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Houston, temos problemas. É isso que vamos tentar saber hoje na edição de "O Campeão É", com Augusto Inácio, Gabriel Alves, o João Castro e o Luís Pinto Coelho. Eu sou o Nelson Ferreira. Em análise, esse empate de ontem de Portugal frente ao Congo, estreia da nossa seleção no Mundial 2026 e com a imprensa nacional e internacional a criticar a exibição lusa. Roberto Martínez, Cristiano Ronaldo, mas não só, são os principais alvos. Augusto Inácio, bem-vindo. Não é fácil ser Ronaldo, alguém que atinge esta dimensão no mundo do futebol, parece também ser sempre o farol dos maiores elogios quando se ganha, das maiores críticas quando se perde. São injustas ou não todas estas críticas ao capitão das Quinas?
Boa tarde a todos. O que eu acho é que não é só o Cristiano Ronaldo que deve ser criticado no sentido de dizer que não estiveram ao seu nível. O Cristiano Ronaldo não esteve, o Bruno Fernandes não esteve, o Bernardo Silva não esteve. Enfim, são alguns jogadores que podiam marcar uma posição e que não conseguiram marcar. Agora, claramente, o Cristiano Ronaldo é de um outro planeta, como se costuma dizer. As atenções estão todas viradas para ele. Se ele marcasse aqueles dois gols que teve a oportunidade, se calhar já se falava de uma outra forma. É o preço também que se paga de um jogador galáctico e que tem o mundo todo centrado naquilo que é a sua performance. Por isso, o Cristiano Ronaldo está a ser criticado e muito, mas eu diria que não deve ser só ele a ser criticado. A seleção nacional também deve ser, porque não estiveram bem, a começar pelo selecionador, como é evidente.
Já lá vamos, mas João Castro, a defesa de Portugal ficou mal naquele gol do Congo?
Boa tarde a todos. Ficou mal, obviamente. Era 3 para 2 e o jogador apareceu completamente sozinho a cabecear. Ou seja, a maneira como eles marcaram o canto curto e toda a gente a sair, esqueceram-se claramente do jogador do Congo e, portanto, obviamente, houve ali uma falha defensiva. Não foi só por aí que Portugal obviamente esteve mal. Acho que há coisas que diziam-me mais, sobretudo a nível estrutural e da forma como a equipa jogou, muita circulação em U, pouca velocidade de circulação a permitir que a equipa contrária claramente depois basculasse de um lado para o outro e de forma efetiva, muito pouco jogo interior. E isso deve-se também às escolhas do Martínez. Claramente, para este tipo de jogos, eu acho que Félix e Trincão eram os jogadores preferíveis. Para jogarem mais por dentro, Portugal não teve jogo interior nenhum e com isso facilitou bastante a vida à seleção do Congo. Há, obviamente, também a questão Ronaldo, mas acho que nem foi tanto por Ronaldo, a meu ver. A verdade é que Portugal, depois de marcar o primeiro gol, e acaba por até entrar bem e com aquele grande gol do João Neves de cabeça, acaba por depois andar a fazer uma troca de bola estéril. E eu acho que Portugal queria jogar ao mínimo até o final do jogo, sem ter que atacar a defesa contrária, e depois já se estava a prever que pudesse acontecer. Esta equipa é forte também nas bolas paradas, a equipa do Congo, e Portugal acabou por sofrer. E depois não teve a capacidade de voltar a acelerar, de voltar a criar dificuldades à equipa do Congo, porque Portugal jogou muito sempre por fora, muito lentamente. Valeu Chico Conceição para agitar um bocado o jogo e assim entrou bem, ao contrário, por exemplo, de Rafael Leão, que entrou com tanta vontade como eu a atravessar o deserto do Saara a pé. E, portanto, acho que assim fica difícil. E obviamente, depois vemos uma seleção inglesa, logo no jogo a seguir, a jogar como um clube, com toda a gente a pressionar, toda a gente a correr, muito bem estruturada taticamente e com boas dinâmicas. E nós ficamos a pensar o que é que tem sido preparado para esta seleção. Mas lá está, o primeiro jogo empate, vamos ver o que aí vem. A verdade é que o primeiro jogo às vezes não conta muito. Vamos ver se Portugal consegue ainda dar a volta e mostrar aqui outra qualidade que não mostrou neste jogo.
