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As armas e os barcos...
E o resto é história.
É apenas fumaça.
Do incêndio e poeira ainda na zona dos Chiados.
Enquanto há um filho, falo por gosto. É que o pai, vinho vermelho, troco de corpo, pouco de amor. Quer transformar este país numa ditadura.
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, sejam bem-vindos a este episódio número 99 de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Portanto, é já na próxima semana que vamos celebrar o 100º episódio de "E o Resto é História" e esse programa 100, como já aqui dissemos, será inteiramente dedicado à história alternativa ou contrafactual: e se Dom Sebastião não tivesse morrido em Alcácer-Quibir? Portanto, se quiser participar, tem ainda alguns dias para enviar perguntas do gênero "e se" para o mail habitual historia@observador.pt. Mas apresse, está bem? Está quase a fechar. Mas enquanto o programa 100 não chega, Rui, hoje vamos falar de uma importante conferência, que não a do Melo. Esta conferência ou conferências têm 150 anos e ficaram para a história como as Conferências do Casino. Elas decorreram em Lisboa entre 22 de março e 26 de junho de 1871, no Casino Lisbonense, daí o nome, e reuniram algumas das melhores cabeças de então, como Antero de Quental, Eça de Queiroz ou Oliveira Martins, todos eles jovens ainda na casa dos 20 anos e que ficariam conhecidos como a geração de 70. Rui, o que é que foram as Conferências do Casino e por que ainda hoje, 150 anos depois, estamos aqui a falar nelas?
Estamos a falar nelas porque ainda continuamos a ler alguns dos escritores que apareceram nessas conferências em maio e junho de 1871. Ainda lemos Eça de Queiroz e Antero de Quental na escola secundária, fazem parte daquela parte da literatura portuguesa que é ensinada a esse nível de ensino. E também penso que uma grande parte das pessoas terá ouvido falar de Oliveira Martins. Oliveira Martins escreveu a História de Portugal, que não sendo um manual, terá sido talvez a história de Portugal mais lida nos últimos 200 anos.
Da qual tu és um grande admirador.
Sou um grande admirador do Oliveira Martins, tal como do Eça de Queiroz e do Antero de Quental. Também temos neste grupo, desta geração, Teófilo Braga, que foi presidente da República, Ramalho Ortigão, que escreveu as Farpas com Eça de Queiroz e depois prosseguiu sozinho, ou mesmo Guerra Junqueiro, que há 100 anos era o mais célebre poeta português, o autor da Velhice do Padre Eterno. Muita gente conhecia de cor alguns dos poemas, como o Melro, etc. Bem, na primavera de 1871, eles organizaram estas conferências em Lisboa, no Casino Lisbonense. Falaram: o Antero de Quental fez uma primeira conferência a apresentar as conferências. Depois, a segunda conferência foi também feita por Antero de Quental, sobre as causas da decadência dos povos peninsulares.
Já vamos falar disso aqui.
Já vamos falar disso. Depois, um amigo, também um membro desta geração, amigo deles, o Augusto Romão, falou sobre a literatura portuguesa. Depois aparece Eça de Queiroz a falar sobre o realismo na literatura, o gênero de ficção que ele próprio iria praticar nessa década de 70. Adolfo Coelho a falar sobre a questão do ensino e ia falar Salomão Saraga sobre os historiadores críticos de Jesus, quando o governo proibiu as conferências. E portanto, Saraga já não falou sobre estes críticos de Jesus. Também não falaram Jaime Batalha Reis sobre o socialismo, não falou outra vez Antero de Quental, que ia falar sobre a República, não falou outra vez Adolfo Coelho, que ia falar sobre instrução primária, e também não falou Augusto Fuschini, que ia falar sobre a ideia democrática. Portanto, o que nos interessa talvez aqui saber é o que eles pretendiam com estas conferências e por que as conferências foram proibidas e os fizeram famosos.
A proibição ajudou também. Diga isto tu.
Eu diria que na altura, em 1871, a proibição ajudou-os a tornarem-se tema de toda a imprensa lisboeta, que escreveu editoriais, artigos sobre a proibição, discutiu-se a proibição até no Parlamento e, portanto, foi um caso e eles puderam, obviamente, beneficiar dessa publicidade. Enfim, já não era a primeira vez que eles tinham esta publicidade. Nós chamamos-lhe a geração de 70 e eles, de facto, não nasceram todos no mesmo ano, nem tiveram todos exatamente o mesmo percurso, nem sequer foram sempre amigos uns dos outros. O Antero de Quental e o Teófilo Braga, por exemplo, detestavam-se um ao outro de morte. Há notas conhecidas sobre isso. Nos anos 20, o Teófilo Braga foi um dos últimos a morrer desta geração. E os jornalistas, obviamente, quando os nomes de Eça de Queiroz, Antero de Quental, Oliveira Martins já eram o que são hoje, ou talvez ainda mais do que eram hoje, nos anos a seguir à Primeira Guerra Mundial, portanto, eram já considerados dos grandes escritores, acudiam a Teófilo Braga a perguntar-lhe como é que eles eram, o que é que eles eram, etc. E Teófilo Braga era sempre horrível acerca dos seus amigos. Quer dizer, há um jornalista que lhe pergunta: "Bem, o senhor foi contemporâneo do Antero de Quental?" Ele diz: "Sim, fui contemporâneo do Antero de Quental, mas também fui contemporâneo do José do Telhado", que era um assaltante, um bandido. Isto era Teófilo Braga. Portanto, eles nem foram sempre amigos, mas de facto faziam uma geração Nasceram mais ou menos à volta da década de 1840, ou seja, depois das guerras civis e da implantação do regime liberal em Portugal, que acontece na década de 20 e 30 do século XIX. Eles nascem quando a monarquia já é constitucional, quando os liberais já mandam em Portugal, quando já há um sistema representativo com eleições, há liberdade de imprensa, há até casamento civil depois da aprovação do Código Civil, isto é, é possível casar sem ser pela igreja católica, e também quando os governos liberais estão a dotar o país de infraestruturas modernas de comunicação e transporte. Aliás, como acontecia no resto da Europa. Portanto, esta foi a primeira geração. A geração deles foi a primeira em Portugal a crescer com comboios e com telégrafos, o que quer dizer que foi também a primeira que teve quase acesso imediato às notícias do resto do mundo. Isto é, havia uma guerra na Europa, sabia-se no minuto em que estava a acontecer a guerra e não uma semana depois.
