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E o resto é história. É apenas fumaça. Dominando a palavra, ainda na zona dos Chiados. Quem faz um filho, fá-lo por gosto. É sangue vermelho, suor do corpo, fogo de amor.
Quer transformar este país numa ditadura. Entende?
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, sejam bem-vindos a este episódio número 105 de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Nos dias 17 e 18 de julho de 1936, ou seja, há 85 anos, uma série de sublevações parcialmente falhadas em várias cidades espanholas por partes de generais da direita nacionalista, que procuravam derrubar o governo de esquerda, que venceu umas eleições disputadíssimas em fevereiro desse ano. Apenas meio ponto percentual separou a então Frente Popular da Frente Nacional. Todas estas sublevações deram início à Guerra Civil de Espanha, um conflito violentíssimo que duraria até abril de 1939, que faria cerca de meio milhão de mortos e que daria origem a uma ditadura militar até 1975. Eu gostaria de te perguntar duas coisas a este propósito, Rui. Em primeiro lugar, o que se estava a passar em Espanha na década de 30 para justificar esta tremenda explosão de violência? E, em segundo lugar, de que forma é que a Guerra Civil Espanhola afetou o regime do Estado Novo, que na altura, convém recordar, tinha apenas três anos de vida?
Muito bem. A Guerra Civil de Espanha entre 1936 e 1939 foi um dos grandes acontecimentos do tempo, o que é notável, porque estava a acontecer muita coisa nesses anos 30, desde o terror stalinista na União Soviética, com os grandes julgamentos de Moscovo entre 1936 e 1938, o começo da expansão da Alemanha Nazi na Europa, com a anexação parcial da Checoslováquia em setembro de 1938, e depois a anexação definitiva em 1939, e até a segunda invasão japonesa da China em 7 de julho de 1937, e que hoje até alguns historiadores consideram ser a data do começo da Segunda Guerra Mundial. Bem, mas foi a Guerra Civil de Espanha que mais focou as atenções, que mais dividiu as opiniões em quase todos os países ocidentais, nos Estados Unidos, na Europa. E foi também a Guerra Civil de Espanha que deu uma imensa quantidade de livros, de filmes. Vou citar, por exemplo, "A Esperança", o romance do André Malraux, publicado em dezembro de 1937, ainda durante a Guerra Civil de Espanha, e que depois foi adaptado ao cinema, ou também o "Por Que os Tigres Dobram?", o romance do Ernest Hemingway de 1940, já depois do fim da guerra, e que também deu um grande filme com o Gary Cooper e a Ingrid Bergman em 1943.
O livro do Orwell também, o fundamental "Homenagem à Catalunha".
Exatamente, a "Homenagem à Catalunha" de 1938, que falaremos mais à frente. E até pinturas, claro, como o famoso quadro "Guernica" do Pablo Picasso, que foi pintado por encomenda do governo espanhol para o Pavilhão da Espanha na Exposição Internacional de Paris de julho de 1937, portanto, durante a Guerra Civil. Curiosamente, quem encomendou não gostou muito do quadro, achou aquilo muito abstrato e sem uma mensagem positiva. E só mais tarde é que o quadro se tornou icônico da guerra civil em Espanha. A guerra, como tu disseste, separou aqueles que ficaram com o governo da Frente Popular de 1936, um governo presidido por Manuel Azaña, que se chamavam a si próprios os republicanos, e ficaram separados daqueles que se revoltaram contra esse governo e que foram chamados, ou que se chamaram a si próprios os nacionales, ou às vezes traduzido por os nacionalistas, embora nacionalista não seja bem a tradução de nazionale, quer dizer, é os nacionais, é o grupo nacional, porque precisamente eles acusavam os republicanos de ser um partido do estrangeiro. Mas nós traduzimos geralmente por nacionalistas. Os nacionalistas, aqueles que se revoltaram contra o governo, além de terem entre si vários monárquicos, aliás, várias persuasões, os monárquicos estavam muito divididos, tinham também os falangistas, que eram uma espécie de fascistas espanhóis, tinham a CEDA, que era a Confederação Espanhola das Direitas Autónomas, que era o grande partido da direita espanhola, o partido conservador, católico e que tinha mais ou menos como modelo o Estado Novo de Salazar, mas tinha também partidos republicanos da direita, como os conservadores republicanos do Miguel Maura ou o Partido Radical do Alejandro Lerroux. Portanto, era uma frente variada. E a mesma coisa acontecia com os republicanos, eram muito variados. Além dos republicanos de esquerda, propriamente republicanos, havia socialistas, havia anarquistas, havia comunistas e havia também, curiosamente, no campo republicano, uma parte importante da direita conservadora, aliás, da direita mais conservadora de Espanha, que eram os nacionalistas bascos e que estavam com os republicanos porque se opunham ao centralismo, a um Estado centralizado em Espanha, queriam um Estado federal e era isso que a República aparentemente lhes ofereceu. E portanto, eles estavam com o governo da Frente Popular, não por qualquer simpatia ideológica, porque eles eram da direita conservadora O governo era das esquerdas, mas por causa da questão do centralismo. Agora, sim, em geral, na Espanha e nos outros países onde as pessoas acabaram por simpatizar com um lado ou com outro, pode-se dizer que sim, a esquerda em geral apoiou os republicanos e a direita apoiou os nacionalistas. E foi uma guerra que além de dividir a opinião, também envolveu as potências. A União Soviética apoiou os republicanos, a Alemanha Nazi e a Itália fascista apoiaram os nacionalistas, portanto, foi uma guerra internacionalizada, aliás, através não só do envolvimento discreto destas potências, mas também com o alistamento, em ambos os lados, de muitos voluntários, isto é, muita gente de muitos países veio pra Espanha combater do lado com que se identificava.
As brigadas internacionais.
As brigadas internacionais do lado esquerdo, os voluntários, muitos voluntários também do lado dos nacionalistas. Foi uma guerra em que muita gente participou, foi uma guerra civil em Espanha, mas internacional. E foi também, como tu disseste, uma guerra longa, foi uma guerra que durou entre julho de 1936 e abril de 1939, com muitos avanços e recuos de ambos os lados, em que morreu, a estimativa é cerca de meio milhão de pessoas, portanto, uma guerra com uma enorme violência, quase ao nível da Segunda Guerra Mundial. Aconteceu um dos primeiros bombardeamentos aéreos durante a guerra de Espanha, de cidades, bombardeamentos por aviões, e a União Soviética e a Alemanha Nazi, e também a Itália, mas sobretudo as duas primeiras, experimentaram muito do material militar que depois iriam usar na Segunda Guerra Mundial, que começou por ser experimentado em Espanha entre 1936 e 1939. Para a Espanha, obviamente, a guerra teve a importância de ser a origem do regime ditatorial do General Franco, que ganhou a guerra.
