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Está no ar o Ювенсуре das manhãs 360, que também pode acompanhar com imagem nas nossas redes sociais e site do Observador. E Carla, esta segunda-feira dão notas o Bruno Vera Amaral, o José Manuel Fernandes e o Luís Rosa.
O pior das tempestades já terá passado, o que permite fazer um primeiro balanço da gestão política e agora que se aproxima o dia 9 de março, também é possível olhar para o papel de Marcelo Rebelo de Sousa. Está quase a deixar o cargo. Isto já dá pra fazer um balanço, Bruno?
Sim, dá pra fazer um balanço. Já tenho comentado aqui esse legado que Marcelo Rebelo de Sousa deixa, um legado que do ponto de vista institucional pra mim é negativo para a função de presidente da República, mas há coisas positivas dos mandatos de Marcelo Rebelo de Sousa e que muitas vezes até talvez por um certo exagero ou uma excessiva exposição em determinados momentos, também nos tem parecido que é um defeito, mas eu não vejo como defeito essa proximidade com as pessoas. Eu lembro sempre de uma crônica que o Mário Vargas Llosa um dia escreveu, creio que na crônica que tinha no "El País", e que ele contava uma visita a Portugal na altura em que Mário Soares ainda era presidente da República e de como tinham tido um jantar, e Mário Soares tinha chegado sem segurança, e tinham ido a um restaurante e não passaram à frente de ninguém, estiveram ali à espera a conversar e Mário Vargas Llosa dizia que aquilo lhe parecia próprio do país mais civilizado do mundo, em que o presidente da República chega sem grande aparato, normalmente sem segurança, sem todo aquele fausto dos presidentes da República, provavelmente estaria a imaginar-
Da América Latina.
Da América Latina, precisamente. E que isso lhe pareceu próprio de um país civilizado. Creio que esta história será do final dos anos 80 ou do início dos anos 90. E Marcelo Rebelo de Sousa, à sua maneira, com a proximidade junto das pessoas, dos cidadãos, nos diversos momentos, eu creio que manteve esse lado informal, de proximidade, que é também reconfortante do ponto de vista democrático. Ou seja, isto parece que pode ser apenas espetáculo ou pra fora, ou até pode corresponder a um determinado perfil psicológico do próprio Presidente da República, mas eu acho que é algo que deve ser preservado.
Lembram-se daquela fotografia do Marcelo Rebelo de Sousa em calções na fila do supermercado com o cestinho na mão, nas compras? Essa imagem também saiu do país.
Há várias de Marcelo Rebelo de Sousa. Algumas nós podemos dizer: "Bem, isso aqui já passaram certos limites." Mas eu estava a trazer isto porque eu vi nestes últimos dias no terreno, a visitar as zonas afetadas pelo mau tempo e a falar com pessoas e ainda a tirar selfies. Ainda havia portugueses que não tinham selfies com Marcelo Rebelo de Sousa. E eu acho que isso deve ser preservado honestamente, não só nos momentos de crise, mas no fundo, de tirar aqui um certo peso que nós às vezes temos num país que ainda é o país do respeitinho. Não é para ser o tocato lá com os políticos ou com o presidente da República, que tem que manter também uma certa aura. Eu acho que também faz parte essa certa distância, mas ao mesmo tempo, a proximidade num país como Portugal, faz falta. Ou seja, alguém que funcione como esse ponto de ligação com as pessoas comuns. E eu acho que isso não foi mau, das coisas más que o legado tem, do legado de Marcelo Rebelo de Sousa, os mandatos tiveram. Esta não é certamente uma coisa má. Eu acho que isso foi importante, e foi importante no momento. Nós também estamos sempre a dizer que o presidente que vem marca diferenças em relação ao antecessor. E nós sabemos que Cavaco Silva não é propriamente um exemplo, nunca foi de grande proximidade. Quer dizer, nunca foi, não é bem assim. Na altura em que era primeiro-ministro, eu lembro-me dele em campanhas eleitorais e de fato havia uma ligação, mas havia sempre também uma certa distância e sobretudo no exercício do cargo de presidente da República, ele foi sempre muito institucional, o que não é mau quanto a mim, mas fazia falta, e na altura nós sentimos essa falta, e Marcelo Rebelo de Sousa falava da descrispação, talvez mais da descrispação política, mas Portugal precisava naquele momento de um presidente que fosse um pouco mais próximo, estivesse mais próximo das pessoas, ouvisse também as pessoas. O problema não foi o que Marcelo Rebelo de Sousa ouviu, foi muitas vezes o que ele disse e os exageros e os comentários a despropósito, que eu acho que isso, para António José Seguro, se ele quer marcar também diferenças, e já o anunciou de certa forma, em relação a Marcelo Rebelo de Sousa, as diferenças devem ser nesse uso estratégico e ponderado e moderado da palavra, e não tanto na questão da proximidade com os cidadãos. Agora que já são conhecidos os resultados definitivos, António José Seguro tem aqui um mandato muito reforçado. Nós sabemos que se ganhasse por um voto, não perdia legitimidade, não tinha mais legitimidade, mas acaba por ser um pouco diferente uma vitória tão tão substancial, tão expressiva de António José Seguro. Se ele quer marcar, e eu creio que todos os presidentes procuram fazer diferenças em relação ao seu antecessor, eu acho que o deve fazer do ponto de vista mais institucional, mas deve de alguma forma preservar isto que é muito positivo, que é esta proximidade com as pessoas, não só nos momentos de catástrofe, mas de fazer sentir a presença humana do poder político.
