Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

E o resto é história. É apenas fumaça. Do incêndio de Coimbra, ainda na zona do Chiado. E faz um filho, fá-lo de um rosto, é de um pai, filho vermelho, troco de morte, fogo de amor. Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Entende? Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, sejam bem-vindos a este episódio 202 de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares, diretamente de Vila Franca de Xira. É verdade, hoje temos mais um programa ao vivo e por uma razão muito simples: dentro de dias, a 27 de maio, comemoram-se os 200 anos da Vila Francada e a Câmara de Vila Franca de Xira achou que não havia melhor lugar para falarmos da Vila Francada do que aqui em Vila Franca de Xira, e tem toda a razão. Portanto, cá estamos nós, na Fábrica das Palavras, para falar de um dos acontecimentos mais marcantes do século XIX português, com a grande vantagem, como já todos sabemos, de o século XIX ser a praia do Rui Ramos. Rui, ainda há dois programas, nós passámos em revista o Diário do Governo de 10 de maio de 1823, e percebemos que a situação política em Portugal naquela altura era de uma gigantesca complexidade, se quisermos falar fino, ou então uma tremenda confusão, se quisermos falar grosso. E antes de avançarmos para Vila Franca e para a insurreição liderada pelo infante Dom Miguel, e até porque já cá estamos em Vila Franca, queres começar por nos fazer um breve resumo desse Portugal de 1823? Nós tínhamos perdido o Brasil, os franceses tinham invadido Espanha, em Trás-os-Montes tinha havido uma revolta contra os liberais, portanto, o país estava bastante animado antes da Vila Francada ocorrer.

Muito animado. Aliás, nós no nosso programa 200, do dia 10 de maio, ao passarmos em revista as notícias do dia 10 de maio de 1823, no Diário do Governo, já falámos do que se estava a passar há 200 anos. Mas vamos falar agora por partes, embora brevemente.

Exato. Para os três ouvintes que não ouviram o programa.

Brevemente. Portanto, recuar três anos. 1823, voltamos a 1820, também já falámos aqui disso. Em agosto de 1820, o exército tinha se revoltado no Porto. Tinha exigido uma Constituição como a que havia em Espanha. No fim do ano de 1820, houve eleições para uma assembleia constituinte, as chamadas Cortes, Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa. Essas Cortes fizeram essa Constituição, aprovada no ano de 1822. Portanto, tal como em Espanha, a inspiração da Constituição portuguesa foi a Constituição espanhola de 1812, que estava em vigor em Espanha outra vez em 1820. Portanto, tal como em Espanha, o Estado passou a ser dirigido por um parlamento com uma só câmara. As Cortes, como se chama a esta assembleia constituinte, mantiveram a monarquia, mas o rei não podia nem dissolver o parlamento.

E onde é que estava o rei nessa altura?

O rei em 1820 estava no Brasil, mas a partir do verão de 1821, já está em Portugal, o rei D. João VI. Portanto, o rei aliás, jura as bases da Constituição e depois aceita jurar a Constituição em 1822. E essa Constituição, para muitos, em Portugal, diminuíram o poder do rei, porque o rei não podia dissolver o Parlamento, não podia vetar em absoluto as leis que o Parlamento fizesse. Isso queria dizer, do ponto de vista das monarquias como elas existiam no princípio do século XIX, que o rei não tinha o poder soberano. O poder soberano, de facto, estava neste Parlamento, naquilo a que eles chamaram Cortes.

E o facto de ele ter jurado a Constituição não convenceu ninguém.

Muita gente achou que o rei estava cativo das Cortes, isto é, que o rei estava prisioneiro das Cortes de Lisboa, que retinham o rei. O rei estava no Paço da Bem-Posta, e que ele estaria constrangido na sua vontade de poder reagir contra aquilo que se estava a passar.

Como aqueles casamentos em que o noivo não está totalmente livre e, portanto, são anulados.

Pois, aqui era um pouquinho mais grave do que isso. Da mesma maneira, tinha havido um problema com a questão da religião, portanto, as Cortes tinham mantido a religião católica como a religião da nação portuguesa, e isto é talvez um pormenor que hoje possa parecer bizarro, mas na altura tem um impacto muito grande. Eles tinham mantido a religião católica, portanto, como a religião oficial, diríamos hoje nós, como religião do Estado, mas não como única religião. Isto era um pormenor. Hoje parece-nos um detalhe, mas na altura causa uma imensa discussão. Por quê? Isto dá a entender a alguns que os liberais, como eles se chamavam, aqueles que formavam a maioria desta assembleia constituinte, entendiam que a religião católica era um costume dos portugueses e, portanto, devia ser aceito, mas não se pronunciavam sobre o fato de ser a única religião verdadeira. E era isso que alguns achavam que devia estar consagrado na Constituição, isto é, que a nação portuguesa reconhecia a religião católica como a única religião verdadeira. E não estava, estava lá apenas dizendo que era a religião dos portugueses. Isto é uma espécie de constatação sociológica, em vez de uma declaração religiosa. E, portanto, isso também levou muita gente, aliás, começa logo por algumas figuras da mais elevada hierarquia do clero, a acharem que esta gente não está nem com a monarquia, nem com o catolicismo, e a monarquia e o catolicismo são as bases De Portugal e da monarquia portuguesa. Portanto, eles estão a pôr em causa a monarquia portuguesa. Há uma imprensa que se desenvolve, sobretudo a partir de 1821, 1822, uma imprensa muito aguerrida, de crítica ao regime e a acusar estes liberais de, na prática, estarem a fazer uma revolução. Isto é, sem querer dizer, mantendo a monarquia, mantendo a religião, mas estão, de facto, a fazer uma revolução em Portugal. Aparece esta oposição contra o regime daquela que vai ser a Constituição de 1822. Há muita polêmica. De facto, como lembrámos há dois programas, a mais grave resistência não vem daí, mas vem do Brasil. O que é que tinha acontecido no Brasil? As Cortes, tal como já dissemos, tentaram concentrar todo o poder soberano da monarquia no Parlamento e, por essa razão, não quiseram partilhar esse poder com quaisquer outros órgãos representativos ou de governo que pudessem ser estabelecidos no Brasil. Isso foi visto pelas Cortes, essa possibilidade, isto é, de um sistema federal em que houvesse, por exemplo, um Congresso em Lisboa, um Parlamento em Lisboa, outro Parlamento no Rio de Janeiro, um governo em Lisboa, outro governo no Rio de Janeiro, e depois alguns órgãos coordenadores dentro da monarquia, portanto, haver o Reino Unido, o reino do Brasil e o reino de Portugal, com os seus governos e os seus órgãos representativos estabelecidos, o mesmo rei dentro da mesma monarquia.

