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Ninguém está a ver nada quando está muito doente. Não consegue mesmo ver. Não é só nas adições, mas em muitas outras patologias da saúde mental, da doença mental. Aqui estamos a falar de doença e não de saúde.

Exatamente. Indescritível, o sofrimento.

O que é muito bonito é ver quando o trabalho é feito e aceito, e isso consegue e se resolve, a felicidade e a gratidão de um adicto não tem igual.

Em Portugal, já sabemos que juntar a cultura, desde sempre um parente pobre das nossas políticas, e a saúde mental, outro parente pobre, tem tudo para correr mal. Mesmo assim, há quem lute contra a maré ano após ano. Prova disso é o Festival Mental, Cinema, Artes e Informação, que arranca já amanhã em vários espaços da capital e estende-se até domingo. Este ano assinala-se uma década deste projeto cultural pioneiro, dedicado à promoção, prevenção e combate ao estigma em saúde mental, através da cultura, que é hoje reconhecido cá e lá fora pela sua consistência, longevidade e relevância pública. Para saber tudo, vou falar com a sua fundadora e diretora artística, Ana Pinto Coelho, dona de um percurso profissional singular, com décadas de experiência e que cruza três áreas fundamentais: cultura, comunicação e saúde mental. Graças a ela, há uma década que o Mental acontece. Olá, Ana, e bem-hajam por ter aceitado este meu convite. Bem-vinda à Rádio Observador.

Muito obrigada pelo convite. Olá.

Reparaste que esta não foi inocente, esta palavra final.

Não foi, o "acontece" não foi nada inocente.

"Acontece", nada inocente. Por quê? Porque é interessante. É para te dizer que há dois anos, quando falámos da oitava edição, esteve cá o Francisco Costa, que era editor, jurado e curador do Festival Mental também. Veio cá falar do Mental. É a segunda vez que falamos dele. E tu nasceste aqui bem perto, em Alvalade. E não foi inocente o festival acontecer por causa de ti, porque tu és filha do Carlos Pinto Coelho, o maravilhoso Carlos Pinto Coelho, icónico jornalista de cultura. Teve este programa fantástico, quase 10 anos, entre 94 e 2003, que foi depois diretor de programas, andou pela TSF, pela Comercial, pela Antena Um, pela RTP, muitos anos. Como é que ele reagia, Ana, àquele boneco que o Herman José fazia dele? Sabes que outro dia tive cá o Frederico Horado, que é filho do Lauro António, e também lhe perguntei isso. Ele gozava com ele, o "Let's talk at trailer", aquele Lauro débil.

Lauro débil, é perfeitamente isso.

E o Frederico dizia: "O meu pai adorava, ria-se, brincava com ele, convidou o Herman para umas coisas e entrevistavam-se mutuamente". E o teu pai?

Era a mesmíssima coisa.

Que ele também fez coisas a imitar o Acontece.

Também. Também era aquela do lançamento do livro e agarrava nos livros e atirava para o chão.

Exato, um lançamento mesmo, literalmente.

E depois a coisa de pôr os óculos e tirar os óculos.

Muito engraçado. E a coisa de África e a maneira de falar. Era giro, porque o teu pai tinha feito lá a tropa. Tu também viveste uns anitos em Moçambique com os teus avós, por pouquíssimo tempo. Tinhas quatro anos?

Tinha três, quatro e cinco. Sim, porque eu comecei a fazer a primeira classe já em Portugal com cinco anos, na altura que isto era possível.

Sim. Senão entrarias aos seis no normal.

Exato.

Mas tens memórias de lá ou não? Tão novinha, ainda tem. Consegues?

Tenho uma memória muito forte. Tenho duas muito fortes. Uma é de estar ao colo do meu avô, que era juiz lá.

Sim. E a avó era escritora, jornalista, extraordinária.

E a outra é de estar sentada exatamente na Rádio Clube e ela levar para o Teatro em Sua Casa, que era o programa que ela fazia. E de eu ir para lá a cria.

Que bonito!

E tenho uma terceira, não sei por quê: gafanhotos.

Que giro. Muitos?

Muitos gafanhotos.

Por quê? Existiu alguma nuvem daquelas pragas, de vez em quando?

Mas eu não faço ideia, nem sei se isto não é depois de contar em sonhos, se foi mesmo real. Mas é gafanhotos, é o avô e é a avó.

Que giro.

E pronto, são as memórias. É o quê?

Tu tens várias vidas, Ana. Eu pus aqui: vida zero. Direito. Tu tinhas um avô juiz, frequentaste dois anos o curso de Direito na Católica. E é muito engraçado, porque o teu pai é a mesma história. O teu pai também se conta que ele, a poucas cadeiras de terminar o curso, reprovou uma coisa que era o Direito das Sucessões, e ele achou tão injusto que saiu do curso e, no ano em que nasceste, entrou no Diário de Notícias.

Exatamente no meu ano. Ele costuma dizer que subiu as escadas do Diário de Notícias e nunca mais desceu as da faculdade ou vice-versa. Era mais daquela. No meu caso, eu durei menos tempo, eu resisti menos em Direito. Se bem que ainda tenho colegas e ainda me dou com colegas da altura e tudo, da Católica.

Viste que o Direito não é justiça. Achei linda esta frase.

Foi tal e qual isso, quando percebi que o Direito não era justiça. E vai muito também com a cadeira de Direito Constitucional, que eu não gostei absolutamente nada, na altura, já.

Ok.

E tinha o Jorge Miranda como professor, eu tinha assistências.

Constitucionalista, claro.

Tinha os melhores professores ali, não tinha a ver com os professores. Não eram os professores para mim. Ou eu não era a aluna ideal para aqueles professores.

Sim, ok. Não se enquadram.

Eu já na altura estava a querer fazer as minhas coisas, a trabalhar, a fazer conferências sobre cultura à maneira como era.

