Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Toda a gente tem mais do que uma dimensão. A minha convidada de hoje é ela própria uma apaixonada pela tridimensionalidade. Na vida real, a açoriana Teresa Canto Noronha é uma colega jornalista que depois de uma breve passagem pela engenharia, passou pelo semanário, pela RTP, onde foi a primeira mulher do mundo que foi jornalista de desportos motorizados, e atualmente podemos vê-la nos ecrãs das estações da SIC. Aqui vem-nos falar do seu percurso nas letras e nas artes plásticas. Autodidata e inspirada, tem experimentado na escultura, na pintura, no têxtil, no desenho, na madeira e na instalação. Começou a expor em 2012 e hoje tem obras até no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, onde homenageia e reinterpreta os tapetes tradicionais de Arraiolos. Olá, Teresa, bem-hajares por teres aceitado este meu convite. Bem-vinda à Rádio Observador, é um grande prazer estar a falar contigo.

Obrigada e muito obrigada pelo convite.

Tu nasceste em Ponta Delgada, filha única e neta única da ilha, porque tens mais primas, não é?

Tenho mais primas que sempre viveram aqui em Lisboa. Mas na ilha era filha única e por questões geográficas, neta única.

Exato. E teres falado do teu avô, bisavô, trisavô, o José do Canto, o archivobotânico. O José do Canto, maravilhoso, em Ponta Delgada, o tal que era além de bibliófilo e grande proprietário, intelectual, camoniande de exceção, tinha um grande amor pelas plantas.

Sim, tinha um grande amor, uma grande paixão pela botânica e uma parte importante da vegetação que se vê hoje em dia em São Miguel e que as pessoas até acham que é autóctone, não é. Parte não é.

Foi ele que trouxe lá há 180 anos.

Foi o avô José do Canto que viu noutras paragens do mundo e que achou que ficavam bem ali. E como deves imaginar, com aquele clima, tudo nasce, tudo cresce, tudo se dá bem.

Exatamente.

E, portanto, a ilha é cheia de coisas que não faziam parte da própria vegetação inicial.

Incluindo do Japão.

Incluindo coisas que vieram do Japão, porque ele conheceu um jardineiro que teria trabalhado com o imperador do Japão à época, evidentemente. E trouxe algumas espécies que eram espécies do Japão e que hoje em dia estão espalhadas pela ilha toda.

É fantástico. E tu tens outro avô na Ilha Terceira também?

Sim, o pai do meu pai nasceu na Ilha Terceira. A família Noronha foi daqui do continente há muitos séculos para os Açores e instalou-se na Terceira. A família do lado do meu pai são os Canto Noronha. Na verdade, são Canto o homem Noronha, mas são os Canto Noronha. O Canto era o avô José do Canto, que é uma pessoa que ficou muito conhecida na ilha. E a família Noronha vem da Terceira.

E é engraçado, porque tu já cá estás há 40 anos.

Já não tenho sotaque, é o que toda a gente diz.

Quando vieste para cá, notava-se muito?

Não, nunca se notou muito. Quer dizer, eu sei imitar perfeitamente.

Exatamente, se for preciso.

Claro, perfeitamente, e tenho muito orgulho nisso. Quando fazíamos um comentário sobre o sotaque de alguém, eu digo que posso sempre comentar os sotaques de toda a gente, porque eu venho do sítio com o sotaque mais difícil. E depois as pessoas dizem: "O sotaque dos Açores". Não, não é dos Açores, é de São Miguel, porque são nove ilhas. E só se fala assim em São Miguel. Nas outras ilhas têm outros sotaques.

E dizem que na Horta, não sei se é verdade, não têm praticamente sotaque.

Têm um sotaque, no Faial e no Pico, mas é muito ligeiro.

Já um linguista me disse uma vez isso. Um linguista a dizer: "É em Coimbra e na Horta que se fala o melhor, mais puro do português". E eu sempre pensava que era ótimo.

Não têm um sotaque como o meu, como o meu deve ser, que é o cerrado, por causa da influência bretã e francesa. Temos um sotaque muito cerrado, mas eu não tenho.

Mas isso dá-lhes personalidade.

Claro que sim. Na ilha diz-se que quem perdeu o sotaque é porque andou a ler o jornal A Bola durante muitos anos.

Muito bom.

Eu confesso que nunca li muitas vezes o jornal A Bola, apesar de ser uma referência do jornalismo.

É engraçado, porque tu não esqueces tuas raízes, tu adoras lá voltar. Este ano foi mais difícil.

Este ano não consegui ainda, mas eu passo normalmente três semanas por ano lá, pelo menos.

E é um privilégio ter nascido ali no meio daquela gente, no meio daquela paisagem, no meio do Atlântico.

Eu cresci de uma forma que muitas pessoas da minha idade, eu tenho 58 anos, e a maior parte das pessoas da minha idade, que eu conheço hoje em dia, que são daqui do continente, tiveram uma infância completamente diferente. Nós, os que crescemos lá, tivemos uma infância muito mais ligada ao campo, à terra, aos animais, à natureza, ao mar. Eu lembro-me, por exemplo, que nós não tínhamos televisão quando eu era miúda, não havia televisão. Havia uma emissão esporádica uns dias à noite, não havia o hábito de ver televisão. Não crescemos com esse hábito, porque não havia. E as primeiras emissões que me lembro de ver com a minha avó eram ballet, ópera, pouco mais, que era o que a RTP transmitia e dava nos Açores. Eu ainda sou do tempo em que nós lá em casa, havia um telefone fixo, levantávamos e tínhamos de pedir à menina da Marconi para ligar para o número, mas nem era preciso dizer o número, porque em São Miguel poucas famílias tinham telefone.

Os números deviam ser só quatro ou três.

Eu lembro-me miúda da minha avó dizer: "Vá lá baixo pedir à senhora para ligar pra Lisboa". E eu levantava o telefone e dizia: "A minha avó quer falar com o meu tio", e ela sabia que era pra ligar pra Lisboa, pra casa da minha avó em Lisboa.

Incrível.

Lembro-me perfeitamente de haver imensos sítios em São Miguel que não tinham eletricidade quando eu era miúda.

Sim, incrível.

As sete cidades não tinham eletricidade, várias zonas não tinham.

