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Os votos depositados na passada terça-feira por um número recorde de 124 milhões de eleitores norte-americanos ainda estão a ser contados, mas o tiro de partida para a corrida seguinte já soou. Entre as eleições intercalares de 2026 e a eleição presidencial de 2028, quando vai ser escolhido o sucessor de Donald Trump, contam-se 735 dias. São 735 dias para lançar uma campanha, recolher fundos, participar em dezenas de primárias e, por fim, avançar na corrida a dois, entre um democrata e um republicano, que só termina na Casa Branca.
Todavia, o primeiro passo deste longo processo começa ainda durante a campanha para as intercalares. É aí que os potenciais candidatos sondam as suas bases eleitorais e possíveis apoios de peso dentro do respetivo partido e testam uma mensagem política. Com os resultados das intercalares passa a ser possível, para muitos dos aspirantes, tirar conclusões e decidir se é possível avançar. Olhando, então, para o “tsunami azul” que varreu os Estados Unidos esta terça-feira, o Partido Democrata parte claramente em vantagem.
Mas o sucesso de uma campanha presidencial vai muito além de uma vitória nas intercalares. Scott Ferson, estratega democrata e autor do livro How the Democrats Lost America, destaca três pilares fundamentais para uma campanha vitoriosa: “Dinheiro, estatuto e uma visão original“. “Os candidatos viáveis raramente têm os três”, argumenta ao Observador. Ora, o dinheiro, o estatuto e as visões originais estão longe de ser recursos exclusivos do Partido Democrata.
Apesar de nenhum nome de peso ter formalizado, até agora, uma candidatura em qualquer um dos partidos, os potenciais candidatos acumulam-se dos dois lados do espectro. Uns destacam-se pelo dinheiro, outros pelo estatuto, outros por uma visão original. E todos terão de enfrentar desafios se quiserem trilhar o caminho até à Presidência. Mas quem são, afinal, esses possíveis candidatos?
Os democratas que querem aproveitar a onda azul
A larga maioria conquistada pelos democratas esta semana atirou para a ribalta nacional uma série de políticos até aqui pouco conhecidos do público em geral — e que rapidamente foram sugeridos como bons candidatos. Contudo, Todd Belt destaca como o resultado tão esmagador dos democratas acabou por dificultar a identificação de uma “mensagem vencedora”.
“Isto porque a eleição foi inteiramente sobre a má gestão de Donald Trump da economia. As pessoas não votaram nos democratas por causa da sua mensagem, só votaram para expressar o seu descontentamento com Trump”, elabora o professor de gestão política na George Washington University. Neste grande grupo de possíveis candidatos, é possível, ainda assim, desenhar algumas linhas ideológicas.
Jon Ossof. O jovem senador provocador que pintou a Geórgia de azul
Um senador jovem, casado, com duas filhas, e uma oratória que o popularizou no espaço mediático. É este o perfil de Jon Ossof. É também o perfil de Barack Obama, com quem as comparações abundam. Em 2021, aos 34 anos, Ossof tornou-se no mais jovem senador eleito no século XXI, depois de ganhar um lugar que até aí pertencia ao Partido Republicano no swing state da Geórgia. Este ano, conquistou a reeleição facilmente e viu o seu estado pintar-se de azul também na Câmara dos Representantes e no cargo de governador. Tudo isto funciona a seu favor.
▲ Jon Ossoff é um dos favoritos no campo democrata
Getty Images
“Ainda não falei com alguém que não o mencione”, sintetiza o estratega Scott Ferson, que elogia a “esperteza” do candidato, que ora joga ao centro, ora à esquerda, consoante o público-alvo — algo essencial para conquistar primárias em que votam apenas democratas, mas também uma eleição geral em que tem de ganhar o voto de eleitores republicanos. Além disso, sabe ser provocador, “sem ser performativo”. Exemplo disso foi o facto de ter sido ele a trazer para a campanha a proximidade do Presidente à sua assessora Natalie Harp.
Apesar de, em poucas semanas, se ter assumido como um claro favorito, Ossof insiste que tem “zero interesse em concorrer a Presidente”, uma declaração que pessoas próximas do senador dizem ser genuína. Contudo — e regressando à comparação com Obama —, também foi isso que o então senador do Illinois disse em 2006, numa altura em que, soube-se mais tarde, já se preparava para concorrer à Casa Branca.