Era, já?

Eu entrei na faculdade com 17 anos.

Faz novinha.

Mas já na altura. E depois houve a passagem imediatamente para conhecer o David Ferreira e o Valentim de Carvalho e começar a fazer os meus primeiros concertos e tudo isso. Isto foi tudo muito rápido.

Sim, porque eu tenho aqui, essa era a vida zero de Direito, mas a vida um tenho aqui: publicidade, comunicação, produção, road manager. Portanto, tu entretanto foste para o IAV e depois fizeste uma outra formação em comunicação, cultura e produção. Mas estiveste 23 anos ligada à Única, esta agência de comunicação e produção de eventos que tu tinhas. Extraordinário. Dos anos 80, 90 até 2000, foste road manager de artistas e bandas, quando ninguém era e muito menos uma rapariga.

Ora aí está.

Eras uma lança.

Eu não sei escrever, porque se eu soubesse escrever, um dia escrevia um livro sobre isso. O que é que era ser road manager nos anos 80. Road manager e produtora.

É que ninguém está a ver, é engraçado. A gente associa logo a ser um homenzão daqueles de blusão e de mota.

Havia mais outra, havia a Mafalda com os Trovante, a Mafalda Freire com os Trovante, e a Né com a Lena d'Água, também.

Ok.

E pronto.

A Né, certa Né? Né Ladeiras, não?

Né Cordeiro.

Cordeiro. Está bem.

Né Ladeiras era a artista.

Era uma voz linda.

Mas de entrar e pop rock efetivamente não, eu era a primeira pessoa. Ainda por cima essa pequenina, magrinha, então na altura aquilo era...

"O teu pai não pode vir? Por que é que foste tu?" É extraordinário. Também tens aqui umas colaborações na televisão, programas sobre música ou uma série para crianças. Isto aconteceu? RTP?

Sim, RTP 2. O programa "Haja Música", que foi antes do "Viva a Música". Normalmente fala-se mais do "Viva a Música". O "Haja Música" não era um top, era um programa mesmo de música e nós fazíamos de tudo, até reportagens de rua. Muitos dos videoclipes na altura que ainda não haviam, porque nem toda a gente tinha dinheiro ou podia fazê-los. Faziam-se no nosso estúdio. O nosso primeiro realizador do "Haja Música" foi o Nico, Nicolau Breyner.

A sério?

E nós andávamos por aí a fazer tudo, mas turnés com as bandas, fazíamos tudo e mais um bocado. Não sei como é que havia tempo para isso.

Isto coisas à Ala Magna, o primeiro concerto pop rock no Coliseu de Lisboa e depois foste ao Rivoli ou Coliseu do Porto e Teatro Circo de Braga, não sei o quê. Muitas promoveste tu e estreaste tu com as tuas bandas.

O primeiro concerto que produzi na minha vida foi em 1984, Ala Magna, Jorge Palma, com o "Lado Errado da Noite".

Incrível.

Foi a minha primeira produção.

Ele e um piano no palco?

Não, também teve o Cor da Globe, quem tinha foi que eu já fui uma grande produção na altura.

Estou a ver.

Foi. Mas fazíamos tudo de uma ponta à outra, éramos duas pessoas.

Mas trabalhadoras, incansáveis, tu come em 10 hoje.

Sim.

Incrível.

O GNR foi diferente, porque o GNR fez primeiro o Psicopátria no Vox Mania, que entretanto ardeu, e já na altura aquilo encheu de tal maneira que nós dissemos: "Vamos tentar fazer um Coliseu". Nunca ninguém tinha feito pop rock no Coliseu. Não havia tal coisa. Então eu lembro-me dessas primeiras reuniões no Coliseu, até depois no Pavilhão Carlos Lopes com os Sons do Parque.

O Coliseu era da família coisa?

Eu já nem tenho memória com quem é que falei.

É porque durante muito tempo é do mesmo do Covões, era da família Covões.

Eu não sei se na altura aquilo já era do Álvaro Covões, não sei se era da família, sei que tive que convencer, porque não se fazia espetáculos rock no Coliseu, por vários motivos, até de engenharia, tudo nos saltou para cima.

Acústica.

Nós dissemos: "Não, isto é possível". E fez-se efetivamente. Agora, que era que 20 minutos, um quarto de hora, 20 minutos antes não havia quase bilhete nenhum vendido. E eu estava sentada nas escadas, literalmente, eu e o Manuel Jorge Roque na altura, os dois. Eu já chorava: "Como é que eu vou pagar isto tudo?" Porque tínhamos dado o litro em termos de cenografia, de ter um PA pendurado pela primeira vez em Portugal. Isto agora é tudo absolutamente normal. Na altura nada era normal.

Claro.

E naquele quarto de hora tão pequenino, encheu-se o Coliseu e fez história. Foi capa da Capital no dia seguinte, fez história no Coliseu, disseram. E nós sorrimos tanto e que bom que foi. Claro que depois GNR fizeram estádios e tudo isso, mas aquele concerto para nós foi muitíssimo especial.

Este foi o Jorge Palma, o primeiro?

O primeiro foi Jorge Palma. GNR já foi depois. E depois houve o Rivoli com o Ping Vargas e tudo. Houve muito.

Ping Vargas, dos poucos que eu chorei no Coliseu. E acho que foi no Coliseu, por acaso, no de Lisboa, que chorei imenso num concerto dele, pela beleza daquilo, mas isto é outro assunto.

As "Folhas Novas Mudam de Cor", aquele álbum. Lindo.

Deslumbrante.

Lindíssimo.

Em cima quase é instrumental tudo, mas tão bonito, e aquela acústica, tudo aquilo.

Tens a certeza que foi na Ala Magna?

Não, não tenho a certeza. Podia ser, por acaso. Mas lembro que me vi às lágrimas.

Ficou lindíssimo.

