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Euven Sorena, Rádio Observador e em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador. Hoje com a Judite França, Raquel Abecasis e o António Costa. Sejam muito bem-vindos. Vamos falar de temas diversos, da sustentabilidade da Segurança Social, do programa de apoio ao rendimento que o Estado aparentemente não fiscaliza. Vamos também falar das consequências da guerra para Donald Trump e de uma afirmação feita pelo Papa Leão XIV, que cumpre uma visita oficial a Espanha. Mas é com a prestação social única que começamos. O debate está agendado para a próxima sexta-feira. A tal prestação que vai uniformizar 13 prestações sociais não contributivas que hoje estão a pagamento, é o tema escolhido pela Raquel Abecasis. Raquel, o que se oferece dizer sobre este tema?

Olha, eu há bocado estava a ouvir aqui uma deputada do PSD num debate muito interessante antes do noticiário, e ela estava a acusar o Chega de começar a casa pelo telhado. E eu acho que isto é uma proposta que exatamente começa pelo telhado. Ou seja, nós já percebemos qual é o objetivo, não percebemos mais nada. E isso, antes de mais nada, é o pecado capital desta proposta apresentada pelo governo em cima da hora. Por que ela aparece assim? Porque está se a acabar o prazo do PRR. Se nós não avançarmos com esta proposta, perdemos 620 milhões do PRR e, portanto, à última hora, à boa moda portuguesa, o governo lembrou-se que tinha que levar isto ao Parlamento. Mas aqui o Partido Socialista é também responsável, e gravemente responsável, porque António Costa comprometeu-se com a criação desta prestação social única em janeiro de 2023, já exatamente com esta faca em cima do pescoço, que era se isto não estiver implementado, perdem-se os tais 620 milhões do PRR. Ora, o PS, desde janeiro de 2023 até sair do governo, não fez nada. E este governo, pelos vistos, lembrou-se disso dois ou três meses antes e, portanto, apresenta um documento mal enjarcado no Parlamento para ir a votos e tem que ir a votos já na próxima sexta-feira, porque é urgente. E, portanto, nesse sentido, as críticas que a oposição tem feito fazem sentido. Nós não percebemos qual é o valor desta prestação social única, uma vez que ela vai reunir uma série de prestações, acho que são 13, que tinham valores diferentes e, portanto, é importante perceber qual é o valor dessa prestação social única. E depois uma série de regras, como é que elas vão funcionar no terreno e na prática da lei, na execução.

No articulado da lei. E como é que se vão unificar prestações que têm diferentes naturezas.

E aí, nos detalhes, como diz o povo, pode estar o diabo. E, portanto, eu percebo que haja uma preocupação. Estava no ar ou não?

Sim, estava. O António é que não.

Percebo que haja uma preocupação dos partidos da oposição em relação a estes pormenores. Contudo, e tendo em conta os compromissos prévios, nomeadamente do Partido Socialista, e o que está em causa, e o fato de fazer todo o sentido, não é só porque é uma imposição da Comissão Europeia, é porque faz todo o sentido que estas prestações sociais não contributivas sejam reunidas e não estejam dispersas em várias ilhas que não se contactam entre si. Isto deveria merecer, num país com partidos políticos responsáveis, o mínimo de consenso para poderem discutir. Ora, nós estamos a três dias deste assunto ir a votos no Parlamento e já temos os dois partidos que podem fazer aprovar ou chumbar esta lei, a dizer que não aprovam. E eu isso, e volto a repetir, com responsabilidades particulares para o Partido Socialista, que assumiu este compromisso, não consigo compreender, nem acho que nenhum português consiga compreender uma coisa destas, porque quer dizer, se não se entendem numa coisa em que em teoria estão de acordo, podem depois negociar os pormenores, mas em teoria estão de acordo, e se partem logo da base de dizer: "Isto assim não passa", de fato, não sei o que se pode fazer. Estamos sempre aqui a falar em reformas, o governo a falar em reformas, a falarmos em alterações legislativas, etc. É impossível. Se não se entendem nisto, é muito pouco provável que se possam entender noutro tipo de coisas que são bastante mais complexas e onde, apesar de tudo, não há consenso. Já agora, vale a pena dizer, porque também não quero deixar o Chega de fora, que o Chega ameaça não deixar passar esta lei, em relação à qual até pode ter muitos temas de acordo, exatamente aqueles em que o PS está em desacordo. O Chega pode ter pontos de contato com a proposta do governo, porque não está lá tudo exatamente que corresponda ao seu discurso demagógico e, portanto, prefere que continue tudo como está, a que, apesar de tudo, as coisas possam mudar um bocadinho no sentido em que o Chega defende que devem ser mudadas, nomeadamente a questão do trabalho social e a questão da fiscalização. Tudo isso que tem sido bandeiras do Chega, aparentemente não chegam para sequer admitirem conversar com a AD sobre este problema.

