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Ilve Vences Doré na Rádio Observador, hoje com Judite França, Anselmo Crespo e Alexandre Borges, também em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador. Hoje vamos falar sobre a visita de Lula da Silva a Portugal, também deste caso de que já falamos aqui esta tarde, na tarde política da ex-vereadora do CHEGA, agora vereadora independente na Câmara de Coimbra, que poderá ter dito adeus, a Ana Abrunhosa. E ainda o momento que o PS vai vivendo com a propalada liberdade de Duarte Cordeiro, que recusou um cargo na estrutura do partido para se poder sentir mais livre para criticar a direção de José Luís Carneiro. Anselmo Crespo, podemos começar por aqui, com o homem livre, Duarte Cordeiro. Quer ser livre e andar por aí. Quem é que pode condenar alguém que quer ser livre?
Desta vez livre como um passarinho. Já chega de metáforas sobre Carneiros e Cordeiros.
Uma gaivota voava, voava.
Uma gaivota voava, voava.
Estamos na semana certa.
Certo. Estamos na semana certa. Sim. Ponto prévio, eu acho iluminamento que Duarte Cordeiro tenha assumido, e eu acho que é com alguma coragem que o faz, este posicionamento, porque ele podia ter dado aquela velha desculpa por motivos pessoais ou motivos profissionais, e ele não o fez. E eu acho bem que não o tenha feito, porque eu acho que a política, como tudo na vida, também exige ou pede alguma coragem no assumir de posições. Ninguém está à espera que Duarte Cordeiro assuma aqui e agora que está a pensar um dia candidatar-se a secretário-geral do Partido Socialista. Se calhar nem ele sabe se um dia o vai fazer, mas quer manter essa porta aberta. E eu acho que seria tão normal ele aceitar o que José Luís Carneiro lhe sugeriu, como é normal ele não aceitar por estes motivos. É isso que eu quero dizer. Não quer dizer que para Fernando Medina ou Mariana Vieira da Silva estarem na direção de José Luís Carneiro estejam impedidos, daqui a dois anos ou antes, isto nunca se sabe.
Nunca é fiando.
Nunca é fiando. Daqui a dois anos de poderem ser candidatos também à liderança. Uma coisa não invalida a outra, acho que são dois caminhos diferentes. Acho que Duarte Cordeiro assumiu e disse por que não ia ficar na direção de José Luís Carneiro e eu valorizo isso. Acho que isso não deve ser um problema nem para o Partido Socialista, nem para José Luís Carneiro. Faz parte do jogo democrático, faz parte da vida interna dos partidos. E acho também que há um ponto que me parece muito evidente na realidade atual do Partido Socialista, é que há uma, não lhe chamaria uma paz podre, mas há um falso consenso, uma falsa unanimidade neste momento em torno da liderança de José Luís Carneiro. Acho que isso fica mais visível nesta posição do Duarte Cordeiro do que provavelmente noutras posições, mas Mariana Vieira da Silva também não tem sido propriamente discreta, vou lhe chamar assim, nas suas posições relativamente ao percurso que José Luís Carneiro está a fazer. E, portanto, eu acho tudo isto absolutamente normal. E o futuro, como diria o outro, a Deus pertence. Acho que dois anos em política é uma eternidade. Nós sabemos, claro, que há uma memória do que aconteceu com António José Seguro e António Costa. Sabemos que António Costa tirou António José Seguro da frente antes de sequer dele ter a oportunidade de se candidatar a umas legislativas. É isso, provavelmente, na cabeça de muitos socialistas, sobretudo aqueles que apoiam José Luís Carneiro, e se calhar na cabeça do próprio José Luís Carneiro, pode estar a pairar, é de que a qualquer momento pode haver um movimento interno para o afastar. Mas eu diria que isso, não dependendo totalmente de José Luís Carneiro, depende em grande medida daquilo que for a prestação de José Luís Carneiro enquanto líder do Partido Socialista.
E depende daquilo que deixar também, porque António José Seguro deixou que fossem feitas primárias, não é?
Foi ele que sugeriu.
A sugestão vem de António Costa, ele aceitou. Não, ele aceitou a sugestão.
Pronto, então se calhar tens razão.
Não lhe era nada favorável.