E depois tinhas os Ban. Eu gostava tanto dos Ban, o Mundo de Aventuras e aquelas todas, e o filho do futebolista. É engraçado, aliás, a tua mãe, Otília, morava em Macau e levaste-os lá. Conseguiste fazer uma turnê dos Ban.

Macau e Hong Kong.

Macau e Hong Kong, é extraordinário. E tu falas de anos 80.

Sim, essa era a minha vertente road manager. Havia a vertente produtora, a vertente road manager, a vertente agente. Isto fazia-se um bocadinho de tudo. Mas andei realmente com muitos grupos e na altura foi muito importante, foi um desvio, tudo isso. E tudo isso acabou por ser um balão de ensaio para muita coisa.

E tu és uma mulher para outras ações, para começar estas grandes iniciativas, tu és boa nisso. Gosto de começar e eu gosto muito que tenhas essas ideias e: "Isto vai acontecer. 'Ah, mas não é possível'. Vai acontecer. Pronto, não há impossíveis para mim, eu vou conseguir". Mas depois não é só isso, Ana, uma coisa que eu admiro muito em ti: a consistência. Porque depois ficam. Às vezes há grandes eventos, acabou, morreu e já ninguém sabe depois retomar. E tu não. E isto está aí há 10 anos, estamos a celebrar a década, mesmo com pandemias no meio, é a década e tu continuas os projetos, isso é muito importante. Não abandonas.

Eu não começo nada se eu não vir, pelo menos para mim, tem que fazer sentido é para mim, depois o resto já não me interessa.

A continuidade, assegurar essa continuidade.

Tenho que ter a certeza que é consistente, porque senão não vale a pena, eu acho que é um gasto de energia, pelo menos para mim.

Não, quer dizer, é um gasto de energia, mas há pessoas que se contentam com isso. "Ah, pronto, o que é que eu vou agora estudar? Vou começar outra coisa, porque acho que só estou excitado".

Então, na saúde mental, meu Deus, mas quantos projetos eu já vi começar e acabar. De todo tipo.

Tu, a propósito de viagens, tu tens uma filha, uma das tuas filhas, não sei se é a Sara, que está na Dinamarca, é possível?

Na Dinamarca, sim, a Sara.

Pronto, tu vais visitá-la de vez em quando.

Já me fez avó.

É verdade, a tua irmã tinha cinco anos.

Tem cinco anos o Nuno.

E viagens, a Europa é quase tudo igual, dizes tu. E esses festivais que tu vais em Barcelona, Atenas, Perugia, Itália, são festivais do género, porque há vários, do género mental também. Não é festivais de música.

Não, não todos. São festivais de saúde mental e arte. E que geralmente a gente faz no contexto de projetos da União Europeia, seja eles Horizon, seja eles Erasmus+.

Erasmus+, não é? É um projeto mesmo. É tua internacionalização, digamos assim.

E já fizemos vários projetos. E depois há a Faria e Simões, na Croácia, em Itália, na Dinamarca, na Espanha, na Grécia, então já fomos várias vezes com o Éder, trabalhamos muito. E isto é muito interessante, porque eu gosto de ver outros balões de ensaio e também ver outras coisas mais consistentes, dos quais eu noto que o nosso festival mental português não é tão semelhante com o deles. Talvez seja mais semelhante, assim gostava que fosse, hei de ser um dia, com os escoceses.

Exato, foi a tua força inspiradora. Scottish Mental Health Arts and Film Festival.

Porque eles têm cinema como nós, os outros não têm cinema.

Ok.Está bem. Mas tu não és só um festival de cinema, já lá vamos. És muito mais do que isso. Muito bem, eu não posso passar para essa parte sem te falar do Chile. Obviamente. O Chile foi a tua viagem deste ano, março, abril. Foste ao deserto Atacama e isso é tudo sonhos para mim. Patagónia, Los Lagos, este atravessio do país, vulcões ativos, as lagoas lindas da água azul, eu vi pelo teu Instagram. Extraordinário! Puerto Varas, Frutillar, o vulcão Osorno, a Concágua, tudo isto tu vês até do avião com sugestões ótimas. Ponham-se lá direito do avião quando estiverem a ir, porque é de lá que se vê os Andes no seu esplendor máximo. Este país não te abriu os horizontes e o universo tudo é possível?

Só falar disso eu fico arrepiada, literalmente. Porque, para já, não foi previsto, não foi uma viagem daquelas que eu: "Um dia quero ir ao Chile" ou é um destino. Nunca na minha vida. Aconteceu que a minha filha Catarina ia para lá e disse: "Olha, mãe, eu vou, porque preciso de pensar".

Então ela que está nas trofias, no barco e nos ferries é ela.

Ela é que está. Ela vai na sua qualidade de antropóloga e de mulher de cinema também, porque tirou o curso aí de Porto do Cinema. Nestas duas coisas, disse: "Mas eu vou contigo, eu tenho um festival para fazer em maio, isto vai ser muito complicado. Mas já agora, se for em maio, eu vou, eu posso, eu vou". Porque tudo para mim são experiências que eu depois posso trazer para o trabalho. Porque tudo isto, a vida e os seres humanos. Quanto mais a gente está fechado numa bolha, menos eu acho que estou a aprender e melhor trabalho estou a fazer se for para fora.

Exatamente. Rasga-te o olhar, abre-te o horizonte.

Nunca dera o destino e agora eu digo: quem puder, vão, mas vão mesmo. Porque o Chile, para já, eu agora estou com vontade de voltar. Não se conhece no mês, dois, três, se calhar nem no ano.

É gigante.

É gigante. Se eu dizia sempre, e é verdade, que Portugal é tão pequenino e com tanta paisagem tão diferente, tão bonito, isso é mesmo verdade. Agora, aquilo é de tirar o fôlego, porque não há palavras. E quando a pessoa está, por exemplo, junto a um iceberg, eu anda preocupada também com esta questão das alterações climáticas, a consciência também no efeito ambiental.

