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Não se deseja a ninguém um resultado destes. José Ribeiro e Castro critica hoje, num artigo de opinião no Observador, o partido de que já foi líder, o CDS. É o nosso convidado do "Direto ao Assunto". Bem-vindo.
Boa tarde.
Defende que o CDS não fez o esforço que devia ter feito para uma maior mobilização na campanha eleitoral, dando a ideia de ter ido à boleia do PSD. Apesar de a AD ter vencido e de o CDS até regressar ao Parlamento, estes resultados foram poucochinho?
Eu não quero diminuir o significado para o partido de regressar ao Parlamento, isso é um facto importante. Isso deveu-se, sobretudo, a ter sido feita a AD, que é uma escolha que eu sempre concordei, e à extrema generosidade que o PSD teve para o CDS, e que é invulgar. Havia tecnicamente uma dificuldade na formação das listas, uma vez que normalmente as listas de coligação são feitas com base nos resultados anteriores, e os resultados anteriores tinham significado a saída do partido do Parlamento, portanto, não havia referência. E o PSD compreendeu a importância que para o eleitorado, diversamente do que aconteceu em 2021, e portanto, foi possível esse resultado. Eu saúdo o resultado. Agora, creio que o CDS não seguiu a linha de união da totalidade do partido, que o PSD fez. O PSD convidou todos os antigos líderes para participar, o que não aconteceu no caso do CDS, e sentiu-se, de resto, uma pouca participação, além de que se distraiu a meio da campanha com a convocação do congresso, que eu confesso não percebo qual era a pressa. O partido chegou a um estado tão limitado de recursos e de militância, que eu creio que qualquer fator de distração era negativo. E também não vi, de facto, o CDS muito empenhado nas semanas de campanha a esclarecer a possível confusão entre o AD e o ADN, evitando a fuga de votos para o ADN, que tudo indica se verificou num número que significou a perda de três deputados para a AD e que seriam muito importantes para alterar o retrato final das eleições. Portanto, é isso que eu critico. E também chamo a atenção, que obviamente é muito importante que o presidente do partido assinale que vai colocar de volta a placa do grupo parlamentar do CDS nos corredores do Palácio de São Bento, mas enfim, chamo a atenção que ele teve grandes responsabilidades nessa saída há dois anos. É isso, basicamente, que tenho a dizer. Bem faço votos para o futuro que as coisas sejam melhores. Vejo que para a direção do partido estou dispensado, o que não significa uma vida mais descansada, mas é uma visão errada de um partido exclusivo, feito a partir do teto, isso não ajudará a resolver para o futuro os problemas do CDS. Mas nesta altura, o mais importante é que a AD tenha um bom desempenho no governo, porque isso é o que os portugueses querem e não estas questões, e que exista da parte de todo o eleitorado que votou AD e do CDS, em particular, um apoio incondicional ao desempenho da AD, que tem uma missão muito difícil, porque o resultado das eleições é muito crítico e cheio de incertezas.
Não apareceu na campanha. Diz que não o fez porque a direção do CDS não quis que o senhor estivesse, assim como também não esteve o ex-líder Francisco Rodrigues dos Santos. Acredita que poderiam ter ajudado a conquistar mais votos?
O povo diz: "A união faz a força." É um ditado popular. Eu sempre achei que era mais importante que o doutor Nuno Melo conversasse com o doutor Francisco Rodrigues dos Santos e sinalizassem a paz no partido, porque essa é que é a história recente. A história comigo é mais antiga e, portanto, há gente que não viveu. Também é importante, mas a história recente do partido, a fratura que foi feita, violentíssima, no partido ao longo de todo o ano de 2021, é isso que importava ser apagada. E as pessoas normalmente respondem positivamente a esses sinais de paz e de união. Portanto, o partido teve muito tempo para os fazer, não quis fazer, é uma escolha.
Está ressentido com Nuno Melo pelo facto de não ter promovido essa convergência?
