Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
E o resto é história.
É a terra fumar.
Do incêndio em Coimbra, ainda na zona do Chiado. Que faz um filho, fá-lo por amor. Vinho vermelho, cálice do corpo, pão do amor. Quer transformar este país numa ditadura.
Não, não.
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, seja bem-vindo a este episódio 275 de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Tal como se temia, o conflito israelo-palestiniano evoluiu de novo para o Líbano, um país que desde meados da década de 1970 até os dias de hoje viveu um turbilhão de conflitos, de guerras civis, de massacres étnicos e religiosos. E, no entanto, tempos houve em que o pequeníssimo Líbano, o Líbano é do tamanho do distrito de Beja, mais coisa menos coisa, era apresentado como um exemplo de prosperidade económica e de convivência pacífica entre diversas comunidades e religiões. É um país com uma história extraordinária, que já foi de fenícios e de assírios, de gregos, de romanos e de persas, de cristãos bizantinos e de turcos otomanos, e que desde o fim da Primeira Guerra Mundial até à década de 1940, foi um protectorado francês. Tudo se começou a perder com a guerra civil de 1975 e nada realmente se voltou a recompor desde então. Não espanta, por isso, que o ouvinte Diogo Martins nos tenha enviado um e-mail, já conhece o nosso endereço historia@observador.pt, a pedir para falarmos sobre a fascinante história do Líbano, deixando-nos a seguinte pergunta: como é que um país que já foi considerado a Suíça do Médio Oriente, e acrescento eu, a sua capital, Beirute, a Paris do Médio Oriente, como é que esse país se transformou num Estado falhado? Realmente, isto é de facto uma tragédia, Rui, e como é que essa tragédia aconteceu?
Aconteceu como acho que era o Hemingway dizia que as bancarrotas aconteciam. Quer dizer, primeiro devagar e depois muito de repente. Primeiro devagar, entre a década de 1940 e os anos 1970 e depois de repente em 1975. No atual, naquilo que hoje é o Líbano, existiram grandes cidades comerciais na antiguidade, as cidades fenícias mencionadas na Bíblia, Tiro, Sidon, Tripoli e Biblos. Agora, para compreender o Líbano do nosso tempo, acho que vale mais a pena começar pela geografia do que por essa história. A comparação com a Suíça tem essa base geográfica.
Não é por causa dos chocolates.
Não, o Líbano é uma região montanhosa com uma cadeia de montanhas muito altas, mais altas do que a Serra da Estrela, com picos de 3000 metros de altitude, neves permanentes, florestas de cedros, quer dizer, e é isso que dá aquele aspeto de Suíça ali do Médio Oriente. Mas essas montanhas são fundamentais para perceber a história do Líbano, porque tal como no caso da Etiópia, de que falámos aqui há uns programas atrás, as montanhas permitiram, quando o Islão conquistou o Médio Oriente e o norte de África, a partir do século VII depois de Cristo, as montanhas permitiram a sobrevivência de comunidades cristãs nessa região. E permitiram que essas comunidades cristãs fossem a maioria da população até ao século XX. Isto é, mesmo numa zona como o Médio Oriente, completamente dominada pelo Islão, ali naquelas montanhas, as comunidades cristãs, porque aquilo é fácil de defender, é mais remoto, de acessos mais difíceis. Portanto, as comunidades cristãs mantiveram-se ali como a maioria da população até ao século XX. Em 1931, que é o último recenseamento da população do Líbano, e já vamos falar porque é que é o último recenseamento.
Em 31.
Em 31. Mais de 50% da população era cristã no Líbano.
Portanto, há 20 anos que eles não fazem um recenseamento.