Mas tu estás a descrever uma era de progresso e não era bem o tom das conferências do Casino, digo isso.
E vamos explicar por que não era. Porque estes escritores que estão a beneficiar de tudo aquilo que aconteceu nas primeiras décadas do século XIX, a implantação do regime liberal, e agora o desenvolvimento do país com todos estes novos meios de transporte e de comunicação, eles aparecem em público e aparecem nas conferências de 1871 como uma geração de críticos, de dissidentes da situação em que o país está. Eles não vêm cantar o progresso feito, vêm protestar contra-
O atraso
...o atraso, contra o obscurantismo. Isso já não era a primeira vez que eles tinham se manifestado com esta irreverência e com esta iconoclastia. Já tinha havido uma questão literária anterior, em 1865, a famosa Questão Coimbrã, de que eles tinham sido os protagonistas, tinha sido uma espécie de ataque contra um escritor que na altura era uma espécie de grande representante daquilo que se poderia chamar de literatura oficial, aliás, que eles diziam literatura oficial. Era o escritor consagrado António Feliciano Castilho. E todos estes rapazes o atacaram fortemente nessa polêmica e foi aí que adquiriram aquela reputação de irreverência, de iconoclastia, que em 1871 confirmam. Digamos que não é uma surpresa aquilo que eles vêm a fazer em 1871. E reparem que isto não é gente que venha de qualquer grupo excluído. A maior parte deles faz parte de famílias da classe média que estão bem instaladas no regime. O pai do Eça de Queiroz é um juiz, o avô do Oliveira Martins tinha sido ministro. Uma parte deles tinha frequentado a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, como o Eça de Queiroz, o Antero, o Teófilo Braga. Isso queria dizer que frequentar a Faculdade de Direito era ir para as carreiras oficiais, era uma espécie de acesso à nova aristocracia burocrática do regime liberal. Era esse o caminho que em princípio eles iriam seguir e de facto o Eça tornou-se funcionário público, o Teófilo também é funcionário público, o Ramalho Ortigão também é funcionário público. Não estamos a falar de gente dos descamisados, tipo escritores malditos, que nas margens do sistema estão a agitar. Não, isto são rapazes das boas famílias e vocacionados para vir um dia a mandar.
Até porque no século XIX ser funcionário público não tinha o mesmo estatuto que tem hoje em dia. Não estamos a falar da mesma coisa, é só pra tu dizeres. Tu estás a utilizar a expressão funcionário público de uma maneira quase aristocrata.
E era um bocadinho. Um empregado público era alguém que fazia parte do poder e não apenas um auxiliar das operações da administração. Ora bem, eu tinha dito, eles tinham crescido nesta época de paz, de prosperidade, de progresso, e como é que nós podemos explicar pelas circunstâncias esta atitude crítica deles? Há três coisas. Primeiro é que três anos antes das conferências, em 1861, esta época de prosperidade em Portugal tinha sido interrompida por uma grande crise financeira. Esta grande crise financeira provoca, eu acho que podia dizer-se a queda da classe política estabelecida através da Revolução de janeiro de 1868, do primeiro de janeiro de 1868, que dá um jornal, o Primeiro de Janeiro, que vinha precisamente comemorar esse momento em que grande contestação contra os aumentos de impostos tinha provocado a queda do governo. Tinha sido quase uma revolução, a Janeirinha, como ficou conhecida. E entra-se numa fase, a partir de 1868, de grande debate e de crítica do regime liberal, em que de repente começa muita gente a manifestar dúvidas e ceticismo em relação àquilo que o regime verdadeiramente conseguiu. O Estado não parece viável, as eleições não parecem genuínas, a escolarização não foi conseguida, embora tivesse sido prometida desde os anos 30. Há um enfoque novo, nota-se na imprensa, nota-se nos debates parlamentares, nas falhas do regime e não no crédito, isto é, naquilo que o regime conseguiu até então. Esta geração de 70 faz parte deste ambiente de crítica, de dúvida, de ceticismo. Depois, há também convulsões na Europa nesta época. Esta é a época em que são proclamadas repúblicas em França, em 1870, e depois será proclamada também uma república em Espanha mais tarde, mas em 1868 também tinha havido uma revolução em Espanha que tinha provocado a queda dos Bourbons. Mais importante talvez do que essas repúblicas, aquilo que se chamava a balança da Europa, isto é, o equilíbrio entre as grandes potências europeias, tinha-se alterado com a unificação da Itália, mas sobretudo com a unificação da Alemanha em 1870, 71, depois da guerra com a França, e de repente aparece a Alemanha como uma nova potência, aliás, a maior potência militar do continente. Tudo se altera na Europa e sente-se na Europa aquela ideia de que as coisas não só se alteraram, mas vão continuar a alterar-se. Outras coisas podem acontecer. E tal como a Alemanha se unificou, tal como a península itálica se unificou, há quem pense que talvez tenha chegado a altura de unificar também a península ibérica. Isto é, que estes novos equilíbrios de poder podem levar a um novo arranjo de Estados na península ibérica. E, por exemplo, Antero de Quental, em 1861, tinha feito um manifesto em que tinha manifestado a ideia de que se