Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

O meu convidado hoje é Filipe Mourato Gomes, viajante e presidente da Associação de Blogues de Viagens Portugueses. Ele, na semana passada, fez 50 anos. Nesse mesmo dia, o blog "Alma de Viajante", o pioneiro e mais premiado dos sites de viagens entre nós, comemorou 20. Organiza workshops de escrita de viagens, foi líder de viagens de aventura, tem muita experiência de viagem acumulada, conhece mais de uma centena de países, já deu duas voltas ao mundo, uma delas em família, onde ouviu da própria filha de cinco anos: "Pai, eu não quero morrer". Olá, Filipe, e bem-hajas por teres aceitado este meu convite directamente de Matosinhos. Bem-vindo de volta ao "Observador".

Olá, boa noite, obrigado.

Eu agradeço. Já te entalei. Ainda não começámos a conversa e já estás entalado. E não é só isso.

Essa história tem um contexto.

Claro que sim. Vais ter que explicar tudo já daqui a pouquinho. Para já, devo dizer que tu e a tua mulher Luísa são um autêntico monumento ao desemprego, o que não fica bem. Tu decidiste fazer vida profissional de viajante quando foste despedido há 18 anos. A tua mulher despediu-se para fazer a tal volta ao mundo em família há nove. Parece um primeiro-ministro que nós tivemos, que há 10 anos louvou o João Ricardo Pedro, porque estava desempregado, pôs-se a escrever, ganhou 100 mil € no Prémio Oleia. E estava a dizer: "Olha que boa ideia, e se todos se desempregassem e ficassem muito ricos?"

Por acaso, o mundo dá mesmo voltas curiosas. A Luísa despediu-se para fazer este projecto. Na verdade, ela pediu uma licença sem vencimento e não lhe deram. Ela é jornalista e acabou por se despedir, mas o mundo dá tantas voltas que ela acabou por voltar, no regresso, ao mesmo sítio onde trabalhava. Continua a exercer no mesmo lugar.

Boa, teve sorte também. O mundo dá tantas voltas e vocês realmente foram fazer a volta ao mundo, o que também tem algum sentido. Ontem, e por uma grande coincidência de agendas, o meu convidado foi o Nuno Lobito, que falou muito bem em ti. Diz que para viajar com alguém, ele fez as viagens quase todas sozinho, tem que ser com a pessoa certa. E volta e meia leva um aluno ou outro para dar uma viagem. E o Filipe Mourato Gomes, que diz ele, que foi meu aluno no IF, no IF, no Porto, fizeram um safári de Volkswagen Gol entre o Zimbabué e a Namíbia, África do Sul, Moçambique.

Botswana, Namíbia, sim.

Ele diz que o Filipe nunca vai esquecer essa viagem, é verdade?

O Nuno veio há uns 12, 13 anos ao Porto dar um workshop. Eu tinha alguma curiosidade, já depois de ter feito a primeira volta ao mundo, tinha curiosidade em conhecê-lo. Então inscrevi-me nesse workshop de fotografia durante dois dias, se não me engano, e acabamos por criar alguma empatia. Depois decidimos fazer essa viagem juntos, umas cinco ou seis semanas. E foi de facto uma experiência muito interessante, principalmente na Namíbia com este tribos Himba. Um ou outro safári que fizemos, nomeadamente no Etosha, com o tal Volkswagen Chico, um carro nada apropriado para essas coisas. Mas são essas experiências que acabam por ficar das viagens.

Exatamente. Tu tens este mais antigo site de viagens português, o "Alma de Viajante", é o pioneiro, como eu disse, onde disseste uma coisa que te marca e que está lá, uma coisa que te define esta frase: "Viajar é um prazer, escrever é um estado de alma, fotografar uma paixão". São estes três verbos que formam este teu site, agora o teu blog, onde tu, como presidente desta associação dos blogues de viagens, que acabou de celebrar também dois anos. Isto é um programa de festa, completamente. Mas onde vives, sobretudo, além das dicas, partilha de momentos. Isso é muito importante pra ti, não é?

