Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

E o Vencedor é na Rádio Observador, hoje com a Raquel Bocasis, Filomena Martins e Alexandre Borges. Vamos falar sobre a entrevista de Passos Coelho, hoje publicada no jornal Eco, também da recandidatura de José Luís Carneiro sem oposição à liderança do Partido Socialista. Mas começamos pelo tema quente do momento, Filomena, a utilização da Base das Lajes para o bombardeamento do Irão. Amanhã vamos ter aqui a entrevista de Paulo Rangel, no Manhãs 360, no Explicador das Manhãs. O ministro dos Negócios Estrangeiros será também chamado ao Parlamento para explicar, afinal, que utilização foi esta da Base das Lajes e Lisboa sabia ou não sabia das intenções de Washington em relação ao Irão. Filomena, que comentário é que tudo isto te merece?

Já há um acordo, e é um acordo jurídico, e nós sabemos que quando há um acordo jurídico, a leitura jurídica desse acordo tem as leituras que qualquer jurista pode fazer e que são as que tu quiseres. Mas mais do que isso, nós sabemos que neste momento a Base das Lajes voltou ao centro da geopolítica e que não foi no quadro da NATO, porque este ataque ao Irão não foi uma operação da NATO, foi uma ação unilateral dos Estados Unidos e de Israel. Esse é o ponto essencial. Não houve um mandato coletivo, nem enquadramento formal na aliança. Entrou em campo só o acordo bilateral de defesa e cooperação que existe desde 95 entre Portugal e os Estados Unidos. E que acordo é este? Acho que ninguém sabe bem, em concreto, o que lá está escrito. É um instrumento jurídico e tem a tal leitura jurídica que todos podem usar e que eu acho que pode ter muitas leituras. O governo já confirmou que foi feito o cumprimento desses acordos estrito e tomou uma posição política. Sr. Ministro da Defesa falou em contactos institucionais que existiu no contexto da guerra. O Executivo açoriano confirmou que o acordo foi respeitado. O próprio Rangel já disse que foi tudo respeitado. Nós sabemos que no terreno sim, que aviões reabastecedores, esqueci os nomes dos aviões, que não são propriamente do meu conhecimento, mas serão os tais KC-46 que levantaram voo da Terceira.

Não confundir com os KC-47.

Nada.

Eu não faço ideia se existem. Estava só fazendo uma piada.

O que eu tenho a dizer é que no comunicado oficial, Portugal condenou o programa nuclear iraniano, a repressão interna do regime e as retaliações contra os países da região. E em nenhum momento houve condenação do ataque americano. Isto é uma posição política clara. Portugal tem uma tradição atlântica que vai além de Trump, aliás, Trump está de passagem, como todos os líderes, e as nações é que vão ficar. E desde 44 e depois, sobretudo, desde 95, o acordo assinado por Cavaco Silva, Portugal escolheu estar sempre do lado da aliança atlântica. Nunca foi neutro neste papel no Atlântico. Foi discreto, mas foi sempre consistente. E há aqui um realismo estratégico e não há um improviso ideológico. Eu não acredito que qualquer governo português, mesmo que tivesse sido liderado pelo PS, tivesse assumido uma posição diferente neste caso. Aliás, José Luís Carneiro continua em silêncio, o PS continua em silêncio, e isso tem que ter também uma leitura política. O nosso posicionamento histórico diz respeito aos nossos interesses económicos, mas diz respeito também à defesa. E Portugal depende da NATO e da aliança com os Estados Unidos pra sua segurança, isso não há dúvida nenhuma. Podemos agora discutir forma, tom, clarificação, que pode ser feita amanhã aqui por Paulo Rangel, mas a escolha estratégica de fundo, eu acho que dificilmente seria outra. E independentemente do unilateralismo deste ataque, a questão do programa nuclear iraniano ameaça a paz global e mais especificamente o tratado de não proliferação de armas nucleares. Portanto, Portugal estar do lado de quem quer acabar com esta ameaça parece algo que faz todo sentido, já não falando com o acabar de um regime ditatorial que não hesita em matar os seus cidadãos que protestam em prol da abertura do regime. Portanto, eu acho que os líderes passam, as alianças ficam e Portugal historicamente sempre soube de que lado está no Atlântico e neste caso, até da história. Portanto, peço perdão por esta minha opinião, que sei que desagradará a muita gente, mas eu acho que estamos do lado certo da história.