Certo, mas mais do que isso é: há uma parte que depende de José Luís Carneiro e há outra parte que não depende de José Luís Carneiro. Como é que o governo governa não depende de José Luís Carneiro, depende do governo. Que resultados é que este governo entrega não depende de José Luís Carneiro, depende do governo. A forma como José Luís Carneiro faz oposição depende dele. Quer escrever mais cartas? Não quer escrever mais cartas. Quer continuar a ir à Venezuela e promover lavagens democráticas a um parlamento que claramente não foi democraticamente eleito ou quer continuar a fazer TikToks ao lado de Pedro Sánchez e enaltecer o estadista que Pedro Sánchez é e quão importante ele é pra Europa. Isso tudo depende de José Luís Carneiro. E, portanto, será a prestação dele, porque ninguém dentro do Partido Socialista, no seu perfeito juízo, vai tentar tirar José Luís Carneiro da frente se ele estiver a fazer um bom trabalho e se o PS estiver bem posicionado para poder vencer umas próximas legislativas. Só um louco é que faria tal coisa. E, portanto, acho que, voltando ao início, Duarte Cordeiro quer ficar ali de reserva, quer ficar no banco, ou se calhar nem é no banco, quer ficar na bancada neste momento, e manter a sua liberdade para poder criticar o partido sem ser confundido com decisões que José Luís Carneiro possa vir a tomar enquanto secretário-geral do Partido Socialista e que possam envolvê-lo a ele.
Judite
Eu acho que se percebe bem esta coreografia de Duarte Cordeiro que deixou de estar disponível para integrar a comissão política do PS. Tinha disponibilidade, depois deixou de ter. Deve ter pensado bem que precisava, como ele disse, de liberdade para discordar, porque no fundo o que ele está a dizer é: quem lá está dentro valida tacitamente o líder. E tem alguma razão, apesar de tudo, nós vimos quando foi a questão da Venezuela.
Também se pode usar o argumento inverso, que é: cá fora é muito fácil criticar, não é?
Sim, mas estando lá dentro, as críticas se forem públicas, são uma chatice. E aí pode ser desleal. Portanto eu acho que é taticismo político. Não acho que seja por bondade de fazer análises isentas no canal "Now", acho que é taticismo político, obviamente. Não estou a criticar.
Estás a constatar.
Estou a constatar e o próprio não esconde. E, portanto, eu acho que tenho alguma pena de José Luís Carneiro, porque numa semana em que devíamos estar a falar de custos de vida e de alternativas às propostas do governo, estamos a falar disto.
Hoje foi ao mercado de Alvalade.
Pois, ele bem tentou chamar a brasa à sua sardinha, mas com estas notícias de que Duarte Cordeiro andava por aí, ficou para segundo plano. Portanto, eu acho que Duarte Cordeiro sai vencedor desta opção que toma.
Já estás a trocar o Carneiro com o Cordeiro.
O que disse Duarte Carneiro.
Sim, mas eu percebo-te. Como eu te percebo.
Já não é Páscoa. Mas ganhamos nós também, porque vamos ter pano para mangas no comentário político para analisar aquilo que Duarte Cordeiro vai dizendo todas as semanas.
Alexandre.
Não me cruzei com o José Luís Carneiro no mercado. Estive nas imediações, perdi esse momento. Acho que é sintomático que fique para segundo plano uma ação qualquer de José Luís Carneiro, qualquer que ela seja.
No mercado, sobre o custo de vida.
