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Sejam bem-vindos. O viajante desta semana fez uma pausa na vida e foi literalmente dar uma volta a África com amigos durante meia dúzia de meses num veículo todo o terreno. Essa viagem, em 2017, resultou depois num livro intitulado, claro, "Volta a África". No ano seguinte, o nosso viajante regressou ao continente africano para uma outra viagem, desta vez de mochila às costas. Chama-se Gabriel Sarabando, é fotógrafo e líder de viagem em Marrocos. Gabriel, obrigado por estares nas Conversas do Fim do Mundo. Bem-vindo.

Olá, obrigado. Obrigado antes mais pelo convite. É sempre um honor e um prazer poder partilhar e falar sobre viagens. É muito importante falar sobre esta viagem da volta a África, principalmente porque foi uma paragem na minha vida que eu precisava.

Sim.

Um momento em que eu pus uma licença sem vencimento no emprego onde eu estava. Eu senti a necessidade de uma mudança na minha vida.

O que é que procuravas, Gabriel?

Eu procurava principalmente reencontrar-me. Precisava de perceber o que era aquilo que eu queria fazer da vida, porque eu adorava fotografia, mas tinha um emprego estável, tinha aquela estabilidade que toda a gente procura no emprego, mas queria arriscar e tinha medo de arriscar, porque toda a gente me dizia que era um erro e que eu não devia fazê-lo. Depois de eu tirar essa licença sem vencimento e andar seis meses em África, eu cheguei à empresa onde eu estava e despedi-me.

Uau!

E foi nesse ano que eu comecei a trabalhar como fotógrafo e abri o meu estúdio.

O que é que tu fazias, Gabriel?

Eu era chefe de uma equipa, de uma linha de produção, que produzia esquentadores. Tinha um horário que era bom, que trabalhava das 18h às 14h, portanto, eu tinha sempre a tarde livre pra trabalhar na fotografia e consegui durante alguns anos ter esse equilíbrio, esse balanceamento, mas cheguei a um ponto em que já não aguentava mais, não era aquilo que eu queria. Aquele emprego não me fazia feliz de todo e eu queria era arriscar na fotografia, só que tinha medo de dar o passo seguinte.

Então podemos dizer que essa viagem a África foi um sucesso.

Foi, sim. Nesse aspecto, foi totalmente.

Conta-me a viagem. Começaram por onde? Quem eram os teus companheiros de viagem? Como é que nasceu esta ideia de partir para África durante seis meses num todo o terreno?

Esta viagem nasceu num projeto de um amigo que está em Luanda, que é o Vítor Moniz. O desejo dele era fazer a rota Lisboa-Luanda de mota. Mas depois começou a pedir patrocínios pra fazer essa rota e começou a ver que havia a oportunidade de fazer um projeto grande, um projeto maior e uma coisa mais interessante. Até que eu me cruzei um dia na vida dele e ele convidou-me pra fazer parte do projeto. E disse-me: "Olha, há um rapaz de Coimbra", que eu não conhecia, passei a conhecer o Tiago nessa viagem. Ele disse-me: "Olha, o Tiago vai arrancar nesta viagem comigo e se quiseres juntar-te a nós é bom, porque dividimos custos da viagem", porque em termos logísticos ainda é um bocado dispendioso. Nós tivemos que gastar muito dinheiro em gasóleo, em vistos, etc., e em despesas de manutenção do carro. Eu fez o convite pra fazer parte do projeto, eu achei superinteressante, porque foi aquele momento da minha vida que eu precisava daquilo e eu achei que era a hora certa pra ir. E então eu telefonei imediatamente ao Tiago, disse: "Epá, eu não te conheço, mas estou disponível pra arrancar contigo amanhã, num carro, pra ir pra África, seja para onde for. Eu preciso de sair daqui, eu preciso mesmo disto, quero fazer essa viagem". E ele, ao início, não acreditou que eu estava disposto a isso, porque ele não me conhecia. Começamos a falar dos vistos, passaportes, começamos a tirar vistos dos países que precisávamos de tirar vistos, porque há alguns que é possível na fronteira, há outros que não é preciso visto, é só um carimbo. Começamos a tratar em Portugal de todos os carimbos que necessitávamos para passar algumas fronteiras, como o Congo, Angola, o Benim. Há países que exigem visto antecipadamente. Foi uma luta enorme, mas foi uma luta que valeu a pena, porque havia ali alguns vistos que tinham validade de 30 dias e nós tínhamos pouco tempo pra tirar 14 vistos e percorrer aqueles países antes do visto terminar. Era um desafio enorme e há pouca gente a fazer essa viagem precisamente porque tem essa grande dificuldade. Já pra tirar o próprio visto é difícil, e depois passar essas fronteiras de carro também é algo complicado. Nalgumas fronteiras é algo complicado.