provavelmente para mudar Portugal, para reformar Portugal, isso só seria possível no contexto de uma confederação ibérica e não no contexto do Estado português independente como tinha existido até então. Portanto, esta sensação de que as coisas podem não ficar como estavam, até mesmo em termos das comunidades políticas nacionais que existiam então na Europa e em certa medida em Portugal. Portanto, eles não veem a nação como assegurada. E em terceiro lugar, há também uma mudança de modas literárias, de perspectivas intelectuais. Acho que tem três marcos que são importantes até para perceber diretamente as conferências. É o advento do realismo, da ficção realista com Gustave Flaubert, a "Madame Bovary" é de 1856, 15 anos antes das conferências do Casino. Há a crítica histórica do cristianismo, isto é, o tratar as narrativas cristãs como objeto de história científica e não como matéria de fé. Há vários autores a fazer isso na Europa, mas talvez o mais importante no que diz respeito às leituras da geração de 70, seja o francês Ernest Renan, a sua "Vida de Jesus" é de 1863, portanto oito anos antes das conferências. Provavelmente era sobre estes autores que iria falar o Salomão Sarago, os historiadores críticos de Jesus, isto é, aqueles que tinham examinado os evangelhos como fontes históricas, portanto, ver o que é que poderia ser aceito a partir de uma crítica racional ou não. O Ernest Renan faz isso.
E tinha Darwin, não é?
E finalmente temos este novo materialismo científico, inspirado pelas teorias da evolução desenvolvidas a seguir a Darwin, e "A Origem das Espécies" é de 1859, 12 anos antes das conferências. Portanto, isto é tudo novidades e são estas novidades que estes jovens autores querem representar em Portugal contra as gerações mais velhas, gerações que ainda são românticas e gerações que ainda seguem uma espécie de espiritualismo cristão. Eles são materialistas, eles são realistas na literatura, materialistas na ciência e críticos do cristianismo, digamos.
Certo, ou seja, o progresso técnico não vinha acompanhado, digamos assim, por um progresso de mentalidades, e era esse progresso de mentalidades que estes jovens desejavam, não é?
Essa é a grande ideia das conferências. Para eles, o problema em Portugal é que tinha havido uma revolução, eles não negam que tenha havido uma revolução, a revolução liberal, no fim da guerra civil em 1834, com mudanças institucionais e culturais que destruíram a antiga cultura dinástica e católica. Mas o que eles dizem é que a destruição da cultura dinástica e católica pelos liberais tinha apenas deixado um vazio na medida em que os liberais não tinham, a partir daí, construído uma nova cultura. Isto é, tinham mantido a monarquia e tinham mantido o catolicismo como igreja oficial. Isto é, tinham se limitado a chegar a uma espécie de compromisso, um meio-termo com as antigas formas culturais e políticas herdadas do passado, a monarquia e o catolicismo, e não tinham construído, não tinham avançado para uma nova fase, que seria a de uma, implicitamente, a de uma república e de uma cultura secular baseada na ciência. Aquilo que eles acreditam, e isso tem a ver com movimentos também intelectuais na Europa, é que é necessária essa nova cultura, porque o que esta geração não acredita é que a pluralidade de perspectivas e a discussão livre sejam suficientes só por si para manter uma vida coletiva saudável e coesa. Eles acham que a coesão social, que até o ânimo, o entusiasmo para fazer coisas dependem de uma cultura homogênea e que essa cultura homogênea era a cultura católica antes da revolução liberal e agora deve ser uma outra cultura que é uma cultura científica. E que, portanto, se devia avançar para essa cultura científica.
Isto que tu estás a dizer é um bocadinho surpreendente, no sentido em que nós consideramos que a juventude, geralmente, quer desordenar as coisas. E tu aqui estás a dizer que aquela juventude cria ordem, é isso?
Eles querem desordenar o que está, que é esta ordem liberal baseada neste pacto com as antigas formas culturais e políticas da monarquia e do catolicismo. Eles querem desordenar isso para reconstruírem Uma nova ordem, na medida em que pensam que sem essa ordem as pessoas coletivamente não serão felizes, a sociedade não funcionará bem. Portanto, é preciso uma nova cultura. Essa nova cultura deve ser atingida por uma rutura com o passado, isto é, com a dinastia, com o catolicismo e uma nova cultura. É precisamente quando eles vão examinar este lado do catolicismo que o governo intervém para proibir as conferências por ofensa à religião do Estado. E isto é interessante, porque as conferências são proibidas por um governo da esquerda liberal, não por um governo católico nem conservador. É um governo da esquerda liberal. O que é que o governo está a tentar zelar? Não está a zelar pela religião católica, isso é um bocadinho indiferente para eles. Está a zelar pelas instituições do Estado. Para os liberais, o catolicismo é uma instituição do Estado. Não lhes interessa a verdade da religião católica, interessa-lhes a religião católica como uma forma de coesão e disciplina social. E é isso que o governo sente que deve proteger. Isto é, o respeito pelas instituições. É uma instituição que eles estão a defender.