E só não existir afastou ainda mais o Brasil de Portugal.

O que é preciso explicar é por que não existia. Quer dizer, as Cortes em Lisboa queriam mesmo concentrar todo o poder soberano num Parlamento em Lisboa, porque estavam a pensar fazer grandes reformas da monarquia, queriam fazer grandes reformas. E não queriam ceder uma parte desse poder soberano ao Brasil. Os deputados fartam-se de explicar: "Nós não temos nada contra o Brasil e contra os brasileiros, mas a soberania não se pode dividir". Agora, claro, isso pelos brasileiros foi entendido de outra maneira.

Portanto, empurrou o país para a independência.

Foi entendido como uma recusa da autonomia do Brasil. Não empurrou logo o país para a independência, porque antes disso empurrou um membro da família real que tinha ficado no Brasil. A família real vem para Portugal em 1821, mas não vem toda. O príncipe real, o herdeiro da coroa, o príncipe Dom Pedro, fica no Brasil. E fica no Brasil nomeado pelo rei, por Dom João VI, como uma espécie de regente no Brasil. Governar o Brasil em nome de Dom João VI.

Que era naquela altura o filho mais velho. Tinha havido um mais velho, mas morreu muito novo, não foi? Francisco.

Sim.

Ainda criança, portanto, ele era o mais velho.

Aqui a questão é curiosa, porque inicialmente o rei até queria mandar o Dom Pedro para Portugal e ficar ele no Brasil, mas depois vem ao contrário, vai ele, fica o Dom Pedro. Para as Cortes, o ter o príncipe real no Brasil, nomeado pelo rei e não dependente das Cortes, era um perigo enorme. Porque mais uma vez dividia a soberania. Quer dizer que havia um governo no Brasil que não dependia do governo de Lisboa. Portanto, as Cortes de Lisboa vão tentar obrigar o príncipe real a regressar a Portugal. E é aí que, já falámos disso, em 1822, ele diz: "Eu fico". Ele recusa-se, revolta-se contra as Cortes. Aliás, invoca mesmo a ideia de que não se está a revoltar contra o rei, mas está-se a revoltar contra as Cortes, porque o rei não está livre e está apenas a contestar a usurpação do poder pelas Cortes de Lisboa. Portanto, fica e não apenas fica, mas acaba por convocar um congresso no Brasil, um outro órgão representativo no Brasil. Isso, obviamente, é considerado pelas Cortes em Lisboa como uma ilegalidade total e no meio desse processo, que aliás, já descrevemos aqui há uns parlamentos atrás. Lá vem, em setembro de 1822, ele de repente torna-se o imperador do Brasil, é aclamado imperador do Brasil. Mas como também dissemos no programa 200, nem todas as províncias do Brasil acompanham o príncipe Dom Pedro. No Norte, a Bahia, o Maranhão, Pernambuco, etc., ficam ou tendem inicialmente a ficar do lado português. As Cortes de Lisboa propõem-se então reforçar o apoio militar a essas províncias que parece que vão ficar fiéis a Portugal. Portanto, a situação é um pouquinho como no fim do século XVIII, a revolta na América do Norte contra o domínio inglês, as colônias americanas, aquelas colônias que vão formar os Estados Unidos, revoltam-se e o Canadá continua a ser um domínio britânico. A ideia aqui é que talvez pudesse haver um Canadá português na América do Sul, o norte também ficar.

Tu contaste uma coisa muito curiosa nesse programa, que é que de barco, naquela altura, era mais rápido ir de Lisboa até à Baía do que da Baía ao mais coisa, menos coisa.

Até o norte do Brasil podia ser. No norte, pelo menos era tão fácil chegar a Lisboa do que ir para o Rio de Janeiro.

Do que chegar ao Rio de Janeiro, tão grande era o continente.

São distâncias muito grandes. Eram distâncias muito grandes. O fator aqui mais decisivo é que, de facto, o Brasil não formava um reino contínuo. Aliás, continuava-se a usar neste princípio do século XIX a expressão "os Brasis" para falar do Brasil. Eram vários territórios colonizados com economias diferentes, com graus de ocupação diferente, com histórias diferentes, com rivalidades entre eles. Até hoje, há alguma rivalidade entre estas várias províncias. E era possível imaginar que talvez, mesmo perdendo o sul do Brasil, isto é, o Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, que estavam do lado do príncipe real, agora imperador, talvez se pudesse conservar o norte. E nesse sentido, as Cortes também começaram a preparar, o governo instruído pelas Cortes, começou a preparar também uma expedição militar ao Brasil para reforçar as tropas portuguesas no norte. Havia, de repente, esta perspectiva também.

De poder haver uma guerra no Brasil.

Uma guerra no Brasil, de haver uma guerra no Brasil.

E como se isso não bastasse No verão de 1822, também se começou a falar que a França invadia a Espanha.

Exatamente. Falamos aqui disso há dois programas. A França propõe-se acabar com a Constituição de 1812 em Espanha, uma Constituição que, de acordo com o ponto de vista das potências europeias, colocava em causa a legitimidade política, a legitimidade política estava associada ao governo dos chefes das dinastias reinantes. Era esse o princípio da legitimidade, e isso estava posto em causa em Espanha, por uma Constituição que era mais ou menos igual à Constituição portuguesa, e também tirava a Fernando VII, o rei de Espanha, aquela soberania que ele achava que devia exercer como rei de Espanha. A França é sensível a isso e, desde o verão de 1822, que há rumores de que a França está a planear uma invasão militar da Espanha para restaurar Fernando VII e o poder soberano de Fernando VII.

E pela mesma lógica, se restaurava em Espanha, também acabava a restaurar em Portugal.

Pois, a ideia é que as Constituições são iguais. Se há um problema de legitimidade política em Espanha, também há um problema de legitimidade política em Portugal. E há imediatamente em Portugal quem pense que, bem, neste contexto, talvez até se possa ir à frente do que possa vir a acontecer depois da invasão francesa da Espanha e começar a tentar derrubar o regime já. E é isso que faz o Conde d'Amarante, o segundo Conde d'Amarante, também falámos aqui disso.

Em Trás-os-Montes. Há uma pequena revolta.

É um oficial, é filho de um herói das guerras contra os franceses, que é o primeiro Conde d'Amarante. E ele revolta-se com as tropas de Trás-os-Montes, em nome de Dom João VI, contra o regime das Cortes, e há basicamente uma espécie de guerra civil em Portugal, no norte, em Trás-os-Montes, entre março e abril de 1823. Há uma guerra civil. O Conde d'Amarante, como explicámos, não tem grande sucesso em enfrentar as tropas do governo que são enviadas para Trás-os-Montes e o Conde d'Amarante acaba por entrar em Espanha com o seu exército, com as suas tropas, entra em Espanha, até ocupa Palência e depois Salamanca. As tropas portuguesas, as tropas do governo vão atrás dele, entram também em Espanha, há uma guerra civil portuguesa, de repente, dentro de Espanha. E por quê? Também explicámos aqui, o governo espanhol não tem tropas para guardar a fronteira portuguesa, porque está preocupado com a invasão francesa e, de repente, temos os portugueses a lutarem dentro de Espanha.

