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Este é o Som do Youven Sorê das manhãs 360, que também pode acompanhar com imagem através das nossas redes sociais ou pelo site do Observador. Carla, esta quarta-feira estão conosco o José Manuel Fernandes e a Ana São Liz. Para onde vai o Bloco de Esquerda e para onde querem mandar os médicos? Vamos já saber. O que já sabemos é que Carlos Moedas não vai reconduzir a administração da Carris, uma decisão tomada ontem depois do relatório preliminar sobre o elevador da Glória. Ana, é uma decisão avisada. Bom dia.

É uma decisão. É alguma coisa. Eu acho que não é grande coisa. Face às conclusões do relatório e face até ao que Carlos Moedas entretanto disse, só se fosse maluco é que reconduziria a administração da Carris. O mandato da administração da Carris coincide com o mandato autárquico. Portanto, havendo um novo executivo na autarquia, o mandato desta administração termina, tem de ser proposta uma nova ou então reconduzir a atual. E realmente, só se Carlos Moedas tivesse um acesso de loucura é que ia propor a recondução desta administração, até porque a nomeação tem de ser votada pelo executivo da Câmara, pelos vereadores, porque Carlos Moedas não tem maioria para viabilizá-la sozinho. E como fomos ouvindo ontem e como seria óbvio, nenhum partido ia viabilizar a continuidade desta administração. Por isso é que eu acho que esta não recondução é um grande encolher de ombros. Não significa grande coisa. A administração da Carris não ia continuar. Eu acho que isso era óbvio pra toda a gente. Uma medida mais à altura daquilo que são as conclusões do relatório e mais simbólica até. Ou seja, o mandato está a terminar, mas nada impede Carlos Moedas de ler o relatório e dizer: "Isto é gravíssimo, vou demitir esta administração já."

Uma demissão levaria a indenização. Pode ser essa a ponderação do presidente da Câmara?

Pode ser, também pode não ser, sendo apurada uma justa causa.

Uma responsabilidade.

De alguma forma, uma justa causa. Não sei se legalmente isto é justa causa, mas enfim, é um assunto para discutir.

É um assunto para tribunais.

É. Sim, e reparem, não há conclusões do relatório. O relatório não tira conclusões ainda.

Claro que sim.

E só diz que daqui a um ano é que há conclusões, portanto, é um terreno juridicamente complexo, provavelmente.

Preciso ter em conta isso, que o relatório é preliminar e que não se pode concluir que aqueles problemas elencados foram a causa do acidente. Tudo bem, isso tem de estar, de facto, acautelado. Mas Moedas passa a mensagem de que não tem confiança nesta administração, assume a preocupação de querer recuperar o mais depressa possível a confiança e a credibilidade na empresa e opta para que a administração faça o seu mandato até o fim. Parece que tem receio de que sobrasse pra ele próprio. Não sei, porque Moedas fala em falhas graves, falhas muito graves que envolvem as duas últimas administrações, portanto, esta administração, a administração escolhida por si, e acho que seria uma opção mais corajosa, de facto, demiti-la, por muito que fosse uma demissão simbólica.

E mesmo que representasse algum custo.

E mesmo que representasse algum custo, porque não me parece que fosse um custo que as pessoas não fossem perceber. Realmente estava muita coisa mal ali, coisas que nunca podiam ter acontecido e que foram responsabilidade da administração, mesmo que não tenham sido a causa do acidente.

Sim, mas se me permites também, só produz efeito uma mudança de administração se a nova administração, seja ela qual for, vier com mandato para rever os procedimentos da empresa de alto a baixo. O que está naquele relatório mostra-nos uma empresa, a Carris, que transporta diariamente dezenas, talvez centenas de milhares de pessoas, não tem procedimentos mínimos de manutenção de equipamento. É surreal o que está ali. Como é que se chegou a isso? Isso é que eu acho que é o mais dramático. Exemplos de coisas que estão no relatório: o cabo que prende aqueles elevadores, comprado e fornecido pra aquele caso concreto, não corresponde às especificações que estão definidas no que toca à graduação do aço. Ninguém deu conta disso. Comprou-se o cabo, instalou-se o cabo, ninguém percebeu que aquilo viola aquilo que está estabelecido por técnicos. É suposto haver pessoas, engenheiros e técnicos especializados, que sabem que tipo de equipamento é que é instalado ali, que cabo é que é necessário e por aí fora. Durante a instalação do cabo, os trabalhadores detetaram diferenças no tipo de cabo e na resposta do mesmo. Este era mais elástico, de alguma maneira. E eles conheciam bem, diz o relatório, cujo comportamento era bem conhecido pelos trabalhadores e dava relativa satisfação, mas não tinham conhecimentos, estes trabalhadores, para detetar essas desconformidades. Estas diferenças foram informalmente reportadas ao departamento de engenharia, que nada fez. Depois, o relatório constata também que os mecanismos organizacionais de controle interno da Carris não foram suficientes ou adequados para prevenir e detetar tais falhas no cabo. Há coisas aqui fantásticas. Não existe qualquer procedimento escrito registrado no sistema documental da Carris, definido para o processo de fixação de cabos. Este processo passa de boca em boca, de geração pra geração, de técnico para técnico. Não há nenhum documento que diga como é que aquilo se faz. O relatório detectou também evidências de que as tarefas de manutenção registadas como cumpridas-

