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E o resto é história.

É apenas fumaça.

Do incêndio em Poá, ainda na zona dos Chiados. Quer transformar este país numa ditadura. Atente.

Não.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a este episódio 299 de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Ao longo destes quase 300 programas e seis anos de vida, já falamos de muitos temas aqui no "O Resto é História", mas curiosamente nós nunca falamos da Guerra Civil Americana, o que é uma falha imperdoável, que vamos tentar corrigir aqui neste programa, quando se assinalam os 160 anos do fim do conflito, que foi oficialmente terminado a 9 de abril de 1865, após quatro longos anos de combates muito violentos. Estima-se que tenham morrido entre 600 e 700 mil americanos na Guerra de Secessão, o que, tendo em conta a população dos Estados Unidos à época, isso representa 2,5% da população. Não sei se têm bem noção, mas isto é uma enormidade. Na Segunda Guerra Mundial, por exemplo, os Estados Unidos perderam cerca de 400 mil homens, mas na altura já havia 130 milhões de americanos e, portanto, isso representava 0,3% da população, ou seja, oito vezes menos do que entre 1861 e 1865, para ficarmos com uma ideia das pessoas que morreram e do impacto que isso causou mesmo na população americana. O ouvinte Luiz Castelo Branco enviou-nos um e-mail sobre este tema e pediu-nos uma explicação sobre a Guerra Civil Norte-Americana e aquilo que depois ficou conhecido como Lost Cause, e que ainda hoje tem muitos adeptos nos Estados Unidos da América, como lembra o nosso ouvinte. E esta Lost Cause, basicamente, é a ideia de que os estados confederados travaram uma luta justa e que o fim da escravidão nunca foi bem o centro do conflito, mas sim um ataque dos estados do Norte ao modo de vida dos estados do Sul. Um dos argumentos dessa Lost Cause é que a escravatura era permitida em alguns estados de fronteira, como Missouri ou Kentucky, que combateram ao lado do Norte. E Rui, esta parte, de facto, é verdade e é capaz de surpreender muitos ouvintes. Houve, efetivamente, estados que eram escravocratas que lutaram contra a coligação confederada. E a minha pergunta era: como é que isso se explica? A escravatura, afinal, foi ou não foi a grande razão para a Guerra Civil Americana? E já agora, sabes como eu gosto de abusar de ti, acrescenta mais isto: os estados confederados alguma vez tiveram alguma hipótese de vencer a guerra ou os meios à disposição dos estados do Norte eram demasiado poderosos?

Vamos complicar um bocado mais a ideia do que se passou. Em setembro de 1862, um ano depois de ter começado a Guerra Civil, o presidente Lincoln proclamou a emancipação dos escravos, mas só nos 11 estados do Sul em rebelião contra os Estados Unidos, e não nos cinco estados esclavagistas, estados que ficavam na fronteira entre o Norte e o Sul, que permaneceram fiéis à União. Ou seja, de acordo com a lei dos Estados Unidos da América, que obviamente não era reconhecida no Sul, em 1863, a escravidão deixou de existir no Sul e passou só a existir no Norte.

Para mostrar como as coisas são complicadas.

Só para dar esta ideia: dois estados da União, o Delaware e o Kentucky, só aboliram a escravidão em dezembro de 1865, ou seja, já depois de acabada a Guerra Civil, com a 13ª emenda à Constituição dos Estados Unidos da América, que erradicou a escravidão de vez dos Estados Unidos. A história é ainda um pouquinho mais complicada do que por vezes parece.

E como é que se explicam essas coisas todas?

A história tem esta tendência para ser sempre mais complexa para quem anda à procura de respostas simples, é tudo sempre mais complexo. O que é que nós podemos dizer aqui? Podemos dizer de uma maneira complicada, mas penso que depois se consegue explicar e permitir compreender o que se passou, é que sim, a escravidão foi a principal questão que separou o Norte e o Sul, mas, ao mesmo tempo, a escravidão não foi a única questão e para muitos dos combatentes do Sul, nem sequer deve ter sido a questão principal. As duas afirmações parecem contraditórias, mas vamos tentar explicar aqui e tentar compreender.

Os defensores da Lost Cause tinham alguma razão?

Alguma, não toda. Muito longe de terem toda, mas alguma razão. Começando pelo princípio, a Constituição dos Estados Unidos do fim do século 18, 1787, tinha declarado os homens livres e iguais, todos os homens livres e iguais, mas tinha deixado continuar a escravidão dos negros nos estados onde ela existia. Ela não existia em todos os estados dos Estados Unidos da América.

Ainda durante o tempo do Império Britânico.

Do Império Britânico. Havia estados livres, estados com escravos e estados sem escravos. Em 1861, dos 34 estados que formavam então os Estados Unidos da América, 19 não tinham escravidão, eram estados livres, como eram chamados, e 15 estados tinham escravidão. E estes 15 estados ficavam todos no chamado Sul dos Estados Unidos. O Sul dos Estados Unidos, nesta época, estamos a referir-nos apenas ao sul do leste dos Estados Unidos, isto é, os Estados Unidos que ficavam a leste do rio Missouri e das montanhas do Appalachian. Ainda os antigos Estados Unidos do fim do século 18, um bocadinho mais alargados com as aquisições que os Estados Unidos tinham feito no princípio do século 19, com a aquisição da Louisiana à França, com a aquisição da Flórida à Espanha e com conquistas que tinham sido feitas ao México, mas basicamente ainda são esses Estados Unidos. A Califórnia ainda não faz parte deste mundo. Aliás, a Califórnia não faz parte da guerra, está na costa leste. Isto são os Estados Unidos da costa oeste.

