Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

A estrada é uma excelente escola da vida e quanto mais nós viajarmos, melhor seremos como povo em conjunto.

Sejam bem-vindos às Conversas do Fim do Mundo. O viajante desta semana aproveitou a condição de desempregado para fazer das viagens um modo de vida e o seu ganha-pão. Já deu duas voltas ao mundo, a primeira sozinho e durante 14 meses, a segunda durante 285 dias com mulher e filha, que na altura tinha apenas cinco anos. Mantém em atividade há 18 anos o blog de viagens Alma de Viajante e é fundador da Associação de Blogueiros de Viagens Portugueses. Orienta cursos de escrita de viagens, leva grupos de viajantes ao Irão, país que já visitou 21 vezes e que diz ter o povo mais hospitaleiro do mundo, o que ele conheça. Chama-se Felipe Morato Gomes, tem 48 anos e vive em Matosinhos. Obrigado, Felipe, por teres aceitado o nosso convite. Vamos começar pelo princípio. Quando é que começaste a viajar e qual é a memória mais antiga que tens das viagens?

Olha, eu comecei a viajar relativamente tarde. Lembro-me de ficar embasbacado com as histórias do meu avô e da minha avó, que viajavam durante um mês, dois meses, juntavam as férias todas de verão e iam para a Amazônia, histórias do Transsiberiano, da Austrália. E eu lembro de ouvir isso sempre com um certo fascínio, porque em casa, com os meus pais, fazíamos viagens mais modestas. As primeiras memórias de viagens que eu tenho é ir para o Gerês, fazer campismo selvagem, tomar banho naqueles rios de água gelada. E foi uma escola muito interessante para essa vivência, a viajar em contacto com a natureza. Foi o princípio. Ainda longe de pensar que poderia viver das viagens.

E depois, em 2003, com 30 anos, ficas desempregado. Esse momento, que costuma ser um pouco traumatizante para a maioria das pessoas, tu viste nele uma oportunidade. Como? Conta-me essa história.

Foi das melhores coisas que me aconteceu, visto agora à distância.

Ficar desempregado?

Sim. Eu durante algum tempo dizia: "Qualquer dia despeço-me e vou dar uma volta ao mundo", mas na verdade, nunca tive coragem para dar esse passo. E por isso esse momento de perder o emprego foi quando me deu aquele clique, o clique que eu precisava para ir atrás desse sonho e concretizá-lo. E foi o que eu fiz, passei algum tempo a planear tudo e a juntar dinheiro e fui viajar. Fiz a primeira grande viagem da minha vida, que demorou esses tais 14 meses e que moldou muito do que eu sou hoje, quer pessoalmente, quer profissionalmente, porque as viagens de longa duração e em solitário são de facto muito transformadoras, trazem-te um autoconhecimento único, muito grande. E profissionalmente também, porque durante essas semanas, esses 14 meses, aliás, fui escrevendo crônicas semanais no jornal Público e o acordo muito rapidamente com o editor era simples: se o feedback for bom, continuamos, se o feedback for mau, arranjamos forma de matar a série de crônicas e tu prossegues a tua viagem.

E qual foi o feedback?

A verdade é que começamos com uma página e acabamos com quatro. E por isso quando eu regressei, uma das coisas que eu decidi, tomei algumas decisões importantes na minha vida, mas uma delas foi enquanto for possível, eu quero viver do trabalho que resulta da arte de viajar com a escrita, a fotografia.

Que países é que visitaste, continentes é que estiveste durante esses 14 meses?

Olha, essa viagem eu fui com as milhas que eu tinha da TAP, fui o mais longe que eu podia ir, que era até Moscovo, e portanto comecei a partir daí. E passei bastante tempo no Sudeste Asiático. Fiz o Transsiberiano, passei algum tempo na Mongólia, na China e depois ali no Sudeste Asiático, Vietname, Tailândia, Camboja, que para quem começa a viajar de uma forma mais independente, é uma área fantástica, porque é fácil estares sempre exposto a estímulos interessantes, mas nunca estás sozinho, porque há muita gente nova a viajar. E depois fui descendo até à Austrália, Indonésia, Timor-Leste, Austrália, e depois passei para o continente americano. Estive algum tempo na América do Sul, até que um dia me apeteceu vir embora e comprei um bilhete de avião.

