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Este é o som do Youven Sorê, das manhãs 360. Já sabe que para além de nos ouvir na rádio, também nos pode ver. É só acompanhar-nos em direto através das nossas redes sociais ou do site do Observador. E Carla, esta segunda-feira está também conosco a Sara Antunes de Oliveira.

E esta manhã pedimos tolerância democrática, mas começamos com gafes. Sara, bom dia. Quer dizer que vais falar da Ministra da Administração Interna, Margarida Blasco.

Vou. Bom dia. E sabes que até nem é pela gafe ou pela inabilidade de Margarida Blasco. É mais pela reação àquilo que ouvimos a propósito do direito à greve. É evidente que a Ministra da Administração Interna abriu a porta a discutir o direito à greve. Aliás, disse que o ponto estaria com certeza em cima da mesa. E mais, disse que não ia dizer naquele momento se sim ou se não, porque ia ter de ser submetido a um estudo. Ninguém faz um estudo para uma coisa que não admite fazer. Isso para mim parece-me evidente, mas na reação veio dizer-nos que não, que não disse nada daquilo e que as interpretações ficam com quem as faz. Eu não sei se se recordam, na altura do assalto à Secretaria-Geral do MAI, havia notícias de que as câmaras de vigilância não estavam a funcionar e Margarida Blasco emitiu um comunicado muito rabujo, vou dizer assim, dizendo que sim, que estavam a funcionar, só havia era um problema no sistema de gravação e que isso não impediu a identificação do suspeito. Mas isso é um engano, porque não estarem a gravar deu no mesmo para o caso. Se estivessem a gravar, tinha sido mais fácil e mais rápido identificar o suspeito. E sim, ele foi identificado, mas não com aquelas imagens, porque elas não existiram. Foi preciso recorrer a outras imagens de câmaras de vigilância no exterior, nomeadamente de restaurantes na rua, que essas, sim, permitiram a identificação do suspeito. Portanto, foi um pouco atirar-nos areia para os olhos e eu já na altura fiquei um pouco incomodada com essa reação. E agora vem dizer-nos isto, que não disse nada daquilo. E, portanto, para mim nem tem a ver com a gafe ou com a inabilidade clara da Ministra da Administração Interna nestes últimos meses nas várias matérias. Tem a ver com esta deslealdade de vir dizer que não disse uma coisa que todos ouvimos a ministra dizer. Eu queria aqui dizer que no dia 28 de março, quando foi conhecido o governo, eu elogiei muito a escolha de Margarida Blasco como Ministra da Administração Interna, por causa do bom desempenho que acho que teve como Inspetora-Geral da Administração Interna. Eu continuo a achar que teve um bom desempenho, continuo a achar que tomou posições importantes, mas queria aqui dizer que eu estava enganada. Isto não é uma interpretação das pessoas que me ouviram, eu disse mesmo aquilo, eu disse mesmo que Margarida Blasco era uma boa escolha. Não me interpretaram mal, portanto, penitencio-me aqui. Por isso, Margarida Blasco não foi uma boa escolha para Ministra da Administração Interna.

Aliás, Sara, a nota de esclarecimento de ontem que saiu ontem à noite é assinada não pela ministra, mas pelo gabinete de imprensa, o que também pode levar a pensar se a ministra foi desautorizada. Agora perdemos o contacto.

Eu é que vos perdi. Já vos ouvi. Só te ouvi dizer: "Aliás, a nota do ministério..." e depois não ouvi mais nada.

A nota do ministério não é assinada pela ministra, é pelo gabinete de imprensa, o que também pode levar à interpretação de que a ministra foi desautorizada.

Não acho isso. Até porque eu creio que a nota sobre o assalto à Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna também estava assinada pelo gabinete. Mas eu sou capaz de jurar, ponho dinheiro nisso, que foi Margarida Blasco que a escreveu.

Bruno, há muita gafe aqui. Podemos chamar gafe ou qualquer coisa mais grave às declarações que a ministra tem vindo a dizer?

Há aqui uma série de erros. Não são apenas curiosidades ou aquelas coisas quase anedóticas. São erros graves quando a ministra vem, na prática, contradizer aquilo que era a posição do primeiro-ministro em relação do direito à greve dos polícias, e isso é mais do que uma gafe. Depois pode se vir desculpar.

Que foi uma interpretação errada.

Sim, uma interpretação, que não disse aquilo, mas é mais do que uma gafe. Eu imagino que no governo, e não tem falado assim tanto, mas de cada vez que fala...

Agora pensa, Bruno.

