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Maria, sabes qual é a melhor forma de chegar a embaixador de uma marca?

Cumprir as regras?

Pelo contrário, às vezes é melhor não cumprir as regras.

"Do Avesso", um podcast sobre moda com Margarida Brito Pais e Maria Ramos Silva. Realmente, o Jannik Sinner deu-se bem quando apareceu no túnel de Wimbledon em 2023 com um grande saco com o monograma da Gucci ao ombro. Logo ali, Margarida, onde o dress code dos atletas é apertadíssimo, tudo branco.

Pois é, ele acabaria por perder nas semifinais contra o Djokovic, mas desde então tornou-se embaixador da marca de luxo italiana. Portanto, a quebra de protocolo compensou.

Pois é, o tenista italiano conhecido pelo seu cabelo cor de cenoura, é visto nas semanas da moda. Entretanto, até já foi capa da "Esquire" britânica enquanto referência de estilo.

Nós daqui a pouco temos é de arranjar uma fila só para desportistas nos desfiles.

É verdade, eles e elas são mais do que nunca os grandes ícones de estilo para as novas gerações, e mais, há vida e muitas modalidades para lá dos campos de futebol e daquelas lendas dos anos 80 e 90.

Temos o segmento do tênis muito apetecível, mas também contextos como a Fórmula 1, que são hoje autênticas red carpets de moda, entre pilotos e mais do que isso, os looks das namoradas dos pilotos.

Também.

Do Lewis Hamilton.

Esse é que é a Met Gala.

Já foi. E temos até a Kika Gomes, que também já dá muito o que falar aqui nestes lados.

É verdade, uma influencer em pista própria, literalmente. As revistas da especialidade também se renderam aos novos astros, seguidos por milhões nas redes sociais. Em janeiro de 2025, a "Vogue" americana fez capa com a Angel Reese, uma jovem do basquetebol profissional, que se tornou também a primeira atleta a desfilar pelo Victoria's Secret em outubro desse ano. Imagina.

Mesmo sem chegar à capa, lembro-me de produções estilosas com as irmãs Venus e Serena Williams.

Verdade.

Ainda muito jovens, em 1998, no auge do seu sucesso, fotografadas pra "Vogue" por Annie Leibovitz, com os vestidos Carolina Herrera.

Pois é, com o tempo elas levaram uma autêntica revolução de estilo também para os campos de tênis. Quem não se lembra dos tutus, dos fatos exuberantes, até aquele polêmico catsuit que Serena usou no Open Francês em 2018.

Uma tendência que a Naomi Osaka haveria de seguir, com entradas cada vez mais dramáticas em campo. Quem não se lembra da sua entrada aqui no Open da Austrália, de sombrinha ombro, com chapéu branco, com uma borboleta e um longo véu.

Parecia que ia casar-se. Já em janeiro deste ano, a número um do mundo, Aryna Sabalenka, foi nomeada embaixadora global também da Gucci, uma novidade que foi anunciada com um vídeo da tenista a jogar tênis, claro, vestida de Gucci, claro, e depois lá apareceu na semana da moda de Milão.

Isto tudo muito distante dos primeiros tempos em que de fato o que se procurava era funcionalidade e liberdade de movimentos, quando falávamos aqui de roupa de esporte. É engraçado como no início, a ideia era ir descomplicando o vestuário, até impulsionar o desenvolvimento de novos materiais que facilitassem fazer coisas mais simples. E hoje parece que andam a fazer o contrário.

Pois é, a tornar tudo mais difícil. Por exemplo, no começo do século XX, a campeoníssima Suzanne Lenglen impôs saias de pregas, lá está, mais fluidas, que libertavam os movimentos e ajudavam a senhora a jogar. Fora dos cortes, lá aproveitava para desfilar com os seus glamorosos casacos de vison.

Bem, e para as pessoas que achavam que Fred Perry é só o nome aleatório de uma marca de roupa, olhem que o senhor existiu mesmo.

Pois é.

Foi o primeiro tenista britânico a vencer os quatro Grand Slams e claro, o famoso polo foi lançado em Wimbledon em 1952 e foi um sucesso instantâneo.

Sim, o famoso René Lacoste, que também não é propriamente o crocodilo, é mais um nome que levou a cultura dos cortes para o circuito das ruas.

Convém sempre pôr tudo em perspectiva.

Em perspectiva é melhor. Sim, por exemplo, o Rafael Nadal deu-nos ótimos conjuntos fluorescentes, uma das suas imagens de marca, mas antes dele tivemos o estilo de Borg, Becker, Lendl ou mesmo o Andre Agassi com as suas míticas fitas na cabeça. Aquele ar de rufia, ainda ele tinha cabelo, imagina.