Exato. Ou seja, acho que isso mostra uma certa fragilidade desta liderança, quando uma pequena notícia sobre um não candidato lhe passa à frente. Mas esse é um problema com que José Luís Carneiro vai ter que lidar, porque então é ultrapassado por qualquer coisa, em termos mediáticos. Isso tem lhe acontecido, mas às vezes ele tem azar. No dia em que decidiu apresentar o seu programa, a sua candidatura, embora isolada, no dia em que decidiu convocar isso para um sábado à tarde, os Estados Unidos começaram uma guerra com o Irão. Ele tem, às vezes, um azar nos timings. É pé frio, exatamente, é isso mesmo. Mas, neste caso, eu acho que não há muito para ver aqui, parece-me. É um pequeno gesto que tem algum significado, não tem um significado enorme, da parte de Duarte Cordeiro, e que eu diria que sinaliza que deveria, ou deve preocupar mais os outros protocandidatos um dia, do que propriamente José Luís Carneiro. Ou seja, acho que o que o Duarte Cordeiro está a fazer é preparar-se para um dia poder dizer, se um dia tiver de concorrer contra Mariana Vieira da Silva, ou Ana Catarina Mendes, ou Fernando Medina, etc, dizer: "Eu não estive lá. Eu saí, eu afastei-me, eu sinalizei isto em devido tempo." Porque, na verdade, quem está na comissão política pode criticar na mesma, e tem acontecido, portanto, isso não o vinculava assim tão diretamente. Acho que ele, sobretudo, quer assinalar esta diferença. Está a olhar para o longo curso, parece-me, para a corrida a longo prazo, porque de facto ninguém está à espera que, apesar de tudo, de todas as inconstâncias, que alguma coisa mude de hoje para amanhã. Mas para o ano já é outra conversa. Isso já é um muito longo curso.
Mas isto é porque Carneiro é um líder que vai ter de pedalar muito mais do que os outros para se afirmar.
José Luís Carneiro.
Falta-lhe o quê? Carisma?
Carisma é mesmo aquela coisa impalpável.
Era aquilo que Pedro Nuno tinha a rodos. Repara no resultado. O carisma não é necessariamente a coisa mais importante do mundo.
Não é?
Não. Lá está, vê o caso de Pedro Nuno, a quem se atribui imenso. Vê o caso de António José Seguro, a quem não se atribui um carisma extraordinário e é presidente da República.
A minha pergunta é matreira, como todas as perguntas que eu faço. Ou seja, por mais que Carneiro vá às compras ou denunciar.
Não é um grande número mediático.
Também vai à praça. Nem se fala nisso.
Pois não é um grande número mediático, percebes? Quer dizer, quanto muito, no dia em que o Lula da Silva vem a Portugal, talvez devesse associar-se mais a isso, até porque sabia que o Chega ia fazer alguma coisa. Há muitos problemas com José Luís Carneiro, mas eu julgo que o carisma não é um dos cinco primeiros. O maior problema de José Luís Carneiro é ter de se equilibrar numa oposição que não se confunda com o Chega. Esse é o maior problema dele.
Essencialmente tem cinco.
Eu estava a pensar numa coisa que, na verdade, eu identifiquei desde o momento em que José Luís Carneiro entrou como secretário-geral, sendo que da primeira vez ele tinha alguma desculpa para o fazer, eu acho que desta vez ele não tem desculpa. Eu sinto alguma falta de coragem por parte de José Luís Carneiro em abanar o próprio Partido Socialista nas suas escolhas para os órgãos do partido, sem menorizar ninguém e sem estar a querer desvalorizar o valor que todas as pessoas que José Luís Carneiro escolheu para a direção do partido, o que eu acho é tudo mais do mesmo. E José Luís Carneiro está mais preocupado em manter a chamada paz interna, que é a tradução da minha própria sobrevivênciaÉ a minha própria sobrevivência. E em nome disso, vai tentar juntar as várias facções, os costistas, os seguristas, os sampaistas, os pedronistas, e está a tentar juntar todos os "istas" dentro da mesma direção. E era isso que ele estava a tentar fazer também com Duarte Cordeiro, numa tentativa de passar a imagem de que o partido está unido. Não sou ninguém para estar a dar conselhos a José Luís Carneiro, mas o que José Luís Carneiro devia fazer depois do que aconteceu ao Partido Socialista, que foi atropelado eleitoralmente como nunca tinha sido na sua história, era construir um Partido Socialista que se apresentasse ao país completamente renovado, não apenas nos seus rostos, mas nas ideias com que se apresenta ao país, naquilo que se propõe fazer como alternativa ao governo que está neste momento em funções. Ora, o que eu não consigo é esperar grande coisa desta direção de José Luís Carneiro, não apenas por causa do próprio, que é o número um, mas por toda a entourage que o envolve. Alguém está à espera que quem esteve no governo de António Costa vá defender coisa diferente daquilo que fez quando esteve no governo de António Costa? Alguém está à espera que quem esteve com Pedro Nuno Santos vá defender coisa diferente do que aquilo que a direção de Pedro Nuno Santos defendeu? Eu não estou.
