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As armas e os barcos.
E o resto é história.
É a terra cobrar. Luís Bento e Clara ainda na zona do Chiado. Aqui, junto ao Tribunal Supremo, onde acabou de chegar. Quer transformar este país numa ditadura. Atenção!
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Há 100 redondos anos, um levantamento militar iniciado em Braga pelo general Gomes da Costa, deu origem a um golpe de Estado e depois a uma ditadura que pôs fim à Primeira República e dominou Portugal durante quase 50 anos. O 28 de maio de 1926, mais tarde apelidado de Revolução Nacional, foi um dos mais importantes acontecimentos do Portugal do século XX. E para explicarmos direitinho tudo aquilo que ele foi, vamos ter de dividir o tema em dois episódios, portanto avisamos desde já. Hoje começamos à boleia de uma pergunta do ouvinte José Rodrigues, que nos foi enviada, imaginem, em junho de 2021.
Olha bem, só há cinco anos.
Há cinco anos, e eu passo a citar: "Eu gostava de sugerir", diz o nosso ouvinte, "para um próximo tema o levantamento militar de 28 de maio de 1926. Tendo nascido e crescido em Braga", diz ele, "fui-me habituando a reparar em elementos físicos ou orais que evocam esse acontecimento histórico, que marcou o final da Primeira República e o início do Estado Novo, como por exemplo, a estátua ao general Gomes da Costa, em pleno centro de Braga, ou o facto de as gerações mais antigas continuarem a referir-se ao velhinho Estádio Primeiro de Maio, ainda como o 28 de Maio." E de seguida, o José Rodrigues deixa três perguntas que podem ser um excelente início para a nossa conversa. Em primeiro lugar, que forças da sociedade estiveram por trás deste movimento? Em segundo lugar, que tipo de resistências enfrentou até que por fim atingiu o êxito em Lisboa? E por fim, que importância teve o 28 de Maio no estabelecimento posterior do duradouro regime do Estado Novo? Vamos a isso, Rui?
Vamos a isso. Vamos tratar do 28 de Maio através de dois momentos. Primeiro, vamos tentar perceber como é que se chegou ao 28 de Maio de 1926, ao movimento militar, e depois como é que se passou do movimento militar de 28 de Maio de 1926 para o estabelecimento do Estado Novo em 1933, sete anos depois.
Certo. Esse é o tema do próximo episódio. Agora ficamos aí.
O mote aqui é que isto foi um processo muito mais complicado, muito mais tortuoso, muito menos direto do que é costume dizer. Isto é, esta passagem do movimento militar de 28 de Maio de 1926 até ao estabelecimento do Estado Novo, sete anos depois. Foi um processo muito mais complicado.
Não estava tudo planeado.
Não estava planeado, não estava previsto. O Estado Novo foi um dos resultados possíveis do 28 de Maio, foi aquilo que viria a acontecer. Outros resultados poderiam ter ocorrido. Eu acho que convém começar por dois factos, que creio que até já os referimos aqui em outros episódios do Resto da História, mas vale a pena lembrar. O primeiro diz respeito ao tipo de regime que existia em Portugal desde 1910, a chamada Primeira República. Ora bem, aquilo que retemos dessa Primeira República, frequentemente, é a ideia dos 44 governos e dos oito presidentes da República em 16 anos. De facto, aconteceram 44 governos, houve oito presidentes da República, mas é uma pista falsa para perceber o regime. Está a ideia que o único problema que o regime tinha era a instabilidade, era um regime instável, não se entendiam. Não é isso que caracteriza a Primeira República. Já o disse aqui várias vezes, mas repito: o que caracteriza a Primeira República é o domínio de um partido. Esse partido é o Partido Republicano Português, é o nome oficial, mas é conhecido por Partido Democrático também, uma vez que o grupo parlamentar que apoiava o partido chamava-se Grupo Parlamentar Democrático e portanto chamam Partido Democrático ao Partido Republicano Português, o PRP. É um partido da esquerda radical, radical no sentido do princípio do século XIX, é um termo de importação francesa, o radicalismo francês, anticlerical, com alguma dimensão socialista. E o seu líder é Afonso Costa, que é chefe de governo várias vezes entre 1910 e 1917, várias vezes em períodos diferentes, chefe de governo. E basicamente este partido é um partido que não admite não estar no governo. Quando não está no governo, leva isso muito a mal e recorre rapidamente à violência para regressar ao governo, como fez em 1915, quando o presidente da República, Manuel de Arriaga, instala um governo da direita republicana. O PRP não aceita isso, faz uma insurreição armada em Lisboa e toma o poder violentamente. O PRP acha que na República só o PRP é que pode governar, só o PRP é que tem de governar.