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E o resto é história.

É a pedra escombrada.

Do incêndio e plaga ainda na zona dos teatros. Falo por gosto, é que tenho ai medo vermelho, troco de corte, pouco de amor. Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Entende? Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Nos últimos tempos tem-se falado muito na Hungria devido à mudança de governo após o longo reinado de Viktor Orbán. E todos aprendemos nos últimos anos que a Hungria tem características muito particulares, mas o nosso ouvinte, André Pereira, enviou-nos uma ótima pergunta que ele próprio diz, e muito bem, que pode ajudar a descodificar as tensões atuais na União Europeia e também a própria psicologia política de Budapeste. Eu passo a citar: "Enquanto o Tratado de Versalhes é amplamente debatido e ensinado, o Tratado de Trianon de 1920 parece ser o parente pobre da historiografia da Primeira Guerra Mundial no Ocidente. No entanto, para a Hungria, ele representou a perda de dois terços do seu território e de milhões de falantes de húngaro que ficaram do lado de fora das novas fronteiras." O André Pereira chama ao Tratado de Versalhes o irmão mais velho de Trianon, e está bem visto, porque o primeiro foi assinado a 28 de junho de 1919 e o segundo, um ano depois, a 4 de junho de 1920. Curiosamente, também em Versalhes, que é onde se situa o Palácio Grand Trianon, que deu nome ao tratado. Eu volto a citar o André Pereira, que nos deixa, depois disto, três perguntas muito concretas. Em primeiro lugar, ele pergunta de que forma este tratado moldou a identidade nacionalista húngara. Em segundo lugar, como é que o sentimento de vítima da história é alimentado por um evento com mais de 100 anos? E em terceiro lugar, por que é que, ao contrário de Versalhes, o impacto de Trianon é tão pouco discutido fora da Hungria e dos países diretamente envolvidos? Bom, Rui, temos que admitir aqui que o André Pereira, além de fazer ótimas perguntas, tem razão. Este é um tratado muito pouco conhecido, embora com um enorme impacto político. E antes de começares a responder às perguntas do André, satisfaz-me só uma curiosidade: por que a situação do Império Austro-Húngaro não ficou logo resolvida um ano antes, em 1919, em Versalhes, como aconteceu com a Alemanha?

Basicamente porque os aliados, no fim da Primeira Guerra Mundial, negociaram separadamente com os governos sucessores dos chamados impérios centrais: a Alemanha, a Áustria, a Hungria, o Império Otomano e também a Bulgária.

Portanto, os derrotados da Primeira Guerra.

Os quatro derrotados da Primeira Guerra Mundial, até porque o pedido e a assinatura de armistício por estes governos foi diferenciado. Por exemplo, a Bulgária foi a primeira a pedir aos aliados um armistício, que foi assinado a 29 de setembro de 1918. A seguir veio o Império Otomano, a 30 de outubro, um mês depois. Depois houve o governo da Áustria, a 3 de novembro. A seguir, a Alemanha assinou a 11 de novembro e só no fim, o governo da Hungria a 13 de novembro. Como repararam aqui, a Áustria e a Hungria já aparecem separadas. E aparecem separadas por quê? Porque o governo de Budapeste, a 31 de outubro de 1918, decidiu declarar a independência do Reino da Hungria e iniciar contactos separados com os aliados. Portanto, a Áustria-Hungria separou-se no fim da guerra entre o governo da Áustria e o governo da Hungria.

Depois de a Áustria ter pedido o armistício.

Sim, não foi bem isso. Foi o governo austríaco que começou a fazer contactos e o governo da Hungria, por razões que já vamos falar, achou que iria obter melhores condições se se separasse do governo da Áustria e aparecesse separado.

É capaz que se tenha enganado nas estimativas.

Não lhe correu nada bem. Bem, e depois houve tratados de paz diferenciados. Portanto, Versalhes com a Alemanha, em junho de 1919.

É o primeiro e é de longe o mais popular.

É o mais importante, porque a Alemanha era o principal combatente.

Sim, mas ainda assim.

Os outros eram relativamente potências secundárias em relação à Alemanha, quer a Áustria, a Hungria, quer o Império Otomano. Portanto, Versalhes com a Alemanha em junho de 1919, Saint-Germain-en-Laye com a República da Áustria a 10 de setembro de 1919, pois Neilly-sur-Seine com a Bulgária em novembro de 1919, Trianon com Hungria a 4 de junho de 1920 e depois Sèvres com o Império Otomano a 10 de agosto de 1920. Portanto, são tratados separados. Os aliados trataram separadamente os vários poderes, até porque nem eram sempre os mesmos aliados. Por exemplo, os Estados Unidos nunca estiveram em guerra com o Império Otomano. Só a França e a Inglaterra é que estiveram em guerra com o Império Otomano e só a França e a Inglaterra é que lidaram com os otomanos. Portanto, a Hungria fez a guerra entre 1914 e 1918 como parte da monarquia austro-húngara, que é o nome oficial desta entidade política, é uma entidade dualSão dois Estados unidos pelo mesmo monarca, o monarca da família dos Habsburgos. O monarca tinha o título de Imperador da Áustria e Rei da Hungria. Havia um governo e um parlamento em Viena e havia um governo e um parlamento em Budapeste. Este arranjo surgiu em 1867. E agora estás a saber o que é que existia antes. O que existia antes remete-nos para a história da Hungria. É uma história que pode parecer complicada, mas não tem de ser complicada. Nós vamos contá-la aqui devagar, mas sem levar muito tempo.

