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Está no ar a edição deste sábado do Vence Doré, na Rádio Observador, hoje com o Luís Rosa, redator principal do Observador, e Anselmo Crespo, diretor de novos conteúdos da CNN Portugal. A moderação, como sempre, é do jornalista André Maia.

Bom dia, Luís Rosa. Bom dia, Anselmo Crespo.

Bom dia.

Bem-vindos a mais um Vence Doré. Vejo, Anselmo Crespo, que hoje vieste vestido com um pulôver verde. Isso é pra evitar que alguém te manche com tinta e depois não se note tanto?

Não duvido.

Foi estratégico?

Não duvido, mas hoje em dia é difícil, porque às vezes é verde, outras vezes é vermelho, portanto uma pessoa se calhar começa a andar verde em cima, vermelho embaixo.

É, mas tem sido majoritariamente verde. Obviamente que este é o ponto de partida pra falarmos de mais um ato cometido ontem pelos ativistas climáticos da Climássimo. Sujaram mais uma vez de tinta verde o ministro das Finanças, desta vez Fernando Medina. É mais um momento que é também feito uma cobertura exaustiva por parte dos órgãos de comunicação social. Temos depois também, no final, quase que uma flash interview àquilo que acontece com os ativistas que atiraram a tinta a Fernando Medina. É compreensível tudo isto, na tua opinião?

Não. Começa, desde logo, por não ser compreensível que alguém que quer protestar legitimamente, os protestos são legítimos, por uma causa que é mais do que legítima, é uma causa muito importante, consiga estragar uma causa importante pela forma como protesta. Portanto, desde logo, isso não é normal. Mas a parte ainda mais anormal pra mim é a ignorância ou o nível de ignorância que estes protagonistas que têm feito estas coisas, atirar tinta a ministros, colar-se a paredes, partir vidros de empresas.

Sujar quadros.

Sujar quadros. O que mais confusão me faz, pra além da óbvia forma ilegítima como protestam, ilegítima porque é ilegal, desde logo. Ainda esta semana houve uma condenação a esse nível. Mas a ignorância dos argumentos, a ignorância completa, quer dizer, gritar uns slogans de: "este é o último inverno sem gás, temos que ter energia 100% verde," sem mais nada, sem ter mais rigorosamente nada a dizer. Este não vai ser o último inverno sem gás, porque se este fosse o último inverno sem gás, provavelmente a humanidade acabava pra o ano. Acabava na primavera. Portanto, o nível de ignorância dos argumentos é verdadeiramente assustador.

Aliás, o ministro da Economia, o ano passado, quando recebeu alguns destes ativistas, disse que aquilo que lhe mostraram numa folha, em termos de argumentário, era nulo, era apenas as frases de protesto que dizias.

Sim, era nulo e aliás, o ministro da Economia ainda esta semana explicou numa conferência da CNN, explicava que recebeu os ativistas, eles tinham uma carta de missão pra ele assinar e desde logo começou por corrigir o próprio currículo do ministro que lá estava. E na verdade, o nível de ignorância hoje em dia não é aceitável por vários motivos. Primeiro, porque a informação está disponível. Vai só ao Google, ao doutor Google, está lá a informação sobre a percentagem de energia renovável que nós já consumimos em Portugal, sobre o processo de descarbonização, sobre o plano do governo. Nós podemos criticá-lo, como é óbvio, os planos que o governo apresentou, este ou outro qualquer, é criticável, é sujeito a debate, é bom que a sociedade debata isso. Mas convém não tentar desinformar a sociedade. E pior de tudo, que é misturar alhos com bugalhos. Se estamos a lutar pelo clima, lutamos pelo clima, quer dizer, deixamos a luta contra o capitalismo pra outro tipo de debate. Também nada contra, podemos debater o capitalismo e o modelo econômico em que assentam as nossas sociedades. Não há drama nenhum, mas podemos debater uma coisa de cada vez e não misturar tudo no mesmo saco. E por último, uma coisa que me faz muita confusão ao longo das últimas semanas, é a forma como muitas vezes a comunicação social, e aqui estou a falar em causa própria, porque eu também sou jornalista e, portanto, também tenho responsabilidades, não estou a apontar o dedo a ninguém, estou a falar de nós jornalistas enquanto classe. Muitas vezes estendemos o microfone a estes miúdos de forma completamente acrítica. Estendemos o microfone, deixamos que eles digam as maiores alarvidades e não contrariamos em nada, não contrariamos no sentido, não dizemos: "Atenção que isso não é verdade, o que está a dizer. Mas isso não funciona assim. Olhe, mas não acha que está a cometer um crime quando vai destruir propriedade privada ou quando vai atirar tinta contra alguém?" Esticar o microfone e dar palco a estes ou outros quaisquer, de forma acrítica, não é fazer jornalismo. O jornalismo não é acrítico, nós não somos um megafone pra qualquer pessoa poder dizer baboseiras, porque caso contrário, nós não somos precisos pra nada. Pra isso, qualquer pessoa pode ser jornalista, dá-se uma câmera e um microfone a um gravador, estica-se o microfone e as pessoas dizem o que quiserem.