Não há uma renovação, nem uma reflexão profunda sobre o que aconteceu ao partido.
E sobre o que o país procura neste momento. Claramente, o país também não acha que Luís Montenegro e o PSD sejam a última Coca-Cola no deserto neste momento, senão em duas eleições, em alguma lhe tinha dado maioria absoluta. Também não deu. E portanto, alguma coisa o país está à procura nos seus partidos políticos e nos seus líderes políticos, que claramente não está a encontrar. Eu acho que era isso que qualquer líder do Partido Socialista neste momento devia estar à procura. E eu acho que não é isso que José Luís Carneiro vai conseguir apresentando. O que nós estamos a ouvir falar do PS neste momento? IVA zero. O que nós andamos enquanto Pedro Nuno Santos lá andou como secretário-geral? IVA zero. Não há mais nada que se esperem.
Queres rematar?
Não, acho que o André não quer, porque acho que o Anselmo tem razão. Se eu rematar, vou estragar.
Então vamos a notas.
Em relação a esta questão do Duarte Cordeiro, por onde tínhamos começado.
Duarte Cordeiro case.
Eu vou dar nota a nós que temos que comentar tudo isso. E é uma boa nota, porque acho que vamos ter pano pra mangas com o Duarte Cordeiro à solta a comentar.
Mas queres quantificar?
É um 15.
Um 15 pra nós. Alexandre?
Sim, eu acrescentaria só o que dizia o Anselmo, e com toda a razão. Acho que José Luís Carneiro fica entre ter que fazer oposição, mas ter que parecer moderado em face do radicalismo do Chega, ter que parecer também moderado dentro do próprio partido, porque Pedro Nuno cometeu o pecado, aparentemente, e cometeria o pecado, ou mesmo Alexandra Leitão depois que pagou por isso.
Pedro Nuno está de regresso ao Parlamento.
Aí está a grande notícia. De serem muito radicais à esquerda. Portanto, fica entalado entre isso. Além de que sabe que tem que fazer a travessia do deserto de uma maneira ou de outra. Também não pode aparecer com uma mensagem fortíssima nisso. Mas concordo contigo, é muito difícil. É a quadratura do círculo ali. Duarte Cordeiro acho que faz, e para lhe dar nota, acho que faz uma coisa também interessante, acho eu, que é Duarte Cordeiro está a conseguir posicionar-se, talvez para futuro, como alguém que não seja detestado pela direita. Todos os outros estão muito conotados com o que foram os governos Costa, etc. E eu acho que o que Duarte Cordeiro está a fazer, que de resto em Lisboa tinha boas relações com a direita, também é fazer aquela pose do eu saí da política, eu andei nas empresas. A nota é um 12 pro Duarte Cordeiro.
Anselmo.
Eu vou roubar o 15 à Judite e é pra Duarte Cordeiro também. Acho que foi um ato de coragem.
Alexandre, vamos olhar pra Câmara de Coimbra, para a ex-vereadora do Chega, que agora é vereadora independente e aqui em declarações há cerca de uma hora, aqui na Rádio Observador, diz que é independente, que vai olhar caso a caso para o que é proposto e parece ter Ana Abrunhosa perdido uma eventual aliada que faria muita falta, uma vez que não está em maioria na Câmara Municipal.
Temos tido muitas notícias de Coimbra, não é?
Ainda bem.
É isso.
Um grande abraço pra Coimbra.
Grande abraço pra Coimbra, sempre bom saber notícias de lá. Mas neste caso a notícia não é extraordinária. Nós falamos aqui na altura desta nomeação de Maria de Alencar para gestora do ITAP, Instituto Técnico, Artístico e Profissional de Coimbra, e falamos disto a 9 de março, portanto aqui há a coisa louca de 41, 42 dias.
Sabes que em 40 dias acontece muita coisa.
Exato, é ler a Bíblia. Está lá tudo. Há um podcast muito bom numa rádio.
Histórias da Bíblia.