Não, eu ponho as mãos à cabeça e eu acho que nós aqui também já criticamos em algumas situações o silêncio da ministra, mas esse silêncio eu acho que é concertado, é combinado, porque já devem ter medo do que a ministra possa dizer. E aqui o Ministério da Administração Interna é O flanco vulnerável do governo da AD em relação ao Chega. Já se sabia que ia estar sob grande pressão do Chega, e daí a importância de alguém com peso político, com capacidade política, que não tivesse medo ou receio de enfrentar os problemas dentro do ministério e passasse também uma imagem de confiança, serenidade e tranquilidade para fora.

Paulo Rangel dizia este fim de semana que os ministros não têm que ter todos grande capacidade de comunicação.

Ele às vezes também não tem.

Mas também não precisam ter tão pouca.

Ele às vezes também não tem essa capacidade de comunicação. Talvez esteja a desculpar a si mesmo, mas é preciso ter, de facto. Não digo que seja o mais importante, obviamente não é o mais importante. Os conhecimentos, a capacidade técnica, o conhecimento da área, a capacidade de escolher uma equipa competente, são tudo atributos necessários para um ministro. Mas a comunicação faz parte das funções, não é apenas acessório, não é apenas um ornamento. Se a pessoa é incompetente, não é o falar bem que a vai salvar.

Às vezes pode disfarçar.

Não, claro.

Uma boa capacidade de comunicação pode disfarçar muito a incompetência.

Pode disfarçar, mas não.

Mas também não é que cada ministro seja um Barack Obama. Não estamos à espera de grandes oradores.

Claro. Há limites.

É o básico. Porque isto não é só de comunicação. Depois a ministra vai se desculpar com isso, que é uma interpretação, mas não é só de comunicação. Tem a ver com clareza de pensamento, com lucidez. Por que a ministra vem dizer que se vai discutir o direito à greve dos polícias? Quer dizer, isso não é uma questão de comunicação. Estamos a falar de algo em concreto, substantivo. Não é apenas o tom, não é apenas a forma de se expressar, é o conteúdo. Ela vem dizer que se vai discutir uma coisa que o primeiro-ministro já tinha dito que está completamente fora da equação. E claro que depois, aí é que se pode falar de gafe. Neste momento em particular, em que tivemos protestos, tivemos tumultos, tivemos distúrbios, vir se falar desta questão do direito à greve dos polícias, aí sim eu acho que é uma dimensão de gafe, porque é um péssimo momento ainda por cima para se vir falar disso. Cá em Portugal não há muita tradição das apostas, mas se houvesse aqui um ranking.

Alfáce.

Quero entrar.

É alfáce, exatamente. O primeiro-ministro a ser despedido. Queria usar aqui uma imagem dos Estados Unidos, usa-se muito o dead man walking, para quem está no corredor da morte, que com as devidas distâncias, é falar da morte política. Eu acho que está a espada sobre a cabeça de Margarida Blasco neste momento e provavelmente será a primeira a cair, se quisermos usar outras ideias. A primeira a sair do governo muito provavelmente será Margarida Blasco, a este ritmo de erros, de gafes, de inconveniências para o próprio governo. Portanto, tem sido até agora talvez a ministra que se tem saído pior no governo da AD.

É uma área crítica esta da administração interna, sempre. É sempre uma pasta complicada em qualquer governo.

Mas há muitas, a educação é complicadíssima, a saúde é complicada.

As finanças são complicadas. Menos agora as finanças do que já foram. Mas é uma pasta complicada cuja agenda é difícil os governos escolherem, porque as coisas acontecem. Quando estamos a falar de bombeiros, de polícias e por aí fora, tem a ver com aquilo que é a vida em sociedade, como aconteceu agora no bairro do Zambujal. E portanto, há uma agenda imposta pela sociedade de alguma maneira que os políticos não controlam e para a qual têm que ter habilidade de jogo de cintura, rapidez de ação, de alguma maneira, e excelente comunicação, porque é daquelas áreas, de facto, incendiárias, onde uma palavra fora do sítio pode levar muito a perder.

E a história recente com os vários ministros que ocuparam a pasta faz-nos lembrar isso.

Já agora, não é que Margarida Blasco seja incompetente nas matérias que dirige no governo, não tem a ver com isso, nem a competência dela em conhecer muito bem a área.

Não sei, Paulo. Neste momento já não sei.

Pois, é que chegamos a essa dúvida.

Perante isto, esta situação específica, como é que Margarida Blasco, que tem que ter a competência de saber lidar com as polícias, agora se vai sentar em frente às polícias e vai dizer: "Olha, eu não disse bem aquilo."