Que originalmente não era o líder das tropas, mas ficou rapidamente.
Não era ele o líder, de maneira nenhuma. E que ficou no poder até a morrer em novembro de 1975, 36 anos depois. Há quem ache que a guerra civil, depois, acabaria verdadeiramente a 9 de abril de 1977, com a legalização do Partido Comunista de Espanha, que tinha estado ilegalizado desde 1939. Há muitas teorias sobre o início, as causas, melhor, as causas da Guerra Civil de Espanha. À esquerda, diz-se que a esquerda queria modernizar a Espanha e a direita não queria essa modernidade. Isso não é bem assim. Ninguém tinha o monopólio da modernidade, como se viu, aliás, sobre a ditadura do general Franco, em que a Espanha se modernizou. À direita, a tese é que a esquerda estava a ser um instrumento de Moscou, de Stalin, pra estabelecer uma ditadura comunista em Espanha. Era por causa disso que os nacionalistas chamavam aos republicanos os "rojos", os vermelhos. Não era bem assim. Aliás, como se viu no fim, uma parte da esquerda estava disposta também a resistir ao comunismo, portanto não representavam, pura e simplesmente, uma conspiração para tornar a Espanha comunista. Eu creio que a melhor maneira de compreender esta guerra civil de Espanha está nos abalos da sociedade europeia que se seguiram à Primeira Guerra Mundial. A Espanha não participou na Primeira Guerra Mundial, mas sofreu o impacto da inflação e da decorrente agitação social nos anos 20, com muitas greves, e por aí fora, e com a divisão de opiniões. Depois houve a Grande Depressão de 1929, 1931. A Espanha também não estava tão integrada como outros países nos mercados mundiais, mas teve de enfrentar o impacto do protecionismo, da diminuição do comércio mundial nos anos 30. E estes dois choques, o choque da Primeira Guerra Mundial e da inflação, das grandes inflações que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, e este choque da quebra do comércio mundial, isto é, do fim daquilo que nós chamamos uma primeira globalização, do fim do século 19, princípio do século 20, que tem como término esta Grande Depressão do fim dos anos 20, princípio dos anos 30. Estes choques, a inflação, quebra do comércio mundial, abalaram as sociedades ocidentais, abalaram a sociedade espanhola, empobreceram as classes médias, aumentaram os conflitos sociais. E eu creio que é aí que está o ambiente que explica um conflito como a guerra civil em Espanha. Porque estes choques sociais aconteceram também quando no mundo surgiram regimes com ideologias alternativas à democracia parlamentar, como foi a Rússia comunista desde 1917, ou a Itália fascista desde 1922, e depois, claro, a Alemanha nazi em 1932. O que quer dizer que estes conflitos sociais e políticos passaram a ter um horizonte pra além da democracia parlamentar. Aqueles que participavam nesses debates políticos, na luta política, começaram a pensar que talvez desses conflitos políticos pudesse resultar um regime que já não era o da democracia parlamentar. E o que isso fez? Fez com que a política ficasse muito polarizada, os debates tornaram-se muito apocalípticos, quer dizer, de um lado e do outro, esquerda e direita começaram a se acusar todas de querer derrubar a democracia e de estabelecer outros regimes. E, portanto, toda a gente, de ambos os lados, ficou cheia de medo de que o outro lado estivesse a preparar um golpe de força.
Ainda por cima, o equilíbrio era mais do que evidente, como eu expliquei no início da pergunta. Quer dizer, as eleições foram separadas por meio ponto percentual.
Exato. A divisão é muito equilibrada, quer dizer, isso não é uma minoria contra a maioria. São duas A sociedade espanhola dividida ao meio. Dividida ao meio. E a verdade é que se em países como o Reino Unido ou até mesmo a França, as regras do regime representativo continuaram a ser aceites nos anos 30, sobretudo em França, aliás, também há uma vitória da Frente Popular, mas continua a confiar nas regras do jogo da democracia parlamentar e, sobretudo, as forças armadas não estão envolvidas na política em França, como estavam em Espanha. A tradição de intervenção das Forças Armadas espanholas na política vem desde o século XIX, também é outro fator a contribuir muito pra essa desconfiança de toda a gente em relação a toda a gente. Portanto, em Espanha, o que nós temos é uma degradação do regime parlamentar e democrático, que é um regime que vem desde o século XIX, e começou logo a funcionar mal ainda durante a monarquia constitucional, nos anos 20, quando dá origem a uma ditadura, a ditadura do general Primo de Rivera. Depois, a ditadura acaba por cair em 1930, o que leva depois à queda da monarquia em 1931, o estabelecimento da Segunda República Espanhola. Tinha havido uma Primeira República Espanhola durante um tempo muito curto no século XIX, portanto, esta é a Segunda República Espanhola em 1931. Esta segunda república espanhola é um regime que é aceito pacificamente por toda a gente. Aliás, muitos antigos monárquicos participam ativamente na instauração da República e tomam até posições importantes no novo regime. Por exemplo, o presidente da República era um antigo monárquico, Niceto Alcalá-Zamora, que foi presidente da República entre 1931 e 1936. A grande divisão não é sobre a questão da república e da monarquia, embora houvesse monárquicos, houvesse republicanos, mas não era essa a grande questão. Ao contrário do que aconteceu com a Primeira República Portuguesa entre 1910 e 1926, a Segunda República Espanhola não foi dominada por um partido. Semana passada falamos disso a propósito do 28 de maio, o domínio do Partido Republicano Português durante os anos da Primeira República, entre 1910 e 1926. A Segunda República Espanhola não foi assim. Houve eleições e as eleições foram sempre competitivas e tiveram por base o sufrágio universal, ao contrário também do que tinha acontecido na Primeira República Portuguesa, e houve alternância no poder. Isto é, governou a esquerda, depois governou a direita e depois veio outra vez a esquerda. Portanto, foi uma democracia. Agora, foi uma democracia, este é que é o problema. Era uma democracia, e até funcionava, mas em que cada vez menos gente acreditava que ia durar. E esse é que foi o problema. Quer à esquerda, quer à direita, há muita gente que não acredita que o