AOC e Ro Khanna. Os representantes progressistas reeleitos
Quem, ao contrário de Ossof, já começou efetivamente a preparar a corrida foi Ro Khanna. Aliados do representante do 17.º distrito da Califórnia lançaram esta semana um grupo chamado “Run Ro” (“Concorre, Ro”, em tradução livre) que tem como objetivo começar a construir uma base de apoio caso o congressista decida avançar na corrida e “enquadrar o debate das primárias numa perspetiva populista progressiva”. Khanna, que está no Congresso há nove anos — mas ganhou destaque ao longo da última legislatura pela sua liderança na luta pela publicação dos ficheiros Epstein —, não é, contudo, o progressista mais famoso apontado à Casa Branca.
▲ A equipa do progressista Ro Khanna já avançou com um grupo para reunir apoios
Bloomberg via Getty Images
Esse lugar está reservado para Alexandria Ocasio-Cortez, representante do 14.º distrito de Nova Iorque. A mediática congressista é vista como a herdeira política de Bernie Sanders — que concorreu à Presidência em 2016 — e não recusa a possibilidade de se lançar na corrida. “Esta é uma janela política única [para os progressistas] e muitas vezes na política, só se tem uma hipótese”, ponderou ao New York Times em setembro. Desde aí, a ala mais à esquerda do partido conseguiu eleger seis novos congressistas — e três senadores que concorreram com o seu apoio.
Entre os dois progressistas, Scott Ferson olha com mais otimismo para a campanha de Ro Khanna. “Ocasio-Cortez é uma oradora incrível e muito esperta e atinge todos os pontos-chave dos democratas. Mas o tempo de vida útil [de um político] é tão curto que o facto de ela estar na ribalta há cinco ou seis anos [faz] com que não seja uma novidade”, argumenta. Focando-se nesta necessidade de caras lavadas entre os democratas, o estratega aponta o novo senador do Texas, James Talarico, como nome que será decisivo em 2028 — concorra ou não à Presidência. “Se o Texas virar mesmo para os democratas, o jogo acabou”.
▲ Alexandria Ocasio-Cortez é uma das mais mediáticas congressistas
Anadolu via Getty Images
Kamala Harris e Gavin Newsom. Os “liberais costeiros”
Se Ro Khanna é uma figura “progressista” e “da vanguarda” do Partido Democrata, o mesmo não se pode dizer dos seus conterrâneos da Califórnia. Dois grandes nomes deste estado surgem frequentemente na lista de aspirantes a Presidente: Kamala Harris, antiga vice-Presidente e candidata, e Gavin Newsom, governador da Califórnia. Os dois beneficiam do estatuto enquanto líderes da oposição informal a Trump e da estrutura necessária para financiar uma campanha, mas a reputação dos democratas californianos no resto do país pode abafar as suas hipóteses de fazer frente aos nomes mais populares anteriormente mencionados.
▲ O governador da Califórnia é visto como uma elite do Partido Democrata
ANDRI TAMBUNAN/EPA
O Financial Times classifica-os como “liberais costeiros”, a AFP como “figuras da velha guarda”. Em qualquer um dos casos, estes dois californianos pertencem às elites. Ora, as intercalares mostraram que os discursos antissistema, apoiados no populismo económico de esquerda, proliferaram — e muitos foram extremamente bem-sucedidos. Um regresso às elites seria um passo atrás.
Kamala Harris foi ainda mais clara que Newsom na sua vontade de se manter envolvida no jogo político, mas tem outro fator a jogar contra ela: a derrota de 2024. É preciso recuar a 1956 para encontrar um exemplo de um candidato presidencial que falhou e foi nomeado novamente pelo Partido. “Os democratas são implacáveis, não há segundos atos na política democrática“, lamenta Scott Ferson, que elogia a campanha feita pela vice-Presidente na corrida à Casa Branca.
▲ A derrota de Kamala Harris em 2024 pesa numa possível recandidatura
Bloomberg via Getty Images
Shapiro, Beshear e Buttigieg. Os governadores e o repetente
“Qualquer pessoa que alguma vez olhou ao espelho e viu um Presidente dos Estados Unidos a olhar de volta vai começar a aparecer em sítios como a Carolina do Sul”, resume Scott Ferson, referindo-se ao estado para onde está agendada a primeira primária — ainda sem calendário final. Com esta realidade em mente, o estratega destaca o governador do Kentucky, Andy Beshear, como um possível candidato. “Ele tem feito as rondas [e, como] líder da Associação de Governadores Democratas, há muitas vitórias de terça-feira pelas quais ele pode pedir créditos”, resume.
Beshear não admitiu uma corrida, mas também não fechou a porta a uma — um equilíbrio que também tem tomado conta do discurso do seu colega Josh Shapiro, governador da Pensilvânia. Shapiro era apontado como o favorito para ser candidato a vice-presidente de Kamala Harris em 2024 — a nomeação não chegou e, dois anos depois, isso pode funcionar a seu favor, já que em vez de estar pintado com a derrota de há dois anos, pode focar-se em destacar a sua confortável reeleição esta semana.