Até estou bastante agradecido, devo dizer. Estou muito agradecido, mas para o partido acho um erro.
Ribeiro e Castro, perante os resultados que temos agora, o Chega a quadriplicar o número de deputados, o CDS a conseguir eleger apenas dois, foi uma boa estratégia ser Nuno Melo a combater o Chega durante a campanha?
Eu não sei se combateu. Eu não vi isso. Eu, aliás, sempre disse que a melhor forma de combater o Chega não é combater o Chega, é combater o PS e a esquerda. Isso é que é uma forma inteligente de combater o Chega, porque as pessoas do CDS e do PSD que foram para o Chega e independentes, foram porque se fartaram da fraqueza e das concessões e dos complexos de esquerda no PSD e no CDS. O Chega chama-se Chega, eu digo muitas vezes, mais que um partido, é uma interjeição, porque interpela essa irritação das pessoas. E essa irritação, em muitas áreas, tem razão de ser Há irritação com a falta de representação política nos seus partidos tradicionais e também irritação pela degradação contínua da situação do país. No interior, isso é muito sensível e ninguém olha para o interior. Eu farto-me de falar no interior e conheço bem o interior, é desolador o panorama que essas pessoas vivem, até porque ninguém lhes liga e o Chega interpreta isso. Portanto, a forma de combater o Chega e diminuí-lo é diminuir o seu apelo, é diminuir as razões para o Chega interpretar a frustração, a irritação e a zanga das pessoas.
O trabalho de mobilização que ficou por fazer acabou por ter impacto na fuga de votos para o ADN?
Eu creio que sim, porque foi muito pouca a atenção. Eu vi que circularam nas redes sociais, ainda antes do início da campanha, alertas para esse facto e vi que houve respostas do PSD nalguma campanha, mas não foi feito com a intensidade com que isso devia ser feito. E isso normalmente é uma coisa que os aparelhos de partidos faziam. Mas enfim, o CDS foi bastante debilitado por força dos acontecimentos de 2021, portanto estaria fraco, mas por exemplo, não vi a Secretaria-Geral mandar um alerta aos militantes para que atuassem. E é bastante fácil chamar a atenção para a forma de votar ou que até nas redes sociais do CDS isso fosse feito com a intensidade que nós vemos hoje que era necessária. E portanto, aí houve uma falha técnica de campanha e que merece reparos, mas o mal está feito, não há nada a fazer contra isso.
Pela sua descrição, dá a sensação de que o CDS foi numa espécie de boleia na AD.
Sim, é a percepção que eu tive. E era preciso fazer muito trabalho de base. Eu tenho a visão que a direção do partido hoje, nomeadamente o presidente do partido e outros, também Paulo Portas, têm a ideia de que o CDS é um partido pendurado do teto e portanto estão bastante desligados das bases e das militantes. E aquela insistência muito sistemática num partido de quadros dá a ideia de umas pessoas que são boas, mas que têm que andar sempre no topo e nos palcos. E é muito importante fazer sempre o trabalho fino da militância, da proximidade aos eleitores, porque é aí verdadeiramente que se ganham as eleições e não apenas com uma câmera de televisão à frente. E creio que o partido está bastante debilitado. E portanto, é a situação que resultou dos últimos acontecimentos. Também chamo a atenção no meu artigo, que isso merece ser refletido, os partidos que eram da AD, portanto, o PSD e o CDS, o CDS mais em queda, mas o PSD também deslizando em contínuo desde 2011. E portanto, é preciso olhar para isso. É daí que emergiram o Chega e a Iniciativa Liberal, e é preciso olhar para isso. Bem sei que nessa altura não é uma prioridade. A prioridade é o governo, mas é importante que as pessoas dos partidos que não estão no governo e que se podem ocupar destas matérias, olhem seriamente, profundamente para estas questões e as reparem.
Mas acha que o crescimento do Chega, por exemplo, está intimamente associado a uma perda por parte de PSD e CDS junto do eleitorado?
Sim, não tenho dúvida disso.
