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Estamos de novo de regresso ao "E o Resto é Ciência", o programa sobre ciência que eu, José Manuel Fernandes, faço com o Miguel Miranda. O Miguel Miranda é geofísico, é académico, foi presidente do IPMA, é muitas outras coisas, mas nós temos estado com uma obsessão, diria eu, nos últimos programas, há uns tempos para cá, que é fazer medições. Falámos aqui do sistema métrico, como é que ele nasceu ou não nasceu. Acompanhámos o Miguel numa subida ao Quilimanjaro, onde ele foi ajudar a estabelecer melhor a altura do Quilimanjaro. Também já discutimos aqui o tema da idade da Terra e hoje vamos falar de uma outra medição, a medição da Terra ao Sol ou do Sol à Terra, conforme preferirmos. Sendo que, para lá chegarmos, vamos começar a falar de algo a que estamos tão habituados que nem nos apercebemos. Nós temos uma visão que vê volume e vê distância, não vê apenas cores e objetos. Miguel, como é que a gente vê volume?
É difícil falarmos sobre como é que se mediu a distância da Terra ao Sol, sem explicarmos como é que nós próprios medimos distâncias todos os dias. Os humanos, não se pode dizer os homens, por causa da questão de ficar aparentemente metade da humanidade fora da expressão. Os humanos são capazes de medir a distância aos objetos que lhes estão próximos, pelo facto de terem dois pontos de vista situados na face. Existe uma experiência muito simples, que é bastante conhecida e que é semelhante àquela que nós fizemos para medir o tamanho angular da Lua. Que é esticar um braço. O braço estica 60 centímetros. Pôr um dedo para cima e fechar alternadamente um olho e outro e ver a imagem projetada na parede, para se perceber que nós não vemos exatamente o dedo no mesmo sítio.
Nem toda a gente consegue fechar os dois olhos da forma como tu estás a fazê-lo. Devo dizer, eu não consigo. Consigo fechar um, não consigo fechar o outro.
Sim, mas tu fazes parte daquela parte dos humanos que têm dificuldades em estereoscopia.
Não, estereoscopia não tenho. Tenho é em piscar o olho direito. Só consigo piscar o esquerdo.
Esse efeito, que tem a ver com o facto de nós termos duas imagens diferentes, uma para cada olho, permite-nos ter aquilo que se chama uma visão estereoscópica. E é preciso perceber-se que nem todos os animais têm visão estereoscópica, na verdade. Os cães, por exemplo, têm um olho de cada lado da face, não são capazes de ver a estereoscopia.
Portanto, a estereoscopia, como nós vemos imagens diferentes, vemos volume e podemos ter um cálculo da distância, que é algo que nós não calculamos.
O cérebro é que funde as duas imagens e, ao fundir as duas imagens, calcula a distância. Já agora, fazendo aqui um pequeno salto, muitas das máquinas fotográficas atuais fazem o mesmo, os telemóveis.
Há uma coisa que é interessante pensar. É que quando nós vemos, é raro e já esteve mais na moda, filmes 3D. Os filmes 3D são filmados com câmaras que imitam os olhos, porque têm duas objetivas.
De dois pontos diferentes.
Dois pontos diferentes, duas objetivas, que depois, para nós conseguirmos ver aquilo, precisamos de uns óculos. Esses óculos arranjam um mecanismo que faz com que uma imagem seja vista pelo olho esquerdo e outra pelo olho direito. Portanto, reproduz aquilo que nós vemos.
Ao princípio, lembras-te de ter aquelas imagens muito feias, vermelhas e azuis?
Exatamente.
Em que uma lente vermelha e outra lente azul nos óculos se conseguia simular a parlache. Isso chama-se parlache. Os animais que têm olhos opostos na face têm uma vantagem, que é ter uma visão de quase 360 graus. Têm uma desvantagem: calculam mal distâncias. Não quer dizer que eles não calculem absolutamente distâncias, porque há outro efeito que permite calcular distâncias e que tem a ver com a velocidade relativa dos objetos à nossa frente. Quando nós vamos no comboio, por exemplo, e olhamos pela janela, as coisas que estão muito perto do comboio deslocam-se muito depressa e as coisas que estão mais longe do comboio, aparentemente, se deslocam mais devagar. É por isso que muitos comboios de muita alta velocidade, para quem já teve a sorte de viajar num TGV e também mais 40 ou 50 anos havemos de ter um TGV em Portugal, sabem que quando não há objetos muito perto da janela, até parece que estamos a andar devagar.