É a linha do PRP. E o PRP governa, indo para o poder através da violência, mas depois uma vez no poder, ganham de eleições manipulando um eleitorado que o próprio PRP reduziu em 1913. Retirou o direito de voto aos analfabetos, isto é, retirou o direito de voto à maior parte dos homens. Havia sufrágio masculino, a maior parte dos homens que poderiam votar em sufrágio masculino, que sendo analfabetos deixaram ter o direito de voto. Portanto, ficou um eleitorado pequeno que a administração, dominada também pelo PRP, conseguia manipular para ganharem sempre eleições. O que é que isto fez? Fez com que as oposições, sobretudo a direita republicana, também quando queriam ir para o governo é através da violência que podem ir para o governo. E daí aquela sucessão de revoluções, golpes de Estado da República. Não é porque eles fossem incapazes de se entender, é basicamente porque têm um partido que está sempre no governo, que não admite não estar no governo, e é pela força que tem de ser tirado. O PRP causa uma rejeição no país grande, não apenas por esta pretensão de monopólio do governo, mas também pelas suas políticas. E três de entre elas são particularmente controversas. A primeira é a política de hostilidade à Igreja, ao clero, uma espécie de guerra cultural contra o catolicismo em nome da ciência. Isso é típico do radicalismo francês que o PRP, o Partido Republicano, tinha importado para Portugal. Depois, um choque constante, sobretudo em Lisboa, com os sindicatos, os sindicatos dominados pelos anarquistas. É preciso admitir que os sindicatos também são historicamente violentos, nunca fazem greves que não ponham bombas. Portanto, o PRP choca constantemente com os sindicatos. Afonso Costa é conhecido como o racha sindicalistas por este confronto constante com o movimento organizado dos trabalhadores. E finalmente, a terceira política que vai definir o domínio do PRP é a da política de intervenção na Primeira Guerra Mundial, de que falámos aqui. Em 1916, 1917, essa política vai levar ao envio de 50 mil soldados portugueses para a Flandres. A guerra vai provocar falta de abastecimentos, inflação no país em 1917 e isso explica, aliás, o sucesso do golpe de Sidónio Pais contra o PRP, contra Afonso Costa, em 1917, que tem o apoio da maior parte do exército e de quase todas as correntes políticas que não são do PRP. Isto é, católicos, monárquicos, a direita republicana, mesmo os sindicalistas, os anarquistas recebem o Sidónio Pais com alguma simpatia. Basicamente, toda a gente que está contra o PRP apoia. É um primeiro sinal do que pode ser um regime fora do PRP. Toda a gente junta contra o PRP, da direita à esquerda, monárquicos, anarquistas, católicos, maçons que não gostam do Afonso Costa, todos juntos contra o PRP. Isto é a situação em 1917.
E o que é que acontece depois do Sidónio ser assassinado?
Depois de 1919, depois da Primeira Guerra Mundial e depois do fim desse ano, do regime chamado sidonista, isto é, a presidência de Sidónio Pais, muita coisa começa a mudar. Primeiro, o país está em 1919 numa situação terrível. Os custos financeiros da guerra foram muito altos. Entre novembro de 1920 e março de 1921, regista-se em Portugal a maior taxa de inflação de sempre. Isso provoca um grande abalo na classe média, os funcionários públicos, pessoas que viviam de rendas fixas, todos eles perdem poder de compra. Há uma grande agitação laboral. Os trabalhadores fazem muitas greves para aumentar os salários, numa época de grande inflação. Há fuga de capitais. As pessoas que têm poupanças tentam metê-las no estrangeiro. Há emigração. Centenas de milhares de pessoas, aliás, emigram.
Para a Europa? Já não para os Estados Unidos.
Não, para o Brasil. Para a Europa só depois da Segunda Guerra Mundial e, aliás, são os anos 60, sobretudo. 60 do século XX. E os republicanos e mesmo os líderes do PRP ficam com consciência dos limites do regime que têm em Portugal. Uma coisa que eles notam também é que a instrução militar e o serviço militar obrigatório com que eles contavam para republicanizar o país não chegam a abarcar sequer metade das novas gerações. E os republicanos, os líderes do PRP, perceberam também que estavam a perder a batalha ideológica no país. Estavam a perder a batalha ideológica entre o povo, que achava muito mais atraente o culto mariano em Fátima a partir de 1917 do que propriamente o movimento republicanoO culto mariano em Fátima vai levar ao maior movimento de massas desta época. É absolutamente contra a ideologia republicana, é a prova de que os republicanos não estão a conseguir convencer o país a deixar a tradição católica.
Sim, que é uma ideologia muito forte, anti-frade.
É uma tradição católica que prova que é muito mais forte do que essa ideologia anticlerical. E depois os republicanos estão a perder também a batalha ideológica entre os jovens intelectuais, entre os estudantes das universidades, os estudantes dos liceus, que são basicamente a elite nesta época e que antes de 1910 tinham sido atraídos sobretudo pela República, muitos deles eram republicanos e agora estão a ser atraídos pela monarquia. A maior parte são monárquicos, sobretudo aquela nova tendência ideológica que é o chamado integralismo lusitano, que é mais uma vez uma ideologia que vem importada de França, da Action Française, e que tem uma versão portuguesa que é chamada o integralismo lusitano a partir de 1915 e que atrai estudantes universitários, estudantes de liceu. Nos anos 20, aparece a ideologia irreverente, iconoclasta, moderna, ao contrário do republicanismo, que parece de repente uma coisa do século XIX, velha. Portanto, os republicanos percebem isso, isto é, percebem que é preciso mudar. Aliás, eu diria que esse é o primeiro dado a reter para perceber a complexidade do 28 de Maio. Não aconteceu porque os líderes do PRP, que dominavam a República, não quisessem mudar, mas precisamente porque eles estavam a tentar mudar. O 28 de Maio é um resultado dessa tentativa que eles fazem de mudar e que corre extraordinariamente mal.
Sim, diz Rui.