Tu dizes assim, é uma frase tua: "Eu sou das ilhas e preciso delas. Vou quando posso e tal, preciso do cheiro, das cores, do vento de lá. Quem sai da porta do avião", porque tu explicas, não há manga, quando chega lá, "há um cheiro que não existe em mais lado nenhum e comove-me sempre".

Sempre.

Tão bonito isso.

É uma mistura de cheiros bons e de cheiros menos bons, como a erva salgada, que é uma coisa que se dá às vacas para comer e que tem um cheiro muito intenso e bastante desagradável. Do processo de crescimento das vacas.

Exatamente, os mutantes.

Os processos naturais mutantes. Mas misturado com o mar, com a umidade e com o cheiro que a ilha tem, é um cheiro muito diferente. E quando eu saio do avião, é aquele cheiro. E eu não sou o único açoriano que vive fora a sentir isto. O Nuno Bettencourt, que é aquele guitarrista português muito famoso, que vive nos Estados Unidos. Outro dia achei imensa piada, porque li uma entrevista dele em que ele referia exatamente a mesma coisa. O cheiro quando sai do avião, aquele cheiro comove-o.

Só lembro de pessoas a dizerem isso, indianos, que dizem que na Índia quando sai do avião, é quase o cheiro das especiarias que eles sentem.

O cheiro da natureza.

Sim, exatamente. Falaste da tua avó, claro, é de facto quem te fez mais saudades quando tu saíste, chegaste a viver com ela?

Sim, eu nasci e vivi, até aos 13 anos, em casa da minha avó.

E de facto, neste último volume da "Avenida Marginal", que reúne estes contos escritos de açorianos, de adiás, digamos assim, que não estão lá, ou que estão lá, mas são autores açorianos. Tu contas uma coisa lindíssima dela, que vivias a cinco minutos da praia. É uma coisa que tens saudades hoje em dia, mas dizias tu: "A minha avó na praia do Pópulo, nadava como se o mar fosse o seu habitat natural, de touca branca, de flores e gestos vigorosos, mas sempre elegantes. A minha avó dominava o mar e isso fascinava-me." É uma grande homenagem que me parece que é à tua avó também.

Eu acho que qualquer pessoa que leia o que eu escrevi, percebe que o grande amor da minha vida foi minha avó.

E conhecendo-a, se calhar, lembra-se e tem saudades disso.

Claro, a minha avó era uma senhora absolutamente extraordinária, muito uma senhora do seu tempo e da forma como cresceu e do meio em que cresceu.

Do seu contexto.

Do seu contexto, mas também muito uma senhora de grande abertura para o resto do mundo e para experiências diferentes. Eu quando era adolescente, tive uma fase ligeiramente rebelde e houve um dia que decidi quase rapar o cabelo todo, muito curto. E depois houve outro momento em que decidi pintar uma risca amarela no cabelo. E quando cheguei a casa, já com o fato consumado, uma miúda de 13 anos. Com o fato consumado, a minha avó olhou e disse: "Ok, realça a cor dos olhos."

Tens os olhos lindos, posso dizer aos ouvintes, muito bonitos os dois.

Muito obrigada.

E ela foi, realçou a cor dos olhos.

Sim, a brincar, claro, com ironia, porque a minha avó tinha aquela sabedoria de, desde que tu não faças uma asneira demasiado grave, a tua rebeldia não me afeta. Não vou sobrevalorizar.

Fantástico. E é engraçado porque tu acabaste por passar, tenuamente, pela engenharia química no Técnico, a minha faculdade.

Também andaste no Técnico?

Andei no Técnico, mas de facto, um bocadinho, não digo empurrada pela avó, mas surgiu esta ideia do: "Espera lá, não há nenhuma engenheira na família, se calhar podias tentar." Porque tu tinhas boas notas.

Sim, eu tinha boas notas. Eu venho de uma família muito matriarcal.

Sim.

E portanto, uma família onde as senhoras têm sempre a palavra.

Sim, a última palavra.

Senão mesmo a primeira, a do meio e a última também. E eu lembro-me de estar a conversar com a minha avó e dizer: "Eu não sei bem o que é que hei de fazer", porque eu gostava de quase todas as disciplinas, tinha a sorte de ter boas notas.

Exatamente.

E portanto, podia ter uma escolha mais variada. E lembro-me da minha avó dizer: "Nós não temos nenhuma senhora engenheira na família." E eu disse: "Ok, então eu vou para Engenharia." Reconhecendo que o Instituto Superior Técnico é uma escola de excelência, absolutamente, mas eu fui miseravelmente infeliz no Técnico.

Às vezes logo que não era para mim.

Eu não me dei bem com a carga horária, não me consegui integrar, não consegui fazer amigos. Eu sou bastante comunicativa. Não consegui fazer amigos. Eu vinha mal habituada, eu vinha habituada a ter boas notas sem ter de estudar muito. E é evidente, quando tu chegas a uma escola de excelência como o Técnico, se não estudares muito, não consegues.

Exatamente.

E eu não tinha treino de estudar, eu não sabia estudar. E, portanto, claramente começou logo tudo a correr mal.

Sim.

E não foi uma boa experiência para mim, só por minha culpa exclusiva, não do Técnico, como é evidente.

Tu como jornalista, como gostavas muito de ler e de escrever, houve este anúncio para um jornal de desportos motorizados. Foi aí que concorreu e surgiu este desejo do jornalista, se calhar, numa hipótese.

Sim, eu pensei. O meu pai fazia ralis lá em São Miguel e sempre gostou de carros e desportos motorizados. A minha mãe também fez ralis lá em São Miguel e portanto eu cresci um bocadinho próximo desse ambiente. E quando apareceu esse anúncio no jornal de desportos motorizados, na altura os desportos motorizados e os jornais de desportos motorizados tinham muita importância, impacto. Os rapazes da tua idade todos liam e seguiam, digamos assim.

Sim, os açorianos, todos.

Exato. E então eu pensei: pode ser uma boa forma de começar. E telefonei para lá. Na altura era o que se fazia, não havia mais, não havia internet, não havia nada. Telefonei para lá, atendeu uma secretária da redação que me disse: "Eu vou lhe mandar, de uma semana, vou lhe mandar aquilo que é preciso fazer." E recebi no correio passado uns dias, um texto que tinha de escrever sobre uma fábrica de pneus. Escrevi o texto, devolvi pelo correio, isto tudo demorava o seu tempo. E passado um tempo, recebi um telefonema de uma pessoa, que na altura era o diretor do jornal, que me chamou para uma reunião. Eu fui lá e o colega, que depois veio a ser colega, eu era uma miúda, tinha 20 e poucos anos, 20 anos, aliás, porque eu entrei para a RTP com 21 e isto foi antes. Tinha acabado de fazer 21 anos, penso. E ele disse-me: "Olhe, o teu texto foi o melhor que nós recebemos, mas isto não é um ambiente para uma menina, não há mulheres a fazerem isso."

