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Sejam bem-vindos. Esta semana com um casal de viajantes que tornou as suas viagens em missões humanitárias. Eles já viajavam, mas houve um momento que perceberam que podiam melhorar o mundo distribuindo um pouco do produto do seu negócio: óculos. E foi o que já fizeram em São Tomé e Príncipe, Peru, Cabo Verde e Macedônia do Norte. Vamos falar destas missões e também das suas viagens. Eles contabilizam já juntos 71 países. Olá, Vítor e Ana.
Olá.
Olá.
Bons olhos vos vejam. É uma piada básica, não é?
Exatamente.
Neste caso, não se aplica porque estão à distância, estão em Vila Nova de Poiares. Olha, já vamos falar das vossas missões. Acabam de chegar da Islândia, vêm fresquinhos ainda. Já estava muito frio lá em cima ou não?
Que bem, mais frio que aqui.
É?
Sim.
Apanharam temperaturas durante o dia por volta dos que graus?
12.
12?
Sim, 12. E esta semana estão 14. Esta transição de verão para outono é fantástica por lá.
Boa.
Consigo ver tudo e acabo por ter uma temperatura melhor. No inverno é muito pior.
É claro. Por acaso achei que ia estar mais frio, mas 12, 14 graus é uma boa temperatura. Olha, o que viram, Vítor, na Islândia? Vá lá, conta tudo.
Nós vimos vulcões, auroras boreais, glaciares, cascatas, cavalos, ovelhas.
Toda a solta.
Provámos carne de tubarão.
Como é que é? Provavam carne de?
Tubarão.
Tubarão?
Sim.
Embora seco, quase como o nosso bacalhau.
Mas é uma iguaria de lá da Islândia, Ana?
Sim.
Como é que se come tubarão seco?
Ele é seco como nós secamos o bacalhau. Foi assim que eu provámos, isso também foi no mercado, não sei se haverá mais.
É tipo uma iguaria, é algo que não vem num prato, mas é tipo um petisco, basicamente.
Ok. E é bom?
É. Mais ou menos.
Já percebi. Não morrem de amores por tubarão seco da Islândia. Muito bem. O nosso, entre aspas, bacalhau salgado comido em Portugal está um fosfores acima do tubarão.
Sim.
Sem dúvida.
Muito bem.
Eu acho que a gastronomia aqui em Portugal também é difícil de igualar em outros países.
Muito bem. Olha, levaram os miúdos convosco? Têm dois filhos, não é? Dois filhos menores. Eles foram convosco pra Islândia?
Sim.
E então?
Ficaram maravilhados. Muita natureza, muitas coisas que o mais velho já aprende na escola e ali é diferente ver ao vivo.
Sim.
E muitas recordações também pro mais novo, porque são coisas muito diferentes do que temos aqui.
Claro.
Muita natureza.
Fomos caçar auroras boreais.
Foi? Levantaram cedinho pra ir ou apanharam só ao final do dia?
Normalmente é ao final do dia. As que nós vimos durante três dias foi tipo às 11 da noite, mais ou menos.
Uau.
E foi bom porque acaba por não estar muito frio e nós conseguimos ir um pouco pra rua e estar à espera que apareça. É um fenômeno natural lindíssimo.
Ver isso com crianças, ainda mais filhos, deve ser mágico, não é?
É, sim.
Eles gostaram, claro, obviamente.
Claro.
Muito bem. Olha, já vamos ter a oportunidade, como eu dizia na introdução do programa, de falar das vossas viagens. Vocês gostam muito de viajar, também é uma das razões pelas quais estão neste programa, é o programa certo pra falar de viagens, mas vocês têm uma particularidade, vocês são óticos, portanto, aquilo que antigamente se dizia oculistas, e organizam viagens para levar óculos para diversos locais do mundo. Já estiveram em São Tomé e Príncipe, no Peru, Cabo Verde e também na Macedônia do Norte. Como é que nasceu esta ideia, Vítor?
A ideia surgiu pelas viagens, porque nós como viajamos já há 20 anos, cerca de 20 anos, começamos a pensar que poderíamos fazer algo diferenciado com aquilo que também gostamos de fazer, conjugar as duas coisas que gostamos de fazer. Ao início foi um pouco difícil, porque é preciso haver dinheiro pra isso, como é lógico, mas também havia outro problema que era o parceiro do outro lado, porque aqui o fundamental é tu conseguires alguém de confiança do outro lado, que te consiga mobilizar as pessoas pra fazer as consultas, as pessoas que realmente necessitem de óculos, mas também com problemas financeiros.
Porque vocês partem daqui já com os óculos todos feitinhos, embaladinhos, já a saber quais são as necessidades das pessoas que os vão receber no país pra onde vão, é isso?
Exatamente.