Anselmo, já peço a tua nota, vou primeiro ao Luís, até porque o tema é também um tema em comum dos dois. Luís, nós devemos lidar com estes ativistas, precisamente com esta palavra, ativistas, devemos olhar pra eles como tal, ou devemos olhar pra eles como alguém que já está a pisar a linha e, como disse o Anselmo, está a cometer algumas ilegalidades? Devemos continuar a olhar, de certa forma, com alguns panos quentes pra estes jovens que continuam a ser apelidados de ativistas?

Eu acho que devemos escrutinar, concordo em absoluto com tudo que o Anselmo disse e vou dizer outras coisas complementares. Acho que devemos encará-los como cidadãos que se estão a manifestar e estão a apresentar soluções à sociedade e devem ser escrutinados por essas soluções que apresentam e pela forma como se manifestam. Mas antes de mais, cada vez mais penso que o radicalismo destes jovens ativistas prejudicam mais a causa ambiental do que a beneficiam. Pelo excesso de ações num tão curto espaço de tempo, pela repetição do tipo de ações que visa atingir um efeito choque pra prender a atenção da comunicação social. E eu concordo inteiramente com o Anselmo

Se nós não deixamos que o Trump diga o que quer, e até os jornalistas dos Estados Unidos abandonaram conferências de imprensa. Vou fazer aqui uma comparação. Obviamente que os jovens ativistas não têm o poder que o presidente dos Estados Unidos da América tem. Só dizer que o escrutínio aplica-se a todos. Aplica-se ao presidente dos Estados Unidos da América e aplica-se a quem quer intervir no espaço público. Mas o que os jovens ativistas têm conseguido, além da atenção da comunicação social? Nós temos passado a debater soluções mais exequíveis daquelas que já temos, que são muitas, como o Anselmo já acabou de dizer. Estamos a ter debates mais profundos na sociedade para encontrar melhores soluções do que as que já temos. Eu sinceramente não vejo nada disso, vejo só um debate sobre os métodos dos grupos mais radicais, como a Climáticos, ou seja, em ignorância indireta, e que eu vou dar aqui um exemplo complementar ao que o Anselmo disse, que vi ontem na CNN, que era uma ativista da greve climática estudantil, talvez eu esteja errôo o nome, não era da Climáticos, na CNN, em como aluna da Faculdade de Direito de Lisboa, disse autênticas barbaridades sobre o direito à manifestação no Estado democrático. Dizia ela que o Estado impor regras, ou seja, ter que autorizar uma manifestação, que isso era voltar ao Estado Novo. Estava a debater com o Paulo Saragoça de Mata, que é um dos nossos mais conhecidos penalistas, que foi professor na Faculdade de Direito e teve que explicar que isso existe em qualquer Estado democrático, em qualquer democracia, queres fazer uma manifestação, tens que pedir autorização. É uma entidade pública que autoriza. Mas o barulho de todas estas semanas, a única coisa que eu vi positiva foi, e aqui volto a elogiar novamente, a ação que vários jovens portugueses apresentaram no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem contra 72 países europeus. E essa sim, acho que é a forma correta de obrigar os Estados a agir. Também obviamente com manifestações, também obviamente promovendo debate no Estado público, mas de forma estruturada e de forma informada. Só para terminar. Eu acho que esses jovens radicais estão cada vez mais próximos de serem classificados como um problema de segurança do que como ativistas que promovem causa ambiental. E preocupa-me muito a captura desses movimentos jovens por forças populistas e extremistas, sejam elas quais fora. Sejam, nomeadamente, forças de extrema-esquerda, porque alguns desses grupos apresentam-se como anticapitalistas, como contra o capitalismo. E eu assumo já aqui o meu papel, eu sou capitalista e defendo o capitalismo como sistema económico de distribuição de riqueza. E isso, se querem destruir o capitalismo para construir não sei o quê, talvez promover o regresso ao tempo em que os homens e as mulheres viviam nas cavernas, mas com a diferença que passasse a ser proibido caçar animais, eu deixava aqui uma nota para terminar sobre um artigo que eu li há 15 dias na Economy precisamente sobre isso.

