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E o resto é história. É a terra a fumar! Do incêndio e plavra ainda na zona dos Chiados. Falo por gosto. É que arde em mim de vermelho, trovo do corpo, fogo do amor. Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. A propósito dos 50 anos do 25 de Abril, nós temos vindo a acompanhar as várias independências das antigas colónias portuguesas, mas há uma em particular que teve uma história radicalmente diferente de todas as outras: Timor-Leste. No dia 28 de novembro de 1975, faz agora 50 anos, a Fretilin, que tinha vencido uma breve guerra civil que em 1975 eclodira em Timor-Leste e que as forças portuguesas ainda presentes no território não tiveram capacidade de evitar, declarou a sua independência de Portugal. Pouco mais de uma semana depois, a 7 de dezembro de 1975, a Indonésia invadiu Timor-Leste, iniciando um longo período de ocupação bastante violento, que apenas terminou no final de 1999. Os ouvintes pedem-nos regularmente para falar de Timor, e eu já agora aproveito para recordar o e-mail para onde nos pode enviar as suas questões, é historia@observador.pt. E nós já contámos aqui a história desse pequeno território. Foi há quatro anos, no episódio 122, de 10 de novembro de 2021. Mas nós nunca nos detivemos especificamente naquele período atribulado de 1975. E, portanto, Rui, eu ia pedir para nos explicares várias coisas. Em primeiro lugar, por que houve uma guerra civil em Timor-Leste nesse ano? Por que as tropas portuguesas aparentemente não a conseguiram impedir? Quem é que estava a financiar essas duas partes que estavam em confronto? É sempre preciso algum dinheiro. E por que a Indonésia resolveu invadir o território e impor uma ocupação que acabou por se tornar muito violenta?

Que começou logo violenta, aliás. Mas sim, são muitas questões. A história da guerra civil e da invasão de Timor em 1975 é, sem dúvida, um dos episódios mais horríveis da revolução portuguesa dessa época, em grande medida porque parece uma tragédia desnecessária. Isto é, quando nós olhamos para o que aconteceu em outros territórios sob administração portuguesa, às vezes quase nos convencemos que teria sido impossível evitar o que aconteceu. Estou a pensar em Angola, por exemplo. Era muito difícil ter evitado um confronto entre aqueles partidos armados, com muitos apoiantes externos que disputavam o poder no território. Mas no caso de Timor, podia-se ter evitado, não havia razão para aquilo ter acontecido.

Porque também não havia conflito antes de 74.

E mais do que isso, há toda uma série de razões que nos permitiam, à partida, pensar que não iria acontecer nada daquilo. Quer dizer, em 74 poderia não se estar à espera disso. Eu, para examinar a história de Timor, vou seguir um livro, que é um grande livro, um livro extraordinário, publicado em 1977, chamado "Timor: Autópsia de uma Tragédia", de Luís Filipe Tomás, que é um dos grandes historiadores portugueses do nosso tempo. O Luís Filipe Tomás fez serviço militar em Timor em 1969, aprendeu o tétum, portanto, tinha muitos contactos em Timor e no fim de 75, no ano de 76, publicou vários artigos na imprensa sobre a história recente de Timor, que reuniu neste livro.

Que está esgotadíssimo.

Esgotadíssimo, desde 1977, e que é um grande livro. Pela erudição, pela argúcia da análise, pela compreensão dos acontecimentos, é talvez, eu quase diria, um dos melhores livros sobre os episódios da descolonização portuguesa alguma vez escritos. E, portanto, em linhas gerais, vou seguir a interpretação do Luís Filipe Tomás, que me convenceu muito. Nós, sobre o Timor português, já falámos nesse episódio a propósito do massacre do Cemitério de Santa Cruz em 1991. Também falámos a propósito das invasões australiana e japonesa de 1942, aí agora mais recentemente. Mas em 1974, no Timor português, não há um movimento independentista. Quer dizer, não há guerra, mas também não há um movimento independentista.

O que tu estás a dizer é que os partidos que depois surgem em conflito, por exemplo, não existem.

Não existem.

São pós-Abril de 74.

Sim, já vamos contar a história. Não existem. Quer dizer, não há um movimento independentista, um movimento a exigir. Por exemplo, não há presos políticos no Timor português. Quer dizer, existe a Direção-Geral de Segurança, isto é, a PIDE, mas não há presos. E a Indonésia, que detém a metade ocidental da ilha, não reivindica o Timor português. Não o fazia por razões diplomáticas, porque a Indonésia é a potência que sucede às Índias Orientais holandesas e é nessa qualidade que Reúne as 3 mil ilhas que compõem a Indonésia e tem alguma relutância em reivindicar um território que não fez parte das Índias Orientais Holandesas pra não assustar outros países, outros estados da região que poderiam pensar que estariam na lista de compras da Indonésia se por acaso também começasse a querer incluir Timor. Mas também não o faz por razões históricas e culturais. Vamos falar só um bocadinho da divisão da ilha de Timor. A ilha de Timor, que tem cerca de 30 mil km² no total, portanto não é uma ilha muito grande, está dividida entre a parte oriental, que era o Timor português, que tem a capital em Dili, e uma parte ocidental, que era o Timor holandês, e que agora é o Timor indonésio, que tem a capital em Kupang. Curiosamente, um dos primeiros pontos de fixação da colonização portuguesa começou em Timor Ocidental, só depois é que se mudou para Timor Oriental.

