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Provas de aferição digitais. Está o país preparado para esta transição? É já amanhã que são realizadas as primeiras, debaixo de alguma contestação. É nosso convidado no direto ao assunto de hoje, Alexandre Homem Cristo, ex-conselheiro no Conselho Nacional de Educação, colunista no Observador. Vai estar aqui à conversa com a Judite França, Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz.

Debaixo de contestação e com informação e mudanças que chegaram em cima do joelho, em cima da hora, é queixa dos diretores de escola. O presidente do IAVE, o Instituto de Avaliação Educativa, assumiu há minutos aqui na Rádio Observador que as informações podiam ter chegado mais cedo e que as condições nunca são as ideais. Alexandre Homem Cristo, bem-vindo. O governo está a querer mostrar que usa o dinheiro do PRR para esta transição digital, mas estará a usá-la à pressa e isso pode ser contraproducente?

Boa tarde. O dinheiro do PRR tem um calendário de implementação e há aqui um prazo que obriga também o governo a acelerar um pouco o ritmo da chamada digitalização nas escolas e é essa necessidade que obrigou a saltar algumas etapas de preparação e que fez com que estivéssemos agora sob pressão a fazer esta preparação para os alunos que vão entrar a partir de amanhã nesta fase das provas de aferição em digital. De qualquer modo, eu acho que temos que desdramatizar um pouco a questão, por duas razões: primeiro, porque efetivamente as escolas não têm apenas o dia de amanhã para fazer as provas. As provas começam a ser aplicadas amanhã, mas o prazo de implementação dura até dia 26 de maio, portanto até o final da próxima semana, o que significa que apesar de tudo, as escolas vão ter algum tempo para fazer a instalação da aplicação e a preparação dos equipamentos e até de verificação das placas de rede que têm nas escolas. Por um lado. Por outro lado, acho que é importante também salientar que foram feitos alguns testes-piloto, foram identificados alguns constrangimentos e corrigidos esses constrangimentos. Claro que não é possível, num primeiro momento de implementação em grande escala, conseguir antever todas as dificuldades que possam surgir e eu antevejo que surjam algumas dificuldades. O que eu creio é que isso não pode servir de razão para atacar todo o processo, quando aquilo que está aqui em causa são assuntos que eu considero menores, apesar de eventualmente podermos criticar, eu acho que com justiça. É óbvio que estas instruções de instalação às escolas deveriam ter chegado mais cedo e não chegaram, é pena, mas creio que apesar de tudo haverá tempo para dar uma resposta à altura.

Mais do que provas de aferição para aferir as capacidades dos alunos, estamos a falar de um teste ao próprio sistema?

Essa é a pergunta-chave. O Bruno aqui coloca a questão que as pessoas não estão a discutir, mas que é realmente a que importa, que é: para que servem estas provas de aferição? Na minha opinião, eu sei que aqui posso não estar em maioria, ou melhor, pelo menos o sistema não olha para esta questão da mesma forma que eu, mas acho que a maior parte das pessoas olhará, é que estas provas de aferição têm uma utilidade muito limitada, precisamente nesta questão de avaliação do sistema, que é se conseguimos ou não, a partir das provas de aferição, ter um diagnóstico sistémico sobre o que sabem os alunos, onde estão as dificuldades e como podemos ajudá-los de uma forma mais estruturada. E eu acho que aí é que é o ponto, é que não é tanto se as provas de aferição são realizadas em papel ou digital, é para que elas servem. E neste momento, tendo em conta que elas são realizadas no segundo ano, no quinto ano e no oitavo ano, que são anos que não têm comparabilidade estatística com anos anteriores, porque desde 2001 que estas provas de aferição existem, mas existem para anos de escolaridade que são os finais de ciclo e não são os mesmos que agora estão a ser aplicados e, portanto, não há comparabilidade para trás, que é um primeiro problema. Depois, os resultados também não são publicados como eram no passado, ou seja, acessíveis ao público e até passíveis de serem utilizados em estudos de grande escala. Não é o que acontece. E, portanto, até a própria classificação dos alunos é uma apreciação qualitativa e não quantitativa, o que também dificulta o tratamento dos dados, o que significa que o potencial de utilidade destas provas de aferição é muito limitado e não tem qualquer comparação com as provas de aferição que nós tínhamos no passado, que não é por serem em digital ou papel, é porque estavam nos finais dos ciclos e porque tinham classificações quantificáveis. E permitiam essa comparabilidade, até porque eram todos os anos as mesmas provas e agora não é, agora há ciclos de três anos em que as provas vão sendo avaliadas de forma rotativa e eu creio que o sistema que nós temos agora não nos permite essa avaliação sistémica e eu acho que há aqui um certo dramatismo por algo que no fim do dia terá muito pouca importância para o trabalho nas escolas.