Eu avisei que era uma grande confusão.

É uma grande confusão que fica ainda maior quando em abril de 1823, a França invade mesmo a Espanha. Aí toda a gente esperava que a Espanha resistisse à invasão francesa, como tinha resistido em 1808. Tinha havido levantamentos contra os franceses no tempo de Napoleão, mas este não é o tempo de Napoleão, é o tempo da França restaurada, do Luís XVIII. E desta vez, os exércitos franceses só encontram alguma resistência nas maiores cidades. Os campos espanhóis recebem bem os franceses, porque os franceses desta vez vêm defender o rei, vêm defender a religião católica. Os camponeses espanhóis acham que é uma boa causa. E a 23 de maio, isto é uma data importante para compreendermos o contexto da Vila Francada, o Parlamento espanhol é obrigado a sair de Madrid. Foge para o sul de Espanha e leva prisioneiro consigo a família real espanhola. É levada também para Cádiz, onde eles pensam que vão resistir, aliás, como tinham resistido em 1812 às tropas francesas. Neste momento, o que é que está a acontecer? Abril, maio, aquela grande muralha que na Europa protegia o regime português das influências das potências continentais, que achavam que isto não eram regimes políticos, mas havia a Espanha pelo meio. De repente, a Espanha tinha caído e havia uma potência, a França, nas fronteiras portuguesas, com a ideia de que o regime português não era legítimo. É verdade, o governo português ainda pensava ter um trunfo, que era a Inglaterra. A Inglaterra, em 1808, tinha ajudado a Espanha e Portugal contra a França. Julgava-se que em 1823 também iria ajudar Portugal e a Espanha contra a França, porque a Inglaterra, imaginava-se, não gostaria da influência francesa na península Ibérica. Mas a verdade é que a Inglaterra também não tem grande entusiasmo pelos regimes políticos, quer espanhol, quer português. E, além disso, aquilo que mais lhe importava na península Ibérica, dissemos aqui isso, era a ligação que a península Ibérica tinha com a América do Sul. E a partir do momento que essa ligação já tinha sido desfeita pelas independências da América espanhola e também pela independência do Brasil, é um pouquinho mais indiferente, até certo ponto, um pouco mais indiferente para o governo britânico àquilo que acontecesse em Espanha e, portanto, o governo britânico não dá garantias ao governo português de defender o regime. Diz que talvez impeça a entrada dos franceses em Portugal, mas apenas se Portugal não entrar na guerra contra os franceses ao lado da Espanha. De repente, temos o regime em Lisboa bastante vulnerável. Quer dizer, está o mundo a cair. Todo aquele mundo que o sustentava na península Ibérica está a cair. Perdeu o Brasil. As coisas não estão a correr bem em Espanha. Há a possibilidade de a França conseguir mesmo uma mudança de regime em Espanha e temos, de repente, este regime extraordinariamente vulnerável, extraordinariamente desabrigado em Portugal. Este é o contexto inicial da Vila Francada.

Este é o pano fundo da Vila Francada, as razões que justificam a sua erupção, digamos assim. A Vila Francada propriamente dita vai ficar para esta segunda parte, porque o tempo da nossa primeira parte chegou ao fim. Até já. Olá, sejam bem-vindos à segunda parte de "E o Resto é História". Estamos em Vila Franca de Xira para falar da Vila Francada. A Vila Francada é a revolta que verdadeiramente traz o infante Dom Miguel para o primeiro plano da luta política no reino. E de certa forma, quase podemos dizer que é o Dom Miguel antes do miguelismo. E a minha pergunta, Rui, é esta: por que Dom Miguel, ainda um jovem, surge exatamente aqui em Vila Franca de Xira?

A resposta é complexa e ao mesmo tempo óbvia. É complexa porque, por que é Dom Miguel? Por que ele está associado a este tipo de movimento? Há algo a explicar, mas é também óbvia, porque era muito claro que era muito difícil imaginar um movimento destes que não fosse chefiado por uma pessoa da família real. E era Dom Miguel que podia chefiar.

Era quem estava livre.

Era quem estava ali. Era um filho varão do rei e, portanto, podia, tinha essas condições. Dom Miguel, em maio de 1823, ainda não é uma figura política, não é o Dom Miguel de 1826, nem o Dom Miguel de 1828. Não é o Dom Miguel do miguelismo. Ainda não há miguelismo. Ele tem 20 anos, nascido em 1802, ia fazer 21 anos em novembro de 1823. Por que ele aparece aqui? A ideia, às vezes, é que ele era próximo da rainha, dona Carlota Joaquina, da família real de Espanha, sempre quisera ter um papel no governo do reino, ao qual o rei Dom João VI não acolheu sempre a ideia com muito entusiasmo. A rainha tem uma política tortuosa. Ao princípio, quando chega no verão de 1821, parece querer aproximar-se das Cortes Gerais, mas depois, no outono de 1822, a rainha recusa-se a jurar a Constituição. Ela, aliás, diz que não o faz por uma questão política, diz que o faz porque não quer juramentos, quer dizer, uma questão religiosa, não pode jurar. Mas toda a gente percebeu que era uma questão política propriamente e que não era apenas uma questão de-

E fica como símbolo da contestação por essa falta de juramento.

Sim, a rainha, aliás, para surpresa de alguns, vê-se de repente a rainha emergir como símbolo da contestação ao regime constitucional, a imprensa contrarrevolucionária, que então surge e que tem um grande sucesso, como a Trombeta Lusitana, muito aguerrida. Fazem da rainha uma espécie de mártir, uma heroína, ela faz frente às Cortes, etc. A ideia é talvez que o Dom Miguel, por influência da mãe, tivesse sido levado a protagonizar esta revolta em maio de 1823. Mas quando nós pensamos naquilo que o Dom Miguel faz em maio de 1823, na chamada Vila Francada, vemos que ele não fez muito mais do que tinha feito o seu irmão Dom Pedro no Brasil. Verdadeiramente, eles estão a comportar-se da mesma maneira. Isto é, a revoltar-se contra as Cortes, em nome de um rei que eles consideram que está cativo e, portanto, que não está livre. O pai deles não está livre, portanto eles avançam eles próprios. Aquilo que nós percebemos é que é muito provável que o Dom Miguel tenha sido assediado por vários grupos políticos neste princípio do ano de 1823, porque esses grupos políticos queriam fazer uma mudança. Não podiam contar diretamente com o rei, porque é nítido que Dom João VI deseja se manter numa posição moderada, moderador e árbitro, para usar expressões de hoje em dia. Não quer ser ele a derrubar uma Constituição que, aliás, tinha jurado. E portanto, há esta aproximação a este filho varão do rei, que é uma figura que obviamente se destaca na sociedade portuguesa. Destaca-se tanto que em abril de 1822, um ano antes, o governo do Peloponeso, na Grécia, tinha o convidado para Rei da Grécia. Tinha convidado Dom Miguel para Rei da Grécia. Não há muitos príncipes. Aliás, havia poucos príncipes varões, homens jovens como Dom Miguel na Europa.