Não, e isso tem razões políticas. Na sua maioria, estes cristãos eram cristãos ditos maronitas, por terem sido convertidos por um ermita chamado Maron no século V. Mas ao contrário, e isto é outra especificidade desta cristandade do Líbano, ao contrário da maior parte das igrejas cristãs do Médio Oriente, esta igreja maronita está em comunhão com a igreja de Roma. Portanto, eles são católicos maronitas, é assim que eles são conhecidos. Portanto, um maronita pode participar numa missa católica, se por acaso não houver uma igreja maronita, ele é livre de ir a uma igreja católica. Como é que eles se distinguem? Distinguem-se por estarem em autogoverno, portanto, é uma igreja que está sob a autoridade de um patriarca, como as igrejas ortodoxas vizinhas do Médio Oriente, e tem também, como essas igrejas ortodoxas vizinhas, tem uma forte componente monástica, isto é, os monges são uma grande parte da igreja, são monges. Quer dizer, portanto, é uma igreja monástica, digamos assim. Desde o século XVI até ao século XX, o Líbano esteve integrado no Império Otomano, que nós hoje também chamamos os turcos, quer dizer, mas de facto é o Império Otomano, como todo o Médio Oriente. Mas os próprios otomanos reconheceram a excepcionalidade do Líbano em 1861, portanto, no século XIX, ao dar autonomia à sua população cristã, com um governador cristão, é o chamado Mutasarrifate do Líbano. Portanto, o Mutasarrifate é uma zona de autogoverno
Isso perdurou até quando?
Até à Primeira Guerra Mundial. Os otomanos fizeram isso obviamente sob pressão das potências ocidentais, sobretudo da França, que desde o século XVII se quis oferecer como a protetora dos cristãos do Médio Oriente. A França tinha boas relações com o Império Otomano e disse: "Vamos proteger os cristãos e os cristãos maronitas, que ainda por cima são católicos", interessaram mais à França. As montanhas permitiram a estas comunidades cristãs não só sobreviver, mas adquirir autonomia. Mas as montanhas não protegeram só os cristãos, protegeram também outros grupos, como por exemplo os xiitas. Também é uma zona com muitos xiitas. O Império Otomano é sunita, mas ali nas montanhas os xiitas também sobreviveram. E um movimento religioso mais ou menos secreto, sobre o qual há uma discussão sobre onde situá-lo, chama-se os drusos. É uma evolução a partir dos xiitas, mas há dúvidas sobre se eles ainda são muçulmanos. Aquilo evoluiu de tal maneira que o que eles são exatamente, há discussão sobre isso. Alguns tratam-nos como muçulmanos, outros acham que eles já não são muçulmanos. É um movimento religioso muito característico do Líbano e também um bocadinho na Síria e no norte de Israel. No tal recenseamento de 1930 não chegavam a 10% da população, mas ainda significativo. Com a Primeira Guerra Mundial, 1914, 1918, no princípio do século XX, acaba o Império Otomano, e as suas províncias do Império Otomano no Médio Oriente são entregues à administração da Inglaterra e da França. Da Inglaterra já sabemos o problema do mandato da Palestina. E a França ficou com a Síria.
Já falámos disso aqui.
Já falámos. A França ficou com a Síria, incluindo o Líbano. E a França, no Líbano, começou imediatamente a favorecer a comunidade cristã. Em 1926, a França estabeleceu uma república libanesa sob a proteção da França, um protetorado, com a capital em Beirute. Aparece Beirute como a capital do Líbano, e que deu a independência em 1943. O general de Gaulle, a França Livre, deu a independência ao Líbano em 1943. Aliás, sob pressão dos movimentos independentistas no próprio Líbano. E isso é confirmado em 1945, com o fim dos mandatos da Sociedade das Nações no Médio Oriente, o mandato francês e o mandato inglês. O fim do mandato inglês vai dar origem ao nascimento do Estado de Israel. O fim do mandato francês dá origem também a este Estado do Líbano, a esta República do Líbano independente desde 1943. E há uma relação entre o Líbano e Israel. Numa zona em que os Estados são Estados de maioria muçulmana, os grandes Estados, Síria, Jordânia, Egito, Iraque, são Estados de maioria muçulmana, o Líbano e Israel são Estados pensados para as grandes minorias religiosas que existiam nesse momento no Médio Oriente, que é os cristãos e os judeus. Israel é o Estado dos judeus e o Líbano é, no Médio Oriente, o Estado dos cristãos. São Estados muito pequeninos. Como disseste, o Líbano é do tamanho do distrito de Beja, 10 mil km quadrados. Israel também é pequeniníssimo, tem 20 mil km quadrados. Quer dizer, é também um Estado muito pequenino, são duas Bejas. A ideia inicial é o Líbano ser o Estado dos cristãos e Israel ser o Estado dos judeus no Médio Oriente. Os cristãos não são toda a população do Líbano, já disse, há xiitas, há drusos, também há sunitas, obviamente. Os cristãos, para manterem o controle do Estado libanês, entendem-se com os drusos, com quem tinham tido conflitos no século XIX. De fato, estes conflitos que vão surgir em 1975, como vamos ver, têm origens anteriores. Já havia vários sinais anteriores que as relações entre as várias comunidades religiosas podiam descambar. Agora, os cristãos entendem-se com os drusos, embora deixem lugar aos muçulmanos.