António Costa, estranha também a ausência de consenso, particularmente entre PS e PSD?

Não estranho por uma razão, porque de fato o governo deveria ter posto em cima da mesa, antes do debate, todas as informações necessárias para que o debate fosse informado. Ela chega tarde e chega por causa de um prazo. E isso é uma evidência. AgoraMais razão ainda para que toda a informação esteja disponível a dois ou três dias da discussão e de uma votação, mesmo que seja uma autorização legislativa. Isso não faz muito sentido, de fato, ainda por cima. Parece-me que teve a oportunidade de dizer, eu acho que a lei tem bons princípios. Apesar de misturar, eu também já sublinhei, as prestações que não são exatamente as mesmas, nem têm a mesma natureza, mas também é verdade que há duas ou três prestações, desde logo o RSI, que consomem 70%, 75%, 80% de cerca de 500 milhões de euros que custam estas prestações todas somadas. Não é claro o que o governo quer, para lá da simplificação, é preciso dizê-lo, porque o governo propõe, por exemplo, a alteração do que se chama, é um palavrão, que é condição de recurso para aceder à prestação. Isto é, que rendimentos têm, seja de propriedade, seja em espécie, seja em dinheiro, os beneficiários. Passa de 60 IAS, ao indicador de referências sociais, para 30. Por quê? Qual é a razão? Ainda por cima, pode haver uma boa razão, mas o governo tem que explicar. Não basta dizer que corta pra metade o indexante. Por quê? Porque ainda por cima, eu acho que esta discussão, feita desta forma, à pressa, que vai ter poucas vantagens pro governo. Bem, vantagens orçamentais muito pequenas, por muito que se poupe em 500 milhões de euros, se esse é o objetivo, não vai mudar o orçamento. Não é por causa disso que Joaquim Miranda Sarmento vai ter uma folga, ou mais déficit ou menos déficit, não é por causa disso. Ora, se não é por causa disso, é por quê? Por causa da fraude? É mesmo isso que está em causa? Voltamos à amamentação. Mas qual é a fraude? Onde é que está a fraude? Deem lá valores sobre os níveis de fraude destas prestações acumuladas para se perceber o que está em causa, porque às tantas, haverá fraude, seguramente, mas para se apanhar meia dúzia de pessoas que estão numa fraude, lança-se uma confusão sobre cerca de 500 mil beneficiários destas prestações em termos acumulados. Depois discute-se muito o trabalho voluntário. Ora, o trabalho voluntário, solidariedade social. Em números muito otimistas, poderá apanhar do total de beneficiários destas 13 prestações, 50 mil pessoas, 60 mil pessoas. Não são 500 mil, não são 250 mil.

É um embuste necessário aqui criado pelo governo.

É um ruído absolutamente desnecessário.

E sobretudo, e vamos falar de um tema a seguir que coloca este problema, como é que depois o governo tem capacidade de fiscalizar, de pôr isto em prática, de não criar mais problemas.

Há um tema mais sensível ainda, que é a discussão deste tema em cima de um contexto econômico que não é o mais favorável. Nós estamos a falar de prestações de 250 € e que podem ir por acumulado no agregado até 1.000 € se tiver vários filhos.