E por que acabar a viagem ao fim de 14 meses?

Eu saí para essa viagem em junho ou julho de 2004. Eu disse: "No máximo no Natal, próximo Natal, estou em casa". Daria um ano e meio, no máximo. Mas essa sensação eu só tinha sentido uma vez, que foi num Natal que eu passei no Laos. Durante esses 14 meses, foi a única vez em que eu senti: "Apetece-me estar em casa". Foi a única vez. E a segunda vez que eu pensei isso foi: "Por que eu não volto?" Eu decidi: "Ok, isso deve ser um sinal que está na hora de regressar. Não vale a pena, a viagem não tem que ser um sacrifício, não tem que ser nada de pesado". Decidi apenas seguir esse feeling, dizer: "Ok, provavelmente está na hora".

Até à tua primeira volta ao mundo, não eras um grande viajante. Como é que foram as primeiras semanas longe de tudo? Foi um choque?

Não foi um choque, porque os estímulos são tantos, que às tantas a rotina passa a ser essa mudança diária ou quase diária de pessoas, de lugares. E não senti nenhum choque assim especial, exceto na primeira semana, talvez. Eu lembro de fazer o Transsiberiano logo no início da viagem e pensar Onde é que eu me estou a meter? Será que é mesmo isto que eu quero fazer? Na altura, não havia internet assim tão disponível. Tinha de ir aos cibercafés para poder falar com a família. Os telemóveis também quase ninguém tinha. Ou seja, a distância era um pouco maior ou mais relevante do que agora. Mas mesmo assim, tirando no início, nunca senti um grande choque.

E como é que foi o regresso de uma viagem de volta ao mundo, 14 meses longe de casa?

O regresso foi muito estranho, porque 14 meses depois encontrei as mesmas pessoas, os mesmos amigos, na mesma mesa de café, a falar sobre exatamente as mesmas coisas e a minha cabeça tinha visto, sentido, pensado mil coisas diferentes durante aquele tempo. Senti-me um pouco deslocado, confesso. Mas pessoalmente, eu pensei que ia chegar com uma vontade de ir logo embora. E aconteceu outra coisa curiosa, que foi sentir necessidade de ficar em casa muito tempo. Um mês, dois meses, já não me recordo.

Por quê?

Não faço ideia. Olhar para as minhas coisas, as minhas memórias, as minhas fotografias, não sei. O ímpeto de voltar à estrada não foi imediato.

Depois dessa volta ao mundo e depois de teres dado uma nova dinâmica ao teu blog, qual foi a grande viagem que realizaste a seguir?

A viagem seguinte com alguma dimensão foi só em 2010, quando fui para o Médio Oriente, no Curdistão iraquiano, no Líbano, na Síria, no Iraque, por aí, e acabando no Irão. Foi uma viagem também transformadora. Por quê? Porque nessa altura estava a nascer uma agência de viagens chamada Nomad e foi o elo de ligação para esta nova profissão, que entretanto surgiu nos últimos anos, de líder de viagens.

E agora levas grupos ao Irão, país que já visitaste 21 vezes. O que tem o Irão de tão cativante?

O Irão é diferente, o Irão é as pessoas. É evidente que há a arquitetura persa, há a cultura, há a história, há tudo isso. Mas aquele povo é tão genuinamente hospitaleiro, que é impressionante. Não há ninguém que eu conheça que tenha ido ao Irão, que não fique absolutamente fascinado.

Mas essa hospitalidade sente-se em quê, no dia a dia de um viajante?