Mas quando o Líbano arranca, ou seja, quando se torna independente, não avança como uma democracia? Como é que funciona politicamente?
Não é uma democracia, é uma república. Há um entendimento entre os cristãos e os muçulmanos. Repare que os muçulmanos estão divididos entre sunitas e xiitas, isso permite logo aos cristãos uma margem de manobra. Os cristãos também estão divididos em várias seitas. Os maronitas, os gregos ortodoxos e outras.
E o voto era religioso, é o que tu estás a dizer?
Não, as comunidades tendem a votar maciçamente pelos seus representantes. Há ali um grande tribalismo político, não é só religioso, é também pessoal, clãs, falaremos disso. Mas há um arranjo, um entendimento entre os líderes das várias comunidades. Como? O presidente da República devia ser sempre cristão. É um entendimento, o presidente da República é sempre cristão.
Cristão maronita.
Cristão maronita. O primeiro-ministro é um muçulmano sunita. E o presidente do Parlamento é um xiita E o vice-presidente do Parlamento é um cristão ortodoxo.
Também havia.
Também há muitos cristãos ortodoxos. É assim que está dividido para todas as comunidades terem alguém na estrutura do Estado com quem se identifiquem.
Imagino que fosse um acordo informal, não é?
É um acordo informal, mas foi respeitado desde sempre. Isto é respeitado.
Mas o que unia essas pessoas todas para se chamar isso um país?
O que unia? A língua árabe e a ideia de que eles são todos árabes. Eles são cristãos, xiitas, sunitas, druzos, mas são árabes. Usam a língua árabe, são árabes. O Líbano aparece como um Estado árabe e por isso, por exemplo, em 1948, apesar das suas origens, é um dos Estados que vai participar na guerra contra Israel, na tentativa de destruir Israel. Logo em 1948, o Líbano participa como um Estado árabe, apesar de ter a maioria da população cristã.
E não havia judeus no Líbano?
Havia poucos. Havia alguns. Havia judeus em todos aqueles outros países do Medio Oriente, depois têm que fugir pra Israel, 600 mil judeus que vêm dos outros países para Israel. O que diferencia o Líbano além desta maioria cristã? O que diferencia o Líbano, em grande medida, nos anos 40, 50, 60, princípio da década de 70, é a liberdade. Por causa destas comunidades, destas diversidades, aquilo é livre. É, por exemplo, o único país do mundo árabe que tem uma imprensa verdadeiramente livre. A imprensa do Líbano tem uma importância enorme no Medio Oriente. O público dos outros países árabes lêem os jornais do Líbano para saber o que se está a passar no Egito. Os egípcios leem os jornais do Líbano, os jordanos leem os jornais do Líbano, são países onde a imprensa é censurada e a imprensa árabe, em língua árabe do Líbano, é a imprensa livre que circula no Medio Oriente. Beirute é também um dos grandes centros editoriais, precisamente pela liberdade, a publicação de livros a par do Cairo no Medio Oriente, é o segundo maior centro de produção de livros. Beirute é um grande centro intelectual, é um grande centro de cafés literários, grupos literários, precisamente pela liberdade que se vive no Líbano e pelo seu aspecto cosmopolita. Isso tem a ver também com o fato de Beirute ser a sede de importantes universidades privadas, fundadas por missionários europeus e americanos no século 19, como são a Universidade Americana de Beirute, que é fundada em 1866. Ainda no tempo dos otomanos, os missionários protestantes americanos obtiveram licença pra fundar uma universidade em Beirute e depois os missionários católicos franceses também obtiveram licença para fundar uma universidade em Beirute. Fundaram a Universidade de São José de Beirute. E estas duas universidades, uma ensinando em inglês e outra em francês, tornaram-se os grandes centros de formação das elites políticas do Líbano e também de uma grande parte do Medio Oriente. Era chique mandar os filhos para estudar nestas universidades.
