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Margarida, tens aí um shot de vodka.

Eu sei que vamos falar de concertos, mas é para começar já a beber?

Não, é para limpar roupa. "Do Avesso", um podcast sobre moda com Margarida Brito Pais e Maria Ramos Silva.

Por acaso, às vezes penso nisso. Quando vejo estes artistas em grandes digressões, com roupa super elaborada, começo a pensar: "Como é que esta gente lava a roupa?"

É uma boa pergunta. Ainda por cima, suam muito em palco. Portanto, é preciso ali um cuidado extra com a roupa.

Dizem que há um truque para roupa mais delicada, que é usar um spray com igual medida de água e de vodka.

Lá está.

Eu é que não sei se teria coragem de arriscar. Acho que prefiro os métodos mais tradicionais. A típica escovinha dos dentes, uma banheira de água morna ou até o tradicional sabão azul e branco.

As grandes digressões da pop viajam com tantos camiões que têm certamente espaço para máquinas de lavar e até limpeza a seco também dão imenso jeito para isto, para que tudo fique pronto a tempo da atuação seguinte.

É, numa produção de grandes dimensões é preciso ter vários planos B, nem que seja para coser um botão ou resolver um salto partido. Tu imagina o drama.

Sim, e não basta arriscar como Rosalía.

A Rosalía é um bom exemplo de como o guarda-roupa em palco contagia o guarda-roupa para ver o que se passa no palco.

É um facto. Nós bem vimos por Lisboa com os fãs a vestirem-se a rigor com a temática religiosa, menos acessível, se calhar, é aquela ida ao arquivo das grandes marcas, que é uma coisa que a Rosalía tem feito muito bem.

Ao arquivo ou até ao próprio armário. A Madonna apareceu no Coachella este ano a lançar novo álbum com um figurino roxo que usou há 20 anos. A escolha foi tão especial que até atraiu gatunos. Pouco tempo depois da atuação, a cantora revelou que as peças tinham sido roubadas do camião.

Nunca mais soubemos disso. Nada.

Acho que não houve updates.

Nada. Madonna, que cruzou, aliás, como ninguém, a estética religiosa com os caminhos pop, muito antes de Rosalía, sempre ali num registo muito iconoclasta e que até hoje é recordada pelo famoso sutiã dos cones, criado por Jean Paul Gaultier para a Blondie Tour em 1990.

Só lhe faltava um animal exótico em cima. Coisa que a Britney Spears, uma das herdeiras da rainha da pop, fez quando apareceu nos Video Music Awards de 2001 com uma píton albina.

Nessa fase, apesar de tudo, as coisas pareciam menos mediadas. Hoje as estrelas da pop como a Sabrina Carpenter não dão um passo sem um bustier Dior novo, por exemplo. As grandes casas infiltraram-se em todos os domínios, de facto, incluindo a música.

Nesse aspeto também a J.Lo segue muito a onda dos bodys, que é uma coisa que funciona muito bem em palco, mas é das últimas coisas que se deve levar para um festival.

Como público. A não ser que tenham botões, porque senão implica muita logística e eu nem quero imaginar as idas à casa de banho, que já por si são difíceis com a roupa certa.

Nem bodys, nem fatos de macaco, como o da American Eagle, que o Elvis tornou célebre nos anos 70.

Sim, fato de macaco também não. Mas sabes que ele tinha uma capinha e é sempre giro para surpreender num festival.

Maria, eu acho é que tu bebeste a vodka de que falavas no início.

Em vez de usar como tiramanchas. Mas repara, eu falei em originalidade porque em 20 anos, boa parte do público passou a dar tudo nos outfits para ir aos festivais.

Mas há um acessório que nunca passa de moda, que são as fanny packs.

Pois é, mas é preciso ter cuidado com a posição do fecho, porque eu lembro-me que uma vez ias perdendo o telemóvel com uma bolsa dessas. Não fosse um agente que estava mais atento.

Atento e simpático, mantendo o telemóvel.

E tu lá recuperaste isso tudo.

Menos mal que hoje em dia temos estas capas de telefone com os fios para pendurar no pescoço. Acho menos arriscado.

É uma novidade, de facto, em relação a estes outros tempos.

Até porque estão à mão para filmar. Aquilo é ótimo e ainda funcionam como colarinho.

Quando podes filmar.

