Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

E o Venceré a partir do Pavilhão do Casal Vistoso, onde nos últimos minutos estivemos também a acompanhar na Rádio Observador a intervenção de Mariana Mortágua. Vamos analisar esse discurso de despedida da ainda coordenadora do Bloco de Esquerda. Miguel Pinheiro, esta mensagem de que a esquerda, o Bloco, aliás, não só a esquerda, mas o Bloco em especial, tem que mudar praticamente tudo. Mudar a liderança chega para mudar praticamente tudo?

Pois, de facto, Mariana Mortágua usou essa frase, mas eu não consigo entender porque é preciso mudar alguma coisa, porque todo o discurso foi de elogio. Nós já não ouvíamos Mariana Mortágua há algum tempo, porque ela esteve discreta nesta fase, depois de anunciar a sua saída, e fez-me lembrar aqueles momentos em que nós reencontramos alguém que não vemos há muito tempo e a primeira coisa que dizemos é: "Está igual!" Já nos aconteceu a todos. E Mariana Mortágua está igual, está com o lenço palestiniano, fez questão de trazer o keffiyeh para a convenção e todo o primeiro terço do discurso, eu ia dizer metade, mas se calhar a mim é que me pareceu demasiado longo, acontece às vezes, foi a falar sobre a flotilha. Aliás, a primeira frase é: "Quero agradecer-vos o apoio à flotilha", depois esteve longamente a explicar porque a flotilha afinal foi incrível, porque ela não se arrepende de um único dia passado na flotilha, como ela mesmo estando longe percebeu que o partido estava fervilhante. Estava fervilhante, o partido estava tão fervilhante que nas autárquicas foi o que se viu. Foi o fervilhar do partido. E por isso, não saio daqui com uma ideia clara do que tem de mudar. Só destacar mais duas coisas. Mariana Mortágua disse claramente uma coisa que muitas vezes é escondida por dirigentes do Bloco. Eu lembro-me sempre de uma entrevista que Adriana Martins deu ao Observador em que disse que o Bloco tinha um programa social-democrata. Aqui Mariana Mortágua informa-nos: somos anticapitalistas, portanto, o Bloco é anticapitalista, presumo que com todas as consequências que isso tem. E depois só um último ponto, que me parece uma contradição, porque Mariana Mortágua vem agora apresentar uma nova tese. Enfim, o Bloco teve algumas causas e foi criticado por se esquecer dos trabalhadores. E agora Mariana Mortágua tenta misturar as causas umas com as outras, mas sai dali uma contradição. Por exemplo, ela diz-nos que quando a oligarquia ataca os imigrantes, o verdadeiro alvo é outro, é toda a classe trabalhadora. Então os ataques aos imigrantes não tinham como base o racismo? Afinal é um ataque de classe. Já não é uma questão de racismo, é classe? Os imigrantes são atacados por serem trabalhadores, por serem os trabalhadores mais fracos, o que está em causa é atacar a classe trabalhadora? Então afinal estamos perante o quê? Racismo ou classismo ou luta de classes? Porque Mariana Mortágua ao mesmo tempo tenta lançar esta mudança para uma nova linguagem do Bloco, que é do regresso à luta de classes. Por isso, este discurso foi um misto de confusão com reafirmação orgulhosa de tudo aquilo que fez. Realmente, Mariana Mortágua, ao contrário do que diz, acha que não cometeu nenhum erro. E por isso, voltando à tua pergunta, que é o mais importante, ela não explicou por que é preciso mudar quase tudo.

Miguel Santos Carrapatooso, faltou aqui um ato de contrição maior de Mariana Mortágua na hora da despedida? Foi um apontar demasiado para o combate à extrema-direita?

Pois, é essa a sensação com que ficamos quando ouvimos Mariana Mortágua, porque se é verdade que diz que o Bloco tem de mudar tudo ou quase tudo, ao mesmo tempo ouvimos Mariana Mortágua a dizer que tudo foi bem feito e que foram eles, repetiu várias vezes o "eles", eles oprimiram-nos, eles atacaram-nos, eles perseguiram-nos. Não ficamos exatamente a saber quem são eles, possivelmente os eleitores que não deram grande confiança ao Bloco de Esquerda e reduziram o Bloco de Esquerda a um deputado. Se calhar eles são o povo que não viu com particular bons olhos o programa político e as ideias do Bloco. E esse ato de contrição, de facto, não existiu. A Mariana Mortágua começa por dizer que sai sem qualquer ressentimento, eu não duvido, não cabe a mim duvidar disso, mas sai claramente em negação. Isso parece evidente ouvindo-a começar um discurso desta importância, falando da flotilha e acabando a dizer que o Bloco, afinal, tem de estar no terreno, porque é no terreno que se criam as raízes e as fundações do partido. Andou muito longe do terreno e o terreno é o país, o país Portugal, e Mariana Mortágua, quando o Bloco mais precisou dela, estava muito longe do terreno, estava em mar alto. E portanto, como o Miguel Pinheiro dizia, há aqui uma série de contradições que não se resolvem com Mariana Mortágua. Acho que é evidente que era a entrada da convenção em que também disse que a esquerda tinha de pensar, mas que o problema era o avanço da extrema-direita e a esquerda tinha de pensar, mas pensar em quê e como?