E não tinha escravatura.

E não tinha escravidão. Nesta costa oeste, os estados do sul desta costa oeste são os estados que têm escravos e têm, em 1861, cerca de 3,5 milhões escravos, equivalentes a 30% da população do Sul, em média, porque há estados onde é equivalente a 30, 40, 45, 50 e outros em que é bastante menos.

É um número enorme.

Nesta altura, em 1860, 1861, meados do século 19, há movimentos abolicionistas muito fortes que criam até a ideia de que os Estados Unidos não podem continuar a ser, como eles diziam, metade escravos e metade livres, isto é, tinham de ser ou livres para todos ou então escravos para todos. E a questão tinha sido colocada em 1860, não propriamente acerca dos estados daquilo que nós estamos a chamar o Sul dos Estados Unidos, mas sim dos novos estados que estavam a ser criados a oeste do Mississippi e dos Appalachian, a oeste da antiga região atlântica de colonização da América no século 18. A colonização está a avançar para o oeste, estão se a constituir novos estados aí, e a grande questão que se levanta é saber se a escravidão vai ser aceita ou não nesses novos estados. E há quem ache que não, e uma das pessoas que acha que não é o candidato do Partido Republicano, que é eleito presidente dos Estados Unidos nas eleições de 1860, Abraham Lincoln. Lincoln acha que não, que os novos estados não podem ter escravidão. Mas reparem, não está em causa a escravidão do Sul. Ainda não está em causa a escravidão do Sul.

Isso tu dizes durante as eleições.

Durante as eleições presidenciais.

O seu programa eleitoral, Lincoln nunca defendeu em acabar.

Não é um candidato abolicionista. Ele é contra a escravidão, mas não tem uma plataforma abolicionista. Aquilo que ele não quer é que os novos estados que vão ser integrados na União tenham escravos.

Eu penso que em tempo eleitoral ele comprometer a si mesmo a não acabar com a escravatura que existia.

Os líderes do Sul, governadores dos estados, os representantes dos estados, senadores, congressistas, eles entenderam a recusa de haver escravos nos novos estados como o princípio do fim da escravidão. Isto é, iria haver uma deriva que iria eventualmente pôr em causa a escravidão mesmo nos estados do Sul dos Estados Unidos. A eleição de Lincoln, para eles, era um sinal do que vinha aí. E a única maneira de defender a instituição da escravidão no sul dos Estados Unidos era separarem-se da União, isto é, separarem-se dos Estados Unidos. E foi o que fizeram sete estados do Sul logo antes de Lincoln tomar posse. Lincoln toma posse a 4 de março. Mesmo antes de Lincoln tomar posse, estes estados separam-se, declaram que deixaram de fazer parte da União dos Estados Unidos da América, e depois há mais quatro estados que em abril se vão juntar a estes estados.

Mas o fato de não terem esperado pela tomada posse do Lincoln significa que aquilo que os leva a avançar é o fato de Lincoln ser um abolicionista?

Eles veem a eleição de Lincoln, candidato do Partido Republicano, com essas opiniões, como um sinal daquilo que vem aí. E portanto, querem se antecipar. É uma jogada de antecipação. Não vamos ficar à espera que a União acabe por decidir a abolição da escravidão no Sul. Vamos sair antes. Lincoln só vai fazer a proclamação da abolição da escravidão no Sul no ano seguinte, 1862, já em plena guerra. Aliás, verdadeiramente, se nós pensarmos bem, a opção dos estados do Sul em 1861 foi a pior opção para manter a escravidão. É muito provável que se eles tivessem ficado na União, a abolição da escravidão tivesse demorado muito mais tempo, como por exemplo, demorou no Brasil. No Brasil, só em 1888 é que a escravidão vai ser abolida, isto é, 20 anos depois dos Estados Unidos É muito provável com a demora do processo legislativo, a dependência que o governo dos Estados Unidos tem do Congresso e muitos congressistas que vêm do Sul no Congresso para formar maiorias, é muito provável que eles tivessem conseguido demorar e atrasar a abolição da escravidão durante umas décadas. Assim precipitaram-na através da guerra civil. Agora, só a questão da escravidão por si não chega para explicar a guerra civil em si e a fúria com que a guerra civil é combatida. Primeiro, porque nem toda a população do Sul tinha escravos. Apenas 6% da população do Sul é donos de escravos. A maior parte da população do Sul dos Estados Unidos, os seis milhões de habitantes do Sul que são brancos, não têm escravos. Eram os grandes senhores das plantações que tinham escravos, tinham dezenas, centenas de escravos. Aliás, segundo o historiador James McPherson, que é um dos grandes especialistas da história da guerra civil, ele estudou a correspondência de 429 soldados do Sul dos Estados Unidos, isto é, as cartas que eles mandaram à família durante a guerra, num livro de 1997 chamado "For Cause and Comrades". E desses 429 soldados, apenas 20%, cerca de um quinto, expressaram opiniões favoráveis à escravidão. Só um quinto.

Certo.

80% não tinham opinião, não fazem referência à escravidão ou não são favoráveis à escravidão. Mesmo daqueles soldados que o James McPherson descobriu que eram de famílias proprietárias de escravos, apenas 33% falam da escravidão. Só um terço, mesmo daqueles que vêm de famílias de escravos é que têm uma menção à escravidão como uma razão para a guerra. Dois terços daqueles que vinham de famílias com escravos também não mencionam como uma das razões.