Ok. No fundo é encontrar alguém do outro lado, que é longe. África, América do Sul e confins da Europa, alguém que faça o exame oftalmológico, é isso?
Exatamente. Sim.
Ok.
E também não é difícil encontrar as pessoas certas. O problema, às vezes, é ter alguém no terreno que faça movimentar isso. Porque lá arranjar técnicos que façam, eles também à partida, normalmente já são pessoas mais instruídas e também têm gosto em fazer isso e em ajudar.
Claro.
O problema é arranjar essa ligação.
Muito bem. Começaram por que país?
Nós fomos a São Tomé, a São Tomé e Príncipe, onde entregamos 32 óculos em 2019. Depois, em 2020, fomos ao Peru Onde entregámos 12. E depois fomos à Cabo Verde em 21, 26 e agora na Macedónia foram 20. Tudo situações em que realmente conseguimos contactos no país e fizemos este intercâmbio de informação. O resultado final é sempre gratificante para nós, nós temos histórias incríveis.
São histórias incríveis, já vamos falar delas. São pessoas que precisavam de óculos para viver, para ver?
Sim.
São casos extremos mesmo, quase cegueira, é isso?
Exatamente.
Sim, aqueles casos de pouca graduação são logo excluídos a partir do momento que haja casos mais graves.
Nós, por exemplo, em São Tomé, fizeram cerca de 200 consultas, onde praticamente havia 50 pessoas que precisavam, umas 20 delas eram QB, ou seja, não era uma gravidade tão grande.
Conseguiam viver sem óculos, não é?
Exatamente.
Se calhar, não viam bem ao longe, não liam as letras.
Sim, uma dioptria, duas dioptrias, coisas pequenas. Nós temos situações de menos 18 dioptrias, por exemplo, uma coisa impressionante.
Portanto, ofereceram óculos, mudaram a vida a pessoas.
Nós até temos um slogan, um hashtag, que agora é muito na moda, que é "Conseguimos mudar a forma de olhar de alguém" ou "Conseguimos mudar a forma de olhar". E é verdade, porque, de facto, não há palavras para descrever realmente a sensação que temos quando alguém que realmente tem necessidades financeiras, que não tinha possibilidades de comprar, acaba por colocar os óculos na cara e ver bem.
Já tiveram casos de pessoas que é a primeira vez que usam óculos?
Sim.
Sim.
Portanto passam do estado quase de pré-cegueira para visão normal.
Até muitas das vezes é difícil a pessoa se adaptar logo ao início, ver melhor, fica com tonturas porque o olho não está habituado a isso, como foi o caso do Daniel.
Quem é o Daniel? Ana, conta. Anda lá.
O Daniel é um menino ao qual íamos entregar os óculos em São Tomé. Foi na escola que entregámos, que era uma escola que era tomada conta por uma instituição religiosa lá, e foi onde entregámos também grande parte deles. E quando chegámos para entregar os óculos, os meninos abeiraram-se, para eles aquilo era tudo uma novidade. Nós para já, porque somos brancos, despertamos logo curiosidade neles e abeiraram-se de nós para saber o que é que estávamos ali a fazer. Começámos a entregar junto com a pessoa que tínhamos lá, que é a Fátima, que foi quem nos ajudou bastante neste processo. E ela ia fazendo a seleção dos meninos, tinha mais contacto, apesar de nós termos cá as fotografias, porque nós recebemos as fotografias. Ela é que conhecia as pessoas lá. E fomos entregando. E houve um menino em que entregámos e o menino teve uma reação estranha. Nós entregar óculos é o nosso dia a dia.
"Algo se passa aqui."
Exato, algo se passa aqui.
Sim, e então?
Perguntei ao miúdo como é que ele se chamava, só que eles lá têm uma situação muito caricata. Por exemplo, eu chamo-me Ana, mas eles não me tratam por Ana, tratam-me por outro nome qualquer. É uma coisa um bocado estranha.
Lá em São Tomé.
Eles metem os nomes das pessoas, registam quando nascem, mas depois mudam os nomes dos miúdos.
Mas não tem uma explicação.
Há um nome oficial e um nome familiar, é isso?
Exato, não gosta daquele nome o miúdo e mete outro nome. É sério, mas é verdade.
Incrível. Isso é informalidade africana.
Exatamente.
Espetacular.
Se calhar nós é que temos de aprender com eles.
Exato. Isso é fantástico. Então, meteste os óculos e aquilo não batia a bota com a perdigota, não é?
Exatamente.