A responsabilidade é à direita, não há responsabilidade à esquerda também pelo crescimento do Chega?
Sim, também existe. Mas esses dois partidos surgiram à direita como uma reação à geringonça. Portanto, esses partidos aparecem em 2019 como uma reação à entrada da extrema-esquerda para o arco do poder e uma certa percepção de perigo de que a política portuguesa giraria mais para a esquerda e, portanto, uma reação própria. Mas também interpretando que o PSD e o CDS, como os resultados enfim mostram, não estavam a ser capazes de interpretar essa resposta com o vigor que as pessoas reclamavam. E depois foram sempre a crescer. Apareceram em 2019, cresceram em 2022 e cresceram agora mais em 2024. Portanto, é preciso olhar para isso a sério. Por exemplo, nós comparando os resultados de 22 com 24 são muito semelhantes. Isso também mostra que se Rui Rio não tivesse feito o erro de não ter feito a AD em 2021, em 2022, provavelmente teríamos tido um resultado semelhante e o PS não teria tido a maioria absoluta e outro galo teria cantado ao longo destes dois anos. Mas portanto, houve uma manutenção, não houve uma recuperação. E ainda que haja um aumento do número de votos, que é significativo, acompanha conforme feito a subida do número de eleitores. Quer dizer, a AD acompanhou também a subida do número de eleitores, mas não tanto quanto outros que subiram bastante mais, como é o caso do Chega.
E já que fala dessa subida do Chega neste artigo que assina no Observador, fala na invejável ou temível proeza do Chega com esta quadruplicação do número de deputados. Vai o Chega ser irremediavelmente o seguro de vida de Luís Montenegro?
Eu não sei se é o seguro de vida. A situação é bastante incerta, porque André Ventura tem um discurso bastante errático e às vezes diz uma coisa e depois outra. É um pouco difícil saber, como eu digo também no artigo, o que é previsível no Chega e a sua imprevisibilidade. Mas, por exemplo, eu termino o artigo com algumas etapas que seriam definidoras e a primeira cumpriu-se hoje, que foi a investidura parlamentar do governo regional dos Açores e correu bem. Isso é um bom sinal. O Chega absteve-se nessa votação, permitiu que o governo AD nos Açores se cumpra, como aliás é desejo dos açorianos, e é a continuidade da obra positiva que fez na outra legislatura regional, que foi precocemente interrompida. Isso é um sinal para o futuro. É um bom sinal.
Acredita que vai replicar esta conduta e este posicionamento em relação à Governo da República?
É um bom sinal. Eu creio que este resultado, que é muito crítico para muitas áreas, não é só para quem ficou com a responsabilidade de governar, que é a AD, pede de todos os partidos, sem exceção, responsabilidade. E o Chega também. Nas últimas declarações de Ventura, é previsível que não haja problemas na investidura parlamentar do governo. Em Portugal, no continente ou no Governo da República, melhor dito, o programa não tem que ser votado, mas já foi anunciada uma moção de rejeição e é de acreditar que o Chega não acompanhará a moção de rejeição do Partido Comunista, e seria bom que o PS também não. Se quer ser diferente, deveria também fazer isso. Se quer afundar a extrema-esquerda, o PS escolherá também livremente o seu destino. Agora, com o orçamento será provavelmente diferente, mas o orçamento também é uma área em que é costume e habitual negociar com todos. A negociação parlamentar é uma questão aberta e isso faz parte da própria elaboração do orçamento. Há também uma forma de definir esta legislatura, um momento importante, que é a eleição do presidente e da Mesa da Assembleia da República. E aí também creio que as coisas estão facilitadas, porque a AD o que pode fazer e deve fazer a meu entender, é repor a democracia na eleição da Mesa e acabar com a cegarrega que foi a eleição da Mesa, que ficou sempre incompleta a legislatura toda, na vez anterior. Aquilo que o regime constitucional determina é que o presidente é do partido mais votado, sempre essa a praxe que esteve, e os vice-presidentes, secretários e vice-secretários se ordenam pela ordem de votação e de representação parlamentar dos partidos. E que as listas sejam feitas nessa base é o que é recomendável e isso não representa nenhuma negociação, representa honrar a democracia constitucional estabelecida em abril de 1976.