Perito Moreno, viste aquilo tudo, aqueles glaciares.

E estamos a chegar ao Perito Moreno. Ver aquilo tudo tão brutal, lindo. E vai um barco com as pessoas todas e como é que é possível toda a gente se cala de repente quando aquilo que nós não estamos a ver, de repente ouvimos do lado de lá, colossal, ouvires assim: que é o gelo a derreter, que não acontecia antes. Fica tudo arrepiado, tudo calado, porque ali não é só bonito e o lado tudo aquilo é absolutamente brutal, como digo, não há palavras. Mas depois ouvir o que está a acontecer, ouvir, aí é que são os sentidos todos, deixa-nos realmente a pensar. Mas além disso, o deserto, depois não tem nada a ver, a própria Patagónia é enorme, não dá para conhecer de uma maneira, lado chileno, lado argentino. E as pessoas.

Gostaste imenso?

As pessoas chilenas são incríveis. Aí é de uma ponta a outra. Deve estar no ADN deles, eventualmente, serem assim naturalmente simpáticos, ser sempre: "Bem-vindo, como estás?" Mas é um bem-vindo genuíno.

Esse povo, tu falava muito deles, o Butch Patton falava muito deles. Supersimpáticos estes indígenas.

Passa para o lado da Argentina, já não senti nada disso. Só mesmo aquele Chile e chega. Como no Brasil, também já não senti da mesma maneira. Eu costumo achar que cada viagem é uma viagem. Tu vais lá, vais ter a tua. Eu vou, tenho a minha, a pessoa que está aqui ao lado, técnicos ou o que for, vão ter a deles.

O que nos impacta de maneira diferente, também são as pessoas diferentes.

Mesmo que estejamos no mesmo sítio, à mesma hora, no mesmo momento, a ver a mesma coisa.

Exato, é incrível. É fantástico, fiquei cheio de inveja. A tua outra vida, terapia. Portanto, terapeuta, conselheira em adições, aos 40 anos, decidiste tirar este diploma e que é, aliás, uma profissão inédita em Portugal ainda, aconselhamento em dependências. Portanto, dependências químicas e comportamentais. Tu dizes que aqui deu-te uma grande estaleca também de vida e que ouviste coisas dramáticas que não há nenhuma ficção que consiga descrever. Só mesmo em filmes de terror. Não vou sequer falar disso. Mas quer dizer que se tramam pelas tuas mãos vidas completamente desfeitas por causa destas dependências, sem verem fim do túnel.

Sem verem. O trabalho é exatamente tentar explicar e ver que eles não estão a ver nada, ninguém está a ver nada quando está muito doente, não consegue mesmo ver, não é só nas adições, mas em muitas outras patologias da saúde mental, da doença mental, aqui estamos a falar de doença e não de saúde.

Indescritível. O sofrimento.

Mas o que é muito bonito é ver quando o trabalho é feito e aceito e se consegue e se resolve, a felicidade e a gratidão de um adito não tem igual. Isto é das coisas que mais preenche.

Da sua vida?

E mais esta coisa da esperança e de conseguir transmitir isto ao outro. Tu és capaz, claro que tu és capaz. Mesmo quando parece que está tudo perdido, quando está tudo escuro, não há mesmo nada.

Essa luzinha lá ao fundo.

É um dia de cada vez, literalmente. É um dia de cada vez, cada dia é uma conquista. Obviamente que depois há toda a parte de trabalho para fazer, muitas vezes com internamentos, obviamente.

Exato. Com recaídas, com coisas.

E depois recaídas, e depois o pós-tratamento, e tudo isso. Não, mas outra vez, coisas de história de vida que me interessa realmente mesmo muito e sobretudo se eu posso ajudar e se eu consigo ajudarNão há nada mais bonito.

Por isso é que tu és importante. Esta terapia e este curso são muito importantes. Fazer esta divulgação é muito importante, este addiction counselling que tu fizeste na Universidade de Oxford. Porque, de facto, há muita gente, e o que mais me custa é que muitas vezes são doenças escondidas. As pessoas não falam disto, como tu dizes. Até os homens, sobretudo os homens, não falam disto, mas sofrem disto e sofrem muito, Ana.

E em silêncio.

Não veem o fim.

É em silêncio e silencioso, se passar redundância. E depois há esta questão que tem a ver realmente com a profissão, porque o counselling, a figura do conselheiro em Portugal continua a não existir. É incrível, mas continua. Nós vemos em todos os filmes counsellor, counselling, isto existe em todo lado, aqui continua, não. Eu tentei perceber porquê, na altura.

Isso envolve com quem? A Ordem dos Psicólogos?

A Ordem dos Psicólogos não é, até falei com eles na altura. Já nem é o Ministério do Trabalho que trata de profissões agora, é a própria Assembleia da República que trata disto tudo. Se fores a qualquer centro de tratamento de adições, tem conselheiros lá dentro, que assim se chamam, conselheiros, mas não têm profissão. Portanto, isto não está com reconhecimento, o que é grave, duplamente grave. Ou seja, um conselheiro depois não é contratado. Não temos trabalho, porque ninguém sabe procurar um conselheiro.

Nem tem código nas finanças.

Não, não tem, mas eu estou sempre a ser os outros, é o que eu costumo dizer. Quando comecei a trabalhar em comunicação e havia comunicação, não havia a profissão da comunicação, havia publicidade e depois nas finanças, outros. Na saúde mental também não há conselheiro ou psicólogo.

Foram sempre outros.

São sempre outros. Eu passo a vida a ser o outro. E o psicólogo não faz o papel do conselheiro, são lenços completamente diferentes.

Claro que sim, são coisas diferentes.

E eu acho que muitos psicólogos-

Não se substituem. Complementam-se, mas não se substituem.