Se a escravidão não os motivava a lutar, o que os motivava?

Na correspondência destes soldados, e tal como na propaganda depois dos Estados Confederados do Sul dos Estados Unidos, a grande razão é uma interpretação da herança política americana e, sobretudo, da revolta contra o Império Britânico em 1776. Os estados do Sul dos Estados Unidos que vão formar a Confederação interpretam essa revolta de 1776 como tendo estabelecido um direito permanente de cada estado, enquanto soberano, isto é, os estados ter-se-iam mantido soberanos, a separarem-se para defender as suas liberdades. A lógica deles é que em 1776 eles separaram-se da monarquia britânica para defender a sua autonomia, as suas liberdades, e agora separam-se dos Estados Unidos da América, da União, para defenderem a sua soberania, a sua liberdade. Isto é a mesma lógica. 1861 é uma réplica de 1776, é a defesa da liberdade.

E isso vê-se na tal correspondência?

É isso que nessa correspondência todos eles falam. "Nós estamos a defender as nossas liberdades contra a agressão dos estados do Norte, dos Estados Unidos, que nos estão a tentar conquistar, que estão a tentar impor a sua vontade contra nós."

E havia diferenças culturais profundas?

E há diferenças enormes. Curiosamente, é a mesma tradição política, deixe-me só insistir nisto. A Constituição do Sul, Constituição de 1862, é igual à Constituição dos Estados Unidos, é igual à Constituição de 1787. Absolutamente igual. Tem umas pequenas variantes ali e acolá, uma delas, obviamente, para permitir a manutenção da escravidão no Sul, mas o resto é tudo igual, o sistema político é igual, o presidente, Congresso, essas coisas todas. É a mesma tradição política, é em nome dessa tradição política, que aliás, eles têm em comum com o Norte, que o Sul se levanta. Uma outra razão forte e que se vê também na correspondência, é a religião protestante. Mais uma vez, uma coisa que eles têm em comum também com o Norte. Os exércitos do Sul, durante a guerra, vão ser agitados por grandes surtos de revivalismo religioso, awakenings, uma espécie de conversões ou reconversões, ou da redescoberta do fervor religioso, que lhes faz ver a guerra, a estes soldados do Sul, como uma questão de a vontade de Deus. Eles estão a combater também para a vontade de Deus. Mas é como dizes, o Sul é suficientemente diferente do Norte para eles, mesmo sem a escravidão, conseguirem pensar em termos de uma identidade que é diferente da do Norte, uma identidade do Sul. Digamos que a escravidão aqui faz parte de um pacote De diferenças em relação ao Norte. Repito, os Estados Unidos do que nós estamos a falar ainda são os Estados Unidos da costa Oeste, são esses estados da costa Leste dos Estados Unidos, e o Sul, nesta costa Leste, é de fato um mundo muito diferente do Norte. Para começar, temos que falar de distâncias. As distâncias são muito importantes, até do ponto de vista do europeu, nós compreendemos isto. A distância entre o Sul e o Norte é muito grande. Por exemplo, a maior cidade do Sul é Nova Orleans, New Orleans. A maior cidade do Norte é New York, Nova York. A distância entre New Orleans e Nova York é mais ou menos a mesma que separa Lisboa de Berlim. A diferença é enorme, os climas são muito diferentes, os costumes são também muito diferentes. No Sul, especialmente aquilo que é o deep south, o Sul profundo, são estados produtores de algodão, é uma economia de grandes domínios rurais, de grandes plantações, produz-se algodão com a mão de obra escrava. Uma grande parte do algodão é exportado para a Europa, especialmente para a Inglaterra.

Parece mais colónias das Caraíbas.

É, o Sul dos Estados Unidos tem mais a ver com o mundo das Caraíbas ou com o mundo do Brasil do que propriamente com o mundo do Norte dos Estados Unidos, que é o mundo da indústria, de produtores de alimentos, sobretudo cereais, e onde predominam já as cidades. O Sul é muito mais rural. As cidades do Sul são muito mais pequenas do que as cidades do Norte.

Muito bem. Bom, nós vamos continuar com esta conversa e perceber essas diferenças culturais que acabaram por desaguar numa guerra violentíssima de são, mas teremos que o fazer na segunda parte do programa. Até lá. Olá, seja bem-vindo a esta segunda parte de "O Resto é História". Nós estamos a falar de um tema que nunca tínhamos falado aqui verdadeiramente até hoje, a Guerra Civil Americana e as suas causas. Rui, tu estavas a explicar essas diferenças entre o Sul e o Norte.

Sim, diferenças muito grandes, até do sotaque, a maneira de falar inglês é diferente ainda hoje, aquele o southern drawl, aquela maneira com aquelas vogais muito mais arrastadas e abertas. Agora, posto isso, essas diferenças todas, é óbvio que a escravidão é um elemento fundamental da vida do Sul, de duas maneiras.

É porque ela é rentável, não é?