Bem, e apesar de ser uma ilha dividida ao meio, é uma divisão que faz sentido, não é?

É, porque a divisão não vem só da partilha da ilha pelas duas potências europeias, a Holanda e Portugal, que é uma partilha que define a fronteira em meados do século 19 e depois há um tratado no princípio do século 20. É uma divisão entre as duas partes da ilha que tem uma razão geográfica. A parte ocidental, a parte holandesa, é de planaltos, e a parte oriental é muito mais montanhosa. O Timor português é muito mais montanhoso. Mas tem a ver também com as culturas tradicionais. A população da parte ocidental é da etnia Atoni, e fala essa língua, Atoni, enquanto no Oriente, no Timor português, predomina a língua Tetum. Portanto, duas línguas dominantes diferentes. E tem a ver também com a história. Quando os portugueses chegam a Timor pela primeira vez no século 16, já há uma separação das duas metades da ilha em duas federações de reinos diferentes. A ilha tem muitos reinos e eles já estão organizados em duas federações, uma federação oriental e uma federação ocidental. E depois, claro, a colonização europeia, a colonização portuguesa e a colonização holandesa fazem divergir Timor. O Timor oriental, o Timor português é católico, 98% da população hoje é católica, enquanto o Timor ocidental, uma vez que está sob a influência da Holanda, que é uma potência protestante, há uma maioria protestante, embora também haja muitos católicos, cerca de 40% dos habitantes do Timor Ocidental também são católicos.

Portanto, a Igreja foi muito mais eficaz.

Sim, como diz o Luís Filipe de Mas, esta não é uma colonização propriamente dita. Timor é, sobretudo, um caso de missionação católica. Quer dizer, não há colonos chineses, não há ocupação do território por Portugal até o princípio do século 20. O que há é missionários católicos. E portanto, só no princípio do século 20 é que começa a haver uma ocupação por postos militares, mas estes continuam a enquadrar os régulos, isto é, as autoridades tradicionais dos timorenses, que são esses que mandam. Quer dizer, não é diretamente a administração portuguesa. Portanto, quase não há portugueses europeus. Por exemplo, em 1974, há cerca de 50 portugueses que estão radicados em Timor. E depois há 1400, mas são militares, são funcionários que estão lá temporariamente. Há só cerca de 50 portugueses lá radicados. Há muito mais colonos chineses. Portanto, se aquilo é uma colônia, aquilo verdadeiramente é uma colônia chinesa. Há cerca de 20 mil chineses, que são proprietários de 98% das lojas. Não há uma colonização chinesa, mas há, de facto, uma presença chinesa muito grande. Como diz o Luís Filipe de Mas, o maior impacto europeu sobre Timor é religioso. A sociedade timorense tradicional está intacta em 1974. É, sobretudo, uma sociedade que está enquadrada pela Igreja Católica.

E economicamente?

Economicamente tinha vivido durante muito tempo, em termos de comércio externo, do comércio da madeira de sândalo. Os portugueses, durante muito tempo, a única coisa que tiveram comerciantes portugueses, interesses comerciais portugueses, eram uns entrepostos na costa onde compravam a madeira aos habitantes de Timor, e depois esse comércio da madeira de sândalo já existia antes dos portugueses chegarem. E depois os portugueses começam a desenvolver uma cultura do café, essa sim dominada por europeus, mas que é uma cultura que a sua presença no território é muito limitada. Não chega a ocupar mais do que 1,4% do território. E quase metade do café é produzido por uma única empresa, que ainda por cima é uma empresa do Estado. Quer dizer, é uma empresa do Estado português. Isto é, não há uma colonização com empresários europeus que estivessem a produzir e a comerciar produtos. Não há essa presença. Como diz o Luís Filipe de Mas, a maior presença portuguesa é através da emissora nacional, os relatos de futebol. O futebol português na Europa é acompanhado em Timor. Há sucursais dos clubes portugueses, o Benfica, Sporting, etc. Têm lá sucursais e isso é muito popular. Aliás, como acontece nas outras províncias ultramarinas portuguesas e como vai continuar a acontecer, aliás, essas populações vão continuar interessadas no futebol português depois das independências.

Também é uma forma de missionação, não é?

