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E o resto é história. É apenas fumaça. Do incêndio em Poá, ainda na zona dos teatros. Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Não. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Este episódio devia começar com clarins, mas entretanto os clarins ficaram em casa. Mas imaginem que há clarins, antes de eu falar.

E o tropel dos cavalos.

E os cavalos. Bom, no dia 25 de junho de 1876, há redondíssimos 150 anos, o general George Armstrong Custer morria em combate aos 36 anos de idade, na famosa Batalha de Little Big Horn. É um dos momentos míticos da história do faroeste, retratada em inúmeros livros, em numerosos filmes, com o sétimo regimento de cavalaria liderado por Custer de um lado e uma coligação de índios Sioux e Cheyenne de outro, e esses índios liderados por figuras não menos míticas como Tor Sentado, Sitting Bull, para quem prefere o nome em inglês, ou Cavalo Louco, Crazy Horse. E foi junto às margens do rio Little Big Horn, no estado de Montana, que Custer ordenou o ataque a um acampamento índio cuja dimensão claramente subavaliou. As suas tropas foram rapidamente dominadas por número muito superior de guerreiros índios num combate feroz que causou 268 mortos entre a cavalaria americana, incluindo todas as cinco companhias sob o comando direto de Custer, que incluíam, além do próprio, dois dos seus irmãos, um sobrinho e ainda um cunhado, portanto marchou a família quase toda. O fato de nenhum dos cerca de 200 homens sob o seu comando ter sobrevivido para contar a história, dificulta imenso saber o que efetivamente aconteceu naquela tarde. Mas, por outro lado, permite dar rédea solta à imaginação e multiplicar as teorias em torno desta estrondosa derrota do exército dos Estados Unidos. Infelizmente para as tribos indígenas em confronto, esta é uma daquelas vitórias que acabou por lhes sair muito cara, porque a humilhação do exército americano conduziu ao aumento do esforço militar por parte do governo dos Estados Unidos e à consequente derrota da resistência dos Sioux, naquela que talvez possa ser considerada a última grande guerra de fronteira do oeste americano. Rui, o que é que tens para nos contar sobre a Batalha de Little Big Horn e sobre o general Custer, que em bom rigor, naquela altura, era apenas tenente-coronel. Trouxeste o teu clarim, a tua montada, as tuas esporas, o teu sabre?

Nem sabre, nem esporas, nem montada, nem clarim, mas trouxe aqui uma série de ideias sobre o general Custer. Vamos à patente militar. Ele, de facto, era tenente-coronel do exército, mas tinha sido, durante a Guerra Civil, general graduado e portanto era tratado em termos honoríficos por general, embora fosse tenente-coronel, porque já tinha sido general graduado. Mas começamos pelo princípio e até ligando a um outro programa que tivemos há uns meses sobre o último dos moicanos. Nós nessa altura, em relação ao último dos moicanos, falamos de uma época nos finais do século XVIII, em que os colonos de origem europeia na América do Norte ainda estavam, sobretudo, na costa leste. Isto é para cada cordilheira dos Appalachian, ou Appalachian, como também outros dizem, e do rio Mississippi. Agora, a partir do princípio do século XIX, aliás, depois com a aquisição à França por parte dos Estados Unidos de uma chamada Louisiana, que não é o estado atual, mas são todas as terras do interior, do centro dos Estados Unidos, os colonos começam a mover-se em direção ao oeste, para os territórios do centro da América do Norte, para lá dos Appalachian e do Mississippi, para aquilo que são as grandes planícies, grandes planaltos que ficam entre o rio Mississippi e as Montanhas Rochosas. Portanto, esses grandes planaltos, grandes planícies, e os colonos começam a chegar aí. E começam a chegar por três razões: pela descoberta de minas de ouro, prata e cobre, o que atraiu imensa gente. Isto é, atraiu imensa gente, gênero flash mob, como agora se diz. Isto é, de repente, num sítio em que não há ninguém, há de repente milhares de pessoas literalmente a escavar, porque consta que há ouro, consta que há prata ali. Portanto, isso é uma das razões. Por outro lado, pela política do governo federal americano, de atribuir no Oeste, de graça, terras para cultivo ou para pastagem. Só para terem uma ideia, isto em meados do século XIX, vai pôr em cultivo uma área do tamanho da Europa Ocidental, uma coisa impressionante, que fica sob cultura.

E terra oferecida.

E terra oferecida. Para obterem a terra, tinham que estar cinco anos na terra, cultivando, etc. Podiam adquiri-la ao fim de um ano, comprando-a, mas se estivessem nesses cinco anos, ao fim dos cinco anos, de graça, ficavam proprietários. Portanto, isso era uma oferta fantástica. E eram terrenos que eram oferecidos enormes.

Enormes e férteis.

