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E começa agora uma nova edição do "Iuvensoure", que também pode acompanhar com imagem através das nossas redes sociais. E Carla, esta sexta-feira está conosco Miguel Santos Carrapatoço.
E esta sexta-feira falamos de diplomacias, da vitalidade do turismo e da crise do Bloco de Esquerda, mas há também um outro nome, um nome incontornável que é o de André Ventura. Por quê, Miguel? Por que que o escolhes hoje?
É verdade, preferia não fazer, mas o líder do Chega reiterou e defendeu aquilo que o líder parlamentar do partido, Pedro Pinto, disse há um dia sobre-
Sim, à RTP
...à RTP, de que os polícias deviam atirar mais a matar. E André Ventura veio reiterar essas palavras, não usando exatamente a mesma formulação, mas defendendo a posição expressa por Pedro Pinto. Eu acho que o que André Ventura está a fazer ao longo desta semana está para além do inqualificável. É de uma tremenda irresponsabilidade, André Ventura está a se comportar como um pirômano político e devia fazer-nos a todos refletir, mas também fazer refletir uma parte, que acredito e estou certo que é uma minoria das forças de segurança, que se deixam contaminar por este tipo de discurso e que acham e entendem que o Chega defende a posição das polícias. Esta minoria, eu sublinho minoria, de elementos das forças de segurança que acredita que o Chega as defende, devia olhar pra o que aconteceu ao longo desta semana e refletir também, e perceber que o Chega e André Ventura não defendem os interesses da polícia. É um partido que não tem grande pudor em colocar polícia contra comunidade, comunidade contra polícia, e isso prejudica a imagem das forças de segurança, a imagem da GNR e, neste caso em concreto, da PSP. Portanto, se há alguma lição que se pode retirar, uma lição positiva, pelo menos, da forma como André Ventura se tem comportado ao longo desta semana, é uma reflexão para futuro, para que as forças de segurança percebam, uma minoria das forças de segurança, que acham que o Chega as defende, percebam que o Chega não defende a polícia, antes instrumentaliza muitas vezes o papel das forças de segurança tentando obter ganhos políticos com uma questão tão delicada e sensível como esta, como este incidente que infelizmente assistimos esta semana.
Sim, e com uma manifestação e contramanifestação amanhã em Lisboa.
Sim, vamos ver o que é que pode acontecer. Espero que não aconteça nada de grave, que as duas manifestações ocorram dentro das regras de urbanidade. Mas a forma como o Chega está a instrumentalizar isto tudo devia fazer-nos a todos refletir. André Ventura está pouco preocupado com o que diz e o efeito que isso pode ter, mas quem tem responsabilidades e quem tem, de facto, um papel a desempenhar, e aqui falo das forças de segurança, naturalmente, deviam, pelo menos esta minoria que acha que o Chega a defende e defende as forças de segurança, devia refletir e perceber que André Ventura presta um mau serviço às polícias.
A nota é, Miguel?
Um zero pra André Ventura, naturalmente.
Um zero para o presidente do Chega. E o Bloco de Esquerda, Bruno, como é que está o Bloco de Esquerda?
O Bloco de Esquerda está a viver um momento crucial para o futuro do partido. O partido anteriormente já viveu momentos de crise. Havia um grande receio do que aconteceria ao Bloco quando Francisco Louçã abandonasse a liderança. Desconfiou-se da eficácia da liderança bicéfala de Catarina Martins e João Semedo, pois Catarina Martins foi uma revelação política, acabou por ser. Não havia grandes expectativas em relação à Catarina Martins, mas eu creio que até conseguiu levar o Bloco a um eleitorado que não seria o eleitorado natural do partido. Mas este é um momento diferente, decisivo, porque é também um momento pós-geringonça. A gerigonça foi muito nociva pros partidos mais pequenos, pras rodas pequeninas da gerigonça.
Da engrenagem.
