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Houston, we have a problem.

Em casos graves de doentes com a Covid-19, assistimos a um ciclo de inflamação e de coagulação do corpo. Os coágulos sanguíneos podem ser perigosos nos doentes com a Covid-19 e podem contribuir também para AVCs. Agora chega-nos um estudo de uma equipa de cientistas da China e dos Estados Unidos que apontam um novo culpado da criação destes coágulos, os autoanticorpos.

Esses autoanticorpos que circulam no sangue atacam as células e desencadeiam os coágulos nas artérias, nas veias ou nos vasos capilares, é o que adianta este estudo. Mas para nos ajudar a compreender tudo isto, junta-se a nós o virologista João Manuel Brás Gonçalves. É professor da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, também diretor do IMED-Instituto de Investigação do Medicamento. Muito boa tarde, João Manuel Brás Gonçalves, obrigado por se juntar a nós aqui na Rádio Observador. Como é que ocorre, afinal, este processo e qual é também o nível de perigosidade?

Obrigado e boa tarde a todos. Este estudo é bastante interessante e leva-nos a várias questões. A perigosidade é uma perigosidade elevada, claramente. Nós temos aqui estas apresentações, que são as mais graves. No fundo, é um contexto de falência de múltiplos órgãos devido à formação destes coágulos. E começamos agora a perceber que a gravidade tem uma causa. E potencialmente esta causa, que afeta quase 50% dos doentes que estão internados, com gravidade, pode levar a uma morte do doente. Portanto, conhecendo a causa e conhecendo estes anticorpos, nós temos potencialmente uma possibilidade de tratar melhor os doentes.

Mas, João Manuel Brás Gonçalves, isto acontece apenas em casos mais graves, certo? Portanto, doentes, por exemplo, que estão assintomáticos, não existe este risco.

Exatamente. Ou seja, isto acontece fundamentalmente quando há potencialmente inflamações graves, exacerbações de inflamações, quando as pessoas têm autoimunidade e têm aquelas cargas inflamatórias muito elevadas, quando há infecções virais. E, portanto, quando o corpo reage fortemente contra estas agressões, é nesses casos que potencialmente estes coágulos podem aparecer. Nestes doentes que estão mais graves. Fundamentalmente, é esta carga tão grave em termos de inflamação, que leva à formação destes autoanticorpos. As pessoas que estão bem, sem sintomas, o perigo é mínimo.

E, portanto, isto era algo que se desconhecia e ficamos agora a conhecer. Até que ponto é que este estudo é fiável?

Não, este estudo tem algumas limitações, claro, como todos os estudos iniciais, mas levanta aqui o véu de algumas pistas que nós já desconfiávamos. Ou seja, fundamentalmente, a resposta contra este vírus leva à formação de anticorpos contra o nosso próprio corpo. E isso começa a acontecer e cada vez são mais os dados que levam a isso. Ou seja, as pessoas que têm uma tendência para doenças mais autoimunes, tipo lúpus, desse tipo de doenças mais com uma componente inflamatória, potencialmente é um fator de risco que nós já sabíamos que existia, mas que fundamentalmente agora sabemos a causa.

Portanto, sabendo a causa e como diz, levanta aqui o véu, agora para essa investigação continuar e depois para se conseguir um tratamento mais eficaz. É por aí, que funciona?

É por aí. E fundamentalmente, mais que isso até, é para se identificar quais os doentes que potencialmente podem desenvolver estes coágulos. Ou seja, nós sabemos agora qual é o causador ou quem é o causador destes coágulos. E os doentes que estão internados poderão fazer umas análises específicas que demonstrem a presença desses anticorpos. E o médico, certamente tendo esses resultados, pode atuar mais rapidamente e prevenir a formação desses coágulos e a gravidade com que se apresenta clinicamente.

E João Manuel Brás Gonçalves, estes anticorpos podem ser bloqueados, podem ser removidos?

Esses anticorpos podem ser removidos. Há várias técnicas para isso. Nós temos até alguns medicamentos que previnem a coagulação e que são conhecidos pelo médico. Portanto, nós começamos aqui a adaptar outros medicamentos para outras situações, que agora podem ser colocadas neste contexto. Mas também outras estratégias, como por exemplo, a plasmaferese, ou seja, retirar o sangue, purificá-lo e voltar a repô-lo com plasma, leva claramente aqui a uma melhoria do doente. Portanto, isto é muito bom quando nós identificamos a causa, porque aí permite-nos atuar de uma maneira mais racional.

Claro, abre um leque de possibilidades também. João Manuel Brás Gonçalves.

Exatamente.

Agradeço-lhe ter-se juntado a nós. É virologista, é professor da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, é também diretor do IMED, o Instituto de Investigação do Medicamento. Ajudou-nos aqui a perceber então esta relação entre estes coágulos sanguíneos muito perigosos nos casos mais extremos, mais graves de doentes com a Covid-19. Este estudo da China e dos Estados Unidos, que descobriu então esse culpado pela criação desses coágulos, os autoanticorpos. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.