Já agora, só uma nota, Paulo. Eu recordo-me que essa tradição de passagem de boca em boca foi uma das coisas que os sindicatos, na altura do acidente, elogiaram.

Sim, foi muito elogiado.

Foi muito elogiado.

Claro, e um dia há três pessoas que sabem isso, que saem da empresa, e lá se acaba o boca a boca. Onde é que uma empresa destas, que transporta milhares de pessoas por dia, tem procedimentos desses não escritos?

Deixa-me acrescentar, alguns até estão escritos.

No relatório, uma das coisas que me fez impressão, porque eu tinha uma ideia diferente, é ter percepção de que não houve aumento do tráfego naquele elevador, ao contrário do que eu pensava, por causa do turismo. Eles têm lá um gráfico com o tráfego anual e ele mantém-se mais ou menos estável. Portanto, não havia ali uma sobrecarga dos últimos tempos, como eu suspeitei que poderia haver. Mas enfim, há muita coisa que precisa ainda de ser melhor percebida. Vamos lá ver, à partida, mudar aquele tipo de cabo, o tal cabo com alma em fibra de vidro, penso eu. Ou fibra de carbono, já não sei se é fibra de vidro ou fibra de carbono.

Não faço ideia. Mudar foi o tipo de cabo.

Mudar o tipo de cabo, à partida, é mudar para um cabo mais moderno e mais resistente, não é mudar para um cabo pior. Agora, a questão é saber se aquele tipo de cabos podia ter a tal especificação.

Mas para isso existem engenheiros, existem fabricantes de cabos.

Exatamente, eu não percebo nada de engenharia.

Eu não me atrevo a ver se no meu automóvel, se o cabo que liga não sei o quê, ou se as pastilhas de travões são A ou B. Quer dizer, há fabricantes que definem especificações.

Eu não consigo ter opiniões muito formadas, ao contrário de muita gente, que acho que já sabe porque é que aquilo caiu. Não consigo. Aliás, os próprios técnicos não conseguem. Portanto, não sou eu que vou dizer isso. Mas há um texto, hoje, que publicamos no Observador, de dois especialistas em Recursos Humanos, que falam sobre não a parte técnica, mas a parte da organização de empresas, e que é um artigo interessante, que eu recomendo.

Mas a questão é essa. O que está aqui em causa tem a ver com procedimentos internos da empresa, como é que a empresa funciona, o que é que os técnicos fazem, quem é que é responsabilizado.

E que não consegue verificar o trabalho da empresa que contratou para prestar o serviço de manutenção.

E há aqui outra coisa gravíssima neste relatório, que é: o relatório diz que há evidências de que as tarefas de manutenção registadas como cumpridas nem sempre correspondem às tarefas efetivamente realizadas. Ou seja, alguém na empresa diz que esteve lá a verificar o sistema X ou Y e não o fez.

Não tenho a certeza que tenha sido isso ou tenha sido aquela empresa externa.

Sim, isso é a verificação da empresa externa. Mas depois não há ninguém a confirmar.

Não há ninguém a confirmar. Então no dia do acidente?

Se está lá uma pessoa amanhã fazer um checklist de verificações, não está lá outra pessoa a ver se ela está a fazer o checklist bem. Isso faz parte.

A questão é essa.

Só que depois, apesar de tudo, havia mecanismos, como os vídeos, que permitiam ver que aquilo não batia certo. Penso que foi assim que se chegou lá.

No dia do acidente, por exemplo, há um técnico de manutenção que diz que registou que começou a abrir a cabine número 2 às 06:07 e menos de um minuto depois vai para a cabine um e acaba outra vez às 06:09. Portanto, em dois minutos. Isto é o que diz o relatório sobre isto. Portanto, ninguém verifica isto. E depois o governo também vem anunciar uma mudança de legislação sobre isto, vai criar leis para a supervisão e fiscalização.