Muito bem, a mim cabe-me zelar também pelo tempo e o tempo desta primeira parte já voou. Nós voltamos já a seguir com mais conferências do Casino. Até lá. Olá, sejam bem-vindos então a esta segunda parte do episódio número 99 de "E o Resto é História". Nós estamos em plenas conferências do Casino, 1871, há 150 anos. Estávamos a falar de dissolução espiritual, que é sempre um bom tema, não é?
Exatamente. Estamos a falar do motivo pelo qual o governo, em 1871, proibiu as conferências do Casino. E proibiu-as para proteger uma instituição do Estado, que era a religião católica e a Igreja Católica. Estávamos a chamar a atenção para a perceção que os liberais têm deste catolicismo. Eles não o entendem necessariamente como a verdadeira religião, mas entendem-na como uma religião civil, como uma religião do Estado, uma forma de coesão e disciplina social. A propósito, há uma história interessante que se passa com o deputado José Estevão, que morre no princípio da década de 1860, tem agora uma estátua ao pé da Assembleia da República, é o José Estevão que está lá, é o maior orador parlamentar da história portuguesa, foi esta a reputação que deixou. E o José Estevão era também, em determinado momento, grão-mestre da maçonaria. Toda a gente sabia que ele era grão-mestre da maçonaria, não era segredo. E provocatoriamente foi-lhe perguntado se ele era católico. E ele deu esta resposta, que é uma resposta bastante hábil. Ele diz: "Enquanto cidadão português, era católico." O que ele queria dizer com isto? Dava a entender que não acreditava, mas que respeitava o catolicismo como mais uma lei do Estado. O catolicismo é a lei do Estado, ele era católico porque o Estado era católico, ele era cidadão português, logo era católico. Ora bem, aí está a ideia de que os liberais, de uma certa maneira, também consideravam que uma nova cultura era necessária, mas só que não achavam viável substituir o catolicismo num país ainda analfabeto, rural, em que a maioria das pessoas era católica. Interessou-lhes mais dominar o catolicismo, dominar a Igreja. Mantiveram a Igreja como a Igreja do Estado. Isso queria dizer que a maior parte dos bispos e do clero era nomeada pelo Ministério dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça, portanto, o Ministério da Justiça era também dos Negócios Eclesiásticos, o que quer dizer que eram estes ministros maçons, como o José Estevão, quem decidia quais eram os bispos, quais eram os padres. Portanto, parecia-lhes muito melhor dominar desta maneira do que impor uma nova crença coletiva, uma nova religião. Ora bem, os jovens da geração de 70 achavam que não era possível manter esta situação de meio-termo ambígua, que favorecia a hipocrisia, favorecia uma falsidade, quer dizer, um certo artificialismo, que é aquilo que se ler os romances de Eça de Queiroz, é isso que vão encontrar, aqueles padres que não levam a sério a religião em que oficiam. E é dessa maneira que eles acabam por ter também impacto público, porque eles de alguma maneira correspondem à dúvida que dentro da classe política liberal, classe política dominante, também existe em relação a estas instituições do passado, quer a monarquia, quer a Igreja. Eles têm uma dúvida, isto é, eles acham que não podemos dispensar a monarquia porque estamos numa Europa monárquica e uma república portuguesa pequenina provavelmente não conseguirá subsistir. Não podemos dispensar o catolicismo porque estamos no meio de uma população toda católica e analfabeta e portanto vai receber com estranheza se de repente o Estado assumir uma atitude diferente, mas nem por isso estamos confortáveis com isto. E portanto, estes jovens, em 1871, o que vêm é lembrar aos seus pais e avós: vocês também não acreditam nisto, mas continuam a manter esta farsa quando deviam era tentar reorganizar o país. E isto, claro, naquele ambiente de crise de 1861, 71, grande crise financeira, e também de agitação internacional que faz ter dúvidas sobre o destino do país. Portanto, eu creio que isso Isto pode explicar o impacto imediato deste grupo de jovens, desta geração chamada depois de geração de 70, em 1871, salvaguardando o fato que o impacto a longo prazo tem a ver com o talento de cada um deles. Eça de Queiroz, Antero de Quental, Oliveira Martins são dos maiores escritores que alguma vez houve em língua portuguesa e isso talvez não cabe à história explicar exatamente como é que isso aconteceu.
Olha, ainda a propósito das conferências do Casino, a segunda conferência ocorreu a 27 de maio de 1871, fez há dias os tais 150 anos, e ela foi inaugurada com um famosíssimo texto de Antero de Quental chamado "Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos". Aliás, um texto que ainda é editado hoje em dia e facilmente encontrável nas livrarias. E nessa intervenção, Antero de Quental procura analisar as razões do atraso português e espanhol a partir do século XVII, com a esperança de que ao detectar os erros do passado, eles não fossem repetidos no futuro. Rui, por que esse texto foi tão marcante na altura? Por que ele continua a ser editado, como disse, até os dias de hoje? E já agora, então, quais são essas causas da decadência dos povos peninsulares que o Antero de Quental detectou?