Majoração parental, etc.

Enfim, mas estamos a falar das pessoas em situação mais difícil da sociedade. Enfim, pior do que estas pessoas estarão as pessoas que estão mesmo fora da sociedade e sobre as quais nós não temos, infelizmente, o Estado não tem qualquer informação. São, diria, os marginalizados da sociedade que estão fora de qualquer circuito. Das pessoas que estão no circuito social, estas são as que estão em mais dificuldade. Mas o governo quer mesmo discutir neste contexto em que estamos a discutir, vão aumentar os juros esta semana. Estamos a discutir o governo a discutir semana sim, semana não, se dá mais apoios, e bem, porque está a medir semana a semana às pessoas que têm carro. Estamos a falar de pessoas que têm carro. Apoios aos combustíveis e depois desata a discutir, por causa de uns supostos dados de fraude, que ninguém conhece, uma prestação social para os mais desfavorecidos dos mais desfavorecidos da sociedade. Não faz muito sentido.

Deixa-me só dizer uma coisa. Eu acho que o sentido que faz é que o governo, fazendo esta proposta à pressa, quis desenhá-la de forma que o Chega pudesse aprovar.

Então foi mal jogado.

E foi mal jogado como é sempre mal jogado, porque o Chega chega sempre à hora da verdade e faz sempre isto.

O Silvio Pereira fez a proposta, vai ao encontro.

Mas obviamente, tendo em conta o que está em causa, a incapacidade depois de conseguir controlar isto, o pouco impacto que isto tem, esses pormenores estão lá exatamente para ver se o Chega aprova aquilo.

Mas que ficasse pela simplificação, que era um bom princípio. A simplificação seguramente ia permitir que estas pessoas, porque o objetivo é que estas pessoas tenham apoios. E depois tem uma medida que eu acho que é importante, que se está perdendo dentro da discussão, que é a possibilidade de regressar ao trabalho acumulando o salário com a prestação, pelo menos de forma transitória, desde logo para incentivar o regresso ao trabalho. Uma medida que, juntamente à simplificação, é de fato muito importante para incentivar o regresso ao trabalho daqueles que podem, porque há prestações associadas à velhice que obviamente não podem resultar em regresso ao trabalhoEstá a perder-se numa discussão absolutamente estéril, ainda por cima com o Chega a dizer, tão absurda como esta dos tetos às reformas, porque também não percebi, num parêntesis muito rápido, quer tetos às reformas, mas também quer tetos às contribuições?

Não, aparentemente as pessoas continuam a contribuir.

O incentivo é mesmo as pessoas não fazerem descontos pra Segurança Social, que é pra dizer assim: "Epá, pera lá, quanto é que eu tenho que descontar pra Segurança Social pra atingir o teto? Porque depois vou arranjar 30 mil esquemas pra não ter que descontar este valor pra Segurança Social pra ter no meu bolso." É isso exatamente que o Chega está a promover, é a fuga aos descontos. Mas neste caso da prestação, é porque os imigrantes não podem ter, porque não contribuíram. Mas estas prestações são pra quem não contribui. É pra pessoas localizadas. Aliás, a lei diz que tem que estar aqui pelo menos há um ano em Portugal, em situação obviamente legal pra poder usufruir destas prestações não contributivas. Mas se estiver há mais de um ano não contribuindo, tem, como qualquer português, acesso a estas prestações não contributivas. Ou então queremos que o Estado deixe pessoas na mais absoluta miséria, assumindo nós que pagar 250 € a alguma pessoa não é pouco mais do que a miséria. Mas também sabemos que o Estado tem as condições que tem, o país tem a riqueza que tem, não é muita. Está-se a perder, de facto, uma oportunidade e a criar um ruído desnecessário sobre uma lei que até tem aqui aspetos positivos e um bom sentido.

António, antes de conhecer as vossas notas, deixa-me ainda ouvir a Judite de França sobre este tema. Judite.