Não resolve tudo com leis.

Já estava a preparar a resposta.

Mas resolve-se tudo com leis? Mas é preciso uma lei para dizer que os autocarros da Carris têm que ter os calços de travões em condições? Ou que é preciso verificar os pneus? É preciso leis para isso?

O relatório levanta uma questão importante, que é da fiscalização e supervisão, e dúvidas de que essas condições também podem não estar a ser cumpridas nos elétricos, que estão a funcionar, ao contrário dos elevadores, que por acaso estão parados, mas os elétricos continuam a funcionar e, pelos vistos, também há problemas aí.

O que eu acho: se este procedimento, se aquilo que foi feito agora e que nos é dado a conhecer dos elevadores, se aplica de uma forma genérica ao funcionamento de toda a empresa, eu acho que temos tido é muita sorte de não haver mais acidentes. Não quero ser alarmista. Mas se uma empresa não funciona dessa maneira-

Neste momento, os ascensor não estão a funcionar, nenhum deles.

Esses não estão, todos. Mas eu digo, se este tipo de prática se aplica aos autocarros e por aí fora, muita sorte temos tido nós.

E aos elétricos também, se são equipamentos antigos.

E aos elétricos. Por quê? Porque isto denota, de facto, uma cultura de empresa onde não há responsabilização, não há controle nenhum, funciona no boca a boca. Quer dizer, há aqui um amadorismo, de alguma maneira, e uma descontração em relação a normas de segurança que me parecem absolutamente gritantes.

E o pior do que isso ainda é a defesa que foi feita, e como dizia o José Manuel Fernandes, foi feita há pouco tempo, logo depois do acidente, pelos sindicatos. A defesa desse amadorismo, dessa forma de transmissão de conhecimento, que é um bocadinho medieval. A propósito das pinhas, a pinheir--

Eu gosto desse termo, medieval. Acho que é bom.

Não, eu pensei: será que eles estão ali a fundir o ferro e a invocar espíritos dos antigos funcionários da Carris para os ajudar na tarefa desconhecida? Por exemplo, a execução das pinhas. A pinha encaixa no trambolho e é por onde passa o cabo. Isto é tudo muito complicado, mas pronto. Esta execução ficou a cargo da empresa de manutenção contratada para esse efeito. E aquilo que se diz é que dentro da Carris A execução das pinhas é feita segundo um processo empírico-histórico, cuja composição e modo de fazer têm sido transmitidos ao longo das gerações de técnicos responsáveis, estando atualmente registados, atenção isto, num antigo caderno escrito por um técnico para então transmitir o seu conhecimento e experiência aos trabalhadores mais novos, documento este que não faz parte do sistema documental da empresa. Alguém acha que isto é admissível numa empresa?

Nem na carpintaria do senhor António.

Isto é completamente inadmissível.

A carpintaria é capaz de ter isso ainda, sobretudo se for uma marcenaria.

Isto parece as receitas da avó, que vão passando de geração em geração, e se algum dia alguém puser lá ovos estragados porque se lembrou, ninguém é responsável, porque isto era uma receita herdada. Não é possível. O relatório também falava da necessidade de atualizar para as melhores práticas, de acordo com as melhores práticas europeias. Isto parece-me estar de acordo com as práticas europeias da Idade Média, porque isto atualmente é inadmissível.

Queres dar nota, Bruno? Vamos começar.

É um zero, e para isto é um zero. Isto não pode funcionar assim. E a responsabilidade, por muito que cara das moedas, eu não digo que ele tenha de se demitir ou tivesse de se demitir, mas há uma responsabilidade, claramente tem de haver uma responsabilidade também política, porque o funcionamento disto não se explica só por questões técnicas, obviamente.

Tem a ver com organização. Ana, tu tens nota? Sim, eu já agora acompanho o zero. Mudança de administração é só o básico, não é só a administração que tem de mudar na Carris, é tudo, é toda a governação da empresa. Paulo, zero?

Eu também dou, e nem tem a ver com essa administração, nem com a anterior, nem com a anterior, nem com a anterior, nem com esse presidente de câmara, nem com os cinco anteriores. Isto é uma cultura que se vai desenvolvendo.

Desenvolvendo e degradando.

Degradando, que deixa chegar uma empresa que presta um serviço de transportes públicos, em que a segurança é absolutamente central, que se deixa chegar a esta degradação. Portanto, é a cultura de desresponsabilização e de amadorismo que este relatório demonstra, basicamente.