E era verdade.

É, e era verdade. Não havia mais nenhuma mulher jornalista de desportos motorizados no mundo. Isto é um ambiente só de homens, isto não é um ambiente para uma menina como tu. E eu fiquei furiosa, confesso, porque eu vinha de uma educação completamente matriarcal e feminista, digamos, onde nunca me tinha sido dito que porque é menina não pode fazer uma coisa. Não fui educada assim, pelo contrário, as meninas podem fazer tudo o que os meninos podem, desde que se portem bem, mas podem fazer o que quiserem. Não há limitações só porque és mulher.

Sim.

E portanto, fiquei furiosa e falei na altura com o Manuel Ricardo Ferreira, que era à altura o diretor da RTP.

RTP Açores, ou estava cá ou lá?

Cá em Lisboa.

Acas boa.

Eu conheci-o exatamente porque ele tinha sido diretor da RTP Açores e porque ele e a minha mãe há muitos anos tinham andado no Liceu juntos em Angola. Vê bem as voltas que a vida dá.

Exatamente.

E liguei-lhe e disse-lhe: "Olha, Manuel Ricardo, passou-se isto, eu tenho a certeza que tu conheces o diretor desse jornal. Podias dizer-lhe que eu sou a pessoa indicada para fazer isto." Passado dois ou três dias, ele telefona-me e diz: "Não, eu estive a pensar. Eu tenho um programa de desportos motorizados aqui na RTP, que é o 'Rotações', que era um programa que estava a dar muito bem na altura. Precisamos de jornalistas."

Era quase o "Top Gear".

Entretanto, eu tinha estagiado no semanário, é certo, não era completamente uma coisa do nada. "Por que não vens para cá?" E pronto, foi assim.

E assim foste a primeira mulher no mundo, jornalista de desportos motorizados. É incrível.

E correu muitíssimo bem.

E adoravas? Sabias e conhecias?

Fui aprendendo também, como é evidente. Saber de miúda não é a mesma coisa que depois saber. E claro, como é evidente, sendo um meio onde eu era a única mulher, eu tinha que ter a certeza que sabia certinho e que não dizia asneiras, que era para não me caírem em cima.

Faz-me lembrar a Patrícia Reis que dizia: "João Paulo, eu tive que trabalhar o dobro de toda a gente, porque eu era loira, era bonita." E depois as pessoas não acreditavam em mim. Coitadinha.

Eu era assim quando era jornalista de desportos motorizados, eu era morena e tinha o cabelo curto.

Está bem. Porque ainda estava a crescer desde que tinhas quase rapado.

Não, eu usei o cabelo curto durante anos.

Não sabia.

Mas o que eu quero dizer é que para tu te sentires capaz, quando és mulher, tens que te preparar mais, sobretudo em coisas tão técnicas onde não havia outra mulher.

Claro.

De qualquer das formas, fui muitíssimo bem acolhida.

E hoje em dia é muito mais também, na televisão, no futebol.

Claro, felizmente.

Era impensável há 20 anos.

Mas na altura já havia uma colega na RTP Desporto, que era a Pilar.

Ok, boa.

Depois foi para a SIC, fazia sobretudo ciclismo. Mas pronto, fui super bem recebida.

Mas era uma lança em África.

Era uma coisa fora. Fui muito bem acolhida, muito bem recebida. Nunca senti nenhum tipo de discriminação, absolutamente nenhum. Se ele havia, eu não me apercebi dele, felizmente, porque teria protestado veementemente.

Exatamente. E tiveste 13 ou 14 anos em RTP.

Tive 14 anos em RTP, mas só tive quatro anos no "Rotações", porque confesso-te, eu queria ser jornalista.

E depois foste para o jornalismo económico.

Certo. A certa altura, aquele tipo de jornalismo já me estava a cansar um bocadinho e eu queria fazer outro tipo de jornalismo. Passei para a economia na RTP, onde estive uns anos, não te sei precisar quantos. E depois, a certa altura, passei para a grande reportagem e a seguir para internacional.

Pronto, que de facto é o que tu gostas muito também.

Que é o que eu faço ainda hoje.

Entretanto, fizeste o concurso interno que houve na RTP para Bruxelas, para correspondente em Bruxelas, e lá foste escolhida e lá foste. Adoraste viver lá.

Adorei viver em Bruxelas.

E a tua parte das artes nasceu um bocadinho lá.

Sim, nasceu no sentido de eu-

As primeiras peças que fizeste, grande assim

As primeiras peças que fiz, fiz em Bruxelas, porque foi a primeira vez que sozinha tive uma casa minha.

As paredes brancas?

As paredes eram todas minhas.

Ótimo.

E portanto, eu senti-me à vontade para poder pôr coisas minhas nas paredes sem estar preocupada se não agradariam a outra pessoa.

Exato, que giro.

E também porque Bruxelas é uma cidade com uma oferta cultural vibrante, enorme, imensa.

Os Beaux-Arts deste mundo.

Tu tens tudo, tens as galerias todas, tens tudo. Tu tens muitas vezes o embaraço da escolha, porque a oferta é tanta. E isso também me permitiu, porque para um artista plástico é importantíssimo ver arte. Eu acredito nisto e é o que tenho visto, a minha experiência e da experiência de outros, que é muito importante tu veres. Quanto mais vês, mais tu absorves, mais tu pensas, mais ideia.

É muito importante.

É muito importante. E Bruxelas ajudou-me imenso nisso.

Como para um escritor é importante ler muito, obviamente.

Como músico, ouvir música.

Bruxelas é fantástico.

Bruxelas é uma cidade maravilhosa.

E tu estuda- autodidata, que é engraçado, mas bebeste aí e também depois em Roma, bebeste o que é galerias.

Certo, depois imagina Roma. Mas entretanto mudei de Bruxelas para Roma e Roma, Itália toda, em termos de absorção de beleza e de arquitetura, de tudo.

Meu Deus!

Portanto, ajudou muito.