regime vai durar e que se começa a preparar para não deixar que o outro lado tome o poder. E começa a recorrer à violência e a armar-se pra violência. Logo em 1932, portanto, menos de um ano depois da proclamação da Segunda República, há uma primeira tentativa de golpe militar direitista, dirigida pelo general Sanjurjo, que aliás falhou. O general Sanjurjo não era exatamente um monárquico, ele tinha sido um dos principais responsáveis da queda do rei Afonso XIII em 1931, mas em 1932 achava que o governo dos republicanos não lhe estava a dar importância e tenta um golpe militar que falha e depois é preso, é condenado, e depois é amnistiado e vem para Portugal. Isto é ainda sob governos da esquerda republicana. A direita depois ganha as eleições em novembro de 1933, aliás, graças ao voto feminino, as mulheres já votam na Segunda República Espanhola, e chega ao poder. Agora, quando isso acontece, isto é, quando a direita chega ao poder, alguns dos partidos de esquerda envolvem-se numa insurreição armada em outubro de 1934 para derrubar o governo. Essa insurreição falha, mas para muita gente é considerada quase a primeira batalha da guerra civil, no sentido em que um dos lados da divisão política não aceita o acesso ao poder por via democrática do outro lado. Neste caso, a esquerda não aceita o acesso da direita ao poder por via democrática. E a mesma coisa vai acontecer em 1936. Há eleições outra vez, uma vez que o presidente não deixou o governo da direita continuar, e todos os partidos, em fevereiro de 1936, se preparam para as eleições com a ideia de que ou ganhavam ou iam ser exterminados por quem ganhasse. Portanto, uma espécie de as últimas eleições que alguma vez haveria na Espanha. As eleições já são feitas no meio de bastante violência. A Frente Popular, uma frente de partidos de esquerda, republicanos e socialistas, ganhou, mas ninguém ficou seguro. A direita, que ficou na oposição, ficou à espera de ser ilegalizada, de ser banida, e a esquerda, que ficou no poder, ficou à espera que a direita recorresse a um golpe para inverter o resultado das eleições. Toda mundo ficou à espera de um golpe ou um golpe do poder ou um golpe da oposição. Houve iniciativas que depois aumentaram ainda mais a desconfiança, como, por exemplo, uma proposta do Partido Comunista de Espanha no Parlamento, que propôs alguma lei a proibir todos os partidos da direita. O governo não aceitou a lei, mas a lei ficou lá e, claro, os partidos da direita pensaram: "Isto vai ser aceito mais dia, menos dia". Portanto, a violência aumenta, com grupos armados a confrontarem-se nas ruas e a assassinarem gente. E a 13 de julho de 1936 dá-se o assassinato do José Calvo Sotelo, que era um dos principais líderes da direita do Parlamento, e é assassinado por membros Da guarda de assalto republicana, isto é, da polícia do Estado, que o prendem e o assassinam. Portanto, um líder parlamentar assassinado pela própria polícia do Estado. E o governo reage da pior maneira, em vez de mandar investigar o crime, prende ainda mais gente da direita e instaura a censura à imprensa. Digamos que os partidos da direita ficam convencidos que é isto, eles vão instaurar uma ditadura e nós vamos ser todos ilegalizados. E a partir daí, se havia já generais, se havia já oficiais que estavam a conspirar e a falar uns com os outros para intervirem na política, a partir daí passam a ter o apoio da direita e ainda mais convencidos de que é necessário dar um golpe. O próprio general Franco, anos depois, diria que sem o assassinato do Calvo Sotelo, provavelmente não teria havido golpe, porque não teriam conseguido convencer os oficiais. Aliás, ele próprio também, o general Franco, a princípio não estava muito convencido a envolverem-se. O assassinato convenceu toda a gente que seria necessário entrar num confronto.
Certo, Rui. Eu ia te interromper aqui só porque chegou ao final desta nossa primeira parte. Nós vamos continuar na segunda parte a falar aqui desta Guerra Civil Espanhola. Até lá. Olá, sejam bem-vindos a esta segunda parte de "E o Resto é História". Nós estávamos a falar da Guerra Civil Espanhola e assim vamos continuar. Na verdade, quando eu te interrompi, a guerra propriamente dita ia começar, não é?
Ia começar. Obviamente, não era uma guerra. Quer dizer, esse é que é o ponto. Ninguém estava a pensar que ia haver uma guerra civil, estava-se a pensar que ia haver um golpe. Ou o governo ilegalizava os partidos da direita e estabelecia uma forma de regime autoritário de esquerda, ou então estes militares que estavam a conspirar iam conseguir derrubar o governo e instaurar também o seu regime autoritário, neste caso, de direita.
Mais um golpe como tinha havido antes, não é?
Exatamente. São golpes. É isso que cada um dos lados está a pensar ou que o outro está a organizar ou que estão eles próprios a organizar.
Mas aí então a pergunta é: por que este não foi mais um golpe?
Ora bem, repito, os oficiais das Forças Armadas que estão a conspirar à volta do general Sanjurjo, que está então exilado em Portugal, estão a planear um golpe de Estado para instalar uma ditadura militar. Eles não pensavam todos da mesma maneira. Havia quem tivesse ideias já meio fascistas de querer eliminar o sistema representativo e instaurar, portanto, uma ditadura pré. Mas havia também quem pensasse apenas em instaurar uma ditadura provisória. Por exemplo, o general Emilio Mola, que é de fato o principal organizador do golpe. O plano dele é instaurar uma ditadura republicana, ele chama a atenção para isso, ditadura republicana. Como em Portugal, aliás, o exemplo é Portugal, para restabelecer a ordem, mas vai respeitar a separação da Igreja e do Estado e até, diz ele, as conquistas legais dos trabalhadores também vão ser respeitadas e diz mesmo que haveria eleições a seguir. Portanto, este é o plano do general Emilio Mola, embora também se possa dizer que provavelmente era o que ele dizia aos oficiais que estava a tentar persuadir a entrar na conspiração e que alguns teriam alguma relutância em inverter completamente o tipo de regime que havia em Espanha e, portanto, ele dizia que não era isso que ia acontecer. Vamos admitir que também podia haver esse gênero de cálculo nos planos que os conspiradores fizeram circular neste primavera e verão de 1936.