Em tudo, desde as pessoas te interpelarem na rua a perguntarem-te: "O que é que estás a achar do Irão?" E dizem-te "Welcome to Iran" 500 vezes ou dizendo "I love you" só porque sim, só porque estás ali. É muito normal ires na rua e as pessoas convidarem-te para ir tomar chá, para ir à casa conhecer a família, a mulher e os filhos. Se calhar, ao fim de meia hora de conversa, estão te a convidar para deixares o teu hotel, ires lá ficar em casa deles. Mas o mais interessante é que é simplesmente curiosidade.

Curiosidade pelo viajante ou pelo mundo que o viajante transporta e representa?

Curiosidade pelas pessoas. E eu acho que o povo iraniano é muito culto e tem a perfeita noção da imagem que o Ocidente tem deles. Muito associado ao eixo do mal, aos terroristas, aquela coisa toda, que na verdade não corresponde nada à realidade. Então eles fazem um esforço extra para te provar que tu estás enganado. Percebes que essa imagem não corresponde toda à realidade. É um povo mesmo genuinamente hospitaleiro e que faz tudo para que te sintas bem no país deles.

Muito bem. Em 2012, Filipe, voltaste a fazer uma viagem, uma volta ao mundo, desta vez já casado e com uma filha de cinco anos. Foram 285 dias, portanto, 11 meses em viagem, longe de Portugal, em família. Foi fácil organizar esta viagem, realizar esta viagem?

A organização é exatamente igual. Nós é que complicamos. E o facto de ter um filho pequeno ajuda a que compliquemos as viagens, o planeamento. Eu cheguei à conclusão, a meio da viagem, que nós fomos muito conservadores no planeamento. Passamos muito tempo em ambientes de litoral, de ilhas, de praia, e rapidamente cheguei à conclusão de que quando os miúdos estão motivados, eles fazem tudo. Eles vão a museus, eles fazem caminhadas, o esforço físico não custa. Muitas vezes em ambiente urbano, era muito mais difícil motivar a fazer alguma coisa. "Vamos passear até não sei onde" e ao fim de 10 minutos podemos ir para casa. Mas em um ambiente de montanha, de parques, era muito mais fácil motivar a Inês a fazer coisas.

Que conclusões tiraste dessa segunda volta ao mundo com uma filha menor?

Percebi que uma criança não precisa de muito para estar bem. Precisa ou de estar com os pais ou de ter outras crianças para brincar. Nós estivemos sempre em lugares, principalmente mais pequenos, onde há muitas crianças, de todas as cores, com todas as feições. Era só uma criança. E tenho a certeza que essas sementes a vão tornar, no futuro, uma mulher muito mais sem fronteiras, tolerante, mais desenrascada.

Filipe, tu já levas quase 20 anos como viajante profissional, vives do teu blog, o "Alma de Viajante". Hoje há cada vez mais gente a fazer o que tu fazes, portanto, há mais concorrência. Se se vive do que se publica, tu sofres da pressão de publicar, ou não?

Não sofro a pressão de publicar. Haver mais gente a escrever sobre viagens, eu acho que é muito positivo. Nos últimos anos, as viagens democratizaram-se imenso e eu acho que isso é extraordinário, porque de facto a estrada é uma excelente escola da vida e quanto mais nós viajarmos, melhor seremos como povo em conjunto. Por isso eu acho extraordinário que mais gente tenha a oportunidade de viajar e se partilharem as suas experiências, melhor ainda. Eu tenho um método de trabalho que eu vou escrevendo sobre as viagens que vou fazendo e tento visitar um misto entre destinos que eu sei que podem ter interesse para quem me lê, ou seja, que podem trazer algum rendimento ao blog, e misturar isso com destinos que eu sei que ninguém vai, mas que eu quero conhecer. Escrevo na mesma, partilho e incentivo outras pessoas a conhecerem, por exemplo, o Cazaquistão ou coisas desse gênero, mais fora da caixa, que não têm escala para ser rentável se eu olhasse para um blog só como um negócio. Não, aquilo que eu faço é genuinamente partilhar as minhas experiências de viagem e tentar ajudar outras pessoas a viajar mais e melhor.