Tendo em conta que falava da possibilidade da conversa sobre um orçamento ser diferente do que deixar passar o governo logo na investidura, acha que a AD nesse cenário devia apresentar um orçamento retificativo ou é um risco?
Não sei, isso acho que é o doutor Luís Montenegro que tem todo o mandato para fazer essa avaliação. Não tenho nenhuma sugestão a dar. Nós temos nessa altura, eu considero-me da área da AD, e trabalhar para apoiar e ajudar, na medida do possível, o governo a desempenhar muito bem as suas responsabilidades. É isso que desejamos, e é isso que será bom para o país e ao mesmo tempo bom também para a AD. Quanto mais coisas corretas o governo for fazendo, mais consolida o seu crédito e prestígio na sociedade portuguesa. Portanto, isso é bom.
Que força é que pode ter o CDS neste regresso ao Parlamento com dois deputados, sendo que a Iniciativa Liberal, que já aqui referiu, tem oito deputados, o Chega tem 48. Qual é o papel do CDS e pode nesta legislatura conseguir obter mais algum apoio por parte do eleitorado, merecida a sua atuação?
Isso terá que ser a direção do partido e os deputados a definirem quais são as causas e matérias em que se querem entregar, sobretudo. Convém ter a modéstia à partida, porque de facto é uma representação limitada e as capacidades de intervenção. Mas são pessoas, quer o doutor Nuno Melo, quer a doutora Paula Nossa, são pessoas com experiência. A doutora Paula Nossa, nomeadamente, é uma pessoa muito treinada e batida nas questões da fiscalidade e do orçamento. Admito que possa ter algum destaque no debate orçamental e da fiscalidade. Mas sobretudo, eu creio que o CDS tem uma obrigação e que não aconteceu em matérias essenciais. É ser absolutamente leal e coeso para com o primeiro-ministro. Isso é fundamental.
E havendo algum acordo com a Iniciativa Liberal por parte da AD, deveria ser de que tipo, Ribeiro e Castro? Fazer parte do governo, incidência parlamentar ou medida a medida, que é de resto o que Rui Rocha diz ser mais provável.
Não sei. Isso é do primeiro-ministro, mas acho que o primeiro-ministro e líder do PSD, que é o líder da coligação também, tem a margem de escolha que entender definir.
Mas o que dá mais garantias de estabilidade?
Depende. Há acordos de base parlamentar. Há aliás fórmulas originais. Eu lembro do governo PS/CDS, que toda gente interpretou como a coligação, mas tecnicamente não era assim. Era um governo PS com personalidades E as personalidades eram os três ministros do CDS. Sabe que o naipe dos figurinhos políticos é ilimitado. Mas o que é importante é que nos acordos que se façam, não haja reserva mental e seja evidente para toda a gente que são acordos feitos de boa-fé, com entrega total a uma missão patriótica a partir do governo e com uma grande coesão. É isso que é importante. Agora, as formas de o traduzir são múltiplas. Presumo que o PSD é de largo o partido dominante e comporá todo ou quase todo o elenco governamental, mas a margem de abertura depende também de ponderação de critérios de peso político, de competência, de proximidade às matérias de que se trata. Mas o essencial, face à fragilidade que resulta objetivamente dos resultados das eleições, é que esses acordos políticos transmitam uma imagem substancial de grande coesão, de grande determinação e de grande lealdade entre as partes. Esse é que é o fator decisivo e que desencadeia uma química positiva que se comunica depois à sociedade portuguesa.
Rui Vieira Castro, muito obrigado pela sua disponibilidade, pela sua presença neste "Direto ao Assunto" da Rádio Observador, em que refletimos sobre o futuro imediato do CDS à luz dos resultados eleitorais do passado domingo.