E a tua nota também.

E vou já dar a minha nota.

Deixar as duas.

Que é a captura desses movimentos ambientais, seja por populistas de direita, seja por esquerda. Eu deixo aqui um dado que eu acho muito interessante que li nesse trabalho. Vocês sabem qual é a porcentagem, no âmbito de uma sondagem feita às opiniões públicas dos países mais ricos e também com mais população, como a Índia, vocês sabem qual é a média da população que está disposta a pagar mais impostos para a transição energética?

Baixa, talvez.

Trinta por cento. Apenas 30%. Ou seja, é muito importante que nós promovamos debate sobre a emergência climática, mas que temos que trazer o cidadão comum para esta causa. E o que é que os jovens estão a fazer? Estão a afastar, ao fim ao cabo, os cidadãos comuns da causa.

Da opinião pública.

E acho que nós temos que fazer o contrário.

Luís Rosinha Anselmo Crespo, que nota é que dão e a quem é que dão quanto a este tema?

Olha, eu vou dar aos jornalistas ou ao jornalismo em geral. Já tinha falado dos ativistas antes, portanto, a minha nota, obviamente, para os ativistas seria sempre baixa. Neste caso, eu dou um oito à forma como eu tenho visto a cobertura deste tipo de ações, porque acho que se estes jovens são ignorantes, quando se estica o microfone de forma a crítica, não se deixa de ser também ignorante. Portanto, dou um oito para reflexão do jornalismo.

E tu, Luís?

Concordo. Estava para escrever este oito, mas dou um sete aos ativistas da Climáticos. Ontem, por exemplo, aprenderam alguma coisa, já dão bisnagas, já são bisnagados, digamos assim. O ministro Fernando Medina já não lhes tiraram bolas, é só para se protegerem do crime de ofensa à integridade física.

Exatamente.

Já estão a evoluir.

Agora vamos avançar para outro tema. Vamos até ao Parlamento. Tivemos no início desta semana o regresso dos debates quinzenais, mas tivemos também ontem alguma tensão no Parlamento com Augusto Santos Silva e o Chega. Mais um episódio, aliás, episódio enésimo, número X destas situações de tensão entre o Chega e Augusto Santos Silva. Neste caso, aquilo que tivemos foi novamente o Chega considerar dirigir-se a Augusto Santos Silva como presidente de algumas bancadas parlamentares. Tivemos depois Augusto Santos Silva a deixar alguns recados, como por exemplo, o Chega considerar-me presidente é uma nódoa no currículo. Anselmo Crespo, isto já não começa aqui a resvalar para uma situação um pouco insustentável ou bastante insustentável?

