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"O Vencedor" é na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador. Hoje com a Judite França, a Eunice Lourenço e o Vítor Matos. Hoje temos no menu as rentrées do PSD e PS, o movimento das mulheres conservadoras, os novos cartazes da Iniciativa Liberal, mas ainda há mais. Temos também o caso de Rui Cristina, o presidente da Câmara Municipal de Albufeira, acusado pelo Ministério Público de incitamento ao ódio. Mas vamos começar pelas-
O menu inclui tarte de amêndoa.
Exato, e também há uma tarte de amêndoa.
Já que falas em menu.
Na mesa do estúdio, quem nos puder ver em vídeo no YouTube poderá ver uma pequena, não vou dizer um alguidar, mas uma pequena taça com tarte de amêndoa para celebrar o meu reencontro com a Eunice Lourenço, que já lá vão uns anos que não estávamos juntos num estúdio.
É um gosto.
É, também partilho. Esta embaixada do Expresso, constituída pela Eunice Lourenço e pelo Vítor Matos, vem hoje à Rádio Observador. E se calhar, Vítor, começamos pelas reentradas políticas de PSD e PS. Foram rentrées ou rentreezinhas?
Dadas as circunstâncias, já que tu colocas a coisa assim, talvez sejam mais rentreezinhas do que rentrées.
Com dois S.
Não, já foi pior. A Eunice ainda teve a estudar isso, a relembrar algumas rentrées. Por exemplo, o PSD chegou a não deixar de fazer o pontual durante vários anos, dependendo dos líderes.
Ou o Marcial a pagar do seu bolso para que se fizesse.
Mas de qualquer maneira, eu acho que antes de mais, a valorização destes tempos primeiro tem que ser olhada como um comício de uma festa. Na política há um lado festivo de juntar as pessoas, de juntar os camaradas e os companheiros dos partidos para conviver. Acho que também é saudável e a parte da festa faz parte da democracia. E há aqui o lado comicieiro destas rentrées que tem que ser relevado e pensarmos que isto são comícios, que são festas e que temos que olhar para isto como um serrar de fileiras das tropas para aquilo que aí vem. Depois a partir daí fazermos a análise política, fazendo um pequeno desconto à realidade com o porco no espeto a rodar.
Era o festival de marisco, não era do porco no espeto.
Sim.
Era marisco. No PS acho que era festival de marisco.
Olhão.
Pois, exatamente. O Isaltino ainda vai para o PS com as suas ostras, que é a coisa mais barata que se pode comer, como ele dizia. Mas agora para a parte séria disto. Eu acho que, por um lado, o trabalho do líder da oposição é sempre mais fácil do que de um primeiro-ministro vender-se numa coisa destas. E é evidente que não podemos esperar que o primeiro-ministro vá fazer de líder da oposição por um comício de rentrée, evidentemente, que é para dizer bem daquilo que anda a fazer e o outro para dizer mal do que anda a fazer. Mas depois, se formos generalizar o que Luís Montenegro disse de bem sobre si, de mal sobre os outros, e depois comparar com o que disse José Luís Carneiro, eu diria que o primeiro-ministro vir queixar-se da comunicação social não deixa de ser um clássico dos primeiros-ministros, mas os termos em que ele se queixou acho que são novos. E ele ao dizer que há uma censura moderna, deveria dizer que ele está no caminho para dizer que todos os que dizem mal do governo é fake news. Ou seja, ou as notícias desfavoráveis para o governo, ou que não encaixam na narrativa do governo, expressa um caminho para uma certa trumpização da narrativa política, que não me parece que seja espetacular. É óbvio que omitiu o caso Neves, porque senão íamos esperar que fosse de outra maneira.
Para quem fala de censura, tem graça.
Sim, autocensura.
Autocensura.
Ficou fora do jogo e fora do calçadão de Quartela.
Exatamente. E depois, fez uns anúncios. O caso da REN não foi o anúncio, não foi ali, mas acho que é bastante relevante, e o dos passes, mas para fazer mais uma analogia com o cavaquismo, que ele também fez, pintou um oásis que na verdade não existe, porque também autocensurou a questão dos exames e a questão da saúde, que os indicadores são todos piores do que eram antes.
Montenegro deixou-se embalar pelo sunset.