Já não existem as duas?
Ainda existem, ainda são das mais importantes universidades do Medio Oriente, sobretudo esta Universidade de São José de Beirute em francês. Aliás, uma grande parte da elite política do Líbano, ainda hoje, sobretudo os cristãos, falam francês entre eles e usam até mais o francês do que o árabe. Até mesmo dentro das famílias têm uma tendência para usar o francês.
Para um ocidental, tu estás a fazer uma descrição de um paraíso no Medio Oriente. O que se passou?
Era, daí vem a ideia da Suíça do Medio Oriente. Depois também tinha um setor bancário muito interessante, mais uma comparação com a Suíça. Havia várias fortunas do Medio Oriente que estavam sediadas no Líbano, porque parecia um país seguro, comparado com outros países onde havia tiranias e os governos podiam a qualquer momento expropriar e confiscar contas bancárias, etc. No Líbano, tirando a Suíça, era um sítio seguro. O que é que correu mal?
Exato, o que é que se passou?
O que é que correu mal? Este arranjo de poder começou a se desfazer e há duas grandes razões para isso. A primeira é uma grande transformação da sociedade libanesa. Por um lado, desde o século 19 que os cristãos maronitas começam a emigrar pro Ocidente, pra América, pros Estados Unidos. Há um grande fluxo migratório destes cristãos. Por exemplo, hoje em dia há mais cristãos maronitas fora do Líbano do que no Líbano. Por exemplo, só nos Estados Unidos são dois milhões de cristãos maronitas que vivem nos Estados Unidos. Os cristãos começam a emigrar muito e os muçulmanos têm uma elevada natalidade. O que isso quer dizer? Quer dizer que a composição da população começa a mudar a favor dos muçulmanos. Aliás, é a razão pela qual não há recenseamento desde 1931. Eles não fazem recenseamento da população para manterem os arranjos iniciais, para aquilo não ser mudado. Mas obviamente, as informações que toda a gente tem, a partir de estudos, sondagens, é que as coisas mudaram muito. Por exemplo, em meados dos anos 80, há um estudo que indica uma mudança. Eu disse há pouco, os cristãos 50%. Este estudo de 1986 diz que os cristãos já são só 24%. E os xiitas são 41%, e os sunitas são 27%, os druzos 7%. Os muçulmanos a maioria e os xiitas, o maior grupo dos muçulmanos, sabendo-se que os xiitas são a população mais pobre do Líbano. Isto de repente é a maioria nos anos 70. Isto é um estudo dos anos 80, mas já deve refletir uma situação que já vem dos anos 70. Portanto, quando se chega aos anos 70, de repente há uma situação em que o grupo dominante no Líbano, que era a maioria nos anos 30, já não é a maioria nos anos 70.
Pronto, e alguma coisa de mal vai acontecer aí, mas vai ter que ficar para a segunda parte. Nós chegamos ao final do tempo desta primeira parte. Voltamos já a seguir. Até já. Olá, seja bem-vindo de volta a esta segunda parte de "E o Resto é História". Estamos a falar da história do Líbano e ficamos naquele ponto em que as coisas começam a correr mal. Estava tudo muito bonito, estávamos na Suíça do Médio Oriente, até que surge a década de 70, 75. Era isso que vais falar ou ainda estás no mesmo ponto?