Uma dessacralização.
Uma dessacralização. Acho que é preciso um equilíbrio. A questão da imagem, isto vem desde os reis. Os reis antigamente não apareciam, a maior parte do povo nunca via o rei ao longo da sua vida. O poder manifestava-se através de símbolos e esses símbolos são importantes para reafirmar também o poder. E no caso da Presidência da República, eu acho que também deve ser mantido, se quiseres usar essa expressão, uma certa sacralização desses elementos, eu acho que também é importante, mas ao mesmo tempo, trazer o poder para junto das pessoas, o poder político, fazer com que as pessoas se sintam ouvidas, sintam a preocupação de quem exerce estes cargos, eu acho que pode servir aqui até quase como um amortecedor de algumas tensões políticas. Creio que foi esse o objetivo de Marcelo Rebelo de Sousa em um determinado momento. Depois teve outros aspectos negativos, que eu acho que foi um uso excessivo da palavra em momentos em que se recomendava se calhar silêncio e alguma distância por parte do Presidente da República, mas não necessariamente nestes casos do contato com as pessoas, sobretudo nos casos de catástrofes, tragédias, em que faz diferença, de fato, essa proximidade. E isso eu acho que é um patrimônio político não só de Marcelo Rebelo de Sousa, mas da nossa democracia. E perder isso, eu acho que seria uma perda adicional para a nossa democracia, que institucionalmente já tem tantas fragilidades. Então uma nota positiva para Marcelo Rebelo de Sousa, que tem dado muitas notas negativas por esse aspecto da sua presidência, dos seus dois mandatos, e aqui também para António José Seguro, para aproveitar aquilo que de bom fica desses mandatos de Marcelo Rebelo de Sousa, mas dou um 15 a Marcelo.
Um 15 a Marcelo. José Manuel Fernandes, fazes também um balanço mais benigno do Presidente da República, que está quase a deixar de o ser? Tu que também tens sido crítico dele muitas vezes. Não consegues?