Exatamente. Mas nesse dia foi desde logo polêmico porque a oposição em Coimbra sinalizou isto como uma transação, basicamente uma troca de favores entre a vereadora Maria de Alencar, que foi eleita pelo Chega, depois tornou-se independente rapidamente, passou a apoiar, ou melhor, não formalmente, mas a votar favoravelmente a maior parte das decisões do executivo ou a abster-se, e portanto, nisto permitindo a governabilidade em Coimbra. E de repente vinha esta nomeação pra gestão desta escola. Ana Abrunhosa defendeu na altura dizendo que as duas coisas não estavam relacionadas. Eu recordo algumas declarações afirmando que defendeu o seu conhecimento técnico e profissional pro cargo, disse que Maria de Alencar era uma vereadora com comportamento correto e responsável. "É uma escolha", disse Ana AbrunhosaE falei e seremos positivamente surpreendidos. Fomos bastante surpreendidos. Ora bem, vocês pensavam que isto ia acontecer de uma maneira, mas não, isto é mais complexo do que isso. E disse que tinha a confiança política, que era determinante, mas também a capacidade de fazer era determinante para estes cargos. Foi isto. Ok, 40 dias depois, eu ouvi há pouco a senhora vereadora a falar, não tinha percebido as notícias, confesso. Depois de ouvir, continuei sem perceber exatamente o que se passou, porque neste dia em que foi nomeada gestora da escola, já estava prevista a fusão com as escolas dos outros municípios, de Oliveira do Hospital e de Tábua, e de Arganil, que pelos vistos não vai ser já.
Fez saber que não concordava com o plano.
A 9 de março, isso já estava na notícia. Portanto, não pode ter sido isto que surpreendeu a senhora vereadora. Do que eu vi aqui há pouco no explicador, ela disse duas coisas: não concorda com a mudança do sítio. Eu fiquei com a sensação de que o sítio, a infraestrutura em si, ela não gosta, acha que não é adequada, qualquer questão, e que não foi consultada, em particular. Ela disse: "Eu soube quando toda a gente soube o que estava a ser decidido". E às tantas também disse alguma coisa: "Eu não tinha que opinar, mas tinha que ser informada", algo deste gênero. E nisto fica um dos municípios mais importantes do país, refém deste gênero de impulso que a gente não chega a perceber muito bem. A senhora vereadora diz: "Eu sou independente e sempre fui." Eu acho que não. Ela tinha se candidatado como independente às eleições, é permitido em Portugal. Se vai pelo Chega em seis meses, ela candidatou-se pelo Chega, depois era independente a votar favoravelmente as decisões do Executivo. De repente, porque se passa isto também, não é só o fato dela ontem se ter afastado do cargo da gestão da escola. É também na reunião de câmara de ontem, ter começado a votar contra as decisões da câmara, pelo menos a notícia do Público descreve que o comportamento logo na reunião estava a ser diferente do habitual. Ela nega que estes dois factos estejam relacionados, tal como na altura da nomeação também se negou que estivesse relacionado. Mas são duas coincidências grandes. A minha nota, no fundo, e vou antecipar, vejo a apertar muito bem, a minha nota aqui vai para quem acredita que é assim que se renova a política em Portugal e havendo tanto a apontar aos grandes partidos, e apontamos aqui todos os dias o que há a apontar aos grandes partidos. Os novos partidos e mesmo muitas vezes estas candidaturas independentes, eu vou fingir que esta foi uma candidatura independente, não foi. Mas estas proclamações de independência que vêm supostamente para salvar ou regenerar a política em Portugal, e depois dão nestas coisas. As pessoas podem não fazer isto com uma má intenção, não estou a dizer isso, mas a sua ideia de independência não é compatível com a ideia do compromisso que de fato se faz com o eleitorado. Se eu quero ser independente, eu me candidato por um partido, no dia a seguir já não estou nesse partido e não tomo decisões baseadas em informações que pelos vistos eu não dominava completamente. Portanto, minha nota é um 18 para a pureza do coração das pessoas que acreditam nisto, porque todos devíamos ser assim tão otimistas.
Uau, note um 18. Vocês ainda querem ir a Coimbra ou querem passar para o Brasil?
Eu só queria dar uma sugestão. O Chega fez uma espécie de formação para autarcas recém-eleitos depois das autárquicas.
Teria um LP desse, acho que eu
Eu sugiro que para a próxima o Chega faça uma formação antes de eles serem eleitos. Acho que seria mais útil para o Chega, para os próprios autarcas e já agora para nós, que escusávamos de andar aqui agora quatro anos a levar com entra, sai, já não é do Chega, saiu.