E isso ainda se está a refletir, mas eu acho que até vai pra além da questão da gerigonça. Este fim de semana há a Conferência Nacional do Bloco no Porto e há um grupo minoritário de militantes que vai levar ao encontro um retrato muito sombrio, até mais sombrio do que se calhar qualquer retrato que pudesse ser feito pelos inimigos ou adversários políticos do Bloco. Diz este grupo de militantes, num documento que vai apresentar, que o partido tem um modelo esgotado, tanto no plano político como organizativo, que é uma organização desmotivada, desmobilizada e sem atividade E que toma todas as decisões sem ouvir e sem prestar contas aos militantes. Isto não é raro nos partidos, sobretudo em momentos de crise. Há sempre sectores internos dos partidos que contestam as lideranças, que acham que não são ouvidos, que acham que se está a seguir um rumo errado. Mas a verdade é que, eu pelo menos tenho essa percepção e acho que é uma percepção generalizada, que não só a nível eleitoral, o Bloco já tinha tido maus resultados e entretanto conseguiu recuperar e uma dinâmica eleitoral apreciável, mas a percepção que existe é de que não só a nível eleitoral, agora o Bloco perdeu gás. Há uns anos o Bloco parecia ser a vários níveis, até na marcação da agenda, a locomotiva da esquerda e agora está um bocadinho aqui na expectativa. Viu-se nesta discussão toda à volta do orçamento, muito à espera do que Pedro Nuno Santos iria fazer, incapaz de determinar essa agenda, de condicionar essa agenda e ao mesmo tempo parece estar a ser ultrapassado aqui pela esquerda, por outros tipos de ativismo, um bocadinho mais inorgânicos, mais ligados ao terreno, que também são estes movimentos mais avessos à rigidez das estruturas partidárias, e falo de movimentos ativistas na área das questões raciais, das questões ambientais. E uma parte desta desmobilização, que é sentida também por estes militantes, pode ser atribuída à liderança de Mariana Mortágua, que já tem um ano e meio, já passou por duas eleições, as eleições legislativas e as europeias, os resultados foram negativos e faz também pensar na capacidade de liderança da própria Mariana Mortágua, porque há militantes e deputados que são muito bons, que são muito competentes nas suas áreas de intervenção, mas não significa que depois sejam bons líderes, porque aí é preciso outro conjunto de qualidades. E basta fazer a comparação com Catarina Martins. Catarina Martins chegou à liderança do Bloco de Esquerda com muito menor capital político do que Mariana Mortágua. Mas a verdade é que se revelou uma líder, uma coordenadora do Bloco extremamente eficaz. E depois há outras questões estruturais e também de equilíbrio interno, dos tais grupos dentro dos partidos que acham que falta sempre democracia interna, porque a liderança segue um caminho, um rumo com o qual não concordam, e isso acontece em todos os partidos. Aliás, temos vindo a assistir a isso, por exemplo, na Iniciativa Liberal, com muitas críticas à democracia, à falta de democracia interna. Acontece em todos os partidos.
Com o PAN também.
Com o PAN. E quando há crise, e quando os resultados não correspondem à expectativa, os líderes deixam de ter essa proteção dos resultados, então abrem caminho a estas críticas. Mas aquilo que se nota é que de facto há aqui uma necessidade de o Bloco de Esquerda se reinventar rapidamente e conseguir ganhar esta dinâmica que tinha anteriormente e que marcava muito a agenda da esquerda e obrigava os outros partidos da esquerda a irem atrás do Bloco, e neste momento isso perdeu-se. Portanto, os próximos tempos vão ser decisivos para o futuro do Bloco de Esquerda e vamos ver se Mariana Mortágua tem essa capacidade de tornar o partido novamente a locomotiva da esquerda, que perdeu claramente.
A nota?
A nota é negativa, é um cinco para o atual momento. Vamos ver agora nos próximos tempos se terá essa capacidade de se reinventar.
Vamos ver. Um cinco então. As notas estão baixinhas, Palmas, falando tu, querendo falar do turismo, vais encontrar mesmo o vencedor desta vez.
Acho que sim, o vencedor aqui, porque está a sê-lo no terreno do turismo já talvez há uma década, mais do que isso. E o turismo português, por que eu o trago aqui? Porque há novos dados, está a caminho de um novo ano recorde este ano. As estimativas apontam agora, já estamos aqui quase no fim do ano, para 27 mil milhões de euros de receitas. O ano passado tinham sido 25 mil milhões. E os dados da Confederação do Turismo de Portugal, que foram ontem apresentados por Francisco Calheiros, dizem que Portugal terá sido o primeiro país europeu a recuperar o nível de receitas, de provitos, que tinha do turismo em 2019, portanto, antes da pandemia. Nós sabemos que naqueles anos de 2020 e 2021 são basicamente quebras de séries em muitas estatísticas, em quase todas as estatísticas, diria eu, e o turismo não é exceção. E portanto, eu acho que é de celebrar que haja um setor com a dinâmica do turismo, que todos os anos bate recordes ou vai batendo recordes, que recuperou já e que é seguramente os mais dinâmicos da economia portuguesa. Os dados foram ontem divulgados no Congresso da Associação das Agências de Viagens, que está a decorrer desde ontem em Huelva. Temos aqui também outro dado importante, que é as receitas de turismo aumentam mais do que o número de turistas em Portugal. As receitas aumentam 10% e o número de turistas só aumentou 4%.