Diz até que cometeu erros, mas não foram determinantes.

E perante a insistência dos jornalistas, mas tem de mudar o quê? Não foi capaz de dizer à entrada da convenção, no discurso também não o disse e portanto eu acho que O ciclo de Mariana Mortágua terminou, a página está voltada e um novo senhor segue, José Manuel Pureza. E é ele que tem de resolver esta questão. O Bloco percebe que falhou ao longo dos últimos anos, e eu recordo que esta crise dos resultados eleitorais não começou com Mariana Mortágua, começou com Catarina Martins.

Que está agora noutra luta.

Que está agora numa luta e ontem deu um belíssimo espetáculo na televisão, mas foi com Catarina Martins que o Bloco de Esquerda, por duas vezes, nas legislativas e nas europeias, ficou abaixo dos 5%, e nas presidenciais para lá caminha. E, portanto, ou o Bloco quer ser esse Bloco, de Catarina Martins e de Mariana Mortágua, com os resultados que poderá ter, é uma decisão do Bloco, ou quer ser outra coisa, e caberá a José Manuel Pureza definir esse rumo. Não me parece, neste momento-

Já vamos explorar José Manuel Pureza. Miguel Pinheiro, é essencial esta mudança de líder ou a entrada de José Manuel Pureza para limpar a mensagem do Bloco de Esquerda?

Olha, nós ainda só ouvimos José Manuel Pureza aqui à entrada da convenção e ele não quis, de maneira nenhuma, aparecer como ligeiramente crítico sequer da anterior liderança, ou da futura anterior liderança, de Mariana Mortágua. Há aqui duas grandes linhas e ambas passam por diálogo, falar com a militância, e por isso vai ser criado um novo órgão de apoio à liderança e que faça a ligação mais direta com as estruturas do partido.

Era uma das queixas feita a esta direção administrativa centralizadora.

Atenção, mas eu recordo que o Jorge Costa saiu da direção do partido precisamente para fazer esse trabalho, se bem me lembro, para fazer esse trabalho junto das bases e de reconstrução do partido. Portanto, não é propriamente como se não houvesse ninguém. Havia alguém e havia um dos principais dirigentes ideólogos do Bloco que saiu precisamente para fazer esse trabalho. O que aconteceu? O que correu mal? Bem, mas agora vão criar um novo cargo. Tudo muito bem, mas José Manuel Pureza fala desse diálogo com a militância e depois fala do diálogo à esquerda. O diálogo com as outras forças de esquerda, com quem aí estiver e com quem se possa falar. Mas quando os jornalistas lhe perguntam: "Então, mas portanto, isso é uma mudança, quer dizer que esse diálogo não existiu." Ele é incapaz de reconhecer que não existiu esse diálogo. E por isso, mais uma vez, se tudo está bem, por que vão mudar? Há um problema com o Bloco que o distingue de todos os outros partidos, exceto, claro, o PCP, que é: o Bloco tem sido uma longa continuidade. Ou seja, é o mesmo grupo das mesmas pessoas que pensam da mesma maneira, que tem comandado o partido praticamente desde o início. No início, o partido conseguiu ultrapassar grandes divergências históricas e juntou três correntes, mais uma da extrema-esquerda, que se odiavam, e conseguiu fazer isso. E tu poderias antecipar que ia ser um partido permanentemente partido nessas três partes, mais uma, mas eles conseguiram, de facto, criar uma unidade, especialmente a partir de dada altura, numa convenção célebre em que houve um 50-50. E, portanto, tu tens um contínuo de liderança, de facto. Enquanto, por exemplo, no PSD, quando vem um novo líder, é um líder que tem realmente ideias diferentes do anterior e critica-o brutalmente. E o mesmo no Partido Socialista e o mesmo no CDS. E por isso há uma renovação das ideias dos partidos, e os partidos têm a capacidade de começar de novo e de realmente trazer novas ideias e novas atitudes. No Bloco, não, porque são sempre as mesmas pessoas. Mesmo José Manuel Pureza, é a mesma linha, exatamente. E por isso é que José Manuel Pureza tem esta dificuldade. Quando no Bloco dizem: "Nós não assacamos responsabilidades individuais a fracassos", eles têm razão. Eles têm razão, porque, de facto, a culpa não é só de Mariana Mortágua, porque é uma massa que pensa toda da mesma maneira. E por isso, substituições-

Num momento em que a maior facção opositora interna nem sequer está representada, a questão da convergência que se dissolveu com Pedro Soares.