O que é que eles fazem para tentar mudar? A primeira coisa que fazem em 1919, depois do Sidónio Pais, é aconselhar o Afonso Costa, que tinha ido para o exílio em França em 1918, a ficar em França, não regresse. Portanto, um líder que estava extraordinariamente conotado com aquele domínio rebarbativo do PRP antes de 1917, eles dispensam. "Fica em França. Não volte." Embora ele fosse o grande líder do PRP, fica em França. Depois eles aceitam o fim da guerra cultural contra a Igreja Católica. Eles mantêm a revisão da lei da separação entre a Igreja e o Estado, que tinha sido feito por Sidónio Pais. Portanto, aceitam o status quo que Sidónio Pais tinha estabelecido com a Igreja. Os próprios líderes do PRP aceitam isso. Põem fim à guerra contra a Igreja Católica. E depois, em terceiro lugar, reconhecem que o problema principal já não é combater o clericalismo, mas combater a inflação. Isto é, atingir o equilíbrio do orçamento. E isso passa a ser a nova grande causa do regime e não o combate à chamada reação católica. E finalmente, os líderes do PRP percebem também que a República não pode consistir pura e simplesmente no domínio de um partido, no domínio do seu partido. E admitem aquilo que a direita republicana há muito tempo andava a reclamar, que era um regime que admitisse a alternância entre dois partidos. Um partido à esquerda, que era o PRP, e um partido à direita. Esse partido à direita vai ser formado em 1919, através da unificação de vários partidos de direita republicana que até então existiam, vão formar o chamado Partido Liberal. E a ideia a partir daí é que haja uma alternância no poder entre o Partido Republicano Português, o Partido Democrático, e este Partido Liberal. E para isso o PRP aceita até a revisão da Constituição de 1911, que é feita em 1919, que dá novos poderes ao Presidente da República para poder dissolver o Parlamento, e aceitam também, uma novidade também grande, eleger um dos líderes da direita, António José de Almeida, como Presidente da República. Isto é, o PRP já não vai tentar controlar a República toda, tendo o Presidente da República, um parlamento que ninguém pode dissolver, nada disso. Vai admitir que vai haver um Presidente da República da direita e esse Presidente da República pode dissolver o Parlamento e portanto, através da dissolução do Parlamento, pode dar a oportunidade à direita republicana de suceder a um governo do PRP.
Muito bem, mas vai-se ver que os planos não correm bem.
Havia boas intenções, mas os planos não correram bem.
Exato, mas esses planos ficam para a segunda parte. Até já. Olá, seja bem-vindo de volta a este segundo episódio de "E o Resto é História". Nós estamos a falar do centenário do 28 de Maio de 1926 e o Rui estava a contar-nos na primeira parte que o PRP, o partido dominante da Primeira República, estava a tentar mudar de vida, mas que essa tentativa de mudança de vida esgotou tarde demais.
Enfim, não resultou, pelo menos. E não resultou por quê? Porque estávamos a falar das intenções, dos planos dos dirigentes do Partido Republicano. Os principais parlamentares, os antigos ministros, aqueles que tinham estado com o Afonso Costa, mas que agora afastaram o Afonso Costa porque querem precisamente começar uma vida nova.Agora, as bases do PRP, os militantes do PRP, os ativistas do PRP não ficam muito entusiasmados com estes pontos.
Eram mais radicais do que as 方 向 lideranças.
Eram, sobretudo, muito mais ciosos do domínio que exerciam. Por que haviam agora de entregar a influência que tinham aos seus adversários de direita republicana? E além disso, eles tinham muito mais força do que alguma vez tinham tido. E isto porquê? Porque em 1919 tinha havido uma tentativa para restaurar a monarquia, chamada Monarquia do Norte, no Porto. E para resistir a essa restauração da monarquia, o governo da República em Lisboa tinha armado os ativistas republicanos e tinha, sobretudo, começado a reforçar a guarda republicana. Porquê? Porque não confiava no exército. Muitos oficiais do exército tinham-se passado para a monarquia e, portanto, os governos republicanos criaram, ao lado do exército, a partir de 1919, uma espécie de exército paralelo, que era a guarda republicana, que estava toda em Lisboa e a quem foi dada a artilharia pesada, metralhadoras, era praticamente um exército ao lado.
Ou seja, fazia mesmo justiça ao seu nome. Era mesmo a guarda republicana.
Era uma espécie de guarda pretoriana do regime. Ora bem, estava cheio de militantes do PRP e dos mais radicais que se podia imaginar, daqueles que tinham ido para a rua combater os seus adversários. E esta massa de militantes bastante sectários, dados à violência, não apreciou absolutamente nada a ideia de: "bem, agora vamos ceder o poder à direita republicana." Vamos ter dois movimentos a partir de 1919 no PRP, um dos dirigentes do PRP no sentido da conciliação, do compromisso, da alternância, do pluralismo e outro das bases do PRP no sentido absolutamente contrário, defender a hegemonia, defender o monopólio, impedir qualquer alternância. E é isso que vai acontecer. Em janeiro de 1920, finalmente, o presidente da República, o António José de Almeida, nomeia um governo da direita republicana, do Partido Liberal. Portanto, era a ideia da alternância com o PRP. O que é que acontece? Esse governo nem sequer chegou a tomar posse. No dia 15 de janeiro de 1920, os novos ministros vão ao Terreiro do Paço para tomar posse e quando chegam lá, está uma multidão gigantesca de militantes do PRP, que os correm com batatas e vegetais, provavelmente que foram buscar à Praça da Figueira, onde havia ainda um grande mercado, e eles não chegam a tomar posse. Porquê? Porque, por outro lado, a guarda republicana que está lá não defende o governo. Deixa os militantes atuarem, porque está em completa simpatia com os militantes do PRP que estão ali para impedir o governo do Partido Liberal de tomar posse.
Pura e simplesmente não tomaram posse.