Sem levar muito tempo, mas é assim.

Mas para torná-la clara. Comecemos então pelos húngaros. E para dizer que eles não se chamam a si próprios húngaros, como acontece com muitos outros casos.

São os magiares.

São os magiares. A palavra Hungria-

Tem imenso jeito quando fazem relatórios de futebol, porque vão saltando a equipa magiar.

Eles chamam a si eles próprios magiares e o nome do país também é República Magiar, também é um Estado magiar. A palavra Hungria, de onde é que aparece? Há uma discussão sobre isso. Aparece nas fontes latinas, Hungria, há quem ache que é para descrever uma federação que teria existido na Alta Idade Média de sete tribos magiares e o nome seria "Etomogor", que daria, deturpado em latim, Hungria. Isto é uma das teses, mas há outras, não vou aqui elencá-las nem criticá-las. Mas basicamente estes magiares são uma tribo de guerreiros nômades que devem ter vindo das estepes da Ásia, entre os Urais e o rio Volga. Eles falam uma língua que não é uma língua indo-europeia. É uma língua muito singular na Europa, enquanto as outras línguas europeias, desde o alemão ao italiano, português, francês, inglês, são línguas indo-europeias, o húngaro não é. O húngaro é apenas aparentado na Europa, e é um parentesco remoto já com o finlandês, é uma língua bastante diferente das outras línguas, é uma língua que os linguistas chamam de aglutinante, o que significa, por exemplo, que a frase em português: "eu vou para a minha casa", que tem seis palavras, em húngaro só tem três, porque para a minha casa é uma palavra só. É casa com prefixos e sufixos que indicam que é minha, em direção, eu vou para lá. O turco também funciona assim, é uma forma diferente de funcionar das outras línguas. No século IX, os húngaros instalam-se numa grande planície no centro da Europa, que é conhecida pela Bacia dos Cárpatos, que é basicamente uma grande planície que fica rodeada a norte e a leste pelos montes Cárpatos e depois a oeste pelos Alpes e a sul e a sudoeste pelos chamados Alpes Dináricos. Os Alpes Dináricos é uma cordilheira que continua os Alpes ao longo do mar Adriático. Basicamente, a Hungria fica nesta bacia rodeada por estas montanhas. Essa bacia é atravessada pelo Danúbio. O rio Danúbio é uma das grandes vias de comunicação na Europa, não é por acaso que várias capitais europeias ficam no Danúbio, Viena na Áustria, Bratislava na Eslováquia, Budapeste na Hungria, Belgrado na Sérvia, era uma grande via de entrada e de comunicação no continente europeu a partir do mar Negro. Os húngaros estão ali instalados nesta grande planície e convertem-se ao cristianismo e formam o Reino da Hungria no ano 1000, com o primeiro rei a ser um santo, Santo Estevão, que é o primeiro rei da Hungria e por isso o Reino da Hungria é também conhecido pelas Terras da Coroa de Santo Estevão. É uma das formas com que se alude ao Reino da Hungria. A Hungria é um reino importante, tem recursos, tem minas, é um dos grandes produtores de ouro na Idade Média europeia, é uma zona relativamente próspera. E o que é que acontece a este Reino da Hungria, que aparentemente até agora tem tido uma, estou a abreviar imenso, mas tem tido uma história aparentemente feliz. É que na segunda metade do século XV, os otomanos conquistam Constantinopla, avançam nos Balcãs, avançam na Europa e os húngaros ficam na linha da frente contra o poder otomano. E o Reino da Hungria tem um fim trágico numa batalha, a Batalha de Mohács, em 1526, em que o rei da Hungria e o seu exército são destruídos por Suleiman, o Magnífico, o exército otomano. É uma espécie de Alcácer Quibir. O rei morre, o exército é todo destruído, só que com consequências ainda mais graves do que Alcácer Quibir, uma vez que metade do reino é imediatamente conquistado pelos otomanos e o resto é dividido entre um príncipe húngaro, que fica a ser o príncipe da Transilvânia, que é um vassalo dos otomanos, e o imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Este imperador, que era parente do rei da Hungria, reivindica o título do rei da Hungria, faz o papel de Filipe II, aqui a de repente ficar com o título de Rei da Hungria. E é aqui que os HabsburgosSe tornam reis da Hungria, inicialmente muito pouco da Hungria e depois nada da Hungria, porque entre os séculos XVI e XVII, os otomanos acabam por conquistar toda a Hungria, incluindo Buda e Peste, que são as cidades que depois vão dar origem no século XIX a Budapeste. Portanto, este é o primeiro trauma da história húngara e do nacionalismo húngaro, que é estes 150 anos de dominação otomana, muçulmana. Este poder muçulmano.

É muito tempo.