Eu falei das causas, a mudança da composição da população do Líbano, isto é, o equilíbrio entre as várias comunidades religiosas mudou demograficamente. Mas não foi só isso, não foi só a mudança da população. Só isso, aliás, não chega pra explicar o conflito a partir de 1975. É que no Líbano, como no resto do Médio Oriente, nos anos 1950 e 1960, a população explodiu completamente. Em 1930, há 860 mil pessoas naquilo que é o Líbano. 860 mil é a população. Em 1950, 1,4 milhões. Em 1980, 3 milhões. Isto é, a população vai duplicando a cada 20 anos. Hoje são 7 milhões, quer dizer, está a duplicar. Estamos a imaginar o distrito de Beja, mas com 7 milhões de habitantes hoje em dia. Em 1980 tinha 3 milhões.
Ficava apertado.
E depois não ficou só apertado porque a população não está igualmente distribuída por todo o território, é que a população está a se concentrar nas cidades e sobretudo a concentrar em Beirute. Beirute tem metade da população do Líbano. Isto é, em 1980, destes 3 milhões, metade estão a viver em Beirute. Hoje em dia, dos 7 milhões, metade está em Beirute. O que isso quer dizer? Quer dizer que cristãos maronitas, drusos, muçulmanos xiitas, muçulmanos sunitas, quando estavam no campo, quando estavam nas montanhas, digamos assim, eles estavam em aldeias separados uns dos outros. Havia aldeias sunitas, havia aldeias xiitas, havia aldeias maronitas, havia aldeias drusas, com os seus territórios todos separados. De repente, eles estão todos misturados em Beirute e todos a tentar tornar homogêneas as áreas onde estão, isto é, a tentar construir os seus bairros. Há condições para choques e conflitos numa espécie de novo território onde cada uma destas comunidades está a tentar instalar-se e estabelecer o seu poder, e até um poder que interessa, porque o Líbano funciona como uma democracia, portanto interessa-lhes eleger deputados, ter zonas homogêneas para terem garantia que são eles que elegem o deputado que representa aquela zona e não outras comunidades confessionais que possam lá entrar. Começa-se a constituir a possibilidade de um conflito. E além disso, além dessa mistura, é também a estrutura etária da população. Nos anos 80, em 1983, que é quando nós conhecemos, 41%, portanto quase metade da população de Beirute, que é metade da população do Líbano, tem menos de 20 anos. Nós estamos a falar de uma população extraordinariamente jovem, onde a maior parte das pessoas estão desempregadas ou vivem daquele tipo de empregos das zonas urbanas do Médio Oriente, pequenos trabalhos, de transportes, colaborar com o comércio, uma espécie de semiemprego e de economia informal. É gente muito jovem, sem empregos fixos e que obviamente é a matéria-prima de um conflito militar, porque é muito fácil recrutar soldados combatentes numa população destas. De repente, nós já temos aqui condições nesta evolução demográfica do Líbano pra permitir perceber por que é que a partir de 1975 há aquela explosão. E depois há uma segunda razão.
Certo.
E essa razão está fora do Líbano. Isto é uma razão exterior ao Líbano. Ou antes, está fora do Líbano e entrou dentro do Líbano. O Líbano é também afetado pela migração de árabes da Palestina. Isto é, depois da constituição do Estado de Israel, há uma saída de árabes da Palestina, os que depois vão ser chamados de palestinianos. E como noutros países da zona, como na Jordânia, no Egito, na Síria, estes árabes que vêm da Palestina não são integrados pelas sociedades, pelos países por onde imigram. Isto é, eles são mantidos à parte.
Nos famosos campos de refugiados.