Eu disse-vos uma coisa, mas depois tive que dizer outra em público.

Portanto, isso também é competência. Isso também é saber falar para fora.

Não sei se há ali uma precipitação de dizer. Não sei, não se entende. Este tema da greve, de facto, é particularmente grave.

Sim. José Manuel, quem é o teu vencedor nisto?

Só tenho derrotado, neste caso a ministra. Vamos lá ver. Isto é um tema que nem poderia estar em cima da mesa. Este tema da greve nas forças de segurança não é determinado por lei ordinária, é determinado pela Constituição da República. A Constituição da República não diz exatamente como deve ser, diz apenas que a lei pode estabelecer. Mas depois as indicações que dá é que para os agentes dos serviços das forças de segurança, a lei não admite o direito à greve, mesmo quando é admitido o direito à associação sindical. Nós hoje já temos sindicatos, associações sindicais nas polícias, não tivemos durante muito tempo.

Foi uma longa luta também.

Foi uma longa luta, já temos. Mas não temos na GNR, porque na GNR

Eles só podem ter direito, porque a GNR é uma força militarizada e, portanto, tem um quadro diferente. Tem capacidade eleitoral, direito de associação, direito de manifestação, reunião, expressão, essas coisas assim. Simplesmente têm restrições. Isso está no artigo 270 da Constituição. Ninguém pode abrir uma discussão constitucional. Ninguém está a pensar que valha a pena sequer abrir neste momento uma discussão constitucional em Portugal, porque no estado em que está a nossa república, a Constituição está bloqueada há muitos anos e muitos anos continuará bloqueada, porque a partir do momento que se tornou quase impossível haver acordos entre o PS e o PSD, a não ser abstenções, rever a Constituição em matérias substantivas é virtualmente impossível. Eu não acompanho com muito detalhe a atividade da ministra no sentido prático, o que ela tem feito ou não tem feito, mas apesar de tudo, parece-me que ela, de alguma forma, foi desatando alguns nós que existiam na administração interna. Mas ao mesmo tempo que fazia isso como executiva, como pessoa que tem que comunicar, que tem que estar presente no espaço público, que tem que fazer política, ela tem faltado quase sempre à chamada, ou quando vai à chamada, quando vai ao oral, porta-se mal, engana-se, comete gafes. Em vários destes momentos de crise, de tensão, quando esperaríamos que ela falasse, ela ou fica em silêncio, ou quando fala, não lhe saem as coisas bem. Eu só quero fazer aqui uma comparação para as pessoas terem a noção de como é possível estar presente no espaço público e isso não representar um problema permanente. E vou dar o exemplo do novo procurador-geral da República. Nós tínhamos uma procuradora-geral que nunca falava, exceto quando fazia um discurso duas ou três vezes por ano, ou uma vez por ano, já nem sei quantas vezes era, e acho que deu uma entrevista, penso eu, em todos os anos que foi procuradora-geral da República.

Agora na fase final, ainda por cima a entrevista foi à RTP com o Vitor Gonçalves.

Exatamente, à RTP com o Vitor Gonçalves.

Já depois de muita pressão.

Todas as polêmicas. Nós temos agora um procurador-geral que intervém com frequência a propósito de casos da atualidade e sobretudo para dar indicações sobre o que o Ministério Público está a fazer e ao mesmo tempo enviar recados para dentro do próprio Ministério Público, que passam a ser públicos. Quando ele diz que há uma investigação com prioridade, quem a tem nas mãos não pode fingir que não trabalha, ou fingir que trabalha, quero dizer. Desse ponto de vista, há aqui uma espécie de dessintonia entre aquilo que me parece ser, apesar de tudo, uma atividade de gabinete da ministra que não tem corrido muito mal e uma atividade pública que tem corrido de forma, não digo catastrófica, mas digo muito desajeitada. E isto em política pode ser fatal para ela. Há políticos que às vezes são muito competentes nos gabinetes e um desastre no espaço público. E isso, regra geral, acaba por ser fatal para esses políticos, mas nem sempre é a melhor solução para as políticas que desejamos, porque às vezes eles são bons nos gabinetos. Também competiria ao governo encontrar fórmulas de compensar isto, que é claramente uma falha da ministra. Por exemplo, quando há situações em que ela se deve deslocar ao terreno, não a deixar ficar sentada no ministério, dizer: "Olha, menina, tens que estar de corda aos sapatos, tens que ir ali, tens que ir acolá, tens que aparecer." Há media training, há imensas coisas que podem ser feitas para melhorar esta prestação. Eu estou a ser, porventura, benévolo com o que se passa com as decisões estruturais do ministério. Não é uma área em que me sinta particularmente à vontade, mas daquilo que se foi conhecendo, em algumas coisas importantes, ela não resolveu mal. Tem comunicado catastroficamente, isso sem dúvida nenhuma. E o caso deste fim de semana, até o próprio comunicado é infeliz, porque em vez de dizer que os outros é que perceberam mal, devia assumir que ela é que se expressou mal.

