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O Vencedor É, na Rádio Observador, também vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador, hoje com a Raquel Abecasis, a Helena Garrido e o Nuno Gonçalo Poças. Temos o caso da Conservatória de Anadia, que aumentou os emolumentos pessoais em média 900%. Na política, o PSD está a usar Ceuta para atacar o PS e ainda temos Infantino e o estado em que está a FIFA no mundo do futebol. Mas vamos começar por Luís Neves e a notícia do Observador que revela que uma auditoria do Tribunal de Contas acabou por perdoar irregularidades ao ex-diretor nacional da Judiciária. Mas, Helena Garrido, tudo dentro da lei.

Tudo, com algumas irregularidades.

O perdão está previsto.

Até o Tribunal de Contas pode perdoar dentro da lei, não é?

Exato.

A auditoria, na prática, confirma aquilo que Luís Neves assumiu na conferência de imprensa, que é a regra de informalidade na gestão, seguindo a regra geral de que os fins justificam, ou ao contrário.

Os fins justificam os meios.

Os fins justificam os meios. E embora o Tribunal de Contas tenha ficado pelas advertências e recomendações, há uma expressão que fica lá, que é a expressão da gestão com negligência. Negligência é capaz de ser um termo um bocadinho forte, porque na prática aquilo que nós vemos é como cumprir as regras criavam um conjunto de problemas, o que Luís Neves e a sua equipa faz é não cumprir as regras. Isto, obviamente, que não é respeitar as instituições, não é respeitar o Estado de direito, isso ficou mais uma vez patente, o tipo de gestão que Luís Neves faz, eu penso que é uma das coisas mais interessantes desta auditoria. O Tribunal de Contas mostra que não são irregularidades graves, mas é uma forma de gerir que é, no mínimo, discutível e, no máximo, um desrespeito pelas instituições, com a gravidade de estarmos perante o líder de uma polícia. No caso da auditoria, fala-se dos casos da compra de combustível, da compra de viagens, das obras, do uso de cartão de crédito, todos os aspetos que, obviamente, ninguém ficou com dinheiro. Não há ali uma nota que seja em relação a isso. A nota é fundamentalmente no sentido de acelerar processos, de conseguir...

Resolver.

Exatamente. É o doer, como os governantes colegas seus o identificam. Continuamos exatamente com o mesmo problema, a boa gestão de dinheiros públicos exige igualmente que se cumpram as regras. Se não gostamos das regras, temos de arranjar maneira de as mudar, porque também concordo, obviamente, que essas são regras excessivas, algumas irracionais, no caso do Tribunal de Contas vai haver alterações ou estão a acontecer alterações. Tudo isso é verdade, mas as regras existem e um polícia, mais do que nunca, deve cumpri-las.

Raquel?

Eu começo pelo fim. Eu pareço aqui neste Vencedor É quase sempre a grande defensora do Luís Neves, que não sou. Mas aquilo que se lê na notícia do Observador de hoje, aquilo que eu me questiono é: e se as regras tivessem sido cumpridas, as coisas tinham avançado e tinham podido ser feitas atempadamente? E eu acho que quase todos nós intuímos que não, que aliás, é o que acontece normalmente cada vez que nós temos que pedir alguma coisa ao Estado ou cumprir excessos de burocracias. Agora, é verdade, as regras existem e se a polícia não as cumpre, quem é que há de cumprir? Mas, de facto, eu acho que isto é uma preliminar daquilo que nós vamos ver na comissão de inquérito. Esperemos que vamos só ver isto e não vamos ver coisas mais graves. Mas isto vamos ver muito, que é o famoso legado Luís Neves à frente da Polícia Judiciária, tem muito a ver com a rapidez com que ele conseguiu gerir processos, gerir as dinâmicas da Polícia Judiciária e até conseguir resultados. Há um tema que tem que ver com as viagens, em que há um início de contrato que é num determinado valor e ele depois vai e triplica até o fim do ano, e a justificação parece-me completamente razoável, é que é imprevisível uma Polícia Judiciária conseguir prever no início do ano as viagens que vai ter que fazer e os procedimentos que implicariam viagens e despesas deste gênero, tendo em conta os processos que entretanto vão entrando na Polícia Judiciária, aos quais é preciso dar respostas. E portanto, eu acho que Luís Neves está envolto numa data de confusões e eu cada vez mais acho que dificilmente, apesar de eu aqui a semana passada ter achado que ele tinha cumprido um objetivo na conferência de imprensa, que era identificar-se com a população em geral e ilustrar o seu currículo com algumas irregularidades, eu acho que à medida que os dias vão passando e que as notícias vão surgindo, que é mais ou menos inevitável que no fim do verão ele terá que sair do governo a bem ou a mal. Isto é mais um episódio. Agora, de facto, este episódio visto isoladamente, faz-me questionar o que é que está mal, se é Luís Neves ou se são as regras. E pergunto-me também se algum alto dirigente do Estado consegue mostrar alguma eficácia, e aqui estou a incluir o poder político também, se cumprir todas as regras que o Estado impõe. Acho que isso também nos devia levar a uma reflexão.