Pura e simplesmente não tomaram posse. O António José de Almeida teve de nomear outro governo. Portanto, isto dá a ideia do poder que esta massa armada, dada à violência, com o apoio da principal força militar ou militarizada em Lisboa nestes anos de 1920, 1921, que é a guarda republicana, a força que as bases tinham. A população aparecia, ou esta população associada ao PRP aparecia e não havia grande autoridade para lhes fazer frente. Bem, mas no verão de 1921, ano e meio depois, o presidente António José de Almeida, que era um homem persistente, insistiu, nomeou outro governo do Partido Liberal. E desta vez, o Partido Liberal no governo conseguiu presidir a umas eleições. Ora bem, tendo presidido a umas eleições, fez um bocadinho também como o PRP fazia quando estava no governo e organizava eleições, isto é, também manipulou através da administração para ganhar as eleições e ganhou eleições. E de repente foi as primeiras e únicas eleições que o PRP não ganhou daquelas a que concorreu durante a Primeira República. As únicas e as últimas em 1921. E o que é que aconteceu? Aparentemente, toda a gente ficou pronta. Aqui está finalmente a alternância consumada. O Partido Liberal está no poder, ganhou eleições, há um Parlamento em que tem a maioria, portanto vamos estar durante uns anos sob governo do Partido Liberal e depois virá mais à frente um governo do PRP. Bem, talvez os líderes do PRP estivessem dispostos a aceitar isso. Mais uma vez, os militantes não estavam. E o que aconteceu em outubro de 1921, já aqui falámos, já dedicámos um programa a esse dia, ou antes, a essa noite, a chamada Noite Sangrenta, foi que os militantes do PRP, com o apoio da guarda republicana e também da Marinha, onde tinham muitos simpatizantes, revoltaram-se em Lisboa, numa insurreição armada, roubaram o governo e nessa altura, porque precisamente não confiavam nos líderes do próprio partido republicano, decidiram garantir que não iria haver mais alternância. E aquilo que eles fizeram foi tentar liquidar a direita republicana. A Noite Sangrenta foi isso. Foram esses militantes. O líder do Partido Liberal, que era António Granjo, que era aliás também o chefe do governo, foi capturado, foi levado para o Arsenal da Marinha, foi linchado no Arsenal da Marinha por uma multidão gigantesca. Não é um atentado que nós não saibamos quem é o autor. Foi em público, os militantes do PRP lincharam-no.
Espancado até à morte.
Com tiros, atravessado com uma espada, que foi uma coisa horrível. Nesse terrível momento, há um outro líder republicano que se destaca, e que vale a pena falar, porque vamos falar dele várias vezes aqui nestes dois programas, que é Cunha LealCunha Leal, curiosamente, até era um adversário de António Granjo, mas António Granjo quando se viu perseguido, refugiou-se na casa de Cunha Leal. Isto é uma coisa espantosa. Eles eram dois inimigos ferozes um do outro, mas Cunha Leal disse: "Não, eu vou protegê-lo. Venha para aqui que eu vou protegê-lo." Ele tentou protegê-lo, foi para o arsenal da marinha com ele, tentou defendê-lo. Cunha Leal acabou por ser ferido a tiro também, mas com isto adquiriu uma reputação gigante nestes anos 20. Tornou-se quase um herói, o homem que tinha tentado salvar o seu inimigo, o seu adversário. Eles eram os dois da direita republicana, mas eram rivais e detestavam-se um ao outro. E ele tentou defendê-lo. Foi o princípio da fama de Cunha Leal, de que vamos falar mais vezes durante este programa. Aconteceu então algo muito importante, que foi que os líderes do PRP perceberam que tinham também que se libertar destas bases que não os deixavam ter outra política que não uma política de monopólio do poder e de perseguição dos adversários. E o que é que faz um dos líderes do PRP, que é António Maria da Silva, que aliás também era vice-governante do Grande Oriente Lusitano. Aliás, a direita republicana também está cheia de maçonos, mas o PRP também. António Maria da Silva torna-se chefe do governo no princípio de 1922. O António José de Almeida percebe que não consegue ter outro governo que não o governo do PRP, portanto nomeia este líder do PRP.
Mesmo o governo saído das eleições, apesar de vencedor, nunca também jogou tomar posse.
Não tomou posse, foi derrubado. O António Granjo foi assassinado.
E não houve substituição.
Não, foi substituído depois por um governo radical, no entanto, mas também ficou completamente desacreditado pelos massacres que tinham sido feitos antes e pelas violências e portanto acabou que não se conseguiu manter. Veio este líder do PRP, ainda do chamado Partido Democrático, António Maria da Silva, que faz várias coisas importantes. Finalmente tenta realizar este programa de transformação da República que os líderes do PRP tinham percebido que era necessário. A 18 de fevereiro de 1922, ele faz uma coisa espantosa, manda o exército cercar Lisboa e desarmar a Guarda Republicana. A Guarda Republicana é desarmada e é dispersa pela província, sai de Lisboa. Esta guarda pretoriana do regime acaba aqui. O regime passa a estar dependente das forças armadas. Reparem, o objetivo dos líderes do PRP não é exatamente renunciar ao poder. Eles não estão a fazer isso. Eles querem é tornar o seu exercício do poder um pouquinho mais consensual, mais aceitável para o país. E para isso, eles percebem que têm de reconhecer o pluralismo político no país e a possibilidade de alternância. É isso que António Maria da Silva está a tentar fazer, libertando-se destas bases radicais, desarmando os grupos civis armados, desarmando a Guarda Republicana, entregando quase a ordem pública ao exército. E mais do que isso, entre fevereiro de 1922 e novembro de 1923, um longo governo de António Maria da Silva. Aliás, são vários governos, mas é sempre presidido por ele. António Maria da Silva tenta equilibrar as finanças. Declara que a grande prioridade é combater a inflação e combater os défices orçamentais que explicavam a emissão de dinheiro e a sua desvalorização. Combate também o terrorismo anarquista da Legião Vermelha, que nesta época põe imensas bombas em Lisboa, e tenta conciliar, ou aplacar, a Igreja Católica. Claro que isto choca imenso as bases do PRP.