Não, não consigo, porque, por exemplo, eu não gostei de ver a prestação das últimas três saídas ao terreno, que ele dizia que eram incógnitas, e depois foi com as câmeras atrás e esteve a falar às vezes 40 minutos seguidos entre um copo, um chapéu, umas frases que exigem sempre aquela tradução, o que ele quer dizer com isto, pra quem é que é o recado, pra quem é que não é o recado, o que é que é importante, o que é que não é importante. E vamos lá ver. Uma coisa é dar às pessoas a percepção de que o poder político não está ausente e que está próximo. E é importante que muitas vezes os políticos estejam no terreno, não apenas para isso, e porventura até às vezes nem sobretudo para isso, mas para terem noção da dimensão real dos dramas. Mas nós sabemos que em mais que uma ocasião, este lado frenético de Marcelo Rebelo de Sousa criou problemas que aliás começaram por notar no início desta crise. Depois do seu comportamento nos desastres de 2017, os fogos de 2017, criou-se o dogma de que as lideranças políticas não iam ao terreno e só iam ao terreno quando tudo tivesse acabado. E esse dogma caiu estrepitosamente desta vez. E não sabemos o que é que vai acontecer da próxima, não é? Porque isto é como os portugueses, a gente muda de um dia pro outro, estamos quente ou frio, conforme o lado de onde sopra o vento. E das próximas vezes vão ou não vão aparecer os líderes políticos. Tinha-se estabelecido aquele paradigma que era eles estão na sede da Proteção Civil. E desta vez isso não chegou. E Marcelo voltou a contribuir pra que isso não chegasse. Mas é isso o correto, é desta maneira que se deve fazer. Uma coisa é dar uma percepção de proximidade, outra coisa é atrapalhar. E a separação entre uma coisa e outra, mais uma vez, ficou confusa nestes últimos dias. E mais confusa ainda pela forma, por exemplo, como o presidente interveio, porque ia deixando um recado aqui, ia deixando um recado acolá, às vezes falava de coisas importantes, às vezes falava de banalidades, depois punha-se, sei lá. Nestes últimos dias, de repente, falou do fundo de calamidade. O fundo de calamidade é um tema que até já foi aqui discutido na rádio logo nos primeiros dias, e tem a ver com como é que se constitui. Não é só dizer que há muitos milhões lá. O problema é saber como é que os milhões vão pra lá e qual é a regra e o que isso implica do ponto de vista não apenas do Estado por lá milhões, isto é, dos contribuintes por lá milhões, mas também de haver responsabilidades partilhadas, porque é esse o princípio do fundo de calamidade. E não é apenas dizer, é melhor pôr num saco muito dinheiro. Se calhar outra coisa que é preciso dizer é assim, se nós hoje temos o seguro de responsabilidade civil obrigatório em todos os automóveis, e isso é obrigatório por lei, isso representa um esforço pra todos os proprietários de automóveis e não pra quem não tem automóvel. E foi definido como tal para evitar que quem tivesse pagasse muitíssimo mais, porque o risco que teria que suportar era muito superior. E, portanto, o valor desse seguro ficou mais baixo, de alguma forma, pra todos. Se queremos ter um fundo de calamidade que corra situações de emergência, por exemplo, na agricultura, é preciso que haja também seguros obrigatórios para o fundo de calamidade não ser sempre o mesmo a pagar tudo. E este aspecto da discussão, que de repente ele manda no meio do ar, entre um copo de vinho, o chapéu na cabeça, um abraço a um presidente de câmara, a uma presidente de câmara, e depois um abraço a um cidadão e mais uma selfie. Fala do fundo de calamidade e desperte-se no meio disto tudo. Eu não sou capaz de alinhar nisto. Uma coisa é ficar na fila, não passar à frente dos outros, de calções no supermercado ou à espera do lugar à mesa no restaurante, que são valores de civilidade. Com Marcelo Rebelo de Sousa nunca me aconteceu, mas com Mário Soares aconteceu, de estar num restaurante e vê-lo chegar, pelo menos não se viam os-
Os seguranças
...não se viam seguranças. E por acaso até teve graça, porque ele na altura ia com o antigo presidente do Brasil, com o Fernando Henrique Cardoso, e os empregados do restaurante eram brasileiros e perguntavam uns aos outros quem era aquele senhor que estava com o presidente deles. O que era curioso. E que todos os outros clientes do restaurante estavam a comentar. Fora feita esta pequena aparte, isto é muito agradável, é muito simpático, mas as mensagens políticas são relevantes. E eu devo dizer que comparando com aquilo que até o momento tem feito António Guterres Seguro, vamos ver se acalmamos um pouquinho. Uma pessoa pode ir ao terreno sem imediatamente não ir atrás nem as selfies, nem as câmaras de televisão. Fomos informados que António Guterres Seguro, nestas calamidades da campanha, foi ao terreno, mas não há imagens disso. Não houve apenas a preocupação de não levar o comboio de seguranças atrás ou à frente, ou a preocupação de o fazer realmente discretamente, coisa que com Marcelo nunca aconteceu. Eu gosto muito do lado de proximidade e de descompressão que, para todos os efeitos, a maior parte dos nossos políticos têm ainda. Gosto imenso de Portugal não obrigar que uma pessoa cada vez que se mexa tenha que ir com um segurança atrás, porque não temos neste momento, já tivemos no passado e ainda este fim de semana, quem leu o "Observador" pode ver uma altura em que isso aconteceu e houve pessoas assassinadas. Neste caso, fez 40 anos que foi assassinado Gaspar Castelo Branco, diretor-geral dos Serviços Prisionais, e há um magnífico texto sobre isso escrito pelo filho aqui no "Observador", que foi publicado ontem. Mas independentemente disso, não nos obriga a andar sempre com seguranças atrás. Em Espanha, nos tempos da ETA, isto era impensável. A pessoa não podia ir ao cinema. E sabemos que houve países em que isso não era impensável, as pessoas também andavam discretamente pela rua e o primeiro-ministro sueco, por causa desse à-vontade, acabou por ser morto no meio da rua sem que ninguém o protegesse. Vamos lá ver, estamos em tempos que em Portugal são melhores do que são noutros países, e eu gosto disso, gosto também de proximidade e calor humano, mas tudo o que é exagero é moléstia, como diz o povo. Vou ser até relativamente generoso e vou me aplicar pelo 10 do Marcelo Rebelo de Sousa, mas não consigo acompanhar o 15 do Bruno.