E qual é a vantagem dessas provas serem digitais?

A vantagem imediata é uma questão logística, burocrática, administrativa, ou seja, todo o tratamento da informação, toda a preparação dos testes, tudo o que tem a ver com a rotina dos exames, e nós conhecemo-la, que é os testes serem preparados e serem enviados em envelopes, os professores terem que ir buscar às escolas onde eles estão a ser entregues aos professores, que depois levam para as suas escolas, a polícia ter que verificar os envelopes, enfim, é todo um procedimento que ao ser digital é evitado e até a própria correção é automatizada. Eu imagino que do ponto de vista do peso burocrático e administrativo que as provas da aferição e os exames representam para o trabalho nas escolas, o ser digital é muito mais cómodo, muito mais rápido, e tanto quanto sei, é aliás essa a principal vantagem que o governo tem apresentado.

Mas como é que se garante, Alexandre Homem Cristo, que haja igualdade entre os alunos neste tipo de avaliação, porque há franjas mais pobres que não têm sequer o mesmo acesso às tecnologias. Nós ouvimos aqui, e o Alexandre Homem Cristo já falou sobre isso também, mas ouvimos também há pouco o presidente do IAVE falar da tal aplicação que vai ser instalada pelas escolas e que assegurará essa equidade.

Agora vou dar uma resposta um bocadinho provocatória, mas não se garante. Mas se fosse em papel e caneta também não se garantia, porque esses alunos partiam para a prova com uma desvantagem, porque de facto não é igual crescer num contexto socioeconómico desfavorecido do que crescer num contexto favorecido. Essa desvantagem existe. Aqui a questão é acrescentarmos uma camada ou uma desvantagem suplementar, que é estarem ou não capacitados, treinados, habilitados para manusear e utilizar o equipamento em causa. Aqui há dois pontos: o primeiro tem a ver com a idade. Eu acho que esta questão coloca-se sobretudo para os alunos que estão no segundo ano, que não vão ser testados a partir de amanhã, ainda não chegou a fase da avaliação destes alunos. Esses alunos do segundo ano, que são alunos que têm oito anos, nove anos, eventualmente, de facto podem não ter ainda uma grande experiência na utilização dos equipamentos e isso pode prejudicar os seus desempenhos. Dito isto, vamos ao segundo ponto, a palavra que temos é a palavra do presidente do IAVE e a informação que temos é oficial dos serviços do Ministério da Educação, existiram testes piloto que validaram as provas digitais no sentido de os resultados obtidos pelas provas digitais serem estatisticamente equiparáveis àqueles que são obtidos em provas manuscritas. E portanto, em princípio, esse risco não se coloca. Isto é em princípio e é na teoria, eu acho que na prática seria uma ilusão acreditarmos que esta questão não se colocará. Eu acho que as escolas têm que ter atenção a isso e têm que tentar preparar os seus alunos, sobretudo aqueles que sintam que possam ser aqueles mais fragilizados, para que consigam, de facto, não ter esse handicap suplementar no dia da realização da sua prova.

Já agora, só para terminar e por isso temos pouco tempo. Tem-se falado muito na forma, mas no que diz respeito ao conteúdo, também há notícias de que se pediram aos alunos do segundo ano, portanto crianças de sete, oito anos, para imitar o som de uma minhoca e de um sapo cego. Isto do ponto de vista pedagógico faz sentido?

Eu não sei avaliar do ponto de vista pedagógico se faz sentido ou não. O que sei é que é absolutamente indiferente, porque se as provas não servem para grande coisa nesse sentido, perguntar se o sapo é cego ou se vê, aqui no fundo, não faz uma grande diferença o tipo de resposta que o aluno vai dar, no sentido em que o professor consegue avaliar se o aluno tem uma resposta criativa ou não tem uma resposta criativa. Só para dar o enquadramento, essa questão que foi colocada numa prova de aferição de expressão artística e portanto, estava a pedir ao aluno que tivesse uma forma criativa de lidar com esse obstáculo ou com esse enunciado. É muito subjetiva também a avaliação que o professor possa fazer dessa resposta do aluno e, sobretudo, não é comparável entre alunos nem entre anos letivos passados. Ou seja, as respostas que saírem daí não terão qualquer tratamento relevante que nos permita dizer se de facto os alunos estão melhores ou não estão melhores na parte da expressão artística. Mais uma vez, eu acho que é um exemplo que é caricato e que nos faz ter dúvidas sobre o conteúdo, mas no fim do dia, infelizmente, tendo em conta a natureza das provas, não vai fazer grande diferença.

Obrigada pela análise, Alexandre Homem Cristo, aqui no "Direto ao Assuntos" estivemos a perspetivar estas provas de aferição digitais que começam amanhã debaixo de algumas críticas.