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Hoje é Manuela Ferreira Leite a ir direto ao assunto aqui na Rádio Observador. A antiga líder do PSD, ex-ministra das Finanças, vai analisar aqui as revelações dos depoimentos de João Galamba, também do ex-adjunto Frederico Pinheiro e da chefe de gabinete Eugénia Correia. Uma entrevista conduzida pela Judite França, Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz.
Bem-vinda, Manuela Ferreira Leite. Depois de tudo o que ouviu esta semana na comissão de inquérito à TAP, ficou esclarecida ou tem ainda mais dúvidas sobre o envolvimento das secretas na recuperação do computador do ex-adjunto do ministro das Infraestruturas? Manuela Ferreira Leite, creio que está conosco no Direto ao Assunto. Estamos com alguma falha técnica, mas a recuperar o contato com Manuela Ferreira Leite, a antiga ministra das Finanças, que vai aqui reagir às revelações de João Galamba, do ex-adjunto Frederico Pinheiro e da chefe de gabinete Eugénia Correia. Foi uma semana intensa, 19 horas de audições na comissão de inquérito à TAP, ainda com uma série de contradições e, portanto, a verdade ainda não está toda apurada. Talvez mesmo estejamos longe disso. Manuela Ferreira Leite, bem-vinda. Perguntava eu se depois de tudo o que ouviu esta semana ficou esclarecida ou tem ainda mais dúvidas, sobretudo aqui, no que diz respeito ao envolvimento das secretas.
Muito boa tarde. Realmente, penso que todos ouvimos as histórias que foram sendo relatadas ao longo desta semana. Devo dizer que eu acho uma história de tal forma surreal, que não é isso propriamente que impressionou, porque é uma coisa surrealista. Envergonha-me mais do que propriamente me preocupa. O que me preocupa, verdadeiramente, é que isto é aquilo que foi ilustrado aos nossos olhos e aos nossos ouvidos, a forma como funciona o governo. E isso é que é verdadeiramente grave neste país. A forma como funciona o governo é algo de inimaginável, que não sei se haverá muitos casos semelhantes a este. O conjunto dos ministros funciona como um conjunto de baratas tontas, que não têm uma orientação, não sabem para que lado é que vão. Isto é, cada um está se a mexer, está se a mexer cada um para seu lado, embirram uns com os outros, perseguem-se uns aos outros, pregam partidas uns aos outros, portanto um conjunto de baratas tontas que ninguém os mete na ordem. E, portanto, o que eu acho é que do ponto de vista do governo, do ponto de vista do país, este é que é verdadeiramente o ponto grave, que faz com que assuntos como este e episódios como estes, surrealistas, possam acontecer a qualquer hora. E nós estamos num país em que isto acontece no século XX. Como é que é possível que, pelos vistos, quando houve uma passagem de um ministério para outro ministro, no caso do Ministério de Infraestruturas, que passou, entrou um ministro em substituição de outro ministro, dentro do mesmo governo, eles não devem ter feito sequer uma passagem de pasta. Coisa que, evidentemente, em qualquer governo com o mínimo de lógica, essa passagem de pasta é feita entre os ministros, mesmo sendo de partidos diferentes, quanto mais sendo do mesmo partido e sendo o mesmo governo. Não há uma passagem de testemunho. De tal forma não houve passagem de testemunho, que o atual ministro, se queria saber alguma coisa sobre o dossiê mais importante que ele tem em mãos, que é a reestruturação da TAP, tinha que se socorrer de um sujeito que ele, pelos vistos, não conhecia, que ele, pelos vistos, não tinha confiança, mas que era ele que tinha o processo da TAP, porque não houve o ministro anterior que lhe passou, em conversas, em relatos, em documentos, um processo tal como este.
Mas esse processo devia estar num arquivo, não num computador.