E nós perguntámos: "Então, mas estás a ver bem?" E ele: "Sim", mas ao mesmo tempo fazia uma cara de quem não estava a ver nada. E nós acabámos por chamar a Fátima, que andava lá à volta de outros meninos, e dissemos: "Fátima, aqui qualquer coisa que não está a funcionar. Vamos confirmar se efetivamente este menino é o Daniel." Depois começámos a pegar no cadastro, na documentação, e a Fátima chegou à conclusão que não era nada o Daniel, aquele menino era um outro menino que nem sequer estava para levar óculos.
Coitadinho.
Mas mais incrível ainda é que o Daniel, no dia que foi para fazer as consultas, a mãe atrasou-se e ele não conseguiu ir na carrinha onde estava estipulado para ir aqueles meninos. Então ele não conseguiu ir. A mãe, quando chegou a casa, isto dois meses ou três antes, percebeu que já não conseguia ir com ele, decidiu investir um táxi para lá, que era de Neves até à São Tomé, à capital, ainda é um bocado longe, mas ela foi e ele foi o último menino a fazer a consulta. E daí veio este erro. A mãe apareceu lá tão cansada e então meteu um nome diferente. Meteu o nome diferente, modificou isto tudo. Só que a cara do miúdo era aquela cara que as pessoas lá reconheciam. E aí é que veio a parte da Fátima, que percebeu que não era aquela cara para aqueles óculos.
Lá conseguimos chegar ao miúdo.
Lá conseguimos chegar ao miúdo, mas incrível Era o primeiro dia de aulas do menino, tinha seis anos. Era o primeiro dia de aulas dele. Nós andámos à procura dele e houve um continuo que morava perto, porque Neves é pequeno também, não é muito grande. E disse: "Vão lá à casa, porque ele deve estar em casa", que ele nem sequer sabia que ia entrar pra escola no primeiro dia. Fomos lá de moto, fomos lá ter com a mãe, chegamos à mãe: "Não, ele está na escola". Então voltamos outra vez pra escola, chegamos à escola, lá estava ele no fundo da sala.
Coitadinho, sem ver nada.
Pelo menos oito dioptrias, sem óculos, nunca tinha usado óculos na vida, portanto a sensação não tem explicação. Foi incrível.
Pois, mas foram vocês que lhe meteram os óculos na cara?
Neste caso fui eu que meti os óculos na cara. Até dá arrepios só de pensar, porque mudou a forma de olhar dele. E nós agora temos até contatos com a maior parte deles, principalmente os casos mais graves. Nós até estamos a pensar em arranjar padrinhos pra estas pessoas, pra também os ir ajudando, porque de dois em dois anos, normalmente, o grau muda.
É preciso renovar as lentes, não é?
É, exatamente, essas coisas. E têm acontecido aqui situações em que nós temos conseguido vá pra lá, porque nós temos tipo correios, pessoas que conhecemos, que vêm cá a Portugal e depois levam pra lá um ou dois pares pros miúdos. Já lá vão a brincar de três anos, portanto, tem sido aqui um trabalho que é difícil às vezes de ir acompanhando, só que acho que também faz parte.
Faz parte. Vocês fazem isto tudo às vossas expensas, não é?
Sim.
Uma parte, sim.
Uma parte. Têm encontrado patrocinadores. Diz, Vítor.
Exatamente. O que está acontecendo neste momento é que da primeira vez, praticamente fizemos a maior parte dos óculos sozinhos. Houve uma associação aqui de Vila Nova de Poiares, que é a iCreate, que nos ajudou, também foi incrível, porque nós oferecemos 12 óculos a pessoas mais idosas e 20 a crianças. Esses 12 óculos, a associação iCreate é tipo uma-
É uma associação que apoia idosos.
Exatamente. E então fizemos aqui uma parceria e elas entregaram aos mais idosos e nós entregamos aos mais novos. Depois, a partir do momento que nós fizemos a primeira missão, começamos a ter algo pra mostrar e então foi muito mais fácil de a seguir, nós termos parceiros que compramos todos os dias, fornecedores, que nos ajudam e têm nos ajudado bastante agora nas últimas duas missões, essencialmente, nós temos praticamente, tirando a nossa marca, que nós temos uma marca de óculos própria, que é a Mundo by Maxivisão, a Carl Zeiss e a Jacque Noble, que é uma marca de óculos.
Das lentes.
É. Portanto, nós o que gastamos? Gastamos na viagem pra lá, mas nós já íamos de férias, portanto, pra nós é mais um motivo pra ir.
Muito bem. Olha, Ana e Vítor, começando por ti, Ana, por que fazem isto?
Essencialmente, porque achamos que também temos que fazer alguma diferença no mundo. Acho que isto não é só estarmos cá por ver andar os outros, não é que se costuma dizer.
Sim. Queres deixar a tua pegada no mundo.
Exato.
Essencialmente.
Uma boa pegada, diria.