Quando diz que se destaca, destaca-se em que sentido?

Não, destaca-se, porque é uma figura real.

Mas também pelas suas qualidades pessoais ou simplesmente porque é o cargo?

É uma figura real. Nós temos que pensar de uma outra maneira. Quer dizer, nós hoje associamos a legitimidade-

Ele não devia ser uma figura real. A figura real devia ser Dom Pedro.

Não, ele também é uma figura real, é uma pessoa real, como eles dizem. Reparem, a questão aqui é que nós associamos hoje a legitimidade à democracia. Nós hoje damos importância a quem é eleito, a quem tem muitos votos. E essa pessoa tem uma legitimidade. Aqui a legitimidade está associada à dinastia. É legítimo, tem a legitimidade política, quem faz parte da família real. O Dom Miguel, em 1823, é como alguém em quem muita gente tivesse votado, por ele fazer parte da família real. É uma figura, é uma pessoa real, como eles dizem. Independentemente até das características dele, mais ou menos carismático, mais ou menos politicamente capaz, ele tem esta aura de uma figura real. É aqueles que estão associados ao poder soberano, que estavam tradicionalmente associados a esse poder e, portanto, impõem. A força dessa presença é muito grande. Conta-se aquela anedota: as Cortes estavam muito decididas a mostrar a Dom João VI, quando ele regressa a Lisboa em julho de 1821, que são eles que mandam. Quer dizer, mas o rei chega No barco, e quando vão os deputados, Tomás Anda, o que se contava é que tinham caído de joelhos perante o rei. A figura do rei inspira qualquer coisa nas pessoas. É uma figura meio sagrada, alguém que está associado ao poder. É isso que Dom Miguel representa também, representa ao nível da família real portuguesa. E depois, claro, não era só o governo do Peloponeso da Grécia que se tinha lembrado Dom Miguel, as próprias cortes, os poderes dominantes nas cortes, perante a revolta de Dom Pedro no Brasil, tinham também considerado a possibilidade de tirar a Dom Pedro o estatuto de príncipe real e dá-lo a Dom Miguel. No fim de 1822, princípio de 1823, havia esta ideia que talvez se pudesse fazer de Dom Miguel o novo príncipe real e, portanto, herdeiro de Dom João VI, vista a revolta do príncipe real Dom Pedro no Brasil. Portanto, o Dom Miguel já devia fazer parte dos cálculos políticos de muita gente. De tal maneira que ele, aliás, nas cartas que escreve ao pai, quando sai do Palácio da Bem-Posta, vindo em direção a Vila Franca, ele diz que vai sair porque tinha sido avisado que o queriam matar com veneno ou com um tiro. Ele próprio se dá a importância, isto é, de ser um alvo político, o infante Dom Miguel se considera um alvo político. Portanto, digamos que o Dom Miguel teve o papel que teve porque é uma pessoa da família real e só de uma pessoa da família real é que se podia esperar aquele movimento que o Conde d'Amarante, em fevereiro, em Trás-os-Montes, tinha tentado iniciar por conta própria e tinha falhado. O Conde d'Amarante tinha revoltado as tropas de Trás-os-Montes, mas as tropas do resto do país não o tinham acompanhado. Portanto, só uma figura da família real é que podia ter a possibilidade de levantar.

Ok, então já percebemos por que Dom Miguel. Uma outra pergunta óbvia é: por que em Vila Franca?

Por que Vila Franca?

Por que é que a Vila Francada ocorreu aqui? Aliás, Vila Franca ficou durante alguns anos conhecida como Vila Franca da Restauração.

Restauração do Dom João VI.

Nome oficial mesmo, não foi? E por que aqui, tão perto de Lisboa? E já agora, se nos consegues dar uma visão do que era Vila Franca de Xira em 1823, aqui há 200 anos.

Certo.

Acho que este edifício ainda não existia.

Não. Provavelmente, o Dom Miguel teria ficado aqui. Por que em Vila Franca? O Dom Miguel, na noite de 26 para 27 de maio, sai do Palácio da Bem-Posta, o Palácio da Bem-Posta era onde então o rei vivia em Lisboa. Ele sai para se juntar a um regimento de infantaria que se tinha revoltado e que estava em Sacavém. Ele junta-se a essas tropas em Sacavém. O comandante desse regimento era o brigadeiro José de Sousa Pereira de Sampaio, que vai ser o futuro Visconde de Santa Marta, um general bastante conhecido no tempo do governo Dom Miguel, mais tarde, entre 1828 e 1834. Ele junta-se a Sacavém, avança depois para a Póvoa de Santa Iria, onde se reúne mais uma parte do regimento de Cavalaria número 4, etc. E onde o Dom Miguel faz uma primeira proclamação, a proclamar Sua Majestade el-Rei, nosso senhor, restituído aos direitos que a fidelidade portuguesa sempre lhe reconheceu. Essa é a primeira proclamação de Dom Miguel. E ainda no dia 27 de maio, ele chega a Vila Franca de Xira, a cerca de 30 km de Lisboa, onde se juntam a estas tropas que estavam com ele, mais alguns destacamentos de cavalaria.

Deixa-me só interromper aí, porque disseste que foi a primeira proclamação. Que importância é que tinham essas questões das proclamações? O que é exatamente uma proclamação?

É fundamental, porque aquilo que o Dom Miguel está a fazer é aquilo que se chamava em Espanha, um pronunciamento. É muito importante perceber isso. Ele não está a dar um golpe de Estado em Lisboa, no sentido de tentar tomar o poder em Lisboa, ocupar os centros do poder em Lisboa. Ele está a sair de Lisboa. Quer dizer, está-se a pronunciar através destas proclamações, isto é, a dizer: "Esta é a minha causa, juntem-se a mim". Este é o típico pronunciamento, é alguém revoltar-se e depois pedir às tropas e a outros elementos da elite política para se lhe juntarem. O Dom Miguel pronunciou-se e agora as pessoas podem se lhe juntar. Aliás, é isso que vai acontecer, precisamente.