Eu acho que é possível estarem as duas coisas mal, ou seja, tanto o Luís Neves como as regras. E uma coisa não invalida necessariamente a outra. O problema é que nós, com esta história toda, volto a dizer e usar a expressão que já usei várias vezes, que isto é uma espécie de ninho de vespas em que nós estamos a mexer. E aquilo que nós vamos vendo, agora com o Tribunal de Contas a caucionar uma opinião que era mais ou menos a do governo também, de algumas pessoas que têm defendido essa posição, que é que a lei é para uns e não é para outros. E que o desgraçado do Luís Neves, porque como era diretor da PJ e precisava de fazer coisas acontecer, então nós temos que perdoar.

Porque é a primeira.

Sim, mas independentemente disso.

A segunda não seria perdoada.

Toda a gente precisa de fazer coisas para resolver os seus problemas. Porque é possível que as duas coisas estejam erradas, ou seja, é possível estar errado, sobretudo quando se exerce um alto cargo do Estado, ainda por cima sendo diretor de uma polícia. E ao mesmo tempo é possível que muitas das regras com que nós, cidadãos normais, nos deparamos todos os dias, não façam muito sentido. E agora a minha pergunta é: quem é que é mais desculpável tentar resolver o seu problema tentando contornar a lei de alguma maneira? Eu até acho que é o cidadão.

Também.

Eu acho que é o cidadão, não é o diretor nacional da Polícia Judiciária, por uma razão muito simples: é porque a polícia e o Estado têm a obrigação de manter em si a legitimidade moral para exercer a coação em nome do Estado e a força. Com que moral agora eu acho que eu vou começar a dizer a todos os clientes que me aparecerem a fazer qualquer coisa do gênero. Vão à polícia, vão ao Ministério Público e dizem: "O primeiro-ministro faz igual, o ministro da Administração Interna faz igual, o diretor da PJ faz igual, o não sei quantos faz igual. Portanto, por que me vêm chatear a mim?"

Vamos lá ver.

Isto é um desmoronar do Estado de direito.

Isto é um Estado de direito. Nós não podemos permitir que não se cumpram as regras do Estado de direito. Devemos pressionar a classe política para alterar regras que não fazem sentido. E o próprio diretor da PJ podia perfeitamente ter pressionado, como outros diretores de organismos públicos, o poder político para alterar as regras. Não cumprir as regras é abrir uma caixa de Pandora. A mim faz-me a impressão que não se perceba isso. Recentemente foi divulgado um estudo, eu não li o estudo, mas conheço as publicações do autor, é um estudo do Nuno Palma e do James Robinson, que fez um livro muito importante com o Acemoglu, que também é prêmio Nobel, que se chama "Porque Falham as Nações". E tem um exemplo poderosíssimo logo a abrir o livro, que é a comparação de duas cidades na fronteira dos Estados Unidos, uma no México e outra nos Estados Unidos. E a comparar o desenvolvimento das duas cidades, e a conclusão a que chegam é que tudo está no funcionamento das instituições. As instituições têm de funcionar. E aquilo que o Luís Neves confessou foi que: "Ok, eu se quero fazer isto funcionar, eu não cumpro as regras." Considerou-se a ele próprio acima das regras. Nós não podemos, isto não pode acontecer. E se uma pessoa até podia dar de barato a história das obras, tem fim e tal. E porque todos fazem, como ele disse. Todos fazem, mas ele não pode fazer. E muito menos pode fazer aquilo que fez na Polícia Judiciária, revelando ainda uma arrogância que é haver um antes e um depois de Luís Neves na Polícia Judiciária, como se ele próprio fosse a PJ.

Deixa-me só deixar aqui essa nota, porque eu acho que nós coletivamente nunca percebemos. Essa coisa da democracia foi uma coisa que nos foi um bocado imposta coletivamente. Nós adaptámo-nos mais ou menos, vamos votar e não sei o quê. Temos todos imenso interesse, andamos aqui ao sarabulho uns com os outros por causa destas coisas, discutimos, mas depois a coisa fica assim. E democracia são instituições.