E o que é engraçado é que essa frase foi escrita na primeiríssima versão do "Alma de Viajante", já no ano 2001, e ainda hoje eu considero, sinto exatamente a mesma coisa, porque continuo a manter o mesmo prazer pela viagem, pela fotografia, pela escrita e tudo junto. O "Alma de Viajante" é um pouco da combinação disso tudo, polvilhado com o meu gosto especial em viagem por pessoas, por mercados de rua, por falar com gente. Basicamente, aquilo que eu tento fazer é contar, por um lado, essas histórias num registo mais crônica. E por outro, também tentar inspirar mais pessoas a viajarem, a seguirem os seus sonhos, porque, na verdade, eu precisei do empurrão, de ter perdido o emprego, de ir atrás dos meus sonhos e aquilo que eu tento fazer também, para além de toda a vertente de dicas práticas, é ajudar mais gente a não precisar desse empurrão para ir atrás dos seus sonhos, sejam lá eles quais forem, podem ser ligados às viagens ou não.

Exato. É incrível porque até este momento o teu blog já conta com mais de 7 mil, se não me engano, artigos publicados. É muita coisa. Longas fotoreportagens, crônicas de viagens mais intimistas, que também tiveste lá uma fase onde chegaste a ter um blog paralelo e depois voltaram a juntar-se. Os textos inspiracionais, como por exemplo, como viajar sozinho ou como viajar com crianças. Deves estar com pena, porque neste momento, se não me engano, há uns meses devias estar na Indonésia com os teus filhos, não aconteceu. Logo que puderes vais repor a agenda como deve ser. Tem muitos roteiros, tem as tais, como tu disseste, as dicas práticas sobre destinos em todo o mundo, partilhas de entrevistas e tem notícias interessantes. Também confesso que aproveito e gosto muito das promoções que tu lanças sobre voos, sobre novas rotas. Isso é muito importante, é sempre uma grande ajuda este teu site e por isso os parabéns também, porque faz 20 anos e está ainda com uma frescura incrível. Mas também tudo que é viajar, é arejar a cabeça, isso é sempre bom. É um tema que é sempre bom.

E deixa-me aproveitar para falar dessa viagem À Indonésia, que tinha uma função específica que está adiada. Como disseste na introdução, eu fiz uma volta ao mundo com a minha filha mais velha, a Inês, que agora tem 13 anos. Nessa altura tinha cinco e nós estivemos cerca de 10, 11 meses a viajar pelo mundo e gostava agora, que tenho outro filho, que já tem seis.

O Tiago.

Teve cinco no ano passado, o Tiago. O verão do ano passado ia ser todo passado numa viagem de todas as férias escolares, não sei se 11 semanas, na Indonésia. E a ideia era precisamente dar-lhe um pouco desse mundo, dar-lhe um pouco da experiência que a irmã também teve, dar a oportunidade de vivenciar isso. É evidente que ele já viajou muitas vezes connosco, mas isto ia ser num registo diferente, ia ser num período de tempo mais longo. Iria ter a mesma experiência de mundo, contacto com pessoas, que a irmã teve. Mas infelizmente, essa e muitas outras viagens foram adiadas.

Ficaram em standby. Exato.

Desde janeiro do ano passado que não saio de Portugal.

Tu e muita gente, mas isso vai tudo voltar. Não vamos desistir e vamos sempre ter esperança. Há só um pormenor que eu gostava de lembrar da tua infância, que é as histórias do teu avô. O teu avô era um homem muito viajado e contava-te histórias incríveis. Isso também te despertava este teu desejo que ficou para sempre e que moldou a tua vida, certo?

É verdade. Eu tenho a sensação que nessa altura, sim, era muito mais aventureiro viajar, não era tão comum. E os meus avós eram os dois funcionários públicos, eles conseguiam juntar as férias todas, iam um mês. Eu lembro de uma vez juntaram as férias de três anos para ir três meses para a Amazônia.

Incrível.

Eu lembro que cresci ouvindo essas histórias da Amazônia, do Transiberiano, do Outback australiano, e aquilo para mim, miúdo, era tudo fascinante e muito novo. Eu creio que juntando todas essas histórias do meu avô, que ele gostava muito de conversar e de contar essas histórias às pessoas, ele colecionava moedas, então fazia 1001 coisas para conseguir ter moedas. Juntando isso com as pequenas viagens que fui fazendo com os meus pais, aquelas viagens mais caseiras.

Sim, Espanha, Sul de casa. Exato.

Sim, ou ir acampar para o Gerês ou ir para o Algarve no nosso Volkswagen carocha, que demorávamos não sei quantas horas.

Estava lembrado das cozinhas XPTO que vocês faziam com o teu tio escoteiro, que incluía bosta de vaca. É impressionante. Quem está habituado a isso.