Sim, agora ficava ridículo. Bem, e convém lembrar que antes de ser um tênis da Adidas, o Stan Smith foi um tenista também. O que muita gente também não sabe é que as toalhas de torneios como Roland-Garros são confeccionadas em Portugal.

Incrível.

São produtos made in Guimarães e já foram usadas por Rafael Nadal e Roger Federer. Estes truques também costumam estar, claro, no nosso estojo.

Por acaso, sim. Apesar de o estilo no desporto ser comentado desde sempre, e basta pensar nos fatos do Muhammad Ali. Há alguns momentos definidores na cronologia que unem desporto e moda e mudam tudo. Eu penso, por exemplo, em 1985, quando a Nike lança o Air Jordan, por causa e com Michael Jordan, essa lenda do basquetebol, e nós vemos despontar a cultura dos tênis, por exemplo.

São nomes que movem massas. E se esta história transcende os relevados, a verdade é que as figuras mais globais podem, de fato, vir do futebol.

Claro. Já agora, uma vez que estamos em modo mundial de futebol, convém falar também do vestuário oficial da nossa seleção. Desde logo em campo com a Puma e com o uso da tecnologia Ultrawave, com tecido ultraleve, convém, para jogar e as coisas correrem bem, e depois com a Sakur, que é o alfaiate oficial fora de campo.

Em ano de provas máximas para as seleções, é tempo de ir buscar os tons da bandeira à gaveta também.

Sabes que eu sou grande fã, sobretudo das coleções vintage, que é aliás, um segmento que os principais clubes têm sabido explorar. Há coisas já muito interessantes nos arquivos mais nostálgicos.

É, e são coisas que podem ser sempre aproveitadas pelos adeptos para ver os jogos também.

Precisamente.

E depois tens a moda fora de jogo também, que é trazida pelos craques. Tens Cristiano Ronaldo, que é um ícone de estilo para muitos fãs, como já foi também cara de várias marcas e até investiu desde cedo, foi dos seus primeiros investimentos, na sua própria marca de roupa, o CR7.

E não te esqueças que o desfile de roupa e marcas hoje acontece nas ruas, mas também nas redes sociais. É aí que vamos consultar também as etiquetas, por exemplo, das plus one dos jogadores, lá está, que provavelmente também vão andar pelas bancadas nos Estados Unidos.

E depois temos sempre David Beckham.

Claro, não passa de moda.

Com aquele seu estilo de Peaky Blinder, que hoje também é um homem da moda, acho que o podemos descrever assim.

E que deve ser dos poucos ou único que tem mesmo uma designer de sucesso.

Portanto, podemos mesmo classificá-lo como homem da moda.

Podemos e devemos, como homem da moda. E note-se que ele foi dos primeiros, senão o primeiro mesmo, metrosexual assumido, essa tendência de meados dos anos 2000, que trouxe o grooming e as preocupações de estilo para o plano masculino.

O Beckham é um exemplo muito interessante de alguém que esteve ali na fronteira entre a exposição pública, exclusivamente offline, e o apogeu das redes sociais. Ele, de fato, manteve-se sempre no topo, portanto, numa perspectiva como noutra.

Sim, e se antes os atletas só tinham os momentos dos jogos, as saídas à rua para mostrarem o penteado novo ou o braço tatuado, hoje têm mais uma montra, que é de fato o Instagram, por exemplo.O que é que nos trazem estas estrelas em relação a outras áreas do espetáculo, para caírem no gosto dos patrocinadores? É curioso.

As marcas de luxo procuram juntar autenticidade à exclusividade. E tu, quando falas de atletas, tens sempre o lado do desempenho físico, que simboliza dedicação, esforço, excelência e, por isso, tornam-se embaixadores perfeitos. Se pensarmos nos Jogos Olímpicos, são ótimos para marcas.

A esquiadora Eileen Gu é um bom exemplo disso. Este ano converteu-se na "co-cool" do desporto por causa dos Jogos Olímpicos de Inverno. A sua ligação com a moda é clara, tendo marcado presença em vários desfiles, fazendo capas de revista e até protagonizado campanhas.

Sim, ela fez várias sessões fotográficas e até desfilou para algumas marcas no passado. Quem também tem desfilado com grande destaque são os jogadores da seleção francesa.

Pois é. Aquelas chegadas à Clairefontaine são qualquer coisa.

Estão cada vez mais quitados de marcas. No início era mais os acessórios, as carteiras, os óculos, os ténis, mas hoje tens looks incríveis. Bem diferente daquele army desmazelado de fato de treino e ténis.