Sai de Lisboa para atrair as pessoas.

Em Vila Franca de Xira, ele faz outra proclamação, e isto é muito importante, a dizer que não queria restaurar o despotismo, nem operar reações ou tomar vinganças. Isto é muito importante. Ele diz que não quer fazer nada disso. O que ele quer, pura e simplesmente, é uma nova Constituição que reconciliasse, diz ele, a nação consigo mesmo e com a Europa civilizada. Ele dá a entender que esta Constituição que existe em Portugal é uma Constituição que divide os portugueses e que separa o Reino de Portugal dos outros reinos europeus, dos outros Estados europeus, porque está assente em princípios que não são reconhecidos pelo resto da Europa. O que ele quer é uma nova ordem constitucional, é o manifesto dele, é uma nova ordem constitucional que esteja em sintonia com o resto da Europa e que una os portugueses.

E havia algum plano para isso ou era só esperar que se juntassem a ele?

Não se sabe exatamente. O chefe da polícia de Lisboa diz depois que o plano do infante seria sair da capital com o propósito de seguir até ao Porto, e daí até Almeida, e depois entrar em Espanha e juntar-se ao Conde d'Amarante. É isso que o chefe da polícia de Lisboa diz. E é verdade que Dom Miguel não para em Vila Franca, sai depois da 28 para o Cartaxo, e a 29 chega a Santarém, já a cerca de 70 km de Lisboa, e daí de Santarém, ele envia uma mensagem ao Conde d'Amarante, que o Conde d'Amarante, nessa altura, está em Salamanca e, aliás, só vai receber a mensagem já no dia 8 de junho. Portanto, já tinha acontecido em Portugal quando o Conde d'Amarante sabe que o Dom Miguel se tinha revoltado. Agora, eu acho que esta progressão do Dom Miguel no terreno não prova exatamente que a sua intenção fosse necessariamente ir Ao encontro do Conde de Amarante em Espanha. Eu acho que a prioridade dele, como em qualquer pronunciamento, era constituir um polo onde se pudessem aglomerar em segurança as tropas que estavam com ele. E, portanto, esse polo nunca podia estar muito perto de Lisboa, não podia ser em Lisboa, nem estar muito perto de Lisboa. Porquê? Porque ele não tinha grandes forças militares. Ele tem pouco, tem um regimento de infantaria, uns destacamentos de cavalaria, mas não é uma grande força ainda quando ele está em Vila Franca e depois quando está no Cartaxo e vai para Santarém. Não tem uma grande força militar e está-se a tentar colocar num sítio de onde possa continuar a fazer as suas proclamações e, ao mesmo tempo, não estar sujeito a um golpe de mão do governo de Lisboa, isto é, enviar-lhe uma força e capturá-lo, como aliás as Cortes ameaçavam. Ele em Santarém tem mais alguma cavalaria, depois junta-se o Duque de Cadaval, vai-se juntar ao Infante D. Miguel, o Marquês de Abrantes, e vão com criados armados e campinos. Há a descrição de campinos que também aparece e, portanto, das suas propriedades, são dois nobres importantes que têm propriedades nesta região e que se juntam também com os seus empregados armados. Pense que a ideia dele é tentar evitar confrontos prematuros, longe da capital, para não entrar num choque que pudesse ser adverso com tropas, porque o governo ainda tem todas as tropas que estavam em Lisboa, uns milhares de tropas, e ainda tem um exército no norte, o exército que tinha combatido o Conde d'Amarante, o exército constitucional que tinha combatido o Conde d'Amarante, que eram cerca de 12 mil homens em março, abril de 1823. Muito mais do que o Infante queria. O Infante está a tentar é desmobilizar e desagregar as forças que estão fiéis ainda ao governo de Lisboa e está-se a tentar colocar num sítio de onde possa falar, mas não possa ser imediatamente apanhado.

Na altura, se bem sei, acho que ainda não tinha sido inaugurada a A1, em 1823, mas achas que a distância de Lisboa era já suficientemente...

Era já suficiente para o próprio Infante antecipar qualquer movimento de tropas que viesse da capital ou que viesse do norte. Aliás, Vila Franca de Xira tinha já nessa altura, como tem hoje, uma posição estratégica fundamental no acesso a Lisboa ao longo do Tejo. Tinha feito, por isso, parte do sistema defensivo das linhas de Torres em 1810, 13 anos antes, durante a guerra contra os franceses. É por isso também que se vai tornando o centro dos concelhos desta região ao longo, depois do século XIX. Mais tarde, será dos primeiros centros de povoação a ser ligados a Lisboa por comboio, a partir de 1856. Isto permite o começo de um desenvolvimento industrial em Vila Franca. As pessoas que nos estão a ouvir aqui com certeza conhecem a história muito melhor do que eu. Não tendo a dimensão então, em 1823, que tem hoje, mas o que é que tinha na altura em Portugal esta dimensão? Era um sítio muito importante, de tal maneira que, e antecipando um bocadinho a história também, quando o D. João VI se decide a juntar ao filho, D. Miguel também vem para Vila Franca. Mas ainda há uma outra razão, talvez, pela qual Vila Franca é importante.

Sim, aqui o ponto tem a ver com D. João VI. Se é o próprio D. João VI que jura a Constituição, que diz que não quer voltar ao regime anterior, às invasões napoleónicas, esta gente, afinal, está a lutar por quê? Quais é que são os objetivos, Rui? Um retorno do absolutismo contra a vontade do rei?

Não, ninguém quer o retorno do absolutismo. D. Miguel di-lo, toda a gente o diz, o D. João VI virá a repetir isso e vai repetir sucessivamente. O que eles querem é, em maio, junho de 1823, o que se quer em Portugal, o objetivo, é um regime constitucional como os outros regimes europeus, que é completamente diferente daquele regime que havia em Espanha e Portugal em 1823. Um regime aceitável e que muito provavelmente teria como modelo a carta francesa de 1814. Era uma monarquia constitucional, aceite pelas outras monarquias europeias, a monarquia constitucional francesa, modelada, mais ou menos inspirada, vagamente inspirada na monarquia inglesa. Isto é, um rei com poderes, um parlamento, uma segunda câmara para a nobreza e para o alto clero. É essa a ideia que há em 1823, perante a invasão, porque aquilo que se julga que os franceses vêm trazer à Espanha é precisamente o seu modelo constitucional. A carta francesa. E aquilo que se quer para Portugal é também uma carta, isto é, que o rei...

Que D. Miguel quer para Portugal.

