.
É uma bela maneira de pôr as coisas.
Faz muito sentido.
E Carminho anda nos dois estilos.
É muito próxima do Brasil, com colaborações com a Marisa Monte, também.
Mas isso que ela fala é interessante, porque existe um certo prazer no lamento. Existe um algo de gostoso no falar da saudade.
Confortável.
Confortável, exatamente, mas existe. Então, acho que a gente é incrível como espécie, porque a gente arranja um jeito de achar bom até o que é ruim.
É verdade. Olha, vamos aqui olhar um bocadinho para o projeto Samba Sem Fronteiras. Há um disco de 2018.
Exatamente.
Este é um projeto muito mais de palco do que de estúdio?
Sim, a gente nasceu no palco. Na verdade, essa música que eu cantei, Baile do Peru, ela revela o ambiente onde a gente nasceu, que é esse baileco com pouca gente, sempre o mesmo.
Aqui no Porto.
Aqui no Porto, que acontecia ali no Espaço Compasso, no Rua, no Baixaria, o finado Baixaria, outros lugares.
Mas agora no São João tocaram em bailes bem maiores, não é?
Sim, mas isso no início. E o Samba Sem Fronteira surgiu daí, de roda de samba. E em algum momento, eu também não estou desde o início no grupo. Eu, apesar de já me apresentar aqui no Porto na mesma época e acompanhava a turma, acabei entrando no grupo em 2016. Mas nós já nos conhecíamos, já andávamos nos mesmos ambientes. Desde que eu entrei, em 2016, começou um interesse maior da gente tentar levar pra estúdio um pouco dessa essência do que a gente faz mesmo, da roda de samba. E o primeiro disco autoral foi isso. Teve um outro disco que foi gravado ao vivo, também, no Festival Andanças, se eu não estou enganado, agora os caras mais antigos podem me corrigir aí.
Não preocupe.
Mas se eu não estou enganado, foi no Festival Andanças que foi gravado um disco ao vivo, mas não só com canções do grupo. Como dentro do grupo o Luca, que é um exímio compositor, e eu também dou meus palpites, também tem o Francão, que é rapper. A gente começou: "Bom, vamos retratar então um pouco essa nossa situação num álbum". E aí fizemos um álbum em 2018. E trabalhamos ele bastante, ele lançou em vinil e tudo.
Está tão ligado ao Francão.
Está errado. Francão, desculpa.
Francão.
Então a gente trabalhou bastante esse álbum, fizemos ele em formato vinil também. E agora, em função do apoio que a gente recebeu na pandemia do Garantir Cultura, a gente conseguiu viabilizar a gravação desse novo disco, que vai sair agora nos próximos meses.
É, estamos ansiosos. Eu tinha essa dúvida, perdão, porque quando se lê um bocadinho da história do Samba Sem Fronteiras, fala-se muito do samba de raiz, que tu estavas a falar. Como é que é fazer esse gênero através de novas composições? Não deve ser fácil, porque é uma coisa que está tão lá atrás, e como é que se adapta isso pra novas composições? Estava me lembrando do "Gentrifica Samba", que é uma belíssima canção que vocês têm. Parece-me fazer bem esse exercício de pegar em assuntos que são bem mais atuais, mas que mantêm esse samba de raiz.
E nesse disco a gente faz essa autocrítica. Parece que essa pergunta foi encomendada, porque a música que eu ia tocar em seguida.
E foi.
A gente aqui, bastidores, funciona 1000%. Tem uma música do disco que chama Barracão Gourmet, e onde a gente fala: "a batucada já não incomoda, passo de bamba agora está na moda, malandro de apartamento tirou férias no terreiro e trouxe um vaso com a raiz do samba pra pôr do lado da TV, estilo favela pop, periferia em bairro nobre, meu barracão gourmet". Então, quer dizer, a gente mesmo faz essa autocrítica, porque a gente enxerga que essa ideia do samba de raiz, na verdade, é um souvenir. É uma ideia que a gente carrega, talvez buscando uma sensação de maior liberdade crítica, porque aqueles sambas mais antigos talvez fossem mais satíricos, tivessem uma liberdade de crítica social maior do que o samba mais comercial, mais moderno. Então, na verdade, a gente está, sim, mexendo com símbolos antigos e ancestrais, mas a gente, na verdade, está fazendo uma coisa que fala da atualidade. Eu não saberia te dizer se soa tão atual assim. Na verdade, nenhum de nós do Samba Sem Fronteiras somos realmente sambistas vindo da cultura do samba. A gente teve o samba na nossa volta, porque a gente é brasileiro e o samba está em todo lado, a cultura popular. E por isso a gente faz essa brincadeira de que o nome do grupo é Sem Fronteiras
É para vos dar essa liberdade também.