Exatamente. Nós temos uma aproximação. Os nossos Alfa ainda chegam aos 200 km/h, mas não vão aos 300.
Eles chegam aos 350, que era o objetivo. O que é interessante é percebermos, na verdade, quais são os animais que têm capacidade de estereoscopia. Os predadores. Porque eles quando dão o salto, têm mesmo que errar a presa. Se calhar, não é por acaso que os homens têm olho de predador. Esta ideia é conhecida desde a antiguidade. Esta questão de que se eu vir um mesmo objeto de dois pontos diferentes, eu posso ter uma informação sobre a que distância está o objeto. E foi um astrónomo grego, Hiparco, o mais conhecido, que fez o primeiro cálculo da distância da Terra à Lua, simplesmente colocando um observador em Helesponto, na Grécia, e outro em Alexandria, que é quase no Egito.
Helesponto, atualmente, é Grécia, Turquia. É aquele ponto.
E outro em Alexandria. Estavam separados por uma distância que ele era capaz de calcular e a partir de duas visõessíncronas de um eclipse solar, ele calculou a primeira distância da Terra à Lua. Repare, isso tem a ver exatamente com calcular as diferenças angulares entre como é que um observador vê um objeto e como é que o outro observador vê o objeto. Eu penso que se pode imaginar de uma forma muito simples para que se compreenda bem. Se eu e outra pessoa estivermos a ver a mesma coisa e ela estiver longe de mim, e eu medir o ângulo com que vejo e ela medir o ângulo com que ela vê e soubermos esta distância, temos aqui um triângulo que pode ser resolvido pela trigonometria. E devo dizer que Hiparco calculou que a Lua estava cerca entre 59 e 67 raios da Terra, e o valor real é 60.3, portanto, completamente dentro de um erro aceitável.
Ele não sabia era qual é o raio da Terra ainda.
E esta é outra questão que é difícil de explicar, porque até ao século XVII, nós idealizamos e estudamos o universo apenas com ângulos. O que nós éramos capazes de medir eram ângulos. E como éramos capazes de medir ângulos, todos os triângulos semelhantes eram iguais para nós. Portanto, nós sabíamos, por exemplo, comparar a distância da Terra a Vênus com a distância da Terra ao Sol, mas não reconhecíamos nenhuma das duas distâncias. E todo o trabalho de Tycho Brahe e de Kepler é um trabalho todo baseado em ângulos e uma descrição que eles têm. O universo podia ser pequeno, médio ou grande, porque eles não tinham escala. E tornou-se crítico, a certa altura, calcular essa escala. Reparem, até ao século XVII, todo o conhecimento do universo era feito na proporção da distância da Terra ao Sol, que se chamava unidade astronômica, ainda hoje se utiliza. Eram 100 unidades astronômicas.
Tu falas até ao século XVII.
Século XVII é 1600.
Século XVII, mas quando, por exemplo, quando nós falamos aqui daquela medição para estabelecer o metro, a medida padrão, e daquela medição entre Barcelona e Bruxelas. Não é bem Bruxelas.
Dunquerque.
Dunquerque. Essa medição foi feita só no final do século XVIII.
Século XVIII, exatamente. Até essa altura, se bem que essa medição foi importante pro metro, mas não foi suficiente para calcular o raio da Terra, que mais uma vez era uma das incógnitas desse sistema. Exprimiam-se as coisas em raios da Terra ou em unidades astronômicas. E, portanto, Halley, que toda mundo conhece devido ao cometa Halley, devido à sonda espacial Halley e tudo o resto a que ele dá o nome, propôs em 1716, portanto, século XVIII, que se utilizasse o trânsito de Vênus para determinar pela primeira vez o valor absoluto da distância da Terra ao Sol.
Temos que perceber primeiro o que é o trânsito de Vênus, porque assim, falar trânsito de Vênus, parece que é uma coisa comum, que acontece com regularidade, é como ir passear.