Sim, através do desporto, que é uma coisa que tem a ver com os domingos também. Portanto, vamos dizer Timor não está na situação de Angola, de Moçambique ou da Guiné em 1974. Em Angola, Moçambique ou na Guiné, há movimentos independentistas armados em guerra, portanto, que querem a independência. Timor não está nessa situação, também não está na situação em que estava Goa até 1961, isto é, um enclave num grande país que reivindica esse território, que era a Índia, que reivindicou e depois acabou por ocupar Goa. A Indonésia não reivindica Timor, o Timor português. A Indonésia não faz qualquer reivindicação. O que isto quer dizer? Isto quer dizer que em 1974, Timor parece um caso onde o destino do território pode ser decidido tranquilamente, sem pressões internas, sem pressões externas, tentando chegar à solução que fosse mais vantajosa para todas as partes. E não é isso que acontece.

Mas por que não aconteceu, então?

Há duas razões para isso não acontecer. A primeira razão tem a ver com a atitude das novas autoridades instauradas em Lisboa depois do 25 de abril de 1974. E essa atitude em relação àquilo que antes do 25 de abril se chamava o Ultramar Português, é uma atitude que é a inversa do Estado Novo, mas com uma mesma lógica do Estado Novo. Isto é, o Estado Novo, até mesmo em 1974, tinha dito: "Todos aqueles territórios são portugueses, não saímos desses territórios". Depois de 64, a atitude é inversa: "Vamos sair de todos os territórios". É a mesma inflexibilidade ao contrário. Portanto, não vamos atender a circunstâncias especiais, vamos sair de todos os territórios. Não interessa se Timor é diferente de Angola, de Moçambique. Vamos tratar tudo da mesma maneira, portanto vamos sair como vamos sair de Angola, de Moçambique, vamos sair também de Timor. Em Timor, é verdade, não havia uma guerra pra justificar essa saída, mas o que se usava era uma questão financeira, porque um terço da despesa pública de Timor era financiado pela metrópole. Os números que dá o Luís Filipe Tomás são curiosíssimos. O governo português transferia para Timor 120 mil contos por ano e recebia, através de privados, 20 mil contos. Era um fardo financeiro, digamos assim.

Ou seja, o petróleo ainda não tinha sido descoberto.

Não, havia uns rumores sobre isso, mas não era nada claro. Portanto, era um fardo financeiro. E isso era invocado por: "Não vamos continuar a manter ali uma coisa que custa imenso dinheiro e que não rende quase nada". Mas apesar desta atitude, durante muito tempo não se percebeu o que as autoridades portuguesas iriam fazer. A Indonésia não está interessada.

O que é esse muito tempo?

Durante meses até ao fim do ano de 74, princípio do ano de 75. Durante seis, sete meses depois da revolução, não é claro, correm muitos rumores. A ideia é: vai haver um processo de descolonização em Timor, como nos outros territórios, porque vai haver em todos os territórios, mas como, com quem, o que é que vai acontecer, não é muito claro. Como te disse, já havia rumores sobre a existência de petróleo no mar de Timor, mas são rumores, estimativas, não é nada claro.

Bom, nós chegamos ao final da nossa primeira parte. Voltamos já a seguir. Até já. Olá, seja bem-vindo de volta a esta segunda parte de "E o Resto é História". Nós estamos a falar de Timor e de uma descolonização que correu mal, mas até este momento do programa, não estava tudo a correr assim tão mal.

Já estava a começar a correr mal. No sentido de que, como disse, as autoridades portuguesas estão empenhadas em livrarem-se de Timor, embora não haja pressão para isso. Esse é o primeiro princípio de como depois as coisas vão correr mal. E em segundo lugar, há outra coisa que as autoridades militares ou a estrutura militar, mais do que as autoridades, está a começar a fazer: é exportar a revolução portuguesa pra Timor. Ao longo de 1974, temos falado muito disso aqui, os grupos militares alinhados com o Partido Comunista e com a extrema-esquerda vão tomar o poder em Portugal e são eles que vão marcar a retirada portuguesa de Timor. Primeiro, numa primeira fase, são os próprios militares que vão incentivar a criação de movimentos políticos no território. Através de contactos entre aquela que é a classe instruída local, que é uma classe sobretudo ligada à administração pública. A administração pública em Timor era toda timorense, quer dizer, não há europeus. 81% dos funcionários eram timorenses. Não é como em Angola, em Moçambique, em que muitos são europeus ou vêm de outros territórios. Ali a administração do Estado português é timorense. E ligados também, esta classe instruída, às Forças Armadas e à polícia local, que também são timorenses, são do recrutamento local timorense. Portanto, a presença europeia é muito pequena. É, sobretudo, uma presença de topo, quer dizer, de dirigentes, de oficiais, no caso das Forças Armadas, de oficiais, de sargentos, no caso dos funcionários, de funcionários do topo. E é aí, entre essa gente, que vai Surgir o estímulo para a organização de partidos. São estimulados estes timorenses integrados na administração ou integrados nas escolas, são estimulados a formar partidos políticos. Surgem três movimentos políticos principais. O mais forte, aquele que aparece primeiro e é o mais forte, é um movimento favorável à continuação da ligação com Portugal. É o primeiro partido que aparece, é um partido favorável à continuação da ligação a Portugal, que é a União Democrática Timorense.