Linha do autarca do Chega, boa tarde. Vamos à visita de Lula da Silva, Judite. Foi legal a dessa?
Vamos a isso. Foi legal. Acho que foi legal.
Foi?
Tivemos Lula a não esconder que não está particularmente contente. Veio de Espanha a elogiar o processo de regularização extraordinária dos imigrantes de Pedro Sánchez e chegou a Lisboa com uma pergunta: quando um país endurece as condições para quem já cá está, o que está a dizer sobre si próprio e sobre o valor que atribui à palavra lusofonia? São duas perguntas boas, nomeadamente porque objetivamente a lei ainda não foi promulgada, o PS vai pedir a fiscalização ao Tribunal Constitucional. É muito provável que o Tribunal Constitucional diga, de novo, que é inconstitucional.
Da sanção acessória.
Da sanção acessória, sim.
Que foi retirada da lei principal.
Foi retirada da lei. A questão que se põe aqui é que o presidente da República ainda tem que promulgar a lei, não a promulgou. A questão que se põe aqui é, sobretudo, o tempo mínimo de residência legal para pedir a nacionalidade, que passa de cinco para sete anos. Para os outros imigrantes, passou de cinco para 10, para os da CPLP, passou de cinco para sete. E depois há essa questão da perda da nacionalidade como pena acessória. A questão aqui é que esta lei só teve o apoio do Chega e do PSD, obviamente. E, portanto, meio milhão de brasileiros que estão registados em Portugal, pessoas que vieram, ficaram, trabalham, pagam impostos, criam aqui os filhos. Para muitos, a nacionalidade era um passo natural. Agora, o facto de as regras mudarem a meio do caminho, nós há bocado ouvimos aqui um advogado especialista nesta área que nos explicou claramente que para quem o processo está em andamento, nada muda. O problema é para a quantidade de pessoas que tenta pôr um processo em andamento, mas não tem, porque há, mas não dá vazão. E para essas a lei muda. E daí também ter havido uma corrida recenteE tem havido descrições de pessoas que passam a noite à porta da AIMA pra conseguir ter uma senha no dia seguinte de manhã. Segundo se diz, hoje o Lula veio cá, ontem a AIMA abriu às 6 h da manhã pra começar a trabalhar. Não sei se é em honra de Lula da Silva, mas começou a abrir mais cedo pra dar vazão às pessoas que está a atender.
Há duas visões completamente distintas, e isso foi apesar de todo o linguajar diplomático. A conferência de imprensa entre o Lula da Silva e Montenegro, muito marcada pela boa disposição, umas piadas sobre futebol, mas claramente há ali duas visões muito distintas sobre duas matérias muito relevantes: o tema da imigração e o tema do Médio Oriente e, sobretudo, Donald Trump. O Lula da Silva não se coibiu, até acho que ele estava a gozar o pratinho, quase a picar o Luís Montenegro com bocas sucessivas a Donald Trump.
Isso é muito complicado, porque Luís Montenegro está no plano. Portanto, não pode revirar os olhos e fazer outras coisas.
A sorte do Luís Montenegro é que ele está sempre com a mesma cara. Mesmo que estivesse num funeral, estaria exatamente com aquela cara. É uma coisa impressionante. Não sei se já pensaram nisso.
É poker face.
Não, ele está sempre com aquele sorriso.
Exato, exatamente.
Por isso é que eu disse, mas eu acho que se ele estivesse num funeral também estaria assim. Bom, o tema da imigração é particularmente relevante porque o que está a acontecer com a AIMA, não vale a pena estar a escavar essa história toda outra vez, não é grave, é muito grave em todas as dimensões, desde logo a dimensão humana. São pessoas, legais, ilegais, são pessoas. E o país não está a tratar pessoas como pessoas. Isto é, pra mim, o maior dos problemas. O segundo problema tem, obviamente, a ver com a segurança do país, com as regras do país e com esta ideia que existe mais ou menos hoje na sociedade portuguesa de que isto é um bocadinho à balda. E a terceira razão tem a ver com o fator econômico. Porque isto é tudo muito bonito, esta conversa, mas nós precisamos da mão de obra. Não é só da brasileira, nós precisamos da mão de obra qualificada, menos qualificada, as empresas e a discussão toda em torno do código laboral, parece que estamos todos aqui a inventar a roda e na verdade, o maior drama que as empresas enfrentam hoje em dia é a falta de mão de obra.