Férteis, etc. E em terceiro lugar, havia uma outra razão para isto, para este movimento Dos americanos de origem europeia para o centro do que são hoje os Estados Unidos, é a enorme pressão do crescimento da população de origem europeia, bastante ajudado pela imigração. No fim da guerra civil, em 1865, os Estados Unidos têm uma população de 39 milhões de habitantes e em 1880, 15 anos depois, já são 50 milhões. Basicamente, eles vão aumentando 10 milhões todos os 10 anos, quer dizer, a população aumenta um milhão por ano. Só pra ter uma ideia, entre 1865 e 1890, 10 milhões de europeus chegaram aos Estados Unidos, desembarcaram nos Estados Unidos, e muitos deles beneficiavam destas políticas de atribuição de terras, outros alistavam-se no exército, por exemplo, e faziam parte dessas forças militares que estavam em operações nestas regiões. Reparem que este é um dos Estados Unidos que está a industrializar-se na segunda metade do século 19. Em 1900, os Estados Unidos vão ser a primeira potência industrial do mundo, vão produzir mais do que toda a Europa junta. São proporções absolutamente esmagadoras. Mas em 1880, ainda 49% dos americanos estavam ocupados no setor primário, isto é, na agricultura, na criação de gado. Portanto, ainda é uma nação de agricultores, de criadores de gado, e são estes agricultores e criadores de gado que começam a ficar extraordinariamente interessados por estas grandes planícies incrivelmente férteis, e vão chegar aí. E claro, quem já vivia nestas planícies, que eram estas tribos nômadeas de caçadores, vamos chamar-lhe índios, às vezes as pessoas agora gostam de chamar ameríndios ou nativos americanos, mas de fato, é índios que é a designação que os europeus lhes deram no fim do século XV, princípio do século XVI, quando lá chegaram e estavam convencidos que tinham chegado à Índia e começaram a chamar de índios. Vamos chamar-lhe, talvez sem desprimor, dar-lhes essa classificação, essa designação tradicional. Portanto, essas tribos de caçadores nômades que existiam nestas grandes planícies ou pradarias do Oeste, entre o rio Mississippi e as montanhas rochosas, desde o século XVII tinham adotado os cavalos trazidos para a América pelos europeus, e depois também as armas de fogo, e viviam de caça, e sobretudo caça grossa, caça das enormes manadas, milhões de bisontes que atravessavam estas pradarias e a que estas tribos nômades caçavam, quer pela carne, quer pelas peles. Peles, aliás, que vendiam depois aos europeus. Eles já estavam muito interligados com os europeus. O seu estilo de vida já não era puramente nativo. Já era um pouco resultado da colonização europeia, isto é, cavalos, armas de fogo, o comércio que faziam com os europeus. A maior parte eram caçadores, mas também tinham pequenas culturas, culturas de milho em pequena escala, o milho que tinha vindo da América Central. Mas isso é mais no sul desta região, destas grandes planícies. Estas populações de caçadores nômades eram muito variadas, de tribos diferentes, que falavam línguas diferentes e tinham relações complicadas entre si. Havia muitas tribos com muitos nomes: Blackfoot, Cheyenne, Crow, Comanche, Lakota, etc. Geralmente, o que eram estas tribos? Eram grupos unidos por laços de parentesco e que tinham os chefes eleitos pelos conselhos dos mais velhos, que elegiam os chefes. Eles não estavam sempre juntos, tendiam a dispersar-se e juntavam-se para festivais religiosos, para coisa assim, juntavam-se todos, mas geralmente eram grupos mais pequenos que estavam dispersos.

Entre as mesmas tribos, claro.

Mesmo dentre as mesmas tribos. A religião deles é do tipo dos xamãs da Sibéria, o que dá a ideia, aliás, de onde é que estas populações provavelmente vieram. Assenta-se nesta relação com o mundo de espíritos, isto é, ver a natureza, o espaço natural, como mundo de espíritos com os quais eles se relacionam. Eles não vivem pacificamente entre si. Vivem em guerra constante, quase. Guerras por território, guerras por predomínio. As tribos são constantemente desalojadas por outras tribos dos territórios onde estão. Os massacres são muito frequentes, isto é, eles tendem às vezes a exterminarem-se uns aos outros quando podem. E é curioso que os mercadores e os missionários europeus tentam constantemente fazer a paz entre as tribos, não por serem eles pacíficos, mas pelos interesses próprios, isto é, porque querem tirar de lá peles e não querem que haja ali guerras, que andem ali a matar-se e depois a atingi-los a eles também, porque uma maneira de fazer comércio com estas tribos, que estão muito associadas aos parentescos, é às vezes para os mercadores europeus de peles, franceses, britânicos no século 18, casarem nestas tribos para se tornarem parentes das tribos, para depois as tribos os tratarem como parentes, porque algumas delas eram muito exclusivistas. Isto dá a ideia do exclusivismo destas tribos. Eles só se relacionam bem com aqueles que são membros da tribo. Mas ao mesmo tempo abertos no sentido em que um europeu pode chegar, casar-se lá, então passa a ser membro e então eles começam a lhe vender peles e a comprar as coisas que ele traz, etc. Mas às vezes há esta necessidade dos europeus entrarem nestas tribos. Mas isto quer dizer que eles tinham também muitos contactos com os colonizadores europeus já no século 18. No princípio do século 19, o centro das pradarias é dominado pelos Lakota, a que nós chamamos Sioux ou Sioux, que é a maneira como os americanos pronunciam este nome de origem francesa, Sioux.

Eu quando cresci dizia mesmo Sioux

Sioux, é um nome que os franceses deram. É um nome que depois se percebeu que era um nome errado, porque é o nome que os inimigos dos Lakota dão aos Lakota e quer dizer as serpentes. É um nome pejorativo e quando eles se aperceberam disso, já era demasiado tarde, agora já eram os Sioux, mas eles próprios são Lakotas. Eles dominam estas terras, mas não são naturais destes territórios. Eles devem ter chegado a esta região por volta do século XVII, vindos do leste, e são os primeiros, precisamente porque vinham do leste dos atuais Estados Unidos, a adotar cavalos, armas de fogo, o que lhes dá uma grande vantagem sobre as outras tribos que eles vão encontrando. Eles são a primeira vaga de um imperialismo que é um imperialismo europeu, já europeu. Estes Sioux, estes Lakota são muito relacionados com os europeus.

Europeizado, não é? Ao índio europeizado, no contacto.