Mas o que significa continuação? Não a independência.

Querem continuar ligados a Portugal com mais autonomia, etc. Mas ligados de alguma fórmula.

Portanto, é uma forma de chegar à independência.

Uma autonomia, que pode significar uma independência de governo, mas ligados a Portugal. Depois surge um outro, por estímulo muito grande dos militares portugueses, à independência mais ou menos imediata, que é a Fretilin, a Frente Timorense de Libertação Nacional. Inicialmente numa versão mais moderada do que vai ter depois. E finalmente aparece um outro partido favorável à integração do Timor Oriental, do Timor português na Indonésia, que é a Apodeti, a Associação Popular Democrática Timorense. E é com estes partidos que as autoridades militares começam a conversar como interlocutores, isto é, exportam para ali o modelo que estão a seguir ou que tinham seguido em Moçambique e que estavam a seguir em Angola. Quer dizer, reunir estes partidos e tentar que estes partidos se acordem num processo de independência. E quando os partidos não chegam a acordo, não há acordo, eles querem coisas muito diferentes, aquilo que o governo em Lisboa faz é impor unilateralmente um calendário do tipo de Angola. Isto é, impor uma data fixa para a independência e através de um processo que previa eleições entre os tais partidos. E o que isso faz? Colocar imediatamente a independência como uma etapa muito próxima, provoca imediatamente uma grande crispação entre os partidos. Eles imediatamente se começam a preocupar com a conquista do poder, com a ideia de: "Os portugueses vão-se embora, vai se criar aqui um vazio de poder, nós vamos tentar ocupar. Quem é que vai ficar com esse poder?". Portanto, essa é uma primeira condição para se começar a criar as condições para aquilo que vai ser a guerra civil. A Apodeti, o movimento favorável à Indonésia, é o mais fraco de todos, porque tem muito pouco apoio em Timor Oriental. Timor Oriental não faz parte do mundo cultural indonésio, que é um mundo muito associado à cultura malaia e também à religião muçulmana. Portanto, o Timor-Leste nem malaios, nem muçulmanos e também obviamente não fala o bahasa Indonésia, isto é, a língua da Indonésia. Portanto, a Indonésia é um mundo estrangeiro para os timorenses. O Luiz Felipe Tomás diz que em Timor, para referir os habitantes do Timor ocidental, os timorenses em 1974 continuavam a usar a expressão de "os holandeses". Eles não diziam os indonésios, diziam os holandeses. Portanto, era um mundo estrangeiro.

Mas a Apodeti era apoiada pela Indonésia, não é?

Muito pouco apoiada pela Indonésia, curiosamente. A Indonésia desconfia da Apodeti, porque a Indonésia desconfia que haja ali algum princípio de separatismo timorense, isto é, que a Apodeti possa fazer parte de correntes políticas que querem uma unificação de Timor, para depois a ilha toda se tornar independente da Indonésia. Portanto, há um separatismo timorense no Timor Ocidental e a Indonésia tem algumas reservas em relação à Apodeti, portanto, o seu apoio não é muito grande. Portanto, é a UDT e a Fretilin, de facto, as forças mais importantes. Agora, a Fretilin e a UDT não se dividem apenas pelo futuro estatuto que Timor deveria ter. Isto é, no caso da Fretilin, independência total, no caso da UDT, manutenção de uma relação a Portugal. Dividem-se também por opções ideológicas muito diferentes. A Fretilin é marxista e torna-se ainda mais marxista no verão depois de 74, quer uma economia estatizada, aquelas coisas todas ligadas a um tipo de conceção soviética da sociedade. E a UDT é conservadora, democrata cristã, quer uma economia de mercado, portanto, querem sociedades muito diferentes e os seus apoios também são bastante diferentes. A UDT tem um apoio maior nos régulos do interior, nas autoridades tradicionais e também na Igreja Católica, e a Fretilin tem, sobretudo, apoio entre os jovens das escolas de Dili.

As elites locais.

Não, elites locais são todos eles. Sim, é os mais jovens, sobretudo. Os líderes da Fretilin estão todos na casa dos 20 anos. O mais velho tem 30 anos, quer dizer, o mais velho de todos. Todos eles, os outros têm 24, 25, 26, é tudo gente muito nova.

E eram antís à Igreja?

Inicialmente tem alguma hostilidade à igreja.

Depois tendo em conta a evolução de Timor, a Fretilin tem uma ligação à igreja.

A Fretilin muda imenso durante este período, mesmo durante este período e depois nos anos seguintes. Os comandos militares portugueses têm um preferido nestes partidos, que é a Fretilin. A Fretilin por ser marxista e portanto fazem em Timor um pouco o que fizeram em Angola em relação ao MPLA, isto é, ajudam muito a Fretilin. E este movimento é reforçado e é esquerdisado ainda mais pelo regresso a Timor dos estudantes timorenses que estavam nas universidades portuguesas. Portanto, o governo Marcelo Caetano tinha dado muitas bolsas de estudo em Timor para timorenses virem estudar para Portugal e há muitos deles que regressam nesta altura e trazem a cultura de extrema-esquerda que existe nas universidades portuguesas nos anos 70 e levam-nas para Timor.