Até se pode perguntar se há muito trânsito em Vênus. Mas, na verdade, o trânsito de Vênus é apenas a observação da passagem do planeta Vênus entre nós e o Sol, e que no disco solar se vê como uma espécie de um pequeno círculo negro que passa à frente do Sol. Esse fenômeno, por estranho que pareça, é conhecido desde os maias. É preciso dizer que Vênus é um planeta que faz parte da astronomia de todas as grandes civilizações, porque é o planeta mais brilhante, tanto de manhã como ao fim da tarde. E durante muito tempo até pensou que eram dois planetas diferentes.
Que é o que nós aprendemos como sendo a estrela que não é estrela.
A estrela que não é estrela. E repare, a estrela da manhã e a estrela da tarde, quantos nomes não deram aos jornais. Sobre esse ponto fora. E os maias não estavam muito interessados em jornais, mas estavam muito interessados em prever eclipses. E estavam muito interessados em conhecer as estações do ano. E para isso, Vênus tem um nome, que é Quetzalcóatl, muito conhecido. Quetzal, que é o nome de uma editora em Portugal.
E que é o nome também de um pássaro, não é?
Que é um pássaro verde, esverdeado, cor de esmeralda, e que é conhecido também pela expressão "a serpente emplumada". E é das representações maias mais famosas. E os maias, por uma observação sistemática, praticamente sem instrumentos, do movimento de Vênus no céu, foram capazes de determinar até o ciclo sinódico, quanto tempo demora Vênus desde que está numa posição até voltar a essa posição, vistos da Terra, que não é bem o movimento de translação. E esse é um valor que anda cerca perto de 600 dias terrestres. E até calcularam uma proporção, que é muito importante, que é dizer que cinco anos de Vênus equivalem a oito anos terrestres, coisa que tem uma precisão notável em termos de cálculo. E criaram o calendário de Vênus. Calendário de Vênus esse, que ainda aqui há pouco tempo deu direito a umas atoardas sobre o fim do mundo, que não está nada escrito nos calendários maias, diga-se de uma vez por todas.
Sim, tinha um certo feixinho com o calendário maia, que de vez em quando regressa, como se os pessoas previssem. Está sempre à espera de alguém que preveja o apocalipse.
Também por causa disto, os astrônomos maias calcularam qual era a duração de um ano terrestre. E é interessante ver que o ano solar calculado pelos maias, que é 365,2420, é muito próximo daquele que hoje em dia nós admitimos, que é 365,25.Estamos a falar de uma diferença mínima. Portanto, essas observações dos planetas e das estrelas eram fantásticas. E como é que eles conseguiram prever os eclipses? Que é uma questão complexa em termos mesmo de mecânica espacial. Na verdade, o que se passa é que há um ciclo, no qual os eclipses se repetem, no essencial. Os eclipses do Sol e da Lua se repetem. Esse ciclo, que é conhecido pelo nome de ciclo de Saros, já agora por um erro do Edmund Halley, que foi buscar a um papiro da Babilónia este nome, que não tem nada a ver, nem com astronomia, nem com a Babilónia. Mas na verdade, existe um ciclo de 18 anos, 11 dias e oito horas, após o qual se repete ciclicamente os mesmos eclipses solares e lunares. E eles construíram o calendário com isso.
É muito interessante que tenham sido os maias e não os incas a fazer esta.
Por quê?
Porque se os incas tivessem descoberto, o Tintim não se tinha safo. Ele é salvo por um eclipse. Não sei se te recordas dessa história.
Acho que tenho uma ideia.
Parece-me bem.
Quando é que Vénus se coloca na posição de passar à nossa frente quando olhamos para o Sol? Na verdade, se nós vivêssemos numa situação em que o plano da trajetória de Vénus fosse igual ao plano da trajetória da Terra em volta do Sol, seria mais ou menos dos 580 e qualquer coisa dias de interposição. Mas na verdade, os dois planos orbitais não coincidem.
São duas órbitas que estão ligeiramente desfasadas uma da outra, não é?
Cerca de três vírgula qualquer coisa graus, mas essa inclinação é de tal forma que, na verdade, nós temos ciclos de 243 anos, se a memória não me engana, durante o qual há duas passagens separadas de oito anos. E portanto, em 1716, Halley sabia que o próximo ciclo seria em 1761 e 1769. Os dois anos separados por oito anos. E, portanto, ele propôs: "Vamos montar uma operação de cooperação internacional, de forma que de muitos pontos da Terra, nós sejamos capazes de medir o trânsito de Vénus. E a partir daí, vamos calcular a distância da Terra ao Sol".
