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Já estamos no "O Vencedor" é da Rádio Observador, com a Judite França e hoje também com o Nuno Gonçalo Poças e o Alexandre Borges. Hoje vamos falar sobre muitos e variados temas. Temos um post para assinalar o Dia Mundial da Luta contra a Sida, que acabou apagado pela Direção-Geral da Saúde depois de acusações de racismo. Vamos também à doença que afetou o presidente da República e às preocupações do Ministério Público com as viagens de José Sócrates. Mas também temos que falar do debate de ontem entre António José Seguro e Jorge Pinto e claro, Judite França, da convenção do Bloco de Esquerda, que elegeu o novo líder, José Manuel Pureza, que deu uma entrevista à SIC.

Deu uma entrevista à SIC Notícias em que admitiu alguns erros para a situação do Bloco. Diz que não é uma situação exclusiva do Bloco, mas admite que o Bloco de Esquerda não conseguiu ler com atenção a ofensiva das direitas em Portugal e que tirando isso, tiveram uma outra fragilidade, que foi uma centralização de funções. Bom, a primeira não tenho culpado, a segunda também não. Houve uma centralização de funções, mas a culpa não foi de Mariana Mortágua, que aliás, Pureza considera ter sido uma das melhores coordenadoras do Bloco de Esquerda. Depois diz que foi asperamente atacada, estou a citar: "Como nenhuma liderança política foi, e uma das razões para isso é que Mariana Mortágua é mulher." Portanto, os ataques à liderança de Mariana Mortágua aconteceram por ser mulher.

Catarina Martins também era mulher.

É, Catarina Martins era mulher e é.

E é mulher.

E nunca se queixou disso.

Tem provas?

Conseguiu que o Bloco chegasse aos 15 deputados. Acho que nunca teve queixas de ter sido por ser mulher, algo lhe ter corrido pior. Houve líderes mulheres em muitos partidos. Neste momento a IL tem uma mulher à frente do partido. Houve outras no passado recente, Manuela Ferreira Leite, Assunção Cristas, nunca se queixaram de que o que lhes correu mal tivesse sido por serem mulheres. Portanto, eu acho que isto é uma desculpa de mau pagador. Acho que é positivo ter havido a assunção de alguns erros, é raro nos partidos, mas eu acho que é pouco. Era preciso dizer mais. Nós percebemos que os efeitos desses erros foi levar o Bloco a um deputado, mas depois não se percebe exatamente por quê. Eu sei que hoje temos muitos temas, portanto vou já dar a minha nota.

Avança.

José Manuel Pureza merece um 11 de expectativa. Tenho alguma expectativa do que é que Pureza vai fazer à frente da liderança do Bloco.

E este "O Vencedor É" também está em vídeo. Estamos a transmitir o que está a passar na rádio em direto, também em direto em vídeo, no YouTube e nas redes sociais do Observador e Nuno Gonçalo Poças, também estiveste atento?

Mais ou menos, não estive assim muito atento.

O fim de semana foi longo.

Foi, é verdade. Fui ouvindo assim uns lameires e na verdade, isso parece-me uma coisa um bocadinho evolutiva. Normalmente a esquerda quando perdia era porque as pessoas tinham sido enganadas de alguma maneira, tinham sido ludibriadas, tinham ido um bocado ao engano, iam se arrepender e voltar aos bons momentos. Isso, apesar de tudo, é sempre um bocadinho melhor reconhecer que houve alguns erros, ninguém percebe muito bem que erros é que houve. A coisa fica um bocadinho no ar. Mas aquilo que saiu, até da intervenção do Francisco Louçã, que ali surgiu um bocadinho novamente como o bonus pater família da coisa. E eu acho que esse apanhado é muito bem feito até na peça dos vencedores e dos vencidos e do acrobata que é o Francisco Louçã, que está hoje no site do Miguel Pinheiro, do Miguel Santos Carrapatoso.

O site deles é o Observador.

Eu disse que está no site, a peça é que é do... preciso explicar tudo.

Desculpa, foi sem querer contigo.