É fácil deixar-se embalar ali pelo sunset, aquilo é muito bonito. Já lá estive, este ano não estive, mas ouvi alguns relatos de que não sei se pelo discurso ser longo ou desinteressante, havia pessoas a sair durante o discurso.
Os do Gaia foram antes ou depois?
Eu acho que foram depois.
Foram depois.
Se calhar também havia pessoas a entrar entretanto. Eu acho que Luís Montenegro terá frustrado um bocadinho as expectativas do seu próprio partido, que contava com um pontal, como tinha sido nos dois últimos anos, em que o primeiro-ministro levava anúncios e anúncios concretos. Há dois anos, os bons para os pensionistas, o ano passado, a Fórmula 1. E depois de um agosto que não foi de todo de pousio para o governo nem para o PSD, com os casos de Luís Neves e dos exames, havia alguma expectativa de sacudir um bocadinho essa pressão com algum anúncio. Eu acho que o anúncio da reentrada na REN não diz muito ao eleitorado, porque não é uma coisa que as pessoas sintam no imediato. Acho que além disso, Luís Montenegro tentou vendê-lo com algo que veremos se alguma vez se vai cumprir, que é um investimento que permitirá baixar o preço da eletricidade. Tenho dúvidas.
Veremos.
Veremos.
Se consegue a 14%.
Se consegue a 14%.
E já não é a primeira vez, já tem acontecido noutras ocasiões e em anteriores pontais. Luís Montenegro parece que às tantas navega não naquele magnífico mar algarvio, mas na maionese. Perde-se ali algures a meio do discurso e aquilo volta atrás e empastela um bocado. Acho que era bom que ambos, neste caso, fizessem discursos mais curtos, mais diretos. E depois acho que a comparação com o cavaquismo é tão absurda que soa a falso, porque Luís Montenegro faz uma comparação como se ele já tivesse obra comparável. E nem os tempos são comparáveis, nem o seu tempo de governo, nem a obra, nem a capacidade e as condições políticas que tem para fazer.
O Cavaco publicou o livro "As Reformas da Década" no fim da década. Não foi ao segundo ano de governo.
Não, e o Luís Montenegro está a antecipar que vai conseguir fazer uma década, o que é de facto uma questão de geometria no espaço, porque não me parece que seja muito fácil. Não me parece que seja nada fácil igualar uma década daquelas e também não me parece que seja nada fácil conseguir perspetivar tempos tão de oásis como na altura Cavaco Silva. Neste caso, Braga de Macedo estava-
Outras condições, com moeda própria, com fundos europeus a virem em catadupa.
Claro. Eu fiquei altamente desiludida com o discurso, devo dizer. Também não sei qual eram as ilusões que tinha, mas como vinha de férias, achei que ia encontrar outro discurso.
Eu também achei. Confesso que achei que ele ia ter algum anunciozinho um bocadinho mais certado.
Vocês são tão otimistas. Eu não tinha otimismo nenhum, não tinha nenhuma expectativa.
Não nos iludimos, o que me custa é a perda de oportunidade. Está ali uma oportunidade para fazer um brilharete e não fazer um brilharete, parece-me.
Mas nós já tínhamos estado a falar nisto. O Deicéu, eu e o inici.
Sim. Antes de virmos para aqui estivemos a gravar o podcast da Comissão Política de Imprensa e, portanto, vimos embalados.
Eu acho que isto traz qualquer coisa na manga, ou seja, alguma coisa que ele não disse, ele não disse é porque está a guardar os trunfos para não gastar já. Estamos em agosto, quer dizer, isto é para se render.
Eu acho que é porque ainda não tem os indicadores económicos que precisa.
Mas José Luís Carneiro também não brilhou.
Não, José Luís Carneiro também não brilhou. Deixa-me só acabar aqui o Luís Montenegro, temos tempo? É muito rápido. Porque não só desperdiçou uma oportunidade, como tentou enfiar um barrete a quem o estava a ouvir, chamando de pequenas coisas, quase de rodapé, os casos que envolvem os ministros da Educação e da Administração Interna. É de facto achar que as pessoas não estão minimamente atentas ao que se passa, e acho que isso é um grande erro da parte de Luís Montenegro, é achar que pode passar por cima das questões, não falando sobre elas e dizer que há uma grande maledicência. As pessoas falam é mal, quando deviam estar a falar bem. É preciso também explicar a Luís Montenegro o que é uma notícia.