Acho que a parte do insustentável é a degradação das instituições. Essa é a parte insustentável, porque obviamente nós vamos ter que fulanizar, porque é Augusto Santos Silva que é o presidente da Assembleia da República e é André Ventura e a bancada do Chega que estão a protagonizar estes momentos degradantes para a Assembleia da República. Mas eu acho, sobretudo, que neste caso em concreto, o Chega tem um estilo. Não é um estilo, é uma estratégia. O que o Chega tem não é um estilo, tudo aquilo no Chega é uma estratégia montada para conseguirem o maior espaço mediático possível. É assim nos debates com o primeiro-ministro, é assim nos debates com o PSD, é assim nos debates com a esquerda e é também assim nos debates com Augusto Santos Silva. O que eu acho é que Augusto Santos Silva tem andado muito mal neste confronto com o Chega. Primeiro porque Augusto Santos Silva é de facto presidente da Assembleia da República e naquele papel ele não é presidente de uns e deixa de ser presidente de outros. E que o Chega faça esse número triste de dizer que ele é presidente de quase todas as bancadas já é suficientemente mau. Que Augusto Santos Silva alinhe nessa conversa.

Achas que tem caído na estratégia do Chega?

Acho que não só tem caído na estratégia do Chega, como está a dar gás ao Chega Já disse o mesmo sobre António Costa noutras ocasiões, coisa que eu esta semana até acho que António Costa não fez. Mas Augusto Santos Silva, achando eu que ele tem em mente um combate político com o Chega, ele não está a fazer nenhum combate político com o Chega. O que Augusto Santos Silva está a fazer é dar ainda mais capital de queixa ao Chega e está a animar ainda mais as hostes do Chega. Isso em si já seria mau, mas Augusto Santos Silva, de facto, tem que ter ali um papel de isenção. O presidente da Assembleia da República, se quer ir fazer aquele tipo de conversa, volta para a bancada do Partido Socialista e aí já pode dizer aquilo que quiser. Como presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva não tem que fazer aquele papel, porque ele não está a degradar a sua figura de político, ele está a degradar a Assembleia da República. Claro que o principal responsável é o Chega, é preciso uma pessoa também não tirar isso da cabeça. O principal instigador disto é André Ventura. O problema é que Augusto Silva não pode ir atrás disto e vai pior, com prazer. É que ele faz isto com prazer, manifestamente. Tudo isto é degradante para a Assembleia da República. Acho que não vai ficar por aqui, lamentavelmente. Acho que isto vai virar uma novela mexicana nos próximos meses e acho, sobretudo, que os portugueses já olham para os políticos e para a classe política e para os partidos com uma desconfiança enorme. Cada episódio destes afasta ainda mais as pessoas da política e obviamente alimenta ainda mais os populismos.

Anselmo, tal como no primeiro tema, até porque vocês hoje combinaram.

Combinamos sem falar.

Exatamente.

É uma coisa mais difícil.

Já peço a tua nota. Luís, obviamente aqui como o Anselmo disse, parece também notório que o Chega gosta deste tipo de discurso provocatório. E tivemos, por exemplo, não mencionamos aqui, André Ventura no debate quinzenal a usar termos como gamar, disse que António Costa estava a gamar os portugueses. Mas depois Augusto Santos Silva não tem aqui de ter um pouco mais de frieza. Aliás, ele disse isso naquelas imagens que foram captadas na altura no 25 de Abril, que era um homem frio. Não está a mostrar muito essa frieza, por exemplo, ao deixar estes recados que o Chega considera presidente é uma nódoa no currículo. Deve ser este o discurso que o presidente da Assembleia deve ter?