Ter de publicar com alguma regularidade, porque hoje em dia é preciso estar presente nas redes sociais, comunicar diretamente com o público, não retira prazer à viagem?

Eu penso muitas vezes nisso. Não no fato do ter de publicar, mas no fato de tu viajares com o objetivo de partilhar, até que ponto isso condiciona a própria experiência da viagem. E condiciona. Isso é uma coisa que me chateia. Perde um bocado a pureza do viajar por viajar. Comparando, por exemplo, essa primeira grande viagem que eu fiz, essa volta ao mundo, o método de trabalho era o seguinte: eu vivia uma semana de experiências, chegava à terça-feira, olhava o que aconteceu nessa semana e decidia escrever a posteriori, em função do que tinha acontecido. Agora, não. Agora eu vou para um destino e já tenho na cabeça aquilo que eu quero escrever, mesmo que depois apareçam outras ideias. Isso muitas vezes chateia, mas eu acho que é o preço a pagar por viver desta partilha de experiências.

Tu tens um código de ética muito bem definido e que é público. Não aceitas viagens pagas nem posts patrocinados nas redes sociais. Queres explicar-nos o porquê desta decisão e o que é que ganhaste com ela?

Por norma, não aceito press trips, por exemplo, muito pelo fato de eu não gostar de viajar com seis, sete, oito, 10 jornalistas, porque tenho a noção que as experiências não são tão únicas e genuínas, os conteúdos que eu consigo partilhar não são tão diferenciadores do que quando viajo sozinho, como é natural.

Isso quer dizer que aceitas, por exemplo, uma viagem paga de uma agência de viagens?

Não, o que eu ia dizer é: por norma, eu não aceitava, mas já aceitei viajar em comitivas de jornalistas e depois produzir conteúdos a respeito. O problema deste tipo de viagens é quando alguma coisa não corre tão bem, tu tens aquele dilema moral de: "E agora, o que é que eu faço?" A minha postura sempre foi: eu escrevo aquilo que eu sinto, para o bem e para o mal, porque eu acho que o meu compromisso tem que ser com os leitores e não com quem eventualmente pagou a viagem. Já tive alguns dissabores por causa disso, mas consigo viver bem dessa forma. Não conseguiria viver escrevendo mentiras ou suavizando verdades só porque alguém te está a pagar a viagem. Os posts patrocinados são mais complicados de gerir, porque a tentação é muito grande. Eu já fiz e faço esporadicamente, quase sempre de coisas que tu experimentaste, coisas que tu usas e recomendas, ou de empresas que tu recomendas. Os posts patrocinados actualmente podem ser de muita ordem. Não têm que ser sobre produtos, pode ser um site, um comparador de preços de voos a dizer-te: "Olha, partilha aí a tua experiência sobre a utilização do nosso serviço e nós pagamos-te X". Eu acho que o importante é avaliares caso a caso, mas tendo em mente que o teu compromisso é com os leitores. E por quê? Era a tua pergunta inicial. Porque eu acho que a credibilidade demora muito a construir, demora muito a criar, mas é facilmente destruída. E por isso eu acho que pensando no sucesso a longo prazo de um projeto como o "Alma de Viajante", tu tens que ter muito cuidado para não cometer esses erros. Porque uma das coisas mais gratificantes é as pessoas dizerem-te: "Olha, Filipe, obrigado por aquelas dicas. Obrigado, recomendaste aquele lugar e eu fui lá e de fato foi espetacular". Isso é muito gratificante e só consegues se te mantiveres fiel aos teus princípios.

O que nos leva à pergunta do milhão: como é que se pagam as viagens, então?