Não, devia estar na cabeça, devia estar na ideia política, devia estar nos passos que já foram dados, devia estar no momento em que as coisas seguiam. Havia uma conversa. Eu também passei por passagens de pastas. E passei por passagem de pastas de ministros de governos diferentes, de um governo socialista para um governo PSD.
Doutora Manuela Ferreira Leite, nos depoimentos que ouvimos esta semana, considera que houve uma desresponsabilização do atual ministro e da sua chefe de gabinete em relação ao que aconteceu na TAP, atirando, por assim dizer, as culpas para o anterior titular da pasta?
Olha, isso é o ponto que menos, mais uma vez refiro e sublinho, que é o ponto que para mim é mais a parte da novela. A parte da novela não é aquela que me toca como cidadã portuguesa. Aquilo que me toca como cidadã portuguesa é ver para que sítio é que vai um país que se governa e que se orienta e cujos problemas são estes que nós temos estado a ver. Se é um adjunto que é de confiança, se tal relatório que está no computador, se realmente o computador desaparece por qualquer motivo, ou se estraga, ou se acontece não sei o quê Talvez haja um no Ministério das Finanças, como ouvi, ou deve haver com certeza um na TAP. Mas isto é real. O que é isto? O que é isto de um processo absolutamente importante, o ministro precisar de uma pessoa em quem não tem confiança e, pelos vistos, não tinha confiança nenhuma, porque segundo ele próprio disse, ele ia durante a noite, várias vezes à noite, a tirar fotocópias. Portanto, como não foi naquela noite em que houve a zanga, com certeza era noites anteriores. Eu pergunto que quem tentava era para o mandar embora.
E o principal responsável disto tudo, Manuela Ferreira Leite, é João Galamba ou é António Costa?
É António Costa, que governa um conjunto de baratas tontas. E essas baratas tontas é ele que as cria.
E deveria ir à comissão de inquérito, como pedem a Iniciativa Liberal e Bloco de Esquerda?
Não sei o que é que lá vai fazer, porque o problema deste país não é aquilo que se está a passar na comissão de inquérito. A comissão de inquérito serve com certeza para muitos aspectos, mas o problema de fundo, o problema de raiz, o problema que está na base do descalabro em que nós estamos, não tem a ver com a comissão de inquérito, nem tem a ver com o que se passa na TAP. Tem a ver com uma desorganização, uma desorientação total, cada um faz o que entende, cada um faz o que quer, cada um faz as partidas que entende. Os problemas do Partido Socialista estão todos localizados no governo e, portanto, é os assuntos do partido que têm mais prioridade em termos de importância do que os problemas do país. E eu pergunto se é capaz de me dizer onde é que está a orientação do primeiro-ministro.
Mas ontem ficámos a saber, através do depoimento de João Galamba, que o ministro informou António Costa, o primeiro-ministro, da intervenção do SIS, que era algo que não sabíamos até agora. Isto aumenta ainda mais a responsabilidade do primeiro-ministro em toda esta situação, e é grave.
Ouça, o primeiro-ministro, em qualquer circunstância, é a pessoa que tem responsabilidade sobre aquilo que se passa no governo. E aquilo que eu torno a sublinhar, estou mais ou menos a secundarizar a trica, o elemento, aquilo que o outro disse, o que o outro fez.
Mas a intervenção do SIS não é uma trica.