Mas, de facto, a iliteracia pós-média é um grave problema em Portugal. É verdade. O governo já prometeu programas para melhorar a literacia pós-média.
E Carneiro?
Em relação a José Luís Carneiro, também muito rapidamente. Eu acho que José Luís Carneiro fez bem em escolher um tema ou dois, mas claro, omitiu mais uma vez, fez aquele silêncio, um silêncio muito eloquente em relação a Luís Neves, passando ao lado como tem feito. Brilhante Dias ainda fez as despesas, mais ou menos, da situação de Luís Neves não ser compatível com um silêncio, mas José Luís Carneiro não consegue. Disse que havia algo que afetava as funções nevrálgicas da segurança interna Mas isto é preciso ser muito puxadinho para se atuar.
Até podia estar a falar do SIS ou do SIRP, ou de serviços de informações de defesa.
E depois a questão do orçamento de Estado. Não faz exigências.
Mas isso aí é uma coisa que eu nessa aí tenho uma tese.
A tese da não exigência? Mas deixar tudo em aberto, que é para depois não-
Não, mas é que ele não deixa em aberto. Eu acho que aquilo é um discurso mal feito, ou então eu posso estar enganado. Quando ele diz que exige um orçamento competente, que responde às pessoas e sirva os interesses do país, se ele pede um orçamento competente e se ele viabilizar o orçamento, o primeiro-ministro vai lhe dizer: "Muito obrigado."
"Eu sou muito competente."
"Por considerar competente este orçamento." Se ele quer um orçamento competente e ao mesmo tempo discordar do governo, tem que votar contra. É a única hipótese com esta formulação. Eu acho que ele deve se ter enganado.
Ele depois vai dizer que se fosse mesmo competente, ele votava a favor, mas opta pela abstenção.
Mas nós somos estúpidos. Como é que dizia o outro treinador?
A única exigência que ele coloca para o orçamento, que é não ter nada de estrutural nas pensões, o governo já disse não sei quantas vezes que não vai haver reforma da Segurança Social esta legislatura. É mesmo daquele tipo de negócio que ofereces o que sabes que o outro vai aceitar.
Eu, Eunice, vamos às tuas notas.
A minha nota da rentrée vai para aquele que eu considero ser o vencedor da rentrée, que é o Luís Neves. Só que leva só um 10. Porque o Luís Neves está a conseguir que os casos que o assolam vão descendo de intensidade no espaço público, contando com uma ajuda bastante generosa de José Luís Carneiro, que prefere indignar-se com um dia ou dois de folgas do primeiro-ministro do que com as eventuais falhas éticas ou mesmo legais do ministro da Administração Interna, e portanto passou sem ser falado no pontal e passou também sem ser praticamente falado na rentrée do PS e irá fazendo o seu caminho até que venha setembro e seja chamado ao Parlamento.
Vítor, as tuas notas.
Eu vou dar 18 valores.
Uau!
Ena, que mãos largas.
A quem?
Cavaco Silva e António Guterres. Por terem filhos tão dedicados, que guardam a memória dos seus pais políticos de forma tão abnegada.
Muito bem. Judite.
Eu não tenho o mesmo nível de capacidade inventiva e, portanto, a minha nota é um oito para Montenegro e um oito para José Luís Carneiro, que já deviam saber que as rentrées políticas, e outros tempos assim foi, são para aproveitar, não são para desperdiçar.
É como as férias.
É como as férias, é para aproveitar.
Passamos agora para as mulheres conservadoras, o movimento das mulheres conservadoras. Então, Eunice, as conservadoras não têm direito a movimento?
Claro que têm direito a movimento, mas eu acho que é muito interessante olhar para este movimento, que nasce com a participação do Chega, nomeadamente a participação de Rita Matias e também de Teresa Nogueira Pinto. É interessante perceber como se juntam figuras do Chega e figuras do bolsonarismo e também figuras ligadas às igrejas evangélicas, sobretudo pentecostais, de origem brasileira, e o tipo de coisas que defendem, como por exemplo, que não seja possível fazer abortos em caso de violação. Eu acho interessante, e nós no Expresso da edição de sexta-feira contávamos e tínhamos os testemunhos de várias participantes no encontro, precisamente argumentando que têm direito a formar um movimento para defender aquilo em que acreditam. E acho ainda mais interessante do ponto de vista da presença do Chega e de como André Ventura vai conseguindo chegar a vários eleitorados e nomeadamente ao eleitorado conservador e evangélico, e ao eleitorado antiaborto, porque André Ventura nunca teve nenhuma posição pública de compromisso com reversão da lei do aborto.