Tem, ouvi dizer também que tanto no ISPA como na Faculdade de Psicologia já dão também as adições e tudo, mas lá está, é sempre da vertente da psicologia, que é diferente. É muito diferente. Isto estava poupando para mandar junto.

Exatamente. Ana Pinto Coelho, vamos fazer aqui um brevíssimo intervalo, já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com a terapeuta e programadora cultural Ana Pinto Coelho. Ela é fundadora e diretora artística do Festival Mental, dedicado à promoção, prevenção e combate ao estigma da saúde mental através da cultura. É isso que é extraordinário aqui. Eu ia dizer que continua a ser um bocadinho um estigma. Tu depois tiraste outras formações, deste consultório Safe Place, outras formações a nível da psicologia relacional, caminhada para a recuperação, até ao socorrismo fizeste. Existe este estigma da saúde mental, anda de braço dado, como tu dizes, com o ouvido das pessoas. As pessoas, é uma frase tua, não sabem ou não se apercebem destes problemas até que um dia atingem o fundo do poço. E de facto, nós vivemos, uma vez disseste isto, de braço dado com a saúde mental e com problemas mentais, e mais tarde ou mais cedo a gente apercebe-se, outras vezes não se apercebem, mas passa por toda a gente. É verdade. Portanto, por que ainda é tão aquela coisa do: "Ah, é doente mental, não se fala".

Porque é que ainda se separa saúde, saúde mental, começa logo por aí.

Exatamente.

Não há saúde sem saúde mental, é um clichê.

A Organização Mundial da Saúde diz isso.

Mas é verdade.

A saúde mental passa por tudo.

Por todos. E quando estamos aqui no festival em particular, falamos de saúde e não doença, isso é sempre importante dizer, porque depois há as patologias e tudo isso é todo um outro capítulo. Agora, o que importa, o que se tenta fazer realmente o mais possível é fazer a promoção, a prevenção e o combate ao estigma e iliteracia. Porque aquele slogan, que vem já desde 2017, quando criamos o festival, que é: "Como se está a sentir?"

Ah, sim.

E depois: "Pense, fale, saiba, reaja". Isto, para mim, enquadra o que é uma saúde mental. É analisarmos, pensarmos, dar-nos um bocadinho que seja como é que estamos a sentir. Pense, fale, saiba e depois fazer alguma coisa sobre isso, mas com literacia, porque lá está. Saiba. Com isto tudo, são quatro palavras. Eu acho que esta coisa veio-me assim muito rápido, este slogan. Talvez venha da parte do marketing.

Funciona. Sim, exatamente.

Isto acaba por se juntar.

Como copy.

Mas continua a funcionar, porque efetivamente há como tomar conta de nós próprios, olharmos para nós próprios, só que isto anda tudo tão a correr, mas ainda assim, e graças às viagens, até em Portugal, eu noto uma disparidade muito grande entre o que é estarmos a falar em grandes cidades ou estarmos a falar no interior.

Pois, porque o festival também é altamente a itinerância, normalmente são mais pequeninas, dois dias, desde Vila Pouca de Aguiar ao Porto, a Barcelos, Castelo de Vide, foste a Oeiras, onde eu moro, Funchal, Ponta Delgada, também foste às ilhas. E o teu objetivo é fazer maior cobertura interior, litoral, ilhas, às escolas, como também fizeram com Leiria, por exemplo, além da internacionalização, já fazem com o Erasmus+ e o Horizon, projetos financiados pela União Europeia. Mas de facto, esta itinerância era importante e sei que tens este sonho de fazer isto. Todas as capitais de distrito iam ter um núcleo do Festival Mental, não era? Era um sonho?

Isso é que era sonho, mas é desde o dia um. Eu chamava a isto turnê do Festival Mental, ou seja, começar ou terminar em Lisboa, como faziam os dos anos 80, agora já não sei se é bem assim.

É tão importante isso.

Mas é fazer isso. Porque nós temos que ir ter com as pessoas.

Entre a gente vem a Lisboa e ao Porto facilmente.

E temos que ter programação adequada a cada local onde vamos. Não pode ser a mesma coisa que estamos a apresentar aqui em Lisboa.

Pode não dizer tanto a uma pessoa de Bragança ou de Lagoa.

Nada, mas é que eu tenho a certeza que não diz. É tão simples quanto isso. Não diz para nenhum dos targets, nem para os jovens. Estive há pouco tempo também a passar bastante tempo em Miranda do Douro, em Bragança e no Nordeste Transmontano. E estive ali uns dias, vim de lá também outra vez. Eu venho sempre assim. É muito importante sair das bolhas, porque Portugal, eu notei uma distância enormíssima, e não é em quilómetros, entre Porto e BragançaÉ uma distância brutal, que não é em quilómetros.

Sim. E há uma autoestrada que os liga.

É brutal nos jovens, é brutal nos mais velhos, é brutal na maneira como as pessoas vivem.

Em tudo, nos anseios, nos problemas que têm.

Eu quando estava a apanhar um dos autocarros para cá da Rede Expressos, vi, e isto é mesmo verdade, a gente ia no domingo, normal, pelas aldeias todas, havia gente a entrar no autocarro para comprar o bilhete no autocarro. Portanto, isto diz tudo. Tu sabes que já não se vende bilhete no autocarro, quando tu vens no Expresso para Lisboa.

Compras antes na net, por telefone.

Mas literalmente iam ficar apeadas e à chuva, porque não têm como. Ora, isto é Portugal e isto foi este ano.

A pandemia mostrou muito também isso, essas disparidades. Como tu sabes, eu vivi esta pandemia em cheio.

Ora aí está!

Há coisas que melhoraram e as coisas online tiveram que acontecer e forçar um bocadinho para quem não tinha sequer isso, mas veio revelar muitas disparidades e muitas diferenças.

Eu não estou a dizer isso. Eu não faço juízo de valores nenhuns.