Ainda há pouco ouvimos aqui dois deputados, três, mas dois deputados no PS, outra do PSD, os dois darem as tais visões diferentes sobre os mesmos artigos, sendo que a deputada Regina Bastos do PSD dizia que até à primeira bomba cair não se sabia o que é que os americanos estavam a fazer nas Lajes. E Raquel, é uma polêmica que faz sentido pra ti ou não?

É política caseira. Eu, aliás, ouvi esse debate e pareceu-me que o deputado socialista se refugiou ali, se tinha que ser, se a tal alínea do acordo ou de um acrescento ao acordo que foi feito em 2017 obriga ou não a reportar essas operações na Base das Lajes, mas ele foi muito cauteloso sobre a posição que Portugal deve assumir em relação a esta-

Estava muito em cima do muro, não é?

É, estava muito em cima do muro e muito a não querer colocar-se, podemos simplificar, na posição espanhola. E isso tem a ver com o que a Filomena estava a dizer. Eu também não acredito que fosse qual fosse o governo que estivesse à frente dos destinos nacionais, a não ser talvez fosse uma aliança entre o Bloco de Esquerda e o PC, que duvido que algum dia venha a ser governo em Portugal, qualquer outro governo tomaria a mesma posição. Enfim, depois há uma questão de retórica e, portanto, o Partido Socialista chama o ministro ao Parlamento porque isso faz parte do cumprimento do seu papel de partido da oposição. Mas eu imagino, até por aquilo que foi dito, que essa audiência vai ser feita à porta fechada, porque os temas são confidenciais e vai sair de lá tudo muito tranquilo com, de facto, as explicações que o ministro deu. Eu acho que isto é realpolitik. Acho que Portugal E do meu ponto de vista, também bem, privilegia a relação transatlântica. É verdade que os líderes passam e as relações ficam. E acho que isso não tem sequer tanto a ver só com o facto de Portugal ser membro da NATO e de outras organizações em que está a par com os Estados Unidos. É também pela nossa posição geográfica e porque a nossa grande mais-valia é sermos, no fundo, a outra margem do Atlântico em frente dos Estados Unidos da América, e isso tem nos trazido sempre conforto, vantagem e foi reconhecido. Portugal foi o quinto país a reconhecer a independência dos Estados Unidos. É uma história longuíssima, de grande tradição, e que tem que ver com uma aliança que para nós é um apor a todas as organizações internacionais em que nos integramos, incluindo a União Europeia. E portanto, acho que Portugal não teria capacidade sequer para dizer que não. E eu recordo só aqui, a propósito das Lajes, um problema que existiu, e imagino que este acrescento de 2017 tenha sido na sequência disso, quando os Estados Unidos pré-anunciaram que se iam embora das Lajes. E quando isso aconteceu, o pânico generalizou-se não só aqui no continente, mas sobretudo nos Açores, porque as Lajes, para quem conhece a Ilha Terceira, são absolutamente fundamentais para a sobrevivência daquela ilha. E depois houve até uma ideia de: "Os americanos não querem, então passamos para os chineses", e aí imediatamente deve-se ter feito este acordo ou este acrescento de 2017, porque elas têm, de facto, um valor, como estamos a perceber, muito importante do ponto de vista da defesa para os Estados Unidos, e têm um valor muito importante economicamente para Portugal e sobretudo para os Açores. É retórica farseira, vai correr muita tinta sobre isto, mas realisticamente, e até por aquilo que está em causa, não faria sentido que Portugal tomasse outra posição. Agora, isto calha sempre aos governos de direita. Foi a Cimeira das Lajes com Durão Barroso, e agora é esta situação com um governo da AD. Acho eu, tanto quanto tenho memória, que nunca aconteceu.

Os voos da CIA que também passaram lá, e passaram à Ana Gomes.

Exatamente.

E irritadíssima. Sei que é difícil de imaginar.

É um grande socialista.

Exatamente, com o governo Sócrates.

Alexandre, só retórica?