Sempre foste muito criativa, mas nunca tinhas estimulado esse lado, digamos, de fazer coisas, até por "trial and error", experimentando coisas, fazendo. Começaste muito também com escultura e com o têxtil.

Não, o têxtil não.

Foi depois.

O têxtil foi só agora. Eu comecei muito com a escultura. Eu gosto muito da tridimensionalidade.

Arquitetura, documentários de arquitetura.

Certo.

Adoras isso.

Eu sou uma grande fã de arquitetura.

Também eu gosto muito.

E gosto imenso. Acho que não só esteticamente, como perceber o conceito.

Antigas e modernas.

Certo, claramente.

É fantástico.

E portanto, eu comecei a construir objetos, e eles foram ganhando a sua própria vida e a sua própria dimensão, mas eu tinha vergonha e escondia. Porque o pai da minha mãe era pintor e o lado da família da minha mãe são todos pessoas muito criativas e muito ligadas. Tenho muitos primos arquitetos, portanto, são muito ligados às artes. E como eu sempre fui muito racional, toda a gente achava que não faria muito sentido, esta dificuldade de perceber que tu podes ter várias dimensões. Tu podes ser uma pessoa muito racional e muito factual, mas ao mesmo tempo teres-

Um lado B

...um lado B, um lado C, um lado D, uma criatividade mais conceptual, como é o caso da minha.

O teu caso.

Mas como eu não fazia parte do meio artístico. Isso não tinha sido estimulado. Eu fui muito estimulada para a leitura em miúda.

Sim.

E portanto, como eu tinha vergonha.

As letras, se calhar.

Eu tinha vergonha e escondia.

E só depois mais tarde. Já vamos saber isso. Aconteceu, alguém revelou as tuas obras de arte pela primeira vez. Mas Teresa Canto-Noronha, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo. Já voltamos à conversa. Até já. E estamos a conversar com Teresa Canto-Noronha, ela é a minha colega jornalista na SIC Notícias, mas vem aqui falar de outra dimensão sua, a de artista, com obras até no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. Tens um percurso fantástico. É engraçado, porque gostavas de explorar, trabalhavas todos os dias. Tu dizes que ainda hoje guardas umas horas do teu dia para trabalhar no ateliê, para aprender, para conhecer as artes, para visitar museus, galerias. Continuas a fazer isso sempre que podes.

Sempre que posso, praticamente todos os dias, trabalho no ateliê pelo menos três, quatro horas.

É incrível! Boa, és um atleta de alta competição.

Mas eu acho que quase todos os artistas fazem isso.

Girso.

Quanto mais trabalhas, mais o trabalho te sai naturalmente.

Estavas muito bem em Bruxelas quando te apaixonaste por um italiano. Estavas em Bruxelas essa altura?

Estava em Bruxelas, sim.

Sais de pé, vais para Roma, largaste tudo e foste viver para Roma. Nem passaste por Lisboa. Disseste: "Eu nem passei por Lisboa". E tiveste que sair da RTP, por razões pessoais.

Certo, porque o meu namorado na altura vivia em Roma. É um italiano, vivia em Roma e não tinha planos de sair de Roma. E eu estava também numa fase da minha vida em que me apetecia uma mudança e então decidi deixar a RTP e ir para Roma.

Uma cidade também muito grande, extraordinária.

Uma cidade muito grande, onde eu adoro ir, mas não adorei viver. Vou ser muito honesta, não adorei viver. É uma cidade demasiado caótica. Eu sou muito nórdica na forma de pensar.

Muito organizada.

Sou muito organizada e gosto de cidades de dimensões mais pequenas. Roma é uma cidade enorme.

E mais confusa.

Eu sou apaixonada por Roma, mas já vivi lá uma vez e não foi uma coisa que eu quisesse repetir.

Sim. Gostas de lá passar e visitar.

Adoro lá estar, adoro visitar, mas viver outra vez é uma coisa que já fiz uma vez durante quatro anos.

E chegou home.

E chegou home. Mas foi uma experiência muito importante do ponto de vista artístico, do ponto de vista pessoal. Foi uma experiência de uma forma de estar na vida muito diferente, mas do ponto de vista jornalístico, foi um passo muitíssimo importante para mim, porque eu achava que ia ter dificuldades de voltar a trabalhar como jornalista. E, no entanto, de repente, o Papa João Paulo II fica doente e começam a surgir solicitações para trabalhar a partir de Roma.

José Fragosa, por exemplo.

José Fragosa na TSF, a Visão.

Martim Cabral.

Depois o Martim Cabral na SIC. E, portanto, a certa altura-

Pode ser nossa correspondente. Estás aí a viver e és jornalista.

Já agora, estás aí, és jornalista, tens experiência internacional.

E foi nessa altura que ele ficou doente e morreu?

Não, isso ainda demorou uns anos. Foi num dos primeiros momentos em que o Papa João Paulo II ficou doente. A partir daí, eu voltei a trabalhar como jornalista, como correspondente, tal como tinha sido em Bruxelas, mas numa forma completamente diferente, porque em Bruxelas a RTP tinha uma delegação com uma equipa.

Probamente, sim.

Em Roma estava sozinha e isso foi importante também para aprender a trabalhar sozinha, sem rede, num país onde um jornalista português, eles são muito simpáticos com os portugueses, mas um jornalista português não arrisca nada.

Sim.

Tu dizes que és da televisão de Portugal, para eles é completamente indiferente. Para os grandes decisores.

Tu para entrar no ar, fazias um contrato com alguém que te fosse dar câmara?

Eu tinha que contratar um cameraman.

Chamavas, pronto, muito bem.

Para a TSF gravava telefonicamente, para a Visão escrevia, enviava por mail, mas para a SIC tinha que contratar um cameraman.

Sim.

E portanto, como era preciso pedir autorizações para tudo, era tudo mais complexo, porque sim, eram muito simpáticos, mas nenhum político italiano se dava ao trabalho de me dar uma entrevista, porque para eles não lhes interessava nada uma televisão de Portugal.

Sim.

Tornou-se o trabalho mais interessante do ponto de vista jornalístico, a partir do momento em que apresentei credenciais no Vaticano. A partir desse momento em que te tornas vaticanista, tens uma quantidade de trabalho muito maior, porque o Vaticano fornece muita informação.

Sim. Tem o gabinete muito bem montado.

Tem o gabinete muito bem montado.

Eu só sei Paula e Miguel, mas tudo mantido a passar por lá também.