Não, não é uma trica. Mas é mais um elemento a mostrar em que situação nós nos encontramos neste país. Nem temos um primeiro-ministro a orientar, as instituições estão a ser completamente desautorizadas, o que significa que estamos realmente numa situação de descalabro. Estamos numa desagregação total. Eu dou-lhe um exemplo que não tem a ver com isto, mas que tem a ver com aquilo que é extremamente preocupante neste momento, que é a questão dos dinheiros do PRR. Os dinheiros do PRR estão a ser fiscalizados. O próprio presidente da República tem sido muito incisivo no sentido do controle do PRR. Mas o problema não é gastar-se o dinheiro do PRR, fiquem descansados que ele é gasto todo até ao último cêntimo. O problema do PRR e do gasto do PRR é que está a ser aplicado em despesa corrente. Isto é de uma gravidade que é muito superior ao problema do SIS. É de uma gravidade inimaginável do ponto de vista do futuro do nosso país. Porque se é para despesa corrente, então quer dizer, quando acabar o dinheiro do PRR, e acabará dentro de muito pouco tempo, aqueles serviços que neste momento estão a funcionar fixizadamente, é uma ficção, porque estão a funcionar na base de subsídios do PRR, que está a fazer pagamentos a despesas que não deviam existir. Então, nessa altura, nós estamos a ver que isso depois é suspenso, não há mais, e depois provavelmente o culpado é o próximo governo que venha.
Tenho que lhe falar do Presidente da República, porque hoje mesmo disse que não muda nada do que disse há duas semanas. Diz que vai continuar bastante atento. Tem uma reunião semanal com António Costa, calhou para o dia de hoje e não ontem, como seria normal. O Presidente da República deveria tomar alguma iniciativa mais dura?
Penso que, evidentemente, o Presidente da República não esperará por haver um desabar total para tomar qualquer decisão. Ele tem dito várias vezes que está atento. Não é preciso estar-se muito atento, quer dizer, basta a pessoa ter consciência de que realmente nós estamos em roda livre ou o governo está em roda livre.
Então o que é que falta ao Presidente da República? Ter a certeza que o PSD vence eleições?
Não sei o que é que falta, isso eu não sou capaz de estar a visionar e devo dizer que é aquele aspeto que neste momento me tem chocado verdadeiramente, e é isso que eu estou a tentar transmitir, o que me envergonha é como é que existe um governo neste país que funciona desta forma. Nós podemos estar à nossa vista, como é que está a ser gerido ou a não ser gerido o importante dossiê que é o dossiê da TAP.
Mas temos neste contexto a Manuela Ferreira Leite.
Imagine só, então como é que estão a ser geridos aqueles dossiês que não têm a visibilidade desta TAP? Imagine só. E portanto, por este exemplo, nós vemos como é que funciona aquele Conselho de Ministros, como é que funciona este governo, como é que cada ministro faz o que entende, como é que não há uma política, uma orientação, uma estratégia, e que não é só o dia a dia. Nós temos que pensar, para o efeito serve um governo. Um governo não é necessário para governarmos o dia a dia É para prepararmos para os anos futuros.
E é neste contexto de casos sucessivos e de roda livre, na expressão que está a utilizar, que ouvimos também hoje Luís Montenegro dizer com todas as letras que o governo capitulou e que o país está farto desta balbúrdia. Por que continua o líder do PSD a resistir a pedir eleições antecipadas?
Isso eu não lhe sei dizer.
Mas faz bem ou faz mal?
Mais que a questão das eleições, evidentemente, pertence ao presidente da República. E, portanto, não sei se faz bem ou se faz mal, porque como lhe digo, a minha grande preocupação tem estado a ser no presente e na situação em que está o país e tal qual caminha. Eu acho que o presidente do PSD, e tem-no feito, deverá insistir mais exactamente neste ponto que eu estou a dizer. No que é que significa este governo, para onde é que nos está a conduzir, para onde nos está a conduzir. Independentemente da forma como vai ser feito ou quando é que vai ser feito. Isto está aos olhos de toda a gente. E precisa de ser muito sublinhado para que efetivamente as pessoas entendam que estamos a caminhar para um abismo e estamos distraídos. Repare que nós estamos distraídos exactamente com esta novela. Quando acabar esta novela, aparece outra.
E essa mensagem e esse alerta que quer deixar aqui fica bem vincado. Muito obrigada, Manuela Ferreira Leite, por ter participado neste “Directo ao Assunto”, um pouco antes da hora habitual. Manuela Ferreira Leite, antiga ministra das Finanças e também antiga líder do PSD, com duras críticas ao governo de António Costa.