Mais ou menos. Eu vou tentar explicar o meu ponto sem querer ser, ou parecer no fim, demasiado ambíguo ou que isto importe para alguma coisa, porque eu acho que importa para alguma coisa. Apesar de tudo, eu não conheço o acrescento de 2017, confesso, mas ou ele muda tudo e não é só um acrescento, ou os pontos que nos interessam são relativamente rápidos, cabem neste quadradinho aqui. São estes, são três ou quatro parágrafos. O acordo em si é maior, mas isto é o que nos interessa. E não me parece assim uma questão tão discutível quanto isso. É o artigo primeiro do acordo técnico de cooperação e sintetizando os primeiros, tem a ver com o acordo para a utilização da base no âmbito das ações da NATO. E depois, basicamente, o ponto três e o ponto quatro que nos podem interessar mais aqui. Diz o ponto três: "Portugal encarará favoravelmente quaisquer pedidos de utilização da Base Aérea número 4 para a realização de operações militares decorrentes de decisões tomadas no âmbito de outras organizações internacionais", portanto, que não a NATO, "de que ambas as partes sejam membros, desde que tais decisões tenham sido apoiadas por Portugal." Neste caso, não há nenhuma outra organização que esteja aqui em jogo. Até ver, é uma decisão do Estado de Israel e dos Estados Unidos da América. Ponto quatro: "Qualquer utilização pelos Estados Unidos das instalações referidas no número um, que não decorra ou integre as situações previstas nos números anteriores do presente artigo, deverá ser objeto de autorização prévia." Isto, para mim, não é confuso. Isto enquadra-se no ponto número quatro. Deveria ser objeto de autorização prévia. Concordando totalmente com o que a Raquel e a Filomena disseram, e já agora, eu próprio escrevi em junho passado, e na minha qualidade de terceirense, o assunto toca-me sempre um bocadinho mais.

É verdade.

A quando das ações da Guerra dos 12 Dias, já lá tinham passado uma série de aviões e tinha-se colocado esta questão. Eu também defendo, sobretudo, o pragmatismo contra o cinismo do: "Eles deviam nos ter perguntado, isto é para fazer mal a não sei quem." Até porque nunca ninguém se lembra que o Irão fabrica os drones que depois são usados contra a Ucrânia. Aí estamos todos do lado da Ucrânia e contra o Irão, mas parece sempre, depois quando há qualquer coisa que possa tocar nisso, que são mundos perfeitamente separados e que estas coisas não se tocam. Ou seja, perfeitamente de acordo, e aí é que está. Nós, infelizmente, não temos autonomia militar ou económica, ou seja o que for, que nos permita encher o peito e dizer: "Eu não estou de lado nenhum e, portanto, tomo aqui estas minhas decisões de acordo com o momento ou o que me parece mais correto ou não." Mas aborrece-me, e aborrece-me é pouco, chateia e acho bem que o ministro dos Negócios Estrangeiros seja confrontado com as suas declarações, também de fingir que: "Não, isto está tudo no acordo, eles podem fazer o que quiserem, eles não precisam nos perguntar." O que ele disse foi autorização tácita. E não é verdade, não é isso que está no acordo. Ou seja, seria tácito se fosse no âmbito de uma organização em que Portugal também participasse e essa decisão tivesse sido apoiada por Portugal. O que eu gostava que existisse? Não indo agora, porque não é o que nos interessa agora, discutir a bondade ou maldade de tudo o que está implicado nesta guerra em curso desde sábado. Gostava que Portugal tivesse a coragem de dizer: "Sim, eles pediram-nos autorização e nós dissemos que sim." Ou seja, que não lave constantemente as mãos, que não lave as mãos disto totalmente, que não finja que não tem que nos ser perguntado, ou se nem sequer nos foi perguntado, pior ainda, porque então é dizer que este bocado nem sequer é nosso. Ou seja, nós fazemos um acordo em que diz que nos tem que perguntar isto e isto, para fingir que temos aqui imensa soberania. E depois, quando chega o momento, não, nem sequer tem que nos perguntar. Ao menos, que tenham que nos perguntar pra nós dizermos que sim e que nos comprometamos com qualquer coisa, porque o resto me parece uma posição só de sacudir a água do capote sobre qualquer coisa que nos venham depois dizer, sobre o que possa haver de mais moral ou imoral nisto. Acho que tem que haver alguma coragem nestes termos. Ou se quiserem, até em determinado momento, dizer que não a algumas coisas. Também não é preciso dizer que sim a tudo, porque a Inglaterra ou o Reino Unido, eu sei que a UE tem muito mais poder, mas não é pelo Reino Unido ter recusado o uso de uma base que passou a ter um problema. Agora autorizou, mas diz nos termos.