Ouvimos hoje aqui um número impressionante dos explicadores que tivemos aqui esta tarde na hora das 17h, em que se dizia, o presidente da AEP, a cada 100 saídas, entram 77.
Mas alguns dos 77 imigram.
Exatamente.
Ele também disse isso.
E isto é muito preocupante.
E portanto, eu acho mesmo que este tema tem que ser levado muito a sério. O Estado não está em falência apenas na regularização de imigrantes, está em falência em várias dimensões e, portanto, não seria de esperar outra coisa. Mas eu gostava que o governo, e eu sei que o governo está a fazer um esforço titânico para resolver os problemas da AIMA e os processos pendentes, e na verdade, se olharmos para o histórico dos últimos dois anos, nós temos que reconhecer que foi um esforço gigante, e não há de ser fácil fazer isso com uma máquina que não é só pesada, é pesada e pouco oleada, porque a AIMA também não tem assim tantos anos de existência. Mas ainda assim, eu acho que o governo não devia, se tivesse tanta pressa em acelerar este processo, como tem pressa a fazer outras coisas que eu acho absolutamente desnecessárias e irrelevantes pra vida do país, porque lá está a dimensão humana. Eu passei a conhecer casos, eu acho que é impossível, são tantos imigrantes que é impossível nós não conhecermos casos de pessoas que pediram renovação de residência, já cá estão, é pedir a renovação, e estão há seis meses à espera, sete meses à espera e não sabem sequer se estão ilegais. E tentam ligar pra AIMA e ninguém atende o telefone, e tentam ir lá e não conseguem, e tentam mandar e-mail e não têm resposta.
E não podem sequer ir ver a família.
Não podem ir ver a família.
Não se arriscam a sair.
Ó Ricardo, problema de pânico é: havia uma empregada caseira brasileira que perguntava: "Eu não sei sequer se estou ilegal. Eu não sei se estou legal, ilegal, se estou aqui no intermédio." Pronto. E portanto, estes encontros com o Lula da Silva, não são relevantes apenas pela divergência política e de visões que há objetivamente. Eles são de quadrantes políticos completamente diferentes, mas eu espero que eles sejam relevantes também para tratar, na prática, de agilizar processos, porque obviamente o Lula da Silva não se pode imiscuir na política nacional.
Vamos às notas, Anselmo, tens uma nota?
Eu, apesar de tudo, apesar dos problemas que existem, eu não posso não dar uma nota positiva ao governo. Não estou a falar nem da lei da nacionalidade, só pra que fique claro, nem da lei da imigração. Estou a falar do processo de regularização que o governo tem levado a cabo nos últimos dois anos, e eu acho que tem sido feito um esforço brutal e, portanto, eu não posso deixar de dar um 12 por esse esforço, que é partilhado entre o governo, já agora, e os funcionários da AIMA, que são os que sofrem mais com isto.
Judite.
Eu não vou dar nota à lei da nacionalidade porque já dei, mas vou dar nota a Lula da Silva, porque eu acho que quem não defende os seus, faz mal. E, portanto, acho que o Lula da Silva fez muito bem em mandar as bicadas que teve que mandar quando esteve aqui hoje.
Não te ouvimos sobre Lula, Alexandre, mas se quiseres dar uma nota.
Só a nota.
Só a nota. Menina que só dá a nota. Exatamente, já percebi. Olha, dou um sete ao CHEGA, porque acho que segue a estratégia completamente errada nisso. Nem acho escandaloso aquilo que aconteceu um dia no 25 de Abril, isso aí eu compreendi, posso compreender, não é que concordo, mas posso compreender como manobra. Já dei um sete porque não compreendem. Se um dia tiverem a ser governo, em termos práticos, têm de pensar num parceiro como o Brasil, até em termos energéticos, na importância que tem pra Portugal. Hoje houve manifestação à frente do Palácio de Belém. Amanhã há mais "E o Vencedor É?", nas manhãs 360. Amanhã o Miguel Santos Carrapatoso junta-se ao José Manuel Fernandes, ao Paulo Ferreira e ao Bruno Vieira Amaral.