E o Francisco Louçã volta outra vez àquela conversa da casa, do pão, não sei o quê, do salário e tal, e abandona-se toda aquela conversa do eu candidato-me aqui por Viana do Castelo ou Braga, ou o que era, porque há um fascista na Casa Branca. E essas coisas todas foram um bocadinho abandonadas. É sinal de que a coisa pode não estar assim muito bem assumida, mas acho que perceberam.

É por isso que eu acho que há alguma expectativa com o José Manuel Pureza.

Sim. E apesar de tudo, ele é um nome mais ou menos consensual. As pessoas não o têm como um tonto.

Nem como um radical.

Certo. Embora sim, Bloco de Esquerda, enfim.

Dentro do Bloco de Esquerda.

Mas sim, mas dentro do Bloco de Esquerda não será dos mais radicais.

Deseja uma nota?

Não, não me interessa muito o Bloco de Esquerda, na verdade.

Então vamos avançar para o debate de ontem entre António José Seguro e Jorge Pinto. Alexandre Borges, estiveste agarrado à televisão?

Estive.

Ou estiveste a ver o "Stranger Things"?

Não estive. Espero não te desapontar, mas não sou um fanático do "Stranger Things". Desisti aí no fim da segunda, acho eu.

Sério?

Pronto.

Aquilo é quase sempre a mesma coisa.

É um pouco. Juro que foi isso que senti.

É divertido.

Ok, por aí então pode ser. Juro que foi isso que senti. E entra dentro daquela grande quantidade. Há mais saudosismo quase à volta dos anos 80 do que houve anos 80. Já estamos há mais anos no saudosismo do que duraram aqueles 10 anos.

Eu que estive lá, até não concordo contigo.

É isso.

Bom, vale que nós dois temos muito tempo.

É isso, portanto, podemos fazer estas digressões. Pelo que verdadeiramente importa.

Debate.

Sobre o debate ontem. Estive a ver o debate, de facto, e acho, antecipando uma nota qualitativa e não quantitativa, que os dois perderam. Estamos a falar do debate Jorge Pinto, António José Seguro. António José Seguro, que ainda por cima tinha participado no primeiro debate com o André Ventura, depois esteve doente e foi preciso adiar o debate com Cotrim de Figueiredo e de algum modo, enfim, para quem acompanha estas coisas É uma gloriosa minoria, mas estava um pouquinho a perder. É uma gloriosa minoria, digo isto porque, como se sabe, o debate mais visto tem 1 milhão e 200 mil espectadores. Há nove milhões de pessoas que não veem os debates. Vale a pena ter essa noção, até quando nos perguntamos por que as pessoas às vezes tomam as opções que tomam. Mas para quem acompanha e para quem quer formar a sua decisão ainda a partir dos debates, António José Seguro precisava de correr atrás do prejuízo. E acho que francamente não o conseguiu. Tendo anos perdido, António José Seguro, perante um candidato que em teoria lhe seria mais acessível do que outros políticos mais batidos ou mais agressivos, ou que disputassem mais diretamente com ele o centro, que em princípio é onde se ganham as eleições, António José Seguro deixou que Jorge Pinto comandasse todo o debate, mesmo com todos os erros que Jorge Pinto cometeu. Não trouxe temas próprios, contrariou ou tentou desmontar dois ou três dos primeiros pontos de Jorge Pinto e depois passou o resto do debate a dizer: "Olhe, está a ver, nisso também estou de acordo consigo". E para no fim, basicamente pedir, foi esta a ambição dele no debate, pedir o voto útil nele, os votos que se possam perder para o Livre ficarem com ele. O que é francamente pouco. É francamente pouco. E Jorge Pinto foi, depois de uma boa primeira impressão, diria eu, de que falámos aqui, reportando-me a isso no dia aqui com a Judite e não só, sobre a sua estreia em debates que foi com Cotrim de Figueiredo. Na verdade, fica a bater no início do debate no Orçamento de Estado de 2012, coisa fundamental às nossas vidas quando acabou de se aprovar o de 2026. A tentar colar António José Seguro a uma suposta fraqueza na defesa do que seria a sua defesa da Constituição, por causa dessa abstenção em tempos de troica.

Abstenção violenta.