Com o mesmo sistema com que se tinha calculado a distância da Terra à Lua, portanto, um sistema de triangulações.
Um sistema de triangulações, que depois tem outras correções adicionais, que é necessário fazer. A triangulação só dá um erro grande.
É muito interessante a triangulação, porque nós quando discutimos aqui aquela viagem que já referimos, de Dunquerque até Barcelona para medir o perímetro da Terra, era sempre tudo feito por triangulações.
Exatamente. Mas reparem, em 1761 a 69, conforme o caso, nós precisávamos de duas coisas: precisávamos ter observadores separados entre si na Terra.
O mais possível.
O mais possível. Quantos mais, melhor, para os erros se poderem cancelar uns aos outros. Precisamos saber a distância entre eles. Ora, nessa altura, apesar de já ter havido o cálculo do metro, não havia o cálculo do meridiano terrestre na sua totalidade. E, portanto, foi preciso medir também ao mesmo tempo uma parte importante do meridiano que passa pelo Peru, o maior arco possível para medir. Como há muito oceano, como sabes, a dificultar as medições, foi preciso arranjar um circuito terrestre em que se pudesse medir consequentemente o arco do meridiano terrestre. E assim se passou.
Mas isso é uma coisa que é muito interessante. O que estávamos a falar era de montar uma operação internacional, em que tivéssemos muitos observadores, não apenas na Europa, mas colocados inclusivamente em ilhas do Pacífico.
Em todo lado que fosse possível. E reparem, o que é que ia ser diferente entre eles? Todos iriam ver a pequena bola negra a entrar no disco do Sol, num dos lados, e a sair do outro, mas não formando uma espécie daquilo que se chamará em matemática de uma corda. Só que nem todas as cordas iriam ter o mesmo tamanho. Umas mais acima, chamemos assim para não dizer que é norte, seriam mais curtas, umas mais perto do Equador, do Sol, se posso usar essa expressão, seriam mais longas. E portanto, era depois pela relação que há entre as distâncias dos observadores e o tamanho da corda. Bem, não é bem o tamanho, é o tempo que demorar a fazer. Ora, nesta altura, a medição do tempo era talvez a grandeza que mais facilmente se poderia medir e portanto, todos os observadores tinham como obrigação medir exatamente o tempo, desde que começa até que acaba. Esta foi a primeira operação reconhecida. O cálculo do meridiano disputa com ela a primazia. Foi a primeira operação internacional que envolveu dezenas de países e que impôs uma regra que ainda hoje, ou por enquanto, se quiserem assim, é utilizada, que era os dados obtidos serão públicos e divulgados pelas academias de ciências. E, portanto, eram dados que pretendiam, de uma vez por todas, pôr um tamanho no universo.
Bem, nós agora vamos ter que interromper um bocadinho aqui o "Resto da Ciência". Estaremos de regresso dentro de alguns minutos. Estamos de regresso para a segunda parte de "E o Resto é Ciência". Estávamos a falar como é que se tinha montado uma espécie de vários olhos ao longo do planeta Terra para ver a passagem de um outro planeta, Vênus, à frente, entre a Terra e a Lua, projetando um pequeno círculo e que nos ajudasse a medir a distância da Terra ao Sol. Miguel, esta montagem de uma operação, estamos a falar no século XVIII, segunda metade do século XVIII, estamos a falar de uma grande operação científica internacional.
Nós vivemos, hoje em dia, um mundo, como sabem, que é um bocadinho complicado sobre a possibilidade de mantermos estas grandes operações científicas com a participação de todos os países do mundo. E é por isso que este tema tem vindo a ter a discussão mais frequentemente do que seria pensável à cabeça. Nós tínhamos aqui uma situação rara. O ciclo de trânsitos de Vênus repete-se a cada 243 anos, mas há mais um trânsito no meio que não está exatamente centrado.
Desculpa a licença, só voltar um pouco atrás, já vamos a este caso em concreto. Mas quando tu falas de operações internacionais, nós aqui em Portugal conhecemos algumas à escala europeia.
Hoje em dia, há muito poucas operações completamente globais. Eu diria o ITER, ou seja, a fusão nuclear, de que já falámos aqui há uns tempos, é daquelas em que ainda há um elevado nível de cooperação. Tudo o que tem a ver com o oceano, em particular o Argo, também é uma operação que é também global.