Não, porque ele era escoteiro, então nós montávamos acampamentos impecáveis, fazíamos bancos de madeira, lava-louças, forno para cozinhar, e os fornos eram revestidos a bosta de vaca. Todas essas experiências eu acho que contribuíram para este desejo de viajar. Mas dito isto, na verdade, eu comecei a viajar mais a sério bastante tarde. Tive um percurso relativamente normal de estudar, ir para a universidade, constituir família, arranjar trabalho. Tinha sempre o bichinho, mas na verdade nunca tive a coragem de dar o passo, me despedir e me fazer ao mundo. Também os tempos eram diferentes, as viagens não estavam tão democratizadas, não havia low cost.

Eram outros tempos, exatamente. Hoje em dia é mais simples.

Mas mesmo assim há coisas que eu me arrependo. Por exemplo, nunca fiz um Erasmus, é das coisas que eu me arrependo de não ter feito.

Ou o Gap Year este ano. Exatamente. Já tivemos cá os convidados da Associação Gap Year Portugal, por exemplo, também era uma ideia que se houvesse tinhas feito, de certeza. Olha, Filipe, nós temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo. Não desligues, continua conosco e já voltamos, está bem? Até já. Estamos a conversar com o Filipe Morato Gomes, viajante e presidente da Associação de Bloguers de Viagem Portugueses e pioneiro com o seu blog "Alma de Viajante". Ele festeja 50 anos, a associação dois, o blog 20. Este é um programa mesmo de festa. Diz-me só uma coisa, Filipe, como é que tu, a viver de um blog de viagens, atenção, tu já tinhas antes de começar o blog, já tinhas feito reportagens, certo? A tua primeira reportagem numa revista de viagens foi sobre as Maurícias, a "Aurela do Índico", chama-se. Isto foi em que ano? Ainda foi antes de aparecer o "Alma de Viajante", ou não?

Foi, esse foi dos primeiros textos que eu depois coloquei no "Alma de Viajante". Eu sempre tive esse tal fascínio pela escrita e pela fotografia. Às vezes tentava, quando viajava, tentava vender às revistas que existiam na altura. Às vezes conseguia, outras vezes não. E essa é curiosa que foi da viagem da minha lua de mel, no ano 2000, que eu ainda fotografava em filme ou em slide.

Exatamente.

E depois tentei vender a reportagem e a Fugas gostou da ideia, do jornal Público. E foi a primeira reportagem de sempre publicada por mim numa revista.

Estamos no ano 2000, nessa altura.

2000, sim.

No ano seguinte então nascia a "Alma de Viajante". Eu queria agora partir para as tuas viagens, mas antes só este pormenor: como é que tu consegues sobreviver? Tu não tens publicidade. Como é que dá para uma pessoa viver de um site? Tu não tens outro emprego. Basta ter este blog de viagens, chega para as contas lá de casa?

Sim, chega.

Isso é impressionante, também.

Neste momento estou a sofrer.

Pois, há um ano que estás parado.

Exato. Como todas as atividades ligadas ao turismo. O modelo de negócio do "Alma de Viajante" é muito simples. Muito de publicidade nos sites, prefiro quanto mais clean melhor. E o modelo de negócio assenta basicamente em afiliados. Por exemplo, se eu escrevo sobre Paris e fiquei no hotel XYZ, posso recomendar esse hotel, se de facto a experiência foi boa. E se alguém fizer uma reserva através desse link, eu recebo uma pequena comissão. O mesmo podes aplicar aos seguros de viagem.

Exatamente.

Ou à aviação. Podem ser comissões pequenas, mas tendo escala, como o "Alma de Viajante" neste momento já tem, vai dando. É evidente que é tudo muito incerto, tu nunca sabes, é como qualquer outra profissão liberal, se quiseres, ou profissional independente, nunca se sabe o rendimento do mês seguinte, mas eu consigo viver bem com isso. Mais difícil é viver sem esta liberdade, este estilo de vida.

Exatamente, é que te habituaste e não queres outra coisa, e ainda bem que consegues e que corre bem. Agora este ano se calhar mais difícil, mas uma vez as coisas entrarem no... Hoje foi a vacina um milhão em Portugal, as coisas estão a avançar a bom ritmo, isso é bom sinal e vamos ver se até ao fim do ano as coisas conseguem reabrir e voltarmos aos nossos costumes.