Que nota é que vais dar, então, José Manuel? Vamos começar a atribuir notas.

Agora não devia ser eu primeiro.

Não, então vamos começar pela Sara, que abriu as hostilidades. Sara, a nota para a ministra.

José Manuel, o que é chumbo direto? É quatro?

É um quatro.

É pra mim que me enganei redondamente.

Um quatro pra Sara, em grande autocrítica. Bruno, a tua nota.

Vou ser um pouquinho mais generoso, vou dar um cinco à ministra.

Pensei que era comigo.

Não, a Sara não. Deixa-me só dizer uma coisa em relação a isso. Margarida Blasco pode ter sido uma ótima inspetora-geral. E isso, no momento em que foi nomeada para o Ministério da Administração Interna, claro, influenciar a nota, não acho que seja um erro. Uma coisa é dizer: "Vai ser uma excelente ministra da Administração Interna." Não te estou aqui a defender, Sara.

Ainda vais ao fundo da chamada, Sara.

Mas acho que é perfeitamente possível, pelo currículo de alguém, dizer que é uma boa escolha e depois essa pessoa, de facto, na prática, não se revelar assim uma escolha tão acertada, sem que isso faça com que a avaliação na altura estivesse errada. Seja como for, neste momento, eu acho que a avaliação da ministra é negativa. Pode melhorar, é verdade. Aliás, só pode melhorar. E eu acho que o Luís Montenegro está à espera que a ministra melhore mesmo muito, mas pra já acho que é uma nota negativa, é um cinco.

É um cinco para Margarida Blasco, um quatro para a Sara e agora, José Manuel, já pensaste na nota que vais dar?

Eu vou dar um Vou dar um 14 ao Halloween e ao Pão-por-Deus, ao Dia de Todos os Santos.

Não estava nada a contar com isso.

As crianças andaram por aí. Houve muita festa por todo lado. Eu próprio me cruzei com muitas.

É insegurança.

O Halloween, essa grande tradição secular portuguesa.

Sim, mas aquilo que achei graça foi encontrar crianças mascaradas de Halloween a pedir Pão-por-Deus. O Pão-por-Deus era uma belíssima tradição secular, tradição do Dia de Todos os Santos.

O Pão-por-Deus pede-se na manhã do dia 1 de novembro, o Halloween é à noite.

Dia 1 de novembro, o Halloween é à noite. Mas elas continuavam pintadas, continuavam com máscaras e andavam a bater, pelo menos aqui na minha zona, aos portões, a pedir rebuçados, chocolates e essas coisas assim, que muita gente tinha preparado para elas. E isto permitiu que tivéssemos um fim de semana em que, para além de uma polêmica que já vinha do final da semana passada, que era o presidente da Câmara de Loures, só sobrasse a ministra. Foi um fim de semana de alguma tranquilidade política e, portanto, viva o Halloween e o Pão-por-Deus, e assim escuso-me de dar uma nota que seria muito negativa.

Só uma nota, por falar em Halloween, nos elevadores lá do prédio, para os mais distraídos, encontrei no dia 31 este aviso: "Caros vizinhos, é só para informar que hoje, dia 31 de outubro, nós e umas amigas vamos fazer doces ou travessura no prédio. Portanto, agradecíamos muito que conseguissem comprar doces."

Isso não teve a ver com a tua filha, Paulo.

Não teve a ver com a minha filha. Portanto, basicamente isto é de facto pré-aviso, não venham cá dizer depois que não foram avisados que nós íamos aí buscar.

E, portanto, comprem doces, por favor. Vamos deslocar agora, Paulo, para um desabafo de Carlos Guimarães Pinto.

