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Um medicamento espanhol testado em França e nos Estados Unidos demonstrou uma redução quase total da carga viral do novo coronavírus. É o que revela um estudo publicado na revista internacional Science. O fármaco Plitidepsina, usado para curar tumores, foi testado em animais e mostrou uma eficácia antiviral de 99%. Os autores do estudo defendem que o Plitidepsina deve ser experimentado em ensaios clínicos alargados, Miguel. Junta-se agora a nós o virologista João Gonçalves, é professor na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, é também diretor do Imed, o Instituto de Investigação do Medicamento. Boa tarde, senhor professor.
Olá, boa tarde.
Como atua este medicamento?
Para começar, é uma boa notícia. Esta era talvez aquela arma que nós precisávamos e que não estávamos ainda a ter. Este medicamento atua por um mecanismo interessante, o código genético do vírus quando entra dentro da célula, precisa ser aumentado, precisa ser replicado. As células têm um mecanismo, têm uma máquina que faz essa replicação. E este medicamento bloqueia exatamente esta multiplicação do código genético do vírus. Tem uma atividade muito rápida, muito potente. E o que é mais interessante no meio de tudo isto, é que é um medicamento que já está a ser utilizado e testado para outras indicações. Já se conhece muito sobre este medicamento.
Portanto, podemos dizer que é quase um supermedicamento.
É um medicamento que atua em várias frentes, ou seja, tem uma possibilidade de atuar, por exemplo, sobre cancros. Tem uma capacidade até de diminuir a replicação, a divisão das células, mas também tem esta capacidade, como os vírus precisam muito da máquina da célula, se essa máquina for encravada, entre aspas, podemos claramente ter aqui uma grande atividade e uma diminuição da replicação do vírus. Agora, tem que ser utilizado sempre em algumas condições para conseguir bloquear este vírus e não pode ser utilizado, por exemplo, quando as pessoas já estão com a doença exacerbada.
Pode esperar-se um resultado semelhante em humanos, como o que foi demonstrado em animais nas experiências já realizadas?
Eu acho que sim. Se nós olharmos para tudo o que tem passado nos últimos seis, oito meses, em termos de novas drogas que se tenham testado contra este vírus, esta é talvez das mais promissoras. Aliás, ele já foi utilizado em ensaios clínicos e já se provou a sua segurança, até em conjunto com outro medicamento, que é o dexametasona, que também está a ser utilizado em doentes com Covid-19 e não mostrou problemas de segurança. Já mostra uma atividade em muitas outras doenças. Portanto, eu acho que há aqui um enorme potencial e se calhar uma aceleração deste medicamento para entrar rapidamente em ensaios clínicos de fase três.
Era precisamente por aí que queria fazer a seguinte pergunta, que era perceber quando, dado o historial de testes e de aprovação de medicamentos, quando é que podemos esperar a entrada do Plitidepsina nas nossas vidas?
Exatamente. Com os medicamentos é preciso ter um pouquinho mais de cuidado do que com vacinas, por exemplo, em que rapidamente sabemos determinar a eficácia. Neste contexto, é necessário pelo menos mais um ano até termos este medicamento com a segurança e eficácia que é demonstrável. Mas pelo menos sabemos que precisamos de fazer um estudo grande em alguns milhares de pessoas que vão ser infectadas com o SARS-CoV e depois demonstrar essa eficácia. Mas como eu estava a dizer há bocadinho, há aqui uma coisa importante, eu acho que as pessoas também têm que ter essa noção. Isto é quase como um medicamento que tem que estar presente quando a pessoa vai ser infectada, ou seja, tem que ser quase que usado antes da infecção, quase como profilaxia. E isso pode levantar alguns problemas de segurança. Portanto, não é magia total, mas tem aqui algumas condições muito específicas de utilização.
Que problemas antecipa?
Eu antecipo, claramente, que as pessoas tentem querê-lo utilizar de uma forma profilática durante muito tempo, só para prevenir uma infecção, e isso pode vir a resultar alguns problemas de segurança que ainda nós não conhecemos. Isto são medicamentos que atuam, no máximo, numa janela de amplitude de uma semana, duas semanas. E se calhar, se pusermos isto à venda rapidamente, vamos ter aqui as pessoas a utilizarem todos os dias, durante alguns meses, e isso pode haver alguns problemas de segurança. Portanto, é uma excelente notícia, é uma grande notícia que nós temos aqui para a terapêutica do SARS-CoV-2, mas terá de ser ainda comprovada do ponto de vista da segurança.
O virologista que liderou este estudo afirma que a Plitidepsina é 100 vezes mais potente que o Remdesivir. Podemos dizer que estamos perante o primeiro antiviral contra a Covid-19?
Exatamente. Ou seja, ele não atua diretamente no vírus, atua na célula e no fundo bloqueia a maquinaria da célula. E para além disso, temos aqui a possibilidade de ter talvez o primeiro medicamento com uma grande amplitude e uma grande capacidade de redução da quantidade de vírus por dia. Isso é que é muito bom. O Remdesivir, que toda a gente falava, não é capaz de reduzir tanto a carga viral, ou seja, a quantidade de vírus produzidos como este. Medicamento. E isto é uma boa notícia por outro motivo. É que isto faz com que as outras empresas farmacêuticas, e esta empresa farmacêutica espanhola que desenvolveu este medicamento já o faz há muito tempo, mas outras empresas podem exatamente utilizar o mesmo mecanismo de ação para desenvolver outras moléculas ainda mais potentes do que esta. E, portanto, eu acho que isto é uma boa notícia no meio de toda esta tragédia que nós estamos a viver.
E esse mecanismo de proteção pode ser usado em outros vírus da família dos vírus corona ou não?
Exatamente. Excelente pergunta. E eu acho que é isso que nós estamos a prever, que este mecanismo de ação, este bloqueio desta máquina que está dentro da nossa célula e que ajuda os vírus, pode ser neutralizada, pode ser encravada por este mecanismo. Portanto, isto pode abrir aqui claramente uma grande quantidade de investigação e de novas moléculas que nos podem permitir até defender contra outros coronavírus que potencialmente possam vir a infectar os seres humanos. Portanto, isto é uma excelente notícia que foi publicada e certamente nos vai dar aqui pro futuro um grande otimismo.
A produção deste medicamento será barata e, por isso, acessível à maioria da população?
Essa parte já não lhe consigo dizer muito bem, porque isto depende muito sempre da oferta e da procura que as empresas farmacêuticas têm e do investimento que elas fazem. Mas fundamentalmente, eu penso que estamos aqui na presença de um medicamento que vai ser acessível. De todo este problema que temos, certamente que o custo deste medicamento será sempre baixo para aquilo que ele poderá fazer. Portanto, eu penso que esta situação é algo que neste momento nem me preocuparia.
Professor João Gonçalves, da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, muito obrigado por se ter juntado a esta emissão da Rádio Observador, pelos seus esclarecimentos. E era visível no seu tom o otimismo que deposita nesta substância, o Iplizidesina. Muito obrigado e até à próxima. Obrigado.
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