▲ O governador da Pensilvânia Josh Shapiro era apontado como possível candidato a vice de Kamala Harris
Getty Images
Pete Buttigieg, outro nome apontado à corrida, conhece o processo ainda melhor que Beshear ou Shapiro, uma vez que já concorreu em 2020. Apesar de não ter feito diretamente parte da onda azul de terça-feira, o antigo secretário dos Transportes da administração Biden tem feito, à semelhança do governador do Kentucky, as rondas. Nos últimos dois meses de campanha, Buttigieg somou quase duas dezenas de intervenções em comícios pelo país todo, destacando-se pelas capacidades de comunicação. Declarou-se focado a 100% nas intercalares, mas nunca disse um “não” inequívoco a uma nova corrida à Casa Branca.
Os republicanos dispostos a remar contra a corrente
No sistema político norte-americano, apenas o partido no poder tem um líder inequívoco: o Presidente. Esta característica reflete-se na diferença entre o número de potenciais candidatos do Partido Democrata e do Partido Republicano. “Temos uma lista relativamente pequena [de nomes de peso], mas eles são todos poderosos e têm posições importantes, enquanto os democratas não têm posições”, pondera Matt Dole, desvalorizando os cargos no Congresso ou como governadores, por comparação às posições na administração dos republicanos.
Esta presença dentro da administração e a proximidade a Trump é o principal desafio dos candidatos mais populares para suceder a Trump. Mas não o único. O estratega republicano e líder local do partido no Ohio aponta outro grande obstáculo aos potenciais herdeiros do Presidente: “Unificar a coligação [que levou à eleição de Trump] na eleição geral”. Isso inclui o movimento MAGA, mas também os chamados republicanos tradicionais, mais próximos da era de George W. Bush, por exemplo.
JD Vance e Marco Rubio. Os favoritos do Presidente que precisam de se distanciar do Presidente
O homem politicamente mais próximo do Presidente emerge, nas sondagens, como o favorito a suceder-lhe. O professor Todd Belt destaca duas vantagens nesta proximidade. Por um lado, JD Vance conseguirá obter mais facilmente uma vitória nas primárias, pois a base fiel de apoio ao líder republicano tem mais tendência a votar nestas eleições. Por outro, “pode beneficiar da infraestrutura de campanha por ter concorrido com Trump em 2024, incluindo doadores e voluntários”. Vance parece manter ainda o apoio de Donald Trump Jr. que, em 2024, foi uma peça-chave para que fosse escolhido como candidato a vice-presidente.
▲ Vance e Rubio são favoritos para suceder a Donald Trump
YURI GRIPAS / POOL/EPA
Por outro, o cargo de vice-presidente é, historicamente, uma plataforma de lançamento muito difícil para ascender a Presidente. Nos últimos 190 anos, só um vice-presidente é que conseguiu a nomeação do Partido e ganhou a presidência — George H. W. Bush em 1988. A resposta está no facto de o número dois da administração ter dificuldade em distanciar-se das políticas fracassadas do seu antecessor. Ainda assim, JD Vance parece estar a tentar. Exemplo disso é a atribuição da derrota nas intercalares à impopular guerra no Irão.
O mesmo desafio aplica-se a qualquer membro da administração Trump, mas outros esperançosos têm um caminho mais fácil: a demissão (uma demissão de um vice-presidente por estratégia política não teria precedente). Será precisamente essa a solução que o secretário de Estado, Marco Rubio, está a ponderar, avançou a Bloomberg esta quinta-feira. A informação foi desmentida pela Casa Branca, mas Matt Dole vê a decisão como uma estratégia coerente. “Colocar um bocadinho de espaço entre ele e o Presidente provavelmente vai ajudá-lo a longo prazo”, argumenta o republicano, que frisa os elogios que Donald Trump tem deixado a Rubio — um possível sinal de que, caso avance, também poderia contar com a benção política do Presidente, útil nas primárias. Publicamente, o chefe da diplomacia norte-americana que já concorreu contra Trump no passado disse “não ter planos” para uma nova candidatura. Porém, em privado, terá “mantido a porta aberta” a essa hipótese.
Ron DeSantis e Ted Cruz. Os representantes do bastião (e do possível ex-bastião) vermelho
Apesar de favoritos numa corrida que mal começou, Vance e Rubio nunca se comprometeram em avançar. Mais vocais foram Ron DeSantis, governador da Flórida que chega ao fim do mandato em janeiro, e Ted Cruz, senador do Texas e um dos aliados próximos do Presidente. “Não é segredo que quero ser Presidente”, afirmou Cruz durante o verão, semanas antes de seguir para ajudar na campanha no Iowa. É neste estado do Upper Midwest que se dá o pontapé de partida oficial para as presidenciais — não com uma eleição primária, mas com uma nomeação pelo grupo estadual do Partido Republicano.