É, campos de refugiados, que nós imaginamos como campos de tendas e não são nada, são bairros com prédios, etc. Só que por que eles são refugiados? Porque não lhes é dada a nacionalidade dos países onde estão, ainda hoje, ao fim de 80 anos, não lhes é dada a nacionalidade dos países onde estão. Portanto, são mantidos ali e são mantidos artificialmente pelas Nações Unidas, que os mantêm, uma espécie de alimento, trata-os como refugiados, verdadeiramente. E o Líbano faz a mesma coisa, não integra esta população, mantém-nos em guetos, em Beirute também A maior parte deles estão em Beirute também, em grandes bairros palestinianos sustentados pelas Nações Unidas. São hoje meio milhão, é muita gente nestes bairros. E a partir da década de 70 eles tornam-se a principal base das organizações armadas palestinianas, que tinham sido expulsas, tinham a base principal na Jordânia até 1970. A OLP e as componentes da OLP, a Fatah, a FPLP, etc, são expulsos da Jordânia em 1970 num processo de grandes massacres de palestinianos na Jordânia para expulsar precisamente estas organizações armadas e eles instalam-se no Líbano. E o instalar-se no Líbano quer dizer que a OLP começa a formar exércitos privados no Líbano, em Beirute. Um exército, milhares de homens armados, têm artilharia pesada, têm tanques, é um exército mesmo pra atacar Israel a partir do Líbano.
Mas como é que as autoridades do Líbano deixam que isso acontecesse?
Não têm força. Na Jordânia, estas organizações palestinianas armadas tiveram de ser expulsas à força. E depois estas organizações palestinianas armadas têm o apoio de vários países árabes e o governo do Líbano não é apenas entrar em choque com estas organizações palestinianas, é também entrar em choque diplomático com os países que as apoiam. Mas há uma outra razão pra isso. É que estas organizações armadas palestinianas começam a apoiar os muçulmanos do Líbano para fazer pressão contra os cristãos. No Líbano o governo está dividido perante estas organizações armadas. Mas o que isto faz? A presença destes exércitos privados palestinianos no Líbano, além de criar uma zona de confronto com Israel, isto é, de incursões israelitas, porque eles fazem incursões em Israel, depois Israel faz incursões no Líbano, de repente o sul do Líbano torna-se uma zona de confronto, como é hoje, com Israel. A presença destes exércitos privados o que faz é militarizar a política no Líbano. Isto é, os outros partidos políticos libaneses começam também a constituir milícias armadas para lidar em Beirute. Porque repare, nós temos os exércitos privados palestinianos a dar apoio aos muçulmanos contra os cristãos, para os muçulmanos expulsarem os cristãos dos bairros e os cristãos obviamente começam a se organizar militarmente também para resistir e para combater os palestinianos. Como se isso não bastasse, há ainda uma outra potência muito interessada no Líbano, que é a Síria. A Síria faz fronteira com o Líbano no norte, é o vizinho do Líbano pelo norte, o Líbano tem fronteira com a Síria e com Israel. A Síria admite mal a independência do Líbano. O governo sírio acha que o Líbano é parte da Síria. O sonho de anexar o Líbano foi sempre um sonho do governo sírio.
Sendo que a maioria na Síria é sunita.
Não, a maioria da população na Síria é sunita, mas o governo é xiita. É de uma seita xiita, os alauítas, que também existem no Líbano. E o governo da Síria começa a apoiar também os muçulmanos e a incentivar os muçulmanos no Líbano para eles porem em causa o estatuto. Já temos aqui dois fatores, por um lado, a mudança da composição da população no Líbano, a sua urbanização e a sua concentração em Beirute e depois organizações armadas palestinianas e o governo sírio a incentivar os muçulmanos para se afirmarem no Líbano. E claro, também está a acontecer outra coisa. Os inimigos dos meus inimigos tornam-se meus amigos. Os cristãos do Líbano começam também a entender-se com Israel contra os palestinianos.
Certo. Está preparado o ambiente feito pra uma guerra civil.