Eu não quero tomar muito mais tempo, porque a nossa lista do menu é longa e, portanto, não vou tirar muito mais tempo, mas queria só nesta questão da condição de acesso: a proposta põe em causa se o beneficiário tem carro ou que tipo de carro é. Acho que vamos entrar numa situação bizarra. Se tem carro ou se tem mota, ou se a pessoa tem que vender o carro ou a mota primeiro pra ter acesso.

Não, porque isso fica o rendimento.

Fica com o rendimento, mas pode gastá-lo.

Se vender de forma declarada, o rendimento fica lá registrado na mesma.

Ou então pode ter herdado uma casa e não ter uma subsistência.

E viver nela, por exemplo.

Uma pessoa com deficiência, por exemplo, é um caso muito comum, pode ter herdado uma casa dos pais.

E habitação social, que há em Lisboa e no Porto e não há no resto do país.

E esse valor tem que ser retirado ao valor da prestação.

Mas se houvesse habitação social em todo o país, isso seria equitativo. Mas tendo em conta que há habitação social em Grande Lisboa, Grande Porto e pouco mais, como é que se faz a comparação? Abre-se aqui uma caixa de Pandora que eu acho mal preparada e obviamente, esta coisa da pressa não é boa conselheira.

Pois não.

Portanto, isto está a dar este problema com um impacto que é, de facto, limitado. Ou um benefício limitado.

Mas convinha que passasse.

Mas achas que há condições políticas em função daquilo que tem sido?

Acho que não.

Há condições, porque o governo vai ter que rever e vai ter que tirar metade das coisas que lá pôs pra passar.

Senão vamos perder os 200 dentro do prazo. Ainda vai dentro do prazo, isto.

Vai fazer dentro do início do prazo, com o princípio de simplificar e juntar, sem acrescentar ruído, que pra esta discussão precisava de mais tempo. Senão andamos há 10 meses pra discutir o Código de Trabalho.

Vamos lá entrar nas vossas notas.

Eu dou um oito à permanência do erro do governo na gestão deste caso.

Na forma como geriu.

Sim, eu também.

Também. Alinhas no oito.

Eu também reafirmo a minha nota da semana passada.

E qual é a tua nota pro Partido Socialista? Esse mesmo oito?

Não, também dou um oito ao Partido Socialista.

E começamos contigo, Judite. Trazes a esta segunda parte uma notícia hoje avançada pelo jornal Público. Dá conta que o programa de apoio ao arrendamento, anteriormente conhecido como o programa de renda acessível, não tem fiscalização.

É um programa interessantíssimo, porque há uns que falham porque são mal desenhados, há outros que falham porque são mal executados. Este consegue o pleno, consegue as duas coisas. Falha nas duas frentes ao mesmo tempo. Isso pra quem não conhece o programa de apoio ao arrendamento, ele existe desde 2019. E a ideia parece-me que era uma boa ideia, o senhorio que arrendasse a casa.

Como sempre, só ótimas ideias.

A ideia é boa. O senhorio que arrendasse a casa 20% abaixo do preço de mercado ficava isento de imposto sobre essa renda e em troca havia rendas mais baixas pra quem precisava. Sete anos depois, há mil contratos ativos. Mil contratos num país com a crise da habitação que nós temos, com centenas de milhares de contratos de arrendamento, chegou a mil pessoas, mil famílias. E convenceu mil senhorios. Os senhorios também não ficaram convencidos pra aderir a este programa. O que acontece a seguir a isto é que desses mil contratos, o Estado não sabe absolutamente nada sobre se cumprem as regras. O IHRU, que devia fiscalizar, não fiscaliza o programa. Segundo diz o Público, que teve acesso a uma avaliação externa ao próprio programa, diz que não há controle das desconformidades, que quer dizer, ninguém verifica se os senhorios que recebem a isenção estão de facto a praticar rendas acessíveis ou não, e portanto, pode haver uma atribuição indevida do benefício. Ou pode não haver, não sabemos.

Sendo porventura a fiscalização até não seria difícil, tendo em conta o número de contratos firmados.