Gabriel Alves, quando se empata numa estreia mundial frente ao Congo, parece que se põe tudo em causa. A imprensa até já fala de um novo clube para Roberto Martínez. Estas reações também não serão positivas, claro, para o grupo e para o balneário, mas também se prova que as seleções africanas estão, de facto, a dar nas vistas neste mundial e poderemos ter aqui um campeão africano.
Boa tarde, não vou tão longe, mas digo, e é um facto, as seleções africanas estão a mostrar-se. Ainda ontem, mais tarde, o Gana ganhou para o Panamá e ganhou bem.
E fez de Jorge Queiroz o mais velho de sempre a ganhar um jogo no mundial.
Carlos Queiroz.
Exatamente, Carlos Queiroz.
E que esteve muito bem e foi com o dedo dele. Mas nós já estamos a falar desse jogo e eu lá irei mais tarde. Em relação àquilo que é a seleção e em relação à questão do empate, repare, o Brasil empatou, a Espanha empatou, e por aí outros. Quanto à questão da falha defensiva, nós temos sempre que ter também em atenção o mérito de quem ataca e de quem trabalha e de quem constrói. O que não quer dizer que nós não tenhamos que estudar aquilo que o atacante executa para podermos minorar o estrago que pode acontecer vindo do atacante. Esse é um fator. Porque também quando marcamos, obviamente que quem defende também comete erros e também há mérito nosso, e muito mérito. Portanto, as coisas têm que ser sempre vistas de duas partes. Quanto à questão de Portugal e das críticas todas, claro, o pomo principal chama-se Cristiano Ronaldo, obviamente, está no epicentro para o máximo e para o mínimo Portanto, o máximo dos máximos e o mínimo dos mínimos. Ainda queria só dizer quanto ao novo clube para Roberto Martínez, já há muito tempo que se fala que ele iria para onde foi puxado agora outra vez, mas isso já é uma voz corrente que anda aí já há uns tempos, que ele iria para a Arábia Saudita. Mas a questão é esta: Roberto Martínez tem coragem de fazer? É que já passaram muitos anos. O Inácio lembra-se, eu penso que o Pedro Henriques também. Eu lembro-me, porque fiz esse campeonato. O Luiz Felipe Scolari também, contra a Grécia no primeiro jogo, também meteu lá uma equipa que foi altamente criticada e não ganhou. Olha, no jogo seguinte mudou cinco jogadores. Pronto, e tirou grandes senhores da altura. E pôs lá cinco que talvez não fossem muito simpáticos, mas foram operacionais e que eram jogadores de grande classe e de grande qualidade. Talvez não fossem tão simpáticos em termos de emoção, etc. Mas a seleção depois chegou à final, o que não quer dizer que também não tivesse havido outras questões. Mas aí ele teve a coragem de mudar. Não sei se o Roberto Martínez vai ter a coragem ou se tem poder.
Muito bem. Luís Pinto Coelho, onde é que consideras que Portugal foi poucochinho neste empate e a penalização por este empate será mais emocional que pontual?