Eu queria ser generoso nesta segunda-feira antes do Carnaval.
O Bruno está a ver a despedida do Marcelo e aproxima-se e já está nostálgico.
Já bati tantas vezes. Há que sublinhar, pelo menos uma vez, os aspetos positivos que têm também a presidência de Marcelo.
Luís Rosa, tu queres olhar mais concretamente para a forma como vários protagonistas lidaram com a tempestade, também com o Marcelo?
Sim, também começando por Marcelo Rebelo de Sousa. Eu confesso, sem entrar agora aqui muito neste debate entre o Bruno e o José Manuel, mas estou um pouquinho mais próximo do José Manuel, porque também não apreciei muito o estilo do Marcelo, mas as minhas razões para criticar o seu mandato até são outras, mas ficam para outra-
Ainda temos tempo.
Temos tempo. Até à tomada de posse de António Guterres Seguro, vamos ter tempo para isso. Mas eu gostava de fazer aqui um primeiro balanço geral sobre esta tempestade, sobre esta calamidade que assolou o nosso país, e gostava de retirar aqui algumas conclusões, porque elas até podem ser óbvias, mas acho que é importante constatá-las, porque tivemos muitos dias a falar disto e é importante fazer aqui uma espécie de ponto de ordem. Eu acho que realmente o país, o que está evidente, o país não está minimamente preparado para fenômenos climáticos como este, seja ao nível das infraestruturas de energia, de comunicações rodoviárias, ferroviárias, ao nível da proteção civil, que falhou nos primeiros dias de crise. Alertou, mas não preveniu, não soube antecipar a gravidade das tempestades que vinham aí. Ao nível da coordenação política, o governo ao mais alto nível falhou na avaliação das consequências nos primeiros dias. E eu pareço, começando aqui falando de um protagonista, a única pessoa no governo que esteve de fato à altura dos acontecimentos foi Maria da Graça Carvalho, a ministra do Ambiente. Quando se colocou a questão das saias, fez tudo aquilo que não foi feito antes. Agiu de forma preventiva, coordenou as diversas autoridades sobre esta matéria e também a relação com Espanha na gestão das barragens. E um parêntesis muito rápido pra dizer que Graça Carvalho ontem esteve muito bem quando demitiu o coordenador da estrutura de missão para as energias renováveis, Fábio Alves Teixeira, uma nomeação que mais parece, de fato, uma nomeação de um boi político. Resta saber se Maria Graça Carvalho ainda mantém confiança política em Jaime Barroca, que é o secretário de Estado de Energia, que assinou esta nomeação. Mas fechando esse parêntesis. Ao nível das autarquias, as autarquias de Leiria e de Coimbra, também é justo deixar aqui um elogio, que é ao Gonçalo Lopes, presidente da Câmara de Leiria, e que era Ana Brilhosa, presidente da Câmara de Coimbra, que estiveram à altura dos acontecimentos ao nível da emergência. Agora, resta falar do futuro. Luís Montenegro e o seu governo, acho que têm aqui uma oportunidade Neste fim de semana, o João Vieira Pereira, no seu editorial do Expresso, recordava isso e eu concordo inteiramente com o que ele disse. Nestes últimos dias viu-se uma melhor coordenação entre as diversas autoridades e conseguiu-se aplicar a máxima do alerta e da prevenção, de forma a evitar mais mortes. Mas agora segue-se a reconstrução e a muito curto prazo vamos sentir consequências económicas duras, nomeadamente naquelas áreas mais afetadas, com eventualmente o aumento do desemprego, um menor crescimento do PIB a nível nacional e também o regresso do défice orçamental para acudir