É verdade. Mas pelos vistos, o público às vezes pode filmar mais que os próprios jornalistas, como tem sido moda nos últimos concertos. Mas há outros desafios. Os grandes concertos obrigam-nos quase sempre a pensar que metade do tempo está um calor abrasador e na outra metade um frio desgraçado.

Dá para a pessoa apanhar uma pneumonia, é verdade. Aí pode entrar em cena um blusão de cabedal como o que o Freddie Mercury usava, que dá sempre para prender à cintura. É prático. Não tem que ser amarelo, como no caso do Freddie Mercury.

Não, existem muitas cores. Um lenço também pode ser uma boa opção, porque podes usar na cabeça quando está sol ou nas costas para proteger do vento do final do dia. Independentemente do tempo, a verdade é que estes momentos convidam a uma certa extravagância. Claro que depende do artista que vais ver, mas eu não estou a ver melhor ocasião para usar umas purpurinas.

Também se não é aqui, é onde?

Só no Carnaval do Rio, é mais difícil.

Eu sou muito apologista daquela vibe glam rock do David Bowie, apesar de o senhor já ter desaparecido há muitos anos, mas deixou-nos este legado em termos de imagem. Não é para todos conseguir, obviamente, um super look Yamamoto, como ele tinha, mas podemos sempre costurar a nossa própria roupa, como fazia o Variações, outro ícone de estilo incontornável aqui à nossa escala mais doméstica.

Sim, ou pensar nas Doce, com as criações espetaculares do José Carlos. Também assim tudo muito pop. Aqueles fatos de mosqueteiros, aquelas coisas um bocadinho carnavalescas. Depois tinhas os Heróis do Mar, que também nos deram ótimos momentos.

Com o tempo, reforçaram-se essas ligações entre os artistas e os designers no mercado em crescimento. Nós temos, por exemplo, as sintonia como a Carminho e Maria Carlos Baptista no fado, ou Ana Moura e Beiren, a Mariza Liz e o Luís Carvalho e muitos outros.

A parte boa é que não precisas de cantar para vestir designers portugueses. Depois até tens designers portugueses como a Maria Carlos, que têm a sua própria marca, mas também colaboram com outras marcas. Neste caso, a Maria Carlos trabalha com a Parfois, por exemplo.

Mais acessível. É verdade. Até podemos vestir o merchandising no dia a dia com as T-shirts a dizer muito mais, da Beatriz Pessoa. De facto, é um segmento que está mais desenvolvido e mais interessante e não tem que ser usado só ali no perímetro do concerto. Eu estou muito ansiosa Pelos concertos da Celine Dion em Paris.

Pois é.

Pelos concertos e para ver o que ela vai vestir.

E que marca vai vestir. A Dior seria uma escolha óbvia, mas há tantas possibilidades. Basta pensarmos nos looks que ela tem usado aqui nos últimos anos, nas semanas de moda, muito ao estilo da Carrie, do "Sex and the City".

Ela é nova carque, de facto. Mas para palco, eu apostava num look como aquele Oscar de la Renta que ela levou à Met Gala em 2019. Era um vestido de franjas douradas, pesava 10 quilos, uma peça de cabeça impressionante, portanto não espero menos que isto.

O que me parece difícil é que apareça de forma mais reveladora, como a maioria das cantoras hoje em dia. A artista gosta mais de vestidos e até usa vestidos compridos muitas vezes.

Aquela ideia da pele à mostra acaba por resultar também do ponto de vista comercial. Uns vão ver porque desejam a estrela, outros porque gostavam de ser como ela.

É o win-win.

É o win-win para os dois lados. E queira-se ou não, o físico acaba por contar para esta narrativa. Depois tens sempre estrelas mais alternativas como a Chappell Roan ou a Marina Sena, que atuou recentemente em Cascais com um look imponente. Mas claro, nada disto é tão prático quanto uma licra básica.

Claro, que além da mobilidade que permitem para coreografias complicadas, como as da cantora Beyoncé, por exemplo, também é uma peça muito versátil, porque consegues manter o body, ir acrescentando casacos diferentes, trocar os sapatos e já tens um look novo em segundos.

É mesmo. Isso é de facto prático, mas nem toda a gente gosta de manter as coisas simples. Tu vê só a era "Sture" da Taylor Swift, com looks para cada fase da sua carreira e a estrear peças diferentes em cada concerto.