Continuavam radicalizadas.
Claro, sentem-se traídas. Isto é uma política de direita, como eles dizem. Nós, o grande partido da esquerda, estamos a fazer uma política de direita e com isto António Maria da Silva, em vez de resolver o grande problema do regime, arranja mais dois outros grandes problemas. O primeiro grande problema é com a direita republicana. A direita republicana, o pessoal do Partido Liberal, vê António Maria da Silva basicamente adotar as suas políticas, mas não são eles que estão no governo. Não acham graça nenhuma que seja a esquerda, o grande partido da esquerda, o PRP, a fazer a política da direita, mas mantendo-se no poder o PRP. Estes líderes da direita não vão colaborar com António Maria da Silva, vão ficar furiosos com esta política do PRP, porque veem quase nesta política do PRP mais um truque do PRP para se manter no poder. Já estava a ficar impopular e agora está a fazer aquilo que nós gostaríamos de fazer, está a roubar as nossas bandeiras, o nosso programa para se manter no poder. Cunha Leal, nessa altura, torna-se um dos principais adversários. É um dos líderes da direita mais combativos contra esta usurpação das causas da direita pelo partido da esquerda. O outro grande problema, obviamente, é nas bases do PRP, que ficam furiosos, e noutros líderes do próprio PRP, que também não acham graça ao que António Maria da Silva está a fazer e, ao início, acham que há uma oportunidade para eles. Isto é, uma vez que António Maria da Silva está a ser criticado pelas suas políticas de direita, se nós afirmarmos as políticas de esquerda, vamos tirar o lugar a António Maria da Silva dentro do PRP. O raciocínio de um jovem político que nesta altura se torna muito famoso, o José Domingues dos Santos, que começa a criticar António Maria da Silva. São do mesmo partido, do PRP, mas começa a criticar António Maria da Silva, acha que há um desvio perigoso na República, um desvio para a direita.Além disso, eles também estão entusiasmados pelo novo radicalismo em França, estes republicanos e os seus adversários que estão sempre a copiar ideias francesas. Portanto, também há um novo radicalismo menos anticlerical e mais anticapitalista. José Domingues dos Santos tenta importar esse anticapitalismo, de substituir o anticlericalismo pelo anticapitalismo. O que acontece entre 1923 e 1925? O PRP tem estas duas fações, a fação de António Maria da Silva, chamado os bonzos.
Mas aí António Maria da Silva já não está na presidência da República.
Na presidência do governo, em 1923. A partir de 1923 deixa a presidência do governo, porque não consegue governar, uma vez que as bases não estão contra ele, metade dos líderes também já estão contra ele, com o José Domingues dos Santos. E o que acontece? O PRP tem estas duas fações, António Maria da Silva e José Domingues dos Santos, uma esquerda e uma direita dentro do PRP. Aquilo que eles vão fazer é impedirem-se de governar um ao outro. José Domingues dos Santos depois também forma um governo, também não consegue governar, porque eles boicotam-se constantemente no Parlamento, o grupo do PRP está sempre a dividir-se e a derrubar os próprios governos.
E quem que nessa altura é o presidente da República?
O presidente da República até 1923 ainda é António José de Almeida, a partir de 1923 é Manuel Teixeira Gomes, que aliás até está mais simpatizante da fação esquerda do PRP e por isso também acaba por perder a paciência e vai-se demitir em 1925. Portanto, há nove governos em dois anos. Começa aquela contabilidade de governos. Agora, é verdade, é o PRP sempre que domina os governos. Só que com estas várias fações a fazerem jogo de xadrez e a fazerem xeque-mate umas às outras.
Ou seja, quase dois partidos dentro do próprio partido.
Há dois partidos. E em 1925 passa a haver mesmo dois partidos. José Domingues dos Santos percebe que nunca vai conseguir substituir António Maria da Silva à frente do PRP e rompe com o PRP, forma um novo partido, o Partido da Esquerda Democrática. É assim que o partido se chama. O que isto quer dizer? Isto quer dizer que o PRP, que tinha sido o grande partido da República, o partido hegemônico da República, o partido monopolista do poder, que era a grande base eleitoral, era o que tinha mais caciques, era o que tinha mais estruturas no país e que sustentava os governos da República, a partir de 1923, 1925, está desfeito. Isto é, deixa de haver uma base partidária estável para a governação da República e o que vai acontecer é: os grupos parlamentares vão continuar depois a desmultiplicar-se. Isto é, um partido divide-se em dois e depois cada um desses novos partidos vão se dividir em novas fações e há uma desmultiplicação de fações. Esta quantidade enorme de governos são o resultado de combinações entre as várias fações para formar governos. Portanto, é um impasse, basicamente. Os governos mudam, os ministros às vezes tendem a ser os mesmos, nas mesmas pastas é sempre o mesmo ministro. Mas claro, é uma constante mudança de governos.
E é isso que vai dar origem ao 28 de Maio.