Não, não é. E acho que ele tem propositadamente. Ele é um homem frio e faz de forma propositada, é uma estratégia que ele tem. Eu acho que há aqui uma tendência, sinceramente, para o exibicionismo político do presidente da Assembleia da República, que não deve sofrer de ansiedade climática, mas está claramente ansioso de protagonizar ou promover uma protocandidatura à Belém, que diga-se de passagem, não tem tido grandes azes nas sondagens. Mas essa tendência para o exibicionismo público faz-me lembrar cada vez mais aquelas pessoas, geralmente homens, que decidem sair para a rua apenas e só com uma única peça de roupa vestida: a gabardine. Vão para o jardim e decidem abrir a gabardine no espaço público.

Cara, a imagem que me deste agora .

Não é uma imagem agradável de manhã, de toda.

É uma nota negativa.

Isto mostra o meu grau de censura em relação a Augusto Santos Silva. Infelizmente para nós, eu acho que Augusto Santos Silva faz o hemiciclo parlamentar no jardim. E já não basta termos os deputados do Chega a querer fazer do hemiciclo um circo, também tínhamos de ter um presidente da Assembleia da República que ajuda à festa. Este é o último episódio, diz muito também sobre Augusto Santos Silva. Atenção que eu acho que os dois têm idêntica responsabilidade, eu aqui discordo do Anselmo. Eu acho que o Chega faz propositadamente a estratégia para lá estar, para uma estratégia de choque, para captar a atenção da comunicação social, e Augusto Santos Silva faz exatamente a mesma coisa para se promover. É a minha visão. Por exemplo, o episódio concreto, Augusto Silva tem razão, o Chega não tem nada que se referir ao presidente da Assembleia da República, como o presidente das também de algumas bancadas parlamentares. Mas agora Santos Silva vem com o seu habitual estilo, que já houve muitos episódios no passado, que é um estilo castanho, e diz isto: "Imagino o que era essa bancada parlamentar considerar a mim seu presidente, que nódoa teria no meu currículo." Mas que nódoa?

Parece uma discussão de crianças, quase.

Bem, parece criança, mas é importante dizer isto, precisamente também informar sobre o que é a democracia. O Chega teve 399 mil votos. Houve 399 mil portugueses que votaram no Chega. Esses portugueses também são uma nódoa? Augusto Santos Silva também quer que eles sejam impedidos de votar? A questão estrutural, para mim, é esta: o PS aposta numa bipolarização PS-Chega para condicionar o PSD. Essa é a estratégia estrutural programada. Não sei se é combinado entre António Costa e Augusto Silva, mas se não é, eles identificam-se com essa estratégia. E eu aqui, só para terminar, isto beneficia os socialistas porque os coloca no centro do sistema político. O Anselmo, um analista político mais capacitado do que eu, já disse isto muitas vezes. E beneficia acima de tudo o Chega, porque passa a ser visto como quer, o partido que luta contra o sistema. Eu acho que o PS quer ter ganhos táticos para eternizar no poder, à custa de termos uma democracia mais saudável, quer promover os populistas à custa de um diálogo saudável com o PSD. É esta a questão estrutural que está aqui envolvida.

E que nota que isso merece?

Diz muito sobre o PS, António Costa e de Augusto Silva.

E que nota que dás?

Dou ao Augusto Silva um cinco.

Um cinco? Anselmo, acompanhas?

Eu acompanho o cinco, não só porque concordo com tudo o que o Luís disse, como eu acho que isto um dia para o Partido Socialista pode correr terrivelmente mal. Acho que o Parlamento cometeu um erro grave no momento em que recusou que o Chega tivesse um vice-presidente na liderança da Assembleia da República. E acho que esta tentativa permanente do Partido Socialista de criar um cordão sanitário à volta do Chega só faz com que o Chega cresça ainda mais, só faz com que um dia, quando o Partido Socialista deixar de ter a maioria absoluta e deixar de ser poder, não seja possível conversar com ninguém, porque basicamente aniquilando o PSD ou tentando espremer o PSD da forma que o PS está a fazer, qualquer dia o PS vai passar uns longos anos no deserto. Portanto, eu acompanho o cinco do Luís.