precisamente às zonas mais afetadas. Mas a reconstrução, como eu estava a dizer, pode ser uma oportunidade para o governo e uma oportunidade a vários níveis. A reconstrução propriamente dita, que pode gerar crescimento económico por si próprio. Esta reconstrução vai acontecer com regras extraordinárias ao nível da contratação pública, ao nível das autorizações administrativas, regras muito extraordinárias. Vamos ver se estas regras muito extraordinárias eventualmente também não podem gerar lições para o futuro, precisamente de menor desburocratização. Também há riscos de corrupção, mas vamos ver se conseguimos fazer isto com um resultado muito mais positivo do que negativo. Também vamos ter condições extraordinárias ao nível do financiamento. O governo anunciou o tal PRR português. Isto tudo junto pode ser uma oportunidade para cumprir o tal prazo de um ano, que foi adiantado pelo ministro adjunto Gonçalo Matias. E é uma oportunidade também para aplicar reformas que este governo tem sido muito criticado por não fazer a reforma suficiente, apesar de não ter maioria absoluta, tem que negociar com os partidos da oposição, mas pode ser uma oportunidade para este campo. Ao nível da proteção civil, vai ser também fundamental estudar o que é necessário mudar em termos de infraestruturas de energia, de comunicações, rodoviárias, ferroviárias, e aplicar o que se vai estudar, porque nós fartamo-nos de estudar, mas para aplicar não somos propriamente o país de referência. Mas temos que estudar e aplicar. E se isso acontecer, esse investimento público em infraestruturas também pode gerar, por si só, crescimento económico. Isto é uma oportunidade a diversos níveis. Agora, se o governo e se o Luís Montenegro não aproveitar esta oportunidade, este pode ser mais um dossiê para uma desilusão do eleitorado da AD com o Luís Montenegro. Vamos ver se o governo tem mãos para agarrar estas diversas oportunidades.
Há também aqui um papel grande, e houve um papel grande dos autarcas também. Queres falar sobre eles, não é?
Sim, eu acho que a Ana Abrunhosa se destacou claramente e foi uma ministra do governo de António Costa que teve resultados. Não se adivinhava estes elogios tão quase unânimes à Ana Abrunhosa, ao próprio fundo de crítica da Ana Abrunhosa como ministra de António Costa, mas acho que ela esteve muito bem. Foi elogiada de forma unânime. Eu acompanho esses elogios. Acho que esteve muito bem, não só ao nível da mensagem política que passou no momento de maior aflição. Gerou confiança aquela mensagem política que ela passou no sentido de prevenir.
Lá está, a comunicação, que é a questão que foi muito falada também.
E medidas de prevenção. Não é só dizer: "Está tudo bem, estejam tranquilos." Foram medidas de prevenção que às vezes não são assim tão fáceis de tomar, porque depois há sempre críticas.
Pré-anunciar a evacuação, a retirada de casa de 9 mil pessoas, que não aconteceu.
40 minutos ou 45 minutos depois de o ministro da Administração Interna se demitir, que é uma coisa extraordinária.
Depois há sempre críticas do outro lado, e nós temo-las visto e ouvido, por exemplo, a propósito dos avisos da Proteção Civil: "Bem, agora estão a avisar e depois não acontece nada." E aqui foi feito um aviso de que podia haver zonas evacuadas, e não estamos a falar da retirada de 100 ou 200 pessoas, seriam milhares de pessoas tiradas.
9 mil pessoas.
9 mil pessoas.
Que não foi necessário, mas foi pré-anunciado. E não gerou pânico, gerou informação.