Sim, é este resultado. Exatamente, eu creio que é a divisão do PRP, é a contestação da direita ao continuado domínio do PRP, que leva precisamente ao movimento militar de 28 de maio de 1926. Há uma grande sensação de crise em meados dos anos 20. Basicamente, toda a gente está descontente, toda a gente está insegura, à direita, à esquerda, toda a gente está contra o António Maria da Silvismo, como se chama na altura. Reparem que a política de combate à inflação a partir de 1922 provoca austeridade, desemprego, etc. A inflação reduz, mas à custa de cortes de despesa, à custa de aumentos de impostos. É uma altura em que não há praticamente investimentos públicos, as estradas estão quase abandonadas. Numa altura em que os automóveis estão a chegar a Portugal, é quando não há estradas. A imprensa está cheia disso. "Agora que estamos a importar automóveis, não temos estradas, porque não há dinheiro para fazer estradas."
E há uma divergência de Portugal em relação à Europa nessa altura, não é?
Os anos 20, de acordo com as estimativas que nós temos do crescimento do PIB, do Produto Interno Bruto, é o momento de maior afastamento entre o nível de riqueza em Portugal e a média europeia nos últimos 200 anos. Nunca Portugal esteve tão pobre como nesta altura em relação à Europa, como em meados dos anos 20. E isso se sente, as pessoas sentem isso, e portanto há um descontentamento grande e depois tudo é interpretado desse ponto de vista. Por exemplo, eu falei da demissão de Manuel Teixeira Gomes em 1925. Em 1925, o próprio presidente da República renuncia ao cargo, vai-se embora. E isso é interpretado-- de facto, aquilo é uma opção pessoal, porque ele estava a tentar levar a esquerda para o poder, não consegue e decide ir-se embora, mas é visto como uma espécie de: "Bem, até o presidente da República desistiu disto." No fim de 1925, princípio de 1926, é também quando explode aquela famosa fraude bancária do Alves dos Reis, de que já aqui falámos. Mais uma vez é interpretada não como uma golpada de um homem habilidoso, mas sim como um sinal da corrupção, da degradação do regime. Todas as coisas estão a ser interpretadas desse ponto de vista. Portanto, por volta de 1926, quase todos os políticos em Portugal, à direita, à esquerda, perante esta desagregação dos partidos, estão descrentes do regime e toda a gente começa a falar de soluções ditatoriais, de uma ditadura.
Ok.
Ninguém acredita no Parlamento, que está completamente caótico, e a ideia é: se houver um regime de forçaDurante algum tempo, para resolver o problema das finanças, para resolver o problema da disciplina partidária e depois, mais tarde, pode-se retomar a vida parlamentar normal. E estas ideias, obviamente, ditaduras, têm um contexto europeu onde aparecem agora ditaduras na Europa, a ditadura comunista na Rússia em 1917, a ditadura fascista em Itália em 1922, 1926. Também há uma ditadura militar do general Primo de Rivera em Espanha desde setembro de 1923. Toda a gente fala em ditadura e a ideia de arranjar uma ditadura para resolver os problemas.
Muito bem. Nós vamos continuar com esta história mais um bocadinho em podcast. Para quem nos está a ouvir em direto, eu despeço-me até para a semana. Então, como sabem, está na moda. Portugal sempre foi sensível às modas europeias.
Toda a gente fala de ditaduras, por exemplo, os diplomatas ingleses.
E note-se que fala de ditadura, que isto é uma coisa difícil de hoje em dia percepcionar, mas ditadura era uma palavra com uma conotação positiva naquela época.
É, naquela altura tem várias conotações. Isto é, a ditadura comunista e a ditadura fascista são regimes de partido único. As ditaduras de que estes republicanos e os seus inimigos estão a falar nestas alturas remetem mais para a ideia de uma governação excecional com o Parlamento fechado durante um tempo para resolver problemas administrativos e de governo, sem depender do Parlamento. Às vezes é isso que as pessoas estão a pedir. Isto é, não exatamente um regime autoritário e violador das liberdades durante um tempo indefinido. Não, estão a dizer: "Bem, se calhar é preciso manter o Parlamento fechado durante um tempo para permitir a um governo-"
Tomar medidas difíceis.
"Resolver coisas difíceis." Exatamente. Resolver coisas difíceis. Nem toda a gente que fala de ditadura está a falar da mesma coisa. Agora, às vezes isso não é percetível. Por exemplo, os diplomatas britânicos que falaram com António Maria da Silva e que depois faziam um relatório que enviava para o governo em Londres. Ele também lhes diz: "Não, a única solução para isto é haver aqui um período de ditadura no país, porque nós não conseguimos sair desta situação de outra maneira." E esses diplomatas depois remetem para Londres e dizem: "Parece-me que ele está muito fascista." Não percebem aquilo que ele está a dizer, que ditadura não quer dizer implantar um regime tal como o do Mussolini em Itália. Mas o mais importante para isso era com o que é que contavam estes candidatos a ditadores para exercerem a sua ditadura. Isto é, onde é que eles se iam apoiar. E aquilo com que toda a gente estava a começar a contar era com as Forças Armadas, era com o exército. E por quê? Por que de repente aparece o exército com esta dimensão também?
Também havia uma certa tradição de golpes militares, não é?
Não, já não havia desde há muito tempo. Quer dizer, de golpes das Forças Armadas, em Portugal não havia tanto como em Espanha. Há no princípio dos anos 30 e 40 do século XIX, mas depois as Forças Armadas portuguesas não mantêm uma tradição golpista como as, por exemplo, dos espanhóis, do exército espanhol.
Mas não contas aí nem a monarquia do Norte, nem Sidónio, nem todos esses levantamentos?