Sim, se todos nós fizéssemos um bocadinho pelos outros, acho que isto era sempre muito mais fácil pra todos. E se calhar, nós pensamos até que a pandemia poderia trazer um bocado de humanidade e acho que não, que até nos afastou um bocadinho mais.
Foi, sentiste isso?
Eu acho que sim, que as pessoas ficaram mais egoístas, mais cruéis umas com as outras, mais a pensar só em nós, mais naquela da desconfiança. E talvez isto também seja uma forma de nós ajudarmos alguém e mudarmos qualquer coisa à nossa maneira, dentro daquilo que nos é possível, principalmente.
Muito bem. Viajar e ajudar os outros. Uma boa missão, essa.
Sim.
Ias dizer, Vítor, queres complementar o que Ana disse?
Eu concordo. Aliás, desde o início, quando começamos a pensar em fazer esta conjugação entre viagem e a ótica, foi exatamente com esse motivo, já que tínhamos alguma coisa que poderíamos dar diferente, que se conseguíssemos chegar a alguém que realmente precisasse, era algo que nos ia, acima de tudo, nós ficávamos mais realizados interiormente, porque fomos ajudar alguém, mas também outra coisa que ainda não falamos e que é fundamental, também inspirar os nossos colegas muitas das vezes, porque às vezes é preciso pouco pra nós fazermos algo diferente. Inspirar as pessoas também a, em vez de nós irmos entregar 32 óculos, se fôssemos entregar 100 ou dar dicas pra alguém e entregar outros 32, nós íamos ajudar ainda mais as pessoas, porque de fato, as pessoas naqueles lugares, aqui nós temos uma ajuda, quer queiramos, quer não, o nosso sistema é completamente diferente.
Claro. Mas há pessoas por esse mundo fora que não têm rede absolutamente nenhuma, não é?
Nenhuma.
Zero.
Aliás, pra ter uma ideia, em São Tomé, por exemplo, mesmo quem tem possibilidades, tem que vir a Portugal. Porque aquilo é assim mesmo muito pobre.
É, não há oculistas, basicamente. Não há óticas. Há lá duas óticas, mas é uma coisa muito pobre. Básica. Ou seja, quem tem dinheiro não vai lá comprar.
Muito bem. Senhores oculistas, se estiverem a ouvir, mexam-se. Vamos lá. Estamos a caminhar para o final da primeira parte. Vítor e Ana, vamos abrir o álbum de viagem. Vitor e Ana, há por acaso algum objecto que vocês tenham trazido das vossas viagens e que guardam com especial devoção?
Nós não temos muitos bens materiais, não ligamos muito a isso. Trazemos sempre uma lembrançazinha só para nos recordar.
Mas alguma especial?
Não, acho que não temos nada. Cada sítio é uma coisa diferente.
Especiais são vocês. É isso. Muito bem.
Exato.
Como? Não percebi.
Pelo menos para cada um de nós.
Claro que sim. O que vocês fazem é bonito. Viajar e ajudar os outros é sempre bom. Como é que começou esta paixão pelas viagens? Vocês já conhecem 71 países. Viajam sempre juntos ou não, Ana?
Inicialmente, não. Este bichinho acabou por ser passado mais da minha família. O meu pai e a minha mãe viajavam.
Eram grandes viajantes?
Não eram grandes.
Mas gostavam.
Sim, exato. Pelo menos incutiram-nos isso, viajar e passar férias, mesmo que na altura deles não era normal haver férias. E eles já o faziam com alguma regularidade.
E tu passaste ao Vítor ou o Vítor também já gostava de viajar?
Acho que ele também começou mais tarde, mas sim, também já tinha esse bichinho.
Vítor.
É assim, eu já conheço o Vítor desde os 16 anos e ele desde os 19. Por isso esquece.
Pois.
Eu, pessoalmente, foi exatamente o oposto. A minha família teve emigrada. Eu até nasci em França.
Boa, onde? Onde é que nasceste?
Dijon, já voltei lá.
Dijon, terra de boa mostarda.
Depois vim-me embora e instalei-me numa aldeia aqui que se chama Zagalho, que é um nome muito peculiar.
Aqui em Vila Nova de Poiares, é isso?
Não, é Penacova.
É Penacova. Exatamente.
Zagalho.
Zagalho. Fantástico. É engraçado que eu sempre tive o fascínio pela viagem.
Sim.
Sabes que aqui nesta zona passam muitos aviões com direção a Lisboa, vêm todos da Europa e têm esta rota aqui.
Mas muito alto.
Muito alto, só que deixam fumo.
Deixam um rasto.
É, eu só andei de avião pela primeira vez com 22 anos. Portanto, tive sempre esse objetivo e esse sonho, quando tivesse possibilidades de ir. Depois também conheci a Ana e a nossa vida acabou por nos levar por este caminho que aqui no espaço de 20 anos nos tem feito este percurso. E tem sido incrível.