Para nos dar essa liberdade para a gente usar o samba só como uma espécie de passaporte. Na verdade, o samba é o nosso passaporte para andar pelo mundo.
Exato.
Essa é a verdade.
É uma desculpa.
Isso aí tem tudo a ver com o novo disco. Eu não sei se eu podia estar falando: "Francão, desculpa".
Ele vai ligar outra vez.
Desculpa, Cão.
Olha, eu tinha muita curiosidade para perceber essas novas canções, aguardo-as ansiosamente. Espero que enviem logo que possível para a Rádio Observador o novo single.
Com todo o prazer.
Queria olhar também aqui alguns concertos, que para além de domingo aqui no Jardim do Morro, já amanhã, sexta-feira, Samba Sem Fronteiras vai a Braga, que é aqui bem perto.
Exato.
É na Feira do Livro que está a decorrer. Como é que vai ser esse espetáculo?
Olha, na verdade, quem assistir os concertos do Samba Sem Fronteira agora, nesse clima de pré-lançamento, já vai começar a ouvir músicas do novo disco, eu também não devia falar isso, desculpa, Francão, a gente está ensaiando o novo trabalho já na estrada.
Boa.
Então, quer dizer, a gente gravou, está com ele ali a marinar. E é sempre bom ensaiar um pouco com o público, sabe?
É uma espécie de teste. Testar as canções.
Eu adoro. De certa forma, quem ouvir esses próximos concertos.
Amanhã em Braga.
Amanhã, depois no Jardim do Morro.
Domingo aqui ao final da tarde.
Como vocês aqui também já estão sentindo o sabor das novas canções que estão vindo.
Ótimo, vamos a uma última, era o que te pedia, Felipe Vargas, nosso convidado nesta conversa de fim de tarde, também aqui em jeito de despedida de Vila Nova de Gaia e da região do Porto, onde temos estado em direto nos últimos três dias. Agradecer a todos os que nos acompanharam também através de vídeo nas redes sociais d'O Observador, vídeos também aqui, cortesia do Rui Cavaco, em Lisboa. Ana Domingues esteve na produção da tarde em direto. Judite França, vamos encontrar-nos amanhã já no nosso estúdio em Lisboa. Já em Lisboa. Também com a Vanessa Cruz. Não podemos ficar cá, diz que não podemos ficar. Ficava mais um dia, agora juntava-se o fim de semana. Sim, lá vai tudo. Aproveitava, via o Samba Sem Fronteiras, lá para segunda estaria lá, bem cansado, mas muito feliz. Podemos propor, ainda vamos a tempo. Ainda vamos a tempo, vamos tratar disso. Felipe Vargas, mais uma para terminarmos estas nossas emissões especiais aqui também de Vila Nova de Gaia. Que melhor maneira de o fazer com o teu samba e do Samba Sem Fronteiras. Muito obrigado por teres vindo. Parabéns.
Maravilha, obrigado. O prazer é nosso.
Como é que se chama essa que vais tocar?
Essa que eu vou tocar agora é do disco anterior, que eu já entreguei muito do novo disco.
É, ok, Francão vai ficar chateado.
O Francão vai se chatear. E essa é uma música que quem quiser filmar e botar nas redes sociais, eu agradeço, porque o nome dela é "Tira a Mão do Celular". Tira a mão do celular. Tira a mão do celular. Tira a mão do celular. Sai da vida virtual. Hoje o samba está em alta. E você está em falta com o mundo real. Não é hora para trabalho. Vem sambar e mande o resto para a caixa postal. Tira a mão do celular. Tira a mão do celular. Tira a mão do celular. Sai da vida virtual. Hoje o samba está em alta. E você está em falta com o mundo real. Não é hora para trabalho. Vem sambar e mande o resto para a caixa postal. Está tocando o atabaque. E você no WhatsApp. Se esqueceu do tamborim. Para mexer no touchscreen. Largue seu smartphone. Peça a benção à dona Yvonne. Responda para mim. Ou você toca o tantã. Ou você toca o ecrã. O samba é assim. Tira a mão do celular.
Bom, obrigado, Felipe. Muito bom.
Obrigado.