Sim, estás a constatar.

Estou só a constatar. E em muito, eles estão, por outro lado, do meu ponto de vista e com a minha sensibilidade, muito mais alfa ainda, porque ainda estão em contacto com a natureza. Estão em contacto com as raízes, estão em contacto uns com os outros. Estão em contacto com aquilo que importa em muitas coisas.

É uma coisa que se perdeu muito nas grandes cidades. Perdeu-se muito essa ligação. Por isso é que há o M-Natura, que é muito importante.

Por isso é que há o M-Natura, que é muito importante.

É uma das receitas deste festival.

E por isso é que se falou tanto da ecoansiedade naquela altura em que ainda ninguém tinha falado da ecoansiedade, porque neste momento é o início de muitos casos de depois desenvolverem ansiedade, depressão e suicídio dentro das camadas mais jovens da Europa.

Eu tive cá um sobrinho meu que está a doutorar-se exatamente nisso, ansiedade climática, na Nova Zelândia, imagina. É psicólogo, foi um dos melhores alunos do ano dele e disse: "Tio, é isso que eu tenho que fazer, porque tu não calculas os estudos que há, por exemplo, com os jovens ingleses que se matam, porque não veem futuro num planeta que os meus pais estão a enterrar."

A grande depressão verde.

A grande depressão verde. Ele diz que é um facto concreto. É preciso mais gente cá. Lá em Portugal, depois alguém vem trabalhar em algum grupo. Aqui em Portugal ninguém pensa nisso.

No festival demos o nosso melhor, nós só podemos dar o nosso melhor, mas nós somos obrigados já há alguns anos. Fizemos um livro, acho que deve ser o único livro que existe, a parte da literatura no festival é das que mais gosto.

Como "As Aventuras do João Gata". É tão bom.

Isso foi "As Aventuras de Mr. X", o primeiro.

Exato. É uma trilogia.

Mas a Paula Vieira de Castro foi quem fez o de ecoansiedade.

Que giro, que ele tinha passado uma depressão e escreveu um livro, todas as manhãs acordava a escrever. Isto é o João Gata. E depois acabou por sair este livro. Disseram: "Não, isto está um livro ótimo". E então publicaram com ilustrações ótimas. E então foi editado com o Programa Nacional para a Saúde Mental. Ele tinha o blog, em 2017. João Gata. E quando diz teu "O Jogo do Veneno", estás a falar em qual? Do Ricardo Araújo.

Eu estou a falar da ecoansiedade. O livro chama-se "Isto não é uma invenção". Exatamente o título, este também é título que eu dei, porque eu disse: "Temos que dizer de uma vez por todas que isto não é os miúdos que são malucos, não são os miúdos que estão a inventar, e que as alterações climáticas não pode ser". Portanto, o livro chama-se "Isto não é uma invenção, é a ansiedade e o futuro do planeta". É assim que se chama o livro. Porque tem que se pôr o dedo na ferida. Eu acho que se deve pôr o dedo nas feridas.

Até para doer e a pessoa perceber que aquilo está ali, é uma corda para a realidade do problema.

Não exatamente, também para as pessoas evitarem esconder, senão aí não estamos a falar para ninguém. Pôr o dedo nas feridas, mas de uma maneira assim, tentar que seja com sensibilidade. Que se consiga chegar às pessoas de uma forma eficiente, pondo o dedo na ferida, mas também sem afugentar. Porque senão não vale a pena, senão não estamos aqui a fazer grande coisa.

Há uma coisa muito importante que este festival mental tem, que é a tua terceira atividade: cultura. Programadora cultural e autora, o que tu és. Por que é importante falar da saúde mental através da cultura? Cultura é uma ferramenta exatamente para transformar a sociedade?

Pode ser.

E por isso é tão importante? É porque, de facto, está provado, foi uma coisa que eu vi no teu Instagram, a arte cura. Isto não é a pessoa dizer isto porque tem um frase bonita que gosta de dizer. Não, são estudos e mais estudos que provam.

Mais validades, tem validação científica.

Ficou provado que a arte cura, que 87% das pessoas perceberam que a cultura melhora a saúde, a cultura cria ligação social, dá voz às emoções, combate o isolamento.

Há países que já estão a receitar.

Como se fosse um remédio, um medicamento.

Exatamente. Tanto a terapia na natureza, como teatro e cinema.

É extraordinário.

É totalmente verdade.

Mas eu percebo isso perfeitamente. Eu acho que isso faz bem nesse sentido. As pessoas, a depressão, a solidão, tudo coisas terríveis. A pessoa se calhar ir de vez em quando, todas as semanas a uma peça, ou ir como faz a Anabela, com os cantores velhinhos em Matosinhos. Pessoas que estavam sem um dos lares há não sei quantos anos e passaram a ir dar espetáculos aqui e acolá com amigos.

Nos nossos palcos, mesmo o grupo de dança do Hospital Psiquiátrico de Lisboa, quando aquilo acaba e fecha o espetáculo, as pessoas em pé a bater palmas, não porque é um pena, nada, porque são coitadinhos.

Porque gostaram do que viram.

Porque o espetáculo foi muito bem feito e por isso estamos cá todos a trabalhar. O espetáculo é realmente bom, é efetivamente bom. Qual é a alegria com que aquelas pessoas saem do palco, num palco que não é dentro de um hospital, que não é numa Gulbenkian, nada de extremos, nem na saúde, nem na cultura. Se eu puder evitar, eu fico sempre grata com o que me dão, obviamente. Mas se eu puder evitar extremos do lado da cultura, demasiado fechados, que pode ser uma Gulbenkian.

Muito nicho, exato.

Por um lado. Ou hospitais psiquiátricos. Mas não, é um festival onde há tantos outros festivais onde acontece tudo absolutamente, entre aspas, normal. A sensação com que saem, nada lhes tira isso. E nada tira também ao público poder assistir.