No contacto. Eles tratam muito mal os outros índios. As guerras duram até à década de 70, do século XIX. Em agosto de 1873, no estado do Nebraska, um grande bando de mil Lakotas derrotaram 400 Pawnee, que eram esses índios mais antigos do local, e depois de derrotarem os guerreiros Pawnee, atacaram as mulheres e as crianças, que violaram, mutilaram, massacraram, um grande massacre, mais de 200 mortos causados pelos Lakota. Os índios Pawnee eram os primeiros habitantes da região e foram assim eliminados pelos Lakota, ao ponto de depois pedirem eles próprios a proteção do governo americano, para os proteger dos Lakota. Estas populações deste centro da América do Norte foram também atingidas severamente pelas doenças virais trazidas pelos europeus, especialmente a varíola, que terá matado entre metade e dois terços dessas populações. Os seus números no século XIX são muito reduzidos em relação ao que poderão ter sido no século XVI ou no século XVII. Curiosamente, os Lakota são dos menos afetados, talvez até porque já tinham tido contacto e aqueles que já tinham chegado lá já estavam mais imunes. O impacto dos colonos de origem europeia aumenta muito a partir de meados do século XIX. Eles começam a ocupar as pradarias, a estabelecer culturas ou pastagens, os ranchos, cercadas de arame farpado, que é uma invenção do oeste americano, o arame farpado, que se destina quer a manter os animais fora de zonas de cultura, quer a manter os animais dentro das pastagens para não se divagarem. Os europeus trazem também as vias férreas, que permite depois transportar a produção agrícola e animal destas zonas para a costa e para os mercados internacionais. Em lugar dos bisontes, começam a aparecer estas grandes manadas de gado bovino e são manadas que podem chegar a ter 35 mil cabeças, são coisas absolutamente gigantescas e criam aquele modo de vida dos cowboys. Isto é, os homens, os pastores a cavalo, que recolhem estas manadas. Uma parte destas manadas é criada em pastos dentro do arame farpado, mas outras são pura e simplesmente criadas ao ar, são reconhecidas pelos ferros, são ferradas para depois se reconhecerem e são levadas em grandes transumâncias, como toda a gente sabe dos filmes do oeste americano.

É que se calhar é uma história que todos nós conhecemos.

Nem é preciso explicar muito.

Se calhar os miúdos mais novos menos, que já começam a ver menos filmes de caubói.

Talvez, não sei.

Eles forçam lá em casa para compensar isso. Bom, a gente volta já a seguir. Até já. Olá, seja bem-vindo. É este o "O Resto é História", em que nós estamos a falar do grande general Custer, mas antes de chegarmos à Batalha de Little Bighorn, o Rui gosta sempre de fazer aqui um grande enquadramento, um grande contexto. Mas não percam a esperança que o general Custer já se ouve a chegar logo no fundo.

Está quase a chegar. Vamos tentar não demorá-lo muito. Esta colonização do centro da América do Norte vai destruir a vida destes caçadores nômades que viviam dos búfalos, os búfalos começam a ser praticamente exterminados. Há muitas tribos que são levadas a aceitar compensações para deixarem os colonos europeus passar ou estabelecerem-se, reservando terras para si. Muitos índios, aliás, mais até do que se pensa, aparentemente, juntam-se aos próprios colonos, tornam-se também eles agricultores e criadores de gado e assimilam-se tanto que acabam por perder a sua identidade. Há muitos americanos hoje que até têm ascendência índia, mas em meados do século XIX os seus antepassados pura e simplesmente adotaram o estilo de vida dos outros americanos e desapareceram. Aliás, é por isso que os índios tribalizados, isto é, os índios que se mantiveram nas tribos e nas reservas, há 200 reservas, que eram 340 mil em 1865 Em 1940 continuam a ser 340 mil. Isto é, não aumentou porque as pessoas vão saindo de lá e vão se enterrando. Há 172 tribos destes índios que estão nestas reservas, para dar a ideia desta diferença. Agora há grupos de índios que preferem resistir. Muitos índios da planície consideram a agricultura uma ocupação feminina e recusam-se a dedicar-se a isso, querem continuar a ser guerreiros caçadores. E há outros que acham que não têm outra opção, uma vez que os tratados que vão fazendo com o governo americano são geralmente violados pelo governo americano ou violados pelos próprios colonos americanos que não têm interesse, que entram nas reservas índias e começam a ocupar os terrenos. E há também uma outra razão de queixa que é dentro desses tratados com o governo americano, geralmente há o pagamento de compensações ou de subsídios, e de vez em quando os subsídios são atrasados. E houve guerras porque os subsídios chegaram um mês ou dois meses depois. Isto é, o dinheiro chegou atrasado e houve revoltas contra o Estado Social. Por exemplo, em 1862, os Dakota, que é uma tribo também Sioux, aparentada com os Lakota, precisamente por causa deste atraso nos pagamentos, fazem uma guerra. Estas guerras são guerras de guerrilhas. Eles atacam os fortes, fazem emboscadas aos americanos, raramente atacam de frente. Não é choques frontais, é uma guerra de guerrilhas. Eles eram frequentemente bem-sucedidos nesta guerra de guerrilhas, por exemplo, na guerra chamada do Red Cloud. Red Cloud era um chefe Lakota do estado da Montana. Em dezembro de 1866, mil guerreiros Lakota conseguiram emboscar uma força de 81 soldados americanos e todos os soldados americanos foram mortos nessa emboscada. Eles conseguiram emboscá-los e atacá-los. E um dos jovens guerreiros Lakota que dirigiu a batalha chamava-se Crazy Horse, curiosamente, em 1866, 10 anos antes da Batalha de Little Big Horn, Crazy Horse estava já a mostrar como é que se faz ou a aprender como é que se faz. Agora, a resistência nunca foi muito efetiva, e não apenas por causa da enorme pressão dos colonos americanos. Há várias razões para isso. A primeira razão é que os índios das planícies viviam em pequenos grupos e não apenas se distinguiam dos colonos, mas distinguiam-se também dos outros índios. Isto é, para os Lakota, os Pawnee não eram índios como eles, eram inimigos. Eles tinham dois inimigos, os brancos americanos e os Pawnee, e eram inimigos. Aliás, são, por exemplo, os missionários europeus cristãos que tentam dar aos índios uma consciência de raça, de grupo, que eles verdadeiramente não têm. E os colonos nunca tiveram de enfrentar grandes confederações de índios. Aliás, ao contrário do que aconteceu na Costa Leste, onde houve estas confederações, mas aqui nas pradarias não há. Há pequenas alianças, por exemplo, na Batalha de Little Big Horn, os Lakotas estão associados aos Cheyenne, mas são coisas muito locais e precárias. Estamos a falar de uma guerra de pequenos números. No máximo, as forças de índios, quando se juntam muitos, são sempre entre mil, dois mil, talvez três mil guerreiros, nunca mais do que isso. Nem todos tinham armas de fogo e nem todos, quando tinham armas de fogo, dispunham de munições suficientes para manter um fogo cerrado. Eles estavam limitados. Estavam limitados, por exemplo, pela alimentação dos cavalos durante o inverno. Quando chegavam à primavera, os cavalos estavam muito fracos. Eles tinham que esperar pelo verão para poder ter os cavalos para operações militares. Durante uma grande parte do tempo, eles não podiam operar. Depois, além de fazer guerra, tinham que caçar para comer. Não se podiam pura e simplesmente dedicar à guerra. E depois, claro, além de fazerem guerra contra os colonos americanos, tinham de fazer guerra contra as outras tribos também e tinham de jogar estas coisas todas. Era uma vida dura e era para o governo americano, um problema muito local. E por isso também as forças militares dos Estados Unidos envolvidas em operações contra os índios eram também muito pequenas. Por exemplo, no verão de 1876, eles reuniram uma grande força contra estes Lakota e eram 2500 homens também.