▲ O senador texano Ted Cruz não esconde que quer ser Presidente
Bloomberg via Getty Images
Contudo, mesmo que conseguisse reunir um improvável apoio de Trump em detrimento dos membros da sua administração, Cruz enfrenta um duro desafio dentro das suas próprias fronteiras que, esta terça-feira, se pintaram de azul com a eleição do senador James Talarico e da governadora Gina Hinojosa. Ora, esta realidade favorece DeSantis, que viu um republicano ganhar a corrida para seu sucessor e a incumbente republicana a manter o seu lugar no Senado. O governador classificou os resultados como “um evento de extinção para os republicanos” e exaltou os resultados na Flórida por oposição — a prova de que, diz, “consegue apresentar ótimos resultados”.
Matt Dole deposita pouca esperança numa possível recandidatura de DeSantis — que, questionado sobre isso no início do ano, afirmou apenas “vamos ver”. “Ele vai enfrentar os mesmos desafios como candidato que enfrentou há dois anos — ele simplesmente não reúne muita simpatia durante a campanha”, resume. O estratega republicano argumenta ainda que DeSantis não conseguirá capitalizar os resultados destas intercalares até ao final de 2027, início de 2028, quando começarem as primárias, apontando a rápida velocidade a que a política norte-americana muda de rumo entre dois ciclos eleitorais. “Isto vai deixar de ser novidade em alguns meses e vamos avançar para outras coisas”, declara.
▲ O governador da Flórida, Ron DeSantis, procura capitalizar o resultado das eleições intercalares
The Washington Post via Getty Im
Tucker Carlson e libertários. Os nomes de fora da coligação MAGA
“A destruição total do Partido Republicano. Acabou”. Foi assim que o antigo apresentador da Fox News, Tucker Carlson, resumiu o resultado das eleições intercalares. Na origem do movimento MAGA e do America First, Carlson foi um dos principais apoiantes de Donald Trump, mas a sua insistência numa política externa intervencionista, que culminou com o desencadear da guerra no Irão, transformou-o num crítico cada vez mais aceso do Presidente. A mudança de postura de Carlson levantou vozes que sugeriram que concorresse à Casa Branca como o “verdadeiro herdeiro” do MAGA e alimentou a especulação.
▲ Tucker Carlson foi um dos primeiros apoiantes mais vocais do movimento MAGA
JUSTIN LANE/EPA
“Definitivamente [vai concorrer a um cargo público] (…) Com o que está a acontecer na guerra do Irão, acho que coloca o Tucker numa posição muito boa para concorrer a Presidente em 2028”, afirmou o seu biógrafo Jason Zengerle, em abril. A hipótese foi prontamente rejeitada nesse mesmo mês por Carlson. “É claro que não estou a pensar concorrer para Presidente”, disse. Matt Dole também desvaloriza essa hipótese como “mero ruído mediático“, mas aponta um motivo bem diferente: “Ele acabou por se afastar do Partido Republicano”, afirma, destacando as posições “isolacionistas” — algo diferente do “não intervencionismo” defendido pelo MAGA — e “anti-Israel” como sendo impopulares na base republicana.
Tucker Carlson não é o único nome que surge no espaço republicano como um desafio à coligação em torno de Trump. Mas enquanto o apresentador rejeita essa hipótese, dois nomes da minoritária corrente libertária já disseram estar a ponderar avançar, de forma a capitalizar o sentimento anti-Trump que predomina no país: Rand Paul, senador do Kentucky, e Thomas Massie, antigo representante do mesmo estado, que perdeu a primária republicana para Ed Gallrein. O candidato foi apoiado pela Casa Branca para substituir Massie, que, ao lado de Ro Khanna, tem insistido na publicação dos ficheiros Epstein.
▲ Thomas Massie perdeu o lugar no Congresso depois de um braço de ferro com a administração Trump
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“Definitivamente vai haver um candidato anti-Trump no campo republicano, mas não acho que vá chegar muito longe enquanto Trump quiser continuar a ser king-maker“, pondera o professor Todd Belt. “É difícil pensar [num cenário] em que Trump não está envolvido — ele esteve envolvido até quando Biden foi Presidente”, remata. Apesar de os eleitores terem “chumbado” Trump nas intercalares, o “desconcertante” chefe de Estado não vai abdicar das últimas cartas que ainda tem para lançar antes de abandonar a Casa Branca.