É muito tempo. Alguns historiadores, sobretudo no século XIX, davam a entender que isto teria sido um desastre gigantesco para os húngaros, que os húngaros no século XV eram até um reino relativamente bem povoado, 4 milhões de habitantes, e que devido às violências otomanas no século XVII já só tinha 1 milhão de habitantes, portanto, no século XVII, um quarto da população que teria tido na Idade Média. Isto seria um desastre enorme para a Hungria e para os húngaros, esta ocupação otomana, sobretudo durante o século XVI e quase todo o século XVII. São os Habsburgos, imperadores do Sacro Império Romano-Germânico, que enquanto reivindicando o título de reis da Hungria, são eles que vão dirigir aquilo que podemos chamar uma reconquista, para equiparar àquilo que acontece na península ibérica na Idade Média. Nos séculos XVII e XVIII são os Habsburgos que vão dirigir a reconquista, sobretudo durante a grande cruzada de 1683 a 1699. Em 1683, o exército otomano estava a cercar Viena, na Áustria, e os otomanos são derrotados na Batalha de Viena e a partir daí os Habsburgos passam à ofensiva e a campanha vai se tornar um desastre enorme para os otomanos. Não é maior porque a França ataca o império dos Habsburgos a o Ocidente para aliviar os otomanos. A França estava aliada aos otomanos, um poder cristão aliado ao poder muçulmano, e portanto os otomanos pedem ajuda. Os franceses atacam o império dos Habsburgos. Os franceses também estavam com receio que se os Habsburgos derrotassem completamente os otomanos, se pudessem tornar demasiado poderosos. Também estavam interessados em não deixar os Habsburgos crescerem muito. Mas mesmo assim, os Habsburgos conseguem reconquistar Budapeste em setembro de 1686. E finalmente, numa batalha que é a segunda Batalha de Mohács, tinha havido a primeira Batalha de Mohács no século XVI, em que os otomanos tinham vencido, e agora há uma segunda batalha no mesmo lugar, em 1687, em que o Duque de Lorraine, que é o comandante do exército dos Habsburgos, destrói completamente o exército otomano. Os otomanos ficam sem exército, é completamente destruído, é um desastre gigantesco para os otomanos. Repito, o exército do Duque de Lorraine só não avança em direção a Constantinopla porque os franceses entretanto atacaram e os Habsburgos têm de mudar a maior parte do exército para o Ocidente para defender-se contra os franceses. Mas de repente a Hungria está outra vez sob um poder, mas não é sob o poder de um rei húngaro, é sob o poder de um rei da Hungria, que é um Habsburgo. Este reino da Hungria que os Habsburgos refazem no fim do século XVII, princípio do século XVIII, eles dão-lhe um parlamento, uma dieta onde estão representados os nobres húngaros, têm um governo, mas na prática, a Hungria é governada pelo imperador a partir de Viena. A língua oficial da administração é o latim, não é o húngaro. O húngaro só se torna língua oficial da administração em 1836. Digamos que esta libertação do poder otomano é o primeiro trauma, a ocupação otomana, e agora começa um segundo trauma que é a ascendência dos Habsburgos na Hungria.

Muito bem. O segundo trauma fica pra segunda parte e encaixa muito bem. Até lá. Olá, seja bem-vindo a esta segunda parte de "E o Resto é História". Nós estamos a falar, em parte, da história da Hungria para chegarmos ao famoso Tratado de Trianon, que não é tão famoso assim, mas nós vamos torná-lo ligeiramente famoso depois deste programa.

Fica famoso entre os nossos ouvintes.

E tu, Rui, estavas a falar dos vários traumas. É um país muito traumatizado. Tu eras no trauma dos Habsburgos.

No fim do século XVII, os Habsburgos conseguem reconstituir o reino da Hungria, mas governado basicamente a partir de Viena. Há muitas diferenças entre o reino da Hungria e o resto dos domínios dos Habsburgos. Por quê?Parte importante da nobreza não é católica, é calvinista. A Hungria tinha tido um grande sucesso no século XVI da Reforma Protestante, e depois são os Habsburgos católicos, ou o monarca católico, o imperador, que vão reconquistando, fazendo uma nova missionação para voltar.

Mas isso significa que os otomanos não embirraram excessivamente com os protestantes?