O Argo é uma rede de...?
É uma rede de flutuadores. Sobe e desce no oceano e que ocupa praticamente todos os oceanos da Terra. Também é uma grande operação multinacional, mas nós começamos cada vez mais a ter algumas restrições nalgumas áreas que são vistas como próximas ou da defesa ou de uma vantagem econômica significativa, que cada vez estão a ser mais difíceis de montar. E é por isso que tem vindo agora à colação frequentemente o que é que aconteceu nesta altura. Como é que se começou este processo de dizer assim: "Todos os países vão se juntar para fazer a mesma coisa em conjunto, dividindo os custos entre si." Os custos foram significativos. Está calculado que corresponde a qualquer coisa que hoje seriam entre 10 a 30 milhões de euros à nossa taxa atual, o que para a altura era um valor muito importante. E muitos países participaram. Portugal participou. Portugal teve uma participação muito significativa nesta operação, até porque devido às colônias e devido ao fato de haver muitos territórios em que existiam portugueses ou brasileiros, ficamos dentro da mesma comunidade científica.
Na altura, Brasil ainda era Portugal.
Era Portugal. Mas por ser que era a mesma comunidade científica, nós tivemos uma participação significativa neste processo. E ele é dirigido essencialmente pela Academia de Ciências de Paris, pela Royal Society e pela Academia de São Petersburgo. Mas outras academias se juntaram.
Russos, franceses e ingleses.
Franceses e ingleses, o que na altura não era fácil.
Não era fácil, não.
Não era fácil, mas foi possível.
Nós estamos, aliás, a sair. Não sei se estamos a sair ou a entrar na Guerra dos Sete Anos, que é, para muitas pessoas, a Primeira Guerra Mundial.
Pois, exatamente. E repare que eu diria que até à questão da guerra da Ucrânia, sempre houve um bocadinho esta ideia durante este período, que também não foi assim tão grande quanto isso. Pensem bem, 1760 a 2000 e qualquer coisa. Neste período, realmente houve a grande capacidade de se trabalhar em conjunto. Antes não houve e, se calhar, depois vamos ver se vai haver ou não. O que é importante perceber-se é que havia aqui um objetivo que estava muito bem definido. Havia uma oportunidade que era praticamente única, porque se bem que o ciclo de trânsitos ocorra a cada 243 anos, há um outro trânsito no intermédio, portanto vamos lá ver, é um pouco mais de um século, e juntar todos os recursos necessários.
Portanto, o próximo é quando? Já agora.
O próximo não parece estar ao teu alcance. É em 2117.
Quanto?
2117.
Sim, acho que não vou estar cá para ver.
Porque o último foi há pouco tempo e, portanto, o próximo temos em 2117. E é interessante perceber-se que quando o Edmund Halley propõe esta operação, ele já sabia que não estaria vivo quando ela se fizesse. E ele propõe a metodologia, propõe porque é que era necessário fazer também, complementarmente, uma medição mais correta do meridiano terrestre e, mais do que isso, ele define como é que deve ser feita a observação. Portanto, para aqueles que agora estão muito focados no campeonato mundial de futebol, isto não é muito diferente aquela discussão se a bola entrou na baliza completamente ou não. Porque os observadores tinham que anotar quando é que Vênus tocava na parte exterior do disco solar, quando é que estava completamente dentro do disco solar, quando é que saía, quando é que estava completamente fora. Portanto, típico, qualquer VAR daquela altura seria capaz de observar isto com correção.
Agora os VARs dos centímetros dos fora de jogo, não é?
O único problema é que apareceu uma dificuldade adicional, não era expectável, porque devido ao fato de ser um fenômeno muito raro, não havia grande experiência da sua observação, e que era o que se chamou na altura o efeito da gota negra, que era quando Vênus se aproximava do disco solar e quando saía, na verdade, a imagem tornava-se difusa. Durante muito tempo pensou-se que tinha a ver com o efeito da atmosfera de Vênus. Uma parte, aparentemente, é a atmosfera de Vênus e foi até bastante importante para se estudar a atmosfera de Vênus, mas outra parte não era. É a mesma resolução dos equipamentos óticos que eram utilizados na altura, que fazia esta fusão das duas imagens, e o fato do Sol, na sua camada mais externa, ser menos luminosoEssa combinação de efeitos tornou as medições particularmente difíceis.
Menos precisas.