São mil. Era fácil.

Em três dias fazia-se a um stress.

O programa vai agora ser substituído e a partir de setembro entra o novo regime simplificado de arrendamento acessível, que promete ter sanções e ter mecanismos de controle e portanto, o Estado vai corrigir a falha de fiscalização que o próprio criou, criando um novo programaPodia, no mesmo, melhorar o programa, ou seja, passar a haver fiscalização, ter o mesmo programa. Mas não, faz um novo programa. Não sei se tem grandes diferenças em relação ao atual, se não tem. Podia ter em relação a uma questão, que é: ainda por cima, a taxa de esforço neste programa é particularmente baixa, é de 35%. E uma taxa de esforço baixa para as pessoas que mais precisam é tudo o que não faz sentido. As pessoas que mais precisam e que têm menores rendimentos, têm taxas de esforço mais elevadas. A banca, neste momento, dá 50% de taxa de esforço e este programa dava 35. É mais papista que o Papa. Eu fico sempre na dúvida quando ouço e leio estas histórias, se há mais programas assim. Deve haver mais programas assim, mais programas, mais benefícios que não são fiscalizados. Deve ser um fartar vilanagem, porque de facto quando o Estado não fiscaliza, dá cheques em branco às pessoas. Eu imagino a quantidade de senhorios que neste momento está a pensar: "Podia ter aderido ao programa, porque como não era fiscalizado, teria mais sorte do que o benefício de não pagamento de imposto." Não, porque o programa vai acabar, já não é possível aderir.

E a tua nota vai para o IHRU, para a forma como foi desenhado o programa, para a ausência de fiscalização?

Vai para tudo isso, um redondo quatro para isto tudo.

Sendo que o António Costa associa este tema a uma afirmação feita pelo Papa Leão XIV sobre a eficácia das leis.

Deixa-me só dizer uma coisinha, uma frase rápida antes do António, que é para depois não desvirtuar o que o Papa disse. Eu fico sempre com uma curiosidade com estas notícias, que é: para que serve o IHRU? Porque nós temos o problema da habitação que temos em Portugal, nós temos elefantes brancos aqui em Lisboa, que são gestão do IHRU e que são problemas que não se resolvem há décadas. E depois nestas pequenas coisas em que o IHRU tinha um papel. Isto é um bocadinho à cega, mas gostava de saber o que faz o IHRU, quantas pessoas emprega, para que serve, qual é o relatório de atividades, porque de facto tudo o que são notícias destas acabam por refletir um instituto que a gente não percebe para que serve. Desculpa, António.

Eu só ia acrescentar sobre o tema do arrendamento, que quando os governos têm a mania de ultrapassar o mercado, depois dão-se mal. Porque é evidente que se só há 1000, independentemente da fiscalização ou não, e do péssimo que é não haver fiscalização, o que é evidente é que o modelo foi mal desenhado e os senhorios preferem pô-las no mercado e ganham mais dinheiro do que a vantagem do benefício fiscal. Isto mostra como o legislador, quem decide, neste caso em 2019, não percebeu como é que estava o mercado. E isso, se calhar, se explica porque é que em 2026 estamos com o estado da habitação em que estamos com este 1000. Não haver fiscalização é cereja em cima do bolo, mas não é surpreendente. Eu, de propósito, trouxe uma frase que o Papa Leão XIV disse hoje em Madrid. É o Beiró e o Papa em Madrid, esta é uma cidade capital do mundo. Eu vou passar a ler rapidamente, porque me leva a isto: "Uma lei não atinge a sua verdadeira grandeza pelo simples facto de ter sido formalmente aprovada. Alcança quando é confrontada com a dignidade da pessoa humana e consegue sair desse exame sem motivo para se envergonhar." O Papa não estava a pensar, obviamente, na lei do arrendamento em Portugal. Estava a pensar em temas bastante mais profundos, mas eu trouxe esta frase porque ela é muito o espelho do país. Nós passamos a vida a legislar sobre tudo e mais alguma coisa. A prioridade e vai legislação. Este governo em pacotes, são vários nos últimos dois anos, mas estamos a discutir legislação laboral, temos milhares de páginas de legislação laboral espalhada por tudo quanto é sítio. Reformas da habitação, acabamos de falar, e estamos com a crise da habitação que estamos, e não é por falta de programas e programinhas, e mais legislação para programas. Na energia é o que se sabe, a burocracia dos processos de licenciamento, com mais institutos, com mais leis, com mais burocracia e os processos de licenciamento continuam a demorar uma eternidade. Temos sucessivas reformas da administração pública, agora estamos a ter outra. Mas é evidente que qualquer cidadão, a burocracia que enfrenta é quando tem que se relacionar com o Estado, verdade seja dita. Exceção à administração fiscal, que é muito rápida e muito eficaz. Regra geral, parece que agora há uns atrasos nos reembolsos no IRS, mas regra geral, de facto, tem uma máquina poderosa, nada burocrática e muito eficaz.