A primeira é que as plantações de escravos, as plantações em que usam escravos como mão de obra, são muito prósperas em meados do século XIX e o uso da mão de obra escrava faz sentido economicamente, como mostrou um historiador americano, o Robert Fogel, num livro muito conhecido dos anos 60 do século XX, "Time on the Cross". Isto é, a escravidão fazia sentido economicamente. Portanto, a escravidão é uma base importante da economia exportadora, que explica a prosperidade do Sul nesta época, em meados do século XIX. E portanto era possível argumentar que o fim da escravidão podia comprometer essa prosperidade, podia comprometer a economia do Sul. De fato, aquilo que vai arruinar o Sul depois não é propriamente o fim da escravidão, é a concorrência de produtores de algodão muito mais competitivos, mesmo sem a escravidão, como é por exemplo o Egito. O Egito vai se tornar o grande produtor de algodão e é isso que vai arruinar verdadeiramente o Sul dos Estados Unidos. Mas podia-se argumentar em 1860, 61: se acabar a escravidão, acabam as grandes plantações de algodão e acabam as exportações que explicam a nossa prosperidade.

Mas depois havia 30% da população negra.

É, a escravidão era também uma outra coisa, isso é outra razão. A escravidão é vista por muitos não apenas como uma questão econômica, mas como uma forma de controlar a população de origem africana, que em alguns estados chegava quase à metade da população. Aliás, é essa a diferença entre os estados do Sul que aderem à rebelião, que formam os estados confederados, e aqueles estados esclavagistas da fronteira que ficam no Norte. Por quê? Porque esses estados esclavagistas da fronteira, sim, têm escravos, mas aí os escravos são uma percentagem muito mais pequena da população. Menos de 20%, nalguns casos menos de 2%. Isto é, são estados que têm escravos, mas em que verdadeiramente a escravidão é muito pouco significativa. Aliás, não são estados que cultivam algodão, são estados do tabaco. E portanto já têm outras formas de produção, de organização, não são tão dependentes.

É mais fácil mudar economicamente.

Agora, a grande questão no Sul é: sem a escravidão, como é que se vai controlar estes negros livres? O que é que aconteceria ao estatuto dos brancos, sobretudo dos brancos pobres, que são pobres, mas são livres, de repente, quando os negros forem também livres, deixarem de ter esse contraste com os negros. Portanto, a escravidão não é apenas uma questão econômica, é uma questão de controle de uma parte importante da população. Portanto, em suma, a escravidão não é a única questão No sentido em que a maioria esmagadora da população do Sul, mais de 90% dos que combateram pelo Sul, não tinham escravos e combateram, sobretudo, pela independência de uma sociedade que eles achavam que era muito diferente da sociedade do Norte. Mas a escravidão é a questão principal no sentido em que, por um lado, a escravidão pode parecer a chave da sociedade do Sul, isto é, a explicação da sociedade do Sul e, por outro lado, sem a escravidão, provavelmente não teria havido aquela questão que vai motivar a separação dos estados do Sul em 1861. Portanto, não foi a única razão que levou a população do Sul a pegar em armas pra combater o Norte, mas sem a escravidão, a guerra não teria acontecido. Aliás, duas notas interessantes ainda em relação à escravidão. A primeira: a oeste do Mississippi, e portanto, a oeste dos estados em guerra, no centro dos Estados Unidos, no território do futuro estado do Oklahoma, que ainda não era estado então, era onde estavam as chamadas Cinco Nações de Índios Civilizados. Eram tribos de índios que tinham adotado os costumes dos europeus e, portanto, eram considerados civilizados. Eram as chamadas Cinco Nações. Uma delas era a nação Cherokee. Essa nação vai alinhar com a confederação, com o Sul dos Estados Unidos. E por quê? Porque eles também têm escravos negros. Aliás, têm 2500 escravos negros. Os índios têm uma tradição de escravidão e compraram escravos negros e também têm escravos negros e, portanto, quando há a guerra, decidem alinhar com os estados esclavagistas do Sul.

Aí está uma outra história que não se costuma ouvir.

É, não se costuma ouvir os índios também donos de escravos, e de escravos negros, aliás. E depois, uma última nota também ainda só em relação à escravidão. Todos os escravos eram negros, mas os donos de escravos eram de todas as cores, incluindo negros. Em 1830, havia cerca de 3700 negros ou mestiços que eram donos de escravos no Sul dos Estados Unidos. Eram proprietários de cerca de 12.700 escravos. Especialmente em New Orleans, na Louisiana, onde havia uma grande população de negros livres, muitos deles tinham escravos e em 1861, o que fazem? Estes negros proprietários de escravos oferecem-se como voluntários pra Confederação. Portanto, a história é sempre um pouquinho mais complicada do que aquelas dicotomias que dão, às vezes, jeito para contar.

As coisas são mais complexas, não é?

É, sempre muito mais complexas.

Mas voltando àquela minha pergunta final do princípio do programa-

Exatamente, vamos à segunda pergunta

...que tem a ver com: o Sul teve alguma vez hipótese?