Convém explicar, se calhar, que o general Sanjurjo, como tu falaste, que estava exilado em Portugal por causa do golpe que referiste, e que seria, digamos assim, o líder natural da revolta.
Já vou falar dele.
Ele acaba por ter um acidente, não é?
É, já vou falar.
Vais falar disso mais à frente.
O que aconteceu para estes planos não terem seguimento? Aconteceram duas coisas que criaram uma situação nova. A primeira foi que o movimento militar, que se esperava que fosse um pronunciamento de todo o exército, semana passada falamos no que era um pronunciamento. O exército ia se levantar, revoltar-se e o governo iria sentir que não tinha o apoio das Forças Armadas e ia cair. Ora bem, o que acontece é que este levantamento, este pronunciamento do exército falhou. Uma grande parte do exército, mais de metade do exército, não acompanhou os revoltosos. E os rebeldes, por exemplo, não conseguiram tomar nem Madrid, nem Barcelona, nem Bilbao, isto é, as cidades mais importantes da Espanha continuaram nas mãos do governo com as Forças Armadas e as forças policiais que estavam nesses locais ou nas suas imediações, fiéis ao governo. Portanto, o exército, em vez de se levantar, juntar-se ao pronunciamento contra o governo, o exército dividiu-se.
Também se partiu ao meio.
Uma parte ficou com os rebeldes, cerca de 70 mil homens ficou com os rebeldes, outra parte maior, mais de 80 mil homens, manteve-se fiel ao governo da Frente Popular. Os oficiais também se dividiram. Aliás, já há estudos sobre isso. Muito provavelmente a divisão teve menos a ver às vezes com questões ideológicas e mais com experiências corporativas. Por exemplo, os oficiais que tinham servido no exército espanhol de África, em Marrocos A Espanha não tinha apenas Ceuta e Melilha, tinha uma colônia em Marrocos, ocupava uma grande parte do atual reino de Marrocos, e os oficiais que tinham servido nesse exército, que aderiu ao pronunciamento em 1936 com mais unanimidade, o chamado Exército de África. Aqueles que estavam a servir nesse exército ou que tinham servido nesse exército, e que eram oficiais geralmente mais jovens, que tinham procurado a promoção na carreira através do serviço militar em África, através do combate, tenderam a aderir ao levantamento, enquanto os oficiais mais velhos, aqueles que tinham feito a carreira na Península Ibérica, em Espanha, isto é, não tinham combatido em África, tenderam a manter-se fiéis ao governo de Madrid. A maior parte dos oficiais generais, aliás, manteve-se fiel. Só quatro dos 18 generais da divisão aderiram ao golpe, e só 14 dos 56 generais de brigada aderiram também ao levantamento. Portanto, a maior parte dos oficiais generais manteve-se fiel ao governo, e foi até nos setores intermédios dos coronéis, majores, que houve mais adesão ao levantamento. E depois, claro, o país ficou também dividido entre os locais onde a rebelião militar venceu e correspondiam a cerca de 11 milhões dos 25 milhões de habitantes então da Espanha. Portanto, a maior parte da população ficou em territórios que permaneceram leais ao governo. Portanto, em julho de 1936 passou a haver dois exércitos em Espanha e dois países com fronteiras. Além das fronteiras internacionais, passou a haver uma fronteira interna em Espanha entre o país onde as Forças Armadas aderiram ao levantamento e o país onde as Forças Armadas ficaram fiéis ao governo. E depois esses países tenderam a cristalizar, desde logo, pela violência política, porque uma das coisas que fizeram, quer os apoiantes do governo, quer os apoiantes do pronunciamento, o levantamento militar, foi recorrer à violência nas zonas onde dominavam para impedir revoltas contra a autoridade que eles aí exerciam, isto é, para intimidar as pessoas. Portanto, houve execuções sumárias nos locais onde o governo dominava, gente da direita começou a ser aprisionada e a ser executada, nos lugares onde o levantamento triunfou, gente da esquerda também começou a ser aprisionada e executada. Por exemplo, em Madrid, as autoridades republicanas deixaram assassinar de 2000 a 3000 pessoas suspeitas de terem ideias de direita, no famoso Massacre de Paracuellos, em novembro de 1936. Portanto, as execuções continuaram nos primeiros meses de guerra, de um lado e de outro, em grande escala. Há cálculos de cerca de, na Espanha, vamos chamar-lhe agora republicana, cerca de 50 mil pessoas consideradas de direita foram assassinadas durante estes meses. E na Espanha franquista também uma quantidade enorme, quase de 100 mil pessoas, também teriam sido executadas. E repito, a maior parte deles nos primeiros 13 meses da Guerra Civil. E por quê? Porque estas execuções foram utilizadas por cada um dos lados para controlar, isto é, para estabelecer um regime de medo e terror, de maneira a impedir que quem tinha uma opinião contrária ao regime instalado naquela região ficasse com medo de fazer qualquer manifestação ou qualquer oposição ao regime instalado. Isto, obviamente, criou depois uma dificuldade ainda maior de chegar a qualquer acordo, uma vez que havia contas a ajustar, medo de retaliações, etc.
E obrigou as pessoas a escolher, não é? Nesses casos.