Os otomanos deixaram os cristãos, basicamente, colidir uns com os outros. Repare, quando eu estava a dizer, os otomanos ocupavam uma parte da Hungria, que continua a ser supostamente autónoma, mas é um Estado vassalo dos otomanos, que é o Principado da Transilvânia, que durante algum tempo também se chamou Reino da Hungria e depois deixou de se chamar, passou só a chamar Principado da Transilvânia. Os otomanos na Europa têm estes Estados vassalos, que são Estados cristãos, mas que estão sob o controle otomano. Isto é, há uma autoridade otomana, mas depois deixa haver um nobre local, um nobre cristão. Repare, às vezes as autoridades otomanas também são cristãos, porque não são necessariamente muçulmanos. Mas são representantes do vizir, pode ser, por exemplo, um grego ortodoxo, que está a representar o vizir, a representar o sultão ali naquela zona. Portanto, o Império Otomano é um império complexo, em que o poder, já falámos aqui dele, o sultão é sunita, mas depois tem gente de muitas religiões sob o seu controle. Os sunitas dominam, mas as outras populações são mais ou menos toleradas até um certo ponto. O governo dos Habsburgos tem este problema de não ser um governo húngaro. É um governo católico quando uma parte da nobreza húngara é calvinista, outra parte também é luterana, mas é sobretudo calvinista. Reage mal a ter aquela potência católica. E aí há revoltas, há uma espécie de uma dissidência constante ao longo do século XVIII e no século XIX, o movimento nacionalista húngaro vai se tornar muito forte. E vai levar a uma revolução republicana separatista em 1848, aquela Primavera dos Povos na Europa, também há uma revolução em Budapeste, proclama uma república húngara que se separa. A Áustria, nesta altura, já não tem força para dominar a Hungria, pede a ajuda da Rússia, é um exército russo que entra na Hungria para dominar esta revolta. Portanto, um segundo grande trauma para os nacionalistas húngaros, o esmagamento da revolta nacionalista de 1848, 1849. Os Habsburgos percebem que têm de chegar a alguma forma de compromisso com o nacionalismo húngaro, e é aí que se chega à monarquia dual em 1867. Isto é, os Habsburgos optam então por separar o governo do império da Áustria do governo do reino da Hungria. É aí que se chega àquela situação que eu descrevi há pouco, que é dois governos que têm poder igual, são equiparados. Há um governo, há um parlamento em Viena, há um governo, um parlamento em Budapeste. Eles só estão ligados ou coordenados em relação à política externa e à política de defesa. Portanto, é uma espécie de federação. É verdadeiramente uma federação.

E tinham um imperador comum.

O imperador não, não têm um imperador comum, têm o imperador da Áustria e o rei da Hungria.

E não há ninguém acima.

Não, o imperador da Áustria é também rei da Hungria. Ele na Hungria é rei.

O imperador da Áustria também é rei da Hungria.

Mas na Hungria, ele como imperador da Áustria, não manda absolutamente nada. Na Hungria, a autoridade que tem é como rei da Hungria. Atenção.

Certo.

Ele é rei da Hungria.

Ok. Portanto, são a mesma pessoa, mas então na Hungria há alguém que manda tanto como o rei. Não sendo rei.

Não, na Hungria é o rei da Hungria. Isto é, é uma monarquia constitucional e o governo de Budapeste-

Espera aí, mas o imperador da Áustria e o rei da Hungria são a mesma pessoa.

São a mesma pessoa, exatamente. Mas o que eu estou a dizer é que essa pessoa, que é a mesma pessoa, tem na Áustria poder enquanto imperador da Áustria e tem na Hungria poder enquanto rei da Hungria. Isto é, se ele aparecesse na Hungria a dizer: "Eu como imperador da Áustria, acho que..." "Não, desculpe, o senhor como imperador da Áustria, não manda nada aqui."

Muito bem, estou a ver. Eu tenho sempre a sensação que as monarquias eram muito mais complexas do que hoje em dia são as repúblicas.

Talvez não, mas aqui era um arranjo federal. E é assim que chega em 1914 a Primeira Guerra Mundial. Agora, para perceber o que aconteceu à Hungria no fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, 1919, é preciso também perceber o que era este reino da Hungria. Este é o outro lado complexo, mas nós vamos tentar que fique claro para os nossos ouvintes. É que o reino da Hungria integrava territórios que são hoje a Hungria, mas também são a Eslováquia, grande parte da Romênia, parte da Ucrânia, parte da Sérvia, parte da Croácia, parte da EslovêniaDa Polónia. Integrava territórios que pertencem hoje a oito países diferentes e que nessa altura era só um, que era o Reino da Hungria.

Grandinho.

Neste Reino da Hungria, os magiares são uma minoria. São seis milhões numa população de 14 milhões em meados do século XIX. Estes números são muito discutidos.

Mas é muita gente de qualquer forma naquela altura.

Eles no século XIX, de repente começam a aperceber-se que aquilo começa-se a democratizar e começam a contar como húngaros populações que talvez não fossem húngaros, mas às vezes falavam húngaro, já contavam como húngaros. Por exemplo, eles começam a contar os judeus como húngaros, que era uma coisa que antes não faziam, mas a partir desta altura começam a contá-los como húngaros para aumentar o número dos magiares na Hungria. Há alguns historiadores, talvez exagerando um bocadinho, que dizem que verdadeiramente os magiares não são uma nação, são uma classe social. Isto é uma coisa muito importante para compreender a Europa Oriental. Na Europa Ocidental, basicamente, a nobreza e a população trabalhadora falam a mesma língua e são da mesma nação. Na Europa Oriental, não. As nobrezas falam uma língua diferente do resto da população. E era o que acontecia no Reino da Hungria. No Reino da Hungria, basicamente, a nobreza era magiar, os grandes e os pequenos nobres eram todos magiares. Os húngaros eram uma nobreza no Reino da Hungria, basicamente. E a população de trabalhadores eram os eslavos, eram ucranianos, eram eslovacos ou eram romenos. E depois, por exemplo, os comerciantes e os profissionais liberais nas cidades eram alemães e eram judeus. Digamos que as diferenças sociais correspondiam a diferenças de nacionalidades na Europa Oriental.

Certo.

É um mundo completamente diferente da Europa Ocidental, onde a sociedade é nacionalmente mais homogênea. Na Europa Ocidental está separada em grupos sociais, mas parentemente fazem parte de uma só nação. Na Europa Oriental, os grupos sociais correspondem a nacionalidades diferentes. Os magiares é, sobretudo, a nobreza magiar. Quando no século XVII ou no século XVIII eles falam de magiares, eles estão a falar da nobreza, basicamente.