Vamos ver a diferença. As Forças Armadas contavam porque as Forças Armadas também se tinham transformado nestes anos. Este era um exército que agora estava assente no serviço militar obrigatório. Era um exército que, com a intervenção na Primeira Guerra Mundial, tinha visto os seus efetivos aumentar. Por exemplo, o corpo de oficiais, incluindo combatentes e não combatentes, aqueles que não estavam em serviço ativo, mas que faziam parte do quadro, tinha passado de 5 mil em 1910 para 10 mil em 1923, tinha duplicado. Mas sobretudo, a idade média dos oficiais-generais com a guerra tinha baixado de 60 anos para 50 anos. Portanto, havia um exército muito mais numeroso, que tinha passado pela experiência da Primeira Guerra Mundial, tinha muito mais oficiais e cujos quadros superiores tinham rejuvenescido, que eram gente muito mais nova. Por outro lado, como dissemos há pouco, o papel dos militares na manutenção da ordem pública tinha aumentado. Sobretudo depois da redução dos efetivos da Guarda Republicana em 1922, 1923. O exército tinha-se tornado a principal base de manutenção da ordem. E depois, claro, também eram o principal alvo de homenagens no país. Por quê? Por causa das comemorações da Primeira Guerra Mundial.
Não havia semana que não era.
Os dias 9 de abril eram os dias do exército. Fazia-se cerimônias especiais aos soldados conhecidos. Os oficiais tinham o hábito de andar sempre fardados nas ruas, pelas fotografias de Lisboa dessa época, ou imagens, filmes, via-se muitos oficiais nas ruas fardados, porque era uma coisa digna ser oficial do exército, era uma coisa importante, mas não era uma coisa extremamente satisfatória, por quê? Por causa da inflação. A inflação também tinha degradado os salários dos oficiais das Forças Armadas e, portanto, eles também estavam extremamente descontentes e com muita vontade que as coisas mudassem. Claro que os políticos andavam sempre à volta deles para eles mudaremEstavas a referir-te a isso. Sim, tinha havido muitos oficiais que tinham participado em insurreições armadas desde 1910, mas essas insurreições armadas eram sempre insurreições de civis e de militares. Mas os militares apareciam lá por conta própria, arrastando os oficiais e os sargentos, arrastando soldados. Agora há uma ideia diferente de como é que deve ser a intervenção das Forças Armadas. Em meados dos anos 20, a ideia é a de que aos militares já não competia ajudar este ou aquele partido a tomar o poder, mas deveriam ser as próprias Forças Armadas, enquanto corporação, a constituírem-se em poder. Portanto, não devia haver aventuras individuais de militares ligados a partidos, como tinha havido até então, mas aquilo que se chamava uma intervenção coletiva das Forças Armadas, enquanto corporação, isto é, um movimento das Forças Armadas. É a expressão que é usada nos anos 20. Um movimento das Forças Armadas coletivo, corporativo e independente dos partidos políticos.
Estás a dizer então que o primeiro MFA não é o de 74, é isso?
O primeiro MFA é este de 1926, é o primeiro movimento das Forças Armadas.
Mas era de autoridade ou derrubavam o governo?
Não, vamos usar o movimento, é um movimento das próprias Forças Armadas, é a força armada que se constitui sem poder. A ideia de que num país dividido em partidos, num país onde o poder não é legítimo. Fernando Pessoa, aliás, escreve um texto sobre isso chamado "A Doutrina do Interregno", em 1928, a explicar isto. Num país profundamente dividido, em que ninguém reconhece a legitimidade do poder, as Forças Armadas têm de se constituir em poder.
E foi assim que aparece o General Gomes da Costa.
E aparece o General Manuel Gomes da Costa, em 1926, tem 63 anos.
E uns anos mais tarde, o Costa Gomes.
Não, muitos anos mais tarde, passa 50 anos.
Tivemos um MFA, um Costa Gomes e agora temos um MFA e um Gomes da Costa.
Mas o General Gomes da Costa, não confundir portanto com Costa Gomes. O General Gomes da Costa, nesta altura, é um militar filho de militares, típico, aliás, de muitos destes oficiais generais. São famílias de militares, de filhos de militares, etc. Ele tinha sido comandante da segunda divisão do Corpo Expedicionário Português na Flandres. Tinha também combatido em África, tinha combatido na Índia, naquelas guerras coloniais do fim do século XIX, princípio do século XX, e é uma figura inconfundível. É um homem gigantesco, altíssimo, tem uma linguagem de caserna, portanto cada duas palavras é um palavrão. É uma figura típica da época. Ele gosta de política também. Aparece associado à esquerda radical, mas também está rodeado de gente da direita radical, porque ele gosta é dos extremos, sejam da esquerda ou sejam da direita. É isso que ele gosta, não gosta das pessoas do centro. E é ele que se vai a pôr à frente em maio de 1926, da insurreição da guarnição em Braga. Em 1925, em abril, já tinha havido em Lisboa uma tentativa deste género de movimento militar, mas não tinha resultado. Agora em Braga é uma coisa diferente, é um pronunciamento militar.
E Braga é importante na altura?
Braga, a ideia ali é mais a guarnição. É verdade, havia lá um congresso católico que estava a decorrer e depois mais tarde há historiadores que vão dizer: "Isto já era os católicos." Não é nada, a ideia é um pronunciamento, portanto, um levantamento de um chefe militar que convoca todas as unidades militares para se lhe juntarem e interessa que seja fora de Lisboa, porque em Lisboa, apesar de tudo, o governo ainda tem alguns elementos para tentar sufocar, mas em Braga não. E portanto, a guarnição de Braga adere e depois Gomes da Costa começa a descer para Coimbra, descer em direção a Lisboa e a convocar as Forças Armadas para se juntarem a ele, anunciando duas coisas. O primeiro é que é um movimento das Forças Armadas, portanto não está ligado a partidos políticos.