Há várias formas de rentabilizar um projeto de viagens online. Desde logo, os programas de afiliados. Tu escreves um post sobre Fernando de Noronha e dizes: "Olha, Malta, eu estive neste hotel ou nesta pousada e recomendo por isto, aquilo e aqueloutro. Se tiverem um orçamento maior, este e aquele outro também são muito elogiados". E direcionas esses cliques para centrais de reserva que, gerando alguma reserva, te pagam uma pequena comissão. Ou seja, para o leitor é exatamente igual, para os hotéis é exatamente igual. A central de reservas, tipo o Booking, por exemplo, é que te paga uma pequena comissão. Ou seja, eu dependo literalmente dos meus leitores para ter rendimento com o blog. No caso dos programas de afiliados que eu estava a falar, podem ser ligados à hotelaria, ao rent-a-car, à aviação, o que quer que seja. É possível viver de um blog sendo simultaneamente ético. É uma questão de escala, como é evidente. Não temos muitos grandes blogs de viagens em Portugal, em português, porque somos um país relativamente pequeno. Felizmente, escrevemos numa língua muito falada em todo o mundo, facilmente chegamos ao público brasileiro, por exemplo, e é isso que nos permite dar alguma escala aos nossos projetos.

Estamos à conversa com o Filipe Morato Gomes, blogger e líder de viagens. Já a seguir, "Álbum de Viagens". Filipe, dos cerca de 100 países que já visitaste, há algum objeto que tenhas trazido e que guardas uma história especial?

Eu não faço compras.

Não?

Não. É muito raro eu comprar coisas, mesmo pra família. Detesto o ato de comprar, de acumular, não gosto. Tenho um objeto que não foi comprado, foi uma oferta, e muitas vezes são os que têm mais significado. Durante essa volta ao mundo em família, lembro de parar em Vanuatu.

No Pacífico.

No Pacífico, na Ilha de Tanna, de visitarmos uma aldeia muito humilde, em que as pessoas se vestiam quase nada. Os homens usavam aquele pau a tapar o pênis e pouco mais. Não sei por quê, criei uma empatia com o chefe da aldeia. Ficamos ali numa conversa quase de surdos, porque eu não falava a língua deles, eles não falavam nenhuma língua que eu entendesse. Isso pra dizer o quê? Que no final, com os olhos quase umedecidos, ele ofereceu-me um colar com um dente.

Um dente de?

Nunca soube. Não era um dente humano, era uma espécie de um canino. Parecia um canino de um lobo, por exemplo. Mas o que é engraçado é que aquilo me tocou bastante e hoje esse colar ainda está em uso. É a minha filha Inês que volta e meia pega nele e o coloca ao pescoço.

Estamos à conversa com Filipe Morato Gomes, primeiro blogger de viagens português. Na segunda parte, vamos saber que países ainda falta visitar e se não há duas sem três. Até já. Bem-vindos à segunda parte de "Conversas do Fim do Mundo". Estamos à conversa com Filipe Morato Gomes, primeiro blogger português de viagens. Filipe, já realizaste duas voltas ao mundo. Para quando a terceira?

Essa é uma pergunta que nós fazemos a nós próprios muitas vezes, porque agora temos outro filho.

E a resposta?

Ele está fazendo cinco anos, e o momento é agora, antes de ir pra escola. Seria no próximo verão. Provavelmente, não vai haver uma volta ao mundo assim tão grande, mas eu gostava de lhe proporcionar uma experiência que fosse de alguma forma semelhante. Provavelmente o que vai acontecer é, no próximo verão, vamos arranjar 10, 11, 12 semanas, todas as férias de verão possíveis, para ir para alguma zona do globo para poder proporcionar ao Tiago uma experiência semelhante à que a irmã teve.

Ele pesa?

Eu estou a criar uns monstros em casa.

Isso quer dizer o quê?

Com esta idade já viajou muito, adora viajar, está sempre a pedir pra viajar. Quando eu ligo, estou em algum lado, diz: "Pai, eu quero ir pra esse país onde tu estás. Pai, eu quero ir ao Brasil. Pai, eu quero ir ao Japão". Ele com cinco anos já tem esse gosto pela viagem. Por isso acho que as sementes também estão a ficar já no pequenito.