O texto da conferência do Antero, a primeira coisa que devemos dizer em relação a esse texto é que está muito bem escrito e é muito engenhoso. Ninguém, provavelmente, na época escrevia melhor prosa em Portugal do que o Antero de Quental. Ele próprio, aliás, sem falsas modéstias, dizia isso. Isto é, dizia: "Tenho o dom da prosa portuguesa" e tinha mesmo o dom da prosa portuguesa. Além de ser um grande poeta, era também um grande escritor. Agora, o que ele fez melhor do que ninguém, e talvez seja isso a causa da popularidade do texto do Antero de Quental, é que ele faz uma súmula da consciência crítica que os liberais no século XIX têm do país e do passado do país. O que está mal em Portugal? Ele faz uma ótima síntese disso tudo. Dá uma forma definitiva, literariamente, conceptualmente, a essa crítica que os liberais, que tomaram o poder em 1834 e que governam o país no século XIX, a atitude crítica que eles têm para com o passado e com a cultura do país que governam. E já falamos um bocadinho disso quando falamos das conferências em geral. Agora vamos falar dessa consciência crítica. Essa consciência crítica liberal tem várias fontes, entre elas a propaganda do protestantismo contra o catolicismo nos séculos XVII e XVIII, que é também uma propaganda dos países do norte da Europa contra os países do sul. E que é absorvida nos países do sul como uma autocrítica também, torna-se a partir de um determinado momento uma autocrítica. Depois, as ideologias igualitaristas dos revolucionários franceses do século XVIII, isto é, os valores que inspiraram a Revolução Francesa de 1789. E finalmente, já do século XIX, a crítica liberal do centralismo estatal que é desenvolvida sobretudo em França e de que Alexandre Herculano em Portugal tinha sido o principal promotor em Portugal. Está associado a autores como Alexis de Tocqueville, que Herculano de alguma maneira projeta no passado português, esta crítica ao centralismo do Estado.
Contra o municipalismo.
Agora, o que quer Antero de Quental? Antero de Quental quer explicar por que Portugal e Espanha, porque isto são os povos peninsulares, depois de uma suposta Idade de Ouro no século XVI, que coincide com o domínio português do Índico, com a conquista espanhola das Américas, por que Portugal e Espanha, depois deste século XVI, teriam entrado em decadência nos séculos XVII e XVIII? Dizendo ele, Antero de Quental, ele não faz a demonstração da decadência, limita-se a dá-la. Fala dela, descreve-a, mas como um facto que toda a gente aceitará. Toda a gente aceita que Portugal e Espanha estão decadentes. E identifica três causas: uma causa moral, uma causa política e uma causa económica. A causa moral seria o catolicismo da Contrarreforma. Isto é, o catolicismo na forma que assumiu em reação à Reforma Protestante do século XVI. A Contrarreforma, portanto. Essa seria a causa moral. Depois, uma causa política, que seria a monarquia centralizada, a centralização monárquica. E a causa económica, que seria a expansão ultramarina. E então qual é o efeito destas causas? O catolicismo da Contrarreforma teria posto termo à liberdade de discussão e impedido o acesso à nova informação em Portugal. Portanto, esta é a causa moral. Por moral, está a referir-se também a intelectual, científica. A causa política, a monarquia centralizada. A monarquia centralizada teria limitado a autonomia que as comunidades locais, os conselhos, os municípios, teriam tido na Idade Média. Teria limitado a liberdade das populações se organizarem e tomarem iniciativas. E teria também imposto uma hierarquia social a favor da nobreza e dos fidalgos, e não das classes produtivas, da classe média. Ele diz classe média. Portanto, isto seriam os efeitos desta causa política da monarquia centralizada. E finalmente, haveria esta causa económica da decadência: a expansão ultramarina, que, segundo Antero de Quental, teria desabituado os portugueses e os espanhóis da indústria, do trabalho produtivo, isto é, teriam se habituado a viver de saques e de exploração.
Dour do Brasil, como se costuma dizer.
Portanto, estas seriam as causas pela qual Portugal e Espanha se teriam atrasado e não eram, no século XIX, tão ricos e tão poderosos como a Grã-Bretanha, como a Alemanha e como os países do norte da Europa em geral. Repito, isto é uma súmula, é uma síntese da visão crítica que havia na cultura liberal do passado português e é imediatamente adaptada, editada e reeditada a partir do momento em que Antero de Quental lhe dá esta forma quase definitiva.
Parece um resumo plausível.