Quer dizer que estão a gastar mais.
Exatamente. O gasto individual é superior, o que também é um ótimo sinal. Temos aqui uma subida na escala de valor do turismo. Eu ainda me lembro do tempo em que se falava do turismo de pé descalço.
Era isso que ia dizer, exatamente.
Como sinônimo daquilo que nós não queríamos. Vinham turistas, mas gastavam pouco, muito pouco dinheiro nos restaurantes, nos hotéis, nas compras por aí fora. Isso é ótimo, até porque nós percebemos que há cada vez mais oferta de serviços pra turistas. Vamos a Lisboa e encontramos uma série de atividades hoje em dia que os turistas podem fazer e que dantes não existiam, o que significa também a dinâmica do próprio setor, que conseguiu aumentar a oferta e ter criatividade, imaginação, no fundo, pra compensar aquilo que, a este nível, o Estado e as entidades públicas não fazem. Nós continuamos a ter, apesar de uma ou outra estrela, museus muito pobres para a nossa história e para aquilo que podíamos oferecer. Bom, mas isto é um setor fantástico que tem sido muito criticado também e que a esse nível é vítima do seu próprio sucesso, de alguma maneira. E o presidente da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo, Pedro Costa Ferreira, também respondeu a isso. E eu acho que, de facto Nós, quando olhamos para o turismo e para o resto da economia, não temos turismo a mais, temos é o resto da economia a menos. Temos indústria a menos, temos outros serviços a menos, temos agroindústria a menos. Se todos os outros setores tivessem a dinâmica que o turismo teve nas últimas década, década e meia, nós tínhamos uma economia muito mais forte, muito mais robusta, muito mais equilibrada e sem se sentir tanto o impacto do turismo, nomeadamente, por exemplo, no setor imobiliário e da habitação. O turismo não está a causar danos. O que causa danos é a nossa tradicional incapacidade para planear, para fazer, para executar. E depois, obviamente, as coisas acabam por não estar organizadas no centro das cidades, no trânsito, na habitação. Por quê? Porque quem acaba por ser penalizado é quem faz, quem vai fazendo e causa impacto com isso. Mas queria deixar aqui esta nota positiva de que ainda bem que temos turismo, ainda bem que o turismo vai crescendo, porque cria emprego, gera riqueza para o país. O turismo é uma exportação. Quando dizemos que a economia portuguesa tem que ser cada vez mais exportadora, esta é uma exportação. E se tivéssemos nós mais turismo noutros setores, não teríamos uma economia tão estagnada.
Que nota vai dar, Paulo?
Vou dar um 16 a um setor que, de facto, na última década, década e meia, pode dar lições a quase todos os outros setores da economia portuguesa.
Devia ter tudo deixado para o fim, Paulo, porque conhecendo a opinião do José Manuel Fernandes sobre a prestação de António Guterres como secretário-geral das Nações Unidas, parece-me que, ao oposto, José Manuel, que não gostaste de ver Guterres ontem a encontrar-se com Vladimir Putin. José Manuel, ligando agora o micro do telemóvel.