Viajam sempre juntos ou nem por isso? Não responderam essa pergunta há pouco.
Sim, desde que nos conhecemos.
Nem sempre com os miúdos, mas geralmente sim.
E o que é que procuram nas viagens, Ana e Vítor?
Acho que cada um de nós procura uma coisa diferente. Somos duas pessoas diferentes.
É? Então vá, tu, o que procuras, Ana?
Eu, por acaso, sou mais focada nos sítios, propriamente dito.
Nos sítios?
Sim.
E dentro dos sítios é o quê?
Património.
Património, se existir, depende também para onde se vai.
Natureza, também.
Natureza, sim, observar aquilo que está à minha volta.
E o Vítor?
Eu gosto muito de conhecer pessoas e se calhar por causa disso é que também tinha esta situação das missões. Tive essa ambição também, de conhecer as pessoas, de conhecer a forma como elas vivem, de ir às aldeias, por exemplo, e ver como é que as pessoas vivem. É algo que me fascina.
Sair daqueles roteiros.
Sair de roteiros. Estas coisas para mim sempre me fascinaram.
És o aventureiro do casal, é isso, Ana?
Sim, completamente.
De longe. A Gata sofre muito com isso.
Como assim?
Porque há sempre represália, não é? "Tu não podes ir para aí, não vais para acolá, não fazes aquilo".
Olha, e é preciso puxá-lo pelos colarinhos, porque ele é um grande falador. Imagino que ele faça muitas paragens para falar, não é?
É, às vezes é um trabalho.
Mas ele para em todo lado, Ana, para conversar com toda a gente.
Com toda a gente.
Muito bem. Olha, vocês também viajam com os vossos filhos, o que é extraordinário, e proporcionar essa experiência às crianças é sempre muito bom, porque lhes abre mesmo a cabeça, não é? No caso dos vossos filhos, que idades é que eles têm?
12 e cinco.
12 e cinco. Tem sido uma experiência que tem dado frutos, Ana?
Sim.
As mães são mais atentas a isto, não são?
Sim, acho que sim.
O que é que tem mudado nos vossos filhos com a experiência das viagens?
Aquelas barreiras de não sairmos da nossa concha. Acho que a gente mostrando mundo, embora tenha uma amiga que me disse no outro dia uma coisa engraçada, a gente quando mostra mundo, eles depois querem mundo. Ou seja, mais facilmente eles também vão embora mais rápido.
É um perigo isso.
Os filhos são uma passagem na nossa vida. Eu acho que é muito importante e principalmente também que eles lidem com a diferença, para serem mais tolerantes também e saberem estar em qualquer situação. Às vezes nem sempre correm bem as coisas e eles também se aperceberem disso, é importante. Não estarem sempre protegidos na concha deles, em casa e conosco.
E depois, por exemplo, nós quando fizemos Acho que foi em 2019, fizemos uma viagem pelo Adriático, de carro. Demos boleia a uma senhora de Montenegro. E depois começámos a conversar, ela não percebia nada de inglês, e quase por gestos. E depois ainda aconteceu na Islândia. Estas coisas fazem, acho eu, na minha maneira de ver, perceber que nós deveríamos ser todos iguais.
Nós somos.
Nós somos, só que não somos. Mas o que é certo é que acho que é bom transmitir isso às crianças, perceberes que do outro lado existe, e mesmo em São Tomé, o Vítor foi a São Tomé, ele apanhou uma lição de vida enorme, porque ele andava no meio das crianças todas e estava a perceber que aquele mundo era um mundo que ele nunca tinha visto na vida.
Pois, eu ia perguntar isso. Vocês têm levado os vossos filhos para as vossas missões, para essas viagens que vocês têm realizado a distribuir óculos? Têm levado?
Não levámos para o Peru.
Mas levaram para São Tomé, para Cabo Verde e para a Macedónia do Norte.
E para Cabo Verde não levámos, porque foi em plena pandemia e tivemos alguma dificuldade.
Então eles foram a São Tomé e à Macedónia do Norte e puderam contactar com a realidade destes dois países.
Exatamente. E aqui ainda mais. Aqui tu acabas por lidar com pessoas com alguns problemas. Naturalmente, nós também temos os nossos, toda a gente tem os seus, mas financeiros acima de tudo e alguns até de saúde, no caso da Macedónia, fomos entregar a pessoas com doenças profundas também. E eu acho que isso é fundamental.
Eles contactarem com a diferença.
É isso.
E eles falam depois quando regressam ou nem por isso?
Sim.
Ou guardam para eles?