Isso faz por dentro, transforma as pessoas, transforma-os por dentro.

Absolutamente.

Isso se calhar cura muita coisa e vai ao encontro de lacunas que eles se calhar não sabiam que tinham.

Absolutamente, porque o trabalho antes do espetáculo é todo terapêutico.É os ensaios, a disciplina, é o entusiasmo.

Como está provado que a jardinagem faz bem à saúde mental. O trabalho manual.

Eu não sou a minha doença. Ninguém é a sua doença.

Não te define.

A doença não define uma pessoa.

Óbvio, a arte cura, está provado. Tanto que eu queria deixar isto bem claro. De facto, nós somos campeões no consumo de antidepressivos. Há também um pouquinho desta moda falar sobre saúde mental. Não tens medo que se banalize um pouco esta glamourização? Isso falava o Vítor Couto, aliás, ele está lá este ano, numa entrevista que eu lhe fiz. A glamourização da vulnerabilidade. Ele dizia: "Eu espero é que isto não seja uma moda só". Esta entrevista foi depois da pandemia, mas os portugueses atrasam muito até procurar ajuda e o tempo é saúde. Não aceitam, não percebem a tal iliteracia que existe. As políticas demoram muito neste campo, dizia ele. Estava sempre a cachar nisto. Mas não há muito esta banalização também, Ana? Falar tanto, como se fala hoje, de saúde mental não pode levar a-

No pós-pandemia-

Já nada dói

...falou-se muito, de facto, efetivamente, e nesse aspeto até devemos isso à pandemia. Falou-se. Nós na altura aproveitamos para fazer aquelas conversas digitais, as MTalks4All, as primeiras conversas digitais de saúde mental, onde tivemos 130 e tal entrevistas. Precisamente, não tínhamos nada para fazer. Já que temos as MTalks, vamos fazer as conversas digitais. Não podíamos fazer de outra maneira, sem ser digital. Estávamos todos fechados. E isso deu um espectro também enorme, porque aí convidamos todo o tipo de pessoas do que é o eixo do festival mental. Da área da cultura, da área da saúde, da área de educação, da área da sociedade. Todas estas conversas foram feitas. Depois, no pós-pandemia, sim, efetivamente, começou-se a falar muito mais e agora o que eu temo é que se esteja a falar demasiado e não melhor.

Ah, OK. Às vezes não é falar muito.

E esta preocupação, temo, acho, não posso estar aqui a falar pela Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental, mas penso que o professor Miguel Javieria iria concordar em que falar mais não é falar melhor. A partir do momento em que nós temos contra a inteligência artificial e as redes sociais neste momento, a bombar coisas de saúde mental sem qualquer triagem.

É verdade.

E não havendo qualquer triagem-

Nos Estados Unidos já recomendam miúdos com ideias suicidas que falem com um conselheiro, que não existe, que é virtual.

Qual é o problema aqui? É que as pessoas tendencialmente seguem quem conhecem, as figuras públicas, os atores, os cantores.

Influencers.

Sem falar, os influencers. Muito mais do que vão seguir as entidades creditadas para poder falar de saúde mental, como é evidente. No nosso caso, vão seguir a Coordenação Nacional ou a DGS.

Por isso é que este festival é importante com os testemunhos que vocês têm nas MTalks.

Isto é, tirar um bocadinho desses espaços e ter outras pessoas a falar sobre isto, mas com validação científica sempre. Senão não pisam este palco, não há como.

Isso é muito importante. Há dois moderadores que vêm do Porto, duas moderadoras que vêm para estas MTalks. MTalks este ano estão concentrados na celebração dos 10 anos. Portanto, não há temáticas, digamos assim, como tem havido todos os anos, mas é um caso de vamos celebrar o que tivemos, vamos relembrar, e o dia que era relembrar e aprofundar o que nós já conseguimos ao longo destes anos. Conversas ao vivo, MTalks4All, como houve na pandemia, o Miguel Rico vem, o Vítor Couto viu, Inês Rodes, Catarina Janeiro, a Susana Marvão, por exemplo, são alguns exemplos. Vão ter sempre os filmes que tiveram uma open call também de filmes, não foi? Isto é o MCinema ou o MJovem?

É o MCinema em geral. E depois tem a parte que nós dizemos MJovem, porque é para os jovens e este ano esgotou logo em janeiro, o que foi maravilhoso, porque as escolas aderiram em massa este ano.

Eu adorei esta coisa de uma história mal narrada. Isto é do ano passado ou não?

Não, isto vai começar este ano. Uma história mal narrada vai começar.

É que esta da escola António Roi, do Rui Paulo Silva, que grande filme, coisa tão bonita. A história do Pedro. Eu adorei isto.

Ele vai estar no MJovem também. O MJovem é o nosso internacional de curtas-metragens, mas para os jovens. E depois tudo o resto também acontece. A call geralmente abrimos em junho, julho, por aí. Este ano chegaram-nos 200 e tal filmes.

É extraordinário. Desde o número um, foste subindo e aumentando, é incrível. E vários países e tudo, contribuições.

Vem do mundo todo. Aqui às vezes a quantidade, outra vez não quero dizer tudo, mas a qualidade dos filmes tem sido substancialmente maior e também mais filmes portugueses. E isto tem sido muito importante, é começar a receber mais e melhores filmes portugueses. Porque é importante que os realizadores comecem a pensar nisto, podem, e depois não é só fazerem, é preciso depois um palco para os mostrar. Nós temos essa obrigação de exibir estes filmes, de quem teve a coragem de fazer bons filmes de saúde mental em Portugal.

Este "Perdidos e Achados" é o prémio deste ano?

Sim, senhor.

Isto é checo? É de que país?

É da Polónia.

Ah, da Polónia, pronto.

Sim, ela vai estar cá.

Rezi Znale, Rezi Znalezione.

Não me peças para dizer.