Depois a querer também dizer: "Olhe, estamos aqui no primeiro de dezembro", exatamente no primeiro de dezembro, que é um feriado que durante a troica não existiu. Portanto, continuou a falar, é ele o "Stranger Things" lá para os audistas. E depois a agarrar-se a duas ou três coisas que já disse e que eu francamente fico espantado que não tenha mais nada a dizer, que é a história da revisão constitucional, dizendo que se fosse presidente, basicamente dinamitava o Parlamento se houvesse uma revisão constitucional aprovada pelas direitas, coisa que António José Seguro começou por rebater primeiro bem, dizendo: "No fundo, se você fizesse isso, em campanha eleitoral, o que é que ia estar em jogo? Um plebiscito a essa revisão constitucional", que é uma coisa que nunca se fez em Portugal, a não ser durante o Estado Novo, no começo do Estado Novo. Mas depois perdeu-se Seguro em falar: "Se você puser em causa o artigo 288, tem que ter quatro quintos da Assembleia." Não é preciso chegar aí. Uma revisão constitucional é feita com dois terços da Assembleia. Se um presidente derrubasse um parlamento por dois terços votarem uma coisa, era um golpe de Estado a partir de lá. Isso seria intolerável. E imagine-se o que ia acontecer a seguir no país, de facto, se fôssemos para eleições, o que ia acontecer à convivência do governo e do parlamento com um presidente assim.

Tens uma nota, Alexandre?

Tenho. Está bem. Ok, já percebi. Não, tenho. Eu diria que apenas porque o José Seguro tem mais a perder.

Eu não quero cortar o teu barato.

Não, pode ser que ainda dê para a bola voltar aqui. Eu daria um sete a Jorge Pinto e um seis a António José Seguro, que acho que ele tem muito mais a perder com este Jorge Pinto, apesar de tudo ter pouco a perder.

Nuno.

Tenho que fazer o disclaimer outra vez ou não? Acho que não. Pronto, então já toda a gente sabe. Não sei o quê. Não são sempre as mesmas pessoas. Portanto, olá, senhor ouvinte que não sabe quem eu sou. Sim, eu tenho sempre aqui este nuance. Tenho o meu apoio declarado a António José Seguro e portanto faço daqui toda a minha declaração de interesses. Eu acho que, ao contrário do que estava a dizer o Alexandre, até agora muita gente se tinha queixado que António José Seguro não dizia coisas de esquerda e que não era de esquerda suficiente. Ele ontem não precisou de o fazer. Disse ao Jorge Pinto para as dizer e depois no final disse: "Bom, eu concordei mais ou menos com tudo aquilo que disse e, portanto, vocês as pessoas agora."

Mas ele ontem assumiu-se francamente.

Mas é preciso o quê? Encostar o homem à parede para ele dizer que é de esquerda? O homem com 60 anos, que foi líder da JS, secretário-geral do Partido Socialista, foi deputado, eurodeputado, ministro, secretário de Estado, tudo e mais um par de botas.

Mas por isso é que era um bocadinho absurdo ele dizer: "Não me ponham em gavetas." Quando todos sabíamos disso, não haveria nenhum problema.

Eu acho que você sabe, aquilo que ele quis dizer no fundo foi: "Eu não sou candidato do PS."

Ele é que estabeleceu o padrão.

E quis alargar a coisa. Ok, vamos assumir que a coisa não correu lindamente, mas a tentativa ontem acho que não correu mal neste sentido. Aqui o argumento é muito simples, que é: quem vota à esquerda tem duas opções, ou quer novamente ter cinco ou 10 anos mais um presidente de direita, ou então se quiser não ter um presidente da direita, só pode votar naquele. E, portanto, não tem aqui mais hipóteses. Pode gostar mais, pode gostar menos, pode achar que ele não é bem de esquerda, pode achar que não é não sei o quê, mas só tem esta hipótese. E ele passou essa mensagem, acho que a coisa ficou mais ou menos clara. Só que depois o Marcelo deu-lhe o piripaco. E então de maneiras que todo o assunto morreu. Não houve sequer-

Comentário, análise

...não houve comentários, não houve análise, não houve ecos.

O apelo ao voto útil.

Não houve essas coisas todas, não houve imensa gente a dizer que aquilo tinha apelado e tal, e a coisa morreu um bocado ali.

Precisa azar.

É, mas pé frio. Mas é o que é. Mas acho que não lhe correu mal.