Tem um senhor chamado Paulo Macedo.

Sim, e Manuel Ferreira Leite, que o contratou. Nós, jornalisticamente, também temos alguma coisa a aprender, porque discutimos muito, analisamos muito propostas, discutimos menos a sua execução e não discutimos mesmo nada a sua avaliação, a avaliação de resultados. E eu acho que isso é, de facto, um dos nossos pecados, por ter sido o Papa a dizê-lo, é um dos nossos pecados.

E queres avaliar o quê esta afirmação do Papa Leão XIV?

O Papa Leão XIV, obviamente, estava a pensar em contexto internacional e acabado de fazer a encíclica sobre a inteligência artificial, seguramente nesse contexto, mas que se aplica muito bem à nossa triste realidade portuguesa nesta matéria.

E a Raquel, queres...?

Não, já não acrescento mais nada.

E sobre o Papa Leão XIV?

Eu, por acaso, ainda não li o discurso de hoje no Parlamento. Acho que daquilo que tenho visto, parece-me que o Papa tem colocado o dedo na ferida, tem feito uma viagemapostólica, mas muito política. No primeiro discurso que fez às autoridades do país, fez questão de tocar em alguns pontos que são fundamentais pra ele e que são muito o tema desta visita, que tem a ver com o tema da imigração, também com o tema da inteligência artificial e com o tema das igualdades e das desigualdades. Tenho bastante curiosidade sobre o discurso que ele fez hoje no Parlamento. É a primeira vez que um papa discursa no Parlamento espanhol. Acho que deve ter sido, e ouvi alguns ecos que me pareceu que é um discurso importante, que deve ser lido com atenção, mas ainda não li. Só dar uma nota: daquilo que tenho visto, impressiona-me bastante, não sei se o Bad Bunny tem tanta gente na rua como o Papa Leão XIV tem tido em Espanha. É impressionante as imagens. Não é dos sítios onde o Papa está, porque aí é normal que esteja muita gente, mas é naqueles percursos que o Papa faz da nunciatura pros vários sítios, nós vemos aquela avenida Castellana abarrotar de gente. Isso tem me impressionado bastante.

É verdade.

Judite de França, traz ainda mais um tema, a sustentabilidade da Segurança Social.

Sim, sobretudo a questão das propostas do Chega nesse particular.

A moeda é troca para aprovar as alterações ao Código de Trabalho.