Lá está, para quem está habituado a ver filmes de caubóis, nós temos a sensação que o exército americano durante todo o século XIX só esteve preocupado a combater índios.

Não, aquilo eram mais operações de polícia.

Têm um impacto imenso por causa do cinema e da literatura.

Sim, por causa da história, da literatura e da imprensa já no século XIX. Mas só para termos uma ideia, em Little Big Horn nós temos três mil, digamos, talvez guerreiros índios e do outro lado os 2500 homens das três colunas americanas que se aproximaram. Digamos 3000 versus 3000. Só para terem uma ideia, na Guerra Civil Americana, na Batalha de Gettysburg, no estado da Pensilvânia, em julho de 1863, o exército do Norte Tinha 100 mil homens e o do Sul tinha 80 mil. Quer dizer, uma batalha em que estão 200 mil homens em combate contra uma batalha em que há 4 mil, 5 mil homens. A Batalha de Little Big Horn, em termos da Guerra Civil Americana, nem chega a ser uma escaramuça, é uma coisa que nem ficava registrada provavelmente nos relatórios militares, é um pequeno reencontro. Agora, como é que vamos pra batalha? Já vai sendo tempo de começarmos a introduzir a batalha. O governo americano, em 1874, decidiu explorar uma zona no atual estado de South Dakota, que é a zona das Black Hills, as Montanhas Negras, e que era uma terra que tinha sido reservada aos índios por tratado. É enviada uma expedição militar federal para explorar, em julho de 1874. Essa expedição era comandada pelo tenente-coronel George Armstrong Custer. É ele, com o sétimo de cavalaria, que entra nas Black Hills para explorá-las, e é ele que anuncia a descoberta de ouro nestas montanhas, que eram consideradas sagradas pelos índios. A descoberta do ouro atraiu imediatamente milhares de pesquisadores. O governo federal inicialmente tentou impedir que eles entrassem na região, mas era impossível. Eles estavam constantemente lá e era mais fácil tirar de lá os índios do que tirar de lá os pesquisadores europeus. E foi o que eles tentaram fazer. Eles ordenaram aos Lakota que lá estavam para saírem dessa região e irem para as reservas que tinham sido atribuídas noutras regiões. E os Lakota acharam aquilo absolutamente inaceitável, resistiram, e aí o governo deu ordem aos militares para atacarem os acampamentos de índios hostis, os cercarem e os obrigarem a ir para as reservas. Nem todos os Lakota resistiram. Eles deviam ser cerca de uns 15 mil, incluindo mulheres e crianças, não era só guerreiros. A maior parte, aliás, aceitou ir para as reservas, mas houve um pequeno grupo, uma parte, que decidiu resistir, comandada por dois chefes, Crazy Horse e Sitting Bull. São esses dois chefes que depois vão ter uns aliados, os Cheyenne, que é outra tribo, fazem uma aliança com eles e vão ter cerca de 7 mil pessoas, dos quais 2 mil, 3 mil combatentes, não sabemos exatamente, guerreiros. Quem era Sitting Bull e Crazy Horse? Isso é curioso. Sitting Bull devia ter uns 40 anos e ele não era apenas um guerreiro, aliás, nem no caso de Crazy Horse. Eles eram líderes espirituais, eram profetas. Sitting Bull tinha revelações, visões do Grande Espírito, e é isso que atrai os outros índios para junto dele, porque ele tem uma visão que diz: "Nós vamos ganhar, nós vamos combater e vamos ganhar. O Grande Espírito disse que nós vamos ganhar." E nitidamente isso atraiu os outros índios a acharem: "Sim, senhor, temos aqui alguém que está em contato com o mundo dos espíritos e o mundo dos espíritos revelou-lhe o sentido da vitória." O Crazy Horse é mais novo do que o Sitting Bull, deve ter uns 30 e tal anos. Também tem visões e além disso é um guerreiro experimentado em combate contra as forças americanas desde a década de 60. Mas há uma coisa aqui importante: eles não são chefes de dinastias tradicionais de chefes. São líderes carismáticos que emergiram por causa deste lado místico e da competência como guerreiros, no caso de Crazy Horse também. Portanto, são chefes carismáticos que não seguem os outros chefes que aceitaram ir para as reservas e conseguem atrair muita gente, muitos outros índios que confiam neles, confiam na sua liderança. No verão de 1876, este grupo enorme, que não quer ir para as reservas, vai se deslocar pro estado da Montana, que fica no norte dos Estados Unidos, perto da fronteira do Canadá, e para o vale do rio Little Big Horn. O rio Little Big Horn é um afluente do rio Big Horn, por sua vez, um afluente do rio Yellowstone, por sua vez, um afluente do rio Missouri, e faz parte de uma rede de rios aqui neste norte. O território para onde eles vão não é um território dos Lakota, é uma reserva dos índios Crow, que se sentem invadidos. Eles são as primeiras vítimas desses Lakotas e os primeiros a avisar os americanos, as autoridades americanas: "Atenção, os nossos inimigos, índios Lakotas, estão a entrar aqui nas nossas terras."