Eu acho que o papel de Seguro ali era só um, que era não alienar a esquerda que Jorge Pinto representa, porque precisa dela para chegar a uma segunda volta e acho que esse era o único papel que podia ter. Dito isto, eu já avaliei bem, para espanto dos meus colegas de painel, Jorge Pinto

E volto a achar que ganhou por pouco, mas ganhou, porque de facto, independentemente de ter querido colar seguro com a troika e com todas essas recordações passadas, tentar encostá-lo o mais à direita possível. Foi a vontade de Jorge Pinto.

Desculpa, Roberta, é o segundo debate que vejo com Jorge Pinto, é o segundo em que ele recorda que foi do PS, coisa que ninguém sabia, mas ele claramente quer o eleitorado do PS, Jorge Pinto.

Claro, é evidente.

Sendo que também no primeiro, segundo eu me lembro, perdoe-me se estiver enganado, ele explicou que saiu do PS quando percebeu quem era o José Sócrates e agora neste explicou que saiu do PS afinal ao falar com António José Seguro.

Por causa de António José Seguro.

Ele disse que saiu do PS.

Mas pelos vistos não saiu logo.

Não saiu logo. Não saiu logo com o José Sócrates, saiu depois com a abstenção violenta.

Realmente são coisas muito mais graves.

Isso.

Mas dito isto, eu acho que Jorge Pinto traz uma escura ao debate que os outros candidatos não conseguem trazer. E por isso fiz aqui um 12 para Jorge Pinto e um 10 para António José Seguro.

Eu não pedi notas.

Não, eu por causa da minha recordação impresso não dou nota.

Pronto, ficamos assim. Nuno, tu queres falar sobre a doença que afetou o presidente da República ou a doença que afetou os jornalistas sobre a doença do presidente da República?

Pois, é mais isso. Tanto a doença dos senhores. Eu acho que ontem toda a gente ficou um pouco naquela expectativa, que eu acho normal, é o chefe de Estado, tem um problema de saúde, etc. Ok, vamos lá saber o que se passa. E de repente aquilo começou a mexer um bocadinho com aqueles diretos, e entretanto estamos só a ver alguns senhores a fumar à porta do Hospital de São João e umas ambulâncias, enquanto alguém está num estúdio a encher chouriços e a conjecturar sobre quem é que será que vai ser, quem é que será que vai ter que ser substituído, será que não vai, será que tem um problema intestinal, será que bebeu um Fortimel e que lhe caiu mal, será que não sei o quê, e agora o que vai acontecer, e quanto tempo. E depois, de repente, veio finalmente alguém que sabia o que estava a dizer, que foi uma senhora doutora do Hospital São João, que do alto da sua autoridade e conhecimento explicou que era uma coisa aparentemente normal e que a operação era relativamente simples, tanto do ponto de vista cirúrgico como do ponto de vista da anestesia e da recuperação, e portanto que à partida estava tudo bem, que depois teriam novidades. Não satisfeitos, muita gente acho que ficou ali: "Mas é mesmo isso, não há um bocadinho de risco, não há sequer hipótese de lhe dar mesmo o Bodegaio." Não, a senhora já explicou, está tudo bem, vamos só deixar o homem ser operado e ficar ali a descansar. E nós podemos ir à nossa vida e podíamos ter comentado o debate do António José Seguro e do Jorge Pinto. Mas não, depois ficámos a noite toda naquilo.

Foi atropelado por isto. O debate.

Foi atropelado, mas nem sequer foi pelo Marcelo.

Pela hérnia.

Sim, porque o Marcelo encarcerou uma hérnia.

Mas a hérnia tem um nome estrangeiro.

Der Spiegel.

O quê?

Der Spiegel encarcerado.

Isso é o nome da revista.

É incrível.

Não é Der Spiegel.

Exato. Eu se tivesse uma hérnia era Bravo.

Também era alemão.

Superjovem. Continuando no saldos Irmãos Maitis.

Tenho de enquadrar para os adolescentes que vão no carro agora com os pais. A nossa vida era muito triste. Não havia internet e havia uma revista alemã, chamava de Bravo. Ninguém sabia ler alemão, mas víamos os bonecos e então vinha posters dos artistas e dos cantores.

Já sou do tempo em que as miúdas compravam aquilo para ter os posters do David Charvet.