Filipe, que país é que ainda falta visitar? Que projetos é que tem para o futuro como viajante?

Olha, eu ando há muito tempo a dizer que gostava de escrever outro livro. Esse é o meu grande projeto adiado, e adiado já pra aí há uns bons 10 anos. E sei exatamente o que é. Gostava de descer a costa leste da África, seguir um pouco os passos do Paul Theroux, e fazer um livro de crônicas de viagem, porque as viagens longas são aquelas que me dão mais prazer fazer. É quando tu sentes, de facto, que estás ao ritmo de viajante, sem grandes planos, que tens tempo para o imprevisto. Coisas que em viagens de duas ou três semanas, tu sais daqui com tudo muito mais planeado. Aquele condicionamento que falávamos há pouco, do fato de querer partilhar, condiciona a viagem. Nas viagens longas, isso não acontece tanto. Mas depois tenho alguns países no topo da minha lista de desejos.

Vamos lá.

Desde logo, Paquistão. Quero muito ir ao Paquistão, não só por toda a beleza natural, mas porque uma vez alguém me disse: "Se tu falas da hospitalidade dos iranianos é porque nunca foste ao Paquistão". E essa frase ficou-me aqui a martelar na cabeça. Quero muito também ir ao Butão. Nunca fui nem ao Nepal, naquela zona estou em falha. Antártida, quero ir ao Equador, nunca fui ao Equador. Enfim, o mundo é tão grande. Eu acho que quanto mais viajas, mais percebes que não conheces nada. Há cada vez mais coisas que queres conhecer. Já não é o país, é a região do país. Por isso, há muito para viajar.

Filipe, qual foi a viagem mais surpreendente que fizeste até hoje, ou o país ou o destino mais surpreendente? Sabemos que gostas do Irão, que tens uma simpatia muito grande com o povo iraniano, mas qual foi aquele país que te fez sentir esmagado?

Do ponto de vista da beleza natural, a Mongólia surpreendeu-me muito, mas talvez a ilha sul da Nova Zelândia seja esmagador desse ponto de vista da beleza. Fiz uma viagem numa autocaravana e tu davas uma curva e estavas num sítio absolutamente incrível. Davas outra curva, paravas. E às tantas já nem paravas, estavas em sítios inacreditáveis, mas era só mais um. Era tudo tão bom, tão lindo. As montanhas, os lagos, a neve. Indescritível. Senti algo parecido quando mais recentemente estive na Islândia, que é outro país que para quem gosta de natureza é brutal. Mas como eu sou uma pessoa de pessoas, o Irão está de facto no meu coração, a Mongólia também. E há outro país onde eu senti uma hospitalidade especial, que foi na Colômbia. Já há uns anos estive lá. Só estive uma vez, mas acho que eles vivem com um certo sal e pimenta muito interessante.

Reparei no teu site que falta carimbar o Canadá.

Falta. Nunca fui ao Canadá.

Por quê? O teu mapa-mundi do site "Alma de Viajante" é a falha mais notória. O Filipe nunca visitou o Canadá.

Nunca esteve nas prioridades, o que é até um bocado estranho, porque o meu irmão estudou em Vancouver durante quatro anos, esteve a fazer um doutoramento e eu nem nessa altura acabei por visitá-lo. O Canadá, Vancouver, os parques naturais, mesmo o Yukon lá no norte, para ver os ursos polares. Não aconteceu ainda, não tem nenhuma justificação.

Houve algum sítio que te fez sentir medo ou vontade de cancelar a viagem?

Não, nunca.

Nenhum destino?

É engraçado, várias vezes me perguntam coisas sobre a segurança em viagem. E eu só fui assaltado uma vez e foi em Portugal, entendes?

Agora foi onde?

Em Braga. Não quero dizer que Braga seja uma cidade insegura.

Despeito a Braga.