Até havia batedores Crow.

Havia batedores Crow. O exército americano o que faz? Vai enviar três colunas de tropas, partindo de três pontos diferentes, para tentar cercar estes Lakota, obrigá-los a render-se e depois levá-los para as reservas. Uma coluna parte do leste da cidade de Bismarck, que fica no norte de Dakota, onde chegava o caminho de ferro. O caminho de ferro só chegava ao Dakota do Norte. Essa coluna é comandada pelo general Terry e tem o tenente-coronel Custer integrado nesta coluna. Esta coluna tem o apoio também de um barco a vapor que vai pelo rio com mantimentos e munições para apoiar a coluna. Depois há uma outra coluna que vem do sul, comandada pelo general Crook, com cerca de 950 soldados e com índios Crow como batedores. Aliás, o outro também tinha índios Crow como batedores. E depois há uma outra coluna que vem do oeste, comandada pelo coronel John Gibbon, também com cerca de 900 homens. Estas três colunas vão convergir, tentar apanhar os índios Lakota, obrigá-los a render-se e levar-se. Custer devia ter sido mais nesta operação do que estava a ser. Ele também é jovem, tem 36 anos, tinha nascido no estado do Ohio, no leste É filho de um ferreiro, portanto também não é de uma dinastia qualquer, de uma aristocracia qualquer. Não é propriamente uma figura de comportamento exemplar. Tinha sido o último graduado na sua classe na Academia Militar do West Point em 1861 e era o último pela sua indisciplina, por ser um irresponsável, etc. Mas depois, durante a Guerra Civil, ele está integrado no exército dos Estados Unidos, no exército do Norte, e vai se destacar como um jovem comandante de cavalaria absolutamente brilhante. E aos 23 anos é graduado em general, que é uma coisa espantosa. É o "the boy general", ele torna-se general pela coragem destemida com que comanda cargas de cavalaria, que são essenciais nestas batalhas para desmontar forças inimigas. Ele tem uma figura também muito reconhecível, alto, elegante, impetuoso, cabelo loiro comprido, bigoda, etc. E é alguém extraordinariamente ambicioso. A ambição dele é ser político, verdadeiramente, não é apenas a guerra, é ser político. Aliás, ele faz a guerra para a política, imagina que isso vai ajudar a política. Logo ao fim da Guerra Civil, ele já tinha planos para se candidatar ao Congresso e provavelmente em 1876 ele tinha mais planos. Ele escreve pra jornais, pra revistas, escreve muitos artigos. Publicou um livro em 1874 sobre precisamente as suas operações militares nas pradarias. Quando fazia qualquer campanha, ia sempre acompanhado com jornalistas. Por exemplo, em Little Big Horn, vai morrer um jornalista da Associated Press, Mark Kellogg. O último despacho desse jornalista é 12 de junho de 1876, dias antes da batalha. É o primeiro jornalista da Associated Press a morrer numa guerra, em Little Big Horn, este Mark Kellogg. As suas notas ainda foram recuperadas do seu cadáver em Little Big Horn. Custer tem este grande cuidado em cultivar a sua imagem de um herói militar com objetivos políticos. Ele em 1876, em março, uns meses antes da campanha no estado da Montana, tinha estado em Washington a participar no processo de impeachment por corrupção do Secretário de Estado da Guerra, de um governo republicano, do presidente Grant. Custer é um democrata, é do Partido Democrata, e há historiadores que dizem que muito provavelmente ele estava a pensar ser candidato presidencial pelo Partido Democrata nas eleições de novembro de 1876. Portanto, estava muito interessado em participar nesta operação, em ter um grande destaque nesta operação para contribuir para o seu brilho. E precisamente por isso, o governo do Partido Republicano quis impedi-lo de participar na operação. O general Grant, que era o presidente, mandou-o prender em maio de 1876. Enfim, acusações de irresponsabilidade. Contra o Custer era sempre possível mandá-lo prender a qualquer altura, porque ele estava sempre mais ou menos em delinquência em relação às suas obrigações. Grant, na prática, estava a salvar-lhe a vida, ele não sabia. Os amigos políticos de Custer fizeram uma grande pressão. Grant teve de acabar por libertar, não conseguiu impedir que ele participasse na operação militar, mas conseguiu uma coisa: que o comando daquela coluna que vinha de Bismarck, do Dakota do Norte, não fosse dado a Custer, mas ao general Terry, com Custer como subordinado de Terry. Custer avisou imediatamente os amigos todos que quando lá chegasse, ia tratar de fazer a operação militar por sua conta própria e ignorar Terry, ia ficar com a glória de ser ele a resolver a situação. As coisas começaram a correr mal para o exército americano logo no começo. Por quê? Porque a coluna do general Crook, uma das colunas que devia convergir com a coluna do general Terry, onde estava Custer, é atacada pelos índios a 19 de junho. É atacada por um grupo de índios grande, liderado por Crazy Horse. Há o reencontro com os índios, não há grandes baixas, mas isso é o suficiente para o general Crook parar o seu movimento e não vai estar com Custer quando chegam ao acampamento principal dos Lakota, como estava previsto. As operações militares também não devem ter sido facilitadas pelo fato de uma grande parte dos soldados serem imigrantes recentes, sem experiência de guerras com os índios. Por exemplo, o único sobrevivente do comando do general Custer na Batalha de Little Big Horn, foi um corneteiro chamado Giovanni Martino, que tem uma história incrível. É um italiano que tinha combatido no Exército Garibaldi em 1866.

Isso é que é.

Depois tinha emigrado para os Estados Unidos em 1873, tinha chegado a Nova York e tinha se alistado no exército americano, onde perguntaram como é que ele se chamava, Giovanni Martino, fica John Martin. E é como John Martin que ele aparece no comando do general Custer em junho de 1876, no estado do Montana.