Certo.

É a nobreza.

Depois tínhamos os eslavos.

Depois tinhas os eslavos, quer dizer, os ucranianos, eslovacos, que eram os trabalhadores. E como é que essa gente toda tinha entrado nesta bacia dos Cárpatos, isto é, no Reino da Hungria? Tinha entrado, sobretudo, no século XVIII. É que no século XVIII, o governo Habsburgo tenta repovoar o Reino da Hungria após derrotar os otomanos e ter reconquistado, e tenta repovoar incentivando a imigração de trabalhadores de outros territórios para a planície húngara. Traz romenos, traz ucranianos, traz eslovacos, traz croatas, etc.

Se organizaram em determinadas atividades.

E que ficam ali. Acabam por ficar dentro do Reino da Hungria, e constituir quase a maioria da população do Reino da Hungria em meados do século XIX, eles são cerca de oito milhões para seis milhões de pessoas consideradas húngaras pelos registros oficiais. O que acontece no fim da Primeira Guerra Mundial, no fim de 1918? É que como na Alemanha e como no Império Otomano, estes grupos nacionais que estão no Reino da Hungria revoltam-se e reivindicam duas coisas. Alguns deles reivindicam a independência. Por exemplo, os eslovacos querem a independência e juntar-se até aos checos. A República Checa fazia parte do Império da Áustria, também se torna independente e depois tentam se unir na Checoslováquia.

Há combates naquela zona da Primeira Guerra Mundial?

Há combates em 1919. A guerra continua, porque o exército checo depois ataca a Hungria, o exército romeno ataca a Hungria, porque os romenos no Reino da Hungria querem se juntar à Roménia, o exército húngaro não deixa e o exército romeno ataca a Hungria. A guerra só acaba no Reino da Hungria em junho de 1919, e até por imposição dos aliados ocidentais que obrigam o exército checo e o exército romeno a parar. E as fronteiras são desenhadas nas linhas da frente. Onde os exércitos estão é as novas fronteiras dos países que estão a surgir. A nova República da Hungria, que é proclamada em novembro, ainda tentou manter-se como estado federal, por isso é que eles se separaram da Áustria e proclamaram logo uma república. Isto era uma forma de apelar aos americanos. Nesta altura, toda a gente pensou que os Estados Unidos fossem talvez mais imparciais do que a França e a Inglaterra, que deviam estar todas vingativas, a tentar vingar-se do outro lado, e que os Estados Unidos, sobretudo o presidente Wilson, fosse um bocadinho mais imparcial. Por isso eles proclamam imediatamente uma república e dizem que querem constituir um estado federal com as várias nacionalidades. Os aliados, a França e a Inglaterra, optam por desmembrarO Reino da Hungria ou o que eles fazem no Tratado de Trianon. O Tratado de Trianon não é o resultado de uma negociação, tal como é o Tratado de Versalhes. Não é o resultado de uma negociação, é um diktat, é imposto pelos aliados. O único papel dos alemães foi assinar. E os húngaros também assinaram.

Mas os húngaros estavam como a Alemanha, estavam militarmente derrotados para aceitarem tudo?

Sim, estavam derrotados. Aliás, a derrota começa precisamente na frente leste. É por isso que a Bulgária pede primeiro em setembro de 1918 e logo a seguir a Áustria e a Hungria, porque basicamente a frente oriental, isto é, a frente com os exércitos aliados que estavam nos Balcãs e o exército italiano, a Itália, a frente tinha caído. O exército austro-húngaro tinha se desfeito nas suas nacionalidades. Os checos disseram: "Vamos embora, vamos para..." Os checos, os húngaros, os eslovacos, as unidades separaram-se completamente entre elas e de repente começaram a combater entre elas. Foi o que aconteceu também em 1919. Aquilo que os aliados vão impor através do Tratado de Trianon é a cedência de territórios desta República da Hungria, antigo Reino da Hungria, a todos os seus vizinhos, mas sobretudo à Roménia, à Checoslováquia, à Jugoslávia, à Polónia e até à Itália. Eles tiveram de ceder territórios à Itália. Inicialmente, a Hungria fica reduzida até a menos de um terço, a 28% do que era em 1914, pelo Tratado de Trianon, reduz a um terço. Com o território, a Hungria perdeu metade das suas maiores 10 cidades, deixaram de ser cidades húngaras, todas as suas minas de ouro e de ferro, tudo aquilo que eram minas ficaram todas nos territórios que teve de ceder, 40% da sua terra arável e 50% da sua indústria. Perdeu 50% da indústria. Mas não foi só o território que foi cedido. As populações no Reino da Hungria estavam misturadas, não havia só um território onde houvesse só romenos e húngaros. As populações tinham-se misturado ao longo de mais de um século. O que quer dizer que muitos não húngaros continuaram a viver na Hungria, 10% da população da Hungria não era magiar, continuavam a ser romenos, eslovacos, alemães, etc. Mas o pior foi que 3,4 milhões de húngaros, 30% da população magiar, ficaram fora da Hungria submetidos a governos estrangeiros, sobretudo na Roménia. Milhões de húngaros ficaram na Roménia, que foi a Transilvânia que foi toda transferida para a Roménia.