De facto, não gostei nada. Nós já estamos infelizmente habituados a algumas atuações de António Guterres, mas o que ele fez ontem em Kazan, na Rússia, foi um pouco para além daquilo que se esperaria. Muito para além daquilo que se esperaria. Ora bem, o que está em causa? António Guterres não quis estar presente numa cimeira que foi organizada na Suíça para procurar encontrar uma plataforma de paz para a guerra da Ucrânia, mas achou que não podia faltar à cimeira dos BRICS, que este ano se realizava na Rússia. E mais do que isso, não podia deixar de ter um encontro com Vladimir Putin e aparecer várias vezes a cumprimentá-lo de forma calorosa. Ora bem, recordar alguns factos. Depois da guerra ter começado, António Guterres esteve em Moscovo, naquela famosa mesa gigantesca. Obviamente, não aconteceu nada, não teve consequência nenhuma, a guerra não parou, as agressões não pararam. Nessa altura, no entanto, não eram conhecidos o tipo de violações de direitos humanos que a Rússia tinha praticado, nem Vladimir Putin tinha sido condenado pelo Tribunal Penal Internacional, que é um organismo das Nações Unidas, portanto, da organização presidida por António Guterres, ou de quem ele é o secretário-geral, para ser mais preciso. E também não existia um mandado de captura contra Vladimir Putin. Eu recordo que neste momento não existe. Às vezes fala-se: "Ah, mas também Netanyahu." Não, o Tribunal Penal Internacional ainda não condenou, nem emitiu nenhum mandado de captura contra Netanyahu. Há um processo a decorrer e não sabemos como é que vai acabar. Portanto, a situação é diferente. Mesmo assim, o ano passado, quando Netanyahu foi a Nova Iorque para a Cimeira das Nações Unidas, encontrou-se com Guterres e curiosamente este ano não se encontrou. Enfim, há uma tensão grande entre Guterres e Israel, mas António Guterres acha que não deve haver tensão entre ele e Vladimir Putin. Ontem pessoas como os ucranianos, a presença da Ucrânia, pronunciaram-se sobre isso, a viúva de Navalny pronunciou-se sobre isso, tudo condenações muito fortes. Há na imprensa internacional várias referências a este encontro e textos, análises muito críticas daquilo que António Guterres fez, mas eu devo dizer que não fico particularmente surpreendido por duas óbvias razões. Primeiro, porque António Guterres tem uma dívida para com muitos países não democráticos, porque foram eles que o elegeram para secretário-geral das Nações Unidas da primeira vez e também da segunda. Nós, em Portugal, gostamos de ignorar isso, mas da primeira vez que ele foi eleito, ele concorreu contra um outro candidato europeu que tinha o apoio da maior parte dos europeus. Para ser eleito, ele teve que ter o apoio da China e dos países do Sul. E voltou a ser reeleito com base na mesma coligação, digamos assim. Portanto, eles têm laços de dependência com aquela parte do mundo onde abundam mais os países não democráticos. Sendo que mesmo nessas regiões do mundo, as situações se deterioraram, porque quando foi o início da invasão da Ucrânia, só houve cinco votos contra a resolução na Assembleia-Geral das Nações Unidas, e eu creio que hoje haveria provavelmente mais votos contra qualquer resolução no mesmo sentido, até porque há muitos países que gostam de preços mais baratos do petróleo russo e é uma das armas que Vladimir Putin tem usado nisto. Guterres não tem servido praticamente nada neste conflito e com o gesto de ontem, não só normalizou Vladimir Putin, que é para todos os efeitos um criminoso, e portanto, sobre isso, independentemente do TPI, eu diria, ele é um criminoso, é alguém que há muitos anos atua designadamente pelo assassinato dos seus inimigos políticos. Não há nada de comparável a nenhum dos outros conflitos do lado ocidental que possa ser comparável a isto. E é alguém que tem o mandado do TPI, mas esse mandado, pelos vistos, só vale para alguns. Para António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, não vale. Portanto, este comportamento eu acho absolutamente lamentável. Obviamente que o argumento que foi lá tratado a paz não casa, não avançou 1 mm. Ele já tinha estado lá uma vez, não avançou nada, não vai avançar nada, é paleio. Não passa de paleio. Portanto, justificações daquela máquina gigantesca e muito bem paga das Nações Unidas. António Guterres, infelizmente, tem-se vindo a destacar pela sua má atuação como secretário-geral. Eu devo dizer que recordando de alguns atos dele no passado, designadamente quando foram algumas crises europeias, não fico muito surpreendido. E olha, vou acabar a semana nem é com o quatro, é mesmo com o zero.
Dois zeros hoje. Ventura e agora a Tribuna.
É um zero para Ventura e um zero para Guterres. Há dias tem que ser.
Há dias, sim, José Manuel. No fim de semana, o "Iuvencius Horii" está em a versão de sábado e domingo, que começa depois das 22h30. Bom fim de semana para vocês, até segunda-feira.