Não, mas já fiz algumas coisas um pouco irresponsáveis, se quiseres. Por exemplo, fazer um safári no parque Etosha, na Namíbia, com um carro pequeníssimo. Estava acompanhado por outro amigo, era tipo um Volkswagen minúsculo. E por algum motivo, ele queria fotografar os elefantes e parámos o carro à frente dos elefantes com a porta aberta. Ele saiu, coisas desse gênero. Ou então em Vanuatu, ver as explosões do vulcão Yasur, que é uma coisa absolutamente inconsciente, mas que se organiza localmente. É uma fonte de receita fazer essa excursão, por assim dizer, até ao topo da cratera do vulcão. E tu estás ali e vês a lava expelir. Esse tipo de coisas, sim, já fiz algumas coisas inconscientes para ter experiências. Agora, medo ou receio de segurança em algum sítio, não. O mundo é seguro, as pessoas são boas em toda a parte. É evidente que é preciso ter algum bom senso, um pouco de sorte, talvez, mas sem dramatizar, porque senão não saíamos de casa. Eu tenho muitos leitores brasileiros do "Alma de Viajante" que me perguntam: "Olha, o destino X é seguro?" E se calhar estão a me escrever de São Paulo, que é das cidades onde a taxa de homicídios é maior. Por isso é tudo muito relativo.

Filipe, estamos quase no final do programa. Vamos fazer check-out?

Bora lá.

O check-out consiste em completar seis frases. Preparado?

Sim.

Na minha mala vai sempre...

Havaianas, calções e claro, computador portátil e máquina fotográfica.

A viagem mais difícil de realizar até hoje foi...

Não tenho assim nenhuma que me recorde, não sei.

A viagem com mais peripécias foi...

Na Mongólia. Muitas peripécias com um grupo. Safamo-nos, mas podia ter corrido muito mal.

Qual é a história?

Ficámos atolados com a carrinha num rio. A carrinha ficou imobilizada. Podíamos ter ficado dentro do rio, mas o resultado final foi que tivemos que acampar um dia e meio à espera de ajuda e de conseguirmos sair de lá.

A refeição mais estranha que comi...

No Laos. Comi uma vez asas de morcego.

Asas de morcego?

Parece frango.

Sério?

Sério, sim.

Mas qual é o contexto dessa refeição?

Íamos num barco descer o Mekong até Luang Prabang e estava um senhor ao lado que ofereceu: "Quer provar?" Eu: "Claro, sim". E provei. Depois de eu provar é que ele disse o que era. Asas de morcego. Mas sabe tal e qual a galinha.

E qual foi a reação depois de saberes que tinhas acabado de comer asas de morcego?

Nada, soube bem.

Filipe, a recordação ou experiência de viagem mais cara até hoje?

Talvez nadar com tubarões-baleia na Austrália. Paguei muitíssimo por aquilo, mas valeu a pena.

Tubarões-baleia que são carnívoros ou não?

Não. São uns bichinhos grandes, mas inofensivos.

Herbívoros, portanto. Filipe, gostavas de viajar com

Gostava de viajar com os meus netos, se tiver. Se tiver netos, acho que seria uma ideia interessante viajar com eles.

Estivemos à conversa com o Filipe Morato Gomes, blogger de viagens. Regressamos para a semana com mais um viajante. Muito obrigado, Filipe.

Obrigado.

Cabe-te a ti fechar o programa. Que música trouxeste?

Vamos ouvir Chan Chan, do Buena Vista Social Club. Eu gosto muito do world music e este projeto do Ry Cooder é um bom exemplo de world music, de como se pode pegar em músicos até à altura pouco conhecidos e dar-lhes uma exposição mundial.

Buena Vista Social Club a fechar o programa desta semana. Se vai viajar, publique as fotografias da sua viagem no Instagram usando a hashtag Conversas do Fim do Mundo e também a hashtag Rádio Observador. As melhores imagens serão destacadas no Instagram do Observador. Boas viagens.