Alguma vez teve hipótese? Só mais uma curiosidade: nunca houve uma declaração de guerra. Por quê? Porque os Estados Unidos, a União, não reconheceu a separação. Portanto, não reconheceu a separação e, portanto, não declarou guerra, no sentido em que não fazia sentido declarar guerra, só se declara guerra a uma potência estrangeira. Eles não aceitam a Confederação, não reconhecem a Confederação, dizem: "Não há." Portanto, aquilo que o presidente Lincoln faz é ordenar às tropas federais para reocuparem os fortes, os depósitos de armas, enfim, toda a propriedade do governo federal no Sul dos Estados Unidos, que tinha sido ocupada pelas autoridades confederadas do Sul. É isso que leva à guerra. Mais uma vez, são as questões políticas no Norte. O Partido Republicano está completamente do lado do Lincoln, que tinha sido o candidato do Partido Republicano. O Partido Democrata é que se divide. Há uma parte que apoia Lincoln, mas como eles têm uma grande implantação no Sul, há uma outra parte que apoia os estados confederados, mesmo no Norte, uma parte do Partido Democrata, no Norte, que é contra a guerra e a favor do reconhecimento dos estados confederados. Portanto, em 1861, não é fácil fazer a guerra. Os Estados Unidos têm um exército de 16 mil homens, um exército minúsculo, muito pequenino. Portanto, tanto a União, isto é, os Estados Unidos, como a Confederação, a Confederação é a nova entidade criada pelos estados do Sul como alternativa à União, tanto a União como a Confederação têm de levantar exércitos. E agora, pra responder à pergunta, quando nós olhamos para os recursos do Norte e do Sul, parece-nos que o Sul não teria muitas hipóteses. Por quê? Porque em termos de população, o Norte tem duas vezes a população do Sul, 18 para 9 milhões de habitantes.

18 pra 9.

Dezoito pra 9 milhões, o que dá, em 1864, o Norte tem duas vezes o número de soldados do Sul, tem o dobro, os exércitos do Norte são o dobro dos do Sul. A questão da economia, isto é, a população e economia. O Norte tem uma economia industrial, já, e uma agricultura cerealífera em vias de mecanização, o que dá uma estimativa do PIB do Norte, que é três vezes superior ao PIB do Sul. Portanto, o Norte é três vezes mais rico do que o Sul dos Estados Unidos.

Duas vezes mais numeroso, três vezes mais rico.

Três vezes mais rico, tem muito mais produtividade, portanto, tem duas vezes a população, mas três vezes a riqueza. O Norte também tem muito mais meios de transporte e comunicações, tem duas vezes mais cavalos e mulas do que o Sul e tem duas vezes mais caminhos de ferro. Era uma zona mais industrializada e, portanto, há uma circulação muito mais intensa no Norte do que no Sul. E depois, claro, tem uma vantagem também militar e diplomática. Por um lado, tem uma marinha de guerra que lhe permite fazer o bloqueio naval da costa do Sul. Portanto, o Sul não tem relações externas diretas facilmente, portanto é bloqueado, há um bloqueio naval e nenhum estado no mundo reconheceu a Confederação Nenhum Estado, e sobretudo os Estados que interessavam eram obviamente os Estados europeus, reconheceu a Confederação. A Confederação nunca foi reconhecida, nunca teve reconhecimento diplomático por nenhum Estado do mundo. No norte, o governo mobiliza a população através da defesa patriótica da união contra os rebeldes. É assim que eles chamam aos combatentes do Sul, são os rebeldes, e chamam de rebelião, não dizem confederação, dizem a rebelião. Lincoln é também muito eloquente a esse respeito. E depois também tem uma vantagem aqui, em termos de sistema político: Lincoln, em Washington, tem muito mais autoridade do que o presidente da Confederação no Sul, em Richmond, Jefferson Davis. Jefferson Davis tem menos força, menos autoridade, isto é, o presidente no Sul da Confederação tem menos força do que o presidente do Norte. Isso é uma vantagem, obviamente, pro Norte também, em termos de comando unificado, Lincoln tem mais força.

Mas o Sul também tinha algumas vantagens.

Tinha algumas vantagens. A primeira é geográfica.

O terreno. Sim.

O território é enorme, são quase dois milhões de quilômetros quadrados, quatro vezes a Península Ibérica. Não é apenas um território muito grande, mas é um território que não tem um centro óbvio, uma capital como Chicago.

Não tem uma Washington.

Tem uma Washington em termos de Richmond, mas de fato não tem o mesmo significado. É uma sociedade rural, a sociedade do Sul, é uma sociedade dispersa, sem grandes cidades, ao contrário do Norte. Não tem grandes objetivos estratégicos.

Se uma cidade caísse, isso não significava que acabasse a guerra.

Exatamente. O que leva a uma guerra que é uma guerra demorada e de atrição. Isto é, basicamente, o que os exércitos do Norte estão a tentar fazer desde 1861 é encontrar os exércitos do Sul e tentar destruir os exércitos do Sul, neste território gigante.

E o Sul estava coeso nessa luta.

E o Sul está alinhado, está todo nesta luta contra uma invasão, contra uma agressão do Norte, estão a defender-se contra o Norte. Esta é uma guerra de muitas batalhas. O John Keegan, que é um historiador britânico que escreveu talvez o melhor livro sobre a Guerra Civil Americana, publicado em 2007, contou 247 batalhas entre 1861 e 1865. 247, isto é, nenhuma outra guerra teve tantas batalhas, isto é, choques frontais de exércitos como esta Guerra Civil Americana, e tão intensas, com tantas baixas. O que nós temos? Temos exércitos em teatros de operações, às vezes muito distantes uns dos outros. Os exércitos têm pouca coordenação entre si. Todas as vitórias e todas as derrotas são mais ou menos locais, não são decisivas para a guerra durante muito tempo. Isto é uma guerra demorada e isso, obviamente, vinha a favor do Sul. Um dos objetivos do Sul é demorar muito tempo, é aguentar muito tempo até o Norte se cansar da guerra e dizer: "Bem, vamos acabar com isto, vamos reconhecer a Confederação, ficamos vizinhos." Já há o Canadá, passa a haver os Estados Unidos da América e agora esta Confederação do Sul, e vamos ficar todos amigos e ter relações uns com os outros, comerciais, etc., e não vamos continuar a guerra. Esse é um dos objetivos do Sul e o território em que o Sul está a combater permite-lhe ter essa-

Também se falava muito da qualidade dos generais.