Olá, boa tarde. Sim, acho que é mais emocional que pontual. Não tenho muitas dúvidas que Portugal vai chegar a um patamar alto neste mundial. Umas meias-finais, pelo menos. Acho que seleções como Espanha, Portugal, Brasil vão crescendo na competição e muitas vezes até entrar muito forte na competição normalmente não significa que depois as coisas corram assim tão bem. Obviamente que a exibição é fraca. E eu acho que Portugal entrou muito bem na partida, chega facilmente ao gol, percebeu que a partida estava confortável e acho que os jogadores desligaram demasiado. E muitas vezes, depois é difícil voltar ao jogo. A seleção do Congo também tem a sua qualidade, e depois foi difícil. A equipa na segunda parte também não foi demasiado intensa. Acho que fisicamente, durante o mundial, se calhar, alguns jogadores vão crescer um bocadinho. Ontem percebeu-se que a partir de uma certa altura havia ali bastante cansaço, não se conseguia pressionar muito bem. Agora, acho que não éramos a melhor seleção do mundo antes do jogo e também não somos a pior depois do jogo de ontem. Acho que há sempre essa tendência logo para aumentar um bocadinho a crítica. E depois é o que eu digo sempre, o Carlos Queiroz era criticado, o Paulo Bento era criticado, o Fernando Santos era criticado, todos são criticados. Acho que Roberto Martínez não é a última Coca-Cola do deserto, mas também não é um treinador fraco como toda a gente quer fazer passar. Acho que está ali no intermédio. Acho que a questão Ronaldo é muito difícil de gerir. Eu acho que poucos treinadores tiveram a felicidade de poder trabalhar com alguns dos melhores jogadores da história do futebol e gerir estes egos é muito difícil. E eu não sei que posição tomaria, porque depois pode perder o balneário por um lado, pode ganhar por outro, mas também se o tira, pode perder. É muito difícil. Eu imagino, eu faço a pergunta. Imaginemos, por exemplo, um jogador como Maradona hoje, numa situação destas, como é que se geriria um jogador desses? Isso depois tem a ver muito com o feitio do próprio Ronaldo, que acho que também não facilita a vida aos treinadores e todos os últimos selecionadores saíram mal com o Ronaldo. Porque é difícil lidar com esta situação. Acho que não é nada fácil e eu também não tenho aqui a solução. Acho que, obviamente, parece-me Portugal com o Gonçalo Ramos ou João Félix, neste momento era mais forte do que com o Ronaldo, porque criava outras nuances, outra capacidade de pressão. Há um mundo de coisas que Ronaldo já não pode dar, o que é normal, com 41 anos. Mas é uma situação difícil de gerir para Roberto Martínez. Vamos ver, mas eu acho que Portugal ainda vai crescer bastante na competição.
Agostinho Inácio, achas que o problema esteve um pouco mais na atitude dos jogadores, mental, anímica, ou também se notou algum desgaste físico, talvez pelas viagens? Estão a jogar numa outra cidade, em Houston, no Texas, estão instalados em Palm Beach, já chegaram também um pouco em cima para este mundial, não tiveram grande preparação nos Estados Unidos, tiveram um treino cancelado devido ao mau tempo, tiveram condições atmosféricas também em Houston, diferentes das de Palm Beach. Isto entra em linha de conta e pode justificar esta exibição menos conseguida de Portugal?
Olha, eu estive no mundial do México, também joguei em altitude, joguei com umidades muito altas também. E eu lembro-me que cada vez que eu ia à frente para fazer um cruzamento, depois para voltar para trás, tinha muita dificuldade e era quase que era preciso parar para poder recuperar. E repare, nós fomos com 40 dias antes de começar o primeiro jogo do mundial. A seleção foi com cinco dias antes. Eu não estou bem certo se a melhor solução foi a dos 40 dias ou foi a dos cinco dias. Eu estou mais a favor destes cinco dias do que dos 40 dias que nós estivemos lá no México e afinal aquilo não resultou. Diria também que independentemente daquilo que o treinador possa fazer, dizer, planear estrategicamente e taticamente a equipa, independentemente de tudo isso, o treinador há o lado, depois, e o brio de cada um dos jogadores e a sua personalidade. Ora, o que eu vi ontem, por exemplo, foram alguns jogadores que podiam ter dado muito mais em termos de esforço, muito mais em termos de entrega, muito mais em termos de aquele grito de revolta: "Vamos lá, malta, vamos, não podemos estar assim, vamos reagir."
Aquilo foi algo coletivo e houve alguns jogadores que não entraram nisso. É verdade. O João Neves, por exemplo, fez o gol, mas tentou, foi. O Nuno Mendes enquanto teve forças foi lá à frente e tentou. O Cancelo também foi e tentou.
O Conceição entrou bem.
