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E hoje, na rubrica de ciência, falamos de um estudo que detetou em frequência de rádio duas novas rádiogaláxias numa pequena região do céu. A primeira rádiogaláxia da história foi descoberta em 1974 e desde então só foram identificadas cerca de mil. Pareciam ser raras, mas agora sabemos que muitas podem ter estado invisíveis aos radiotelescópios da geração anterior. A descoberta destes gigantes cósmicos abre portas à investigação de uma nova geração de radiotelescópios mais sensíveis e o estudo publicado na revista científica Monthly Notice of the Royal Astronomical Society teve a colaboração de José Afonso, do Instituto de Astrofísica e Ciência do Espaço da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que se junta agora a nós. José Afonso Mamono, muito boa tarde.

Olá, boa tarde.

E eu começo por lhe perguntar o que é exatamente uma rádiogaláxia.

Uma rádiogaláxia é uma galáxia que, ao contrário de muitas das que vemos no universo, tem um centro muito ativo. O que é que isso quer dizer? No centro dessa galáxia existe um buraco negro gigantesco que está basicamente a engolir material da própria galáxia e devido a esse engolir material, vai emitir muita radiação. E, portanto, nós vamos ver essas galáxias principalmente por causa desse centro ativo e dizemos que essas galáxias fazem parte de uma população de galáxias ativas, que estão a passar por uma fase de atividade muito grande, muito superior àquilo que temos, por exemplo, na nossa galáxia, na Via Láctea. Já conhecemos estas galáxias ativas há bastante tempo, mas sabemos que são uma fase essencial para perceber como é que as galáxias se formam e evoluem no universo. Mas vamos descobrindo, com o passar do tempo e com melhores telescópios, que estas galáxias ativas são, de facto, muito mais importantes do que aquilo que pensávamos. E com a descoberta recente que anunciámos há pouco, estamos a mostrar que, na realidade, estas galáxias ativas são, se calhar, muito mais abundantes no universo do que nós pensávamos.

José, e as rádiogaláxias são os maiores objetos individuais que existem no universo. O que as distingue de uma outra galáxia?

É não só terem esta parte mais ativa no seu centro, mas depois poderem projetar para muito longe jatos de matéria a altas velocidades, que depois podem ser observados. Isto revela a atividade no seu centro, mas é uma atividade tão elevada, tão intensa, que estes jatos podem se estender por mais de 100 vezes a própria extensão da própria galáxia. Portanto, é uma dimensão descomunal e fazem destas galáxias as maiores estruturas individuais do universo.

E existem buracos negros no centro destas galáxias que estão ativas?

Sim. Buracos negros muito massivos. Portanto, só para termos um ponto de referência, no centro da nossa galáxia também existe um buraco negro gigantesco. Esse deverá ter cerca de 4 milhões de vezes a massa do nosso Sol. Portanto, já é uma coisa descomunal, obviamente. Mas essas galáxias ativas têm buracos negros muito maiores. As massas desses buracos negros podem chegar a mil milhões de vezes a massa do nosso Sol. E, portanto, esses buracos negros pensamos que estão associados com a formação destas próprias galáxias. Portanto, devem ser corpos que estiveram provavelmente envolvidos na origem da própria galáxia e que foram crescendo à medida que a própria galáxia vai crescendo. E, portanto, hoje em dia temos a certeza que para perceber a evolução das galáxias no universo, nós temos que também perceber como se faz este fenômeno de galáxia ativa, ou seja, este buraco negro gigantesco no centro da galáxia que vai periodicamente, pensamos nós, engolindo material, provavelmente devido a interações da galáxia com galáxias vizinhas, mesmo a colisões entre galáxias, e vai engolindo material e parte desse material, na realidade, vai ser ejetado para longe da própria galáxia.

E José, se temos agora aqui a ideia de que é possível que existam mais galáxias deste tipo do que aquilo que se pensava, tendo em conta o fenômeno que tem descrito, qual é que pode ser o impacto da descoberta de mais galáxias desta natureza para a nossa compreensão do funcionamento do universo?

Basicamente, nós estamos a contabilizar o número de galáxias que estão a passar por esta fase muito ativa. E se até agora já conhecíamos algumas destas galáxias, sabíamos que elas eram muito raras no universo. Simplesmente agora com o uso deste novo telescópio, o MeerKAT, na África do Sul, que tem uma sensibilidade superior aos radiotelescópios que até agora estávamos a usar, descobrimos numa pequena zona do céu a existência não de uma, que já seria um número bastante elevado, até porque essas galáxias são raras, mas descobriu-se a existência de duas destas galáxias. E, portanto, isto não era esperado, não estava de acordo com aquilo que conhecíamos da existência dessas galáxias no universo e mostra que, se calhar, são muito mais abundantes do que aquilo que esperávamos. E isto revela que esta fase de atividade na vida de uma galáxia, se calhar, é muito mais abundante e também muito mais importante ser compreendida do que até agora pensávamos. Deixe-me só acrescentar que estas galáxias gigantes têm uma influência não só nelas próprias, portanto, estamos a investigar um fenômeno que acontece no centro de uma galáxia, mas pelo fato destes jatos se estenderem a distâncias tão grandes, vão ter influência também no meio que está à sua volta. E, portanto, aí já estamos a pensar Num enxame de galáxias que rodeiam estas galáxias, que vão também ser alterados, vão também ser perturbados, por causa da atividade nesta única galáxia.

José, como é que se observam todas estas galáxias? É com radiotelescópios, certo?

Sim, com radiotelescópios. Nós conseguimos descobrir galáxias ativas, mesmo com telescópios normais, telescópios ópticos, aqueles que estamos mais habituados a pensar, provavelmente. Mas vemos aspetos diferentes da atividade destas galáxias. Podemos também usar telescópios de raios X e descobrimos também galáxias ativas. E podemos usar radiotelescópios e descobrimos também outro tipo de galáxias ativas. Na realidade, pensamos que todas estas galáxias ativas fazem parte de uma única classe de galáxias, que essencialmente têm este buraco negro gigantesco em atividade no seu centro. Mas estamos a ver aspetos diferentes desta atividade. E portanto, só vamos, de facto, compreender as características das galáxias e das fases ativas das galáxias, quando começamos a perceber não só aquilo que os telescópios ópticos nos mostram, como os telescópios de raios X, como os telescópios de rádio. Hoje em dia, os radiotelescópios estão, de facto, a avançar a uma velocidade vertiginosa do ponto de vista tecnológico. O MeerKAT, na África do Sul, é um dos percursores do telescópio Square Kilometre Array, que está a iniciar a construção e que vai estar construído para o final desta década. Mas é por ele próprio já um super telescópio que nos está a revelar aspetos, por exemplo, da evolução de galáxias, que eram desconhecidos até hoje. E, portanto, durante os próximos tempos, nós contamos perceber muito melhor, não só das rádiogaláxias, mas também de outros fenómenos no universo, devido à existência destes novos e muito potentes radiotelescópios.

José Afonso, do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, muito obrigado por se ter juntado a nós.

Muito obrigado.

Esteve aqui para nos ajudar a compreender melhor este fenómeno, esta nova descoberta, duas novas rádiogaláxias, com recurso a radiotelescópios de última geração. Este episódio da Ciência fica disponível em podcast já daqui a pouco.

Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.