Sim, de simples não teve nada. Foram mais de 40 coordenados, que iam desde os famosos corpetes, vestidos, macacões assimétricos, blazers, minissaias. Tiveste Roberto Cavalli, Alberta Ferretti, Versace, Vivienne Westwood, entre outros, mas estes quatro foram dos que criaram mais looks para a tour.

E sapatos, a Taylor tinha muitas botas, ou não fosse ela uma rapariga do country.

Aí está outro clássico da roupa de palco. Botas altas e com brilhantes, normalmente. E quando não são botas, são sempre-

A Dua Lipa também usa muito, não é?

Também usa muito. Quase todas. E a Beyoncé também usou uma vez umas com franjas, que aquilo prendia ao body, era impressionante. O que é certo é que botas ou não, há sempre saltos altos. Porque há que pensar de facto na imagem global e também na necessidade de ser vista ao longe.

É ver, mas surtout de ser visto, que é importante.

10 centímetros ajudam aqui nessa tarefa.

Totalmente. Um salto é um elevador, como é tantas vezes usado em concerto. Uma coisa em que a roupa de espetáculo também tem que pensar é que para ser vista e dar na vista, lá está, de todos os ângulos possíveis, apesar de haver os ecrãs que vão amplificando a coisa, mas de facto ajuda muito se pensarmos nestes pormenores.

Sim, além dos bolsos que têm que ter escondidos para todos os aparelhos necessários neste tipo de atuações.

Mas às vezes o que torna um look icónico, na verdade, é a performance do artista, não a extravagância do design. Tu imagina aquele tank top branco e as calças ganga do Freddie Mercury. Parece a coisa mais básica do mundo.

Mas sabes que foi o look mais difícil de recriar para o filme "Bohemian Rhapsody", porque o top tinha de ser justo, mas não podia ser demasiado justo. Então parece que foram feitas mais de 20 versões.

Meu Deus.

E mesmo assim, no momento da filmagem, o decote teve que ser cortado uns milímetros para ficar exatamente igual ao original.

Como as "t-shirts" brancas, há ali muitas versões, não são todas iguais. O responsável desse guarda-roupa foi o Gyllian Day, que também tratou do guarda-roupa do "Rocketman", mas neste caso apenas um look foi recriado de forma fídigna. Os outros 87 tiveram ali um cunho bastante criativo.

É, o look que se manteve fiel à realidade foi o fato de beisebol que Elton John usou em 1975 para dar dois espetáculos em Los Angeles, mas com um detalhe importante: é que foram usados 140 mil cristais Swarovski para embelezar o equipamento.

Maravilha. Eu diria que o Harry Styles é hoje provavelmente um legítimo herdeiro dessa irreverência do Elton John. Ainda por cima, porque dá muito ali a volta aos clichês, ele usa várias peças que à partida seriam femininas, a começar logo pelas sobrinhas.

É, há uma urgência de novidade. Ficamos sempre a pensar se hoje é possível vingar usando sempre a mesma roupa.

É uma boa pergunta. Não foi impossível para nomes como Johnny Cash, o homem do fato preto, ou para Angus Young, o guitarrista do AC/DC, com o seu eterno uniforme de schoolboy. Os próprios Xutos & Pontapés não costumam matar a cabeça sobre o que vestir. E a coisa tem corrido bem. Portanto, de facto, há casos que funcionam, mas a produção de conteúdos hoje parece impor realmente este desejo de diversidade eterna e infindável.

Muita produção de conteúdos. Foi o que tivemos também aqui no concerto do Bad Bunny. Com as redes inundadas de imagens, com looks pensados ao detalhe. Aliás, por essa internet fora, são muitos os artigos em revistas de referência a dar dicas de como se vestir ao estilo do cantor.

Imagina. Estilo esse que é realmente inegável, até porque o Benito já se tornou ele próprio um ícone, sendo neste momento uma figura incontornável na moda. Ele até fez uma coleção com a Zara que foi um sucesso estrondoso.

O que é facto é que com mais ou menos estilo, a música e a moda andam lado a lado desde sempre e foram criando verdadeiras tribos com códigos de imagem que são facilmente reconhecíveis. Lembro-me da tribo do rock, o punk, o pop, o hip-hop, o grunge.

A K-pop, os góticos, os metaleiros, a lista é longuíssima.

É longa e não temos spray de vodka suficiente para limpar tudo. Até à próxima.

Até à próxima.