Exatamente. E nós todos víamos a Bravo. É isso. Nos tempos pré-internet, em que a vida era triste nos anos 80.

Exato. Mas só para terminar, o meu apontamento é que isto é mais uma irritação. Não é só uma irritação, porque tenho que parar com isto, a sério. Primeiro, não há necessidade nenhuma, não há assim tanto interesse. Parem com os diretos a toda hora. Não é preciso estar a filmar um senhor a fumar à porta do Hospital de São João. Digam só o que se passa e seguimos para outra. Se não têm coisas para dar, não digam. Que é mais ou menos aquilo que nós fazemos aqui. Daqui a bocado calamos e vamos à nossa vida.

Fica aqui o registo indignado de um cidadão. Estou a brincar contigo. Podes te indignar à vontade, como bem sabes. Eu vou continuar contigo, porque tu hoje ficaste com o pelouro da saúde aqui no Vence o Dorê, e queres falar sobre um post que a Direção-Geral da Saúde acabou por apagar, do Dia Mundial de Luta contra a Sida, que foi alvo de acusações de racismo.

Foi. Isto é um cartaz que tem duas ou três pessoas africanas e que diz: "Sida não acabou." E a coisa levantou algum sururu. Eu dei de caras com um tweet da deputada Isabel Moreira, que diz: "O governo interiorizou o vírus do racismo, apagou este horror, entretanto, podia pedir desculpa, mas as culpas são demasiadas. A ministra da Saúde não vai dizer nada. #racismo." Bom, há aqui duas notas sobre isto. Primeiro, é que o cartaz é uma cópia do cartaz salvador da Organização Mundial de Saúde. Um organismo qualquer da ONU que está dedicado a estas coisas do combate à Sida, sobretudo em África. E acho que, apesar de tudo, eu consigo compreender que no nosso ocidentalismo e na ideia de que gira tudo um bocadinho à nossa volta, a coisa possa ter suscitado alguma polêmica do gênero: "Só os africanos é que têm Sida." Mas aquele cartaz também é um cartaz global e é vocacionado muito para um continente onde, apesar de tudo, ronda mais ou menos metade dos afetados continuam a estar lá e, portanto, havia ali uma vocação. O segundo ponto é Além do organismo internacional, quem partilhou o cartaz e o adaptou à realidade portuguesa foi a Direção-Geral de Saúde, cuja diretora foi nomeada pelo PS. Mais uma vez, além dos diretos permanentes e deste apocalipse quase permanente que nós temos com tudo, também é tempo de começarmos a parar com estas coisas e pararmos cinco minutos para pensar na objetividade das coisas e se temos ou não razão, ou se temos o gatilho tão rápido que às vezes disparamos só um bocadinho ao lado. Parece-me um mau ponto, acho que foi uma coisa que não era sequer discutível. O cartaz tem um propósito e foi partilhado por uma entidade de saúde.

Que acabou por ser apagado.

Pois, depois sucede esse tipo de coisas.

E tem segunda nota para isto?

Tenho uma nota negativa, tenho um oito para dar à DGS porque apagou. Acho que não havia necessidade nenhuma de o ter feito.

Alexandre, tu queres falar sobre as incursões do José Sócrates pelos Emiratos?

Pelo mundo, sim.

As viagens a Abu Dhabi.

As viagens a Abu Dhabi. Sim, ficámos hoje a saber, temos passado por isso ainda agora na síntese de notícias, que ficámos a saber então que o José Sócrates terá estado, parecia que tinha estado duas semanas em Abu Dhabi, mas já hoje ele esclareceu que não. O meu problema não é ele ter ido a Abu Dhabi ou onde ele quiser. Tudo isto é bastante cómico, involuntariamente, acho eu, que é, por um lado, o José Sócrates continua a comportar-se sem perceber, ou aparentemente não percebendo, que ele não é exatamente um cidadão igual aos outros. Ele continua a estranhar imenso: "Mas por que me fazem perguntas? Mas por que querem saber onde é que eu estava? Mas por que eu tenho que ir ao tribunal? Mas por que eu tenho que respeitar esta senhora vestida de preto?" Ele nunca compreende muito bem. "Mas por que querem saber da minha vida privada?" E então, neste caso, ele não compreende que tem um termo de identidade e residência, não compreende que é um ex-primeiro-ministro acusado de uma quantidade de coisas, que está a ser julgado num processo ultracomplexo, que está há anos com este termo de identidade e residência, e então vai embora e aparentemente não passa cartão a ninguém. Isto já não é a primeira vez. Houve já, aqui há três ou quatro anos, já o Ministério Público tinha dado conta que ele andava a ir ao Brasil e lembrou-se de perguntar à Interpol quantas vezes é que o José Sócrates já tinha entrado no Brasil. Aparentemente, tinham sido três naquele ano, uma das quais tinha lá estado durante mais de dois meses. E supostamente ele tem que avisar o tribunal de cada vez que se ausenta por mais do que cinco dias.