E qual foi o itinerário dessa viagem, Gabriel?

Nós passamos o Cabo de Gibraltar pra Marrocos, passamos Marrocos, Mauritânia, fizemos um desvio pelo Mali, porque lá está a história dos vistos, o tempo era curto, e então nós cortámos pelo Mali e falhámos toda a Guiné, toda a costa da Guiné até à Costa de Marfim, que foi a tal viagem que eu fiz mais tarde com o meu irmão gêmeo. Nós atravessámos o Mali, tivemos montes de peripécias no Mali, um país que está em guerra civil desde que se tornou independente, portanto, nós tivemos montes de peripécias no Mali.

Que tipo de peripécias, Gabriel?

Por exemplo, uma noite em que nós dormimos numa estação de polícia, que eles nos fizeram uma operação stop, já era de noite, perguntaram onde é que nós íamos e nós mostrámos os passaportes, os documentos, estava tudo bem. E depois, como já estava escuro, perguntamos se podíamos dormir ali, eles disseram: "Sim, sim, podem dormir aqui em qualquer lado". Então nós montámos a tenda e dormimos ali mesmo. E numa dessas noites, pra mim foi uma das primeiras noites em África, que foi extremamente difícil, mas teve episódios engraçados, porque eu durante a noite ouvia passos à volta da minha tenda e tive algum receio. Até ao momento em que eu decidi e ganhei coragem de abrir a tenda e percebi que eram cabras e burros à volta a passear na vila Havia cabras, burros, galinhas, camelos, tudo a passear à volta da tenda e eu depois percebi que não precisava de ter medo e ficou tudo bem. Essas primeiras noites foram terríveis, eu perdi peso, nós comíamos mal. Quando digo comíamos mal, havia pouca coisa para comer, porque o orçamento era curto, nós preferíamos comer na rua, street food, e a maioria das vezes era sandes com ovo e pouco mais. E ainda no Mali, numa dessas noites seguintes, nós montámos também a tenda numa estação de serviço. No dia seguinte, de manhã, eu abri a tenda e passaram centenas de carros militares com tanques blindados, capacetes azuis da ONU, e eu disse ao Tiago: "Bem, vamos desaparecer daqui, porque este não é o sítio certo para estar. Até aqui correu tudo bem, mas eu não quero que corra mal. Portanto, vamos desaparecer daqui, porque não é o melhor sítio."

E terminou ali a aventura maliana, ou continuou?

Do Mali, terminou ali. Mas é importante dizer que, apesar de o país estar em guerra civil, nós fomos extremamente bem recebidos pelos populares. As pessoas africanas, a nível geral, são tão fantásticas, nos recebem bem em todo lado, as pessoas deixam de comer, se for preciso, para nos dar. Nós fomos extremamente bem recebidos. Havia aquele receio, porque há ali uma linha de guerra, há ali o Daesh, há ali militares, há ali pessoas que são capazes de matar, mas isso não tem nada a ver com a população dos países. A população é fantástica, é de um carinho enorme e vale a pena visitar o Mali.

E depois do Mali, seguiram por onde?

Depois do Mali, descemos para o Burkina. No Burkina, a nossa intenção também não era gastar muito tempo, até porque tínhamos pouco tempo, que a nossa ideia era atravessar o país. Tivemos um episódio já perto da capital, nós parámos também numa estação de serviço, abastecemos o carro e parámos para descansar. Nem nos apercebemos de que do outro lado era uma estação de polícia. Eles abordaram-nos durante a noite, perguntaram o que é que estávamos ali a fazer. E nós dissemos que estávamos apenas a atravessar o país, que estávamos a fazer uma viagem. Só que eles não entendem o conceito de viagem. Para eles não existe turista, eles não sabem o que é um turista, não existe o conceito de viagem. E então perguntaram-nos o que é que levávamos no carro e pediram para abrir o carro. Foi pior ainda, porque o carro estava cheio de patrocínios. Tínhamos "t-shirts", bonés, canetas, sei lá, tudo e mais alguma coisa que os patrocinadores nos deram para nós distribuirmos em África. E eles quando abriram o carro, perguntaram se aquilo era para vender. E nós: "Não, não é para vender, nós vamos para Angola de carro, só queremos cruzar o país e nós só queremos viajar." E eles: "Mas não pode ser, vocês são negociantes, vocês vão vender isto onde? Vocês agora vão ter que pagar uma multa, vocês não transportam roupa." E foi difícil, porque o meu inglês é muito fraco, o meu francês é muito fraco e eles não falavam inglês. Foram ali três horas de luta a tentar explicar-lhes que nós só estávamos a atravessar o país, só estávamos a viajar, porque eles depois diziam: "Mas se vocês queriam ir pra Angola, podiam ter ido de avião, não precisavam de ir de carro." Para eles não fazia sentido, percebes? Então foi demasiado complicado explicar-lhes porque nós queríamos fazer uma viagem, porque eles não entendem. Para eles, viajar de carro é fazer negócio.

