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Este é o Som do Juventude das manhãs 360. Nos próximos minutos damos notas aos principais protagonistas da atualidade e para isso hoje junta-se a nós e ao José Manuel Fernandes, a Alexandra Machado. Esta manhã vamos ao apagão informático e aos pobres do país, mas começamos com a natalidade, porque, José Manuel, estão a nascer menos bebês, ficamos hoje a saber. Isso é motivo de preocupação?

Claro que é motivo de preocupação. Não é de surpresa, mas é de preocupação. Atenção, estamos a falar de números que não são os números definitivos, estamos a falar dos números que habitualmente conhecemos por esta altura, porque são os números do chamado teste do pezinho, que é um teste genético para antecipar um tipo de doença, mas que é feito praticamente a todas as crianças que nascem em Portugal. É difícil escapar a este teste. Portanto, aqui a variação é menos 430 crianças recém-nascidos do que o ano passado. O INE, curiosamente, tem um número ligeiramente pior, apontaria para cerca de 930. Não sei quem é que está com razão, mas há dois dados que eu queria destacar, ou três. Primeiro, este número não tem grande valor estatístico, se for apenas este. Estamos a falar de uma variação na casa de entre 1% ou 2%, não é por que o gato vai às filhós. Agora, se nós olharmos para outra estatística que muitas vezes escondemos, ou melhor, não olhamos para ela, que é a estatística que diferencia os nados vivos de mães residentes em Portugal, dos nados vivos de mães que não têm nacionalidade portuguesa, que não nasceram em Portugal, ou são imigrantes ou, coisa que ainda não conseguimos saber, podem fazer parte daquele contingente de mães que vêm ter os filhos a Portugal e depois até nem ficam cá. Sabemos que isso acontece, não sabemos a dimensão desse fenómeno. Eu acho que devíamos saber, devia haver uma preocupação para saber isso. Mas olhando apenas para as mães que nasceram em Portugal, o que aconteceu nos últimos 12 anos, nem estou a usar os números deste ano, porque os números deste ano, nesse aspeto, não são conhecidos, só serão conhecidos no final do ano, é que tivemos uma descida de mais de 20 mil nascimentos. Em 2011 eram 86 mil, em 2023 são 67 mil. E há uma alteração muito substantiva no equilíbrio entre filhos de mães nascidas em Portugal e filhos de mães não nascidas em Portugal. Eram 10% em 2018, em 2023 são 22%. Mais do que duplicou no espaço de apenas seis anos. Isto tem a ver, naturalmente, com o fenómeno da imigração, pode ter a ver com o fenómeno do turismo ginecológico ou obstetrício, como quiser chamar, mas independentemente desse lado do fenómeno, temos o outro lado, que é: nunca como em 2023 e provavelmente em 2024, tivemos tão poucas mães nascidas em Portugal a ter filhos. É um número arrepiantemente baixo, nem nos tempos piores da crise de há 10 anos, 12 anos, isto aconteceu. Continua a haver esta tendência. Isto tem a ver com um aspeto que é puramente demográfico. O contingente de mulheres em idade de ter filhos está a diminuir, não há nada a fazer, são menos. A probabilidade de terem filhos é menor, mas também o número de filhos. Não há contas feitas só este contingente separando das não nascidas em Portugal, mas parece haver uma indicação também aqui que há uma diminuição do número de filhos por mãe.

Sim, e a idade do primeiro filho é cada vez mais tardia também, já anda ali à volta dos 30, 31 anos.

Sim, já passou os 30 anos.

Já passou os 30 anos, quanto mais tarde se tem o primeiro, já mais dificilmente se vai ao segundo ou sobretudo ao terceiro.

Se vai ao segundo e por aí adiante. O que eu queria chamar a atenção é: uma parte destes dados, eu olhei para eles e disse: se calhar, o facto de termos nas estatísticas dos pobres, que também vamos falar no "O Vencedor", mas que eu guardo para o "Contra-Corrente". Mais crianças pode ter a ver com estes filhos de mães não nascidas em Portugal, que hoje são muito mais numerosos do que eram no passado e proporcionalmente muito mais numerosos. Nós temos 10% da população portuguesa são imigrantes e temos 22% dos nascimentos que são, de alguma forma, filhos de estrangeiros. Eu não gosto muito de usar o nome estrangeiros, mas pessoas que não nasceram em Portugal. Há aqui uma diferença que pode também ajudar a explicar os índices de pobreza dos mais novos. Mas independentemente disso, o que isto torna evidentíssimo é que nós não temos uma política de natalidade séria.

Nem séria, nem a brincar, José Manuel.

Nem séria, nem a brincar. E uma das coisas que está no plano de erradicação da pobreza e que supostamente também devia ajudar a natalidade, que é a generalização das creches, está no plano 2021, está no plano 2023, e não aconteceu ainda. As creches gratuitas ainda não aconteceram. É mais um dos falhanços de políticas públicas que enfrentamos, mas há muitos outros. E isto, extraordinariamente, está quase em pausente do debate público. E o debate público está transferido para outros temas e nos últimos tempos, enjoativamente.

Um tema único.

Vamos discutir um tema único. Estes números são uns números muito preocupantes, não há aqui nenhum sinal positivo. Eu vou dar um cinco

Um cinco para estes números da baixa natalidade. O que é que nos revelam, Paulo?

É uma bomba-relógio. Basicamente, nós olhamos para estes números, que são altamente preocupantes, como o Zé Manuel explicou, e são uma bomba-relógio a vários níveis. Antes de mais, para a Segurança Social, representam aqui um problema que já é visível naquilo que é a formação das nossas pensões.

Sobretudo as pensões futuras.

Das pensões futuras, absolutamente.

Vão ser muito penalizadas.

E isto pega a pobreza. Por quê? Porque a natalidade hoje, basicamente, é potencial pobreza dos pensionistas do futuro. Já começam a estar pobres. Nós já começamos a ter várias realidades, que é: salários baixos fazem com que o fato de se ter um emprego a tempo inteiro não impeça muita gente de ser pobre. Portanto, há empregados pobres e de estar em risco de pobreza. E começa a acontecer cada vez mais a mesma coisa com os chamados idosos, com os pensionistas, isto é, o fato de se ter uma pensão de reforma, para a qual se descontou a vida toda, não impede também que as pessoas quando cheguem à reforma, passem a ser pobres. Por quê? Porque menos pessoas a nascer, são menos pessoas a trabalhar, tem impacto a médio prazo nas pensões que nós vamos receber. A taxa de substituição é a percentagem da pensão face ao último ordenado. Isto é, há um momento em que nós deixamos de ganhar o último ordenado, que é o último mês em que trabalhamos, e no mês seguinte somos reformados pensionistas quando entramos na reforma. É a diferença entre um e outro. A taxa de substituição já anda abaixo dos 80%. Isto é, quando alguém em Portugal passa para a reforma, por cada 100 € de ordenado que tinha, passa a receber 80. E numa fase da vida em que já não há grandes possibilidades da pessoa, de alguma forma, conseguir outro tipo de rendimentos. E numa fase da vida em que também há muitos custos que aumentam de alguma maneira, nomeadamente com a saúde, medicamentos e por aí fora. E isto vai se agravar, mas toda a gente existe. A Comissão Europeia tem n estudos sobre isto.

Quando se vai agravar, é agravar muito.

Não, agravar muito é cair pra casa de 50, 40%.

Exatamente.

Isto é, um corte de metade para metade do rendimento da pessoa de um mês para o outro. Obviamente que isto já começa a fazer de uma forma silenciosa e vai fazer ainda mais pobres no futuro. A Comissão Europeia tem vários estudos sobre isto nos últimos anos. O Banco de Portugal tem vários estudos sobre isto nos últimos anos. A Fundação Francisco Manuel dos Santos também. Portanto, o assunto está mais que estudado, as contas estão feitas. Agora, isto é uma bomba-relógio silenciosa, é daqueles assuntos em que os dirigentes políticos não se vão meter, não vão fazer nada, vão evitar até ele arrebentar. Como aconteceu com a dívida. Isso aconteceu com a dívida há 12 anos. Andámos a adiar, andámos a fazer mais dívida.

É aquela ideia de que vai arrebentar um dia.

Vai arrebentar nas mãos de alguém que não seja nas minhas. Exatamente. Até que um dia arrebenta mesmo, e quando arrebenta, arrebenta nas mãos de alguém. E a mesma coisa vai acontecer aqui com a Segurança Social e com as pensões, que decorrem, obviamente, do problema da natalidade, para o qual não há política pública. Também já percebemos que não temos nenhuma política pública de imigração. Quer dizer, não há de integração e de tratar estas pessoas bem para que elas contribuam mais. E, portanto, vamos aqui andando neste adiar permanentemente de temas. Segurança Social ou a natalidade, lembram-se de termos discutido isso numa campanha eleitoral que tivemos há pouco mais de meio ano? Não se discutiu, não é assunto que está na agenda.

O Zé Manuel dá um cinco.

Não tenho memória.

Dá um cinco, tu dás quatro.

Eu acompanho o cinco do Zé Manuel por esta nossa forma perversa de não lidar com os assuntos.

E isto cola completamente com os dados que ficamos hoje a saber sobre a pobreza.

Sim, estão de fato ligados, porque uma maior taxa de pobreza significa, em muitos casos, as pessoas não terem filhos ou decidirem não ter filhos. Existe essa preocupação em não ser capaz de ganhar o suficiente, de sustentar uma família. Portanto, existe uma ligação entre uma menor natalidade e a taxa de pobreza e depois a menor natalidade significará no futuro, de fato, também uma economia menos pujante, mais custos com a Segurança Social e torna-se insustentável. As duas coisas estão ligadas e estes números, para mim, a questão central, que deveria ser a questão central do país já há muito tempo, é a questão da natalidade. E é incompreensível que não esteja no centro do debate.

Até porque os efeitos de qualquer política são muito a prazo. Isto é, não há um interruptor mágico. Que estão em vigor hoje e o problema resolve-se aqui três ou quatro anos. Há 20, 30 anos.

E outras questões que são levantadas e que são referidas aqui nestes dados da Pordata, como por exemplo, o custo da habitação. Claro que tem influência nas escolhas que nós fazemos, nós individualmente, mas que depois se refletem em toda a sociedade. Estes números são muito preocupantes. A taxa de risco de pobreza aumentou pela primeira vez em sete anos, de 16,4 para 17%. Crianças e jovens são o grupo que estão em maior risco, em que a taxa de risco mais se agravou. Lá está, como nas famílias com crianças dependentes. Um em cada 10 trabalhadores, o Zé Manuel já falou há pouco na apresentação do Contracorrente, é pobre, ou seja, o fato de se ter um trabalho, de se ter um salário, não significa que se consiga sair do risco de pobreza. E uma outra questão, que liga todas estas questões, que é o conforto térmico das casas. Portugal é o país da União Europeia que tem os piores resultados, tem o maior número de agregados sem capacidade para manter a casa adequadamente aquecida. Isto é grave, sobretudo quando olhamos para os custos com a habitação, que são dos mais elevados da Europa. Por exemplo, em Portugal Mais de um em cada quatro inquilinos gasta pelo menos 40% do seu rendimento com os custos da renda da casa, da água, da luz e de gás, enquanto que na União Europeia, em média, apenas um quinto dos inquilinos tem esta sobrecarga financeira. E há outro dado relativamente-

Mesmo para concluir.

Sim, que é muito preocupante em relação à habitação. O preço das casas aumentou nos últimos anos 105%, enquanto os salários cresceram apenas 35%. Ou seja, há uma grande pressão sobre as famílias com os custos daquilo que é essencial, que é a habitação e todos os custos a ela associados, não conseguem fazer face a esses custos que aumentaram bastante. E ao mesmo tempo, temos esta questão: mesmo assim, com estes custos da habitação, não conseguem as famílias ter as casas adequadamente aquecidas. Também isto tem a ver com o mito do nosso clima.

De que temos muito bom tempo.

É ameno e não precisa. Então, tudo isto é muito preocupante e de fato os dois temas estão ligados. É um diagnóstico. A cura terá de ser discutida, devia ser discutida permanentemente pelos responsáveis políticos, por toda a sociedade. A nota é negativa, é um seis.

É um seis para estes dados que ficámos hoje a saber. Alexandra, agora mudando muito de tema para o apagão informático do Estado, uma semana já, isto ainda não está recuperado. Ainda faltam explicações.

Muitas. Curiosamente, este apagão aconteceu de propósito no dia em que o país estava preso à apresentação do Orçamento de Estado. Foi dia 10 de outubro. Nós jornalistas, se puder fazer um mea-culpa, estava completamente distraída com o Orçamento de Estado. Estávamos todos presos no caminho do Terreiro do Paço à Assembleia da República de Miranda Sarmento.