E as tropas portuguesas?

Um dos principais fatores para haver guerra civil não é apenas as diferenças entre os partidos e a desconfiança entre os partidos, sobretudo entre a UDT e a Fretilin, é também o facto de durante este período, as tropas portuguesas estarem a sair de Timor. Isto é, começam imediatamente a sair de Timor. Nós percebemos até certo ponto. Todos aqueles soldados, sargentos e oficiais que estão naquela que é a província mais remota do ultramar português, em 74, muito provavelmente estão cheios de vontade de regressar a casa e vão fazendo pressão para regressar. Há também uma pressão em Portugal para eles regressarem. E aquilo que acontece é que ao longo do ano de 74 as tropas portuguesas em Timor vão ser reduzidas basicamente a umas dezenas de administrativos. Quer dizer, já nem é tropas operacionais, são administrativos, isto é, gente de secretaria, enfim, há algumas tropas ainda, uns restos, mas basicamente é gente de secretaria. E o exército em Timor, portanto o exército português em Timor, já no fim de 74, princípio de 75, é o exército do recrutamento local. E é esse exército do recrutamento local e as polícias, etc, que também são de recrutamento local, que se vão dividir por opções ideológicas, mas às vezes também por opções regionais, porque há regiões em que domina a UDT, há outras regiões em que domina a Fretilin, e portanto as pessoas que vêm dessas regiões tendem a seguir a opinião que é dominante em casa. Portanto há companhias que se passam para a Fretilin, há outras que se passam para a UDT, mas de facto a maioria até se passa para a Fretilin, uma vez que os oficiais portugueses que estão em Timor e que são da orientação do Movimento das Forças Armadas, nitidamente favorecem a Fretilin. E portanto estão criadas as condições, como se costuma dizer, sobretudo a partir de agosto de 1975, para uma guerra civil entre a UDT e a Fretilin, que não é uma guerra como em Angola. Em Angola, a guerra entre o MPLA, a FNLA e a UNITA é apoiada por potências estrangeiras. Aqui não temos um grande envolvimento.

Não há financiamento, sequer.

Não há financiamento, não há interesse sequer, ninguém está a prestar atenção ao que se está a passar em metade de uma pequena ilha ao pé da Austrália, entre as 3000 ilhas da Indonésia, quer dizer, é a última coisa em que toda a gente está a pensar no mundo. O território é demasiado pequeno, é demasiado remoto, parece muito pouco interessante. Quer dizer, qual é o interesse daquilo? Ao contrário de Angola, não é preciso explicar a ninguém o interesse.

Com o problema acrescido, possivelmente, como tu disseste, também não havia colonos. Havia 50 portugueses a viverem aí.

O facto de não haver muitos portugueses, também não há aquela ligação que há do Portugal metropolitano a Angola. E depois só para completar a questão das ligações externas, mesmo os partidos, a Fretilin e a UDT, eram partidos muito recentes, não era o MPLA, a Frelimo, a FNLA, a UNITA, que eram partidos que já existiam há muitos anos, que tinham muitos contactos, que tinham muitos apoiantes. Isto são partidos que tinham nascido há uns meses. Ninguém sabia quem eles eram, basicamente.

Mas apesar de tudo, havia ali dois grandes gigantes, a Indonésia e a Austrália, que tomaram alguma posição, ou não?

Na Austrália, foram sobretudo organizações de extrema-esquerda que dão apoio à Fretilin, dão apoio verbal e gente da Fretilin que estava na Austrália, timorenses, que lhes dão amparo, dão-lhes apoio. A Indonésia é muito ambígua durante este tempo todo. Aparentemente, o governo, sobretudo o presidente Suharto e os seus principais conselheiros, não parecem nada interessados em anexar Timor-Leste. Embora houvesse uma facção militar na Indonésia, talvez um pouco mais expansionista, que tivesse um ideário de expansão da Indonésia, mas a Indonésia também não está interessada num Timor independente. Portanto, não quer anexar Timor, ou não parece interessada em anexar Timor, mas não quer um Timor independente, em grande medida por causa do precedente que isso poderia criar. A Indonésia tem 3000 ilhas.

Mas quando diz que não queria a independência, significa que queria que os portugueses continuassem a mandar?

Queria que continuassem com os portugueses. O que a Indonésia faz publicamente em 75, durante a guerra civil, é constantemente exigir ao governo português que assuma o controle do território Isto está constantemente a exigir ao governo português: "Assuma o controle do território, envie reforços, envie tropa, toma o controle do território". É essa a política pública, pelo menos das declarações públicas da Indonésia. Uma coisa diferente daquilo que se passava nos bastidores.

Mas se em Lisboa era impensável naquele momento mandar tropas.

