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Foi o braço direito de Mário Soares, é o militante número um do PS. António Campos vai direto ao assunto nesta véspera dos 100 anos do nascimento do antigo presidente da República, que morreu em 2017. Muito bem-vindo à Rádio Observador, António Campos.
Boa tarde. Obrigado por estar convosco.
Obrigada nós, por estar conosco. Mário Soares foi homenageado hoje no Parlamento, a pretexto deste centenário. É a prova que Soares ainda é fiche?
Ainda é fiche, felizmente pra democracia. Ainda estamos em liberdade, ainda é fiche.
Gostou da ideia do presidente da Assembleia da República, Aguiar Branco, para que Soares tenha um busto na sala do Senado?
Sim, eu mais outros amigos tínhamos tomado a iniciativa quando António Costa estava no governo, de pegar numa estátua do Moura e pôr lá no jardim da Assembleia. Portanto, é a concretização, no fim de contas, de um projeto que vários amigos nos juntamos e que mandamos uma carta com várias assinaturas ao então primeiro-ministro António Costa para fazer isto. Era uma estátua, é um busto, é ótimo. E é para o Senado, não é para o jardim, é ótimo.
Este ano, pela primeira vez, há menos de duas semanas, houve outra sessão evocativa do 25 de Novembro. Pareceu-lhe adequado assinalar os 49 anos desse momento da história política do país?
Eu acho o 25 de Novembro uma história importantíssima. No fim de contas, é a consolidação do 25 de Abril. E aí o Mário Soares teve um papel político fundamental. Havia uma guerra nas estruturas militares, como sabe, tinha havido o 28 de Setembro, depois houve o 11 de Março. O Spínola era contra eleições, era a favor do referendo. Eu e o Mário Soares fomos ao funeral do soldado Luís, ali para cima do Porto, em Amarante, e os militares trataram-nos muito mal. Nós percebemos nessa altura que a direita tinha ido toda para fora do país, mas que a extrema-direita tinha tomado conta da situação. Nós estávamos ainda numa alçada da parte militar e, portanto, a partir daí, e pelo caminho, foi-se discutindo que era preciso, de facto, fazer frente à divisão que havia entre os militares.
E faz sentido, quase 50 anos depois, os partidos fazerem um cavalo de batalha à volta do 25 de Novembro? Há, António Campos, donos da democracia?
Não há. Eu acho que nos 50 anos tinha valido, talvez apenas 49 anos é uma iniciativa, aliás, que não tem. Mas agora, devo dizer que a data é importantíssima pra consolidação da democracia, porque, de facto, nós estávamos à beira de um abismo, estávamos à beira de uma guerra civil, porque tínhamos o setor militar dividido em duas frentes e, portanto, foi importante a ação política do Mário Soares para conseguirmos estabilizar a democracia em Portugal. É uma data importante, porque é estabilizar a liberdade que tínhamos ganho em 25 de Abril.
O Partido Socialista e este PS em particular, têm honrado o legado de Mário Soares?
Não muito. Esqueça-se muito nesta história do 25 de Novembro. Não tem honrado nada.
Mas não tem honrado desde quando e com que líder?
Não. O tempo também muda e o partido também vai mudando. Agora, a partir dos últimos oito, nove anos, tem sido uma estratégia que é um bocado muito diferente da de Mário Soares. O Mário Soares, por exemplo, tinha uma noção de que o mais importante era consolidar a democracia em Portugal e que todo o esforço dele e a vida após o 25 de Abril, o trabalho dele era consolidar a democracia. E nós hoje temos uma democracia onde as instituições, todas elas, estão desacreditadas e estão, de facto, em dificuldade.
Mas estava a falar dos últimos oito, nove anos. Está a referir-se à governação de António Costa e à Geringonça?
É isso mesmo. O partido mudou muito. E portanto, se mudou, também esqueça muito o 25 de Novembro e da possibilidade da extrema-direita e da direita tomar conta de um patrimônio histórico, que é um patrimônio do Partido Socialista.
Acredita que a Geringonça ainda possa ressuscitar se Pedro Nuno Santos vier a ser primeiro-ministro?
Olha, eu conto-lhe uma história. Quando veio o 25 de Abril, o primeiro líder político que veio a Portugal foi o Mitterrand. E o Mitterrand ainda não era presidente de França. E aqui em Coimbra, ele começou a visita aqui em Coimbra e no Jardim da Manga, aqui em Coimbra, há uma grande discussão a que eu assisti entre o Mário Soares e o Mitterrand O Mitterrand dizia ao Mário: "Se ganhar as eleições em França, vou pôr os comunistas no governo e eles vão deixar de protestar e vou-os meter na ordem". E o Mário Soares dizia: "Olha, eu em Portugal tenho que fazer o contrário. Tu vives num país que aguentou 48 anos de uma ditadura fascista, de uma ditadura brutal, e eu aqui tenho que fazer o contrário. Tenho que ver é como trago muita gente que estava durante 48 anos, e aguentou uma guerra durante 13, eu trago para a democracia." E, portanto, já vê qual era o pensamento do Mário Soares. O Mitterrand fez essa estratégia em França, acabou com o Partido Comunista e depois o que nasceu foi o grupo de extrema-direita do Le Pen.
Estava há pouco até a dizer, António Campos, que com o Partido Socialista nos últimos oito anos deu essa possibilidade da extrema-direita e da direita tomarem conta de um património que é também do Partido Socialista. E nesse sentido, pergunto-lhe se o PS tem sabido lidar, agora com Pedro Nuno Santos, nomeadamente, com o atual quadro parlamentar que temos. Se está a combater o fenómeno do populismo e o Chega, em particular, como deve ou como Mário Soares combateria?