Antes pelo contrário.
Muito pelo contrário, ele acha que não se deve voltar a essa questão. Ou melhor, ele tem tido posições públicas no sentido de não se voltar a essa discussão. Mas consegue com este movimento, por exemplo, ter personalidades do Chega e quem faça o trabalho por ele junto de eleitorados que defenderiam uma eventual reversão da lei do aborto, para além de outras posições conservadoras.
Vítor.
Sim, era um bocado nisto que a Eunice estava a dizer que eu queria pegar nesta parte final, porque isto é revelador de várias coisas em relação à realidade do Chega. Uma é a internacionalização e a franchisação do Chega na relação com partidos e movimentos similares de outros países, neste caso, do Brasil Depois, é uma forma inteligente de não pôr os homens a defender estas posições sobre as mulheres, mas sim as próprias mulheres. Isto enquadra-se numa certa tendência atual de reforço de um certo conservadorismo que também se nota muito em gerações mais jovens. E o Chega tem feito uma coisa nos últimos poucos anos, porque tem poucos anos de existência, que é ir abrindo caminho pra um certo discurso que não era politicamente correto, mas hoje em dia é politicamente correto dizer isto, que estava fora do mainstream. É uma forma inteligente de eles fazerem isto. Agora, o que eu acho mais perverso aqui, mas perversamente inteligente, é exatamente esta questão, que é: o André Ventura é contra a reversão da lei do aborto. Há uma campanha eleitoral em que o Paulo Núncio, do CDS defende uma reversão da lei do aborto, e ele diz: "Enquanto eu for líder do Chega, isso não vai acontecer. Eu não vou defender isso. Eu sei que há muita gente no meu partido que defende isto. Eu nunca ofereci." E é uma posição que ele tem, curiosamente. Ele é muito contraditório, não é a primeira vez que falo das posições dele.
E nem sempre coerente.
E nem sempre coerente. Mas isto é uma coisa que ele defende desde a faculdade.
Mas assim consegue, no fundo, falar para duas franjas do eleitorado.
Mas é isso.
É esse o jogo.
E, por outro lado, põe a Rita Matias mais uma vez como pivô, a segunda figura mais popular do Chega. E depois, essa via das igrejas evangélicas, que é uma área onde ele teve força e depois voltou a perder força, eu neste momento não sei o que é, mas é outro nicho de mercado que pode ser importante também para o Chega explorar.
Sim, é porque alguns dos fiéis dessas igrejas votam.
São eleitores, sejam portugueses, sejam brasileiros.
Sonia, queres deixar uma nota?
Deixo um 12 pra André Ventura, por achar que este movimento o pode beneficiar.
Já que falamos do Chega, Judite, também temos falado de Rui Cristina, o presidente da Câmara Municipal de Albufeira, que acaba por ser acusado pelo Ministério Público de discriminação e incitamento ao ódio, por causa de umas declarações que fez no âmbito da Assembleia Municipal de Albufeira em relação à comunidade cigana e à não atribuição de casas à comunidade cigana porque não pagam impostos. Muito resumidamente, foi isto que disse. Já veio dizer hoje que estava a ser pressionado para criar apenas casas para aquela comunidade e não para todos. Enfim, isto agora seguirá o seu curso. A pergunta aqui é: política e justiça estão misturados neste caso?