E como é que acabou essa tensão?

Felizmente, acabou tudo bem, porque nós tínhamos muita paciência, estávamos extremamente calmos. Já estávamos a conhecer África, já sabíamos que tínhamos que manter a calma. E mantivemos a calma, sempre a explicar o mesmo, que estávamos só a viajar, que não estávamos ali para criar problemas. E no final acabou tudo bem. Eles lá fecharam o carro e mandaram-nos seguir. Mas isto aconteceu também porque uns dias antes tinha havido um atentado na embaixada francesa e um maluco qualquer decidiu matar umas quantas pessoas. Portanto, eles estavam ali num clima de tensão e acharam que se calhar podíamos ter ali algum perigo.

Olha, viajar em África é fácil?

Viajar em África é extremamente fácil. Primeiro, é barato. E depois passa por perguntar às pessoas, porque nós temos uma coisa na Europa que é um bocadinho diferente deles, é cultural, que se formos à procura de um café, nós vamos à procura de um logotipo ou vamos ao Google Maps. Em África, basta perguntar, as pessoas levam-te ao café. É tudo muito simples, basta parar na rua e perguntar. Se pararmos na rua e pedirmos: "Olha, quero um gelado." Alguém vai-te buscar um gelado, porque as pessoas são extremamente atenciosas e resolvem. Tudo é muito simples, é muito prático. E é tudo muito barato. Comer na rua e viajar de transportes públicos é extremamente barato.

África correspondeu às tuas expectativas, Gabriel?

Não, ultrapassou completamente.

Ultrapassou em quê?

Porque olha, primeiro, viajar tem a ver com pessoas e as experiências e as ligações que crias com as pessoas em África são brutais. Aquilo que faz o continente africano mágico são as pessoas, porque paisagens existem no mundo inteiro, mas as pessoas africanas, na sua essência, são mágicas.

Como assim? Explica-nos melhor essa ideia.

As pessoas são genuínas e na casa de uma pessoa comem quatro ou cinco, ou seis, ou 20. As pessoas partilham tudo, sem pedir nada em troca.

Mas é por necessidade?

Não, eu acho que é só mesmo por amor ao próximo. As pessoas dão com uma facilidade incrível. E as pessoas que têm menos, são as que dão mais. E a partilha em África, não só a partilha de experiências, como a partilha de comida, a partilha de amizades. Eu ganhei amigos pra vida em África.

E comunicas com eles?

Sim, alguns comunico. Eu tive um amigo que ganhei na Tanzânia, que foi curioso, porque nós estávamos a chegar à Tanzânia de carro, já tínhamos dado a volta quase toda. Estávamos a chegar à Tanzânia de carro e eu encontrei esse contacto no Couchsurfing, nós pedimos um Couchsurfing E esse colega, quando chegamos, deu-nos estadia, foi nos mostrar a casa, deu-nos comida, deu-nos dormida e nós pedimos lhe: "Olha, nós precisamos de arranjar o carro e precisávamos procurar uma oficina". E ele: "Vocês já podiam ter dito mais cedo, eu tenho uma oficina de carros".

Também tiveste muita sorte, Gabriel.

Eu costumo dizer que o meu anjo da guarda passou a viagem toda comigo. Tivemos muitos anjos na nossa viagem. E, portanto, esse amigo arranjou-nos o carro, soldou o carro todo à volta, porque o carro estava completamente partido, fez-nos um trabalho mágico por 200 €. E esse amigo, passado um ano, veio a Portugal e eu fui lhe mostrar Lisboa.

Uau!

E ele está neste momento no Canadá, já esteve em Portugal, em minha casa, e continuamos a falar por WhatsApp.

Já falaste um pouco do grupo que ia contigo neste todo-o-terreno por África, nessa viagem que começou no Estreito de Gibraltar e acabou em Angola, correto?