Vencedor da Mostra Internacional, a curta, vencedora da Mostra Internacional de Curta-Metragens, com esta história maravilhosa de uma adolescente que assalta uma casa de um idoso e claro que não espera ser surpreendida e de repente interrompe-o, encontra o idoso e ele está prestes a suicidar-se, enforcar-se na própria casa e perante o inesperado, há uma proposta inquietante. Ela deixa-o fugir e ele vai deixá-la fugir, se ela o ajudar a terminar o que começou. Isto é a coisa mais improvável, mais extraordinária, que faz pensar. O filme está giríssimo, vi este trailer deste filme e fiquei: "Uau!" Fiquei cheio de vontade de ver o resto. Mas de facto é o prémio deste ano.

Muito bonito e é de facto improvável.

As ideias são ótimas.

São. É isto, há que contar as histórias e há tantas histórias.

É tão importante contar. As histórias convencem tantas pessoas, mais do que grandes cursos ou grandes coisas acadêmicas, ensaios. Eu acho imenso isso. Conta uma história e alguém se identifica e diz: "Uau, isto é pra mim".

É isso que está a quebrar o estigma. É exatamente esse o momento em que se quebra o estigma.

É a ferramenta certa, tu sabes.

"Ok, eu estou sentada aqui a ver isto. Mas isto disse-me mesmo muito. Afinal, eu não estou sozinha. Afinal, isto também acontece aos outros". My Story, My Song, que também acaba por ser um bocado isto.

Este ano é com a Maria João.

Este ano vai ser com a maravilhosa Maria João. Vai ser. Muito curiosa de ver o que ela vai contar.

E com o João Farinha, ele é produtor e músico.

Exatamente. Vamos ver que história que a Maria João nos vai trazer.

Pois, porque aqui os artistas e é My Story, My Song, este segmento em que artistas e convidados são desafiados a partilhar uma história pessoal ligada à saúde mental. Portanto, isto terá a ver se calhar com música, vulnerabilidade, partilha de experiências pessoais. É sempre muito interessante este setor também, este segmento. Com Maria João, que é fantástica esta voz única.

É preciso coragem pra fazer o My Story, My Song. É preciso alguém dizer: "Ok, eu vou estar aqui, eu vou subir ao palco e eu vou falar sobre isto".

Eu vou me expor, exatamente.

Exatamente.

M Natura também, aqui na Quinta das Conchas, vai acontecer este respirar, observar, sentir. Às vezes é aí que tudo começa. O ambiente em que vivemos influencia-nos. A evidência científica é muito clara. A poluição, o calor extremo ou o acesso ou a falta de acesso à natureza, tem impacto no nosso bem-estar psicológico. Isto é tão óbvio que temos que dizer, senão as pessoas não se lembram que isto acontece na vida delas. Isto regresso à natureza é uma pontinha que tem o Festival Mental de vamos à Quinta das Conchas, que é bem bonita, ao pé do Monte Colégio. A pessoa pode estarTem um grande espaço onde vai acontecer este programa. Vamos ter este workshop de floresta, ecossistema e habitat. E depois no dia 17-

Mas o M-Natura deste ano vai ter este documentário.

Documentário do MalКарта presente.

Exatamente, que é absolutamente brilhante.

Conversa com os convidados.

Do Miguel Cortes Costa, que é um realizador que eu adoro. Este documentário é tão bonito e tão bem feito. É daqueles que uma pessoa vê e diz: "Que orgulho! Olha lá, é mesmo um realizador português, está a fazer uma coisa de natureza absolutamente maravilhosa".

Sim.

E sobre isso vamos falar também. Depois ter uma conversa tranquila no domingo.

É muito giro esta coisa dos vossos cinemas, também vão sempre com conversas e isso é muito importante. Vamos debater, vamos ver o que vimos, o que vos interpela.

Geralmente, com os filmes nós fazemos o contrário, ou seja, falamos antes do filme e depois as pessoas perguntam: "Mas por quê? Geralmente, fala-se do filme depois". Pois, isso é geralmente.

O Mental não é geralmente, é o Mental.

Não, porque quando vão ver o filme já vão com a cabeça aberta.

E há sempre também humor, não há, Ana?

Nós temos que desdramatizar as coisas se queremos ter alguma conquista, alguma cura ou alguma esperança.

Exatamente.

Porque quando se está em espaços menos bons da vida, às vezes as coisas estão muito duras, são mesmo negras. Uma pessoa não consegue literalmente fazer nada. Não há como. Não vale a pena dizer: "Tem força de vontade, tu tens tudo". Tu até podes ter tudo, tens família, filhos, dinheiro, whatever, mas não é isso.

Pois não.

Isto é só conosco próprios.

E por isso é importante ouvir estes testemunhos, estes convidados, estas histórias.

Muito, porque nós todos somos assim. Nós todos temos uma saúde mental para defender, então é isto que tem que se falar.

Muito bem. Então pronto, amanhã até domingo, já sabe, Festival Mental. Toda a programação a gente pode ver no mental.pt, não é, Ana? Basta isso. Somos à net, mental.pt.

Mental.pt, ou as redes sociais também têm tudo, tanto o Instagram como o Facebook, está absolutamente tudo.

Ana Pinto-Correia, quero agradecer muito a tua disponibilidade em ter vindo aqui. Obrigado pela tua ideia deste festival, de facto, que ilumina a saúde mental. É muito importante, já há 10 anos. Parabéns pelos 10 anos.

Obrigada.

E que corra tudo bem já a partir de amanhã, já depois deste warm up que foi ontem. Até domingo vai haver mais iniciativas. Já sabe, vá ao mental.pt, escolha aquilo que quer ir e aproveite, porque isto toca toda a gente, como a Ana diz, e muito bem. Obrigado, Ana, por teres vindo.

Muito obrigada pelo convite, mesmo.

Obrigado.