O que é normal, todos os arguidos, salvo erro, temos aqui um advogado na sala, têm o termo de identidade e residência.

Sim, eu já fui arguido também.

Sim, eu também já tive.

Não foste a Abu Dhabi? Não, mas fui ao México e fiquei muito contente porque enviei um e-mail para o DIAP a dizer: "Santíssimo senhor procurador do Ministério Público, tal, de dia tantos a tantos, estarei no hotel Playa de não sei o quê."

Em Cancún.

No México, exatamente.

Mande fotos.

Pronto, o José Sócrates podia fazer isso, mas não. Ele chega cá, é apanhado por uma jornalista da CMTV que lhe diz: "O que é que foi fazer nas duas últimas semanas a Abu Dhabi?" E o José Sócrates fica muito indignado e diz: "Isto só podem ter sido eles. Como é que esta senhora ia saber se não tivesse sido o Ministério Público a dizer-lhe, porque eles é que mandam investigar clandestinamente, ia dizer isto." Claramente, agora percebe, pelos vistos não foi isso que aconteceu. O Ministério Público soube pela CMTV que o José Sócrates tinha estado em Abu Dhabi.

Finalmente, as instituições a funcionar.

Exatamente. Daí pede à juíza Lucina Seca que pergunte ao José Sócrates, que dê explicações sobre isto, o que é que ele esteve a fazer duas semanas em Abu Dhabi. E agora o José Sócrates, perante essa notícia, vem dizer: "Mas eu não estive duas semanas, eu estive duas vezes nas duas últimas semanas em Abu Dhabi."

E isto agora levanta ao Ministério Público, aparentemente, suspeitas de que poderá estar a ser engendrada uma fuga.

Eu devo ser uma cabeça muito maliciosa, isto sou só eu, que não compromete ninguém, mas devo confessar que isso já me passou algumas poucas vezes isso pela cabeça.

Alegadamente.

Exatamente. Não é por ser o José Sócrates em particular, é por ser qualquer pessoa em julgamento que nós percebemos que se desloca tranquilamente pelo mundo em países que não têm acordo de extradição com Portugal e não seria propriamente um caso virgem. Também me lembro quando a justiça portuguesa andava à procura de João Vale e Azevedo e de repente há um canal de televisão que mostra uma fotografia dele num jantar em Londres com uma data de amigos. Aliás, devo aqui partilhar convosco que eu tive o sonho louco, quando tivemos aqueles dias à espera de saber quem seria o novo advogado de José Sócrates, eu tive o sonho louco de que seria João Vale e Azevedo. Era incrível.

Eu acho que ele já não tem cérebro.

Mas dava isto para outra dimensão. Não?

Eu acho que ele já não tem cérebro.

Não deve ter.

Já não deve ter.

Era extraordinário. E pensando em João Rendeiro, noutros casos, isto não é propriamente uma novidade. O José Sócrates queixa-se imenso da justiça portuguesa, mas eu acho que há um porreirismo na justiça portuguesa nestas coisas que é espantoso.

Judite.

Atenção que ele foi, segundo diz José Sócrates, naquele prazo de cinco dias. Se foi só no prazo de cinco dias.

Foi duas vezes.

Foi duas vezes. De cada vez cinco dias e portanto aí está a cumprir o que lhe compete.

Exatamente.

Segundo ele, sim, é evidente. Se foi durante 15 dias seguidos, o tribunal tem razão de lhe apontar não sei o quê. O quê, Nuno?