O Vitinha tentou organizar o jogo, o Conceição entrou muito bem e tentou. Olhando para o Rafael Leão, não quero colocar a questão só nele, mas parecia que o homem estava a dizer: "Isto nunca mais acaba, eu quero ir pra praia, porque isto para mim já acabou". E é estas coisas que fazem com que as pessoas fiquem um bocado desmotivadas e a não acreditarem que as coisas possam acontecer.
Parece que alastra ao resto do grupo.
Exatamente. E depois quando acaba o jogo, dizer: "Temos que fazer muito mais, não podemos passar tanto lateralmente a bola, nem jogá-la para trás, temos que ser mais verticais". Façam isso, porque ontem na primeira parte, o único que deu o esticance na frente foi só o Nuno Mendes duas vezes em que a bola foi lá metida. Esticou e foi lá, mas para esticar e ir lá é preciso correr. Não é ficar com a bola só no pé e depois passar a bola pro lado. É correr sem bola pra apanhar o espaço.
Vamos esperar que isso aconteça já no próximo jogo.
Vamos ver se as coisas melhoram no próximo jogo.
Frente ao Uzbequistão, terça-feira, 23 de junho, de novo às 18:00, creio. Augusto, fico já contigo para rapidamente te pedir o teu campeão e com que nota.
O meu campeão, claramente, para já, é Portugal pela exibição que fez, nota 5, porque tem que render muito mais. Queria dar nota 18 ao Carlos Queiroz. O treinador português chegou há pouco tempo ao Gana e fez um jogo que permitiu ganhar no último segundo, é verdade, mas ganhou 1 x 0. Parabéns, Carlos Queiroz e toda a equipa do Gana. E também queria dar nota 17 no hóquei patins. O Benfica ganhou 5 x 2 ontem em Alvalade, no Pavilhão João Rocha. Tem 2 x 0, amanhã outro três no jogo de cinco. Eu diria que o Benfica tem tudo para ser campeão na próxima jornada, no Pavilhão da Luz, mas vamos ver o que se pode fazer. Grande vitória do Benfica, tem que ser enaltecido.
João Castro, quem é o teu campeão e com que nota?
Vou dar nota 19 ao Harry Kane. Continua a ser um futebolista completo, a maneira como pressiona, como defende, como constrói e depois como finaliza. É impressionante, realmente, o Harry Kane. Também ao tudo, acho nota 17, porque a seleção inglesa jogou verdadeiramente como uma equipa, com belos princípios de jogo e claramente aqui nota negativa para Portugal. Neste caso, uma nota 8 para irem à oral para provar já no próximo jogo se realmente são capazes de dar outro aspecto a esta participação de Portugal no Mundial.
Gabriel Alves?
Para o jogo da Inglaterra face à Croácia, é um dos melhores jogos vistos para já neste campeonato. Para este jogo, dou-lhe 17. Estou com o João Castro para Harry Kane. De facto, é também o adeus ao Mundial este 2026, mas acima de tudo, do Torrel. Também criticado, porque não vou a alguns elementos daqueles que são importantes, mas ele está a fazer da Inglaterra uma equipa de clube e tem poder, porque terá no seu contrato dito: "Ou mando ou mando alguém". Ele tem poder e tem que dar resultados, tem que responder. Quero deixar uma nota de 18 para o Carlos Queiroz, porque com falha de jogadores, um altamente lesionado, outro a não ir por questões de estrutura, Queiroz ontem fez aquilo que um treinador no banco tem que fazer. Foi treinador do banco. Na hora certa, mudou e ganhou.
Luís Pinto Coelho.
Vou terminar aqui de forma dura, com zero para Pedro Proença. Vão às redes sociais de Pedro Proença e vão perceber o porquê da fotografia que ele publicou ontem com os pais do Diogo Jota. Eu acho que tudo que é feito com sentimento não precisa de ser publicitado, e não precisa ser feito em tom de propaganda, ainda para mais com sorriso de orelha a orelha, quando se vê o rosto dos pais do Diogo Jota e do André Silva. Um rosto pesado, fechado e Pedro Proença com um sorriso de orelha a orelha. Acho profundamente lamentável.
Análise aos temas do desporto de novo amanhã na Rádio Observador, depois do Jornal da Uma.