O governo em Lisboa não tem, as autoridades em Lisboa não têm força para mandar uma companhia deslocar-se da Ajuda para Alcântara, quanto mais mandar uma companhia de Lisboa para Dili.

Mas ainda havia um governador português lá.

Há um governador português, é o governador, o coronel Lemos Pires, que está sempre à espera de pé de reforços, não lhe são enviados reforços e na guerra ele não tem meios, verdadeiramente. Ele acaba por sair de Dili para a ilha de Ataúro. A ilha de Ataúro é uma pequena ilha que fica mais ou menos em frente de Dili, no mar de Dili. Portanto, ele vai pra lá com as poucas dezenas de militares portugueses que restavam, que estavam em Timor. Há muito poucos militares portugueses que ficam em Timor. Um deles é o coronel Magiolo Gouveia, que era o comandante da polícia e que decide ficar, diz que não vai abandonar e depois acaba mais tarde por ser assassinado pela Fretilin durante a guerra civil.

Morre em 75, é isso?

Ainda em 75. É aprisionado pela Fretilin, porque ele tinha manifestado simpatia pela UDT, portanto a Fretilin prende-o. Depois mais tarde, além do maltratar, torturar durante bastante tempo e depois acaba por assassinar. O território fica completamente entregue à guerra entre a Fretilin e a UDT. E é possível que em determinado momento, temos de admitir isso, que os líderes dos partidos tenham perdido o controle dos seus apoiantes mais violentos. Timor tinha um passado de grande violência associada às tradições das guerras entre os vários reinos do território e portanto, há relatos de chacinas de civis levadas a cabo num partido em zonas que são controladas pelo partido adversário. Quando eles chegam lá, não se limitam a matar os militantes do partido contrário, matam também as mulheres, as crianças, toda a gente das populações locais.

Houve muitos mortes nessa guerra civil?

Ninguém fez a contagem, estima-se uns cerca de 2 mil mortos. É aquilo que os próprios admitem. E o número de gente armada entre estes mortos é reduzido. A maior parte são civis, são mulheres, são crianças que foram assassinados. Perante aquilo que é a abstenção portuguesa, Portugal entregou o território à sua sorte. A Fretilin parece começar a ganhar, conquista Dili e é então que a UDT, os seus líderes refugiam-se em Timor Ocidental, no Timor Indonésio, e na prática parecem essa fuga, que são uns milhares de pessoas que fogem, com medo do que lhe possa acontecer para o Timor Indonésio. A Indonésia toma isso quase como um pedido de ajuda, digamos assim. A Indonésia, de facto, não estava interessada na independência de Timor e ainda está menos interessada no estabelecimento de um Estado marxista independente em Timor, como seria aquele que a Fretilin, se tomasse o poder, iria estabelecer em Timor. Porque a Indonésia teme que esse Estado pudesse vir a ser apoiado pela China comunista. Ora, a ditadura indonésia tinha-se estabelecido em 1965 com um enorme massacre de chineses. Meio milhão massacrados quando o general Suharto tomou o poder. Tem péssimas relações com a China e teme que a Fretilin, marxista-leninista, declare um Estado independente em Timor-Leste e passe a ser apoiado pela China. E a Indonésia não está disponível para aceitar isso. E a partir de setembro, começa a intervir ainda encapotadamente na guerra civil em Timor.

Muito bem, Rui, que infiltração foi essa?

Eles inicialmente começam por infiltrar militares indonésios, mas militares indonésios e ainda disfarçados de guerrilheiros. Isto é, como se fossem guerrilheiros da UDT ou antes de uma frente que depois a UDT foi obrigada, já no Timor Ocidental, onde estava refugiada, a fazer com a APODETI, uma espécie de frente anticomunista a combater a Fretilin, mas de facto eram em grande medida já tropas da Indonésia. A Fretilin, a 28 de novembro de 1975, toma a decisão de avançar para uma declaração unilateral de independência. E por quê?

Não havia uma data marcada?

Não, ainda não havia. Em grande medida porque a Fretilin estava na expectativa de vir a ser reconhecida por Portugal como a única representante do povo timorense. Estava na expectativa de vir a ser reconhecida como único representante do povo timorense, se os militares alinhados com o PCP e a Estalinhaca tivessem o poder em Portugal. Ora, em 25 de novembro Eles perderam esse poder. Portanto, a declaração de independência da Fretilin, de 28 de novembro de 1975, tem muito a ver com o 25 de novembro em Portugal.

Não é uma coincidência.

Eles perceberam: "Não vamos ter apoio de Portugal, isto mudou em Portugal, agora são outros militares que estão no poder em Portugal, não são simpáticos à nossa causa e não vale a pena estar à espera deles e, pelo contrário, até é melhor declararmos já a independência antes que eles arrumem a casa em Portugal e voltem a Timor". Por outro lado, como está também na prática, no que é já efetivamente uma guerra com a Indonésia, a declaração da independência também pode ter sido talvez um meio de internacionalizar o conflito de Timor, isto é, de obrigar a Indonésia a reconhecer que está a invadir um outro país, um país independente.