Meus caros, temos três minutinhos até o final, mas vamos muito rapidamente ainda a um último tema e muito se falou sobre também a Manuel Pizarro durante esta semana. Houve reunião do Sindicato dos Médicos e o Ministério da Saúde, reunião que mais uma vez não deu em nada, pelo menos não resultou num acordo. Luís Rosa, novamente, ambos estão alinhados. Vamos falar um pouco aqui sobre o Ministério da Saúde. Manuel Pizarro é uma das figuras da semana para ti, pela negativa, ou achas que acabou por ficar um pouco na sombra com tudo o que aconteceu esta semana? Tivemos debate quinzenal, o Médio Oriente continua a estar em foco, obviamente, nas notícias. Achas que está escondido Manuel Pizarro nos últimos dias?

Eu acho que o Manuel Pizarro também está a seguir outra estratégia, não estrutural, mas esta mais conjuntural do governo, porque tem pouco tempo e também não vai durar muito mais. Mas já tínhamos percebido há algumas semanas quando o ministro da Educação começou a culpar os anos 80 e os anos 90 pela falta de professores na escola, ou seja, os governos da AD, do Bloco Central, de Cavaco e também de Guterres, que até tinha a educação como paixão, todos eles nada tinham feito para que em 2023 tínhamos falta de professores na escola. E agora temos o Manuel Pizarro a culpar os anos 80 e 90 pelos problemas nas urgências. Aqui a Catarina pode-me ajudar, mas os anos 80 acho que já não são culpados por má música e blazers com ombros largos.

Isso não sabe.

Agora também são culpados por falta de médicos, falta de professores. Portanto, isto é o novo mantra do governo para esconder a sua própria incompetência.

E pela questão climática também, não é?

Também. E a habitação, enfim, tantos outros assuntos. É tudo culpa dos anos 80 e 90. Portanto, é o novo mantra do governo para esconder a sua própria incompetência. O governo de António Costa está no poder há oito anos e vai estar mais dois anos e tal. Vai ser o governo, pelo menos o primeiro-ministro, com mais anos de governo consecutivo, vai bater o recorde Cavaco Silva e não consegue resolver problemas da sociedade portuguesa. Portanto, todos os problemas que o governo não consegue resolver há oito anos passaram a ser problemas estruturais com décadas. A culpa já não é do Passos Coelho. Eu acho que a culpa está nos anos 80 e 90, mas nós vamos chegar a Salazar quando cumprirmos os 50 anos do 25 de Abril. A culpa vai passar a ser de Salazar por o governo não conseguir resolver os problemas em 2023.

Anselmo Crespo, num minuto, também guardas esse sentimento que os anos 80 e 90 foram bons para ti?