A minha viagem terminou na Etiópia.

Na Etiópia.

Isto porque terminou a minha licença sem vencimento e eu tive que regressar a Portugal. Eu peguei um avião da Etiópia e tive que regressar a Portugal. O Tiago conseguiu completar a viagem sozinho, atravessou o Sudão e o Egito e do Egito mandou o carro para Portugal.

Depois do Burkina Faso, seguiram por onde e até onde?

A seguir ao Burkina, descemos para o Togo, Benin. Depois no Benin tivemos também algumas histórias, algumas peripécias. Depois, eu não tinha visto na Nigéria, porque já entrei no projeto mais tarde do que os meus colegas, eles já tinham visto. E nós para não perder tempo, porque o projeto tinha que arrancar, decidimos que eles iam de carro e eu ia apanhar um voo. Ou seja, eu voei por cima da Nigéria, do Benin, para o Gabão e esperei dois dias por eles no Gabão. Só que esperei dois dias por eles e disse-lhes assim: "Vocês quando entrarem na Nigéria, por favor, comprem um cartão SIM, dados móveis para estarmos contactáveis". Estive dois dias sem saber nada deles. Passado dois dias, eles me enviaram uma fotografia numa operação stop com a polícia, ou seja, a polícia mandou-os parar e tirou selfies com eles. E depois eles enviaram para mim, mas dois dias depois. E eu: "Pronto, obrigado por me transmitirem que estão bem, agora venham ter comigo, que eu já estava preocupado".

Muito bem.

E encontrámo-nos no Gabão e a viagem continuou.

Continuou, tu seguiste até à Etiópia e o resto do grupo seguiu depois para o Egito, não foi?

90% da viagem fiz eu e o Tiago.

Sim.

De Portugal para Angola éramos quatro, que era o Vítor Moniz e o Luís, que é um lisboeta que tirou 15 dias para fazer essa viagem conosco. Eles só foram até Angola e eu e o Tiago é que fizemos a volta completa a África.

E de todos esses países que vocês atravessaram num jipe, num veículo todo o terreno, qual foi para ti o país mais surpreendente, aquele que te deixou de queixo caído? Consegues eleger algum dessa viagem?

Eu consigo, apesar de ser difícil, porque eu acho que vamos bater sempre no mesmo, que é as pessoas e a magia das pessoas. Mas de qualquer forma, há países que me surpreenderam por quê? Porque Angola, por exemplo, eu tinha uma ideia tão errada da Angola, porque os portugueses que vêm de lá: "Eu fui assaltado, Angola é isto, Angola é perigoso, Angola é isto e aquilo". Eu achei a Angola fantástica. Angola tem tudo do bom e do melhor. Angola tem praias paradisíacas, Angola tem pessoas fabulosas, tem cascatas. Angola é fabuloso. Angola arruma Portugal 10 a 0 em termos de cultura, de música, de tudo. É fantástico. E, portanto, Angola, se tivesse turismo, estava no top mundial. Angola e Moçambique também. Moçambique também é fantástico, tem praias paradisíacas. É fantástico. Agora, é difícil eleger só um, porque cada um tem o seu encanto, a sua magia. A Namíbia, por exemplo, é um país que é 90% deserto e é fantástico também, porque o deserto também tem aquela magia, como é que eu explico isto? É como quando vou a Marrocos, ao deserto, eu sinto aquela paz interior quando subo às dunas do deserto, em que só ouvimos o vento e estamos concentrados em nós próprios. Uma viagem ao nosso interior. Isso é interessante, é muito bom. Essa reintrospecção. A Tanzânia também é fabulosa, a Tanzânia tem parques de animais selvagens que parece que estamos dentro de um filme. A Etiópia tem umas tribos completamente malucas que têm aqueles piercings enormes na língua, na boca, nas orelhas e são absolutamente extraordinários em termos de gastronomia. Eu se pudesse viver num país africano, se calhar vivia em Moçambique.

Olha, e por quê?

Primeiro porque é fácil para nós, por causa da língua.

Da língua.

Mas depois porque é tudo tão fácil. Está ali encostado à África do Sul, é possível ir às compras à África do Sul, que é mais barato, mais acessível, tem parques de animais selvagens ali à volta, tem praias fantásticas, podemos passar vários dias na praia. A comida é extraordinária, é relativamente fácil de circular, não é perigoso.

Olha, Gabriel, 25 países, quase seis meses. É fácil viajar em grupo, num veículo todo o terreno por África, a resolver problemas, a solucionar contratempos, a ultrapassar obstáculos, compatibilizar feitios?