Menos precisas. O que nos salvou? A grande quantidade de medições que estavam a ser feitas na mesma altura e as estatísticas das medições. Foi das primeiras vezes que isso se fez de uma forma sistemática. E na altura, o valor que foi calculado para a unidade astronómica, ou seja, da distância da Terra ao Sol, foi de 153 milhões de quilômetros, quando agora sabemos que são 149,6. Houve aqui um erro de 3 milhões de quilômetros, que como sabes, não é praticamente nada.
É mais ou menos 2%. Um erro de 2%. Quer dizer, é o que conta para este caso. Mas esta medição que tu disseste, tinha envolvido portugueses, nomeadamente alguns com trabalho bastante relevante. Não para este caso, mas trabalho em termos científicos.
Não, e mesmo para este caso. É o padre Teodoro de Almeida que apresenta, na Academia das Ciências de Paris, um trabalho a que chamou "A Observação da Passagem de Vénus no Disco Solar", feita na cidade do Porto em 1761, o primeiro ano em que houve o trânsito, depois o outro foi em 1769. 1769 até é o ano mais importante, porque é aquele em que há mais observações e são mais cientistas na Terra.
Aqui há uma coisa curiosa: ele faz isto no Porto, porque não pode fazer de Lisboa, porque o Marquês de Pombal mandou-o para cima.
E essa é a parte que é contraditória e que há de fazer parte do DNA português, mas eu não sou capaz de explicar. Porque esta operação do trânsito solar, aparentemente, teve bastante relação com o interesse e o que moveu o Marquês de Pombal para promover a reforma da Universidade de Coimbra. No sentido de dizer que Portugal tinha que ser modernizado e tinha que ser capaz de acompanhar os grandes movimentos internacionais. Mas às vezes há quem goste de ciência, mas não goste de alguns cientistas. Portanto, ele tinha sido movido.
Às vezes alguns dos mais importantes.
Exatamente. E depois o Soares de Barros, que é como ele é mais conhecido, que é um matemático e astrónomo português, que também era membro da Royal Society e depois mais tarde da Academia das Ciências de Lisboa, também participou e também realizou observações.
Mas isto estamos a falar de observações feitas em Portugal.
Em Portugal, mas houve muitas observações feitas no Brasil.
Há observações no Brasil. E tu falas aqui também da Santa Helena.
Santa Helena, que apesar de ser território britânico, tem alguma ligação histórica com Portugal e onde também tivemos alguma relação com essas medições.
Santa Helena é aquela ilha para onde há de ir o Napoleão.
Para onde se mandam os Napoleões.
Napoleões. Não é um sítio que parece muito agradável de passar o resto da vida.
Deve ser bom que ver o trânsito de Vénus.
Pois.
É preciso ver que foram feitas 150 expedições de observação em todos os continentes.
Portanto, no fundo, foram montados 150 olhos, ou porventura, até mais que isso.
Mais que isso, penso eu. E uns cobriram as duas, outros cobriram só um dos trânsitos. E eu diria que o grande resultado aqui para Portugal foi, obviamente, a reforma positiva da Universidade de Coimbra, que abandonou uma tradição mais escolástica em favor de uma prática mais experimentalista.
Vai ser criado o Observatório Astronómico.
Vai ser criado tudo. No trânsito seguinte, que é em 1874 e 1882, já o Observatório Astronómico de Lisboa e o de Coimbra estavam ambos a funcionar e ambos participaram na repetição do trânsito de Vénus.
Mas também fiz as medições na Madeira e nos Açores, não foi?
Sim. Há medições feitas praticamente em tudo que era territórios com densa ocupação portuguesa. Menos, penso eu, em África, que eu pelo menos não vi nenhuma nota, mas eu chamo a atenção dos nossos ouvintes para o livro publicado pelo Nuno Crato, meu amigo, sobre os trânsitos de Vénus, que ainda penso que se consegue encontrar nas livrarias.
Sim, talvez agora na Feira do Livro, porque ele é um livro da Gradiva. Ele foi editado pela Gradiva. Ele fez o livro com o Fernando Reis e o Luís Tirapicos. E como é típico também de alguns livros que ele fez, tem um bocado de história da ciência, tem um bocado de astronomia. Ele é matemático, mas apaixonado pela astronomia. E ele também explica bem qual foi o papel do Teodoro de Almeida nessa operação científica.