É. No entanto, tem um problema. É que provavelmente não tem qualquer fundamento. Aliás, o que já poderia ter sido dito na época em que Antero de Quental escrevia. Porque vamos lá ver, se estes fatores, se estas causas: causa moral, catolicismo da Contrarreforma, causa política, a monarquia centralizada e causa econômica, a expansão ultramarina, se estas causas são fatores de atraso, de decadência, no caso da Península Ibérica, deveriam também ter sido causas de atraso e de decadência noutras partes da Europa onde esses fatores podem ser identificados. Isto é, onde há esses fatores, também deveria ter havido decadência para provar que estes fatores são, de facto, as causas da decadência. Ora bem, o que é que nós vemos? A Grã-Bretanha tinha um dos maiores impérios ultramarinos no século XVIII e XIX e tinha a maior base industrial moderna. Aliás, o próprio Antero de Quental nota isso, mas não explica depois por que a expansão ultramarina, no caso de Portugal e Espanha, criou este hábito de não trabalhar, e por que é que no caso da Grã-Bretanha não teve modo nenhum esse efeito. A Grã-Bretanha e a Alemanha eram também países onde uma grande aristocracia de proprietários fidalgos dominava completamente a política, isto é, uma grande aristocracia terra-tenente, os Junkers prussianos, a grande aristocracia inglesa, que durou até ao século XX, os Junkers prussianos também vêm até ao século XX. E não é por isso que não têm grandes classes médias e não são potências industriais na Europa do século XIX. A França, tal como Tocqueville tinha explicado, também tinha sido talvez um dos países, ou mesmo o país com a monarquia mais centralizada da Europa, e não era por causa disso que era pobre e atrasada. E finalmente, algumas das regiões mais ricas da Europa correspondiam a regiões onde a Contrarreforma Católica tinha sido mais intensa. Por exemplo, a Bélgica, o sul da Alemanha ou a Áustria. A Bélgica, aliás, é um pequeno país que se torna uma grande potência industrial no século XIX e é um país católico, profundamente católico, é os Países Baixos católicos, portanto, estava um catolicismo muito intenso, porque é um catolicismo de fronteira com a reforma protestante, com a atual Holanda, os Países Baixos estão divididos entre Holanda e Bélgica, precisamente pela divisão religiosa. A Bélgica é também um país que a partir da década de 70 do século XIX é governado por um partido católico, portanto, é um país totalmente clerical, quase, e é uma das maiores potências industriais da Europa.
Se calhar tinhas que acumular as três causas.
Agora, há um outro raciocínio que nos levaria a ter desconfiança dessas causas, que era a história de Portugal no tempo de Antero de Quental. A partir de 1834 e durante quase 100 anos, Portugal foi governado por liberais. A partir de 1834, todos os governos são liberais até 1910 e a partir de 1910, por republicanos. Portanto, todos anticlericais, mesmo os liberais já eram muito pouco dinásticos e todos, aliás, com ideologias de municipalismo e descentralização e de coisas dessas.
Certo.
Além disso, Portugal em 1822 tinha perdido a colônia do Brasil e as colônias africanas nunca tinham tido a importância que tinha tido o Brasil antes de 1822. Portanto, nós temos que as causas da decadência dos povos peninsulares em Portugal, a partir de 1834, tinham deixado de ser causas vivas, fatores vivos. Isto é, o catolicismo já não tem a força que tinha, a monarquia é abolida em 1910 e mesmo antes já está constitucionalizada e as colônias, a expansão ultramarina não tinha resultado. Portanto, digamos que o país se tinha transformado e que as causas da decadência tinham ficado para trás. Ora bem, o que é que acontece neste período, e vamos dar 100 anos, que é para não dizer que logo a seguir, obviamente, não teria efeito, mas 100 anos. Portanto, no princípio do século XX, Portugal já teria sido completamente diferente, isto é, já teria se libertado da sua decadência em que estava no princípio do século XIX, uma vez que tinham sido removidas as causas da decadência, segundo Antero de Quental. E o que é que tinha acontecido? Portugal era um dos países mais pobres e atrasados da Europa. E agora poderia se dizer que talvez o atraso tivesse sido tão grande que não fosse fácil recuperar esse atraso em 100 anos, tivesse sido possível em mais tempo. Ora bem, mas mesmo esse argumento, a historiografia atual está a desmontar, porque nós hoje temos sinais, temos indicações de que Portugal, no princípio do século XX, depois desses 100 anos de liberalismo e de republicanismo, era um país muito mais pobre e atrasado, não apenas em relação aos outros países europeus, mas era mais pobre e atrasado em termos relativos do que tinha sido no século XVIII, em relação a outros países europeus. Isto é, no tempo do Império Brasileiro, da monarquia absoluta e da Inquisição, Portugal era, em relação aos outros países europeus, menos atrasado do que viria a ser no século XX, depois de 100 anos de liberalismo e de republicanismo. Portanto, qual é que é a lição a tirar disto? Talvez a de que temos de ter cuidado com estes diagnósticos culturais como os que Antero fez para a decadência do país.
Rui, mas eu agora imagino toda a gente lá em casa. Eu sei que isto é um programa de História, mas então quais é que são as causas do atraso dos povos peninsulares? Onde é que está essa tua conferência do casino, Rui? Estamos à espera dela.
Havemos de tratar dessa conferência do casino numa próxima ocasião.
Bom, olha, então avancemos para a Legião Estrangeira. Nos últimos tempos, nós temos falado muito de França, a propósito de Napoleão e também da Guerra da Argélia, e a certa altura tu referiste a Legião Estrangeira, que é provavelmente a mais mítica força de elite ao serviço de um país composta por soldados que não são originários desse país. E eu fiquei com muita vontade de saber mais sobre isso, até porque de certa forma a Legião Estrangeira dá uma dimensão romântica a algo de que já falámos aqui muitas vezes: soldados profissionais que ao longo dos séculos sempre colocaram as suas armas ao serviço de quem lhes pagava, às vezes lutando até contra os seus países de origem, como aqui já referimos. Consegues contar-nos brevemente um pouco dessa história da Legião Estrangeira, Rui, que ao fim de quase dois séculos continua a ser a unidade mais famosa do exército francês?