Não é fácil de todo. Principalmente porque eu não conhecia o Tiago e tivemos que nos adaptar um ao outro. Sim, tivemos vários problemas com o carro que tivemos que solucionar, tivemos montes de furos. Eu perdi a conta aos furos que nós tivemos. Principalmente na Namíbia, a uma altura nós tínhamos furos de 100 em 100 metros, os pneus já não levavam mais tacos. Nós já estávamos extremamente cansados, estavam 42 graus. Estávamos numa rua a circular, passado dois furos, caiu-nos o depósito da gasolina. Debaixo de 42 graus daquele calor horrível, com tábuas e pedras, com algumas cintas, tivemos que pôr o depósito no sítio, porque o depósito caiu cheio. Conseguimos pôr o depósito no sítio e prendê-lo com cintas.

E numa altura dessas, pensa-se em quê?

Confesso que nesse dia nós desesperamos um pouco, porque quase não conseguimos fazer quilômetros nenhuns e desesperamos um pouco, principalmente porque tínhamos que comprar água, estava um calor horrível. Mas é como te disse, na viagem tive sempre um anjo da guarda comigo.

Muito bem. Estamos à conversa com o fotógrafo Gabriel Sarabando. Vamos abrir o álbum de viagem. Gabriel, tens aí por casa um objeto especial que tenhas trazido das tuas viagens, nomeadamente das duas grandes viagens que fizeste em África?

Eu guardo pouca coisa das viagens, porque se há uma coisa que eu aprendi nas viagens foi a acumular poucos objetos. Das poucas coisas que eu trago das viagens são pulseiras, guardo muitas pulseiras.

É nosso convidado o viajante fotógrafo Gabriel Sarabando. Curta pausa na conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Regressamos já a seguir. Segunda parte das conversas do "Fim do Mundo" desta semana. Estamos à conversa com o fotógrafo Gabriel Sarabando, apaixonado pelo continente africano. Tão apaixonado que depois de viajar seis meses num veículo todo-o-terreno, regressou para uma viagem de mochila às costas. Gabriel, por que é que decidiste regressar a África?

Eu decidi regressar, primeiro porque já estava com extremas saudades de África. Eu digo hoje a muita gente que se eu pudesse, eu vivia em África.

Tu regressaste logo um ano depois.

Mas essa viagem eu já estava a planear. Mal cheguei a Portugal, eu já estava a começar a planear a próxima.

Foi?

Foi um ano depois, porque só consegui um ano depois.

Mas já estava a mexer na cabeça, não é?

Sim, já tinha o bichinho das viagens dentro de mim. Eu comecei a fazer esse plano e a viagem era ir do Senegal ao Gana. Por que do Senegal ao Gana? Porque foram os países que eu falhei durante a volta à África, porque nós cruzamos o Mali e fomos pelo interior da África. Eu perdi alguns países que eu gostava de visitar, como a Guiné, que é a nossa Guiné portuguesa. Eu decidi fazer essa costa toda, planeei para mais ou menos um mês, demoramos 36 ou 38 dias. E foi giro, por quê? Porque eu era suposto ir sozinho. Contei essa experiência ao meu irmão gêmeo e ele disse: "Eu vou contigo, prepara a mochila que eu vou contigo".

E foi giro por quê? Porque era teu irmão ou porque era gêmeo e isso causou estranheza ao longo dos países em que vocês foram viajando?

Sim, também tivemos episódios giros por causa de sermos gêmeos.

Então, conta. Partilha conosco.

Apesar de sermos gêmeos, somos pessoas totalmente diferentes. E o André sempre teve um estilo de viagem de férias, ir para um resort, estar descansado, tranquilo, na piscina, à beira-mar. Ele não sabia o que era viajar de mochila às costas num país que exige alguma concentração e exige alguns desafios. Mas foi muito giro.

Dizias há pouco que tens algumas histórias engraçadas para contar, nascidas do fato de teres viajado com o teu irmão gêmeo. Que histórias trazes tu do continente africano nesse capítulo?