Tem tudo muitíssimo bem montado, funciona muito bem. Eu vinha de Bruxelas, digamos, os reis da comunicação, a Comissão Europeia, o Parlamento, e pensei: "Meu Deus, agora eu vou para o Vaticano." Eu quando fui apresentar credenciais no Vaticano, a pessoa que atendia os jornalistas na sala de imprensa era a Sor Giovanna, era uma freira.

Ah, ok.

E eu pensei: "Meu Deus, como é que vai ser isto?" E confesso que foi uma surpresa. Eu provavelmente tive um preconceito naquele momento, mas que era completamente errado.

Tu dizias: "Mas depois percebi que..."

Tive um preconceito, mas depois percebi que funcionava muito bem e ainda hoje funciona muito bem. E não importa de que país tu vens, sentes-te tratado com o mesmo respeito que qualquer outro.

Incrível.

É muito fácil trabalhar. Eles dão-te toda a informação que te podem dar. É uma relação de confiança mútua clara.

Com embargo, quando é preciso. Esta homilia só sai às-

As regras existem, toda a gente tem que as cumprir. É evidente que tu percebes, enquanto jornalista, que não estás a tratar um tema onde a abertura é 100% total e se pode falar de tudo. É evidente. É um tema específico, mas seria a mesma coisa com qualquer outra religião, em qualquer outro ponto do mundo.

Sim.

E apesar de tudo, a Igreja Católica continua a ter uma abertura maior do que algumas outras religiões monoteístas.

Sim.

E portanto, é bastante fácil trabalhar.

E o teu impacto no mundo.

É fácil trabalhar. Depois eu, felizmente, pelo fato de ter vivido lá, fiz amizade com jornalistas italianos que trabalham este tema, o que facilita muito a minha vida quando lá vou.

Claro.

Porque eles têm, como lá estão sempre, hoje em dia. Eles já lá estão há muitos anos. Têm os contactos, têm informação, conhecem-me, partilham, o que é muito agradável e torna o trabalho mais fácil.

Tu eras católica ou não ligavas muito desde pequena?

Não, eu sou católica, mas não sou praticante.

Portanto, para o teu trabalho...

Eu sou aquilo que o Papa Bento XVI chamava católico fai dat, que quer dizer católica à tua medida.

Ah, ok.

Ou seja, o que isto quer dizer? O Papa Bento XVI dizia que havia demasiados católicos fai dat, católicos à medida deles. Se és católico, mas decides o que tu queres cumprir e o que tu não queres cumprir, em que acreditas e em que não acreditas, o que tu achas que está certo.

Não estás 100% dentro.

Não estás 100% dentro, mas também não estás completamente de fora.

Exatamente.

E depois, acima de tudo, és católico, até por uma questão cultural, porque nasceste aqui.

Exatamente.

Se calhar, se tivesse nascido num país muçulmano, era muçulmana.

Exatamente.

Ou seja, isto também tens que enquadrar no espaço.

E o teu ambiente também interessa.

O que é importante perceber é que, enquanto jornalista, este tema é tratado para mim como qualquer outro de política internacional que eu trato todos os dias. Isso é que eu acho que é importante. É importante para mim, é importante para a empresa onde eu trabalho, que é a SIC, e é importante para quem me ouve

Ainda hoje faz de vez em quando coisas do Vaticano, ou já não?

Sim, claro. No último ano, estive várias vezes em Roma a acompanhar tudo o que aconteceu. Continuo a ser a pessoa que a SIC envia para Roma sempre que acontece qualquer coisa.

Tu, entretanto, também participaste neste "Accompagnare Papa Francesco in viaggio". Acompanhaste neste livro porque chegaste a viajar com ele?

Sim, esse foi um livro muito engraçado.

Um livro que fizeram com textos de jornalistas de vários países sobre a experiência dele de vir à Jornada.

Certo. Foi um livro que foi decidido por um padre, que nos acompanhou na viagem, que era amigo do Papa Francisco, e nos acompanhou durante a viagem e depois decidiu que era engraçado, porque esse senhor faz publicações de tirinhas de humor. Ele é uma pessoa muito interessante e faz tirinhas de humor sobre a Igreja Católica. E o Papa Francisco, como tinha um grande sentido de humor, ficou próximo dele. Aliás, um dos livros desse padre foi o presente que o Papa Francisco deu aos cardeais num dos Natais. Eles criaram amizade e ele disse: "Olha, quando eu for a Lisboa à Jornada Mundial, vens comigo". E depois, esse senhor padre, como achou mais interessante estar ao pé dos jornalistas porque podia ir aos sítios todos, acabamos por criar ali uma amizade. E então ele decidiu fazer esse livro e convidou alguns jornalistas portugueses que também estavam a acompanhar a viagem para escrever.

Tu, portanto, acompanhaste o Papa quando ele veio cá? Estavas cá?

Já tinha feito outra viagem com o Papa Francisco também a Portugal, quando ele veio a Fátima.

Aos 100 anos de Fátima, em 2017.

E também fiz uma viagem com o Papa Bento XVI. Ainda não viajei com este Papa, porque ele também ainda não veio.

Como disse outro dia, o António Morrão: "Peço desculpa, mas deixaram o caminho atrasado" e o próprio Papa Leão XIV disse: "Deixei o caminho atrasado, sou novo neste lugar".

Exato. Espero um dia poder fazer.

Tiveste algum contato com o Papa Francisco, assim mais próximo? Falou contigo?

Sim, ele falava conosco no avião.

Até no avião falava. Tinha a preocupação de falar e de ser ouvido.

Foi o primeiro Papa a vir falar conosco. Nas viagens anteriores e nos pontificados anteriores, nós íamos lá à frente cumprimentar no lugar dele e estar ali um pouquinho a conversar.

Isto vai pelas coxias.

E só iam alguns jornalistas, normalmente cumprimentar o Papa. O Papa Francisco decidiu fazer ao contrário e vinha falar a todos.

É ele que vem nas coxias. Isso é muito engraçado.

E tinha sempre uma piadinha para cada um.

O que mais te ficou dele?