Isto também não está à esquerda.
E sobretudo a ideia de libertar o país, a ideia de vamos libertar o país de uma ditadura que o oprime. A ditadura é a ditadura dos partidos republicanos. Quando ele diz: "Esta casta de políticos que está a dominar o país, vamos libertar o país." Quando Gomes da Costa se pôs à frente desta coluna de tropas revoltosas, que depois vai descer de Braga, a preocupação não é resistir. Aliás, toda a gente estava a par destes movimentos conspiratórios nas Forças Armadas. O próprio governo estava completamente por dentro da situação, os ministros tinham contactos. A preocupação principal é suscitar revoltas militares de oficiais generais que estejam próximos politicamente de cada um dos grupos. Cada um dos grupos tenta fomentar essas revoltas e portanto vai haver várias revoltas. Em vez de se juntarem a Gomes da Costa, o que acontece é vários movimentos de Forças Armadas. Em Lisboa, o almirante Mendes Cabeçadas, no sul, o General Carmona, revoltam-se também, convergem. Quando Gomes da Costa chega a Lisboa, já António Maria da Silva, que era o chefe de governo nessa altura, e Bernardino Machado, que era o presidente da República, tinham entregue os seus poderes a Mendes Cabeçadas. Portanto, Gomes da Costa tem de negociar em Sacavém com Mendes Cabeçadas. É o acordo de Sacavém. Reparem quem são estes oficiais. Já falei de Gomes da Costa, mas Mendes Cabeçadas tinha sido um dos jovens oficiais da Marinha da Revolução Republicana de 5 de outubro de 1910Tinha sido um dos jovens. Carmona tinha sido ministro de um governo republicano. Os dois eram maçons. Todos tinham esta ideia de que era preciso mudar. A República tinha de ser através da instalação de um governo militar.
E não para regressar à ditadura.
Não, todos são republicanos. Isto é um movimento de republicanos. Gomes da Costa é republicano, Mendes Cabeçadas é republicano, Carmona é republicano. O Parlamento é fechado, o governo e o presidente da República são demitidos, ou demitem-se, ou entregam os poderes a Mendes Cabeçadas em Lisboa. O Parlamento é fechado. Em breve aparece, ao princípio não, mas depois aparece censura militar à imprensa. Já tinha havido vários períodos de censura militar antes de 1926, era uma questão de hábito. Em períodos de agitação, havia regime de censura durante a Primeira República, os jornais apareciam com os espaços em branco, as notícias eram cortadas e era deixado o espaço em branco. Depois, sob o Estado Novo, isso é proibido, todos os espaços têm de ser preenchidos, mas durante a censura republicana percebe-se onde é que tinha sido cortado, havia os espaços dos cortes. Mas qual é a ideia geral no fim de maio de 1926, princípio de junho? É a ideia de que vamos entrar numa época de intervalo do sistema parlamentar. Não vai haver Parlamento durante um tempo, vai haver um governo que vai tentar resolver problemas, apoiado nas Forças Armadas, problemas como o problema financeiro e outros. E a expectativa geral é que quando esses problemas estiverem resolvidos, retoma-se a vida normal. Isto é, com partidos políticos, debates parlamentares, eleições. Aliás, os partidos políticos não são proibidos em 1926, ficam todos na expectativa do que vai acontecer. Ninguém resiste à ditadura, não há resistência à esquerda nem à direita. Toda a gente fica à espera. E muita gente, claro, aqueles que tinham sido excluídos do poder, marginalizados e perseguidos durante os governos do PRP, obviamente colam-se imediatamente à nova situação. Católicos, monárquicos, a direita republicana, até os socialistas, toda a gente tenta imediatamente colar. Mas mesmo os sindicalistas e os esquerdistas, os Jasminhos dos Santos, festejam também a queda de António Maria da Silva. O que interessa é acabar com António Maria da Silva. Ótimo! Há relatos dos adeptos da esquerda radical dos Jasminhos dos Santos a festejar o 28 de maio na Baixa de Lisboa. Por quê? Porque tinham derrubado finalmente o seu adversário, António Maria da Silva. Agora, o próprio António Maria da Silva também não está historicamente preocupado. Ele acha que isto vai ser um intervalo. Ele até está a precisar de férias, ele diz: "Estou a precisar de férias. Vai ser um intervalo e depois vai seguir."
Estava a precisar de férias.
E daí esta unanimidade em junho de 1926, quando finalmente Gomes da Costa entra em Lisboa no dia 6 de junho de 1926. Ele entra a cavalo, com a espada desembainhada, aquele homem enorme montado a cavalo, com todos os outros oficiais ao lado, a multidão na rua a aplaudi-lo, entusiasmo enorme. A ideia de que muito bem, vamos recomeçar, isto vai recomeçar outra vez, vai se resolver os problemas que até agora não se tinham resolvido. É aquele momento em que muita coisa aconteceu, mas tudo ainda está para acontecer. Nada está decidido verdadeiramente. Esse é que é o ponto de 28 de maio de 1926. Fechou uma época, mas deixou tudo em aberto e portanto tudo era possível e toda a gente ficou à espera, cheio de expectativas e de ilusões.
Muito bem, parece-me um belo ponto para nós retomarmos na próxima semana com a segunda parte desta história. Até lá.
E o resto é história. É pena que o mar. 204 ainda na zona das Charnecas. Quer transformar este país militarmente. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.