Eu continuo a acreditar que talvez mais lentamente do que seria expectável há uns tempos, mas as pessoas vão voltar a viajar, não sei se exatamente da mesma forma. Vão voltar a sentir essa necessidade de liberdade, de descoberta. Nós somos um povo de descobridores, por isso eu acredito mesmo. E faz-nos bem enquanto sociedade, eu acho que nos faz bem a toda a gente. Abrir horizontes, ver outras realidades, contactar com outro tipo de pessoas, acho que é benéfico individualmente e enquanto sociedade.

Claro que sim. Vamos agora recuar 17 anos, vamos à tua primeira volta ao mundo. Tu andaste 14 meses num formato inspirado no vagabonding. Já te chamaram vagabundo num programa de televisão, mas eu não vou a esse ponto. Inspiraste-te então neste-

Foi a primeira vez, e única, que eu fui ao "Cinco Para a Meia-Noite", logo na primeira semana da primeira série do programa.

Exatamente.

Na altura, o programa tinha um verbo por semana e o verbo era vagabundear. Exatamente.

Exato. Nós estamos agora na tua primeira viagem à volta do mundo. Foram 14 meses, da qual depois resultou um livro, o livro "Alma de Viajante", com as crónicas todas reunidas, que tinhas feito para o Caderno Fugas, o caderno de viagens do Público. Ainda era uma altura em que o que tu levavas era Lonely Planet para todo lado, não havia Google Maps.

Exatamente.

E como tu dizes, nos hostels as pessoas conversavam. Eu gostei muito deste pormenor. Quer dizer que hoje é tudo calado nos hostels. Eu acho que ainda há alguma, nesta juventude europeia que passeia de um lado para o outro, e norte-americana, as pessoas ainda conversam nos hostels ou já não? A tua experiência é que não.

São os efeitos positivos e negativos da tecnologia.

Claro.

Antigamente, por exemplo, chegavas a uma cidade e não sabias o caminho, tu perguntavas. Perguntavas às pessoas locais e isso muitas vezes levava a contactos, a amizades, a sugestões, enfim, a coisas acontecerem. A riqueza para mim das viagens está principalmente nas pessoas, nessa comunicação com as pessoas. E a partir do momento em que tens uma ferramenta como o Google Maps, que é superprático, tu já não precisas de falar com ninguém. E aquilo que eu verifico nos hostels, se bem que essa frase é um pouco caricatural, se quiseres, mas aquilo que eu verifico é que as pessoas estão muito mais preocupadas a olhar para os seus telemóveis, a atualizar o feed do Instagram ou o que seja, do que a conversar. E às vezes eu sinto falta dessa-

Dessa liberdade que obrigava as pessoas a comunicar, não é?

Sim, desse viajar à forma antiga, ou se quiseres, da pureza da viagem, ou mesmo do fato de eu agora viajar já com um propósito de produzir conteúdos, às vezes sinto falta de nem levar máquina fotográfica, sequer. A viagem pela viagem, o ato de viajar pela pureza da descoberta.

Desfrutar. Desfrutar dos momentos.

É o preço a pagar e não me queixo de maneira nenhuma. Eu faço aquilo que gosto e não me imagino a fazer outra coisa. Enquanto me der e eu tiver prazer nisso, vou continuar. Não sei até quando. Estava só para concluir que às vezes sinto falta dessa pureza original da viagem pela descoberta. Mas neste momento, eu acho que as ferramentas que temos à disposição são supervantajosas, têm mais vantagens do que desvantagens. O uso que nós damos às ferramentas é que por vezes não é o adequado, é exagerado, se quiseres.

Exatamente. Nessa primeira viagem, que foi realmente a tua, emocionalmente, a tua experiência mais intensa, em plena volta ao mundo, estamos em 2004 e tu estavas no Laos, um país maravilhoso, quando aconteceu este tsunami. Nem vou falar muito disso, mas foi uma coisa que te marcou, porque tu estavas naquela zona do mundo, foste contatado pelo público para fazer a reportagem, andaste depois pela Tailândia, Indonésia, Sri Lanka, a ver uma experiência que te marcou e ainda hoje te marca, e ainda não conseguiste fazer a catarse das cenas que tu viveste, com os cheiros, os choros, os gritos, os cadáveres.