Exatamente. Isso é uma coisa terrível. Provavelmente, inicialmente, a maior parte das pessoas não quiseram escolher nem um lado ou outro, mas foram escolhidas. Isto é, quem fosse de direita não tinha outro remédio senão juntar-se aos nacionais para não ser executado pelos republicanos. Quem era de esquerda também não tinha outra opção a não ser juntar-se aos republicanos para não ser executado ou ao menos correr o risco de ser executado pelos nacionais. E foi o caso dos católicos, por exemplo. Os anarquistas na Espanha republicana começaram a atacar igrejas e a fuzilar padres. Cerca de 7 mil padres terão sido assassinados, incluindo 13 bispos. Cerca de 20% do clero espanhol é assassinado na Espanha republicana. O que isso faz? Faz que a hierarquia católica e uma grande parte dos fiéis não tenham escolha a não ser juntar-se aos nacionalistas espanhóis, que recebem depois o apoio do Vaticano. Muitas pessoas nesta guerra civil não escolheram um dos lados, foram escolhidas, digamos assim. E a mesma coisa aconteceu, por exemplo, com intelectuais. Isso é uma história interessante. Há intelectuais de direita, há intelectuais de esquerda e o que nós vemos com o começo da guerra é que os intelectuais de um lado e de outro, aliás, até os intelectuais que queriam manter-se independentes e que queriam manter alguma capacidade crítica e de debate, mesmo aqueles que são de esquerda e que são de direita e que estão nos territórios controlados pelo lado que apoiam, se sentem desconfortáveis. Por exemplo, os intelectuais republicanos como Ortega y Gasset, Gregorio Marañón, Antônio Machado, Ramón Menéndez Pidal, um dos grandes historiadores espanhóis, Juan Ramón Jiménez, Pío Baroja, etc., que começam por apoiar o governo da República logo no começo do conflito. O que acontece é que nos primeiros meses, eles partem todos pro exílio Isto é, e partem para o exílio a partir da Espanha republicana. Eles não se sentem seguros na Espanha republicana. Por exemplo, o Ortega começa a ser ameaçado de morte por outras forças que apoiam a república, porque não o consideram suficientemente convicto no apoio ao regime. Ele acaba por sair embora. A mesma coisa acontece do outro lado, por exemplo, o Miguel de Unamuno, que é um dos grandes escritores espanhóis desta época, apoia os nacionalistas, mas imediatamente deixa de se identificar com eles. Em outubro, há uma famosa cerimônia pública na Universidade de Salamanca em que ele critica os nacionalistas. Ele, aliás, diz famosamente: "Vencereis, mas não convencereis". Depois o Miguel de Unamuno acaba até por morrer, naturalmente, era já muito idoso, porque senão a sua oposição ao regime nacionalista também iria provavelmente criar-lhe problemas e obrigá-lo talvez até a sair também de Espanha. E claro, nenhum dos lados respeita os intelectuais do outro lado. Os republicanos fuzilam o Ramiro de Maeztu, que é um dos grandes intelectuais espanhóis desta época, e os nacionalistas fuzilam o Federico García Lorca, o maior poeta espanhol desta época. Portanto, não há qualquer respeito já por figuras de cultura. Aliás, também depois, durante a guerra, não há respeito nenhum por igrejas, monumentos, é tudo destruído durante a guerra, aliás, até em atos de vandalismo. Portanto, o fracasso do levantamento faz com que crie estas duas Espanhas, entre as quais a única coisa que há é um ódio enorme, um ressentimento enorme e contas enormes a ajustar. E depois acontece outra coisa também, uma segunda coisa. As potências europeias, para conterem o conflito, declaram a neutralidade. França, Reino Unido, ninguém deve intervir, nem ajudar os grupos em guerra em Espanha, para limitar a guerra, não fornecer armamento, não fornecer apoio financeiro, não fornecer até alimentos para ver se a guerra não dura. Forma-se até um comitê de potências para impedir violações ao dever de neutralidade, mas a verdade é que muito poucos governos europeus levam a sério esta neutralidade. E sobretudo, quer a União Soviética, quer a Alemanha Nazi, quer a Itália fascista, passam logo desde muito cedo a ajudar cada um dos lados, os lados por quem eles têm simpatia. Esta ajuda da União Soviética aos republicanos, da Alemanha nazi e da Itália fascista aos nacionalistas, tem dois efeitos. Primeiro, em cada um dos lados, vai dar mais importância, mais influência aos extremistas. Isto é, por exemplo, no campo republicano, é quando o Partido Comunista, que está sintonizado com a União Soviética, a União Soviética é o principal apoiante externo do governo republicano, e isto dá uma importância enorme ao Partido Comunista. O Partido Comunista Espanhol era um partido pequeno em 1936 e nos primeiros meses da guerra, as filiações no PCE explodem, de 30 mil militantes passa a ter 100 mil militantes. Por quê? Porque é identificado com o principal patrono do governo republicano, o patrono internacional do governo republicano, que é a União Soviética. E no caso dos nacionalistas, os falangistas, o partido falangista, que era o partido mais fascista, até tinha ficado fora da aliança das direitas que concorreu às eleições de fevereiro de 1936. Portanto, era um partido marginal. A verdade é que com o apoio da Alemanha nazi e da Itália fascista aos nacionalistas, os falangistas também têm um crescimento enorme nos primeiros meses da guerra, porque são identificados também com os principais patronos internacionais da causa nacionalista. Agora, este apoio internacional tem também um segundo efeito, e que é talvez o mais importante: é que ajudou a prolongar a guerra. E ajudou a prolongar a guerra porque nem a União Soviética, nem a Alemanha nazi, que são os dois principais fornecedores de material e de apoio bélico, nenhum deles estava interessado em que a guerra acabasse. Todos eles estavam interessados em fazer durar a guerra. Portanto, nenhum deles estava interessado, se queriam que o lado que eles apoiavam ganhasse. Estavam interessados que não perdesse. Por quê? Porque eles viram a guerra como um elemento que eles podiam usar na sua estratégia de ganhar influência e expansão na Europa. Por exemplo, a Alemanha nazi está interessada em expandir-se na Checoslováquia, na Polônia. Ora bem, é ótimo ter uma guerra em Espanha que está a focar as atenções internacionais, enquanto Hitler anda ali a tentar destruir a Checoslováquia e a Polônia. Portanto, cria ali uma guerra. A mesma coisa para Stalin. Stalin está também interessado em criar um foco de tensão no Ocidente. Isto é, não está interessado, obviamente, em que o lado republicano perca a guerra, mas também não está interessado em que o lado republicano ganhe a guerra imediatamente. E, portanto, o apoio alemão e o apoio soviético são apoios que são dados sobretudo quando o lado que eles apoiam está em más circunstâncias, portanto, eles aumentam o apoio, mas quando sentem que eles estão já numa posição que pode vir a significar uma vantagem, diminuem o apoio para não lhes permitir ir demasiado longe. Portanto, isto arrasta a guerra. E aliás, eles depois querem ser pagos. Por exemplo, a União Soviética não dá apoio de graça. Exige ser paga pelo governo republicano e o governo republicano acaba por transferir A maior parte das reservas de ouro de Espanha para a União Soviética. E a Espanha era um dos países no mundo que tinha maiores reservas de ouro. Esse ouro ficou todo na União Soviética pra pagar o auxílio militar soviético à Espanha. Agora, estes apoios limitados, a Itália fascista estava mais interessada em ter uma vitória em Espanha, que os nacionalistas tivessem uma vitória em Espanha, mas obviamente tinha menos meios do que era a Alemanha, que era a União Soviética, portanto não era tão decisiva. Agora, isto fez com que a guerra se arrastasse e ficasse a determinada altura uma espécie de guerra como a Primeira Guerra Mundial, isto é, com trincheiras, frentes fixas e dois exércitos enormes em 1937, 38, cerca de 700 mil homens de cada lado em armas, portanto exércitos muito grandes, com frentes fixas, com trincheiras a combaterem e a não haver grandes deslocações, não haver grandes mudanças na linha da frente. Como disse, os grupos em luta chamavam-se republicanos e nacionalistas, mas a verdade é que eles não formavam blocos unidos. Os nacionalistas estavam divididos sobretudo pelas personalidades dos comandantes militares.