Essa é outra, inicialmente, das grandes vantagens do Sul dos Estados Unidos. Muitos dos oficiais profissionais do exército americano são do Sul, onde há uma aristocracia de grandes proprietários que têm esta tradição militar como a nobreza europeia. Aliás, eles identificam-se muito com a nobreza europeia e tentam imitar os costumes, etc. E no início da guerra, o Sul parece ter os melhores generais, de fato, como o Robert E. Lee, ou Stonewall Jackson, ou James Longstreet, três generais do Sul que são, de fato, os melhores generais que os Estados Unidos alguma vez produziram. Eles eram generais do exército americano antes de 1861, são oriundos do Sul e tomam a decisão de ir pro Sul. Há, por exemplo, generais no Norte, a comandar exércitos do Norte, que foram discípulos, em West Point, do Robert E. Lee, quer dizer, tiveram-no como professor e agora estão a combater contra o professor. Aliás, é preciso às vezes muito fanatismo para não admirar o que estes generais conseguiram, o que estes oficiais conseguiram, com muito menos recursos no Sul do que no Norte. Eles conseguiram, de fato, aguentar a guerra durante quatro anos e criaram com isso uma espécie de uma mística nas tropas do Sul. Isto era no caso, por exemplo, do exército, que era a principal força de combate dos Estados Confederados, é o chamado Exército da Virgínia do Norte, que é comandado por Robert E. Lee. Esse exército resiste aos exércitos da União durante quatro anos, resiste em campo aberto, isto é, em choques frontais, e com uma desvantagem numérica sempre enorme. Quer dizer, o máximo que o Exército da Virgínia do Norte tem são 75 mil homens, e os exércitos da União são 105, 110 mil homens, quer dizer, têm muito mais homens do que o Exército da Virgínia do Norte e constantemente falham em derrotar, ou em derrotar decisivamente, o Exército da Virgínia do Norte, e frequentemente são derrotados pelo Exército da Virgínia do Norte. Isso cria uma espécie de mística à volta do Robert E. Lee, que é o comandante do Exército da Virgínia do Norte, como um oficial carismático, quer dizer, um vitorioso muito hábil e, portanto, os oficiais do Norte têm um grande respeito por estes soldados. A maior parte dos soldados desta Guerra Civil Americana, tanto os do Sul como os do Norte, são voluntários São voluntários, isto é um exército de voluntários.

Isso é muito impressionante.

Só 10% é que são recrutados à força. É um exército de voluntários, são pessoas que se oferecem pra combater nos exércitos da confederação. Em 1863, no Sul, há cerca de 464 mil homens que servem nos exércitos. No total, entre 1861 e 1865, há cerca de 1 milhão de homens que servem nos exércitos do Sul. E os números dos mortos é, de facto, impressionante. 13% dos homens adultos do Sul morrem na guerra entre 1861 e 1865. 13%. E se nós contarmos apenas os homens com idade militar, entre os 20 e os 34 anos, 25% dos homens do Sul morrem nesta guerra.

Isso é impressionante. Um em cada quarto.

Um em cada quarto dos homens do Sul em idade militar vão morrer na guerra entre 1861 e 1865. Isto é uma das mais altas percentagens de todos os conflitos militares dos últimos 200 anos. E de facto, há aqui uma disponibilidade desta sociedade do Sul pra combater contra o Norte, que é absolutamente impressionante. E por isso é que dizem: a escravidão não basta. Eles não estão apenas a lutar pelos senhores das plantações de escravos, que são eles que são os donos dos escravos. Eles nitidamente estão a pensar que estão a lutar por todo o Sul, pelo seu modo de vida, pela sua identidade contra a agressão daqueles a quem eles chamam os ianques.

E aí se inclui os próprios generais, não é?

E aí se inclui, obviamente, os próprios generais. Obviamente que a maior parte destes mortos não são mortos em combate. Dois terços dos soldados morrem de doenças, como é costume no século 19, mas as batalhas são extraordinariamente sangrentas. Por quê? Porque são batalhas em que as táticas ainda são as mesmas do século 18, isto é, choque frontal dos exércitos, mas as armas já não são as mesmas. Quer em termos de artilharia, quer em termos de espingardas e armas ligeiras usadas, são muito mais eficazes e vão dar grandes mortandades. Aliás, como a Primeira Guerra Mundial, esta guerra civil americana é verdadeiramente uma espécie de antecipação da Primeira Guerra Mundial na Europa, aliás, até com trincheiras, com ataques frontais, que o uso da artilharia causa imensas baixas.

Todas as guerras são violentas, mas de facto há umas mais violentas que as outras.