Muito bem. Quem está ouvindo em FM, eu sei que as pingardas ainda não começaram a ser disparadas, mas o nosso tempo chegou ao fim. Se quiser mesmo saber como é que esta história acaba, se o general Custer sobrevive ou não, acho que esta parte as pessoas já sabem, mas encontram o resto da história em podcast. Para quem está ouvindo, eu te despeço-me até pra semana.

Junho de 1876, estado de Montana, perto do rio Big Horn, e agora do afluente desse rio, que é o Little Big Horn. O general Terry, que comanda a coluna que vem do leste, que vem de Bismarck, do Dakota do Norte, ele finalmente permite a Custer separar-se da coluna principal, separar-se com o sétimo regimento de cavalaria. São cerca de 600 homens, 31 oficiais, 566 homens Para ir investigar o território. E na manhã de 25 de junho de 1876, Custer chega àquilo que lhe parece um grande acampamento, ou pelo menos um acampamento. Inicialmente, ele não percebe a dimensão, mas é um acampamento. Desconfia que deve ser o acampamento onde estão os Lakota e decide, nessa manhã de 25 de junho, atacar imediatamente o acampamento. Isso vai ser criticado por muitos especialistas militares depois. Isto é, por que ele não esperou pelas outras colunas? Há várias razões para ele não ter esperado. A primeira é que ele não sabia o número dos índios, ele não se apercebeu que o acampamento era tão grande. Ele julgou que estava a lidar com 800 índios ou coisa assim. Aquilo era um acampamento de 7000 índios, era uma coisa completamente diferente daquilo que ele estava a pensar. Depois, ele não estava exatamente a pensar que ia haver um confronto. A preocupação principal dele era que os índios fugissem. Isto é, quando havia estas recontas, a tendência dos índios, mesmo quando estavam aglomerados, era para se dividirem em pequenos grupos e escaparem. Ora bem, as ordens que o exército tinha no estado de Montana em junho de 1866, era para congregar estes índios, cercá-los, não os deixar continuar a escapar, e levá-los. Custer pensa: "Bem, esta é a oportunidade de eu cercar estes índios com as forças que tenho e pelo menos fico com estes para os levar para as reservas." E com isso ele usa a sua tática habitual, que ele já tinha usado nas suas campanhas no oeste americano, que é: ele divide o regimento de cavalaria, os seus cerca de 600 homens, divide-os em três grupos para atacarem de três lados, para cercarem o acampamento. A ideia dele, que é uma ideia que vem da experiência, é atacar o acampamento, ficar com as mulheres e as crianças no acampamento, aprisionar as mulheres e as crianças, sabendo que isso podia obrigar os guerreiros a submeterem-se, porque os guerreiros são muito protetores das mulheres e das crianças. Quando os guerreiros Lakota se apercebessem que o exército americano tinha capturado as mulheres e as crianças, provavelmente aceitariam submeter-se. Esse é o plano de Custer. É um plano do gênero: nós não temos muito tempo, os índios vão perceber que nós estamos aqui. Ele em determinado momento terá pensado até que os índios já tinham percebido que ele estava ali. E vão começar a dispersar-se e a fugir rapidamente. São montados, todos têm milhares de cavalos, podem fugir e não vamos apanhá-los outra vez e vamos continuar aqui meses a tentar apanhá-los nestas imensas planícies e florestas e algumas montanhas e nunca mais vamos apanhá-los. Tem a oportunidade de os apanhar agora. Claro, o que Custer não sabia é que havia muito mais guerreiros, muito mais gente do que ele pensava e o grupo com que ele ficou, cerca de 210 homens, os outros 300 e tal constituíram os outros grupos para atacar por outro lado. Esse grupo com que ele ficou de 210 homens, quando se começou a aproximar do acampamento, foi atacado por um número que não sabemos exatamente qual o número de índios, mas era muito grande.

Que a história ninguém sobreviveu pra contar.

Sim, os índios sobreviveram, mas depois contavam coisas muito diferentes uns dos outros. Poderá ter sido 2000 guerreiros, talvez mais.

Mas também eram muito mais do que os americanos.

Eram 10 vezes mais do que os americanos. Como é que sobreviveu o Giovanni Martino, John Martin? O Giovanni Martino sobreviveu porque antes do choque, Custer mandou, ele era um coronel, portanto mandou com uma mensagem para os outros grupos dizer: "Atenção, vou avançar, tragam munições, etc., vamos avançar." E Giovanni Martino escapou para viver. Ele acabou a vida como revisor de bilhetes no metrô de Nova York e morreu atropelado numa rua da cidade.

É triste.

Sobreviveu à Batalha de Little Big Horn pra morrer atropelado em Nova York.

Golpes do destino.

Nós não sabemos o que é que aconteceu na batalha. Houve histórias de especulação dos outros militares, dos outros grupos militares, contatos com os índios que não eram muito claros, às vezes na história que contavam. E depois, também arqueologia, isto é, foi-se estudando onde é que estavam os cadáveres, porque os cadáveres dos americanos ficaram espalhados no campo. Percebeu-se onde é que eles tinham morrido. Percebeu-se que o Custer e a maior parte dos seus homens tinham morrido numa colina.

Onde tentaram resistir.