Sim, estão misturados, porque o Ministério Público decidiu avançar depois de uma queixa-crime de uma deputada municipal do PSD. Eu acho que as questões acabam por ser contraditórias, as declarações acabam por ser contraditórias, porque Rui Cristina disse essa frase, chegou a dizer: "Podem chamar-me xenófobo, podem chamar-me o que quiserem." E portanto, há ali uma escolha política assumida, que aliás, é a mesma do Chega. Não há grande diferença, porque se recordarmos a polêmica com os cartazes, em que dizia que os ciganos têm de cumprir a lei, o tribunal depois obrigou a tirar os cartazes e o André Ventura alterou aquilo para as minorias do costume têm de cumprir a lei. Eu não sei se Rui Cristina achava que a declaração passava despercebida por ter dito também uma etnia minoritária e não ter dito a etnia cigana, mas não passou. E eu acho que aqui o problema não é não saber escolher as palavras, é achar que um presidente da Câmara pode escolher quais são os cidadãos que merecem prioridade da Câmara em função da sua etnia. Aquilo que Rui Cristina diz é que estava a ser pressionado para fazer casas especificamente pra comunidade cigana. Bom, isso também está errado. A discriminação funciona pros dois lados, obviamente. Mas eu acho que a questão aqui é que dividir entre os que são merecedores e os outros é um discurso perigoso, acho que é um discurso em que o Chega cai muitas vezes. E se olharmos também para o portfólio de Rui Cristina, Rui Cristina tem vários casos que o têm envolvido e, portanto, foi eleito pra combater o sistema, como dizia, e hoje tem que explicar uma sucessão de nomeações e de contratos que envolvem familiares, candidatos, militantes, pessoas próximas da sua campanha. É um rol já longo e, portanto, eu acho que Rui Cristina pode, eventualmente, como dizia há pouco o Saragoça da Mata, isto pode ficar pela instrução e não ir a julgamento. Mas a verdade é que estas declarações eu acho que não devem cair impunes e, portanto, acho bem que o Ministério Público tenha avançado.
Vitor, concordas?
Olha, eu tenho uma posição aqui difícil. Acho que estas declarações são... O Estado, ou quem quer que seja, não pode distinguir as pessoas pela etnia. E agora
Pode distinguir alguém por ser branco, amarelo, preto, azul. As pessoas não têm culpa de nascer como nasceram, os que são do norte, os que são do sul. Acho que isso é básico, acho que toda gente percebe porque os cidadãos são todos iguais perante a lei. E ele tem outra frase ainda lá naquela que é: "Eu não vou gostar da etnia cigana enquanto tenho aqui os albufeirenses com necessidade de casa, mas os ciganos são albufeirenses, ou mesmo se não são albufeirenses, são portugueses." E o Chega fez o cartaz a dizer: "Os ciganos têm que cumprir a lei", mas podia haver um cartaz ao lado a dizer: "O Chega tem que cumprir a lei." Já agora, mais importante do que a lei, há coisas que não estão na lei, nem precisam de estar na lei, que são valores que eu tenho pra mim, que são cada vez menos universais, aliás, está na Declaração Universal dos Direitos do Homem, que as pessoas são todas iguais, independentemente da etnia, nascimento, gênero. Agora, eu acho que isto é em tudo censurável do ponto de vista político e dos valores e tudo isso. O Rui Cristina passou a vida dele toda no PPD, no PSD, portanto dessa altura deve ter escondido muito bem aquilo que pensava e achava das coisas, ou então-
Ou então converteu-se
...converteu-se, de repente, viu a luz.
Ou então encontrou no Chega uma forma de chegar a cargos que no PSD não estava a conseguir.
Chama-se isso vender a alma ao diabo, mas eu não queria chegar tão longe. Agora, eu também, por outro lado, tenho aqui um mixed feeling de, por exemplo, o Ministério Público fazer uma acusação sobre isto. Eu tenho algumas dúvidas.
Eu tenho muitas dúvidas sobre esta judicialização do combate político.
Eu percebo-vos, mas acho que a alternativa é pior.
Eunice, as tuas dúvidas.
As minhas dúvidas têm a ver com isso, com fazer cais. A imunidade parlamentar, que não se aplica nos autarcas, nasce precisamente para que os políticos possam falar livremente no combate político. E convém que a gente saiba o que o Rui Cristina defende como presidente de câmara. Se isso é discurso de ódio, não tenho conhecimentos de direito para perceber e ainda antes desta hora tiveram aqui um debate mais qualificado sobre isso no Explicador. Mas seja Rui Cristina ter um processo por umas declarações que ainda por cima eu acho que são um bocadinho dúbias e ele consegue corrigir agora nas justificações que está a dar, como deu aqui ao Observador, tal como Nuno Melo processar André Ventura pelo que o Ventura disse sobre a compra das fragatas. Isto é combate político, não pode ser demasiado judicializado.