Mas essa estratégia não corre bem.

Não corre nada bem.

A Indonésia invade, mas aí já explicitamente.

A Indonésia consulta primeiro, isto sabemos depois, consulta primeiro os Estados Unidos e a Austrália pra saber o que é que pode fazer. A Indonésia não está muito interessada em entrar em confronto com o Ocidente. Depende financeiramente, até está do lado ocidental, até porque é um inimigo da China comunista, portanto, precisa do apoio do Ocidente e sobretudo dos Estados Unidos. Aquilo que apresenta aos Estados Unidos e à Austrália é: Portugal abandonou Timor, Timor está entregue a uma guerra civil. Há a possibilidade de um partido comunista extraordinariamente violento, que é a Fretilin, tomar lá o poder, estabelecer uma ditadura horrível comunista apoiada pela China. O que é que os Estados Unidos e a Austrália achariam se nós, indonésios, impedíssemos isto de acontecer e salvássemos o território de cair naquelas mãos? E o que deve ter, provavelmente, não explicitamente, mas implicitamente, é que se a operação militar tiver esse objetivo, isto é, restabelecer a ordem, impedir a Fretilin de tomar o poder, sim, podem avançar.

Os Estados Unidos sim, mas a Austrália também.

E a Austrália também. E é assim que a Indonésia, a 7 de dezembro de 1975, avança para uma invasão formal, uma ocupação de Timor Oriental, do Timor português, dizendo que respeita a soberania portuguesa e que só vai intervir por ter uma guerra civil. É mais uma vez uma espécie de intervenção como em 1942, aquelas invasões australiana e japonesa, que entram em Timor sempre dizendo que vão respeitar a soberania portuguesa e que vão apenas manter a ordem e expulsar aqueles que lá estão a fazer a guerra civil.

E o governador Lemos Pires ainda por lá andava?

Ainda está em Atauro, ainda está lá na ilha. Já está fora de Timor, da ilha principal. O Luiz Felipe Thomaz tem uma análise interessante. Ele diz que um dos problemas que houve aqui foi, de facto, que o governo português reagiu de uma maneira muito agreste à invasão de Timor. Aliás, há dois problemas, esse é o primeiro. Isto é, o governo português corta imediatamente relações diplomáticas com a Indonésia. Por exemplo, o Luiz Felipe Thomaz acha que o governo português devia ter mantido e devia ter aproveitado até o facto da Indonésia ainda não estar a reivindicar o território e ter dito: "Sim, senhor, então se estão a fazer isto, mas nós vamos enviar tropas já a seguir e os senhores retiram imediatamente a seguir". Mas não, cortou imediatamente relações com a Indonésia e os indonésios ficaram chocados, aparentemente ficaram um pouquinho perturbados com isso, também não estariam à espera. Mas sobretudo, e esse é que é o problema principal, é que a operação militar indonésia não corre bem. A Indonésia não consegue verdadeiramente submeter a Fretilin. A Fretilin aproveita o relevo do Timor Oriental, tal como os australianos em 1945 tinham aproveitado também contra a invasão japonesa. É um território em que é muito fácil pra uma força retirar-se para as montanhas. Montanhas enormes, há montanhas de mais de 3 mil metros no Timor Oriental, são montanhas enormes. As vias de circulação eram muito deficientes, portanto, era muito fácil retirar-se e quem estava na costa ter dificuldade de entrar no interior para impor a sua autoridade. É isso que a Fretilin faz. A Fretilin leva, aliás, milhares de civis, tira quase a população da costa e leva para as montanhas, para impedir que a população também fique sob o domínio da Indonésia. É aí que leva imensos reféns também, isto é, prisioneiros políticos, digamos assim, e que os vai fuzilar durante esse caminho, centenas.

Mas membros da UDT?

Centenas, não sabemos, da UDT, sim. Entre os quais o Majiél Goveia. É nesta altura que ele é morto, em dezembro de 1975. E a verdade é que o exército da Fretilin, que basicamente é o exército português local, são as Forças Armadas Portuguesas de recrutamento local, é muito eficaz em conter a Indonésia. Era um exército que, de facto, até estava bem treinado e mesmo sem os seus oficiais portugueses ou europeus, consegue trocar as voltas às Forças Armadas indonésias, repito, com as armas que já tem Aproveitando o relevo, mas não tem apoio do exterior. Não estamos numa guerra de guerrilhas em que houvesse uma fronteira a partir da qual a Fretilin pudesse atuar. Está no mar, está isolada, mas consegue durante uma série de meses, contestar o controle de Timor-Leste pela Indonésia, o que é uma espécie de vexame para a própria Indonésia. Esta grande potência da Ásia não é capaz de controlar aqueles 15 mil quilômetros quadrados com cerca de meio milhão de habitantes. E a Indonésia é mais tarde, em 1977, 1978, que vai lançar grandes campanhas militares com mais de 50 mil homens. Vai ter que pôr um exército grande no Timor-Leste para tentar tomar controle do território. E aí vai usar de uma violência extraordinária. Os indonésios vão fazer bombardeamentos maciços nas zonas de acumulação de população, vão destruir colheitas pra provocar fomes, de maneira a levar a população a ter de se entregar, a ter de se render. E portanto, o número de mortos é muito elevado. A estimativa mais baixa de todas é de cerca de 100 mil mortos, numa população de cerca de meio milhão, portanto quase 20% da população.