Sim, por exemplo, o meu irmão tem uma loja de reparações de telemóveis, é uma pessoa que está habituada a fazer reparações de tudo que é aparelhos eletrónicos. E houve um dia na Guiné, no Senegal ainda, a minha câmera caiu dentro de um barco. Eu estava a entrar dentro de um barco e a minha câmera caiu e ficou dentro da água, água salgada. A água salgada destrói os equipamentos todos. E portanto, o meu irmão disse-me: "Olha, a tua câmera dentro de dois dias vai morrer, prepara-te". E foi mesmo. A câmera passado dois dias, os botões começaram a deixar de funcionar, começou a deixar de responder. Eu disse: "Ô André, eu sinto-me nu sem a minha câmera, tens que me arranjar isto". E nós chegamos à Guiné-Bissau, fomos a uma feira, comprámos ferramenta, comprámos álcool, abrimos a câmera toda, numa pastelaria enquanto bebíamos duas cervejas e conversávamos com o dono da pastelaria, que já tinha estado em Portugal. Nós numa tarde abrimos a câmera toda, reparámos a câmera, limpámos, voltámos a montar e a câmera voltou a funcionar.

Uau!

E continuei a minha viagem feliz, porque já tinha a minha câmera para poder fotografar.

Abençoado irmão gêmeo, então.

Sim. Para ele foi difícil, principalmente dormir em sítios complicados em que não tivemos cama. Por exemplo, atravessar a fronteira da Guiné para a Guiné Conacri. Chegamos à fronteira às 19h00, a fronteira tinha fechado às 18h00 e a polícia ficou-nos com os passaportes e disse: "Se vocês quiserem dormir é ali". Mas ali tinha duas camas de tábua, de pau. O meu irmão começou a reclamar: "Fogo, e agora vamos dormir aqui? E como é que eu vou fazer para dormir? Agora não consigo dormir". E eu: "André, a maior lição que podes trazer da África é aprenderes a ser resiliente. Aceita o facto de teres uma cama". E ele parou de reclamar, no dia a seguir acordou mal-disposto na mesma, eu fartei-me de rir, porque era só galinhas à nossa volta. Mas fartei-me de rir com ele, precisamente por causa disso Ele reclamava, mas no fundo também tirou essa lição.

Essa viagem que tu realizaste com o teu irmão gêmeo durante esses 30 e tal dias de mochila às costas, também fizeram couchsurfing em África. É fácil fazer couchsurfing, Gabriel?

É fácil, sim. Porque se abrirmos a aplicação Couchsurfing, principalmente nos centros urbanos, há sempre alguém a oferecer estadia. É muito fácil. Eu não queria comparar continentes, mas eu diria que é melhor ainda as experiências que temos em África, porque as pessoas são extremamente amáveis. As pessoas, se for preciso, tiram um dia de trabalho para nos mostrar um pouco do país, para nos alimentar, para nos dar estadia, tudo.

Isso aconteceu-te?

Sim, aconteceu-me dezenas de vezes. Na Mauritânia, por exemplo, aconteceu de um rapaz dar-nos estadia no Couchsurfing, que foi a segunda noite em África que nós utilizámos Couchsurfing, em que eu ia com uma expectativa alta, porque nós europeus estamos habituados a outro estilo de vida. O rapaz recebeu-nos num apartamento que tinha, sei lá, três metros quadrados. A casa de banho era no prédio e era comum a todos os andares. E eu perguntei-lhe onde é que podia tomar banho e ele disse: "Ah, eu vou-te buscar uma bacia com água". Pronto, eu não reclamei, nem tinha direito de o fazer, mas o meu cérebro ficou ali um bocadinho a pensar: "Poxa, então mas espera lá, eu vou ter que tomar banho numa bacia? Deixa lá isso. Eu não tomo banho hoje. Paciência". E portanto, conformei-me com o facto das coisas serem assim. Agradeci-lhe. Dormimos no chão e ele ainda convidou mais um amigo para dormir lá em casa. Ao todo éramos cinco a dormir no chão num apartamento de três metros quadrados. Olha, foi incrível. Eu não tenho palavras para descrever o quão incrível foi.

Mas incrível por quê?

As histórias que nós partilhamos. Porque foi uma risada toda a noite, nós a partilhar histórias, a contar, a falar em línguas diferentes, ninguém percebia nada, nós ríamos. E depois bebíamos chá, que ele fazia muito chá, bebíamos chá, contávamos coisas malucas, ríamos do nada. Foi extremamente giro.

Viajar nesse registo, de mochila às costas pela costa atlântica africana, utilizando transportes públicos, dormindo em casa das pessoas através da aplicação do Couchsurfing, é fácil? É um constante desafio? Explica-nos como é que é.