Isso não existe. E isso tira a capacidade de renovação ao partido, porque o partido realmente não incentiva, na verdade, não incentiva a diversidade. E José Manuel Pureza tem dificuldade. Quer dizer, Luís Montenegro tinha alguma dificuldade em criticar Rui Rio? Quer dizer, António Costa teve alguma dificuldade em criticar António José Seguro? Como estamos todos relembrados. Não, mas Pureza tem muita dificuldade em criticar Mariana Mortágua e por isso é que há este receio de que isto seja tudo mais do mesmo. Mas enfim, vamos dar-

O benefício da dúvida.

Claro, sempre.

Miguel, na sequência desta pergunta, é uma questão de limpeza de mensagem ou o problema é mais profundo? O Bloco precisa de ir à procura de novas mensagens e novas causas.

Nós tivemos a oportunidade de entrevistar Alexandre Abreu na Vic e Suazo esta quinta-feira no Observador, e Alexandre Abreu, que apoia José Manuel Pureza e foi candidato à Câmara de Cascais nas últimas eleições autárquicas, disse uma coisa muito interessante: o Bloco tem de falar para e com o povo. Isso, do ponto de vista de um partido, faz sentido. Os partidos servem para falar com as pessoas e para as pessoas. Durante muito tempo, o Bloco convenceu-se de que os eleitores é que estavam errados. Eles estavam certos, os eleitores estavam errados. Correu mal. O que se espera agora com José Manuel Pureza é que dentro, evidentemente, dos ideais do Bloco de Esquerda, haja um sentido de humildade, de perceber onde é que falharam, o que têm de corrigir e onde é que estão os eleitores. Porque esta ideia de que o Bloco desapareceu porque há um avanço da extrema-direita a nível nacional e a nível internacional, tem um problema de princípio: O Livre cresceu. É verdade que o espaço da esquerda recuou, mas houve um partido à esquerda capaz de crescer. E há outro problema, mais pequenino, mas é verdade que existe, que é: os eleitores mais jovens começaram a votar mais no PCP do que no Bloco de Esquerda. Portanto, até o PCP conseguiu, a um nível muito reduzido, é verdade, renovar a sua base eleitoral. Portanto, o problema está mesmo no Bloco de Esquerda. Ou o partido muda de vida ou os eleitores fazem o favor de dizer que o partido não serve para os representar. É assim mesmo a democracia. José Manuel Pureza tem de fazer esse caminho, procurar perceber onde é que estão os eleitores, perceber o que eles esperam de um partido com as características do Bloco e falar sobre problemas concretos e não problemas abstratos sobre o avanço de Donald Trump. Nós tivemos nas últimas eleições Francisco Louçã a dizer que se candidatava para combater um fascista na Casa Branca. Se isso não é um nível de alienação total em relação ao que se passa no país, eu não sei o que se pode dizer que seja alienação. O Bloco tem de descer à Terra primeiro e tem de perceber a sua utilidade e pra quem é que está a falar. Se não conseguir perceber isso, eu acho que se arrisca a desaparecer do Parlamento.

Pode servir bem ainda mais. Só mesmo pra fechar, uma nota pra este discurso de despedida de Mariana Mortágua.

Uma nota? De zero a 20?

Podes usar a escala que quiseres.

De zero a 20.

Não serei eu a impor limites.

Não quero ser excessivamente, mas um cinco.

Pronto. Ia perguntar se não ia o Miguel primeiro.

Sim, na hora da despedida não devemos também ser demasiado duros.

Ninguém guarda ressentimentos.

Não, isto não é pessoal. Longe de nós, não é esse o caso. Mas vou acompanhar o Miguel no cinco, porque é um resultado arredondado em relação às últimas europeias e às últimas legislativas.

Miguel Santos Raposo e Miguel Pinheiro nesta edição especial de "E o Vencedor é..." a partir do Congresso do Bloco de Esquerda, depois do discurso de encerramento de Mariana Mortágua.