Ao Código Laboral, exatamente. Deixa eu começar pelo fim, e nós ainda há pouco tivemos um explicador sobre o assunto, porque Jorge Bravo, que é o economista responsável pelo estudo da reforma da Segurança Social, num artigo do "O Observador", disse que as propostas do Chega são pura e simplesmente descabidas. André Ventura pôs duas condições pra salvar a reforma laboral: baixar a idade da reforma e plafonar as pensões em 4500 € enquanto as pessoas descontam o mesmo. Sobre a primeira, o governo, aquilo que pediu ao seu grupo de trabalho foi exatamente o contrário, estudar como manter as pessoas mais tempo na vida ativa, porque o país está a envelhecer a olhos vistos, portanto é a única coisa que faz sentido. Sobre a segunda, André Ventura foi à TVI e não a soube explicar muito bem, ou pelo menos eu não percebi, porque disse que limitar os descontos não era necessário, o que na prática significa descontar o mesmo pra receber menos. O que é que Jorge Bravo, o economista que o governo escolheu, podia dizer? Nada de muito diferente do que defende há mais de uma década, que o sistema como está não pode continuar e que a fórmula das pensões tem que ser revista e, portanto, não tinha como olhar pras exigências do Chega de outra forma senão rasgá-las de alto a baixo. E chamou-lhes contrárias ao interesse dos trabalhadores e assentes em argumentos, em muitos casos falsos, para concluir que revelam um desconhecimento total do sistema. Eu acho que o verdadeiro feito do Chega é ter conseguido pôr na mesa pra toda a gente discutir duas propostas que não fazem sentido. E de facto, o Chega tem esta habilidade de nos pôr a discutir coisas que não fazem sentido e acho que esse é o caso aqui.

E a tua nota, Judite?

Eu vou dar uma boa nota a Jorge Bravo, ao economista do governo. Vou dar a Jorge Bravo um 16.

Temos ainda aqui dois minutos e meio e um tema sugerido pelo António Costa: as consequências da guerra para Donald Trump.

Pois, porque adormecemos ontem e acordamos de manhã com o regresso do Oriente Médio no seu pior esplendor, com respostas do Irã a respostas de Israel e, portanto, com uma recuperação de um estado que era já frágil, eu ia dizer de paz, mas não era bem de paz, de alguma pausa para o entendimento. Isto vem para lá do que são as discussões militares, sociais e humanas no terreno, no Oriente Médio, naqueles países, do contexto econômico global, que é difícil, há um tema, de facto, que é uma ironia, porque foi Trump que começou tudo isto. Os Estados Unidos ainda não estão em recessão, mas já estão a dar sinais de pressão, nomeadamente as famílias com menores rendimentos. E Trump, que creio, era percepcionado e vendeu essa tese aos americanos. Apesar daquele caos institucional em que vive e que os americanos aprenderam a até respeitar, porque votaram em Trump, esperavam riqueza material. Era a contraparte àquele registo institucional ou pouco institucional do novo presidente americano. E a verdade é que arrisca mesmo chegar a novembro com uma situação econômica muito difícil. As poupanças das famílias americanas estão em níveis relativamente baixos. A gasolina nos Estados Unidos, apesar de ser um grande produtor, está em níveis particularmente elevados. De facto, a economia americana resiste e continua a criar emprego. Em maio, criou mais de 170 mil empregos, creio. Mas a pressão sobre as famílias americanas, nomeadamente as de classe média e média-baixa, está a agravar-se de uma forma muito acentuada e estas notícias das últimas 24 horas só vêm agravar esse tema. E, portanto, aquilo que Trump tinha pra oferecer aos americanos, que não era propriamente uma solidez, volto a dizer, institucional, mas a riqueza e a promessa com aquela política de tarifas, já ninguém se lembra disso, mas não foi há tão pouco tempo, ameaça transformar a economia americana numa situação difícil, nomeadamente pras famílias, que são, paradoxalmente, aquelas que têm votado muito em Trump. Não são os mais ricos, não são apenas esses, são famílias com limitações econômicas e, portanto, eu acho que Trump vai entrar aqui numa situação de desespero, olhando-lhe ao sete pela situação de desespero em que está a pôr as famílias e ele próprio politicamente.

São, de resto, dificuldades que estão a ter consequências já nos indicadores de popularidade do presidente norte-americano. E é com este tema que fechamos a edição desta segunda-feira de "Iuvento Soré", da Tarde Política. Obrigado, Raquel Loucão Assis. Obrigado, António Costa. A Judite de França aqui vai continuar conosco e já em linha está o Alberto Gonçalves para mais uma edição de Ideias Feitas.