E é isso que nas suas proclamações, nos seus manifestos, durante a Vila Francada, o D. Miguel anuncia. Agora, a questão que podias colocar também é Fundamentalmente, quem é que está por trás disso tudo? Podemos imaginar que haja alguém. E aqui temos de entrar em linha de conta com um outro personagem ligado a Vila Franca de Xira, que é um personagem fundamental desta história, que pode explicar, aliás, em parte, a paragem do Infante Dom Miguel aqui, e que é o General Manuel Inácio Martins Pamplona Corte-Real, que tinha na região uma quinta, a Quinta de Subserra. Aliás, ele vai se tornar depois Conde de Subserra. A quinta não era propriamente dele, era da mulher, era dos senhores Trofa, ele tinha casado com a herdeira e tinha ficado com esta quinta aqui. E o Subserra é um personagem muito importante. Vamos deslocar-nos agora do Dom Miguel para esta personagem muito diferente. É um homem de 60 anos, em 1823. Ele vai dizer sempre que foi ele que fez a Vilafrancada. Ele diz: "Fui eu que fiz, fui eu que mandei, fui eu que dei as instruções todas ao Dom Miguel, ele só fez aquilo que eu lhe mandei". É essa a linha do Pamplona.

Mas isso é convincente?

É um pouquinho. O Pamplona é um personagem curioso. Vamos chamá-lo de Subserra só para não ser confuso. Ele é originário da nobreza dos Açores. Estudou em Coimbra no fim do século XVIII, seguiu a carreira militar e nessa carreira militar faz serviço em Lisboa e aí conhece o Príncipe Real Dom José, que é o filho mais velho de Dona Maria I e é o irmão de Dom João VI. Portanto, ele torna-se mesmo amigo do Príncipe Real Dom José. Isso dá-lhe um estatuto muito elevado, isto é, de alguém que é protegido do Príncipe Real. Ele depois faz serviço militar, como muitos destes militares, às vezes frustrados com aquilo que se passa em Lisboa ou em Portugal, faz serviço militar na Europa. Em 1807, ele está em Portugal quando entram os franceses e ele adere ao exército, às forças portuguesas que vão servir Napoleão nas guerras na Europa. E aliás, em 1810, até vem com os franceses, com o exército francês que invade Portugal. Faz isso e vêm outros nobres, também, Marquês de Alorna, etc., também estão integrados nessas forças francesas. Por causa disso, Subserra é condenado à morte. Ele é condenado à morte em Portugal em 1811, portanto ele fica em França. Em França, ele tem alguma importância, ele é governador militar do Loire em 1815. Faz bons serviços a Luís XVIII durante a restauração. Portanto, é uma figura conhecida e, aliás, ele tem umas pensões lá como general do exército francês, etc. Mas em 1821, ele consegue ser perdoado, regressa a Portugal e nós temos uma ideia da dimensão, da influência que ele tem, da importância que ele tem, porque ele consegue ser eleito deputado e consegue ser ministro, e é ministro da Guerra em 1821.

Oi, deixa-me interromper-te, porque Subserra foi perdoado, mas quem não nos perdoa é o tempo.

É o tempo.

E, portanto, o tempo para quem nos está a ouvir em FM chegou ao fim. Eu despeço-me dessas pessoas, até para a semana. As outras, como habitualmente, já sabem, conseguem ouvir-nos em podcast.

Muito bem, continuando com o Subserra.

Continuando, então, com o Subserra.

Em 1822, segundo o Marquês de Fronteira, que nos deixou umas memórias muito interessantes sobre esta época, o Subserra tinha feito da sua casa em Lisboa, ele também tinha uma casa em Lisboa, uma espécie de centro de reunião e de conspiração militar, onde toda a gente passava, todas estas figuras militares passavam. Portanto, é muito provável, sim, que tenha sido ele a instruir e organizar mais ou menos aquilo que se passou na noite de 26 para 27.

Era ótimo no networking, como hoje em dia se diz.

E além disso, não esquecer uma coisa. Subserra tinha vindo dois anos antes de França e, portanto, em Lisboa, em 1823, toda a gente julga que ele está muito bem relacionado com os franceses. E com o exército francês a entrar na Espanha, toda a gente julga: bem, o general Pamplona, o futuro Conde de Subserra, com certeza está sintonizado, está organizado, tem um plano com os franceses para Portugal. E, portanto, a ação de Subserra, sendo ele ou não isso, deve ter sido sempre visto como uma espécie de agente dos franceses em Lisboa e, portanto, ainda mais importância deve ter tido perante aquelas pessoas, um exército de 80 mil soldados franceses que entra em Espanha. Aqui está Subserra, antigo general do exército francês, a tomar iniciativas políticas. Portanto, o homem deve estar completamente feito com os franceses e aquilo que ele deve estar a tentar fazer deve ser aquilo que os franceses querem. Portanto, é Subserra, no dia 27 de maio, que em Vila Franca vem imediatamente ter com o Infante. Ele diz que foi chamado pelo Infante, mas isso é aquelas coisas que são feitas para salvar a face. Portanto, ele vem falar com o Infante imediatamente, torna-se imediatamente o principal conselheiro de Dom Miguel e, ao mesmo tempo, sabemos que ele está em contacto com Dom João VI. Isto é, está a escrever ao Dom João VI a dizer: "Aqui estou com o Dom Miguel." Aliás, é muito curioso. Ele escreve de Vila Franca ao rei a dizer que tinha encontrado o Infante, sem nenhum dos seus criados, diz ele. O Infante não tem nenhum dos seus criados, tem apenas 500 homens de infantaria e 250 de cavalaria e quatro cruzados novos na algibeira. Quer dizer, portanto, também não tinha dinheiro nenhum. É o Subserra que tem de dar dinheiro, que tem de organizar, tem de fazer aquelas coisas todas. É aquilo que ele diz ao Dom João VI.

Mas espera aí, uma coisa. Então e a tese da Vilafrancada ter acontecido em Vila Franca simplesmente porque era nesta região que ele tinha a sua quinta? Isso faz sentido? Tu não colocaste essa hipótese há pouco.

Não, eu estava a colocar essa hipótese.

Agora.

Não, eu estava a colocar há pouco quando disse que provavelmente a razão da paragem em Vila Franca teria também a ver com o facto de haver um personagem associado a este movimento que estava sediado aqui, tinha aqui uma quinta importante na região. Portanto, é muito provável que o Subserra tivesse imensos contactos, quer dizer, imensos contactos até com gente dentro do regime, porque dentro do regime também há muita gente que está convencida que o regime não vai durar. Reparem, a Vilafrancada é uma revolução sem um tiro, é uma revolução sem um ferido. O que vai acontecer a partir do dia 27 de maio? O que vai acontecer a partir do dia 27 de maio é que todos os regimentos, as forças militares que estão em Lisboa, a pouco e pouco vão todas para Vila Franca e em direção a Santarém umas, e em direção a Vila Franca outras. Quer dizer, há uma hemorragia das forças militares que as Cortes tinham em Lisboa, até ao momento em que o próprio rei sai, como ele diz, com o último regimento. Sai na noite de 30 para 31 de maio e em 31 de maio também se estabelece aqui em Vila Franca e daqui faz uma proclamação contra as Cortes. E aquilo que acontece? O que acontece é que as Cortes Praticamente decidem não resistir.