É fácil, só que temos que ir de mente aberta e nós europeus estamos pouco preparados ainda para isso, a não ser alguns viajantes, pessoas que estão habituadas a viajar. Não é difícil, só que nós temos que ir preparados para alterações de planos constantes. Nós na Europa estamos habituados a tudo tão standard e a não fugir daquele registo, porque as coisas aqui funcionam. Em África nada funciona, nós chegamos a um hotel, não há água, vamos para outro hotel, não há internet ou vamos para outro hotel, não há luz. E temos que nos habituar a conformar com isso. Lá está, vamos todos bater à resiliência, porque as coisas são assim mesmo. E nós europeus estamos pouco habituados a que as coisas não funcionem. E se as coisas não funcionarem, nós vamos procurar culpados, mas ali não funciona bem assim, ali temos que aceitar as coisas como são e continuar.

Falavas no final da primeira parte de um episódio ou de um contacto que tu tiveste em Angola com orfanatos angolanos, que mudou a tua maneira de ser e a tua maneira de estar na vida. Que orfanatos eram esses e que leitura é que tu fazes disso que tu viste?

Chamava-se Orfanato Frejil, fica em M'banza Kongo, que é uma cidade no norte de Angola, e nessa cidade existem várias escolas e esse orfanato. Nós vínhamos de viagem, entrámos em Angola. A TPA, televisão nacional de Angola, acompanhou a nossa viagem, mas eu tive uma surpresa tão grande, principalmente quando eles estavam a filmar e nós a entregar mochilas às crianças. Eu desatei a chorar, pus os óculos escuros e escondi-me, não é que sentisse vergonha, mas senti vontade de chorar, porque foi aí que eu entendi que a nossa realidade é tão diferente e eles com menos são muito mais, porque eles têm uma alegria tão grande dentro deles e nós só reclamamos da vida. E, portanto, foi aí que eu percebi, que disse várias vezes, disse e fiz quando cheguei a Portugal, foi: "Eu vou chegar a Portugal e vou vender tudo o que eu tenho na garagem, porque agora a garagem vai servir para pôr o meu carro lá dentro". Todo aquele tipo de coisas que eu tenho de valor na garagem, mas que eu não preciso, eu pus no OLX e vendi. Simples, porque eu não preciso. E o dinheiro pode me fazer falta mais tarde. E depois disso, comecei a comprar muito menos por impulso, porque nós compramos muito por impulso. As pessoas queixam-se que em Portugal ganha-se pouco, em Portugal vive-se mal, mas nós não abdicamos da nossa cerveja, do nosso café, da ida ao café, da ida à praia, de comer um gelado. Nós devíamos nos sentir gratos por podermos fazer isso, porque em África trabalham para comer. Às vezes passam dias sem comer. Portanto, eles trabalham para o dia seguinte. Eles não vão ter acesso à reforma. Eles não sabem o dia de amanhã. Eles vivem apenas o dia de hoje, porque eles não podem fazer planos. Portanto, nós devíamos ser muito mais gratos naquilo que temos na vida.

Mas também podemos ambicionar sempre um bocadinho melhor, não é, Gabriel?

Sem dúvida. Eu também ambicionei comprar a minha casa e comprei. Ambicionei abrir o meu estúdio e abri. Todos os meus sonhos eu concretizei-os. Isso não implica deixar de sonhar.

Estamos à conversa com o fotógrafo Gabriel Sarabando. Gabriel, vamos fazer check-out?

Sim.

Vamos embora. Gabriel, peço-te para completares as seguintes frases: na minha mala vai sempre...

Bom, na minha mala vai sempre um kit de primeiros socorros Um livro da Lonely Planet e, claro, a minha câmera fotográfica.

A câmera fotográfica. Um kit de primeiros socorros. Já alguma vez tiveste de usar o kit de primeiros socorros?

Não, eu levo apenas porque eu gosto, porque sou bombeiro, porque gosto de estar prevenido. Porque gosto de sair prevenido.

És um homem prevenido.

E porque também trabalho como guia de viagens e, portanto, ao levar pessoas pra outros países, gosto de que elas se sintam protegidas e se sintam minimamente bem.

Muito bem. O carimbo de passaporte mais difícil de obter foi o de?

Foi o da República Democrática do Congo.

Então, o que aconteceu?

O meu colega Luís estava em Lisboa, visitou a embaixada da República Democrática do Congo, e o embaixador pediu-lhe um jantar para falarem sobre o visto. Eles foram jantar, o Luís teve que pagar o jantar, obviamente, e depois de pagar o jantar, ainda teve que lhe dar um dinheiro extra pra nós conseguirmos o visto. Houve ali uma série de peripécias pelo meio pra conseguirmos obter esse visto, porque é um visto extremamente difícil, não é impossível de tirar, mas é um visto extremamente difícil. E normalmente só o atribuem a quem tem um motivo extremamente válido para ir pra lá, seja trabalho, seja investimento, seja o que for. Mas nós só queríamos atravessar o país. E foi difícil explicar-lhes, apesar de nós termos o projeto todo impresso e bem explicado, apesar disso, foi extremamente difícil explicar-lhes que nós só queríamos atravessar o país. Mas conseguimos o visto.