Sim, nos últimos tempos vimos também uma parceria entre o Kylian Mbappé, superstar do futebol, e a Dior. O futebolista a ser cara do perfume Sauvage, por exemplo. E o Jules Koundé, que tem um estilo também muito próprio, também entra aqui nesta categoria.

E que foi escolhido por Jacquemus para ser rosto também da marca.

E nós, que já falámos de activewear neste podcast, também sabemos que o conceito de athleisure trouxe uma mistura entre luxo e roupa desportiva. Aliás, nós quando pensamos no histórico acordo de 300 milhões entre Roger Federer e a Uniqlo, não falamos apenas de ténis, falamos de lifestyle, não é, Margarida?

Nós temos também o caso do Tiger Woods, que se tornou também ele uma referência de estilo aqui nos anos 90 e que desenha a sua própria linha de roupa com a marca Sunday Red, que é um caso curioso, porque o golfe não é propriamente um desporto de massas, mas ainda assim o atleta tornou-se uma verdadeira referência.

É um gigante.

Sendo embaixador, inclusivamente, de marcas como a Rolex.

Sim, a Rolex, que foi aliás a primeira a apostar no Tiger, já depois de todo aquele escândalo em 2009, que envolveu o acidente de automóvel, os casos extraconjugais. Isto também diz muito da sua lenda. A marca de relógios tem uma longa lista de embaixadores, uma longuíssima história de apoio às modalidades de elite, do ténis ao golfe, passando pelo desporto automóvel e equestre. E claro, os seus embaixadores, que são mais de 150, devem primar pela excelência.

Sim, é um mundo infinito de possibilidades, porque hoje se explora o potencial de modalidades de nicho. E até do segmento feminino em áreas como o futebol. Tive a Jessica Silva, que não só desfilou na Moda Lisboa, como até tem uma camisola da seleção portuguesa reinventada por Máximo Tretter.

E lá está, se diversificares e fores até áreas como o bodyboarding, tens a Joana Schenker, que já fez produções de moda para a Portuguese Soul, por exemplo. E também entraram em cena novas marcas, que disputam o bolo de investimento para lá daquele histórico duelo de titãs entre Nike e Adidas, que marcou as gerações. Quem não se lembra disto?

Sim, quando entramos aqui no campeonato da nostalgia em Portugal, ainda podemos juntar a Puma, a Umbro, a brasileira Topper, e há uma coisa que a faixa ali dos 50 ainda se lembra com certeza, que é de cobiçar as peças com aqueles patrocínios de marcas como tabaco, álcool, que hoje em dia seriam difíceis de encontrar ligadas ao desporto.

Olha, e hoje temos marcas assumidamente de moda a vestir equipas desportivas, que é o dado mais relevante se ficar no meio disto tudo. A Off-White é curadora de estilo e cultura do AC Milan. A Sacai colabora com a equipa da Mercedes. A Fenda, aliás, com a Roma. A Skims está ligada à roupa interior usada na NBA. E temos a campeã absoluta no meio disto tudo.

Sim, se é para falar de estratégia desportiva, a Louis Vuitton está em todas. E não estamos aqui só a falar em todas as mãos e pés de atletas que se enchem cada vez mais com as criações de Pharrell Williams. O envolvimento da marca vai além da moda. Em 2025, a marca francesa iniciou uma parceria de 10 anos com a Fórmula 1. E para celebrar, a maison fez o quê? Criou 24 troféus.

Aqueles baús.

Louis Vuitton, aqueles baús, um para cada grande prémio. Depois as medalhas dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2024 também tiveram o cunho da marca. A regata American's Cup tem o alto patrocínio desta gigante francesa e até mudou o nome para Louis Vuitton Cup. Além, claro, dos baús de viagem para os troféus feitos por medida para a FIFA e para a NBA.

Mesmo que a pessoa não ficasse com o troféu, já ficar com o box já era muito bom, devo dizer-te. Isso sem falar dos fatos formais do Real Madrid, que também são da marca francesa, e também da sua bela rede de embaixadores ligados ao desporto nos últimos anos, como o Léon Marchand, o Timothée Adolphe, atleta paralímpico, Enzo Léouarn na esgrima, o Antoine Dupont no râguebi, o Carlos Alcaraz, claro, no ténis, e por aí fora, Margarida. Infindável.

Sim, a lista é tão variada que parece um plano de aulas num clube desportivo.

Estás a ficar esgotada.

Já estou cansada. Acho que é melhor irmos andando.

Até breve.