Também não tinham como.

Ainda tinham armado as guardas nacionais. Ainda têm um exército no norte. É preciso pensar que eles têm ainda um exército no norte, exército que era comandado pelo General Luís do Rego, mas o que acontece é que os principais comandantes militares que estão associados ao próprio regime, como o general Bernardo de Spínola em Lisboa, como o general Luís do Rego no norte, vão também passar para o lado do Infante Dom Miguel, isto é, também eles entregarem-se a Dom Miguel. Portanto, as cortes, de repente, aliás, como dizem alguns deputados nas últimas reuniões, não têm força militar. E aparentemente também não estão muito convencidos da vantagem de resistir até ao último homem e morrerem ali. Fazem um protesto e basicamente vão para casa. O que nós começamos a perceber é que quando Dom Miguel sai de Lisboa, é muito provável que ele já estivesse à espera, houvesse riscos, não fosse tudo garantido, mas ele estivesse à espera de não vir a ser o chefe de uma revolta sectária, uma guerra civil, mas o chefe de uma transição mais ou menos inevitável. Aliás, ele na carta que escreve ao rei em 26 de maio, que deixa para o Dom João VI, diz que primeiro: "Tudo por cá está da mesma opinião que nós estamos". Toda a gente concorda com aquilo que eu vou fazer. É a coisa que ele diz. E diz também que voltará em breve, isto é, que o rei não se preocupe, ele diz: "Vossa Majestade, mantenha-se tranquila que eu virei rapidamente". É verdade que havia nas cortes alguns deputados, algumas forças que queriam talvez aproveitar isto para fazer uma espécie de radicalização do próprio regime, declararam a pátria em perigo. O ministro da Guerra faz uma coisa que depois nunca mais ninguém lhe perdoou, que foi anunciar que ia dar um prémio a quem prendesse e apresentasse o infante, isto é como uma peça de caça. Isso nunca lhe foi mais perdoado. Mas nada disto teve, de facto, efeitos, a maior parte dos ministros e dos deputados não quiseram resistir. E o Subserra, mais tarde, o conde de Subserra vai dizer até uma coisa engraçada, ele vai dizer que a Vila Francada era uma coisa tão inevitável que até uma das infantas podia ter feito a Vila Francada em vez do Dom Miguel. Se uma das infantas, uma das filhas de Dom João VI, tivesse vindo a pôr-se à frente das tropas, em vez do Dom Miguel, as tropas também se teriam reunido.

Mas mais tarde desentender-se-iam, não é?

Sim, aí há uma outra história, talvez para o ano, quando for também os 200 anos da Abrilada.

A Abrilada, sim, 1824.

1824. O Conde de Subserra é muito ambicioso. Ele é o homem que acha que fez a Vila Francada e torna-se não apenas ministro da Guerra, agora do novo regime, depois do Dom João VI restaurado, mas também ministro assistente ao despacho, uma espécie de primeiro-ministro. Ainda por cima tendo a França ocupado a Espanha, sendo ele o homem dos franceses, ele julga que vai ser, como alguns deles dizem, o novo Marquês de Pombal do Dom João VI. Ele é que fica a mandar. Mais tarde, também o próprio Infante Dom Miguel não acham graça nenhuma a estas aspirações do Conde de Subserra para mandar. E a Inglaterra também não, a Inglaterra vai fazer uma série de intrigas contra o Conde de Subserra e isso leva à divisão entre o Conde de Subserra e aquele que o Conde de Subserra em maio, junho de 1823, tratava como uma espécie de pupilo, como seu protegido, que era o Infante Dom Miguel, e depois se vai tornar o seu principal inimigo. A partir dessa zanga, depois vai se criar lendas, como a lenda de que o Dom Miguel, em 1823, já tinha planeado depor o rei Dom João VI para tomar o poder e que não tem qualquer base, porque o Dom João VI era verdadeiramente o princípio da legitimidade. Isso não fazia absolutamente nenhum sentido. Isso são lendas criadas posteriormente para atacar o Dom Miguel, não fazem qualquer sentido.

Rui, eu tenho uma última curiosidade que tem a ver com o Brasil. Tu já disseste, na verdade, que Dom Miguel e Dom Pedro, cada um no seu lado do Atlântico, estavam a lutar pela mesma coisa, por coisas muito parecidas. Com a vitória de Dom Miguel em Portugal e dos estudos miguelistas, por que o problema do Brasil não foi então resolvido com a reversão da independência? Afinal, era a mesma família nos dois lados do Atlântico, aparentemente a lutar pela mesma coisa.

Exatamente. Aqueles que fizeram a Vila Francada tinham essa expectativa.

De haver uma reversão da independência.

Os novos governantes que ficaram à volta de Dom João VI, restaurados nos seus direitos de monarca independente das cortes, as cortes foram abolidas, a Constituição foi extinta, voltou-se ao rei absoluto, embora ele dissesse que não queria ser absoluto, mas na prática é um rei que não tem outro poder no Estado para o limitar. E os ministros corroboraram o Conde de Subserra como ministro assistente ao despacho, primeiro-ministro e ministro da Guerra, o Conde de Palmela, depois Marquês de Palmela, como ministro dos Negócios Estrangeiros, juntam-se à volta de Dom João VI, e eles têm exatamente essa expectativa que tu também tiveste, que acabaram as razões do dissídio, do conflito que havia entre o Brasil e Portugal. Dom Pedro tinha se revoltado contra as cortes de Lisboa, as cortes de Lisboa tinham acabado, portanto, não havia razão nenhuma para o príncipe real não se reconciliar com O seu pai, com quem nunca se tinha zangado, porque a zanga dele era com as Cortes, mas agora o D. João VI estava livre. D. Pedro ia se reconciliar, reconhecer a autoridade do seu pai e o Reino Unido voltar a estar unido, isto é, Brasil e Portugal voltarem a estar unidos no mesmo reino. É essa a proposta que é enviada numa embaixada a D. Pedro, ao Rio de Janeiro. É uma das primeiras coisas que o novo governo faz, em vez de mandar tropas, manda uma embaixada para o Rio de Janeiro para falar com D. Pedro, explicar-lhe o que tinha acontecido em Portugal, dizer as razões pelas quais sua alteza se revoltou, já não têm razão de ser. Estamos em sintonia, vamos entender-nos. E têm uma enorme surpresa, isto já não estavam à espera, quando D. Pedro diz que de Portugal só queria o reconhecimento da independência do Brasil. Isto é um choque enorme, porque afinal aquilo era mais alguma coisa do que a revolta contra as Cortes. Aliás, é muito provável que o sucesso da Vila Franca de Xira estivesse associado a essa grande esperança que podia ter havido de uma reconciliação com o Brasil. Muita gente também em Lisboa e noutras deve ter apoiado o movimento do infante em maio de 1827, pensando: se nós deitarmos abaixo estas Cortes e este regime da Constituição de 1822, que é a razão pela qual o Brasil se separou, então deixa de haver essa razão, provavelmente reconciliamo-nos com o Brasil, uma vez que o Brasil não é uma república, é um império, e à frente desse império está o príncipe real de Portugal, o herdeiro de D. João VI. E esse príncipe real de Portugal, em 1823, diz: "Eu não quero mais nada de Portugal, a única coisa que quero é o reconhecimento da independência."