O Vítor, de vez em quando nós falamos sobre a viagem a São Tomé, por exemplo, que é uma das mais marcantes, sem dúvida. E ele fala que não esquece daquilo que viu, de pormenores com pessoas, olhar, falar, troca de conversas e de perceber que ele pensava que aquilo não existia, o mundo não era assim.
Ou ele pensa que às vezes tem muitas dificuldades e com o contacto com essas pessoas vê que não tem dificuldade nenhuma.
Exato. Estas coisas ajudam à personalidade da pessoa, veres com os teus olhos aquilo que se passa. Ninguém te está a contar nada, não estás a ler nos livros, nem nada.
E isso muda muito a perceção.
Não vale a pena. Tudo na vida é assim, eu acho, na minha opinião.
E vocês sabem-no, porque são oculistas, não é?
Exatamente.
Olha, Ana e Vítor, que mais viagens têm realizado ao longo dos últimos 20 anos? Por onde é que têm andado? Qual tem sido o vosso percurso? E qual foi a viagem mais marcante que fizeram até agora?
Nós já estivemos nos continentes todos.
Todos os continentes? Uau, espetacular. Qual é o teu preferido até agora, Ana?
Preferido?
Sim, qual é aquele que tens mais o olho? Tinha que fazer esta piada também.
Várias. Uma que me fascinou bastante, e acho que falo dela sempre, que foi a que me marcou mais, foi Istambul.
Istambul, na Turquia. Por causa dos contrastes, porque ali há a divisão entre o mundo oriental e o mundo ocidental, é isso?
É isso, porque nós estamos na Europa, Istambul estamos na Europa, mas temos ali aqueles chamamentos das mesquitas. É ali muito já parte de Médio Oriente, também. E fascinou-me. E porque também acho parecido com a nossa Lisboa.
Ai é?
É, tem o rio, tem as sete colinas também.
É muito bonito.
Engraçado, acho que já houve um convidado que disse aqui isso.
É, acredito.
E essencialmente por esses aspetos que mencionei. Foi uma cidade que me marcou, mas sim, acho que em qualquer sítio que a gente vá, há sempre qualquer coisa que nos cativa.
Claro. Vítor, tu?
Eu tenho várias, acho que nem nunca falei nisto.
Mas conta, sem medos.
Eu adorei ir a Jerusalém.
Jerusalém.
Nós fizemos Jordânia, fizemos Israel e Jordânia. E nós para irmos para lá, eu conheci uma pessoa portuguesa que está em Israel, que é a Lídia. Eu não gosto muito de conduzir, agora ultimamente eu tenho conduzido mais, mas naquela altura não queria conduzir. E então eu disse: "Olha, Olívia, eu não gosto de conduzir, se tu me alugares um carro". Mas eu não a conhecia, eu conhecia-a só da internet, portanto, de sites de viagens, nos amantes de viagens, nesses fóruns da viagem. Bem, ela alugou um carro e ela comprometeu-se conosco de ir desde Telavive até Eilat, que é no sul de Israel, para nós passarmos a fronteira para a Jordânia. Bem, nós descemos o país todo de carro, ela ia nos deixar na fronteira para a Jordânia. Então, deixou-nos numa fronteira. Então, nós entrámos numa fronteira, chegamos à fronteira. Ela já tinha ido embora. Ficámos lá numa fila, chegamos e não sei o quê. Passado um bocado, eu vi uma placa a dizer assim: "To Egypt". E eu olhei para a Ana e disse: "To Egypt? Mas nós vamos para a Jordânia". Quando chegamos ao guichê, o homem: "Não, olha que não é para aí".
Não, ele perguntou-nos: "Vocês vão para onde?"
Exato.
E nós olhámos para ele, tipo: "Para a Jordânia".
Para a Jordânia.
E ele: "Pois, mas vocês estão na fronteira com o Egito".
Aquilo estava a 20 km, era a 20 km a fronteira para a Jordânia.
Sim, porque aquilo é naquele biquinho lá ao fundo, não é? De Israel, no Golfo de...
No Mar Vermelho.
Exatamente.
Aliás, nós ficámos lá nessa-
Mas é impressionante, nós percebemos que a forma como Israel repudia os jordanos é tão grande, que ela nem sabia onde é que era a fronteira com a Jordânia
Portanto, nem sequer está marcada, não está identificada.
Exatamente, é isso mesmo.
Eles expressam mesmo aquilo, nem sequer identificam. Caramba!
Eu liguei e disse: "Olha, peço desculpa, mas está a passar esta situação, eu não vou estar a alugar nenhum táxi daqui", porque o nosso contrato tinha sido este. Ela voltou para trás, pediu imensa desculpa, foi a 20 km levar-nos ao outro lado.
Não, ela teve que perguntar indicações a um taxista.