Não entra...

Seja, diz que não seja para bombardeamento, que seja na região para fazer a contraofensiva aos mísseis iranianos. Mas que seja. Acho que são formas de estar mais dignas e que defendem melhor a soberania, ou se não, recuamos. Então qualquer dia isto não serve pra nada.

Posso resumir a tua opinião dizendo: "Da próxima vez avisem."

Sim, e é isso que eu gostava de saber amanhã.

Tudo bem, mas da próxima vez avisem.

Mais ou menos. Ou seja, ponto um: queremos saber da parte do ministro dos Negócios Estrangeiros se avisaram. Se não avisaram, deviam ter avisado. E então é isso que tu estás a dizer. E ponto dois: tendo avisado, o que é que Portugal respondeu? E portanto é só isto, eu quero saber, quero ouvir da parte do nosso governo que sim, nós somados todos os prós e contras disto e o pragmatismo de estarmos envolvidos, particularmente no mundo que corre, nós.

Queres dar já alguma nota ou deixas uma nota suspensa?

Paulo Portas ontem, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros, resumia isso com uma autorização e um condicional com um ponto de interrogação à frente.

Exatamente.

Muito bem.

É interessante o que ele disse ontem. Vamos a notas. Queres uma nota ou fica a nota suspensa? À espera do Rangel.

À espera do Rangel.

Tá bem, à espera de Rangel. Filomena, tens uma nota?

Tenho. Eu desta vez estou positiva e tudo. Imagina.

Então vamos lá.

Um 13.

Um 13. Um 13 pra quem?

Pra Portugal, pra autorização.

Pra Portugal. Pro governo. Raquel?

Eu também já agora estou com curiosidade de ouvir o que vai dizer Paulo Rangel, embora me parece que aquilo que é sugerido, até pela deputada Regina Bastos há bocado, é que sim, que essa autorização foi pedida e que foi dada.

Temos de ir a uma das notícias do dia, a entrevista de Pedro Passos Coelho publicada no jornal Eco. Aguardavas ansiosamente por esta entrevista, Raquel?

Não, mas na sequência de tantas intervenções, pronto, mais uma. Mas acho que Passos Coelho deu esta entrevista para dizer que veio pra ficar e que já não está só a andar por aí, mas está mesmo com vontade de intervir. Eu acho que a entrevista é muito igual à forma sempre de intervir de Passos Coelho, a forma seca como ele diz: "Não, não estou aqui com planos nenhuns. Quando eu tiver, eu apareço e digo." E portanto, ficamos a saber que pode vir a ter. Mas eu acho que é interessante ver a análise e ler, apesar dele ter dado alguns tópicos nas várias intervenções que teve ao longo da semana, aqui ele é mais minucioso, não só no diagnóstico que faz, como nas soluções, como naquilo que acha que deveria estar a acontecer. E faz também uma análise daquilo que acha que é previsível que aconteça no futuro, caso este governo não dê, de facto, mostras do seu reformismo. E eu acho que, independentemente das maiores ou menores irritações que o governo e o PSD atual possam ter com a intervenção de Passos Coelho, acho que era bom lerem com atenção, porque eu acho que Passos Coelho consegue, com aquele seu ar de poucos amigos, mas no fundo refletir aquilo que eu acho que é o sentimento de uma maioria do eleitorado hoje em dia em Portugal que vota à direita. E eu acho que mesmo naquelas receitas que ele dá de como é que, independentemente da falta de soluções que este governo, por ser minoritário, tem para poder levar avante as suas políticas, o que o governo deve fazer, desde a tentativa de um entendimento com os partidos à direita, que depois poderia não ser possível, mas o eleitorado ficava a saber que tentaram, até à questão das reformas, até à forma como ele analisa a maneira como a reforma única que surgiu até aqui da legislação laboral, a estratégia que foi seguida pra pôr esta reforma em cima da mesa de forma isolada e não acompanhada de um conjunto de outras propostas pra reformar a economia, acho que revelam uma personalidade política à direita que tinha um plano pra fazer as coisas com princípio, meio e fim. E, portanto, há ali uma contradição quando ele diz na entrevista que está de bem consigo próprio e que acha que fez tudo o que tinha que fazer, porque percebe-se claramente que não acha que fez tudo o que tinha pra fazer e que sabe exatamente o que é que faria se neste momento pudesse ter essa possibilidade. Aquilo que eu acho é que Passos Coelho está aqui para o que der e vier. Eu não me esqueço que na sua primeira intervenção ele faz uma referência ao novo presidente da República, que eu achei sintomática, dizendo que ele é presidente da República para os próximos cinco anos. Diz que são 10, mas é para os próximos cinco anos. E portanto, eu acho que Passos Coelho vai estar aqui muito atento e muito interventivo durante o tempo que resta desta legislatura, seja ele o tempo que for. É possível que possa surgir, no caso de haver uma crise política, querer liderar o PSD. Se isso não acontecer, eu também acho que é possível daqui a cinco anos que ele possa concorrer à presidência da República contra António José Seguro.