E sabe-se porquê?

Basicamente, porque quem estava no Brasil nesta altura percebe que não é possível haver uma união com Portugal outra vez. No Brasil, tinha-se constituído um movimento, que não existia inicialmente em 1820, nem em 1821, mas que se reforça com os conflitos com as Cortes de Lisboa, um movimento já mesmo separatista, que não quer ter nada a ver com Portugal.

Não havia mais atrás.

Mesmo assim, o governo de Lisboa não desiste. Quando os seus enviados são desrespeitados, são presos. Aliás, uma coisa que o D. Pedro faz é o barco em que eles foram é anexado à Marinha brasileira, fica com o barco, fica com tudo, eles têm de vir num barco mercante, este gênero de humilhação. Mas mesmo assim eles não desistem. O governo de Lisboa tenta ainda, por intermédio das potências europeias, fazer pressão sobre D. Pedro. Eles até dizem, em determinado momento, eles já estão tão desesperados que dizem, mesmo pró-forma, reconhecer a autoridade do pai só pró-forma, dizer: "O rei do Brasil é o senhor D. João VI." Eles dizem: "Basta-nos isso. Fica a governar o Brasil como está a governar, mas reconheça isso." Mas claro, o D. Pedro não pode reconhecer isso, porque no Brasil há forças políticas que não aceitariam isso, não aceitariam essa submissão. E além disso, as potências europeias, a França ainda é sensível ao governo de Lisboa, ainda está disposta a isso, mas a Inglaterra não. A Inglaterra está muito interessada na separação entre o Brasil e Portugal e está muito interessada em forçar Portugal a reconhecer a independência do Brasil. Aliás, faz pressão sobre Portugal, diz: "Se não reconhecem, nós reconhecemos", porque as outras potências europeias ainda não tinham reconhecido o império do Brasil como um Estado independente. Estavam ainda à espera de Portugal, mas a Inglaterra, no fim de 1824, princípio de 1825, faz pressão sobre Portugal, dizia: "Se não reconhece, nós reconhecemos." Agora, o reconhecimento da independência do Brasil, mais uma vez, adia, isto é, o desespero era tão grande de manter a ligação ao Brasil que eles reconhecem a independência, mas de uma maneira que ressalve uma possibilidade de uma união. E como é que fazem isso? Mantendo D. Pedro como príncipe real e herdeiro de D. João VI. De repente, o imperador do Brasil, o imperador de um Estado independente, continua a ser o príncipe real de Portugal, o herdeiro da coroa portuguesa. E com isto, o que é que fizeram? O Palmela explica isso, diz: "Adiámos a separação mais um bocadinho. Vai-se ver quando D. João VI morrer, logo vemos como é que estão as coisas. Ainda talvez possa o D. Pedro voltar a ser rei de Portugal." E curiosamente, antecipando a história, em 1826, quando D. João VI morre, D. Pedro é tentado a manter a coroa de Portugal, ao contrário do que depois fez, mas é tentado a manter a coroa de Portugal. Também é por pressão inglesa e pressão também brasileira, que depois acaba por renunciar à coroa. Mesmo assim, faz aquela abdicação formal, a abdicação condicional, em 1826, a favor da sua filha, que vem a ser a rainha D. Maria II, mas é uma abdicação condicional que não entra em efeito até 1828. Entre 1826 e 1828, D. Pedro, o imperador do Brasil, é rei de Portugal e o governo em Portugal faz-se em nome del rei D. Pedro IV. Aliás, em 1828, o D. Miguel, quando vem como regente do reino, vem regente em nome del rei, D. Pedro IV. Só em março de 1828 é que D. Pedro finalmente abdica formalmente em D. Maria II. Durante dois anos, e isto por várias razões. Primeiro, porque ele achava que dava jeito ter o reino na Europa para arranjar tropas e coisas de Portugal para o Brasil, como aliás o pai tinha feito, D. João VI tinha feito quando estava no Brasil. E depois também porque alguns conselheiros avisavam: "Nós não sabemos como é que o Brasil vai evoluir. De repente, isto pode se tornar uma república e é bom ter um reino para onde posso ir para a Europa." Ele durante muito tempo manteve essa possibilidade, e aliás mantém até mesmo muito tarde, quando ele vem para a Europa depois de abdicar da coroa do Brasil em 1831, ainda ele vem com a possibilidade de achar que a abdicação dele, por ter sido condicional e essas condições não terem sido realizadas, era nula e ele podia voltar a ser rei de Portugal. E isso depois é outra vez pressão da Inglaterra e da França, dizer: "Não, o senhor não pode voltar a ser rei de Portugal, esqueça-se disso, é a sua filha, portanto, fica apenas a regente." Mas ele durante muito tempo manteve essa ideia de que talvez ainda pudesse. Em 1823 e depois mesmo em 1825, a relação com o Brasil ainda estava muito em aberto. E isso é uma das ideias muito importantes da Vila Francada, um dos grandes objetivos da Vila Francada é voltar a abrir a possibilidade da união com o Brasil. Era muito importante para Portugal. Eles tinham muita noção a dependência do país do comércio brasileiro, a ideia de que Portugal com o Brasil podia ser uma grande potência, mas que sem o Brasil era um pequeno país da Europa. Essas coisas estavam muito entranhadas na elite política portuguesa e eles tinham uma grande dificuldade em deixar o Brasil ir.

Muito bem. Sempre que acharem que a situação política em Portugal está confusa, lembrem-se sempre como é que isto era há 200 anos, porque de facto é realmente impressionante. Termina assim este episódio 202. Muito obrigado por nos terem acolhido em Vila Franca de Xira. Foi um prazer estar aqui a falar da Vila Francada. Nós voltamos para a semana com mais um episódio. Até lá.