Tinha-se percebido que tinham tentado formar ali uma espécie de quadrado, para resistir à investida dos milhares de índios. Não se sabe exatamente o que é que aconteceu. O jornalista não estava com eles, o jornalista estava muito mais longe, deve ter sido os primeiros até a ser mortos. Ou tentava fugir ou não acompanhou as tropas que se isolaram ali. Também não se sabe quanto tempo é que demorou a batalha, mas talvez tinha demorado menos de uma hora, deve ter sido uma espécie de uma enxurrada enorme de índios em cima daqueles 200 homens do exército americano. Curiosamente, os índios não sabiam que estavam a combater o general Custer, só souberam meses depois que tinham derrotado o general Custer e tinham morto o general Custer. O cadáver do general Custer ficou lá no campo e provavelmente se eles soubessem quem era, tinham feito qualquer coisa mais especial. Os outros dois grupos do regimento número 7 de cavalaria, que no total eram mais numerosos, cerca de 340 soldados e 14 oficiais, ficaram cercados numa colina a cerca de 6 km Eles não souberam o que estava a passar com Custer. Ouviram os tiros, mas perceberam que Custer devia estar cercado como eles, talvez estava também a resistir. Eles conseguiram resistir. Esse outro grupo, comandado pelo Major Reno e por um outro oficial, Benteen, que depois foram muito discutidos porque não ajudaram Custer, mas verdadeiramente eles não sabiam o que estava a passar. Portanto, ficaram ali e foram salvos pela chegada do resto da coluna de Terry e da coluna também de John Gibbon no dia 27 de junho. Dois dias depois chegam as outras duas colunas. É então que eles descobrem, eles estavam lá cercados, tinham cavado trincheiras, tinham se entrincheirado, segundo as regras do exército. E só então é que descobrem que Custer tinha morrido. É então que vão à colina e descobrem o cadáver do general Custer. Ele tinha uma ferida no peito e tinha uma outra na cabeça. Isso é uma coisa que depois leva-

Mas as duas eram mortais também.

As duas eram mortais, mas há uma especulação sobre a ferida na cabeça depois. Isto é, que poderia ter sido uma ferida causada por um camarada dele quando o viu ferido, para ele não cair nas mãos dos índios, poder ter dado um tiro na cabeça para garantir que estava morto. Ou podem ter sido os índios que o acabaram. Mas a ferida no peito já era mortal, mas é uma ferida de que ele sangrou, quer dizer que provavelmente não morreu imediatamente. Sabe-se que os índios contam que muitos soldados americanos cometeram suicídio, isto é, quando tinham já apenas pouca munição, resolveram suicidar-se. Por quê? Porque havia aquele risco de morrer sob tortura, porque os índios tinham a tradição de matar os prisioneiros através de tortura. Ninguém quis fazer isso e quando havia apenas uma bala no revólver ou uma munição, essa última era para se suicidar e para não caírem vivos. Embora haja quem diga que isso é mito, que os índios matavam os soldados todos imediatamente e que não perdiam tempo a torturá-los. As forças militares que se reuniram finalmente em Little Big Horn tentaram ainda seguir os Lakota, mas já não os encontraram. Isto é, eles entretanto tinham se dispersado e fugido. Tinham feito aquilo que provavelmente, se Custer não os apanhasse imediatamente, eles teriam feito logo ao princípio, que era dispersarem-se em pequenos grupos e tentar fugir e tentar escapar. Já não os encontraram, eles desapareceram imediatamente, nem sequer tentaram. Reparem que é no dia 27 de junho que as outras colunas chegam e encontram ainda aquelas tropas, metade do Sétimo Cavalaria cercado. Os índios não tentaram destruir o resto do Sétimo Cavalaria, pura e simplesmente começaram logo a dispersar-se depois de terem derrotado Custer.

E quando é que esta batalha se torna mitológica, a Batalha de Little Big Horn?