Exatamente.

São essencialmente instituições. A democracia serve para proteger o cidadão do Estado, e serve para proteger também o Estado dos abusos do cidadão, isto é, do indivíduo. E estes mecanismos, que se chamam normalmente os checks and balances, os freios e contrapesos, nós nunca tivemos um debate sobre isto. A democracia serve para nos impedir, a nós e ao Estado, de exercer a tirania. Não serve, ao contrário do que muita gente também tem defendido, como o regime da mediocridade. É um argumento que eu não percebo. Agora cai-se tudo em cima do Luís Neves, qualquer dia ninguém quer ser ministro. Não é suposto, a conversa não é essa.

Vamos à nota?

Eu já não tenho notas para isto.

Eu também não.

Não?

Não.

Também não estás, Helena. Raquel, tem alguma nota?

Eu mantenho o quatro que dei ao Luís Neves na semana passada.

Raquel, tens alguma nota que atribuímos ao Infantino?

Por falar em notas boas.

Exato. Eu também não sei muito bem que nota dar. Eu concordo quer com o que disse o Nuno, quer com o que disse a Helena, mas fazendo advogado do diabo, também acho que nós não podemos ter um Estado que nos imponha regras impossíveis de cumprir. E o tal estudo que a Helena falava, que foi apresentado a semana passada, tem uma conclusão muito importante, que eu acho que é, aliás, a única, que é que os processos se resolvam em 90 dias. É a justiça. Se nós tivéssemos pedidos de licenciamento com respostas em 90 dias, se calhar as pessoas não fugiam aos licenciamentos. Estou só a dar um exemplo.

Se as coisas funcionassem.

E portanto, eu percebo o ponto, mas eu acho que nós temos um Estado que tem uma construção de regras, de burocracias, de tudo, que tornam praticamente impossível. Ó Raquel, talvez uma lição possível. Eu jamais quererei ser a diretora da Polícia Judiciária, nunca serei.

Então costumam isso. Agora, não podem é ser validados por terem ultrapassado um pouco.

Mas eu confesso, eu se posso escapar a algumas destas regras, eu escapo.

Claro, também eu. Isso é absolutamente-

Portanto, também não te sentes bem a fazer o discurso. Ó Raquel, talvez este caso seja um pouco uma lição para se perceber que há aqui uma teia burocrática que já não é só proteger o cidadão, é bloquear o cidadão. É bloquear o cidadão.

Exatamente.

Bloquear o cidadão e o país.

Dê-nos um mentinho.

Enfim, já dei muitas notas ao ministro.

Então avança para o Infantino.

Avanço para o Infantino. Pronto, olha, eu acho que o Infantino é um exemplo que contradiz o nosso ditado popular: quem vê caras, não vê corações. Eu acho que é um caso em quem vê a cara, vê mesmo o coração. Muito bom. Há muito tempo.

Achas que ele tem cara de vilão da banda desenhada?

Basta olhar pra ele.

Acho que ele tem cara de quem não dá.

Eu também tenho.

O povo diz, basta olhar pra ele. Exatamente, vê-se a cara e está-se mesmo a ver todo o resto. E depois lê-se o nome e isso ainda aumenta mais a percepção que se tem sobre ele.

Vamos ser cancelados. Outra vez?

Eu não sou nem grande adepta, nem especialista em futebol, mas o futebol é uma realidade de fato universal, que atrai multidões e que devia ser preservado de situações como aquelas que nós temos vindo a presenciar com este senhor, porque isto já não vem de agora, vem do outro mundial do Qatar. Vem de um conjunto de decisões, de amiguismos, aqui, sim, de não cumprimento de regras. Eu não percebo nada de futebol, mas aquela decisão do mundial de retirar um cartão encarnado a um jogo que já tinha acabado, é uma coisa que é impensável. É a contradição nos termos do desporto e, portanto, finalmente, as pessoas ligadas ao futebol estão a acordar para o fato que este senhor não pode continuar a ser o grande representante do futebol mundial. E espero, de fato, que isto se resolva com o senhor a ser posto lá no apartamento dele na Suíça, cheio de dinheiro, que deve estar com as amizades que foi fazendo e as negociatas que foi fazendo enquanto estava à frente da FIFA e antes na UEFA. Mas realmente é um exemplo máximo do estado do mundo em que nós estamos a viver. Há quantos anos é que a gente leva este senhor a sério? Desde 2016, acho eu, que foi o que eu vi no Google, que ele é presidente da FIFA. Como é que é possível uma pessoa com este currículo, que nem sequer se dá ao trabalho de tentar disfarçar, ser o grande senhor de um negócio, que também é milionário no mundo, que é o futebol. E espero que esta polêmica que agora se está a gerar e esta ideia peregrina que ele teve de querer privatizar os mundiais de futebol, se realmente só falta isso, só falta dizer que é pra empresa dele a meias com o Donald Trump ou com o primo do Donald Trump, ou uma coisa qualquer assim.