É usar os tribunais.
Mas isso da fragata é combate político. Isto eu não sei se é combate político.
É uma queixa do PSD.
Certo, é aquilo que dá origem.
A questão é: então, a minha dúvida aqui é: o debate político fica onde? Ou seja, quando um adversário político diz uma enormidade, o que for, que está no seu direito de dizer, onde é que fica o contraditório do adversário político? Onde é que fica a demonstração de que aquilo que a pessoa A disse é um erro, é um crime, o que for, quando a reação é: "Por favor, calem este senhor" ou "condenem este senhor"?
A questão é a de pôr luz sobre uma questão que não é eminentemente apenas uma declaração polêmica, porque objetivamente estigmatiza uma comunidade.
Mas é uma declaração política.
É uma declaração política, mas pior.
Houve- Houve depois política pública que tenha correspondido às declarações proferidas?
Não sabemos, mas depois destas declarações, acredito que vamos saber.
Mas acho que, por outro lado, eu tenho realmente dificuldade em, às vezes, uma pessoa ter que ter opinião sobre tudo.
Certo, então não.
Pode ter dúvidas sobre as opiniões.
Empatizo muito contigo.
Não somos Macacá.
Todos temos dúvidas. Tenho muitas vezes incertezas e já tive muitas dúvidas. Ou tenho muitas certezas sobre as minhas dúvidas. Que é: isto do ponto de vista dos valores e daquilo que eu considero correto, eu acho que é um discurso de ódio. Se isso é crime, é outra coisa.
Mas está tipificado que o discurso de ódio é crime.
Ok, claro. Criminalizar isto eu já tenho-- eu prefiro que o Rui Cristina diga isto pra eu saber que ele pensa isto, do que ele não dizer e depois fazer por portas travessas, por mecanismos mais administrativos. Agora, há outra coisa que é perversa nisto, e agora já tendo mais pro outro lado: ele não diz isto, por que ele não esconde isto e não evita que as pessoas de etnia cigana tenham as casas? Não, porque ele quer dizer isto, porque o Chega vive disto, acha que isto é popular
Aí é que já é uma coisa que é preocupante, que é esse discurso de herói.
E depois também não sei até que ponto isto não ajuda a uma certa vitimização.
Claro. Sim, é verdade.
Isto é o sistema a tentar travar. Vamos a notas que ainda temos que ir aos cartazes da Iniciativa Liberal.
Se não formos, também não faz mal.
Vamos.
Eu ao Rui Cristina dou-lhe um quatro.
Quatro.
Eu também dou quatro ao Rui Cristina.
E tu, Eunice?
Acho que o Rui Cristina.
Eu tenho aquela...
Tu tens de dar uma nota positiva.
A escola Pedro Benevides é muito difícil de seguir.
Tu entraste nesse caminho, olha agora.
Eu dou um 13 ao João Miguel Tavares por um artigo que ele escreveu no "Público" sobre o recurso dos políticos aos tribunais.
Ok, pronto, fica dado o 13.
Está bem visto.
E ainda queres ir aos novos cartazes da Iniciativa Liberal, achas que são pouco arrojados?
Eu nem sei bem o que diga. Eu confesso que tenho uma certa dificuldade em perceber a Iniciativa Liberal, porque acho que é um partido que se calhar já atingiu o seu ponto alto e anda para aqui a arrastar-se. E o facto de Mariana Leitão agora estar em cartazes um bocadinho por todo lado, é uma grande mudança estratégica da própria Iniciativa Liberal, que só tinha cartazes personalizados em momentos eleitorais. De resto, a grande marca dos cartazes da Iniciativa Liberal eram cartazes criativos e poucos, colocados em sítios estratégicos. Agora, isto é um reconhecimento claro da falta de notoriedade da presidente da Iniciativa Liberal. E, por outro lado, como assinalávamos na Gente do Expresso, essa secção.
Instituição.
Essa instituição.
Incrível.
Ela consegue...
O Expresso, por favor, pague um subsídio de representação.
Se tivesse aqui o Benevides fazia .
Exatamente.