Não sendo um cargo executivo.

Sim, mas isso, enfim, já ouvimos Cavaco Silva dizer o mesmo, muitos disseram o mesmo. A idade vai passando, o relógio está sempre a contar e, portanto, a certa altura-

O cabelo branqueando, mas o Tejo é sempre novo, não é, Filomena?

Até porque Passos Coelho já não tem cabelo.

Exato.

Pronto.

Eu estava a citar o fado Castilheiro.

Eu só conheço o fado Castilheiro, conheço Carlos do Carmo muito bem, como tu sabes. A carreira, neste caso.

De Passos para Carlos do Carmo.

É verdade, foi rápido.

Foi rápido.

Passos diz que não quer voltar, mas ele está a falar como quem quer. É muito óbvio. Afirma que não está em manobras e que só regressaria em circunstâncias excepcionais. Mas o detalhe é este: as circunstâncias excepcionais podem sempre acontecer. E quem não quer voltar, não fala quatro vezes numa semana, não agenda mais uma intervenção esta semana, nem dá esta entrevista, que eu acho estratégica, ao Eco. Portanto, o discurso mudou de tom e de alvo, no caso de Passos. Ele antes resumia as posições em frases bastante genéricas, eram frases estratégicas, mas genéricas, e agora vai direto a pontos concretos, personaliza, aponta responsabilidades, e isto não é por acaso. Ele critica as opções do governo, questiona escolhas estratégicas, envia avisos claros para dentro do PSD, mas também fala para a Iniciativa Liberal e para o Chega. E também não é por acaso que André Ventura fala dele com deferência e até que Cotrim de Figueiredo, mesmo não sendo já líder da IL, tenha aparecido numa das suas iniciativas recentes. Tudo isto tem aqui uma leitura muito fácil, penso eu, em termos políticos, porque a divergência de Passos com Montenegro também é estratégica. Montenegro optou por isolar o Chega e negociar ao centro com o PS, e Passos diz claramente que teria seguido outro caminho. Aquele que a Raquel falou. Nesta entrevista ao Eco, ele foi cristalino. Diz que o mapa parlamentar exigia outra ambição de engenharia política, acrescentou que o governo devia ter tentado um acordo de legislatura dentro da direita parlamentar, que tem maioria entre o PSD, o Chega e a IL, e disse aquilo que a Raquel já tinha dito, que só quando tentamos é que sabemos. E o que ele está a dizer é que Montenegro nem sequer tentou. Portanto, o subtexto disto tudo é simples: com ele seria diferente. E Passos, tal como a IL e como as posições do Chega, defendem todos eles reformas estruturais profundas. E ele considera que Montenegro não avança, prefere acertar tudo com o PS, está ali sempre nem carne nem peixe. E eu considero que Montenegro prefere ficar ali nesta linha do blox vier. Ora, se houver uma crise parlamentar, seja após o verão, nunca se sabe, seja depois do orçamento, também não se sabe, Passos está implicitamente a dizer: "Se as coisas correrem mal, há aqui uma alternativa. E comigo a engenharia política será outra."

E a alternativa é ele.

A alternativa é ele. Passos não diz que quer voltar, mas está a explicar como governaria se voltasse. Não é só consultadoria gratuita ao PSD, como disse o Relvas há pouco tempo. É uma bandeira vermelha que visualmente parece aquele salto do Ronaldo e o grito não é do sim, mas é do "eu estou aqui". É claramente o que está aqui a dizer Passos.