Fizeste muito bem o trabalho de casa, porque isso é tudo verdade. Quando fez 10 anos do tsunami, eu tentei fazer a catarse final, porque nunca tinha mostrado as fotografias a ninguém, porque olhar para aquele material faz-me de facto sofrer bastante, porque vem-me tudo à memória E quando se assinalavam 10 anos desse dia de dezembro.

Em 2014.

Portanto, em 2014, eu decidi: "Vou escrever, vou olhar pra isto, vou escrever finalmente e limpar isto da minha mente". Abri o computador, olhei pra aquilo e 15 segundos depois estava a fechar outra vez e não consigo. Continua a ser um momento que me marcou muito, que me fez sofrer bastante e ainda hoje é difícil lidar com essas emoções. Mas felizmente, esse foi um pequeno parêntese numa viagem que me transformou a todos os níveis, que mudou literalmente a minha vida. Foi depois disso que eu decidi que o meu rumo era este, que eu queria estar ligado, enquanto fosse possível, às viagens, à produção de conteúdos ligados às viagens, à fotografia, à escrita. E foi uma viagem incrivelmente transformadora, quase sempre sozinho. A Luísa, minha mulher, na altura já era, veio ter comigo em duas circunstâncias, juntou as férias todas também, tal como o meu avô fazia antigamente, juntou as férias todas e veio ter comigo, mas acabou por ser uma viagem majoritariamente solitária. E eu acho que isso contribui muito também, primeiro para tu conheceres muita gente e mais do que tudo, para te conheceres a ti próprio. Cheguei ao fim desses 14 meses com um autoconhecimento incrível, porque tu estás todos os dias, literalmente, a tomar decisões, a ser confrontado com as tuas decisões, a ter que optar e a testar os teus limites. Foi muito importante para o meu crescimento enquanto pessoa também.

Tu dás workshops de escrita de viagens, que é muito importante. Foste, entretanto, líder de viagens da NOMAD. Estou a me lembrar de uma ida ao Irão. Já vamos falar do Irão. O Irão é um destino inquestionável, é um dos meus sonhos também. Onde por pouco, uma vez chegaste a ver a coisa mal parada, contavas com um grupo de viajantes.

O curioso dessa experiência na Mongólia, em que, resumidamente, a carrinha onde nós íamos ficou atolada num rio, não conseguiu atravessar o rio porque a água estava demasiado alta. E ficamos ali um dia e meio a acampar até que tivéssemos ajuda. E o curioso dessa experiência é que foi a minha primeira viagem enquanto líder da NOMAD. Portanto, foi logo um batismo incrível.

Exato. Fogo!

Ter que lidar com o grupo, que a maior parte das pessoas estava perfeitamente tranquila, mas havia um elemento mais nervoso, no sentido: "Nunca mais saímos daqui, estamos tramados". E essa dinâmica vai minando um pouco todo o grupo. Foi um batismo a sério, mas a Mongólia, tal como o Irão, é daqueles países, por todas as experiências que eu vivi, que mais guardo com mais carinho.

Já no Irão, houve uma das tuas viajantes que também vos levou quase a ficarem presos.

Isto parece que só falamos das histórias mais problemáticas. Ao Irão fui 20 ou 21 vezes, se não me engano, com grupos da NOMAD, e é o país que eu mais admiro pelas pessoas, mais uma vez. É o povo mais hospitaleiro que eu conheço. Há de haver outros, naturalmente.

Olha, agora poupei-te a isso, Filipe, mas tive aqui dois convidados, o Luís Câmara, por exemplo, que vieram cá falar do livro que escreveram sobre o Irão, e a falarem da hospitalidade do Irão, o Carlos, que vinha com ele, comoveu-se a ponto que já quase não conseguia falar. Comovido com o João Paulo, eu estou a falar disso, estou a sentir por dentro a hospitalidade. Não há povo, e também tu dizes isso, o que é engraçado.

É inacreditável, porque é uma hospitalidade desinteressada e genuína. Eles são muito curiosos, eles são muito cultos, têm a perfeita noção da imagem que o Ocidente tem deles e faz tudo por desmontar essa imagem. A hospitalidade persa é uma coisa lendária, eles fazem isso naturalmente, de forma desinteressada.

Não é para armar. Exato.

E é impressionante.

Até que tiveste uma viajante, uma cliente.

Para responder à tua pergunta, esse episódio foi uma vez num desses grupos. Nós passamos em frente a uma central de enriquecimento de urânio para visitar uma aldeia na montanha e tem sinais na estrada a dizer que é proibido fotografar e uma das viajantes não reparou, ou disse que não reparou e fotografou.