Ou para o genro.

Sim, ou o genro, ou o que quer que seja.

Queres dar uma nota a este senhor?

Sim, mas não é tanto ao Gianni Infantino, porque eu acho que as pessoas quando nascem bandidas, são bandidas até morrer. Acho que ele até é competente na sua área. Mas quero dar a quem compactuou com isto desde 2016, quero dar um zero absoluto.

E é com esta esperança na humanidade que vamos lá à política com o PSD a usar Ceuta para atacar o PS, Helena. Tudo serve para a luta política.

É a coragem das coisas acontecerem. Foi extraordinário. Luís Montenegro não se pronunciou sobre o que se passou em Ceuta, não quis assinar a carta dos 22 países da União Europeia a criticar Espanha e depois da tempestade da União Europeia ter passado, ou seja, como sabemos, a reunião extraordinária dos ministros da Administração Interna acabou por baixar a temperatura da irritação dos 22 países e manifestar a solidariedade com com Espanha, Luís Montenegro e Hugo Soares resolvem fazer declarações sobre o tema, declarações meio sonsas. Não é uma crítica direta ao que Espanha fez. Aproveitam esta situação para retirar dividendos políticos e dizer: "Nós é que fomos extraordinários em recuar a imigração." Independentemente de, na minha perspectiva, o que o governo de António Costa fez foi muito grave e nós estamos ainda a pagar aquela desregulação da imigração com o preço das casas, com o estado da saúde, com o estado de alguns serviços públicos, basta ver filas na Autoridade Tributária, etc. Independentemente de considerar isso, penso que Luís Montenegro podia ser um pouco mais corajoso e ter também criticado aquilo que o governo espanhol está a fazer. Eu e o Hugo Soares, que não é por acaso, começa a ser conhecido como ministro sem pasta, uma vez que aquilo que foi a mensagem dos dois foi basicamente alinhada, um numa rede social, o outro na inauguração da primeira unidade de saúde familiar modelo C, que agora nós tratamos as coisas de forma burocrática, modelo C, modelo A, modelo B.

Gestão totalmente privada.

Exato.

Em São Pedro da Cadeira.

Exatamente. Isso mesmo, São Pedro da Cadeira.

Incrível.

O primeiro centro de saúde totalmente privado. Isso é em Anadia?

Não. Região Oeste.

Anadia é outro problema.

Penso que será concelho Torres Vedras. A quantidade de coisas, de informação que nós temos.

Inútil. Não, essa é útil.

Um grande abraço para São Pedro da Cadeira. Já fui feliz em São Pedro da Cadeira. Nuno, queres contar-nos alguma coisa que te passou aí em São Pedro da Cadeira?

São Pedro da Cadeira, não sei, eu nunca lá fui. O que? Sobre esta história?

Sim.

Sei lá, o Huguinho e o Luizinho. O Huguinho. Nunca tinha feito essa associação. É o Huguinho e o Luizinho. Eles andam sempre juntos, dizem sempre as mesmas coisas. Acho que eles começam a parecer até um...

O Zézinho quem é?

O Zézinho sou eu, que ando aqui a aturar os dois.

Então, se não tens nada para dizer, podemos ouvir a Raquel.

Tinha aqui uma nota sobre essa questão de imigração que me passou hoje pelos olhos, já não sei onde. Mas um detalhe muito curioso, não particularmente inovador, não sobre o Huguinho e o Luizinho, mas sobre o que se está a passar em Espanha, que é: adivinhem lá que comunidades é que não estão a querer aceitar os imigrantes e os miúdos. Catalunha e o País Basco.

Sei que Navarra abriu as portas.