E depois confessou que ia lá passar férias, que é ao lado de Aqaba, que é onde nós ficamos nessa noite. É ao lado, só que ela nunca tinha ido para aquele lado. Foi uma das histórias mais incríveis que eu tive, porque eu pensei assim: "Como é que é possível?" Aquilo era pertinho. Aliás, nós para passarmos da fronteira-
Aliás, eu entretanto abri o Google Maps e isto quase que se vê de um lado para o outro, não é?
É isso.
Incrível.
Mas ela disse-me assim: "Eu nunca fui para esse lado". E eu acredito perfeitamente. E atenção, tu tens que passar a pé, tu não passas de carro de Israel para a Jordânia, só vais a pé. Nós fomos a pé, nós passamos a fronteira a pé e foi impressionante. Quando nós chegamos ao outro lado, deste lado, tudo low profile, tudo tipo "vossas excelências" e não sei o quê.
Não, eu primeiro disse assim-
Do outro lado, espera, do lado da Jordânia.
Na Jordânia.
Ele disse com cara de muito mau: "De onde é que vocês são?" E nós olhamos para ele: "Portugal". E ele espantalha-se a rir e diz: "Ah, Cristiano Ronaldo".
Exato.
O clássico.
O embaixador ajudou sempre.
É verdade.
E olha, foi uma história incrível. Fomos lá para o outro lado, estava já há duas horas à espera uma pessoa que nós também contratamos para nos fazer o país inteiro de jipe.
A Jordânia.
Foi lindo. A Jordânia é lindíssima.
É?
É. Nós fizemos de sul a norte. Passamos o deserto de Wadi Rum, eles até dizem que é o deserto da Lua. Nós dormimos lá uma noite, mas aquilo tem muito boas instalações, numa cabana, mas fomos sempre só os dois. E depois subimos, fomos a Petra e apanhamos o avião em Amã, passada uma semana e meia, mais ou menos. Mas andámos sempre com uma pessoa. Aliás, no dia dos meus anos, normalmente a gente costuma fazer uma viagem no dia dos meus anos. No dia dos meus anos, eu jantei em casa do Ahmed, que é uma pessoa que ainda hoje falo com ele na internet.
Sim.
Ele sabia que eu fazia anos naquele dia, ele andou conosco e levou-me à casa dele jantar. Jantámos frango com arroz à mão, sentados. Foi uma experiência brutal.
Uau, isso é que é imersão ali no país. Incrível, não é?
É o que nós gostamos também. Eu mais.
Tu mais do que a Ana. Ana, tu, como é que é?
Eu também sou, mas nunca por minha iniciativa.
É, mas cuidadinho, não é?
Pois é.
É isso. Muito bem.
Sim, eu também.
Não, eu só não tenho tanta vontade, às vezes, de falar com as pessoas e me meter nessa-
Sabes, eu sempre achei, e cada vez mais, e às vezes é difícil para mim, que todos nós temos defeitos, mas simplificar, muitas das vezes, até no teu processo diário, é fundamental. E na viagem, quanto mais tu simplificares, mais tu consegues, mais experiências vais conseguir ter. Claro que não podes pensar que és o rei, mas se simplificares-
Na ligação com outros.
Exatamente. Se fores simples na comunicação, na ligação, e se tentares sempre resolver o problema a bem, eu acho que é difícil tu teres um problema.
E assumir. Isso também é importante. "Olhe, preciso da sua ajuda, estou com problema". Isso é importante, não é?
Sim, exatamente. Tu, por exemplo, entras num país, chegas lá, às vezes já me aconteceu ir irritado com alguma coisa, chego lá, sou queimado logo à entrada, por exemplo, a fazer taxa de intercâmbio, do câmbio da nota, fico logo chateado. Mas o que eu vou dizer àquela pessoa? Eu se calhar já disse algumas vezes: "Vocês são uns ladrões", entre aspas. Mas se calhar não falo com ele, vais para ali. Nós temos que nos adaptar. Eu acho que a viagem ajuda-nos pessoalmente na tua adaptação à realidade e na tua simplificação do processo, porque tu se simplificares o processo, na tua vida como na viagem, é muito mais simples e as coisas têm tendência a correr sempre muito melhor.
Muito bem. Meus amigos, temos que simplificar porque estamos a chegar ao final do programa. Vamos fazer check-out. Então vou pedir-vos para completar as habituais frases. Ora, na minha mala, portanto, na vossa, na nossa mala, vai sempre o que é que vai, Ana?
O básico.
O básico. Não viajam com muita carga?
Não. E então com os miúdos, menos ainda.
A viagem com mais peripécias que realizaram, qual foi?
Olha, foi a Cuba.
A Cuba.
A Cuba? Então.
É verdade.
Não conseguimos o visto para o Canadá, para o Vítor. O meu veio logo, o dele nunca veio e até hoje não tivemos uma explicação bem baixada.