Nem todas têm o mesmo grau de violência. O que é decisivo? O que acaba verdadeiramente por comprometer o Sul? Bem, o objetivo dos exércitos da União foi sempre entrar no Sul. A norte, na Virgínia, no estado da Virgínia, onde está o exército da Virgínia no norte, com o general Lee. O general Lee impediu sempre os exércitos da União de entrar no Sul por essa linha de ataque, isto é, a partir do norte. Mas há também uma guerra a oeste, no Tennessee. E aí a história é diferente. Por quê? Porque aí a União tem os seus melhores generais no oeste, que é uma coisa curiosa, onde estão os melhores generais. Os melhores generais do Sul estão na Virgínia e os melhores generais da União, do Norte, estão no Tennessee. E no Tennessee, a oeste, a história é um bocadinho diferente. Em novembro de 1863, o general Ulysses Grant, que depois vai ser presidente, vai derrotar o exército do Tennessee, que é a principal força de combate no Sul, no oeste, e isso abre uma entrada pro Sul a partir do oeste. É isso que vai fazer, um ano depois, em novembro de 1864, o general Sherman, vai entrar no Sul a partir do oeste, a partir do Tennessee. Ele consegue entrar, numa manobra muito arriscada, com um exército de 62 mil homens, nos estados do Sul, por detrás das linhas de combate do Norte. É uma espécie de manobra de rodear a principal linha de combate. A manobra é muito arriscada porque o general Sherman quando entra no Sul deixa de ter linhas de comunicação com a sua retaguarda, literalmente entra no Sul. E o que ele faz? Ele vai adotar uma política de terra queimada ao atravessar os estados da Geórgia e da Carolina do Sul. Essa travessia, que é a marcha pro mar, do general Sherman, entre novembro de 1864 e janeiro de 1865, vai ser decisiva na derrota do Sul. E por quê? Porque isto corresponde a uma manobra que, curiosamente, os generais do Sul também se tinham lembrado. Um deles era Stonewall Jackson. Stonewall Jackson tinha proposto uma manobra análoga para se fazer no Norte, que era contornar as linhas do Norte e tentar entrar com o exército no Norte, isto é, nas regiões industriais e de grandes cidades. A afetar as indústrias e a vida no Norte para levar até a população do Norte a cansar-se da guerra. Esta estratégia proposta por Stonewall Jackson nunca foi aceita nem por Robert E. Lee. Lee tem uma lógica diferente, tem uma lógica de batalha, ele quer derrotar os exércitos do Norte numa batalha decisiva, à Napoleão Bonaparte. É isso que ele quer fazer. E também não é aceita pelo presidente da Confederação, Jefferson Davis. Jefferson Davis tem uma atitude defensiva, ele diz: "Não, o que nós devemos fazer é defender o Sul, não vamos atacar o Norte, temos de defender o Sul para aguentar muito tempo. Nós temos recursos limitados, temos de jogar com o tempo. Quanto mais tempo durarmos, mais temos de hipóteses do Norte cansar-se da guerra."

Sim, e uma parte do partido democrata do Norte era contra a guerra, portanto havia apoio político.

Havia apoio político no Norte, há uma parte do Congresso no Norte que é contra a guerra, portanto havia essa possibilidade. Havia a possibilidade até da Europa, das potências europeias, nomeadamente a Inglaterra, intervir de alguma maneira, dizerem: "Bem, mas esperem, porque é que não se entendem?"

Porque precisavam do algodão.

Por causa do algodão, etc. O Sul nunca faz esta manobra proposta pelo general Stonewall Jackson. O general Stonewall Jackson, aliás, depois vai morrer durante a guerra. E é Sherman, o general do Norte, que vai fazer isso ao Sul, isto é, entrar no Sul. E a marcha de Sherman através da Geórgia e da Carolina do Sul, o que é? Basicamente, é o equivalente dos bombardeamentos aéreos com que na Segunda Guerra Mundial os aliados tentaram forçar a rendição da Alemanha e do Japão. Isto é uma destruição total dos estados da Geórgia e da Carolina do Sul. Ele destrói cidades, vilas, propriedades rurais, linhas de caminhos de ferro, telégrafos, pontes, todos os edifícios são destruídos, sobretudo edifícios públicos. Aliás, Sherman nas suas instruções diz: "Isto não é uma guerra entre exércitos, isto é uma guerra contra uma população hostil". Ele diz: "A partir de agora vamos fazer a guerra contra a população do Sul dos Estados Unidos". É esse o objetivo. Já não é o exército, os exércitos do Sul dos Estados Unidos, é a população a quem ele diz: "Devemos fazer sentir the hard hand of war, a mão dura da guerra". É isso que quer fazer. A destruição é tão profunda que, segundo alguns historiadores, só na década de 1920, portanto quase 60 anos depois, é que o Sul vai recuperar da destruição. Os estados da Geórgia e da Carolina do Sul vão recuperar totalmente das destruições do general Sherman nesta marcha ao longo do Sul.

Mas qual é a atualidade disso?

Primeiro, destruiu completamente a retaguarda do Sul da Confederação. Tudo que era fábricas, produção de alimentos, tudo isso é absolutamente destruído. Mas, sobretudo, criou nos exércitos da Confederação um alarme enorme, porque as notícias que os soldados e os oficiais estão a receber na frente de combate é que as suas famílias estão à mercê dos soldados do Norte. As suas mulheres estão à mercê dos soldados do Norte. Há roubos, violações, há violências contra a população civil também. Depois há rumores ainda piores acerca disto. Isso o que provoca? Provoca no fim de 1864, princípio de 1865, um aumento de muitas deserções nos exércitos do Sul, de soldados que querem regressar a casa para proteger as suas famílias, e cria condições terríveis no Sul dos Estados Unidos, não só a destruição, mas as doenças, epidemias, resultado de tudo isso. E depois é uma manobra militar que dá muito. O Sherman basicamente rodeia os principais exércitos do Sul dos Estados Unidos e depois liga-se ao general Grant no Norte e os dois cercam a principal força de combate do Sul, que é do Robert E. Lee, o exército da Virgínia do Norte, que fica absolutamente cercado pelos exércitos do Sul. Lee ainda tenta romper o cerco para ir para o oeste, ele já dá todo o Sul dos Estados Unidos como perdido, mas quer levar os exércitos do Sul para o oeste, para o Texas, para continuarem a guerra, mas a partir de determinado momento percebe que não há já condições.