Que é uma chatice. Quando isto bate de frente com a teoria progressista dos nacionalismos, das soberanias e das autonomias, não sei o quê. Depois não bate certo a mesma conversa. É um detalhe muito giro que eu acho que ainda não vi em lado nenhum. Mas deixa-me só acrescentar um ponto, que é este: o que impressiona naquelas imagens de Ceuta é o reflexo violentíssimo da falta de autoridade do Estado.

Claro.

É impressionante a fragilidade que aquelas imagens transmitem ao mundo sobre a autoridade do Estado num país da União Europeia. É que eu nem consigo perceber como é que não se consegue pôr as pessoas lá para fora. Tenho imensa dificuldade em perceber isso. Sei que um dia destes também vem aí a polícia.

Raquel.

Não tenho muito a acrescentar. Eu acho que o Huguinho e o Luizinho escusavam de ter feito este número, porque eu acho que ele é demais evidente. Eu acho que eles fazem bem em não criticar o governo espanhol, porque também é demais evidente o que se está a passar em Espanha. E a nós não nos interessa ter más relações com Espanha, por razões evidentes, é o nosso vizinho e um parceiro importantíssimo até para a nossa economia. E portanto, acho que fizeram bem na forma como geriram isto e não se tendo associado aos outros 22 países. Acho que é chover no molhado. Não há ninguém que não tenha feito aquele raciocínio. Portanto, era escusado o discurso, isso soa à propaganda.

Nuno, tu tens notas, Helena?

Tenho um nove para Hugo Soares e Luís Montenegro.

E tu, Raquel?

Eu tenho um 10. Acho que não aquentou nem arrefentou.

Eu tenho uma dúvida: por que continuam a usar aquela música irritante nos vídeos que fazem nas redes sociais? Aquela música é muito irritante, mas pronto, tenho ouvidos físicos.

Tu ligas o som?

Sim, se faz favor. Tu queres falar, Nuno, sobre o caso da Conservatória de Anadia? De Anadia ou d'Anadia?

Eu diria de Anadia.

De Anadia.

Se for assim a correr, a gente diz d'Anadia.

Exato.

D'Anadia.

Ora então, aumentos.

Sim, isto é um inquérito. A notícia está no site do Observador, tem um texto da Mariana Furtado e é uma história que eu acho encantadora e que na verdade encaixa um bocadinho naquilo que nós estávamos aqui falando da primeira parte.

Na primeira parte, sim.

Estas coisas todas das regras e das não regras e de como é que nós cidadãos nos podemos defender dos abusos do Estado

De quem o exerce. Isto é basicamente na conservatória, que é uma daquelas mega, que tem registo civil, predial, comercial e automóvel. Tinha uma senhora conservadora diretora, cujo nome agora não me lembro, também não interessa para o caso. E foi feita uma denúncia anónima no IRN, o Instituto de Registos e Notariado, que entretanto depois abriu um inquérito e aquilo que se sabe é que foram cobrados emolumentos em excesso em 900%. Não quero estar aqui a ser maçador e não gastar o meu tempo com isto, mas segundo aquilo que eu percebi, os livros dos pré-registos não estavam preenchidos, portanto ficava tudo em branco e tudo o que lá calhava levava com uma instrução da conservadora diretora para ser tratado como processo de especial complexidade. E portanto, sendo um processo de especial complexidade, o cidadão tinha que pagar um emolumento, entre os 22 e os 25 € mais ou menos. Mais para cima, um pouco mais para baixo. Isto foi descoberto, dava aqui uma receita impecável. Acho que a média andaria à volta dos 11 mil e tal euros. Havia, curiosamente, parece uma coisa do Portugal de antigamente, que eu tenho alguma simpatia por isto até.

Do Portugal de antigamente?

Sim, aquilo não era só para ela.

Era.

Aquilo era para todos. E portanto, toma lá 600 para ti, toma lá não sei o quê para ti. Acho que rondaria ali à volta dos 2000 € mensais, mais ou menos.

Era um prémio de produtividade.

Complemento remuneratório. Sendo que, segundo aquilo que vem na peça, a senhora aparentemente prestou declarações e diz que não desmente, explicou ter o entendimento de que todos os atos de registo se revestem de especial complexidade.

Exato.

O meu entendimento é: é tudo difícil.

Contra isso batata.

Sim, e agora? Sendo que não é necessariamente o caso, estamos aqui a falar de uma série de coisas. A lei tem uma série de requisitos para que aquilo seja assim considerado de especial complexidade. A questão é que não estando os livros de registo preenchidos, na verdade, também não ajudará aqui propriamente ao escrutínio. Depois diz também que, segundo a própria, o estado atual dos registos extravasa a mera apreciação da viabilidade do pedido. O estado atual dos registos, já aqui falámos várias vezes sobre isso, é miserável. O que na sua visão justifica que sejam registados emolumentos pessoais pelo valor máximo, em função apenas do número de atos requeridos. Em declarações no âmbito deste inquérito, defendeu que a eliminação destas tarefas era necessária em prol-

De um bem maior.