Este é o ambiente feito pra em 1975, uma guerra civil que vai durar 15 anos, até 1990, e começa com o assassinato de cristãos por milícias muçulmanas. Os cristãos respondem com massacres de muçulmanos por milícias cristãs. Isto não era completamente novo, já tinha havido uns meses de guerra civil em 1958, quando tinha havido uns muçulmanos inspirados nessa altura pelo nacionalismo árabe do coronel Nasser, o presidente do Egito, tinham tentado um golpe de Estado no Líbano pra tomarem o poder no Líbano. Tinha havido uns meses de guerra civil, mas depois tinha sido contido. Mas a partir de 1975 é a desagregação do Líbano. O Líbano divide-se em exércitos privados, exércitos cristãos, exércitos drusos, palestinianos, claro, também sunitas e xiitas, cada um deles dividido em fações e em guerra uns com os outros. Todos em guerra, mais ou menos, aliando-se uns aos outros, em guerras uns com os outros. Os principais exércitos são as forças libanesas, que são cristãs, do Pierre Gemayel, que é um dos grandes líderes cristãos. Aliás, o Pierre Gemayel é o líder do Partido das Falanges, que é a principal componente destas forças libanesas. Esta é a frente militar cristã. E depois há o Movimento Nacional Libanês, que é druzo, que é dominado pelos drusos de Kamal Jumblat. Isto eram nomes que em 1976, 77, todos os leitores de jornal em Portugal conheciam. Gemayel, Jumblat, havia entrevistas com eles quase todos os dias, declarações deles. O Movimento Nacional Libanês, dos drusos. Havia a OLP, Organização de Libertação da Palestina de Yasser Arafat, uma das principais componentes deste conflito, porque era uma das principais organizações, talvez até a maior força armada que existia no Líbano. E depois havia o Movimento Independente Nasserista, ou Al-Murabitun, que era sunita, era a força principal sunita. E depois vai aparecer durante a guerra civil os Batalhões da Resistência Libanesa Que são conhecidos como Amal e que são os xiitas, a principal força xiita, militar xiita. Eu estou a falar de sunitas, xiitas, mas não são pura e simplesmente religiosos. Eles são religiosos, mas são também grandes famílias, grandes clãs. Por exemplo, o Pierre Gemayel das forças libanesas é de uma grande família dominante cristã do Líbano, tal como o Kamal Jumblatt. Os Jumblatt são uma das grandes famílias drusas, um clã daqueles clãs que já desde o século XVII, XVIII domina as montanhas, uma espécie de uma tribo chefiada por esta família que domina.
Mas estão todos em luta uns com os outros?
E todos em luta uns com os outros e com o patrocínio estrangeiro. Isto é, com o patrocínio estrangeiro, Israel apoia uns, a Síria apoia outros, outros países apoiam este e aquele.
A União Soviética também estava naquele?
Através da Síria, uma vez que a Síria é um aliado da União Soviética.
Mas ali não são propriamente linhas de guerra fria. Era uma outra coisa.
Não é, não. Até porque a guerra evolui assim a partir de 1975. Há um partido mais forte e todos os outros se unem contra ele. E depois quando esse partido se torna fraco, emerge outro partido mais forte e toda a gente tende a alinhar contra ele. A guerra eu diria que tem três fases. Numa primeira fase é os cristãos contra os muçulmanos, os drusos e os palestinianos. Esta é a primeira fase da guerra. Cristãos de um lado, muçulmanos, drusos, palestinianos do outro. E depois numa segunda fase, nos anos 80, é xiitas contra palestinianos. De repente a guerra torna-se uma guerra entre xiitas e palestinianos, entre a OLP e o Amal, os xiitas.
Portanto hoje em dia quando nós vemos os xiitas do Hezbollah a apoiar a guerra palestina.
Não, espera. Numa terceira fase, a guerra torna-se uma guerra entre xiitas. A guerra civil é uma guerra entre xiitas. Entre quem? Entre o Amal e o Hezbollah, a partir de 1988. Aparece um novo partido que é o Hezbollah, que entra em guerra com o Amal e acaba por derrotar militarmente o Amal e por isso é que o Hezbollah tornou-se a principal força militar xiita no Líbano.
E aí já apoiado pelo Irão.
Já apoiado pelo Irão, porque o Amal continua a ser um importante partido político no Líbano, agora aliado ao Hezbollah. Depois foi derrotado militarmente pelo Hezbollah, desarmou-se e tornou-se uma espécie de um aliado político. O Líbano passou de Suíça a uma espécie de Somália do Oriente Médio.