Mas não sabia?

Fomos parados, porque eles controlam tudo à distância, com binóculos e tal, e fomos parados. Mas para resumir a história, nós estivemos ali bastante tempo e quando finalmente conseguimos sair, por obra e graça dos contactos do motorista com quem eu viajava há muito tempo, que ligou para o chefe da polícia, que era seu conhecido, etc. No final, ele disse-me: "A senhora e o Filipe tiveram muita sorte, estamos liberados. Se vocês fossem ingleses ou americanos, iam ficar cá".

Claro. Pois, caramba. Olha, lembrando agora outra história boa para compensar. A tua filha não quis morrer às tuas mãos. Estamos em 2012, foste pai em 2007.

Isso é a sabedoria infantil. Olha, isso foi na segunda volta ao mundo que fizemos em família.

Ela tinha quatro anos, quase cinco.

Sim, fez cinco na viagem e a ideia, mais uma vez, era dar-lhe mundo antes da escola. Nós não nos sentimos capazes de assumir o homeschooling e viajar mais tarde e tirá-la da escola, portanto decidimos fazer essa longa viagem nessa altura. E estávamos em Vanuatu, na Ilha de Tanna. A Ilha Tanna tem um vulcão, o vulcão Yasur, que é uma coisa inacreditável, está sempre a fazer barulho. Tu estás nas aldeias e ouves um

Sim. Impressionante.

E está sempre com explosões de lava. Então há um passeio que se faz, que é um misto de fascínio com inconsciência, que é subir ao fim da tarde até à cratera e ficar lá a ver as explosões de lava.

Espera lá, mas sobem à cratera do vulcão ativo?

Sim.

É lá, isto é um pouco inconsciente. E então?

É um pouco inconsciente. Quando perguntamos à Inês se ela queria ir lá cima ver o vulcão, ela deu exactamente essa resposta: "Não, pai, não quero morrer hoje".

É incrível. E é engraçado, porque nessa viagem ela fez desenhos, dezenas, centenas. Hoje tem um tijolo de desenhos que ela fez. É giro. Ela mesmo que não se lembre das coisas, hoje quando tu lhe mostras esse diário de viagem, que nem um urban sketcher, ela acaba por lembrar-se de cenas. É muito giro esse registo que ficou. Não é na fotografia, mas é feito por ela.

Foi das melhores coisas que fizemos. É evidente que há muitas coisas que não se lembra. A maior parte das coisas não se lembra. Mas independentemente disso, só um parêntesis, porque eu acho que mesmo assim as sementes estão lá para ser uma mulher mais tolerante, sem fronteiras, uma mulher do mundo. Eu acho que as sementes estão lá e não por acaso ela gosta muito de viajar, não tem problemas nenhuns de brincar com seja o miúdo for, de que cor for.

Seja um índio qualquer no meio da África ou no meio do Brasil. É impressionante.

Mas dito isto, ela agora olhando para esses desenhos, e ainda bem que nós trouxemos, as memórias vêm. Ela lembra-se de situações, de lugares, olhando para aqueles desenhos que fez na altura. E era muito engraçado, ela fazia desenhos em todas as situações, sozinha, com amigos, com miúdos que conhecia na viagem. Trouxemos tudo para cá. E de facto, eu acho que para as crianças, o ato de viajar, mesmo que não se lembrem, é fascinante. Aquela ideia de que a partir do momento em que se tem filhos não se pode viajar, porque muda tudo. Eu acho que é uma falsidade. É evidente que aumentam os custos, que é mais uma pessoa ou mais duas pessoas, tendo agora dois filhos. Aumentam os custos, os quartos são muito mais dispendiosos do que se fossem só para um casal.

Há programas que se calhar não podes fazer e fazes outros, em vez disso.

Exato. Isso foi uma das outras coisas que eu aprendi, foi a lidar com essa frustração de não poder fazer tudo o que eu gostaria de fazer.

É a melhor coisa que podes fazer, eu acho.

É, porque às vezes estás num sítio e é aquela única oportunidade para visitar aquele mosteiro ou aquele museu, ou o que seja, e ela diz: "Mas eu quero ficar a pintar". E às vezes tens que ceder, vais ficar a brincar. Mas a partir do momento em que aprendes a lidar com esta frustração e a viagem toma um ritmo mais lento, mais adequado à criança, eu acho que os miúdos, estando motivados, alinham em quase tudo.