Muito bem, e atravessaram o país. Olha, a viagem com mais peripécias que realizei?

A viagem com mais peripécias. Talvez tenha sido a viagem que fiz com o meu irmão gêmeo, foi provavelmente a que teve mais peripécias.

Teve mais em 30 e tal dias que a anterior de seis meses.

Que a volta à África?

Sim.

Sim, talvez sim. Por exemplo, houve uma altura que nós estávamos na Guiné-Bissau e decidimos ir à Ilha de Barco, mas era uma quarta-feira e só havia barco no fim de semana. E o André disse: "Olha que eu não posso aguentar aqui tanto tempo, porque eu tenho que trabalhar na loja, não posso me ausentar tanto tempo, temos que arranjar soluções". E eu: "Ok, vamos arranjar soluções". Fomos ao porto do barco, ao porto das pescas, falamos com os pescadores a perguntar quem é que ia pras ilhas. Ninguém ia pras ilhas. Entretanto, 9:00, 10:00, 12:00. Lá conseguimos encontrar uns rapazes que iam pra Ilha de Bubaque e perguntávamos a que horas é que eles iam. "Estamos à espera da maré, lá pras 14:00 vamos". Pronto, ok. Arrancamos era 15:00 ou 16:00 e chegamos à ilha às 21:00. Fomos numa barcaça, numa barca pequena, junto com pescadores, em alto-mar, mas foi dos episódios mais bonitos que tivemos. O meu irmão filmava, eu fotografava, e eu estava feliz, encantado da vida. Por quê? A meio do caminho, eles decidiram fazer o almoço. Era peixe frito com arroz. Depois cortaram um bidon daqueles grandes de óleo, cortaram ao meio, puseram pra lá o arroz e o peixe, fizeram uma roda, chamaram-nos pra comer e disseram: "Venham almoçar conosco" e todos a comer com as mãos. Tenho fotos fantásticas disso. E esses momentos vão ficar guardados conosco pra vida inteira.

É a tal gratidão africana, não é? Que falavas ao longo dos últimos minutos. Olha, e a refeição mais estranha que comeste?

Terá sido, se calhar, no Congo, que comi carne de caça, mas não sei o que é, ainda hoje não sei o que eu comi. Sei que eu comi carne de caça porque tinha chumbos.

Tinha chumbos de espingarda?

Chumbo de espingarda, sim, tinha uns 10 ou mais. Eu percebi que estava a comer carne de caça, que foi caçada por alguém, mas não sei o que eu comi. Sei que era uma carne boa, bastante tenra, mas até hoje nunca sei o que eu comi.

Se calhar, vale mais a pena ficar no desconhecimento, não é?

Talvez.

Olha, Gabriel, a recordação de viagem mais cara?

A recordação de viagem mais cara.

Recordação ou experiência.

Foi provavelmente no Dubai, subir a Burj Khalifa, que só o bilhete custa 50 ou 60 euros.

Mas vale a pena?

Vale a pena, sim. Mas é um bocado caro para ter uma experiência apenas pra subir um edifício lá em cima e subir uma varanda.

Só agora, o que se vê lá do alto?

A cidade, só.

Gostava de viajar com?

Eu gostava de viajar com o Felipe Morato Gomes.

Que já cá esteve. Aliás, foi o primeiro convidado das Conversas do Fim do Mundo.

Boa. Há tantos viajantes com quem eu gostava de viajar.

Mas o Felipe Morato Gomes era seguramente um deles, não é?

Sim, sem dúvida.

Muito bem. Gabriel, estamos a chegar ao fim do mundo. Que música escolheste para fechar a nossa conversa?

"Jeza Uwa Makhatsa".

Da sul-africana Flora Ritshuri, é isso?

Exatamente.

Exatamente. Muito bem. Gabriel, muito obrigado por teres vindo às Conversas do Fim do Mundo esta semana. Foi um gosto.

Obrigado eu pelo convite.

Ora essa. "Jeza Uwa Makhatsa", da sul-africana Flora Ritshuri, com a mistura de Master KG no fecho da Conversa do Fim do Mundo desta semana. Obrigado por nos escutar. Estamos de regresso de hoje a oito dias.

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