Não faço a mínima ideia. Eu já me perdi um bocado ali no processo. Mas sim, eventualmente podem ser agravadas as medidas cautelares.

Exatamente. Ainda por cima, lá está, isto já aconteceu antes. Houve uma altura em que ele teve que se apresentar periodicamente na esquadra.

Sim, por causa do perigo de fuga.

Exatamente.

Mas sim.

É isso que eventualmente está em causa.

Sim, mas eu consigo compreender, há aqui uma amplitude para interpretação da norma.

Ao fim de 10 anos de constituição do arguido, 11?

É difícil pedir para que a pessoa não saia do país.

11, acho que é desde 14.

É desde 14, é novembro de 14. Portanto, ao fim de 11 anos, se calhar este senhor está a fugir.

É.

Se um dia, porventura, por hipótese absurda, o arguido quisesse usar justamente esse argumento para fazer baixar a guarda em torno dele, era esse que usaria. Ele já sulcou tantas vezes. Porque é que fugiria agora?

Mas vamos lá ver uma coisa. Do ponto de vista legal, não há uma guarda.

Não, mas há um dever. Ele tem que comunicar toda vez que estiver mais do que cinco dias fora. Isto já aconteceu antes, atenção, isto não é a primeira vez. Ele já esteve muito mais do que cinco dias fora e não avisou o tribunal.

Sim, mas essa questão pode ser indiciária. Isto está a ficar extremamente aborrecido.

Vou já animar isto com uma última pergunta. Vamos só fechar isto. Uma nota?

A minha nota é um 15 para o porreirismo da Justiça.

Judite, queres dar alguma nota a isto?

Não.

Nuno?

Eu acho que pode ser doença, não vou gozar.

Para fechar, porque temos aqui ainda três minutos úteis, as vossas expectativas para o debate desta noite na TVI, às 21h, António Filipe e Gouveia e Melo. Judite.

A minha expectativa é que seja um debate bastante morno e educado entre dois seniores, um sênior da política e um sênior candidato.

Partilhas do entusiasmo, Nuno?

Estou entusiasmadíssimo. Os debates têm sido quase todos bastante mornos.

Têm sido bonzinhos. Têm sido bons. Se for um debate civilizado, ainda bem.

Claro que sim, mas eu sinto mais falta de uma disputa de ideias a sério. Acho que tem havido aqui uma grande dificuldade, que é ter, por um lado, um debate aceso, mas que ao mesmo tempo seja educado.

Ok.

Isso não tem sido fácil aqui de gerir.

Até acho que tem sido possível.

Mais ou menos. O debate vai mais ou menos começar assim: o almirante Gouveia e Melo vai dizer que está muito distante.

Antes de responder à sua pergunta.

Antes de responder à sua pergunta, deixe-me dizer que-

Eu estou aqui para assegurar a segurança do desenvolvimento

...sim, estou muito longe dos marxismos.

Do marxismo, leninismo, estalinismo, se calhar. Alexandre. Acho que a curiosidade reside em ver a evolução das prestações do almirante Gouveia e Melo.

Se vão melhorando.

Exatamente, se vão melhorando. Até porque ele é o grande vencedor, agora para terminar fechando o círculo, do debate de ontem, porque eu acho que aquilo a que o almirante pode aspirar é ficar com o eleitorado do PS. Nesse sentido, talvez não tenha eu percebido no início quando ele decidiu começar a segmentar o seu eleitorado e dizer que as suas referências eram Mário Soares e depois Ramalho Eanes, e a colocar-se não fundo, mais ao centro-esquerda, porque é aí que está o eleitorado livre, porque o resto da direita parece não faltar ração.

O António José Seguro é sempre criticado de não se querer meter numas gavetas, mas depois o tipo que se mete nas gavetas todas, está tudo bem. Ele está a ter imenso sucesso.

Agora eu não estava. Mas é isto que acontece. É esse espaço, lá está, sabendo que muito PS não gosta especialmente de António José Seguro. Não é para mim uma novidade. Fica o território livre para o almirante. Amanhã há mais, "E o Vencedor É". Regressem às manhãs, 360, depois das 08h30, e depois à tarde também, depois das 18h10, teremos outra edição do "E o Vencedor É". Até amanhã. Obrigado.