Primeiro a notícia. A notícia não foi logo, não havia televisão, não havia televisão por satélite, nem nada. A notícia foi levada pelo barco a vapor que estava a dar apoio ao exército americano. É um barco a vapor que tinha entrado no rio, aliás, tinha chegado à foz do Little Big Horn e entrou depois pelo Big Horn, foi para o rio Yellowstone, depois foi para o rio Missouri e chegou a Bismarck a 5 de julho. É uma viagem de 1140 km. Chegou a Bismarck, no norte Dakota, aí havia telégrafo, e a notícia é telegráfada para a costa leste, para Nova York, onde chega no dia 6 de julho. Numa altura em que os Estados Unidos estão a comemorar o seu primeiro centenário, 4 de julho de 1876, o primeiro centenário dos Estados Unidos. A primeira notícia é o New York Times traz na primeira página: "Massacre of our troops", as nossas tropas foram massacradas. Já há o relato. Impressionou muito, além da morte do general Custer, porque era uma figura extremamente conhecida, podia ter sido candidato presidencial nas eleições de novembro, terem morrido dois dos seus irmãos, o sobrinho, o cunhado, aquilo deu uma tragédia quase familiar. A partir daí não havia mais dúvidas, o exército teve de se empenhar, já não podia ter só aqueles 2000 e tal homens, foi mandada em força para Montana. Todas as colunas militares, os fortes foram todos fortificados, foram todos reforçados, houve novos fortes instalados e a partir daí os Lakota não tiveram qualquer chance e começaram a submeter-se. Houve uns choques ainda, mas verdadeiramente já perceberam que não tinham chance. O Crazy Horse foi o primeiro a render-se em 1877, no ano seguinte, ele rende-se e depois vai acabar por morrer ingloriamente numa briga com um soldado na prisão, no estado do Nebraska, para onde foi levado. Não se percebe aliás bem o que é que aconteceu, mas acaba por resistir a umas ordens qualquer que lhe deram e acaba com uma baionetada, uma facada nas costas e por morrer. O que depois causou também problemas aos próprios americanos, que apesar de tudo o Crazy Horse era uma figura conhecida e foi uma morte miserável numa prisão. Sitting Bull não se rendeu logo. Sitting Bull passou do estado de Montana para o Canadá. O estado de Montana faz fronteira com o Canadá, ele passou para o Canadá, onde foi imediatamente protegido pelas autoridades britânicas. Estava a combater os americanos e era um amigo. Foi protegido pelas autoridades britânicas, mas começou a ter problemas no Canadá, até com outros índios que começaram a atacá-lo. E em 1881, quatro anos depois de ter entrado no Canadá, decidiu regressar aos Estados Unidos e render-se. A sua rendição foi aceite, não foi maltratado, inicialmente. E em 1885 tem uma proposta que não pode recusar. É de Buffalo Bill O famoso Buffalo Bill e Sitting Bull aceita trabalhar no seu circo, o Wild West, é um show. Aceita trabalhar no circo do Buffalo Bill, com um pagamento que é o equivalente a 2000 dólares por semana atualmente. Não era tão mau. O número dele era muito básico. Basicamente, ele punha-se a cavalo e dava uma volta a cavalo, vestido com as suas penas e era muito aplaudido, imensamente aplaudido. Toda a gente queria tirar fotografias com ele, toda a gente queria o autógrafo dele, há imensos. Ele sabia assinar o nome, portanto, tirou autógrafos. E há imensas fotografias de Sitting Bull à frente, de lado, etc. com todas as imagens. Isso não quer dizer que ele estivesse completamente submetido ou que as autoridades americanas confiassem completamente nele. E é assim também que ele vai ter um fim um bocado inglório. Ele depois regressa à reserva de Standing Rock, que fica no Dakota do Sul. Está nessa reserva quando começa a haver um outro movimento místico entre os índios Lakota que começa a preocupar as autoridades americanas e eles têm medo que Sitting Bull se junte a este movimento místico, é a Ghost Dance, a dança dos espíritos, é assim que é conhecido. E em dezembro de 1890, as autoridades mandam-no prender nesta reserva e mais uma vez ele resiste à prisão e durante a resistência é morto a tiro, o que também causa uma consternação geral nos Estados Unidos, alguém que já se estava a tornar uma espécie de herói americano também. E morrer desta maneira. O seu filho, William Sitting Bull, continua no circo do Buffalo Bill, a fazer de pai agora, porque depois fazem uma encenação da Batalha de Little Big Horn, que o William Sitting Bull faz de encenação. Sitting Bull também tinha um outro filho, que era John Sitting Bull, que era um enteado, e esse tem uma carreira ainda mais longa até no cinema, onde também faz de Sitting Bull no cinema. Isto é a fama de Sitting Bull, a fama do general Custer. É mantida sobretudo pela mulher, Elizabeth Bacon Custer, que vai escrever vários livros sobre o general, enaltecendo. A batalha, obviamente, corresponde muito àquele ideal romântico dos heróis militares que morrem no último quadrado, cercados pelos seus inimigos. The last stand. Há grandes pinturas do general Custer com a bandeira dos Estados Unidos, cercado completamente de índios, a disparar o último tiro, etc. Aparentemente terá havido uma companhia que vendia cervejas e que nos anos 70 e 80 do século XIX encomendou gravuras disto tudo e todos os bares americanos tinham gravuras de Last Stand of General Custer. Era uma das imagens da história americana que mais gente tinha na memória. A mulher do general Custer era terrível, perseguia todos aqueles que diziam mal do marido ou que se atreviam a dizer mal do marido, portanto ninguém se atreveu. Ela morreu em 1933, viveu muito tempo, sempre a cuidar do culto do general e a partir de 1933 os americanos ficaram mais à vontade, depois da senhora ter falecido, para começarem com revisionismos historiográficos. Depois houve acusações de todo o tipo, que era um gabarolas, que era um incompetente, até um opressor de uma minoria, um opressor imperialista de uma minoria e ao mesmo tempo começou uma mitificação dos Lakotas. Isto é, uma espécie de ecologistas que viviam ali em contacto com a natureza, em paz, a caçar o seu bisonte e que de repente foram vítimas do imperialismo capitalista. A verdade é que em 1876, o general Custer também podia ter sido visto como um defensor dos índios Crow, que tinham o seu território a ser invadido pelos Lakota, que eram oprimidos pelos Lakota. E aliás, foram os índios Crow, em julho de 1866, quem mais lamentou a morte do general Custer, porque ficaram convencidos ao princípio que agora os Lakota iam ficar a mandar e que eles iam ser escravizados e exterminados pelos Lakota e não lhes aconteceu isso e o general Custer até era um herói para eles, alguém que os defendeu. A história pode ser contada de muitas maneiras, ainda hoje é contada de muitas maneiras, é uma história sugestiva, de geração em geração, é olhada de outra perspectiva e vai continuar a ser contada. E provavelmente o cinema, que de facto a explorou imenso no século XX Nos anos 40, 50. É provável que tenha por recuperar. Eu ultimamente vi que havia já mais umas séries do Oeste americano com índios, com setas, com cavalaria. É muito provável que futuras gerações tenham também este imaginário, que é um imaginário que depois se espalhou na Europa. É uma coisa muito curiosa, todas as crianças europeias no século XX cresceram com estas histórias de índios e cowboys. É uma coisa muito curiosa, as brincadeiras de brincar aos índios e aos cowboys, era uma brincadeira das crianças europeias no século XX. É uma coisa curiosa, vem do cinema, vem também da literatura, vem da banda desenhada.

Ainda por cima porque é estranhíssimo, a banda desenhada europeia, nomeadamente a banda desenhada francesa, abraçou o Oeste americano com uma paixão ainda superior à dos próprios americanos.

Sim, e com uma minúcia.

Sim, e com uma qualidade.

E com uma qualidade absolutamente notável. Criou um imaginário que tem um grande impacto. Por exemplo, na Alemanha há uma espécie de uma enorme identificação com essa história e os alemães tendem a identificar-se com os índios, porque os índios são os heróis deles contra os americanos, obviamente. É muito curioso, durante o século XX essa enorme identificação com os índios americanos e há escritores de ficção do Oeste americano alemães. Tal como a banda desenhada francesa e belga do Oeste. Esta história da última fronteira, é em 1890 que acaba a fronteira nos Estados Unidos. A fronteira era definida exatamente por uma área em que não viviam mais do que seis pessoas numa determinada área. Essa fronteira onde não se aplicavam as leis da civilização, onde se vivia de outra maneira, onde havia uma espécie de outra liberdade, onde a vida estava constantemente em causa, onde a vida era mais intensa e mais vida do que a vida civilizada. Isso cativou a imaginação de todos e presumo que ainda vá continuar a cativar.

Ainda continua a cativar. E assim termina esta edição de "E o Resto é História". Nós voltamos para a semana. Até lá.

E o resto é história. É apenas fumaça. 184 ainda na zona do Chiado. Quer transformar este país numa ditadura. Não, não. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.