Com massacres abundantes. Esta guerra civil não é uma coisa de baixa intensidade, é também muito violenta.
É uma coisa de alta intensidade e de ataques à população civil. Eles atacam a população civil, os muçulmanos atacam as populações cristãs, as milícias cristãs atacam as populações muçulmanas, os xiitas na chamada Guerra dos Campos atacam a população palestiniana, massacram a população palestiniana, os palestinianos atacam os xiitas. É uma guerra comunitária. As pessoas são obrigadas, mesmo que não queiram, a tomar partido, porque não são xiitas, cristãos, drusos, sunitas, têm de se refugiar entre os seus porque senão são atacados.
E em cima disso ainda tiveste invasões do próprio país.
E depois temos três invasões do Líbano, a primeira da Síria em 1976, que ocupa uma grande parte do país, a pretexto de impor a paz. E a Síria torna-se um fator na guerra, por quê? Porque a Síria tem, sobretudo, o sonho de anexar o Líbano. E então o que faz? Vai apoiando também os mais fracos contra os mais fortes. Inicialmente, a Síria apoia os muçulmanos contra os cristãos e depois apoia os cristãos contra os muçulmanos a partir de 1982 e depois outra vez os muçulmanos. Isto é, vai apoiando o partido mais fraco para manter a divisão no Líbano e manter a sua presença militar no Líbano. Há depois uma segunda invasão em 1982, já tinha havido uma primeira em 1978, Israel. Israel, em aliança com as forças libanesas, com os cristãos, tenta destruir a Fatah, que é o principal partido da OLP, da Organização de Libertação da Palestina, faz o cerco de Beirute para obrigar a saída da OLP do Líbano, que consegue em 1982. Entre 1975 e 2005, não há de fato um governo nacional no Líbano. O norte está ocupado pela Síria, a Síria ocupa o norte do Líbano até 2005, e o sul é ocupado por Israel até 2000. Aliás, é assim que acaba a guerra civil em 1990. A primeira fase da guerra civil é porque o Líbano está ocupado pela Síria e por Israel. Israel vai retirar em 2000, a Síria só retira em 2005 com o levantamento popular em Beirute, é a famosa Revolução dos Cedros, uma contestação da presença síria. Só que depois de 2005, o governo nacional do Líbano não se consegue afirmar porque há uma espécie de terceira invasão, desta vez do Irão, que promove o Hezbollah, uma nova milícia xiita que tinha derrotado o Amal, e que organiza o sul do Líbano como uma espécie de uma base militar para atacar Israel, apesar da presença de 10 mil capacetes azuis, que ainda lá estão, mas que não conseguem controlar o Hezbollah. O Hezbollah fez daqui uma base militar de ataque a Israel. E na prática, a história do Líbano é que toda a gente desiste de ajudar. Em 1982, há uma força multinacional de paz que é enviada para o Líbano com uma grande componente americana e francesa. O que acontece? Eles vão ali para manter a paz. Em 1983 sofrem um atentado à bomba, a base militar onde estavam os americanos e os franceses, o aeroporto, aliás. Morrem 241 militares americanos. É o dia mais sangrento do exército americano desde a ofensiva do Tet no Vietname em 1968. É onde morrem mais militares americanos num dia, num carro, num caminhão cheio de TNT com bombista suicida que entrou na base, e morrem 58 militares franceses, que é o pior dia também do exército francês desde a guerra da Argélia. O que isso faz? Os Estados Unidos e a França decidem que não vale a pena, e desistem, vão-se embora. E desde então, verdadeiramente nunca mais ninguém tentou impor a paz no Líbano e o Líbano está entregue a estas milícias, invasões e interferências externas.
Muito bem. E é esta a triste história do Líbano dos nossos dias. E foi mais um "O Resto é História". Nós voltamos para a semana. Até lá.
E o resto é história.
É apenas fumaça! Do encento e do abra ainda na zona dos Chiados. Aqui, ponto de encontro do acontecimento das pontas da cidade.
Quer transformar este país numa ditadura.
Atento, atento!
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.