Que entraram mortos.
Exatamente. Inicialmente, o comandante iria ser o general Sanjurjo, que estava exilado no Estoril. A verdade é que o general Sanjurjo resolve voltar à Espanha quando o golpe acontece, a 17, 18 de julho, ele decide regressar à Espanha e decide regressar numa pequena avioneta. E essa pequena avioneta tem um acidente no Estoril, a 20 de julho, e o piloto morreu, mas o general Sanjurjo morreu. E o que acontece é que depois havia quatro generais importantes, o Sanjurjo, o Manuel Goded, o Emilio Mola e o general Franco. E a verdade é que o Sanjurjo morre, o Goded morre também, o Emilio Mola, que era o principal-
Goded morre? Esse foi aprisionado e fuzilado. Só pra explicar, não é só acidente, podem achar que é uma conspiração.
Não, havia muita gente que depois, porque o Emilio Mola também morre num acidente aéreo em junho de 1937. E estas mortes, o que acaba por conduzir é que o general Franco acaba por ser aceito como chefe supremo. E o general Franco depois afasta outros dos líderes civis, como o José María Gil Robles, que era o mais importante líder da direita espanhola antes de 1936, e que acaba por, mesmo durante a guerra, ir pro exílio em Portugal em 1937. Isto é, é afastado imediatamente por Franco. O que quer dizer que o campo nacionalista tem uma liderança indiscutida durante a guerra, a do general Franco. Aliás, as divisões entre os nacionalistas vão sentir-se sobretudo depois da guerra, depois de 1939, entre aqueles que estavam mais próximos da Alemanha nazista, aqueles que estavam mais próximos dos aliados, e aqueles que depois querem o regresso à monarquia constitucional, aqueles que querem manter a ditadura militar. Portanto, as divisões dão-se nos anos 40. O que acontece é que do lado republicano a situação é muito diferente.
Olha, mas essa situação diferente vamos ter que deixar para o podcast. Eu despeço-me aqui das pessoas que nos estão a ouvir em FM. Quem nos está a ouvir em podcast já sabe que continuamos a conversar sobre a guerra civil espanhola. Aos outros, até pra semana. Rui, estávamos no lado republicano, não é? Que, ao contrário do lado nacionalista, nunca se chegou a unir, como nós há pouco falávamos do Orwell, como o Orwell bem demonstrou no seu livro, não é?
Exatamente. O lado republicano nunca se uniu, houve sempre divisão entre republicanos, os nacionalistas conservadores e católicos do País Basco e da Catalunha, os socialistas, os anarquistas, os comunistas. É verdade, o apoio soviético fez crescer muito o Partido Comunista de Espanha, aumentou a sua influência, mas isso também o levou a entrar em choque com outros grupos republicanos que não aceitavam a dominância comunista. E em maio de 1937, houve uma espécie de guerra civil dentro da guerra civil, quando os comunistas decidiram liquidar os anarquistas e os trotskistas em Barcelona, na Catalunha, uma repressão violenta, e de repente há uma guerra civil dentro da guerra civil. E é esse, aliás, um dos temas do livro, e provavelmente o melhor livro sobre a guerra civil de Espanha, que é a "Homenagem à Catalunha" do George Orwell, que foi publicado em abril de 1938. O Orwell combateu na Catalunha do lado dos trotskistas e dos anarquistas e, portanto, viu a repressão dos comunistas e denuncia isso neste livro, na "Homenagem à Catalunha", ao mesmo tempo tem descrições espantosas da linha da frente durante a guerra. É o melhor livro sobre a guerra, de facto, é um livro que vale a pena ler. Esta guerra civil dentro da guerra civil em 1937 não foi o seu último episódio. A tensão continuou, agravou-se, e aliás, a Segunda República Espanhola acabou precisamente com mais um golpe militar, desta vez de oficiais republicanos em Madrid, que aliados com o apoio do líder do Partido Socialista Espanhol, o Julián Besteiro, e com o apoio dos líderes da Federação Anarquista Ibérica, portanto, militares republicanos com o apoio dos socialistas e dos anarquistas, e que fazem um golpe contra o governo do Juan Negrín, que é um governo que eles consideram estar sob a influência comunista. Isso acontece em março de 1939 Republicanos, socialistas e anarquistas de um lado e comunistas do outro, combatem duramente em Madrid durante uma semana, enquanto os nacionalistas estão do lado de fora à espera de ver o que é que acontece à outra guerra civil que está a passar lá dentro do lado. Os republicanos, os socialistas e os anarquistas acabam por derrotar os comunistas em Madrid e depois tentam negociar com Franco, tentam chegar a um acordo com Franco pra pôr termo à guerra civil e o Franco não aceita o acordo, exige a rendição incondicional e acaba por entrar em Madrid em 28 de março de 1939 e é o fim da guerra civil. Aliás, a guerra civil provavelmente até podia já ter acabado havia mais tempo se o general Franco não fosse tão intransigente em relação aos republicanos. Há vários grupos republicanos que tentam até chegar a um acordo, tentar estabelecer contato com Franco. Ao princípio, põem bastantes condições para se renderem, mas no fim, a última condição que põem é apenas não haver repaliações. E nem isso o Franco aceita. O Franco quer mesmo rendição incondicional e depois eles põem-se à mercê dele, e ele depois decidirá o que fará com eles. Isso também dá a ideia depois do ambiente de rancor, ódio, intolerância que já há durante a guerra e que impede esse gênero de contactos, de acordos pra pôr termo à guerra em 1938, 39, quando se percebe que os nacionalistas vão ganhar a guerra. Franco está em vantagem.