É porque nós íamos fazer escala em Toronto, e então nós não conseguimos o visto.
Então, mas espera lá, iam para Cuba?
Nós íamos para Cuba.
Via Canadá.
Via Canadá. Chegamos a Lisboa, eu não tinha o visto, eu não consegui online, mas como aquilo era só de transição, nós fomos à confiança, mal, mas pronto. Fomos, chegamos a Lisboa e eles tiveram a ver, "isso não pode ser". Nós fomos com quatro horas de antecedência. Chegamos à hora do voo, "olha, vocês não podem embarcar". Tivemos que ir embora, só que eu como ia para Cuba, nós íamos fazer um cruzeiro, que é uma coisa também porreira, foi uma experiência bonita, nas Caraíbas. Nós tínhamos lá três dias, ele estava parado lá três dias. Então nós decidimos voltar para Vila Nova de Poiares e no mesmo dia-
Um amigo nosso
...conseguimos arranjar, exato, através de um amigo nosso, que é o Carlos Marques, que é um Marquês que trabalha numa agência de viagens. Então ele arranjou-nos um voo de Madrid para Miami. Nós pedimos o visto para os Estados Unidos e fizemos por lá. Até agora nunca ninguém me disse o porquê.
Mas chegaram a Cuba?
Chegámos a Cuba.
Não foram via Canadá, foram via Miami.
Agora conhecemos o Canadá.
Exatamente, mas ninguém me respondeu. Já mandámos e-mails.
Está lá perdida a tua folha algures.
As meninas do Canadá.
A recordação de viagem mais cara, onde é que perderam a cabeça, Ana e Vítor?
Perder a recordação, se calhar só se foi em Singapura.
Pois, exatamente.
Então vá, conta.
Marina Sands Bay.
Marina Sands Bay. Acho que a nossa loucura.
É um hotel que tinha, na altura, a piscina mais alta do mundo.
Já sei, aquela que é um corredor de vidro entre duas torres. É isso?
Estamos a falar de 250 € que foi só uma noite.
E nadaram lá em cima?
Não, mas espera, nós como portugueses comprámos no Booking a mais barato e depois chegámos lá e fizemos o choradinho e depois pegámos o elevador e fomos ao 50º andar.
E nadaram na piscina?
Nadámos, claro. De dia e de noite.
Com óculos de mergulho a ver cá para baixo?
Óculos de maximvisão, exatamente.
Ele é esperto, Vítor, faz publicidade. Mas aquilo deve ser assustador, não? Nadar lá em cima.
Não, aquilo tem uma barreira. Não vimos propriamente cá para baixo.
Pois, eu sei. Quer dizer, mal fora. Eu, por exemplo, tenho vertigens, acho que ia tremer todo.
Provavelmente não se chega mesmo lá à bordinha, porque tem sempre ali zonas de proteção.
Nesse aspeto eu também tenho, agora já menos, mas também tenho e não faz problema nenhum.
Muito bem. A refeição mais estranha que comeram, qual foi?
A última foi aqui o tubarão na Islândia.
Exato. E gafanhotos na Tailândia.
E rena na Finlândia.
Rena? Essa ainda nunca tinha aparecido aqui, acho eu. Rena é bom, Ana? Tem rinho?
Sim, é estranho. É uma carne, mas assim uma carne mais agreste.
O saber que estás a comer uma rena torna a coisa mais...
Pois, também.
Talvez. É mais ou menos como cavalo, também.
Pois, isso cavalo nunca provei. Agora na Islândia havia muito também.
Pois. Gostavam de viajar com quem?
Com a família.
Com a família. Muito bem. Estamos a chegar ao fim. Que música trouxeram para fechar a conversa do fim do mundo desta semana, Ana e Vítor?
Os Coldplay.
Boa. Já têm bilhete?
Entrar em polémica.
Já têm bilhete ou não?
Não.
Não.
Hão de arranjar.
Obrigado pelo convite.
Muito bem. Como é que se chama a música?
"Sky Full of Stars".
Muito bem, "Sky Full of Stars". E ias a dizer, Vítor? Rápido, vá lá.
Muito obrigado pelo convite.
Ora essa.
Obrigada.
Gostámos muito de falar contigo.
Foi uma ótima conversa.
Muita saúde para continuares com este projeto fantástico.
Obrigado e para vocês também. Continuem a distribuir óculos pelo mundo e continuem a viajar. "Sky Full of Stars", dos Coldplay, a fechar a conversa do fim do mundo desta semana. Vítor e Ana, muito obrigado.
Obrigada.
Obrigado.
Regressamos na próxima semana neste horário, até de hoje a oito dias e já sabem, sejam bons e boas viagens.