Imaginem. E uma resposta mais célere e eficaz da conservatória.

Vai daí.

Um bem maior que é servir o público.

E, portanto, qual é o nosso sentimento coletivo agora relativamente à senhora conservadora? Fez bem ou fez mal?

Queres que eu responda?

Sim.

Achas que sim?

Força, Raquel. Quero.

Era não ir lá pedir os emolumentos ou os registos. Os registos, os emolumentos é que pagam.

Isto aqui depois ainda levanta outro problema, que é para o cidadão normal. Submetendo um registo na conservatória e recebendo um despacho ou o senhor lá na repartição, lá ao balcão, que me diz: "Tem que pagar aqui uma taxa especial, são mais 22 €." Quem é a alma neste país que vai dizer ao senhor funcionário, ao Bruce Almighty, ao todo-poderoso dona Isabel, e vai dizer: "Desculpe lá, mas eu não lhe vou pagar os 22 € porque isso não é sequer legalmente admissível." E que ferramentas é que nós temos? Quem é que vai sequer recorrer para tribunal de um despacho de uma conservadora, se for necessário? Acontece a mesma coisa com despacho de recusa de registos, por exemplo. Quem é que no seu perfeito juízo, vai para tribunal recorrer do despacho de uma conservadora? Aquilo que vai fazer é ir a outra conservatória.

E tentar resolver o problema.

E tentar resolver o problema pagando outra vez.

Outros 25 €.

Exatamente. E portanto, esta senhora viu que a lei lhe permitia ter aqui basicamente um mecanismo porreiro, que era: isto é tudo difícil.

Vai daí.

Trabalhar é difícil.

Sim, isto é tudo tão complicado. E se eu eliminar aqui uma série de coisas, isto pode ser mais rápido. E então, se calhar, afinal isto até foi para o bem.

Helena, acende-nos aqui uma centelha de esperança.

Infelizmente não, porque pelos vistos a moda pega.

Não, mas é por isso que eu digo que isto é um ninho de vespas, porque quando se começou a mexer nisto, o Luís Neves: isto agora se começam a mexer nisto, minha Nossa Senhora.

Tu pegaste nessa frase e a frase que eu fixei é que foi suposto: o bem maior é servir o público e como tal, vamos fazer isto assim. As coisas não se fazem assim.

É que estão os dois errados. Os mecanismos estão errados.

Ora bem.

E o ato de quem devia gerir e representar o Estado ali, também está errado.

Nós votamos exatamente para isso. Comecemos a votar para que as regras sejam mais simples. Se as pessoas querem as regras mais simples, têm de começar a votar nos partidos que defendem as regras mais simples. É assim que funciona a democracia. Não é agora cada um fazer as suas regras.

Nuno, tens uma nota? A nave também faz parte do calendário velocipédico.

Faz sempre. Ali aquela zona.

Sim.

E o Oeste também.

O Oeste também.

Aliás, começa amanhã.

Grande tradição.

Queres falar sobre isso agora até ao final?

Não, grande tradição.

É verdade. Para contrariar e para não ser tão negativo, vou dar uma nota positiva, vou dar aqui um 13 ao IRN, ao Instituto de Registos e Notariado, que desencadeou o inquérito. Apesar de isto ter vindo de uma denúncia anónima, mas enfim, chegou e as coisas avançaram.

Helena?

E estamos a saber, é bom.

Eu seguia o Nuno, que é o IRN e a denúncia anónima, porque muitas vezes, sendo anónimo ou não anónimo, não nos ligam absolutamente nenhuma. E eu já tive a experiência disso, de não nos ligarem absolutamente nenhuma nas cartas que escrevemos. E isto é um bom exemplo de como deve o Estado funcionar.

Raquel, tens alguma?

Eu acompanho a Helena. Também acho que o facto de terem lido uma denúncia anónima e terem-lhe dado seguimento merece uma nota positiva.

E amanhã há mais.

É tão raro.

E amanhã há mais "O Vencedor" nas manhãs 360. A Filomena Martins junta-se ao José Manuel Fernandes, ao Paulo Ferreira e ao Bruno Vieira Amaral.