Isso é inacreditável.

20 mil terão sido mortos diretamente pelas tropas indonésias, que agem com uma violência incrível, e outros 80 mil, provavelmente, de fomes e doenças, mas que são resultado das operações indonésias. Os indonésios tiveram cerca de 2 mil mortos também nas operações militares. Isto revela a violência dessa campanha. A Indonésia, finalmente, só a 17 de julho de 1976 é que vai decidir anexar Timor como uma província da Indonésia. Os governos portugueses nunca vão reconhecer a anexação de Timor pela Indonésia e a Organização das Nações Unidas também não. Portugal continua a ser a potência administrante, em termos internacionais, de Timor. Portanto, a Indonésia nunca consegue fazer admitir pelas Nações Unidas que Timor é parte da Indonésia. E em Portugal, embora haja muita gente que comece nos anos 70, nos anos 80, a dizer: "Temos de acabar com isto, não vale a pena continuar com este conflito com a Indonésia". Isto faz quase parecer uma situação de Goa. Goa é ocupada pela União Indiana em 1961. O governo do Estado Novo nunca admitiu isso e durante 13 anos andou sempre a protestar contra a ocupação de Goa.

É que não havia guerrilha sem Goa.

Estamos a fazer a mesma coisa, mas havia pessoas que tinham protestado, havia muita gente que tinha saído de Goa por causa da ocupação da Índia. Nós estamos aqui a fazer a mesma coisa. Mas os governos portugueses, de facto, não cederam. E eu acho que não cederam em grande medida porque Timor serviu, depois de 1975, 76, como um recurso para as elites portuguesas expiarem a culpa da descolonização. Há uma grande sensação de culpa a partir de 75, 76, quando se percebe que de facto aquilo que Portugal tinha feito tinha sido abandonar aqueles territórios a ditaduras de partido único e a guerras civis e a invasões estrangeiras. E no caso de Timor há uma espécie de: "bem, aqui ainda nos podemos redimir, não vamos aceitar esta situação. Vamos tentar que não seja assim. Vamos tentar ainda fazer qualquer coisa". E é isso que Portugal depois vai conseguir fazer, porque a partir de 1986, como membro da Comunidade Económica Europeia, passa a ter muitos recursos pra complicar a vida à Indonésia. Porque o mercado comum é muito importante como parceiro comercial e a partir desse momento Portugal pode começar a bloquear acordos, o acesso da Indonésia aos mercados europeus, aos mercados da Europa Ocidental. É óbvio que é fundamental que a população de Timor-Leste nunca se conformou com a ocupação indonésia, e provocou incidentes como o massacre do Cemitério de Santa Cruz em 1991, que colocou Timor nos noticiários internacionais outra vez, depois de anos de estar esquecida. E quando a ditadura indonésia, sob o impacto da crise financeira da Ásia em 1997, a ditadura indonésia se desfaz em 1998. Timor volta a estar em causa, até porque nesse momento a Austrália muda de política em relação a Timor. Deixa de aceitar a anexação pela Indonésia e faz pressão junto do novo governo indonésio, que quer democratizar a Indonésia para então ouvir a população do antigo Timor português sobre a vontade de querer ficar na Indonésia ou não. A Austrália inicialmente propôs que pudesse haver um referendo no prazo de 10 anos, em 1998, mas o governo indonésio estava tão atrapalhado com tantas coisas que diz: "Não, não vai ser 10 anos, vai ser já". E foi o referendo de 1999, em que mesmo sob a pressão de milícias muito violentas pró-indonésias, a população maciçamente votou pela independência, que vai acontecer em 2002 e que é o fim da descolonização portuguesa, verdadeiramente. O processo de descolonização portuguesa que tinha começado em 1974 e que acaba em 2002. E acaba então por aquela via pela qual, por exemplo, o general Spínola sempre tinha dito que deveria ser conduzida a descolonização. Isto é, com um referendo, com eleições e com a entrega do poder no território a um governo democraticamente eleito. O único caso em que aconteceu verdadeiramente foi o Timor, mas em 2002, não foi em 1964 nem em 75.

Demorou 25 anos.

E depois de uma história incrivelmente trágica e, repito, desnecessária, não tinha de acontecer, mas aconteceu.

Muito bem. E assim termina esta edição de "E o Resto é História". Voltamos pra semana. Até lá.

E o resto é história. É a terra a fumar do incêndio que lava ainda na zona do Chiado. Aqui, depois de ter passado o movimento das pontas de lá. Quer transformar este país numa ditadura.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.