Podemos começar por falar de um mundo muito diferente daquele a que nós nos habituámos. Nos séculos 19 e 20, os exércitos europeus tornaram-se exércitos nacionais, assentes no serviço militar obrigatório. Portanto, o soldado é um cidadão em armas. Agora, antes do século 19 não era assim. Antes do século 19, os exércitos eram formados por uma parte de soldados recrutados para longos períodos, portanto, 8, 9, 10, 11, 12, 20 anos, e por soldados profissionais. E estes soldados profissionais nem sempre tinham a nacionalidade dos Estados que serviam. Até se podia dizer que alguns Estados europeus nem sequer tinham, não correspondiam sequer a uma nacionalidade só. O império dos imperadores da Áustria-Hungria não era propriamente um império feito de uma nacionalidade, tinha várias nacionalidades. Mas mesmo nestes Estados multinacionais, por vezes, havia corpos militares que eram originários de países exteriores. Quase todos os exércitos dos Estados europeus antes do século 19 tinham componentes que hoje nós chamaríamos de mercenários, mas que talvez não fosse bem exatamente a ideia, mas digamos que eram soldados profissionais recrutados em regiões da Europa que eram especializadas, às vezes até, em produzir esse género de soldados profissionais. Por exemplo, a Suíça. Uma das indústrias da Suíça, antes do queijo e dos relógios e da banca e das farmácias, era os soldados. A guarda suíça do Papa ainda vem daí. O Estado do Vaticano tinha um exército suíço, mas não era só o Estado do Vaticano. A França também tinha guardas suíças, eram as principais guardas, aliás, do rei de França. E depois o exército de Napoleão, no princípio do século 19, ainda é um exército multinacional. Tem, inclusivamente, uma legião lusitana composta por soldados recrutados em 1808 em Portugal, que tem o comando do general Marquês da Lorna. Depois, no século 19, quando as potências europeias se expandem na África, na Ásia, os seus exércitos, os exércitos europeus, tendem a dotar-se de corpos de tropas nativas, portanto, mais corpos militares com uma origem não nacional nestes exércitos. É o caso da Espanha com as suas tropas marroquinas, as forças regulares indígenas de 1911, que têm, aliás, um grande papel na Guerra Civil de Espanha em 1936, 39, as tropas mouras do general Franco, as tropas marroquinas, são as tropas de choque do exército nacionalista durante a Guerra Civil. A Grã-Bretanha tem os batalhões de Gurkhas, que ainda tem. Aliás, é uma coisa interessante, o Nepal nunca fez parte da Índia britânica e portanto é uma espécie de Suíça também onde se ia buscar soldados. A Índia hoje também tem batalhões de Gurkhas, quer dizer, também tem nepaleses que são incorporados, são utilizados como soldados.
Rui, deixa-me só interromper-te aqui, porque o nosso tempo na edição em FM chegou ao fim. Os interessados, como de costume, podem continuar a acompanhar-nos no podcast. Para quem está em FM, até para a semana, os outros continuem conosco. Muito bem, então estávamos nos Gurkhas e como é que se chega então a essa Legião Estrangeira?
A Legião Estrangeira tem a ver com a expansão ultramarina da França. A partir de 1830, a França inicia a conquista da Argélia no norte de África e é em 1831 que é formada a Legião Estrangeira, que recebe os recrutas dos regimentos suíços e alemães do exército francês, que então são extintos, incorporados nessa Legião Estrangeira, que é precisamente um corpo de soldados profissionais vocacionado para servir no norte de África. Aliás, a Legião Estrangeira fica estacionada na Argélia. Inicialmente, os recrutas estão divididos em batalhões nacionais, isto é, um batalhão alemão, um batalhão suíço, mas são 1400 homens, depois mais tarde estes batalhões nacionais são desfeitos, são todos juntos e os números aumentam imenso para 20, 30 mil homens na Argélia. Agora, atenção, tal como os Gurkhas, a Legião Estrangeira não é considerada uma força de mercenários. E isto legalmente, de acordo com o primeiro protocolo da Convenção de Genebra de 1977. Por quê? Porque a Legião Estrangeira, tal como os Gurkhas, são membros das Forças Armadas dos países que os usam. Quer dizer, o mercenário É definido de uma maneira completamente diferente. Um mercenário, de acordo com a Convenção de Genebra, é alguém que é recrutado especificamente pra um determinado conflito.
Certo.
Que combate apenas em vista de um pagamento, que geralmente é um pagamento superior àquele das tropas do país beligerante e que não é membro das Forças Armadas, isto é, não é um membro das Forças Armadas desse país. Ao contrário desta Legião Estrangeira Francesa, eles são membros das Forças Armadas francesas.
E, portanto, têm direito ao mesmo estatuto.
É, por exemplo, têm direito ao estatuto de prisioneiro de guerra, que é uma coisa que os mercenários não têm. A Legião é este corpo de soldados profissionais, recebe gente, ainda hoje, de todas as nacionalidades, qualquer nacionalidade. A pessoa pode se apresentar para servir na Legião, desde que tenha determinadas características físicas.
Se alguém está à procura de emprego lá em casa, já sabe.