Fica também essa nota negativa. José Manuel, vou te escolher, dás nota a esta questão da Carris ou queres ir ao teu tema dos médicos?

Quero ir ao tema muito rapidamente. Eu sei que tenho muito pouco tempo. Estou a falar da questão dos médicos escalados para as urgências, saber se vão ter ou não de ser obrigados a fazer isso.

Para as urgências regionais.

Para as urgências regionais. Há aqui dois episódios anteriores àquilo que soubemos ontem, que a ministra está a preparar um decreto de lei que permita às administrações hospitalares, em casos já desesperados, fazerem uma mobilização forçada, digamos assim. O termo não é usado forçada, mas é requisitar as pessoas. Isto depois de ter havido negociações com os sindicatos. Penso que foi nestas negociações, porque tem havido tantas, que surgiu aquela ideia, enfim, uma bela ideia que nós gostaríamos todos de poder aplicar, que às compensações extraordinárias não se aplicar IRS, é uma coisa que qualquer patrão gostaria de poder fazer, porque às vezes quando quer aumentar os seus trabalhadores, mais de dois terços do seu investimento no aumento vai para contribuições para o Estado. Mas independentemente disso, esse processo não terá conseguido chegar a nenhum fim. O problema arrasta-se. E agora parece que há a possibilidade de, no limite, se mobilizarem trabalhadores quando não há voluntários. E os sindicatos e a Ordem vieram ontem com um tipo de reação que cada vez mais me convence que eles são parte do problema e não parte da solução. Porque numa situação destas, não estamos a falar de mobilizar pessoas para irem de Lisboa para o Porto. Alguns de eles acham que é obsceno, por exemplo, ter dito aos médicos que estavam em Santa Maria, com a maternidade fechada, que iam prestar serviços no São Francisco Xavier, que são hospitais que ficam a meia dúzia de quilômetros um do outro dentro da cidade de Lisboa e que, portanto, acham que isso não se pode repetir, e isso foi citado ontem. Ou acham que o Barreiro fica tão longe da Almada. As pessoas têm ideia que os cidadãos que estão a ser servidos por estes serviços públicos, todos os dias fazem às vezes dezenas de quilômetros para ir para o seu posto de trabalho e que ninguém exige ajudas de custo para fazer isso. Vir do Barreiro para Almada vai ter ajudas de custo. O contribuinte é que se devia sentir ofendido, não eram os médicos. Quando isto chega a este ponto, independentemente da inabilidade, da falta de habilidade ou de saber se um despacho é diferente de um decreto de lei da ministra, eu começo cada vez a achar que os sindicatos eram parte do problema, ou pelo menos os sindicatos da FENAM eram parte do problema, já estava absolutamente convencido disso. Mas a posição que agora também o próprio Sindicato Independente e a Ordem está a tomar é um entrincheiramento em posições corporativas, que, aliás, nesta questão das urgências, também tem a ver com o número mínimo de médicos que têm que estar para fazer serviço, com o facto de não se poder trabalhar em equipes diferentes, ou quase não se poder trabalhar, aparentemente, em equipes diferentes daquelas em que se está habituado a trabalhar. Enfim, a gente sabe que é melhor trabalhar em equipe. Mas vamos lá ver. Eu creio que para um parto num hospital não é preciso o grau de entrosamento de uma equipe de futebol. Imagino eu. Estou a dizer um disparate, mas é capaz de não ser necessário. Isto está a tornar-se uma situação em que para quem mora na Grande Lisboa e tem noção e faz o que faz todos os dias, e neste momento muitas das mães estão obrigadas a vir de Setúbal para Cascais, ouvir médicos dizerem que acham que têm que receber mais do que ajudas de custo para ir do Barreiro para Almada, começa a ser obsceno.

É mais uma nota baixa.

É uma nota baixa. Vai um zero para esse tipo de reações. Podia dar aqui nota à ministra e à inabilidade de algumas declarações, mas acho que a reação corporativa dos médicos começa a ser problemática para os próprios médicos.

E por isso o zero é a linha esta manhã, zero, zero, zero. Bruno, o teu tema do Bloco de Esquerda fica para a semana.

Há tempo, não vai mudar o panorama, não vai mudar tão rapidamente.

E o Venceré regressa mais logo na tarde política. Que tem versão alargada, começa logo a seguir ao jornal das 18h. Esta quarta-feira as notas vão ser dadas pelo Judite França, a Helena Garrido e o Pedro Benvides.