Quando tu começaste a contar-nos essa história, essa Segunda República tinha o maior número de militares, tinha o maior número de território, tinha a maior parte das pessoas, até de população, do seu lado. Foram estas divisões internas que ditaram sua derrota?
Tinha também a maior parte dos centros de comunicação, tinha as grandes cidades, tinha os grandes centros industriais e os recursos mineiros e tinha, claro, as reservas de ouro do Banco de Espanha, que eram fundamentais para alimentar o esforço de guerra. É verdade que depois o general Franco tem o apoio da Alemanha e da Itália, mas a Segunda República também tem o apoio da Rússia e é um apoio também importante. Por que é que o general Franco acabou por predominar? Há muitas teorias, desde logo também sobre a qualidade do comando militar. O Franco não era tão mau comandante militar como os republicanos diziam. O exército de Franco é um exército inicialmente mais pequeno, mas é um exército muito profissional, muito treinado. Está baseado no exército da África, que são militares profissionais, militares muito experimentados e tem até uma divisão, que é uma divisão que se torna famosa durante a guerra, que é a divisão Moura, marroquina, com tropas marroquinas que combatem ao lado de Franco, os mouros, que combatem ao lado de Franco e também são tropas muito experimentadas na guerra. Mas há um fator a que os historiadores têm chamado a atenção e que é importante, que é os níveis de inflação em cada um dos lados, na Espanha nacionalista e na Espanha republicana. O nível de inflação, isto é, a apreciação monetária, significa em grande medida também a credibilidade e a eficiência na organização dos recursos que cada um dos governos tem pra defender a moeda. Nota-se na moeda, isto é, a moeda que é menos aceita, que está mais desvalorizada, corresponde provavelmente a uma desconfiança maior das pessoas em relação ao regime estabelecido. E a verdade é que a inflação na Espanha republicana é o triplo da Espanha nacionalista, o que dá a ideia que o governo de Franco foi mais eficiente e mais credível ao organizar os recursos e organizar a retaguarda, digamos. Há menos dificuldades de abastecimento, há menos incertezas, há menos mercado negro. A Espanha nacionalista é uma Espanha mais ordenada. Não estou a dizer que não é uma Espanha repressiva, atenção, uma Espanha incrivelmente repressiva, com fuzilamentos. Mas também há fuzilamentos e também é repressiva a Espanha republicana, mas é muito mais caótica e mais desorganizada. Isso obviamente tem a ver com este comando único que há do lado nacionalista e com as lutas violentas e as desconfianças internas que há do campo republicano entre anarquistas, socialistas, comunistas e republicanos, todos eles desconfiados uns dos outros. Portanto, a Espanha republicana, apesar de ter mais população, mais território, mais riqueza, mais recursos inicialmente, acaba por ser muito menos eficiente a usar isso na frente do combate para prevalecer durante a guerra do que a Espanha nacionalista.
Certo. E eu tinha te feito uma pergunta inicial sobre Portugal. De que maneira é que a guerra civil espanhola impactou Portugal e um Estado Novo que tinha acabado de nascer?
É verdade. Eu acho que a guerra civil da Espanha tem dois efeitos importantes em Portugal. O primeiro, claro, foi levar o governo de Salazar, em 1936, a apoiar os nacionalistas. A Espanha republicana era a Espanha com que se identificava a oposição ao Estado Novo em Portugal. Republicanos de esquerda, socialistas, comunistas e anarquistas, obviamente, identificavam-se com a Espanha republicana. Uma vitória dessa Espanha republicana iria dar não apenas ânimo à oposição ao Estado Novo em Portugal, mas provavelmente iria fazer com que a República talvez viesse a apoiar a própria Diretamente a República Espanhola viesse a apoiar os seus correligionários em Portugal para derrubar o Estado Novo. Portanto, Salazar apoia os nacionalistas. Essa ligação do Estado Novo aos nacionalistas faz com que também em Portugal correntes mais extremistas tenham agora um novo relevo. É neste verão, outono de 1936, por exemplo, que surge, através de comícios, de manifestações, a Legião Portuguesa. A Mocidade Portuguesa também, mas a Mocidade Portuguesa começa antes da Guerra Civil, começa em abril, maio. A Legião Portuguesa é mesmo resultado da Guerra Civil de Espanha. Isto é, de repente, o governo do Estado Novo, que já tem o exército e a polícia, começa a organizar os seus partidários, a deixar organizar os seus partidários militarmente e a armá-los. Portanto, uma milícia civil armada, como estava aliás a acontecer em Espanha durante a Guerra Civil. O governo de Salazar começa a deixar organizar-se essa milícia armada, a Legião Portuguesa, embora o tente colocar sob orientação militar. Mas aquilo que a Guerra Civil de Espanha significa também em Portugal, inicialmente, é uma radicalização do governo do Estado Novo, até podemos dizer uma fascização. Isto é, os elementos fascistas que estavam no governo passam a ser mais notórios e a ter mais influência. Depois, claro, em 1939, a vitória de Franco é vista como uma vitória de Salazar, embora os salazaristas, curiosamente, depois em 1940 e 1941, viessem a ter alguma apreensão em relação aos falangistas mais radicais, portanto, o fascismo espanhol, que têm planos de unificação ibérica durante a Segunda Guerra Mundial e sobretudo a intervenção da Espanha na Segunda Guerra Mundial, que Salazar obviamente não aprecia. Mas o primeiro impacto da Guerra Civil de Espanha em Portugal é este, uma radicalização do regime, um estímulo aos apoiantes mais radicais do Estado Novo para reforçarem a conotação do regime com os movimentos fascistas. É uma conotação contida, continua a haver uma grande influência quer do exército, quer da igreja e portanto esta fascização é limitada, mas acontece e progrediu durante a Guerra Civil de Espanha. Agora, o segundo efeito, e eu acho que é um efeito mais importante, não é propriamente esse, mas é outro, é que para muitos a Guerra Civil de Espanha em Portugal, sobretudo até para os militares, foi um espetáculo do horror da guerra civil, do que é uma guerra civil e da importância que é evitar uma guerra civil. E para muitos militares, sobretudo, perceberam exatamente qual foi a principal causa da guerra civil. A principal causa da guerra civil em Espanha é a divisão do exército. Porque se não há divisão do exército, isto é, se o exército em julho de 1936 tivesse se levantado como estava previsto, todo do lado contrário ao do governo da Frente Popular, o governo da Frente Popular podia ter apoio de milícias armadas, dos seus partidários armados, não teriam sido capazes de enfrentar o exército, um exército profissional, unificado, que os esmagaria imediatamente, estabeleceria uma ditadura militar e não teria havido guerra civil. É a divisão do exército que causa a guerra civil. E depois uma guerra civil com aquelas enormes atrocidades, que obviamente em Portugal, o governo português publicita, sobretudo, as atrocidades do lado republicano, mas havia também noção em Portugal das atrocidades do lado nacionalista. Percebia-se bem que quando a guerra civil começa, ambos os lados tendem a cometer estes horrores que estão a acontecer em Espanha. E isto favorece também o governo de Salazar. Favorece neste sentido: mesmo aqueles que depois se vieram a opor a Salazar, por exemplo, do lado das Forças Armadas, têm receio de dividir as Forças Armadas e de provocar uma situação de confronto dentro do exército, com receio precisamente de provocar uma guerra civil. Isso, por exemplo, é muito nítido em um militar que vem a ter um papel importante na história portuguesa dos anos 50, 60 e 70, que é o general Costa Gomes. O general Costa Gomes, nas entrevistas que deu depois de ter sido presidente da República em 1974, 1975 e 1976, cita várias vezes a guerra civil de Espanha. Ele era um jovem militar.