De uma pessoa muito calorosa, um homem que sabe muito bem, aliás, foi muito claro na conferência de imprensa, no voo, que era um homem que sabia muito bem o que queria, o que pensava, aquilo em que acreditava, o rumo que queria para a Igreja. Um homem muito determinado, quem o conhecia de perto dizia até mesmo, às vezes, teimoso. Mas muito determinado, com uma visão muito clara daquilo que queria. Um homem sem rodeios, a dizer muito francamente o que pensava. Mas ao mesmo tempo, uma pessoa muito calorosa, mas também muito bem-disposto. Muito divertido, muito bem-disposto, sempre com uma piada.

Quando trataste com ele, acho que é um privilégio também, completamente.

Mas eu também fui grande fã do Papa Bento XVI. O Papa Bento XVI era um senhor muito mais discreto, muito tímido, reservado.

Era um acadêmico, era diferente.

Mas muito carinhoso.

Eu, como católico, acredito que sempre está o Espírito Santo aqui metido. Isto é, há um Papa certo para cada altura. E, de fato, Bento XVI fazia falta ali naquele período.

Eu não sei se compartilho essa ideia do Espírito Santo, mas o que eu sei é que o Papa Francisco só foi possível graças ao Papa Bento XVI. Ou seja, a visão que o Papa Bento XVI teve de: "Eu não tenho mão para isto nesta altura, é preciso outra pessoa, eu tenho que resignar".

Extraordinário, coragem.

Isso permitiu abrir caminho para outras escolhas. Mas o Papa Bento XVI era uma pessoa muito carinhosa, muito querida. Quando te apertava a mão, ficava de mão dada contigo, olhava-te nos olhos, conversava. Na viagem que fizemos com ele, ele achou engraçado eu falar italiano fluentemente. Quis saber por quê. Depois eu expliquei que tinha vivido com um italiano. E ele disse: "Quantos anos?" E interessou-se, fez conversa, quando não tinha obrigação nenhuma, como é evidente. Era uma pessoa muito terna e a maior parte das pessoas não percebe isto sobre ele.

E lembra-me tão bem de quando ele veio cá a Portugal, em 2010, se não me engano. Depois de sair de cá, e tinha sido a altura em que caíram os escândalos na Igreja, os abusos.

Sim, foi um período muito difícil.

E ele lutou muito com isso também, como este, aliás, também. E depois é extraordinário, porque ele saiu de cá completamente rejuvenescido. Lembro que na altura falaram-

Sim, que o banho de multidão fez-lhe muitíssimo bem.

E das pessoas com quem ele falou, porque foi em Coimbra, não sei se ele foi a esses sítios.

Foi no Porto.

No Porto. E lembro que esse contacto com as pessoas foi extraordinário para ele. E o Padre Miguel, que o acompanhou no avião de volta, dizia: "Foi um banho que lhe fez maravilhosamente bem".

Eu também estava nessa viagem. Quando veio para Lisboa, vinha uma pessoa, quando voltou era outro homem. Porque ele vinha com aquele peso todo que estava a acontecer.

Sim, a coisa tinha rebentado. E depois chegaram a dizer que as campanhas chegavam a pôr pôsters com o Papa a acarinhar uma criança ou a fazer não sei o quê, e depois tiveram que tirar isso tudo, porque de repente ia cair mal uma foto dessa.

Não, ele não estava à espera. Aquilo que nós sentimos na viagem de regresso foi que ele não estava à espera daquele banho de multidão, porque havia o receio de que o momento tão difícil afastasse os fiéis. E as pessoas não se afastaram, e portanto, ele sentiu isso. Mas o Papa Francisco também não estava à espera da quantidade de gente que teve.

Na Jornada.

Nem o Vaticano estava à espera da quantidade de gente que teve na Jornada. Não estavam à espera, ficaram absolutamente encantados. E depois, como eles já me conheciam, tiveram algumas conversas engraçadas do gênero: "Mas então os portugueses não..." Porque não houve um problema. Não há notícias de problemas.

Incrível, um milhão e meio, e a segurança, tudo o que podia ser, podia acontecer, coisas de saúde.

Os jornalistas estrangeiros acharam imensa piada, porque diziam: "Os portugueses aplaudem a polícia".

Pois foi, eu lembro disso, ficaram muito admirados.

Admirados.

Exato. E fizeram um belíssimo trabalho, atenção. Eu lembro que tinham as instruções de não ter as armas à vista. É muito curioso isso.

Eu não sei, porque eu estava na comitiva e nós dormíamos uma média de duas horas por dia.

Sobre quem esteve nos bastidores e todas as explicações.

Confesso que há coisas que já nem me lembro bem.

A profissão de jornalista mudou muito em 35 anos, não mudou, Teresa?

Mudou muitíssimo. Muito. Mudou muito em muitas coisas para melhor, absolutamente. A tecnologia que temos ao nosso dispor. Aliás, nós estamos aqui a fazer uma coisa que não existia, um podcast.

Exatamente.

Mudou muito a informação, a tecnologia, as coisas a que temos acesso são incríveis, o mundo, a facilidade com que nós acedemos à informação.

Porque se sabe em tempo real.

Certo. Eu acho isso absolutamente magnífico. Não sou nada um velho rustelo.

Sim, mas também os movimentos somários, o fake news.

Pronto, depois há o lado negro. E o lado negro é este período que estamos a passar e que eu espero que seja cíclico, como tudo na história.

Exatamente.

Que é este período em que as pessoas que nos ouvem, leem e veem, talvez tenham alguma dificuldade, muitas, em perceber o que é verdade e o que não é. E talvez tenham alguma dificuldade em perceber qual é a importância da fonte. Quem é que te disse isto?

Exatamente, a segurança.

Ou seja, tu só podes acreditar se quem te disser é de confiança.

Hoje é incrível. Hoje há estes filmes do Marcelo a discursar uma coisa que ele nunca disse nem nunca dirá.

Pronto.

É extraordinário. E diz que mais de 40% dos americanos já só veem notícias pelas redes.

Certo, mas eu também sou uma fã das redes e não demonizo as redes.

Sim, obviamente, temos que usar, claro.

Não demonizo e acho que é muitíssimo importante.

Agora dia, pôr a minha vida, as minhas mãos numa coisa que é não cíclica.

Temos é que perceber se a fonte que nos está a dar-

A manipulação de algoritmos é tremenda.

Certo, mas nós temos é que perceber se a fonte que nos está a dar aquela informação é fidedigna ou não. Se a fonte é fidedigna, aquela informação, em princípio, se Deus quiser, será séria. Se a fonte não é fidedigna, temos que ter um espírito crítico, que eu acho que é isso que está um bocadinho em causa hoje em dia. Mas eu tenho muita esperança na humanidade, muita confiança na humanidade. A humanidade já passou períodos horríveis, terríveis, negros. Este pode até ser um período que ainda pode piorar, mas é cíclico, como tudo, espero.