E desenvolve uma mística própria, que é aquilo que torna este corpo militar mais ou menos carismático. E por que desenvolve uma mística própria? Precisamente porque não pode apelar à mística patriótica. Isto é, o exército das Forças Armadas regulares, compostas de nacionais do país, pede-se-lhes para lutarem pela pátria. Ora bem, na Legião Estrangeira, há alemães, suíços, ingleses, americanos, espanhóis, gregos, enfim, toda a gente que está na Legião Estrangeira Francesa, não se lhes pede pra combaterem pela pátria francesa, porque não é a pátria deles. Então qual é a pátria deles? A pátria deles é a própria Legião. E por isso é que a Legião tem que desenvolver estas características próprias, diferenciadoras do resto das unidades militares do exército francês, para corresponder a uma identidade forte que faça com que os seus membros se identifiquem com aquela família, aquela unidade. Aquilo é a pátria deles. Os soldados, aliás, não juram lealdade à França, juram lealdade à própria Legião. A pátria é a Legião. E depois têm características próprias. Por exemplo, têm um passo de marcha diferente do exército francês, marcham cadência diferente. Aliás, é mais lenta, por isso são os últimos nas paradas.
Vão ficando pra trás.
Pra não atrasarem o cortejo. E por outro lado, por exemplo, a Legião Estrangeira em França, pressupunha-se que era só para ser usada no exterior, nunca na própria França. Não faria parte do dispositivo militar de defesa do território francês, embora na Primeira Guerra Mundial tivesse acabado por ser usada também, os legionários tivessem acabado por ser usados.
Mas hoje em dia penso que também é só no exterior.
E depois, claro, há toda uma tradição literária e cinematográfica à volta da Legião. Criada, aliás, fora de França, curiosamente. Isto é, nos Estados Unidos, o "Beau Geste", o filme com o Gary Cooper, de 1939, que é baseado numa novela de um escritor inglês. O Hugo Pratt também tem uma série de banda desenhada. E aí cria-se esta ideia da Legião como um destino para pessoas mais ou menos perdidas, desesperadas e que vão para a Legião.
Criminosos, por exemplo.
Onde ninguém pergunta que passado é que tem. Isso seria uma das regras da Legião, a pessoa que aparecia lá, ninguém te pergunta de onde é que vem, o que fez para querer combater aqui, seria aceito. E depois o próprio serviço militar, extraordinariamente duro, extraordinariamente perigoso. Como diz um dos comandantes da Legião Estrangeira em França: "Vocês estão aqui pra morrer e eu vou vos mandar pra onde se morre." Era a cultura da Legião. Este esforço militar extremo é visto como um elemento de redenção. O indivíduo, depois do seu passado de dissipação ou criminoso, na Legião acabaria por salvar-se e tornar-se um herói. No século XX, depois da Segunda Guerra Mundial, a França usa a Legião Estrangeira para combater nas grandes guerras em que a França se envolve na Indochina. A guerra da Indochina, no Vietnã, é uma guerra que é feita por legionários. Cerca de 70 mil legionários serviram na Indochina entre 1950 e 1954. Esse é talvez o momento até que se cria muita mística dos legionários. Eles estão nas piores situações em Dien Bien Phu, quando a base francesa é cercada, quem é que estão lá? As companhias paraquedistas dos legionários, que são enviadas pra lá pra resistir. E nesta época, uma grande parte destes legionários são alemães. E cria-se também a ideia que uma grande parte seriam ex-SS que se teriam inscrito na Legião. A Legião volta a combater na Argélia, na Guerra da Argélia, entre 1954 e 1961, 1962. Mais uma vez as companhias paraquedistas da Legião são fundamentais, são tropas de elite, são as tropas de choque do exército francês. E hoje a Legião ainda continua a ter 10 mil homens e continua a ser usada nas missões externas da França. Por exemplo, intervenções em África contra golpes de Estado ou milícias, casos de milícias islamistas ou coisa assim. São as tropas da Legião que são geralmente enviadas. Não é única da França. A Espanha também teve uma legião estrangeira. Mais uma vez, é literalmente uma cópia da França. A Espanha também tinha colónias no norte de África, também tinha um protetorado em Marrocos, onde havia tribos que se revoltavam constantemente contra a administração espanhola e eles queriam também um corpo de tropas profissionais para combater no norte de África. Chamam o Tércio dos Estrangeiros e que se começa a designar por Legião. O grande problema é que não atrai estrangeiros, portanto a maior parte são espanhóis. Mas ainda hoje existe, com uma mística também própria. Curiosamente, o passo deles também tem um passo de marcha diferente do exército espanhol, mas no caso da Legião em Espanha é mais rápido.
Tem que chegar antes.
É mais rápido. Aliás, agora chama-se Legião Espanhola e mantém apenas da Legião Estrangeira duas características: uma é a mística do corpo, também isto é uma mística corporativa, e o outro, o ser usado sobretudo externamente para missões internacionais no âmbito da NATO ou de outros compromissos do Estado espanhol. Portanto, também tem esta legião, mas não é bem uma legião estrangeira. Portanto, é um corpo de elite. Em França, não, continua a ser uma legião estrangeira, mesmo, um espeto de soldados, em grande parte estrangeiros, que ao fim de cinco anos podem obter a nacionalidade francesa ou no caso de serem feridos, e então também são franceses pelo sangue derramado.
Muito bem, muito bonito. Bom, e assim termina este episódio número 99 de "O Resto é História". Já sabe, se quiser contribuir para a mística deste programa, é aparecer na próxima quarta-feira, porque é o mítico programa 100 de "E o Resto é História" e contamos com a sua presença. Até lá.
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