Nada a fazer.

E toma ele a decisão de se render e a rendição do exército da Virgínia do Norte em 9 de abril não é o fim da guerra, a guerra só vai acabar em maio, mas é um sinal para todos os outros exércitos do Sul. O Sul ainda tem cerca de 170 mil homens em armas nos vários exércitos para se começarem a render uns atrás dos outros. A partir do momento em que Robert E. Lee se rendeu, todos os exércitos do Sul começam a render-se. Lincoln, que vai ser assassinado poucos dias depois da rendição de Robert E. Lee, já não vê o fim da guerra, mas basicamente percebe que ganhou. Convencido que ganhou. Sabe que já ganhou. De onde é que vem depois a ideia da lost cause, da causa perdida? Isto é de 1866, um jornalista da Virgínia, Edward Pollard, escreve um livro que se chama "The Lost Cause", a causa perdida, e ele tenta argumentar que a escravidão nunca foi a principal causa da guerra, foi a defesa das liberdades dos estados do Sul dos Estados Unidos, de acordo com a tradição política americana criada em 1776 e representada pelos militares do Sul, estes herdeiros de uma tradição de cavalheirismo aristocrático, que fizeram uma guerra gloriosa, nobre, com feitos militares extraordinários, devido às desvantagens em que estavam em relação ao Norte, e que portanto deviam ser reconhecidos como tal, e que mesmo a escravidão, é verdade, existia, mas era mais uma situação de tutela paternal da população negra do Sul dos Estados Unidos do que propriamente uma espécie de opressão, e que não era pior, por exemplo, do que a servidão na Rússia, que também é abolida nesta época. Esta visão da lost cause é esta visão.

Imagino que tenha sido muito popular no Sul.

É adotada pelo Sul, os estados do Sul, e à medida que os brancos do Sul vão depois restabelecendo a sua supremacia política, porque inicialmente o Norte os reduz a um estado de inferioridade, mas depois eles vão recuperando a sua autonomia política De alguma maneira, o Norte começa também a tolerar esta visão. Por quê? Porque é a melhor maneira de reincorporar o Sul na democracia americana. Isto é, recuperar o Sul com alguma dignidade. Não vamos deixá-los lá com aquele sentido que foram oprimidos, qualquer dia vão se revoltar outra vez. Não, vamos dizer: "Sim, senhora, vocês fizeram uma bela tentativa. Isso foi uma rebelião, foi bonito, mas agora perderam. Mas nós reconhecemos que vocês são uns tipos valentes e que fizeram grandes coisas, portanto vamos deixar-vos erigir estátuas aos vossos líderes militares". A partir do princípio do século XX, há grandes estátuas ao Robert E. Lee, Stonewall Jackson, até dá série eretas no Sul dos Estados Unidos, tolerado pelo Norte, onde aliás predomina o Partido Democrata. E é bom não esquecer, o Partido Democrata é o grande partido do Sul e está muito interessado em tolerar o Sul e as visões do Sul. É a esquerda americana que institui a segregação no Sul dos Estados Unidos, a segregação racial. Já falamos aqui isso, o domínio do Partido Democrata no Sul é absolutamente espantoso. É para aí 95% dos votos no Sul dos Estados Unidos são do Partido Democrata.

O mundo já deu muitas voltas desde então.

De tal maneira que, por exemplo, o primeiro candidato é do Partido Democrata, o segundo é do Partido Democrata, o terceiro é do Partido Democrata. Isto é, o Partido Democrata tem um domínio tão grande no Sul que os três, quatro, cinco primeiros candidatos nas várias eleições são do Partido Democrata e depois do Partido Republicano vem em sétimo e oitavo. Há uma grande tolerância da própria esquerda americana, do Partido Democrata, desta visão do Sul. Já neste século, no século XXI, aquilo que nós podemos chamar o movimento woke, sobretudo nas últimas duas décadas, impõe a visão contrária, que é uma espécie de lenda negra, uma visão demoníaca do Sul, como uma espécie de os nazistas da América, a escravidão como uma espécie de um imenso Auschwitz no Sul dos Estados Unidos. E aquilo que nós podemos dizer é que se a Lost Cause era uma visão cor-de-rosa, e portanto errada, esta visão woke demoníaca é também uma visão errada, completamente anacrônica e que não permite, isso é o fundamental, compreender a própria Guerra Civil Americana e por que tanta gente se predispôs no Sul dos Estados Unidos a lutar e a morrer por algo que para eles era um modo de vida, uma sociedade, um mundo completamente diferente do do Norte e não apenas uma mera opressão, embora essa opressão fosse uma das componentes principais deste modo de vida do Sul.

Muito bem. Bom, e assim termina esta edição de "E o Resto é História". Nós regressamos para a semana com o programa número 300. Não perca. Até lá.

E o resto é história. É a terra fumar! Do incêntrico Abra, ainda na zona dos Chiados. Quer transformar este país numa ditadura.

Atento, atento.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.