Como alguém dizia isso, a questão de não podem dizer: "Este mundo está horrível". Há 50 anos, os miúdos andavam descalços na rua, iam descalços pra escola.

Há 80 anos houve o Holocausto.

Exatamente. Quer dizer, há coisas muito piores. Há muita coisa que melhorou. Claro, as doenças, a esperança de vida.

Mas há muita coisa que ainda não melhorou. Ainda hoje fiz uma peça com dados da UNICEF que 20% de todas as crianças do mundo vivem em pobreza extrema. Ou seja, uma em cada cinco não tem sequer €2,5 por dia.

Por dia pra viver, pra comer.

Pra tudo, não é só pra comer. Engloba tudo: alojamento, saúde, educação, alimentação, tudo.

Como é que é possível?

Como é que é possível que uma em cada cinco crianças-

Enquanto isso há bilionários a acumular tudo.

E depois há pessoas que têm milhões e milhões e milhões. Portanto, o mundo ainda é muito desigual. É desigual para as crianças, é desigual para as mulheres. Vimos o que acontece ainda em Portugal.

Exatamente.

Nós temos que trabalhar mais 64 dias por ano do que vocês para ganhar a mesma coisa. É absurdo.

Sim, é absurdo.

E nós vivemos num mundo privilegiado, porque nós somos as poucas que têm-

Mas nós países árabes e africanos.

Não é preciso ser os países árabes. Há muito mundo, onde as mulheres ainda têm vidas muito sacrificadas ou não são donas sequer do seu próprio corpo.

Exatamente.

Portanto, o mundo ainda é muito desigual. Mas eu tenho esperança. Eu tenho sempre esperança.

É bom isso, é ser otimista, isso é importante.

Temos que ser, senão, meu Deus.

Sim, se nos afunda, vai tudo para o caso.

Temos que ser realistas, mas otimistas. Acreditar que a humanidade é capaz do bom, da mesma forma que infelizmente também é capaz do mal.

Muito bem. A arte pode nos salvar dessas coisas também, Teresa, pode nos ajudar muito.

Eu acho que a arte nos pode aliviar.

A cultura em geral e a arte, concretamente, a arte plástica, no teu caso.

Eu acho que a arte nos pode aliviar. A arte alivia quando vês um livro, quando vês um filme, quando ouves uma música, quando olhas pra um quadro, quando olhas para a arte da natureza.

É verdade.

Descomprimes, alivias, pensas noutra coisa. Ou não, ou pensas melhor.

Ou faz-nos pensar. Há peças e teatros e livros que nos fazem-

Arte plástica, tanta coisa que tu olhas e pensas: "Isto faz-me pensar."

Isto inquieta-me, exato.

Ou não, ou suscita-me uma curiosidade. Portanto, leva-te a pensar.

Tem esse poder também, sim.

Tem o poder de te fazer bem, tem o poder de te fazer bem a vários níveis.

Claro que sim. Tudo o que seja pensar, ajudar a pensar, é sempre bom. Tu experimentaste muita coisa, é mentira, pintura em madeira, eu estou a pensar nisso, estou a pensar em origami, estou a pensar em dobragem de papel. Esta coisa que eu adoro, esta tua fase dos animais, que é uma coisa que eu amo perdidamente que tu fazes. A Teresa transforma às vezes aquelas pinturas dela, que faz lembrar também mandalas e faz lembrar caleidoscópios. Sabes do que eu estou a falar?

Sei.

E das falácias. As cores muito bonitas, muito coloridas, e depois transformas aquilo em cartolinas. Houve uma altura em que fazes os animais.

Sim, mas isso-

Extraordinário

...isso não é um trabalho original meu. Esses templates, as pessoas podem todas tirar da internet e fazer aquelas cabeças de animais. A questão que é-

Que é búfalos, elefantes e cavalos

...a questão é como é que tu conjugas as cores. E depois a certa altura eu decidi-

É que não é fácil, aquele cartão, dobrar aquilo e pintar aquilo

...é um jogo de paciência infinita. E depois decidi a certa altura começar a pintar em cima daquilo. A partir daí ganha outra dimensão, como é evidente. Desenhar e pintar em cima daquilo.

Os primeiros eram tudo monocromáticos, era a cor do cartão?

Não, eram cartolinas coloridas, mas depois a certa altura decidi começar a pintar e a desenhar em cima daquilo, o que lhes deu outra dimensão, como é evidente.

Tão bonito.

Isso aconteceu porque foi na altura da pandemia. Eu estava a trabalhar, obviamente, em casa. Houve um período em que tínhamos um grupo de pessoas na SIC em casa a trabalhar.

Em teletrabalho, sim.

Ficamos em teletrabalho porque éramos pessoas que conseguiam montar as peças em casa.

Sim.

E para garantir que havia um grupo de pessoas que se houvesse algum surto na redação, podiam assegurar os jornais.

É a missão.

E portanto, não podíamos-

Ficaste em casa, estava em casa, não podias sair.

Depois estava a trabalhar em casa, mas fora das horas de trabalho também não podíamos sair, não podíamos fazer nada, então comecei a fazer essas cabeças de animais. E o que que aconteceu? Se te lembras, estávamos todos em casa.

Sim.

E eu acho que o que aconteceu às pessoas foi que começaram a olhar para as próprias paredes. E começaram a sentir que as paredes eram tristes e não tinham nada. E a certa altura começam a pedir-me pra fazer estes animais. E não podes imaginar a quantidade de encomendas que eu tive. Eu fiz dezenas.

Estavas com as mãos em água.

Eu fiquei com dores terríveis. Terríveis. Eu fiquei com aquela coisa do túnel, do pulso. Mas de facto, o que as pessoas queriam? As pessoas queriam ter uma coisa colorida em casa para olhar, porque estavam fechadas em casa. E isso permitiu-me fazer uma coisa que nem sempre é possível a um artista fazer, a maior parte das vezes, infelizmente, não é possível, mas que eu gostava que fosse um caminho possível, que foi vender aquilo tudo muitíssimo barato. Quando eu digo barato é mesmo muito barato. Porque de outra forma as pessoas não poderiam ter aquilo. E eu, em vez de pensar naquilo como uma forma de ganhar dinheiro, pensei naquilo como uma forma de estar na casa das pessoas, ter uma peça minha em casa das pessoas. Quando as pessoas olhassem para a parede, tinham ali uma parte de mim.