Eu gosto muito dos anos 80, foi a década em que eu nasci, portanto sou 80s forever. Só acrescentar aqui uma coisa em relação ao que o Luís disse. O Manuel Pizarro deu esta semana uma entrevista à TVI que passou despercebida por motivos óbvios, porque há um conflito no Médio Oriente e, portanto, a atualidade está-se a impor do ponto de vista das notícias de internacional, mas é uma entrevista absolutamente constrangedora, porque mais do que aquilo que o Luís diz, que é o governo não consegue resolver os problemas estruturais, o governo não faz a menor ideia, o ministro não sabe como é que vai resolver. Quando lhe é perguntado: "Mas vão mesmo encerrar urgências de algumas especialidades?" Ele diz: "Sim, é possível." "Então e qual é o plano?" Ele diz: "Vamos testar." Vamos testar? A sério? Vamos testar, vamos ver como é que corre. Vamos abrir aqui umas unidades de saúde familiares, vamos testar. Testar? A sério? E portanto, se não funcionar, voltamos à estaca zero, começamos outra vez. É assustador uma pessoa olhar para um governante, neste caso para o ministro da Saúde, e perceber que ele não faz a menor ideia do que é que vai testar umas coisas. Pode ser que corra bem no Porto, pode ser que corra bem em Lisboa, dizendo ele: "Atenção que Lisboa não é o Porto, a realidade é completamente diferente, mas está a correr tão bem no Porto, vamos testar também em Lisboa." Portanto, é assustador que não há nenhum plano, quer dizer, não há nenhuma ideia. Esta coisa da Comissão Executiva da Saúde teve um ano para ter estatutos. Ainda ninguém sabe muito bem o que é que vai fazer. Nós estamos exatamente no mesmo ponto onde estávamos quando Marta Temido se demitiu, se repararem, do ponto de vista de caos, de urgências e saúde. Marta Temido saiu na sequência da morte de uma grávida. Eu não sei se António Costa e Manuel Pizarro estão aqui a rezar para não morrer ninguém em circunstâncias como as que morreram quando foi Marta Temido. É assustador. E mais assustador ainda, e colava isso à saudação que eu queria fazer ao regresso dos debates quinzenais, para depois dizer: António Costa tem, de facto, uma sorte no meio disto tudo. Ele tem uma sorte descomunal. A guerra da Ucrânia desviou as atenções dos temas do país. Agora apareceu a guerra no Médio Oriente, desviou completamente o foco mediático, naturalmente. E a cereja no topo do bolo, a sorte grande e a determinação de António Costa chama-se PSD. Uma pessoa ouve um debate do quinzenal com o primeiro-ministro e tirando o aspecto da TAP, que por acaso nem foi mérito do PSD, foi mérito de Pedro Nuno Santos, vá lá, o PSD soube aproveitar aquilo para obrigar António Costa a dar o dito pelo não dito. O PSD é incapaz de fazer oposição.

Mas mesmo assim, depois de António Costa ter admitido que se expressou mal, o PSD não pressionou bastante ou o suficiente o primeiro-ministro.

Está dito, está dito. Para que vamos estar ali a tocar na ferida? António Costa já teve 10 versões sobre a TAP. Essa foi só a 11°. Vamos só esperar pela 12°. Isto para dizer, António Costa, no meio disto tudo, com o caos na saúde, com o caos na habitação, com o caos na educação, para citar só os três exemplos mais óbvios e flagrantes neste momento, tem uma sorte descomunal. O orçamento de Estado vai passar sem que ninguém dê por ela.

Então e que nota é que isto merece?

Para António Costa, merece um 15 pela sorte que tem. Para a oposição, merece um sete, porque objetivamente a democracia precisa de oposição, precisava de um bocadinho de oposição, só um bocadinho, ainda por mais num contexto de maioria absoluta, em que toda a gente sabe que passa tudo no Parlamento. Um bocadinho de oposição, até para nós podermos perspetivar que alternativa é que vamos ter.

Mas as oposições em maioria absoluta geralmente são sempre classificadas como fracas, não mandam uma oposição forte.

Tens razão, Luís.

Mas esta mesmo antes de ser maioria absoluta, a oposição já recebia essas críticas.

Sendo fracas, convinha pelo menos tentar. Tentar é constrangedor.

Que nota é que tu dás, não sei se para Manuel Pizarro...

Eu ia dar ao Pizarro, que foi aquele sobre o qual me pronunciei. Eu vou dar uma nota de cinco ao Pizarro, mas eu concordo com o Anselmo, que eu acho que o PSD tem que fazer muito mais. Mas o PSD não é culpado da incompetência do governo, ou seja, tem que denunciar.

E apresentar alternativas e soluções. Agora, é suposto uma pessoa dizer assim: se o PSD voltar ao poder, vai ser diferente do PS nisto, nisto e nisto. Alguém consegue dizer hoje em que é que vai ser diferente?

Meus caros, foi um gosto. Anselmo Crespo, Luís Rosa, amanhã o Vencedor é regresso com o Pedro Benevides e também com o António Costa, o publisher do Eco, não o primeiro-ministro, em que é sempre uma honra recebê-lo por cá. Obrigado e o Vencedor é regresso amanhã.

Adeus. Boa tarde.

Rádio Observador