Filipe, nós temos a terminar. Vou-te só perguntar rapidamente. Tu algum sítio onde não voltavas-- o teu amigo Nuno Lobito ontem falou em Israel, que em Israel foi muito maltratado e nunca lá voltaria. Algum sítio onde tu já foste, tu conheces 103 países, se não me engano, onde a experiência não foi famosa e não tens nenhuma vontade de voltar, mesmo que te oferecessem?

Não, não há nenhum país que eu não voltasse. Todos os países, todos os lugares têm coisas boas e coisas más, e se eu não gostei de estar em algum sítio em algum momento, pode ter sido pelas circunstâncias, pelas pessoas que conheci, pelo meu estado espírito e não pelo país em si. Por isso não tenho nenhum lugar que eu diria nunca mais.

Ok. E depois há outros preferidos que tu fazes questão de falar. O Irão já falámos, a Mongólia também já falámos. A Colômbia é um país seguríssimo e tu dizes e recomendas vivamente. E pela natureza, a Islândia e Nova Zelândia, para ficar aqui este top five, que é importante ficar. Há pouco tempo conheceste a Arábia Saudita, onde também vieste bastante impressionado com as pessoas. Novamente, as pessoas fazem os lugares. Tu vais muito atrás da população local, o que é muito giro. E na Arábia Saudita foi também o que surpreendeu. Mas cá está, daqueles países, tal como a Síria, que são extraordinários, ou como o Irão, mas a imagem que passa para o Ocidente não é a mais famosa, e daí esta desconfiança.

Não, mas é preciso distinguir o que é a política e o que é os governos do que são as pessoas, o povo. Eu viajo pelas pessoas e não pela política. É evidente que a Arábia Saudita não tem um dos governos mais recomendáveis do planeta, mas não é por isso que as pessoas são menos amigáveis ou menos interessantes. Eu decidi ir à Arábia Saudita em finais de 2019, em setembro, outubro de 2019, eles abriram a possibilidade da emissão de vistos de turismo para não muçulmanos. Vistos de turismo, não de trabalho. E decidi ir pela curiosidade pura, porque é um país sobre o qual há pouca informação. E desafiei o Rui Barbosa Baptista, outro grande viajante e grande amigo, a ir comigo e fomos os dois. E foi uma experiência incrível, porque lá estávamos em sítios onde as infraestruturas turísticas não são ainda muito desenvolvidas, tirando numa ou noutra cidade. Mas a experiência de visitar cidades como Jedá, é incrível o centro histórico de Jedá, que é classificado pela UNESCO, chama Al Balad. É uma coisa inacreditavelmente bonita, uma espécie de poesia da decadência, se quiseres, para usar as palavras do Rui Baptista. É essa descoberta. Há muitos sítios que não fazem parte das rotas turísticas mais convencionais que eu quero visitar e vou visitar. E depois há outros, por causa do trabalho no blog, mais mainstream, que eu visito também para produzir conteúdos. E é nesse mix entre destinos que eu quero mesmo visitar pela curiosidade e outros que podem ter interesse para o blog, que eu me vou orientando.

Nós vamos ter que ficar por aqui. É engraçado, ainda dava tempo a falar, quer da tua Hotlândia, que eu sempre achei que era um parque de diversões em que os amigos jogavam ao room service, mas não é. A ir ao blog "Alma de Viajante" e perceber o quão podem também ter as dicas certas e ajudar aqui o Filipe, que é muito importante, e deste homem que até se comove com paisagens e com experiências, como num trekking em Tenerife, e que recomenda, por exemplo, desligar o botão complicador para poder viajar bem, e tem este conselho final que é viajar devagar. Muito bem, eu quero te agradecer muito, Filipe Honato Gomes, mais uma vez, bem-hajes pela tua disponibilidade em falares ao Observador de novo. Parabéns, quer pela associação, por ti próprio, os teus 50 anos e pelos 20 anos do Alma de Viajante. Boa sorte nas tuas viagens e projetos quando tudo isto recomeçar.

O prazer foi todo meu. Um grande abraço para todo o auditório. E boas viagens, assim que for possível.

Qualquer dia voltas para contar novas viagens e novas peripécias. Filipe, para ti e vocês quatro lá de casa, mantenham-se seguros. Muito obrigado.

Obrigado.

Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto