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E o vencedor é na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube do Observador. Hoje com a Judite França, o António Costa e o Nuno Gonçalo Poças. Eu sou o Ricardo Conceição e hoje temos um menu farto, como dizia há instantes Judite França e como sempre, com razão. Hoje arrancam as reuniões com os partidos sobre a proposta de orçamento do Estado para 2027. O líder do PS quer viabilizar o documento, mas está a ver se não se nota. Também vamos falar da política de habitação e do fato de em Lisboa se terem cortado 8300 alojamentos locais, mas o preço das casas continua a subir. Também temos de falar sobre o desafio do presidente da Confederação de Turismo para se retomar a discussão em torno das reformas laborais. E ainda vamos ao Dia Mundial do Jornalismo, que hoje se assinala. Mas começamos pelo caso das gémeas, no dia em que foi conhecida a acusação do Ministério Público. Nuno Gonçalo Poças, esta acusação surpreende de alguma forma?
Não posso dizer e ainda bem que me fazes essa pergunta.
Podes.
Não posso, não.
Hoje é o Dia Mundial do Jornalismo, por isso não me podes dizer isso.
Está bem. A pergunta é se me surpreende?
Sim, se alguma coisa te surpreende.
Eu já não sou surpreendido por muita coisa.
Já não és um menino.
Já não sou nenhum menino.
Podes fazer o disclaimer que não leste a acusação.
Não, claro, não li a acusação. Portanto, aquilo que eu sei é mais ou menos aquilo que quase toda a gente sabe, que são as coisas que se foram sabendo na altura a propósito da-
Eu também ainda não li
...da comissão de inquérito. Eu diria que este caso é mais um de muitos que pode ter mais ou menos os mesmos contornos neste sentido. Independentemente do fato de se apurar se há ali natureza criminal ou não, acho que ficou mais ou menos evidente para o país inteiro que houve ali pelo menos um problema ético. E esse politicamente teve os seus efeitos e as suas consequências. E em bom rigor, e também porque hoje é o Dia do Jornalismo, mas eu como tenho outra profissão e, portanto, também tenho o dever-
Ainda bem
...de não falar sobre coisas que não conheço, no caso a acusação, vou dizer que estou muito expectante pra saber onde é que isto vai acabar.
António?
Pois bem, o dever do jornalismo também nos obriga a não falarmos, apesar do que diz aqui o Nuno, nós também temos a responsabilidade de não falar daquilo que não sabemos.
É verdade.
Mas tenho mais folga.
Só para que fique claro.
Não, temos menos folga.
É justo o contrário.
Menos folga.
Menos folga. Mas dito isto, eu quero retirar aqui uma avaliação política, porque é inquestionável que o Chega saia disto podendo dizer: "Ainda bem que houve escrutínio". Porque nós não temos contrafactual, mas é legítima a interrogação sobre se haveria esta acusação sem o escrutínio político que foi feito. E isso diz-nos alguma coisa sobre a importância das comissões de inquérito. Ontem via com atenção.
Com particular agrado?
Não.
Com atenção.
Com atenção, como vejo o princípio da incerteza, e estavam a discutir as comissões de inquérito. E a Alexandra Leitão, como sabe, foi deputada do PS à data desta comissão de inquérito. Partilhava ontem, de facto, uma pontaria política e o resultado disto não põe necessariamente em causa o que a ex-deputada disse. Mas dizia-se, eu não me recordo bem, não quero ser impreciso, mas quase enojada com o que via da comissão de inquérito às gémeas. Estava no seu gabinete e via pelo canal Parlamento, imagino, ou pelo circuito interno, a sucessão de auditorias, de depoimentos, e nós recordamo-nos que houve alguns bastante duros e desconfortáveis para quem estava a ver. Obviamente, muito para quem tinha que-
Para os intervenientes
...para os intervenientes e para quem ia lá prestar declarações. Dizer que não punha necessariamente em causa este desfecho, este passo seguinte, o que Alexandra Leitão dizia. Mas a verdade é que com mais ou menos agressividade, com mais ou menos desconforto, podemo-nos questionar sobre algumas das pessoas que foram chamadas e os termos em que foram usados. A verdade é que a mãe das gémeas também está metida nesta acusação, para lá, obviamente, das pessoas que dizem mais respeito com o tema da prevaricação.
Com burla.
Só por causa das cadeiras de rodas.
Por causa das cadeiras.
Sim, e no caso da prevaricação com o Nuno Rebelo de Sousa, que tem estatuto próprio. E não é irrelevante para o que foi o desfecho disto, Rebelo de Sousa, no meio disto. Mas Rebelo de Sousa tem estatuto próprio e responsabilidade própria, o secretário de Estado, nomeadamente da Saúde. Ora, nós chegamos à conclusão e é muito difícil de nos levarmos a seguir a avaliação que o próprio André Ventura já fez hoje, que é: querem agora continuar a dizer o mesmo sobre a comissão de inquérito à Luís Neves? E a resposta não é óbvia. Por quê?
É.
Ou é. E eu estou à vontade porque tenho defendido a relevância dessa comissão de inquérito, mesmo com os cuidados e a salvaguarda de ser uma polícia judiciária que, na verdade, está em causa. Cumpriu-se um papel. E eu acho que, para quem diz tão mal das comissões de inquérito, e às tantas passaram de uma coisa muito interessante quando era para avaliar o grande capital, nós lembramos, e bem, das comissões de inquérito à BPN e ao BES, nomeadamente. E parece que não são tão defendidas noutro contexto. E afinal, ela cumpriu o papel. E eu acho que isso é importante porque dignifica o instituto da comissão de inquérito.
Justo.
É isso. O meu comentário era apenas e só esse, o facto da comissão ter sido útil, nomeadamente, acredito, para o trabalho da Justiça. E, portanto, acho que, de facto, claro que André Ventura fez o salto para Luís Neves, porque é isso que lhe interessa, mas tendo em conta que sai, e eu acho que sai vencedor desta acusação, porque de facto, enfim, não são as pessoas, nem todas-
Deixa-me só acrescentar, exato, porque apesar de tudo, também é preciso dizê-lo. André Ventura assentou esta acusação e a comissão de inquérito em Marcelo Rebelo de Sousa. E Marcelo Rebelo de Sousa não é chamado a esta acusação, sai salvaguardado. Mas cumpriu o seu papel. Isto é, cumpriu o papel e a polícia e a Justiça também cumpriram o seu papel.
Escolherem a salvo, na altura, também cumpriu o seu papel, porque ajudou a que o final de mandato de Marcelo Rebelo de Sousa fosse como se viu. E portanto, eu acho que, de facto, usando esta como exemplo, dizer que a de Luís Neves é importante, temos que lhe dar razão.
Deixa-me só dizer mais uma coisa, porque este caso é particularmente interessante por uma razão. Eu acho que também foi por isso que houve tanta celeuma à volta da história, que é o facto de ser uma situação dramática de uma mãe que tem duas filhas muito doentes, com problema muito complicado e eu acho que ninguém é insensível a isso.
Claro.
Mas se retirarmos isso do caso, ou seja, se estivéssemos a falar exatamente os mesmos passos, mas para outra coisa qualquer, para pôr um filho no ensino superior, por exemplo, como já aconteceu há 20 e tal anos. Se calhar as dúvidas eram bastante menores e, portanto, não falo do ponto de vista criminal, mas do ponto de vista ético, de quem exerce cargos públicos, é só isso que está em causa. E eu acho que não era preciso tanta discussão para perceber isso.
Queres dar uma nota?
Não tinha pensado nisso, mas eu vou dar um 14 a André Ventura.
Nuno, tens alguma nota? Não?
Eu ia dar um 13, mas pelas razões, embora, de facto, este é mais um passo. Também é preciso salvaguardar que agora há a acusação do Ministério Público, é preciso ter prova em tribunal.
Claro, agora até que haja julgamento.
Toda a discussão, mais discussão, julgamento.
E ficamos. E deixamos a pergunta no ar: será que caso análogo poderá repetir-se no futuro neste paraíso à beira-mar plantado?
Vá, nestes termos, eu vou te dizer, isto tem às vezes suas virtudes. Nestes termos, com estes contornos, independentemente da prova que vier a ser produzida em tribunal, acho difícil que venha a repetir-se, porque, desde logo, por uma razão que é fácil de perceber. Os intervenientes passados, mesmo que tenham a convicção de que não cometeram crimes, terão provavelmente a convicção também de que fizeram coisas em que facilitaram, em que concederam, em que facilitaram, em que fizeram contactos a mais. Eu lembro-me de António Lacerda Sales responsabilizar as secretárias sobre o que aconteceu, sobre os contactos. Não é propriamente credível, embora eu, obviamente, também em consciência tenha que dizer: "Não sei, não tenho provas para ir mais longe que isto." Não é credível, mas eu diria que num caso qualquer semelhante, eu creio que os protagonistas que vierem a ser postos perante esta questão, vão provavelmente lembrar-se deste caso e terem o cuidado suficiente de seguirem as regras, independentemente, como eu volto a dizer, de saber se houve aqui crime ou não, veremos.
E tu, António, ainda queres falar sobre o presidente da Confederação do Turismo, que quer retomar a discussão sobre as mudanças laborais.
Eu acho que é uma proposta interessante, porque Freitas Calheiros está de saída da Confederação do Turismo de Portugal. Eu creio que dois mandatos, de modo geral.
Mas ela está há algum tempo.
Sim, dois ou três mandatos. Está de saída, há eleições dentro de um par de meses.
Estão todos a mudar os seus parceiros sociais.
É, mas faz parte da renovação. Eu também acho que como noutras, eu até acho que nas confederações não há limites de mandato. Não tenho a certeza no caso da Confederação do Turismo, mas acho que virá a ver como noutras instituições. Mas relança um tema que eu acho que é interessante, isto é, aquilo foi tudo muito mal conduzido. Toda a proposta de revisão da lei laboral foi politicamente mal conduzida, provavelmente abrindo frentes de discussão tão amplas. Aliás, lembro-me da ministra dizer que isto mudava 200 artigos, mais de 200 artigos, quando, na verdade, o que é preciso é olhar para a meia dúzia de artigos que é preciso mesmo ultrapassar ou mudar, numa lógica de concessão, necessariamente, porque é uma negociação
Nomeadamente em sede de concertação e depois em sede política, embora é bom recortar a proposta de revisão de que todos aqueles artigos caiu em sede parlamentar. Não tinha passado em sede de concertação social, mas caiu em sede parlamentar. Olhar para o que é mesmo necessário mudar e tentar ir por, eu diria, neste contexto, passos pequenos, poucos passos, mas passos que permitam mudar alguma coisa. Eu acho que, apesar de tudo, isto vir de uma confederação que sabe, por natureza, que tem que negociar com o outro lado, nomeadamente com a UGT e com a CGTP, pode criar o espaço para se voltar a discutir lei laboral, sem ser uma iniciativa protagonizada pelo governo, com as consequências que isso tem do ponto de vista político e da dificuldade. Portanto, eu dou um 14 a Francisco Galheiro pela proposta de não deixar cair o tema, porque os problemas estruturais do mercado de trabalho não desapareceram, apesar da revisão da lei laboral ter caído.
Nuno?
Eu sou capaz de arriscar que o governo é capaz de voltar a esta questão se precisar de ter qualquer coisa para abanar um certo tipo de eleitorado quando estiver mais próximo de eleições, ou imaginar que lá chegará, para alcançar a maioria absoluta tão desejada.
Gonçalo Matias estima que em 2029...
Eu também estimo o Gonçalo Matias.
Vamos poder ouvi-lo depois deste set.
Não estimo é a maioria absoluta.
Mas não estimas a própria da maioria absoluta ou a previsão do Gonçalo Matias sobre a maioria absoluta?
Não, eu não chateio maiorias absolutas.
É a previsão.
Não estimo é a previsão. Mas acho que tal como já aconteceu na primeira vez, acho que aquilo, no fundo, é uma espécie de espantalho que serve para abanar, dizer: "Nós estamos a tentar fazer coisas."
Espero que sirva para mais alguma coisa do que isso, porque normalmente isso não dá bons resultados.
Se calhar estou a ser um bocado cínico com isto, mas a experiência não abona a favor.
Admito que venha a ser esse o valor implícito no desencantar outra vez desta matéria. Eu espero que não seja, porque isso, regra geral, leva a uma...
Mas o governo vai ter que polarizar a determinada altura. Os sindicatos são sempre uma boa forma de arranjar-
Não ajuda a economia, não ajuda as empresas, não é útil. Acho que não é útil. Aliás, como se provou nesta discussão, há quem diga que se perdeu, eu acho que não se perdeu, mas investiu um ano de discussões e acabou por se morrer com tantos artigos para mudar.
Acredito na boa vontade de boa parte do Conselho de Ministros relativamente a isso, mas continuo sem achar que o primeiro-ministro tenha, de facto, algum interesse nesse tipo de coisas, ajudar a sociedade.
Ainda há tempo para visar um plano de comunicação sobre essa matéria. Arrancaram as reuniões com os partidos sobre a proposta do Orçamento do Estado para 2027 e o líder do PS, Judite, quer viabilizar o documento, mas não quer que se note. É isso?
Sim.
Quer viabilizar baixinho?
Baixinho. Sussurrando. Eu acho que é por isso que pôs a condição a Luís Montenegro, obrigando-o a jurar em público e pela própria boca, que não faz a revisão constitucional sem o PS e que não toca nos limites materiais da Constituição. Não serve a palavra de Hugo Soares, tem de ser a de Luís Montenegro. E até aqui o PS, eu acho que parecia ter encontrado a forma perfeita, que era viabilizar o orçamento em nome da democracia e não em nome do governo. Portanto, era uma espécie de abstenção com certificado constitucional. Foi então que apareceu Sebastião Bugalho, porta-voz e vice-presidente do PSD, a fazer contas, dizendo que a revisão constitucional exige uma comissão, negociação, e depois uma leitura norma a norma, e que isto demora tudo, no mínimo, 10 a 12 meses. Portanto, se começar no início de 2027, atravessa a discussão do Orçamento do Estado de 2028, conclusão rápida de Sebastião Bugalho, se o PS leva a sério o compromisso que pediu, tem de garantir estabilidade até ao fim da revisão, ou seja, tem de viabilizar dois Orçamentos do Estado. Fez-me lembrar aquela jogada das empresas de telecomunicações que vendem telemóveis. Tu entras lá para pedir um aparelho e sais com fidelização de dois anos.
Exato.
Nem sabes como. Bom, é evidente que o PS percebeu o truque e já respondeu a dizer que o compromisso vale só por um ciclo orçamental e que não passa cheques em branco ao governo, como é óbvio.
Mas, na verdade, a Constituição não é assim tão relevante. Eu acho é que tentaram inventar uma solução para deixar passar sem problema e de repente confrontaram-se com uma coisa que os próprios deveriam ter avaliado, é que de facto uma revisão constitucional não se faz em três meses.
Sim.
E, portanto, dizem: "Mas isso então não." Então, em que é que ficamos?
Mas elas não têm que ser concomitantes. Uma pode estar combinada e acontece à "long", e digamos que o pressuposto é um orçamento. Ela não tem que ser concomitante com o próximo Orçamento do Estado.
Mas não faz sentido ligar uma à outra.
Pois, esse é o problema.
Não acho razoável. Vamos lá ver. A revisão constitucional é uma matéria de regime, deve ser discutida, cada partido vai apresentar as suas propostas O que o PS quer é: o PSD e a AD só se podem sentar à mesa a negociar com o PS. A revisão constitucional tem que, obrigatoriamente, envolver apenas uma parte dos eleitores. Todos menos aqueles que votaram no Chega. E depois quer trocar isso, que é de regime, por um orçamento. Não garantindo o segundo. E parece-me razoável que o PSD diga: "Então, mas se isto for para um lado, o período de negociação do orçamento, como é que fica o segundo?" O PSD também, no limite, pode dizer: "Se ficamos só por um, aprovam-nos só este e nós vamos começar a discutir. E depois de 2027 pra 2028, vocês não aprovam o orçamento e também não há revisão constitucional e nós viramo-nos para o Chega." Mas isto faz algum sentido, andar a negociar neste processo?
Sim, nada disso faz sentido. Ligar uma coisa à outra não faz sentido, mas de facto, José Luís Carneiro queria uma razão para poder abster-se no Orçamento do Estado. Queria uma razão pública.
A razão é defender a estabilidade política e dizer: "Eu disto." Olha, António José Seguro fez com, foi António José Seguro, não é? A abstenção recente. Pronto, era a mesma coisa. Agora até tem a cobertura de Belém para dizer isto e está tudo certo e toda a gente vai gostar. Não percebo. Meteu-se num problema que agora tem que recuar, que é: "Não, afinal a revisão constitucional não é suficiente."
Vamos ouvir o nosso estratega em revisões constitucionais.
Como eu gosto de assuntos importantes.
Tu quando eras pequenino brincavas às revisões constitucionais, não era?
Não.
Não?
Por acaso tive um devaneio no primeiro ano de Direito, quando nós tínhamos Direito Constitucional e disse que era para fazer uma constituição.
Lá está!
Fiz uma com nove ou 10 artigos, uma coisa assim. E depois percebi que mais ninguém tinha feito isso.
À americana, exato.
Mas eu era um garoto, tinha 16 anitos, sabia lá eu. Eu gosto deste tipo de assuntos importantes. Há coisa de uma semana e meia, conheci um senhor chamado José Chora, que tem uma coisa chamada Paellas Aficion, que é um paelleiro incrível, que faz daquelas coisas, vai a eventos e faz uns carangueiros incríveis. Isso pra mim é um assunto importante. Este não, porque eu estou um bocado farto destes jogos de sombras, porque já toda a gente percebeu que o PS vai aprovar o orçamento. Já há dois meses que toda a gente sabe. Muito provavelmente o 2028 também, a não ser que aconteçam imprevistos, e alguma coisa pode acontecer aqui pelo meio que possa acelerar calendários, mas à partida, se tudo se mantiver mais ou menos na paz do Senhor.
Tudo passa.
Está tudo bem. E na verdade, é preciso acenar com umas coisas, para não parecer que estamos aqui a fazer umas pirraças, ou que estamos de má fé, e que temos convicções muito fortes. Aquilo a que tudo isto cheira, e com os resultados das últimas sondagens, é que se está mais óbvio. Não sei, se calhar sou eu que estou a dizer aquelas coisas antes do tempo.
Tu hoje estás desanimado.
É segunda-feira.
Não estou a senti-lo.
Aquilo que eu vejo mais ou menos no horizonte.
É uma segunda-feira pardacente.
A projetar-se é do tempo. É uma espécie de bloco central em que, no fundo, estamos todos a treinar para isso.
Judite, queres concluir?
Não, cheguei à conclusão.
Não queres concluir?
Quero dar um oito a José Luís Carneiro.
António.
Por ter metido nesta alhada.
José Luís Carneiro vai ter que inventar outra coisa qualquer, que eu acho que é mais simples, de facto, e que os portugueses percebem. Ninguém quer eleições, as sondagens dizem que ninguém quer eleições, apesar de não gostarem muito deste governo e haver taxas de reprovação. Se calhar o Marcelo tem razão, ninguém se revê nestes líderes porque ninguém quer votar nestes líderes que existem. Eu dou um nove a José Luís Carneiro, porque acho que no final do dia acabará por encontrar uma solução para viabilizar o orçamento. Este, já não digo o próximo, como aliás fica claro da rejeição em se comprometer com dois orçamentos.
Queres alguma nota para a paelha?
Eu dou um 19 ao senhor José Chora, da Paellas Aficion, e provavelmente também a André Ventura, que no final das contas com isto tudo será provavelmente quem mais vai ganhar.
Olha, vamos saltar aqui.
Vamos saltar o arrendamento urbano?
Se conseguir sair em 30 segundos.
Em 30 segundos?
Só pra passar a palavra aqui ao Nuno sobre as casas.
Pensei que querias falar sobre a paelha.
Como tu sabes falar ao meu coração.
Só para contextualizar muito rápido. Isto foi ontem em Cabeceiras de Basto, numas festas de São Miguel.
Bem boas essas festas.
Entre farturas e fogo de artifício.
Um grande abraço para Cabeceiras de Basto.
José Luís Carneiro atirou foguetes, apanhou as canas, fez 30 por uma linha e disse coisas como: "O novo regime de arrendamento urbano vai avançar à margem da Assembleia da República", estou a citar.
Com autorização legislativa.
Espera, não me estragues a história.
Desculpa.
Disse que o que está em causa é a liberalização do desalojamento e que as medidas são desumanas.
Desalojamento?
Desalojamento.
Ele disse desalojamento.
É o sanxismo.
Por isso é que eu citei, está tudo entre aspas. Primeiro, a questão da margem. O diploma que o governo quer aprovar é uma proposta de autorização legislativa, mas vai a votos quarta-feira, em plenário. A assembleia vota, a oposição pode discutir, pode propor alterações, etc. Atenção: com a autorização legislativa, o Parlamento aprova o sentido e a extensão da reforma e o pormenor fica para o decreto-lei do governo. Mas isso tem remédio e em julho foi o deputado André Moz Caldas que avisou que uma apreciação parlamentar nunca poderá deixar de estar em cima da mesa. O PS sabe onde é que fica a porta da Assembleia, escusava de ter feito este número. Segunda desumanidade: desde julho, no dia em que o Conselho de Ministros aprovou a reforma, o mesmo Moz Caldas disse: "A simplificação do procedimento do despejo, quando o despejo é efetivamente devido, é positiva." E ainda acrescentou: "A morosidade dos processos é um problema real para os senhorios." Em dois meses e meio, o que era positivo passou a desumano e ou a reforma pirou muito durante o verão, ou o PS mudou de ideias. Isto só para dizer mais uma coisa em relação à questão Mari Carmen, porque José Luís Carneiro aproveitou isso como uma espécie de bengala.
Isso é que é mau.
É mau, é tudo mau. Eu acho que é tudo mau. Porque, de facto, primeiro atribuiu a liberalização das rendas ao governo espanhol. O PP não governa a Espanha há oito anos. E pior, a regra que ditou o despejo, que é a questão dos contratos antigos de pais para filhos, vem da lei do arrendamento de 94, que era de Felipe González. Em relação aos socialistas, estamos esclarecidos. E depois a outra questão é esta de falar como se os despejos acontecessem exatamente igual aqui em Portugal. As pessoas com mais de 65 anos e com uma deficiência superior a 50% estão absolutamente defendidas como estão até agora. É evidente que há várias coisas com que José Luís Carneiro se lia.
Desde que não mexam com contratos.
Sim, desde que as próprias pessoas não queiram mexer nos contratos. Os senhorios podem pedir até três rendas adiantadas, isto é uma alteração, e a caução deixa de ter limite. José Luís Carneiro podia ter falado isto, que era verdade, mas decidiu escolher outros casos. E eu acho que, de facto, José Luís Carneiro, que não tem tido este tipo de atitude, fez um grande favor ao governo, porque depois daquilo que ele disse, eu vou dar ao governo um 14.
Um 14. Ainda quero ir ao Dia Mundial do Jornalismo, percebo que estou a acelerar. Queres dizer aí qualquer coisa sobre casas de alojamento local?
Qualquer coisa.
Menos 8 mil e quantas?
8300, se faz favor.
8300. E o preço das casas não baixou.
Sim, isto na verdade tudo se conjuga.
Não foram para o mercado, provavelmente não foram para o mercado.
A questão resta saber porquê. Porque eram casas que estavam prontas a habitar, tinham condições para receber turistas.
Os senhorios não querem.
Pois.
Porque não querem arrendar, se calhar por causa disto. Porque depois há incumprimentos e vêm-se aflitos para recuperar as casas.
A conversa da habitação deixa-me sempre um bocado tenso, porque é uma prática habitual, não fazer prestação de contas de políticas públicas e não fazer avaliação de resultados. Nós andámos aqui uma série de anos mais ou menos entretidos entre: "Os vistos gold." Mas os vistos gold já representavam uma percentagem muito pequenina das transações. "Não interessa, mas temos que acabar com os vistos." Acabamos com os vistos, parece que as casas não baixaram. "Mas temos que congelar os tetos", aquelas coisas todas, não se alterou, nalguns casos ainda se reduziu, os preços das casas não baixaram. "É o alojamento local. O alojamento local é que estava aqui a atrapalhar isto tudo." E de repente temos uma redução de 40% do alojamento local em Lisboa e imagine-se, os preços das casas também não baixaram, os preços das rendas.
É curioso que as pessoas não queiram ir morar para uma daquelas casinhas de boneca no castelo.
Mas foi isso que andaram a dizer. O alojamento local é que estava aqui a dar cabo disto tudo. E pessoas que tinham recuperado casas onde já ninguém queria viver e onde já não se vivia há não sei quantos anos, era de facto o que estava aqui a atrapalhar toda a política pública e o acesso das pessoas às casas. Mesmo a questão dos preços que continuam a não baixar, que aumentam mais gradualmente. Cada vez que se fala da redução dos preços, nós estamos a falar da redução da taxa a que crescem, mas os preços aumentam na mesma. E continuamos mais ou menos, eu acho que o governo tem acertado alguns tiros no porta-aviões, mas continuamos a discutir isto tudo ao lado. E continuamos sem falar de solos, sem falar de impostos também e sem falar de transportes, por exemplo. O Estado arrecada entre IMT e IMI mais de 3500 mil milhões de euros. E nós precisámos do PRR para construir umas casas. Continuamos com um déficit brutal de 40 mil casas por ano e a população a aumentar. José Luís Carneiro está de parabéns. Se quer importar este debate todo de Espanha e sobretudo importar a conversa de Pedro Sánchez, boa sorte.
António, temos cinco segundos para o nosso tema favorito, o Dia Mundial do Jornalismo.
Parabéns!
Obrigado. Até amanhã.
Obrigada também.
António Vaques.
Só para terminar, 10 segundos, só para dizer que acho que estamos melhor do que o que se diz. Eu não alinho nesta tese de que está tudo uma miséria, é tudo muito mau, é tudo uma pobreza e estamos todos de mão estendida. Eu acho que se fazem coisas más como noutros setores, como se fazem coisas boas. Acho que obviamente temos dificuldades, como têm outros setores, o têxtil, o calçado, as telecomunicações, que se têm que debater com os WhatsApps da vida e com os streamings e a pirataria. Nós temos os nossos problemas. Apesar disso, eu creio que o setor demonstra mais vitalidade do que aquela que se vai dizendo. E eu quero sublinhar que, apesar de tudo, este dia é um dia, muito rapidamente, não é um dia da ONU, é um dia que nasceu de um meio privado no Canadá.
Não é um dia oficial.
É oficial no sentido de é coincidido com outros dias da ONU sobre acesso à informação.
Tens de fechar a tua declaração de amor ao jornalismo.
Não, a declaração de amor à profissão é que eu acho que neste mundo de informação e desinformação, nós temos mesmo um papel. E este dia até celebra muito, e este ano em particular, os factos. Eu acho que o jornalismo português tem desempenhado esse papel, pode desempenhar, pode continuar a desempenhar, eu não alinho neste coro de muro das lamentações, mas numa capacidade de ultrapassarmos as dificuldades que existem, mas de fazermos o que continuamos a fazer.
Obrigado, António. Acho que estou contigo nessa. E amanhã há mais "O Investidor".