Estás a dizer que teve influência não só no Estado Novo, mas até no estabelecimento da democracia.
Sim, sem dúvida nenhuma. Isto é, o horror da guerra civil, que para muita gente, para muitos militares, sobretudo os mais velhos, em 1974, 1975, têm a imagem clara da guerra civil de Espanha, têm as histórias da guerra civil de Espanha. O horror da guerra, o horror da divisão, o ódio que se criou, as atrocidades que cometeram, as destruições. Há uma grande relutância da parte dessas pessoas em deixar criar situações que possam levar Portugal a passar por uma experiência semelhante. E, por exemplo, o general Costa Gomes cita mesmo isso. Ele viu, ele diz, ele assistiu, lembrava-se, tinha 20 e tal anos, nos anos 30, era já um Um jovem militar acompanha, obviamente, com muita atenção, como toda a gente acompanhou aquele horror em Espanha, e muito provavelmente a decisão dele foi, por mais que tivesse como objetivo criar outras situações políticas, nunca deixar criar uma situação como a da guerra civil em Portugal. Já falamos aqui este ano da Abrilada de 1961, aquele golpe contra Salazar dos altos comandos militares, em que Costa Gomes, como subsecretário de Estado do Exército, esteve envolvido, ao lado do General Spínola, o Ministro da Defesa, opõem-se a Salazar em abril de 1961, tentam aquilo que é um pronunciamento, um levantamento dos comandos das Forças Armadas contra Salazar. E quando eles percebem que não têm todo o apoio do exército, desistem, como aqui contamos essa história. E eu creio que eles têm verdadeiramente uma grande preocupação em não dividir o exército, em não ocasionar uma guerra civil em Portugal. E a mesma coisa vai acontecer em 1974, 1975. O general Costa Gomes sucede ao general Spínola em setembro de 1974, é o presidente da República durante o chamado PREC, durante o Processo Revolucionário em Curso, e ele vai seguir uma política que irrita muita gente, que é de apoiar sempre aqueles que têm mais força. Umas vezes são os comunistas, outras vezes são os inimigos dos comunistas, ele vai os apoiando. E às vezes não se percebe a lógica desse apoio. Mas afinal, de que lado é que ele está? E eu creio que o lado que o general Costa Gomes tem é precisamente, ele quer evitar uma guerra civil. E a maneira que ele tem de evitar uma guerra civil é dar força a quem tem força, para que aqueles que estão com menos força não se atreverem a uma aventura militar, isto é, um confronto. Portanto, limitar o conflito das Forças Armadas de maneira a não dividir as Forças Armadas. Ele nitidamente tem essa preocupação, evitar uma guerra civil. E não é só ele, obviamente, se fosse ele sozinho não teria conseguido evitar o confronto em Portugal em 1974, 1975. Há muito mais militares que têm essa preocupação de evitar a guerra civil. E dentro dos partidos civis, também há uma circunstância. E eu creio que a memória, a experiência da guerra civil de Espanha, em Portugal era suficientemente forte pelas histórias que as pessoas conheciam. Quem vivia, por exemplo, junto das fronteiras. Eu próprio cresci, ouvi histórias da guerra civil de Espanha contadas pelos meus avós, que viviam em Portalegre. Tinham ouvido aquelas histórias, tinham ouvido durante meses, lembravam-se da artilharia, da aviação.
Até pelo próprio contrabando. Eu também sou dessa zona, como sabes. O massacre de Badajoz era uma coisa muito presente na raia.
Ninguém queria que aquilo acontecesse em Portugal. E eu creio que talvez um dos maiores impactos da guerra civil de Espanha, Portugal tem sido esse, isto é, criou em Portugal uma cultura, um país tão dividido como a Espanha, um país em que há partidos com visões muito diferentes do que deve ser o regime em Portugal, mas digamos que criou uma cultura de receio da guerra civil, do horror da guerra civil, de tentativa de evitar a guerra civil, que favoreceu o Estado Novo durante muito tempo, uma vez que levou muitos militares a evitar confrontar militarmente o regime, com medo de provocarem uma guerra civil, e depois da queda do Estado Novo, fez com que, no meio daquela agitação de 1974, 75, com modelos e opções muito diferentes para o país e mobilização, ressentimento também, houvesse uma contenção de todas as partes, ninguém desse o último passo, para evitar precisamente uma guerra civil. E eu penso que isso tem a ver com a memória da guerra civil de Espanha. E o trauma que foi também para Portugal, embora tivesse sido poupado, o espetáculo ao lado da guerra civil que os portugueses, gerações que estavam vivas em 1974, 75, o espetáculo a que assistiram, toda a gente de esquerda, de direita, de um lado e do outro, dizer: "Não queremos isto em Portugal, não, isso não pode acontecer cá".
Muito bem, Rui. Assim termina esta segunda parte de "E o Resto é História". Nós voltamos para a semana. Até lá.
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