Ela consegue estar nos cartazes com a farda dos funcionários de uma empresa de mediação mobiliária que também tem os cartazes exatamente de blusa branca e casaco bege.
É porque funciona.
Pronto, deve ser. E ela quer passar uma imagem de gestora dinâmica. Está muito fotogénica no cartaz.
Parece uma consultora.
Sim, aliás, uma das inovações que ela trouxe logo na primeira campanha que fez foi ser acompanhada, e o que eu acho bem, de cabeleireira e maquilhadora.
Se calhar outros políticos deviam seguir o mesmo...
Sim. Mas ela não se consegue fazer conhecida, de facto.
Os partidos têm o direito e até o dever de mudar de estratégia quando entendem que a estratégia não está a resultar. Acho que é positivo ter essa flexibilidade. E depois é uma coisa interessante na Iniciativa Liberal, porque eles apostaram muito na marca. A marca Iniciativa Liberal era a marca, que era exatamente esses cartazes. Agora viraram-se para o produto. Passaram da marca para o produto e agora estão a vender o produto e não apenas a marca. O que também parece uma conjugação de mix de marketing bastante interessante, que é vender a marca por um lado e por outro o produto, porque o produto não está a funcionar. As pessoas não sabem o que é o produto e o que vem no pacote. Eu acho bastante interessante, porque eles perceberam que não conseguem dar o salto. Só que as presidenciais foram fundamentais nisso, porque o produto, que foi às presidenciais, conseguiu um resultado muito melhor que a marca. E eles tiveram que refazer todo o seu plano de marketing para conseguir vender melhor.
O produto que foi às presidenciais foi o único líder da Iniciativa Liberal que teve, de facto, notoriedade.
Ora aí está. E daí eu perceber que isso faça sentido. Agora, se os cartazes são melhores ou piores, eu não sei.
Tu gostas.
Eu acho um bocado... Se nós formos analisar.
Quando vais na estrada, Vitor, e vês o cartaz.
Eu digo assim: "Pronto." Mas não fico mais do que quando via as coisas que achava piada. "Olha, isto tem piada." Não é porque uma pessoa vai correr votar num partido por achar aquilo engraçado. Ou a mulher é bonita ou interessante.
E eu imagino muito brainstorming de marketing e de marketeers para fazerem isto. Para fazerem esta alteração radical àquilo que é a Iniciativa Liberal, à irreverência da Iniciativa Liberal, que tem desaparecido, tem se diluído, e eu acho que os cartazes são um símbolo disso mesmo, dessa dissolução da irreverência. Às vezes o único irreverente nas redes sociais é o Rui Rocha, a fazer aqueles vídeos. De resto, a Iniciativa Liberal...
Continuam todos ativos. Rui Rocha, Cotrim.
Todos os ex.
Sim, isso continuam ativos, é um facto. Mas esta questão da irreverência, da novidade e das redes sociais tem se perdido, tem se desvanecido na Iniciativa Liberal.
Vamos às notas para os cartazes da Iniciativa Liberal.
Mas atenção, eu acho que os cartazes da Iniciativa Liberal cumprem a função.
O cartaz é um bom cartaz.
O cartaz é um bom cartaz. Não é um cartaz da Iniciativa Liberal, mas não estaríamos a falar disto se fosse um cartaz do PS. É um igual a todos os outros.
Então as notas.
Eu dou um 10.
A quem?
Ao cartaz, ao próprio cartaz.
Vitor, tens uma nota?
Este rebranding.
Rebranding não é atuário.
Eu vou dar um 12 ao rebranding.
Um 12.
Pronto, eu dou um 11 ao rebranding ou à alteração de marca, porque acho que perceber que há algo que não está a resultar e mudar caminho é sempre salutar e de dar o benefício da dúvida. E ainda por cima tenho aqui um dirigente da Iniciativa Liberal a enviar-me em direto números segundo os quais Mariana Leitão tem mais notoriedade do que o Rui Tavares, que foi durante bastante mais tempo líder do Livre.
Mas não tem cartazes de blazer branco.
Se o ponto de medição é esse. É uma medição como outra qualquer. Também é líder de um partido que vale menos do que ele.
Temos de ir embora. Amanhã há mais "E o Vencedor é?", nas manhãs 360, com o Paulo Ferreira, a Helena Matos e o Rui Pedro Antunes.