Não, com o Mário Soares o Chega nunca existia. Eu conto-lhe uma história que foi quando o Sá Carneiro quis ir para a Internacional Socialista. E o Sá Carneiro foi ter com o Mário Soares, porque o Partido Socialista já era membro da Internacional Socialista. E o Mário Soares explicou a Sá Carneiro como podiam resolver o problema de consolidar a democracia em Portugal. E disse-lhe: "Ó Sá Carneiro, nós saímos da resistência à ditadura, o Partido Socialista saiu da resistência. Vocês saíram do grupo dentro da União Nacional, mas um grupo liberal. Nós precisamos arranjar um partido à vossa direita. E se você quiser, eu até o ajudo a ter contacto com a Fundação Edenauer, porque você tem que montar um partido ao lado do nosso, não vai para a Internacional Socialista e temos que arranjar um partido mais à direita". Esta foi a discussão entre o Sá Carneiro e o Mário Soares, quando o Sá Carneiro foi ter com o Mário Soares para entrar na Internacional Socialista. A preocupação de Soares era, de facto, como é que se consolidava a democracia em Portugal. Essa era a grande linha de rumo do Mário Soares. Eu recordo-me que a primeira reunião que houve após a chegada do exílio, em casa do Salgado Zenha, todos nos comprometemos a, primeiro, lutarmos por eleições. Segundo, elegermos o Mário Soares como deputado. E veja lá, depois chegamos à constituinte cento e tal deputados. Por quê? Porque, de facto, o que nos preocupava era primeiro as eleições e depois a consolidação da democracia. Num país que tinha saído 48 anos da mais longa ditadura que houve na Europa, que era uma ditadura feroz, que matava, que exilava, que prendia, que perseguia, que torturava e que tinha uma guerra de 13 anos, o que é que um resistente à ditadura podia pensar do país? Era como podia consolidar uma democracia e como podia, em Portugal, haver um sistema em liberdade absoluta.
Há dias, numa entrevista ao Público, dizia que Mário Soares considerava que o povo português tinha falta de cultura democrática. Foi por isso que a ditadura do Estado Novo durou tanto tempo?
Pois, é óbvio. Até na Primeira República, que durou 17 anos, houve uma tentativa de uma ditadura. E foi o período ainda mais longo que tivemos de liberdade, que tínhamos tido antes da ditadura. E, portanto, o Mário Soares conhecia a história de Portugal em pormenor. Conhecia essa história e portanto, tinha um sentido histórico do país, que ele procurava alterar. Quando ele decide, em 77, irmos para a União, contra todos, contra quase tudo, era um seguro de vida para a democracia portuguesa. Não eram os fundos comunitários, que aliás a ele lhe passavam ao lado. Era um seguro de vida. Eu recordo-me no Estoril, no Hotel Palácio, os 20 melhores economistas votarem por unanimidade contra a nossa entrada na União. E eu nunca levei tantos pontapés de él para estar calado. No final, eles votaram por unanimidade contra a entrada. E ele chegou cá fora e disse: "Epá, temos que ir mesmo. Amanhã vamos pedir a adesão à União". Ele tinha ideias sobre o país concretas. A lamúria, para ele, era uma coisa que o incomodava. Lamúria dos economistas: "Isto é um país pobre, é um país que não aguenta, é um país de analfabetos". Essa lamúria não entrava na cabeça do Mário Soares. Mário Soares sonhava com um país, de facto, a nível do melhor que poderia haver na Europa.
E deixe-me perguntar se agora com 50 anos de democracia, o povo português já tem essa cultura democrática.
Ouça uma coisa, nós já fizemos um trajeto monumental Chamo-lhe a atenção que recebemos um país com 30% de analfabetos. O Mário Soares adoecia o cardíaco para fazer os cursos de adultos, porque se arrepitava se não houvesse um português que soubesse escrever o nome. Recordo-lhe que saíram dois milhões de imigrantes, muitos deles morreram de fome. Portanto, nós recebemos um país dessa dimensão. Hoje tem um país completamente diferente. Hoje estamos a exportar 30% da inteligência nacional, 30% dos jovens que saem altamente qualificados são para exportação. O que quer dizer que nós fizemos muito mais do que a mentalidade nacional foi capaz de fazer. Porque não é admissível que em 50 anos nós tenhamos feito este trajeto e hoje sejamos um dos maiores exportadores de quadros altamente qualificados.
Já percebemos que está um pouco desiludido, António Campos, com este caminho que o país vem trilhando. Só para terminarmos mesmo, temos aqui alguma curiosidade em saber que candidato apoiado pelo PS às presidenciais de 2026 é que gostaria de ver nessa corrida.
Eu não tenho nenhum candidato, nem vou discutir isso agora.
Mas tendo em conta quem já se vai perfilando à esquerda.
Ouça, há um país que gosta de certeza absoluta de uma coisa: de uma farda. A farda é sempre um símbolo da força. Isso aí, dentro da cultura portuguesa, tem sempre uma atração.
Mas vê algum problema em ter um militar em Belém?
Não, não vejo problema, já nós tivemos o outro, já nós tivemos o Salgueiros. Mas o que eu lhe digo é que isso é um símbolo, não é de ideias. Não estamos a discutir ideias. A farda é um símbolo de força e essa condiz-se um pouco ainda com a mentalidade nacional, um pouco. Ainda se condiz um pouco com a mentalidade existente. Não tenho nenhuma dúvida.
António Campos, muito obrigada por ter vindo ao Direto ao Assunto da Rádio Observador. Bom fim de semana para si.
Obrigado .