E com ela o Conde Drácula.

Exato, esse conde. Os delegados húngaros protestaram imediatamente. Depois, não se sabe que nacionalidade que o conde preferiu, mas eu acho que era romeno. Ele ao menos ficou romeno.

É a Transilvânia.

Transilvânia, que era uma parte do Reino da Hungria. Os delegados húngaros em Trianon protestaram. Eles queriam que houvesse plebiscitos, que as fronteiras fossem plebiscitadas, porque estavam convencidos, por exemplo, no caso da Transilvânia, os húngaros eram suficientemente numerosos para esse território ficar na Hungria, mas os aliados disseram que não havia eleições, nada, estava decidido ali. E depois argumentaram também os delegados húngaros que tentaram convencer os aliados que eles estavam a cometer um erro porque estavam a deixar a maior parte dos recursos econômicos daquela região mal entregues, entregues aos eslovacos, entregues aos romenos, aos sérvios, diziam eles, a povos menos desenvolvidos. E isso, claro, foi usado imediatamente pelos delegados destes outros países para dizer: "Estão a ver como os húngaros nos tratam, sempre a achar que nós somos inferiores." De facto, era um tratado horrível para a Hungria, era um tratado punitivo, isto era para castigar a Hungria. Os vários tratados foram contra a Bulgária, o tratado com a Alemanha, o tratado com o Império Otomano, são tratados punitivos, para castigar aqueles países que os aliados achavam que tinham sido responsáveis pela guerra. Com a Hungria não é um tratado imparcial. É um tratado para punir a Hungria. Além de ceder o território e de ficar sem a população, a Hungria ainda teve que pagar compensações aos estados a quem tinha entregue a maior parte do seu território. Ainda teve que lhes pagar compensações. Foi proibida de ter um exército acima de 35 mil homens, ficou à mercê da Roménia, da Checoslováquia e dos outros estados. E reparem, isto era um país que tinha um exército de 1,4 milhões de homens em 1918. Agora não podia ter mais de 35 mil homens. É o tratamento a que foi sujeita a Alemanha, que foram sujeitos os otomanos, que foi sujeita a Bulgária, mas que no caso da Hungria ocasiona um trauma ainda maior, porque a queda é gigantesca. E o Tratado de Trianon é o terceiro grande trauma da história húngara.

Eu vou ter que te interromper. Terceiro trauma, terceira parte. Infelizmente, para quem está a ouvir em FM, este programa só tem duas. A terceira parte vai ter que ouvir em podcast, mas nós, para quem está a ouvir em direto, estaremos de volta aqui para a semana. Até lá. Então, Rui, terceiro trauma.

Quando nós contemplamos o que a Hungria era em 1914 e o que passou a ser em 1919, 1920A queda é gigantesca. Para começar, em 1914 o Reino da Hungria era parte de uma monarquia, a monarquia austro-húngara, que tinha 51 milhões de habitantes e 621 mil km quadrados. Era a segunda maior unidade política em termos de território na Europa depois da Rússia, e era o terceiro país com mais população depois da Rússia e da Alemanha. Era uma das grandes potências europeias, embora de fato já não tivesse a força que correspondia a estes números, mas ainda era um grande Estado. Dentro dessa monarquia austro-húngara, o Reino da Hungria era uma coisa importante: 282 mil km quadrados, cerca de 18 milhões de habitantes. E o que acontece em 1919 é que este reino, que tem quase o tamanho da Itália, fica de repente reduzido ao tamanho de Portugal, com 93 mil km quadrados e com uma população de sete, oito milhões de habitantes. É uma descida nos rankings das potências europeias dramática. A Alemanha também perdeu territórios, também perdeu população, mas não se equipara a estas perdas da Hungria. A Hungria ficou reduzida a uma coisa quase irreconhecível em relação àquilo que tinha sido. E pior do que isso, como já tinha dito, milhões de húngaros ficaram sujeitos a governos de outras nacionalidades. Reparem, isso tinha sido uma das causas principais dos grandes conflitos no princípio do século XX na Europa, o chamado irredentismo, isto é, Estados que tinham populações que correspondiam à sua nacionalidade noutros Estados. Por exemplo, havia muitos gregos no Império Otomano, os italianos tinham italianos no Império Austro-Húngaro. Isso era uma fonte de conflitos. A Primeira Guerra Mundial serve para resolver isso através quer de transferências de território ou transferências de população, como no caso depois entre a Grécia e a Turquia. A Primeira Guerra Mundial, no caso da Hungria, o que fez foi criar esse problema. A Hungria não tinha esse problema, criou esse problema de repente: há este novo Estado da Hungria que tem um terço da população que está sujeito noutros Estados, a outras nacionalidades. E claro, a imprensa em Budapeste durante os anos 1920 e 1930, o que vai estar sempre a noticiar, tal como a imprensa alemã em relação aos alemães, é a forma como os húngaros são maltratados nesses estados, na Roménia, etc. Não podem falar a língua, são perseguidos, estão a ver o que é que eles estão a fazer aos nossos compatriotas ali. Isso é uma coisa constante. O governo, nesta nova e mais pequena Hungria, pertence entre 1920 e 1944, durante 24 anos, a um ditador militar, o almirante Horthy. Este almirante, depois de uma guerra civil que também houve na Hungria em 1919, aliás-

Não faltou nada.