Mas espera, mas no primeiro momento talvez foram 3 mil que foram evacuadas. No primeiro momento foram as 3 mil daquelas zonas mais pequenas, povoações à volta. Mas havia esse plano para evacuação de cerca de 9 mil pessoas, e foi anunciado se fosse necessário. Ora, nós sabemos que nestas situações há sempre quem critique estar a gerar-se aqui um alarme desnecessário. Mas a verdade é que nós, perante estas tragédias que temos visto nos incêndios, mais vale prevenir do que remediar mesmo. Eu concordo inteiramente contigo. Pegando no que a Carla estava a dizer, acho que a comunicação não pode ser desvalorizada, porque lá está, a Ana Abrunhosa é um bom exemplo disso. A comunicação fez com que ela tivesse autoridade política, reforçou a sua autoridade política e também reforçou a confiança que os cidadãos devem ter no Estado. Acho que nesse aspecto a comunicação que ela teve foi impecável e acho que podia até ter sido criticada por exagerar, mas de facto naquele momento mais valia prevenir do que remediar. E acho que ninguém a criticou por não ter sido necessário evacuar as pessoas.
Não sei. Não sei se não houve críticas.
Na minha opinião, acho que ela fez bem.
Houve algumas críticas.
Obrigado.
Não era claro, na altura em que ela fez aquele anúncio, que os valores indicados fossem sequer possíveis de acontecer. Ela falou num nível de cheia que, enfim, não sendo inédito no Mondego, 3 mil metros cúbicos por segundo, era 50% superior àquilo que estava a acontecer naquela altura. E portanto, com a informação existente, era difícil prever que aquilo pudesse acontecer. Mas não interessa, ela fez aquilo. O que eu gosto sempre de sublinhar é o seguinte: é muito mais fácil gerir uma cheia do que uma cheia lenta, como foi a cheia do Mondego, com barragens que podem deitar mais ou menos água ao longo de semanas, que foi o que aconteceu, do que, por exemplo, uma cheia rápida numa bacia pequena, como foram, por exemplo, as cheias de Sintra e Lisboa, que não têm nada a ver com estas, são completamente diferentes na sua fisionomia, e ainda mais difícil de gerir, por comparação, com uma tempestade como a de Leiria, que ninguém sabia que ia ser violenta, mas nunca tinha acontecido nada tão violento em Portugal. Portanto, a diferença é: eu posso tirar pessoas de casa, eu não posso desmontar as linhas de alta tensão Caíram. Ou faziam outro.
Mas pode haver, de facto, medidas e essa poderá ser uma lição do que se viveu agora.
O que é que se podia ter feito? Até hoje ainda não vi ninguém dizer o que se podia ter feito para evitar o que aconteceu em Leiria, porque não se podiam desmontar as chaminés, não se ia dizer às pessoas para saírem de casa. Não houve problema. Estamos a falar de coisas completamente distintas e às vezes tudo é amalgamado como se fosse tudo a mesma coisa e não é. As cheias do Mondego, agora há poucas, no passado havia todos os anos, ou praticamente todos os anos. Esta foi particularmente grande. Talvez não tenha sido a cheia centenária, como se disse que viria a ser, mas até isso pode ter sido. Só que no tempo das cheias centenárias, 3 milímetros de água por segundo é um valor que aparece referido na literatura científica como tendo acontecido no passado. Portanto, não seria uma novidade. Agora, nós não sabemos se isso podia ter acontecido ou não, se não existisse aigueira, se não existisse o sistema de barragens a montante e se não existisse o sistema de ices jusante. E isso só saberemos quando forem feitos os cálculos, que eu espero que sejam feitos em breve, os cálculos de toda a quantidade de água que caiu naquela bacia e perceber até que ponto é que as infraestruturas humanas preveniram algo que podia, de facto, ter sido muito pior. E aí, de facto, fundamental foram os serviços da Maria da Graça Carvalho, que geriram as barragens, que era muito difícil de fazer de uma forma como foi feito até agora.
E a intervenção da APA e o aconselhamento técnico. Estamos mesmo em cima da hora, Luís Rosa, as tuas notas para o que ouviste?
Vou dar muito rapidamente. Ao Luís Montenegro eu dou um 10, porque apesar de tudo, ele melhorou a sua performance política nos últimos dias. A Maria Garcia de Carvalho, a Ana Abrunhosa e o Gonçalo Lopes, o Dom 14. Acho que foram os protagonistas desta crise, acho que é justo elogiá-los. Nem tudo é mau, é importante também puxarmos pelo lado positivo.
E hoje houve mesmo vencedores a sério e o vencedor é regresso a mais logo na tarde política.