É um desabafo de Carlos Guimarães Pinto, da Iniciativa Liberal, deputado, ex-líder, que chega aos jornais. E o primeiro sintoma de que alguma coisa não está bem na Iniciativa Liberal é precisamente esse. Na Iniciativa Liberal ou em qualquer organização, quando começam a chegar mensagens trocadas nos grupos internos de WhatsApp aos jornais e a servir obviamente de arma de arremesso político, significa que alguma coisa ali não está bem. E esta chegou. Uma troca de mensagens de trabalho partilhada no grupo do núcleo local da IL do Porto, que chegou ao "Nascer do Sol", o "Expresso" já confirmou também a legitimidade dessa mensagem, e em que Carlos Guimarães Pinto internamente dizia que estava a fazer o seu trabalho parlamentar e sobretudo o trabalho relacionado com as redes sociais, com a edição de vídeos, que são um meio de comunicação muito eficaz hoje em dia, em termos políticos, como sabemos. Ele é claramente os mais eficazes também. Que ele estava a fazer esse trabalho sozinho, sem apoio de assessores, sem apoio de edição de vídeo da área da comunicação, que se notava a diferença da qualidade dos vídeos e ele por isso mesmo, porque ele obviamente não domina as ferramentas e o software pra edição de vídeo como dominam os especialistas nessa matéria, que se notava a diferença de edição para outros colegas de bancada, nomeadamente Bernardo Blanco. E o que dá a ideia aqui? Carlos Guimarães Pinto depois nunca leva a conversa pra isto, nunca se põe no papel de vítima, diz: "Olha, eu estou cá para colaborar enquanto partido quiser, mas queria só alertar para isso e para a necessidade de ter mais apoio." Basicamente, o que isto revela? Que se um partido, neste caso a Iniciativa Liberal, se dá ao luxo de desprezar, de pôr de lado, de alguma forma não aproveitar devidamente a capacidade-

Não sei se leste o artigo dele que saiu no "Observador" no fim de semana.

Sim, também, os recados internos que ele dá sobre isso.

São recados internos que ele dá sobre o próximo congresso.

Sem dúvida. E eu acho que Carlos Guimarães Pinto parece-me, até agora, por tudo aquilo que fez, pela forma como fez na Iniciativa Liberal, das pessoas mais desprendidas de poder. Ele foi líder do partido, foi ele que colocou de alguma maneira a IL no mapa e no mapa parlamentar, depois entregou sem qualquer problema a Cotrim de Figueiredo, que o fez passar para uma divisão superior logo, e de uma forma desprendida também. Quer dizer, não me parece que seja aquela pessoa que está ali à espera do cargo do partido. É aqueles que parece dar mais ao partido do que recebe do partido, e eu acho que estes avisos devem ser ouvidos. E depois há a capacidade de comunicação que ele próprio tem, o que é curioso para quem reconhecidamente tem um problema de dicção, tem alguma gaguez. Mas é dos mais eficazes. Carlos Guimarães Pinto consegue, de facto, dominar, controlar essa gaguez, se quisermos, e apesar disso, é dos mais eficazes a comunicar. Por quê? Pela forma como pensa e como consegue transmitir aquilo que pensa de uma forma muito esquemática, muito eloquente e muito eficaz para a mensagem que quer passar. E o que eu acho é que olhando para a Iniciativa Liberal, para o congresso que aí vem e para o trajeto do partido, eu acho que é muito cedo ainda para a Iniciativa Liberal, pela idade que tem, começar a ter tendências autofágicas, que, aliás, já se tinham notado com a disputa entre Rui Rocha e Carla Castro, que no fundo levou à liderança de Rui Rocha, por uma margem relativamente estreita, e pela forma como depois a nova liderança tratou Carla Castro, levando-a de alguma maneira a abandonar o partido ou pelo menos não fazendo nada para a segurar. E portanto, no fundo, acho que a IL tem que olhar muito para dentro de casa, tem que perceber que está mais em fase de unir do que dividir internamente, apesar de, de facto, haver aqui alguns tiques que nós víamos à extrema-esquerda há muitos anos. A extrema-esquerda não é toda igual e luta mais uma com a outra do que propriamente, houve ali uma altura em que lutavam mais as fações de extrema-esquerda umas com as outras, contra as outras, do que propriamente contra a direita, se quisermos, ou contra a centro-esquerda. E a IL pode transformar-se um pouco nisso, e já ocupa um espaço significativamente importante em termos ideológicos e em termos numéricos também no Parlamento para terem estas tendências autofágicas e para desprezarem o melhor talento que vão tendo na sua bancada. E Carlos Guimarães Pinto eu penso que é daqueles deputados que todas as bancadas, ideologia à parte, como é evidente, a sua capacidade de comunicar e a sua eficácia, todas as bancadas gostavam de ter.

Só falta a tua nota então, Paulo.

Olha, eu vou dar um sete aqui à espera de perceber como é que isto evolui, mas enfim, estes sinais não são positivos.

Só nos salvou, de facto, o Halloween e o Pão-por-Deus nesta segunda-feira.

Exato, graças a isso.

Até amanhã em mais um "E o Vencedor É".