A proclamação até de uma república soviética na Hungria, aquilo torna-se um Estado comunista durante uns meses, uma guerra que envolve os países vizinhos, isto é, a Roménia e a Checoslováquia invadem a Hungria. O almirante Horthy restaura o Reino da Hungria, a República da Hungria, que tinha sido proclamada em 1918, acaba. Volta a haver Reino da Hungria e o almirante Horthy intitula-se regente do Reino da Hungria. Há esta situação caricata, com que toda a gente brincava na Europa, que era um país sem rei, mas que era um reino, e um país sem marinha, mas que era governado por um almirante. Isto é porque a Hungria não tinha acesso ao mar.

Com o corte territorial, ficou sem acesso ao mar.

Sem acesso ao mar, mas tinha um almirante. Sim, era um almirante da esquadra austro-húngara que tinha acesso ao mar, mas de repente ficou sem. Mas reparem, este Reino da Hungria que não tem rei e com um almirante que não tem marinha, representa de alguma maneira a frustração e até as aspirações dos húngaros nos anos 1920, 1930, isto é, recuperar o território, recuperar a população, recuperar a importância que tinham perdido. Esse é o grande objetivo que alimenta o nacionalismo húngaro. Os anos 20 e 30 são anos de nacionalismo, de agitação nacionalista na Hungria, em que basicamente há um partido nacionalista, e depois um partido ainda mais nacionalista, e depois um partido ainda mais nacionalista do que o outro. Cada um é mais nacionalista do que o adversário, porque o objetivo é recuperar tudo aquilo que se tinha perdido. Como é que eles vão recuperar isso? Bem, eles sabiam, por eles próprios não tinham meios, o governo húngaro por si próprio não tinha meios para recuperar, mas podia recuperar se se aliasse a potências que também estavam interessadas numa revisão de fronteiras na Europa. E há várias potências que estão interessadas nessa revisão. Há a União Soviética, mas a União Soviética ficava relativamente longe, nesta altura, da Hungria, e a Alemanha. A Alemanha que, a partir de 1933, é a Alemanha nazista, a Alemanha de Hitler. A Alemanha da qual, aliás, a Hungria tinha ficado completamente dependente, porque dependia do carvão alemão, ficou muito dependente economicamente da Alemanha nazista. Um pouco como agora está dependente do petróleo e do gás russo, na altura estava dependente do carvão alemão. E é com a Alemanha nazista que a Hungria vai fazer parelha para aproveitar as várias iniciativas que Hitler tem de refazer fronteiras. Em 1938, por exemplo, Hitler destrói a ChecoslováquiaUma ocasião para a Hungria recuperar a parte que tinha perdido, que era a Eslováquia, uma parte da Eslováquia fica pra ela. Em 1939, Hitler e Stalin, a União Soviética também, invadem a Polônia. Mais um bocadinho da antiga Hungria recuperada. Em 1941, Hitler ataca a Jugoslávia, mais uma recuperação. E em 1940, Hitler mediou uma espécie de acordo entre a Hungria e a Romênia para dividirem a Transilvânia. Metade ficou pra Hungria, metade ficou pra Romênia, ao contrário do que tinha sido previsto no Tratado de Trianon. Portanto, a Alemanha nazista ajuda, tal como destruiu o Tratado de Versalhes, destrói também o Tratado de Trianon, e a Hungria acaba por recuperar não tudo o que tinha perdido, mas em 1941 o Reino da Hungria tinha 172 mil km², portanto, quase o dobro do que tinha tido em 1930, e já tinha então 14 milhões de habitantes, em vez dos sete milhões que tinha em 1919.

Não foi mau negócio, aparentemente.

Aparentemente. Até 1941, as coisas correram todas muito bem. Quando a guerra começa a correr mal para a Alemanha, a partir de 42-

Começa também a correr muito mal pra Hungria.

Começa também a correr muito mal para a Hungria. O almirante Horthy, em 1943, percebe que a Alemanha vai perder a guerra e tenta afastar-se da Alemanha, tenta estabelecer contatos com os aliados, com a União Soviética para ver se sai.

Para dar alguma deitada.

A Alemanha não concorda. "Vocês estiveram conosco enquanto se tratou de partilhar território, agora vão ter que ficar até o fim, mesmo quando as coisas estão a correr mal." Em março de 1944, a Alemanha ocupa a Hungria e em outubro até derruba Horthy. Horthy tinha uma política ambígua, de colaboração com a Alemanha, mas ao mesmo tempo tentar afastar-se. Uma das coisas que o governo húngaro nesta altura é um governo que tem uma política antissemita já desde os anos 30, de exclusão dos judeus, mas durante muito tempo Horthy resistiu a entregar os judeus aos alemães, isto é, defender os judeus húngaros, que são muita gente, 800 mil pessoas. Portanto, ele tenta defendê-los. E a partir do outono de 1944, os alemães derrubam o Horthy, ocupam toda a Hungria e o último grande esforço que os nazistas fazem na Hungria quando já estão a perder a guerra, é tentar exterminar a população judaica húngara. Sobrevivem 200 mil dos 800 mil, quer dizer, eles conseguem quase exterminar a população. Depois do extermínio das comunidades judaicas da Polônia e da Rússia, a grande comunidade judaica húngara era a última em 1944 que ainda existia na Europa com grande volume, e é esta que os nazistas não deixam escapar até o fim. Isso é uma motivação ideológica tremenda. Eles querem mesmo exterminar, desviam recursos, coisas que deviam ser importantes pra guerra são desviadas para exterminar esta população em Budapeste. Depois a Hungria é palco de combates entre o exército alemão e o exército soviético, o cerco de Budapeste, combates enormes. E quando é derrotada a Alemanha, a Hungria é tratada não como um país libertado, mas como um país que tinha estado aliado à Alemanha, e portanto, recebe o tratamento do Tratado de Trianon outra vez, volta a ter 93 mil km².