Exatamente. Quem quiser detalhes, deve ver isto. O objetivo destes nossos podcasts é chamar a atenção para as coisas, é mostrar que se pode olhar para o nosso planeta e para a nossa realidade com uns olhos diferentes e pensarem que qualquer um de nós pode, apenas com o braço esticado e o dedo erguido, medir a altitude acima de uma parede.
E repare, esta operação foi tão complexa que está associada a uma das viagens mais lendárias de exploração do planeta, que é a viagem do capitão Cook.
Claro.
Porque uma das missões que ele teve quando saiu do Reino Unido, foi viajar para o Pacífico, para realizar observações literalmente no hemisfério sul, do outro lado da Terra. Ele vai estar na Austrália, na Nova Zelândia, e já não sei bem de que ilha ele vai fazer a observação, mas é, hoje em dia, uma das viagens verdadeiramente lendárias, essas viagens do capitão Cook.Estes trânsitos devem muito, como tu disseste, esta medição, esta previsão, a Halley. Mas Halley, como também referiste, vamos voltar um pouco a isso, tem o seu nome ligado ao cometa. Mesmo assim, ele não viu o cometa muitas vezes, não é?
Não. É interessante porque Halley foi um homem que estudou fenômenos raros, o que para um astrônomo não é uma perspectiva muito feliz. Ao contrário, porque a capacidade que ele teve de estabelecer o movimento desses corpos celestes para períodos muito grandes, apesar de para ele ser praticamente impossível ou mesmo impossível verificar se as suas previsões estavam certas ou erradas, tem muito a ver com o fato de que uma parte muito significativa do desenvolvimento científico e do conhecimento é feita de forma desinteressada e de forma global. E é um bocadinho isto que talvez nos esteja a faltar hoje em dia, se pensares bem. Excetuando a questão da fusão, que ainda mantém algum nível de cooperação.
Eu não sei se vai se manter durante muito tempo.
Não vamos saber.
Pelo caminho que está a seguir.
Nós estamos sem grande cooperação na área de inteligência artificial, entre os grandes grupos políticos. Em muitas áreas está-se rapidamente a chegar a situações em que certos países são considerados proscritos das reuniões científicas. Aconteceu, como eu disse há pouco, na guerra da Ucrânia, na minha opinião, erradamente. E quebrarmos esta ligação universal da ciência, independentemente da política e dos interesses nacionais, é talvez das coisas que vai marcar, infelizmente, as próximas décadas.
Só um outro aspeto ainda, que é: as pessoas às vezes acham que isto é tudo demasiado complicado quando falamos de triangulações para medir estas coisas. Mas, no fundo, por exemplo, quando nós andamos com o nosso telemóvel no bolso e ele nos diz onde é que estamos, o que o telemóvel está a fazer por nós é triangular a partir de medições feitas para satélites. É basicamente disso que estamos a falar, não é?
Ele está a fazer ainda pior. Ele está a usar as equações da relatividade geral para corrigir os erros de tal forma pequeninos que permitem ter precisões métricas ou centimétricas sobre a superfície da Terra. E, portanto, termos chegado aqui, foi o grande resultado da cooperação. Agora, não falemos em cooperação, mas falemos em simultaneidade. É bastante interessante que a Babilônia e os Maias estão muito separados do ponto de vista geográfico, não há nenhuma relação entre eles e, contudo, as observações que fizeram e os resultados a que chegaram são exatamente os mesmos. Portanto, em dois pontos da Terra, que não têm nenhuma ligação.
Não trocaram informação, neste caso.
Diz?
E que nós saibamos, não trocaram informação entre eles.
Mas, saibamos, não trocaram informação. Tanto babilônios como maias têm exatamente a mesma conclusão e têm os mesmos objetos de culto. E, portanto, não é muitas vezes que a serpente emplumada passa à frente do Sol, mas devem ser os suficientes para nos lembrarmos que é possível fazer as coisas de outra maneira.
Bem, e ficamos por aqui. Ficamos com a imagem da serpente emplumada, que é uma imagem bonita, o Quetzal. Não é só uma editora de livros, uma boa editora, diga-se de passagem, mas é também uma ave da América do Sul e Central, e algo que ficou ligado à medição da distância da Terra ao Sol. Não parece assim óbvio à primeira vista, mas pensando um bocadinho, chegamos lá.