As linhas vermelhas.

Com um envelope com uma pen. Estávamos muito ocupados a ver esse percurso, a ver se cumpria as regras de trânsito, com certeza. Mas estava a acontecer nessa altura, um ataque grave, informático, à Agência para a Modernização Administrativa, a AMA, uma sigla que poderá não dizer muito a muita gente, mas é basicamente a agência do Estado que tem a responsabilidade, nomeadamente pela chave móvel digital, que é, como o próprio nome indica, uma chave que permite o acesso a uma série de serviços do Estado e não só, há bancos em que se consegue entrar com a chave móvel digital. E isto estava a acontecer há sete dias. Repito, há sete dias que isto aconteceu e que continuam ainda alguns serviços embaixo. E por isso, isto só já chegaria para chegar aqui ao Vencedor como perdedora, mas não é pela demora da reposição dos serviços que eu gostaria de falar do assunto, é pela gestão de comunicação do governo, neste caso. E o PSD, que se mostrou tão empenhado na procura de respostas quando no ano passado houve um ataque à Segurança Social, podia agora insistir também com os seus ministros para que dessem respostas. Ontem, o ministro da Presidência, Leitão Amaro, no Parlamento, que teve poucas perguntas sobre o assunto, mas ontem no Parlamento foi dizendo que isto é uma questão de reserva, é uma questão que está a ser investigada pela Polícia Judiciária, que não podem dar muitos elementos. Mas enfim, há elementos que têm verdadeiramente de ser dados e respostas que têm de ser dadas. O governo, aliás, já teve que fazer um contrato de 200 mil € com uma empresa de informática para evitar novo ataque. Isto é um bocadinho assustador. E para tomar conta da vulnerabilidade dos sistemas. Mas precisamos de saber que vulnerabilidades é que são essas, de quem foi a responsabilidade, de quem é a responsabilidade. A ministra para a Modernização Administrativa, Margarida Balseiro Lopes, que tão prontamente foi para o Twitter responder às perguntas dos jovens sobre as medidas para a juventude, nomeadamente as borlas em IMT e Imposto de Selo, poderia agora também vir para o Twitter responder, ou para o Twitter, ou pelo menos às perguntas que são feitas, poderia responder sobre estas questões, nomeadamente se as demissões que houve nestes organismos do Estado tiveram alguma coisa a ver com estes ataques, se houve alguns contratos de manutenção que cessaram. É verdade que são suposições, porque não há respostas.

E também muito importante, é que ninguém dá uma indicação aos cidadãos o que nós devemos fazer. Não é?

Exato.

Devemos mudar passwords, não devemos mudar passwords, devemos não utilizar estes serviços agora durante-

Para já não consegues utilizar os serviços sequer e, acima de tudo, a AMA isso tem dito, que é não respondam a e-mails a pedir-

Claro, aquela indicação genérica.

Aquelas indicações genéricas. Porque em cima destes ataques, há sempre depois as consequências de phishings e de pessoas que se servem para aceder a dados dos cidadãos. Mas que dados nossos andam por aí? Também não sabemos.

E há o problema da Autoridade Tributária também, não é?

Que alegadamente é um caso à parte.

Também aí não há informação.

Também aí não há informação. Só se diz que quem teve os acessos comprometidos vai ter que colocar nova password, mas há muito poucas respostas sobre isso e nomeadamente que dados é que andam por aí e que segurança é que nós temos de que os nossos dados estão seguros. Já agora, o governo critica tanto o jornalismo ofegante e intranquilo e que preferirá que os jornalistas não façam perguntas. Não considera que sete dias já é tempo suficiente para dar alguma tranquilidade sobre este assunto e algumas respostas? Fica a questão.

Fica a dica.

Fica a dica. Aliás, como a Alexandra disse, nesse dia do apagão, os jornalistas estavam ofegantes com o percurso do carro do ministro das Finanças e não com o apagão. Até foi útil.

Exato. Eu pessoalmente estava mais ofegante com as 400 páginas.

Que tiveste que ler. A tua nota vai para quem, Alexandra?

A minha nota, e é um sete por causa dos sete dias que já decorreram, vai para a comunicação do governo nas pessoas, tem que ser, de Margarida Balseiro Lopes e Leitão Amaro.

Fica este sete. Hoje só há perdedores, veremos amanhã. Até amanhã.