É regressa exatamente às mesmas fronteiras.

Às mesmas fronteiras, e agora sob a ocupação soviética. A ocupação soviética, a princípio, parece que os soviéticos vão deixar a Hungria, os húngaros resolverem a maneira como se vão governar. Por exemplo, eles deixam que haja eleições mais ou menos livres em 1945. E os comunistas pró-soviéticos têm apenas 17% dos votos, portanto esta população magiar não quer os comunistas, não quer o comunismo. Mas a política de Stalin depois muda, que é impor o comunismo nestes países ocupados militarmente pela União Soviética. Eles tentam impor um governo comunista, impõem esse governo comunista, uma ditadura comunista, e os húngaros não ficam nada satisfeitos. E já falamos aqui da grande revolta em Budapeste, a 23 de outubro de 1956, é uma das mais impressionantes revoltas populares anticomunistas no bloco de leste, portanto a população revolta-se mesmo, pega em armas e tenta combater e destruir o sistema comunista e resistir depois à invasão soviética, isto é, os soviéticos não estão dispostos a perder a Hungria, portanto invadem a Hungria, os húngaros pedem ajuda ao Ocidente, o Ocidente, os Estados Unidos não ajudam, ninguém quer uma guerra com a União Soviética por causa dos húngaros. Aquilo é um trauma pra toda a gente, para os húngaros, mas também para os ocidentais, quer dizer, que guardaram a memória daquele desespero daquelas populações que estavam à espera da ajuda dos ocidentais e essa ajuda não veio. O que veio depois foi uma vaga enorme de migração húngara para o Ocidente, sobretudo pra Áustria. Mais de 200 mil húngaros fogem para o Ocidente, o que faz com que hoje há uma enorme diáspora húngara. Há oito milhões de húngaros a viver na Hungria, um pouco mais, e cinco milhões de húngaros ou descendentes de húngaros vivem fora da Hungria. Quando a democracia é restaurada finalmente em março de 1990, nota-se uma preocupação da nova república democrática em tentar afirmar uma continuidade com a história da Hungria. Por exemplo, eles vão adotar as armas do Reino da Hungria como armas nacionais outra vez. Embora sejam armas reais, tornam-se armas da República. Há uma grande preocupação em manter essa continuidade. E sim, isto cria uma cultura de algum ressentimento, de algum trauma, a ocupação otomanaO domínio dos Habsburgos, o Tratado de Trianon e a destruição do reino da Hungria e a sua partilha, a ocupação russa depois durante muitos anos.

É muito trauma.

É muito trauma e o que pode ajudar a explicar um pouco o apelo de programas nacionalistas, isto era uma das perguntas do nosso ouvinte, de programas nacionalistas numa comunidade onde as narrativas de vitimização são tão fortes. Isto é, de uma população que se sente cercada, maltratada, injustiçada por toda a gente. Obviamente, os seus vizinhos também têm razões de queixa deles e também dizem que também foram maltratados por eles, quando eles puderam tratá-los mal.

Mas isso explica também a singularidade da própria Hungria no meio da União Europeia.

Sim, além de todas as outras características culturais, isto é, de uma população que fala uma língua que não tem parentesco com nenhuma língua em redor, que tem uma história própria, que tem o orgulho daquilo que tinha sido o reino da Hungria e depois a sua destruição. Tudo isto cria um caldo de cultura que permite perceber como é que depois um espectro político atual da Hungria são partidos nacionalistas que competem entre si, só entre eles. Por exemplo, um caso um bocadinho semelhante, uma história bastante diferente, mas com resultado político um bocado semelhante, era o caso da Irlanda, em que também temos até agora partidos nacionalistas que competem entre si, só partidos nacionalistas. E percebe-se pela história da Irlanda, a que, aliás, já dedicamos aqui um programa. A história não explica tudo, a história não é razão para tudo, mas às vezes ajuda a compreender algumas características. E aqui parece-me que há uma memória histórica que na Hungria permite que determinado tipo de propostas políticas pareçam ter a caução do passado, pareçam legitimadas pelo passado.

Muito bem. E assim termina esta edição de "E o Resto é História". Gostava de saber dizer adeus em húngaro, mas não sei. Fica pra próxima. Até lá.

E o resto é história. É apenas fumaça do incêndio que lava ainda na zona dos Chiados. Aqui, portugueses acompanham com sobriedade as notícias da rádio. Quer transformar este país numa ditadura.

Não, atenção.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.