Uma Teresa Canto-Nóronha.

Exato. Claro que não eram peças muito trabalhadas, não eram peças originais, obviamente, mais uma vez. Eu tenho muita pena, e não me compete a mim definir o que é a arte plástica, não me compete a mim definir que caminho é que deve seguir, pelo amor de Deus, quem sou eu, mas eu tenho muita pena que ainda seja muito elitista, ainda seja uma coisa acessível a poucos. Porque o que acontece? A escrita também era só para poucos, era só para os muito eruditos e para os muito ricos, só para os reis e para os papas. Hoje em dia, qualquer pessoa compra um livro no supermercado e, portanto, democratizou-se a escrita. A música também era só para os eruditos. Durante séculos foi só para os eruditos, ou então era música popular, chamado folclore ou música tribal. Hoje em dia, toda a gente no mundo tem acesso à música. Tu nem precisas quase de pagar, tu descarregas uma aplicação. A música democratizou-se. As artes plásticas continuam a ser uma coisa de nicho. E é uma pena que assim seja. Felizmente, começaram a surgir os artistas de rua, os grafites, as pessoas começaram a trazer para todos.

As cenografias já ajudam muito, democratizam um bocadinho.

Sim, mas é preciso mais do que isso. É preciso que toda a gente possa ver e toda a gente possa ter acesso. E hoje em dia existem coisas novas, formas novas de aceder à arte, que eu acho muito interessantes, como uma coisa em que eu tenho a sorte de poder participar, que se chama Mercado pela Arte, que é organizado por uma associação que se chama Plataforma pela Arte, que é um mercado em que tu, num sábado à tarde, tens 40 artistas numa cave de um estacionamento.

A pintarem, a criarem?

Não, a venderem as suas coisas.

Como se fosse a Feira da Barrageira.

Pelo amor de Deus, mal comparado. Tens artistas mais conceituados e tens miúdos que é a primeira vez que estão a mostrar a sua arte.

Boa ideia.

E estão todos ali uma tarde, com várias vantagens. Primeiro, tudo o que eu ganhar é para mim. Quem organiza não ganha nada, portanto, não há um intermediário.

Sim, uma galeria que fique com X% ou com rem de obras.

Eu tenho o contacto direto com as pessoas. Vou dar-te um exemplo. Eu fiz uma série aqui há três ou quatro anos, tinha umas colagens. Eu achava aquilo o máximo, honestamente. Ninguém olhou para aquilo. Eu estive num desses mercados com as minhas peças lá na parede, que por acaso até estavam quase todos enquadrados, e as pessoas passavam à minha frente e nem paravam para ver. E isto, apesar de ter sido duro, é extraordinário, porque aí é que tu percebes aquilo que tu estás a fazer interessa ou não às pessoas. Porque esta ideia do artista que trabalha só para si, só faz aquilo que gosta. E depois, se só fizeres o que tu gostas, de que serve? Nada.

E tu tens essa coisa que acho que se devia investir na dinamização, na mediação cultural, para que o contacto com o artista não seja só na inauguração e acabou. Essa educação pela arte, que é muito importante.

E que as pessoas possam ir a sítios. Por exemplo, a vantagem deste sítio é que as pessoas podem ir levar o cão, o gato, a criancinha, o que quiserem passear, entram, saem, não têm de falar com ninguém se não quiserem, não precisam de comprar nada se não quiserem. Podem passear ali como se estivessem a passear num jardim, mas estão a ver arte e isso é maravilhoso. E permite também ao artista ter o contacto direto com o eventual futuro colecionador, não sabes.

Arraiolos et al, esta nova série de trabalhos, nós fechamos, já temos 10 juntos, que no fundo estão na loja do CAM, do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, aqui tens o têxtil. Além do teu lápis e as tuas tintas, isto é uma homenagem aos bordados de Arraiolos, aos tapetes de Arraiolos.

Mais uma vez, é uma homenagem às mulheres, não exatamente àquilo que fazem, não especificamente aos tapetes de Arraiolos.

Faz parte da história de Eloné, este centro de trabalhos.

Não és a primeira pessoa que me diz isso.

Mas vais variando com essa tua geometria e essas tuas escolhas, que é sempre muito inspirador.

No fundo, se me permites, é só para dizer que este trabalho é também um bocadinho uma provocação, porque faz-me confusão que se chame a isto arte têxtil, porque, na verdade, eu estou a fazer exatamente o que eu fazia na madeira e o que eu fazia no papel. Só que estou a fazer em tela e com lã. E só porque é feito por uma mulher já se chama arte têxtil, mas se fosse uma escultura em plástico, ninguém chamaria arte plástica, no sentido de plástico. E portanto, eu também queria um bocadinho desmistificar. Eu sou a mesma pessoa que era quando fazia desenho.

Mas passaste imensa coisa, experimentaste imensa coisa, e isso é muito bom.

É só o material diferente.

A tua inspiração, claro que sim.

É só o material diferente. No entanto, é um material tipicamente português, absolutamente sustentável, tradicional, uma coisa onde mulheres passaram-

E muito bonita, as cores são lindas, aquele conjunto, o teu desenho é muito bom. Extraordinário. Para as pessoas te seguirem, última coisa, para te seguirem, tens um Instagram, que é Teresa Canto-Nóronha.

Teresa Canto-Nóronha, é muito fácil.

Teresa Canto-Nóronha. E depois tens este Paper Stuff by TCM, ainda existe?

Ainda existe, mas eu já não faço essas cabeças de animais em papel.

Ah, isso era só os animais?

Mas se as pessoas quiserem inspirar para fazerem elas próprias, ótimo.

Então fantástico, são bem-vindas. Muito bem, Teresa Canto-Nóronha, quero te agradecer muito esta tua disponibilidade em vir aqui.

Muito obrigada.

E que continues sempre com esta inspiração extraordinária e a grande ilustra que tu és também. Gostei muito de conversar contigo sobre o livro de hoje.

Muito obrigada, foi ótimo estar aqui.

Foi muito importante, um ótimo complemento nas tuas várias dimensões. Tens mais que três. Muito obrigado, Teresa. Até sempre.