Sandro.

É uma entrevista que tem, de facto, muito que se lhe diga. São 65 mil caracteres. Isto pra quem não está habituado, eu posso dizer, é muito. A descrição é muita. Acho que há livros que não têm tantos, sobretudo aqueles livros de protocandidatos a qualquer coisa, que lançam pra depois tal.

Têm muitas fotografias.

Isso, exatamente.

E corpo doce.

Sim, e espaçamento grande. Portanto, há muitas partes nesta entrevista que eu, de resto, acho que é de guardar para futuro, pra usar uma expressão que Passos Coelho também costuma usar, para futuro. Acho que é mais interessante, até porque tem mais espaço para explanar do que as suas últimas intervenções, porque acho que ele se explica melhor agora, sobretudo para dentro do PSD, porque apesar de tudo, nos últimos dias todos em que ele apareceu, era o bombardeamento ao PSD e a Luís Montenegro. Desta vez, isso é bastante mais distribuído pra Rui Rio, pra Marcelo, até pra António José Seguro. Há assim uma série de gente que serve de alvo. Mas concordando, e não dá muito pra ir ao detalhe, mas concordando totalmente com a Filomena e com a Raquel, por exemplo, acho que há um ponto que é quando ele diz: "Ah, não, tudo bem com tudo." Mas depois vai sempre dizendo: "O facto, no essencial, da minha missão ter sido bem-sucedida e de, por razões que estão para além da minha vontade, não ter tido condições pra poder levar mais longe o projeto de transformação que tinha." Basicamente é isto: as pessoas abordam-me e pedem pra falar, as pessoas exigem que eu diga mais qualquer coisa. Isso tenta justificar. Mas, por outro lado, acho que justifica melhor agora o seu momento de falar quando diz que não atacou tanto no primeiro ano de Montenegro, também compreendi que o governo não tinha essas condições, mas no fundo sente que esse tempo já passou e obviamente ele é livre dizer o que quiser. Que entra em contradição total e mais na linha aquilo do que dizia a Filomena quando ele diz sobre o que não quis dizer durante as presidenciais: "Nunca achei..." Ele está a dizer porque é que não falou nas presidenciais. "Nunca achei que fizesse sentido agendar uma entrevista para explicar o que não ia fazer. Acho que isso é razoavelmente o máximo de egocentrismo e de parvoíce. Ninguém dá uma entrevista a dizer o que não vai fazer." Então e esta? Esta é para dizer que não vai fazer?

Mas ele aqui nesta entrevista diz que vai fazer.

Ele assume que pode vir a fazer. É só acontecer-lhe.

Pois, é só acontecer-lhe no fundo. Mas é muito mais isso. Embora me continue a parecer que Passos foi um ótimo primeiro-ministro, mas continua a não ser a pessoa mais hábil politicamente, nem para ele mesmo. Quando ele diz: "Eu só vou voltar em más condições se tiverem que me ir buscar ao baú da história." É mais uma daquelas que depois o vai perseguir se um dia ele decidir de facto fazer isto.

É Deus descer à Terra.

É isso. Vai ser sempre a imagem de um espectro.

Eu acho que ele assume o sebastianismo.

Exatamente.

O D. Sebastião que há de vir para salvar isto tudo.

E sempre é mais fácil ter más condições do que ver um ser divino descer.

Mas ir buscar ao baú da história é a mesma coisa que dizer: "É desenterrarem-me." Ou sou só eu que fico com esta imagem na cabeça? De ser uma coisa quase de espectros que têm que vir.

No fundo, ele está a dizer: "Se for preciso, se tudo falhar, eu estarei cá para salvar o país." Que no fundo é o que faz o D. Sebastião.

Ele fala longamente na entrevista, não se tem falado muito nisso, da questão da reforma da Segurança Social, que é, se pudermos definir o que é que ficou colado à pele de Passos Coelho, de forma negativa, da sua experiência governativa, foi exatamente a questão das pensões e das reformas, etc. Ele não mudou de ideias, e se calhar com razão. Eu não conheço a fundo a questão da Segurança Social, mas efetivamente dos especialistas percebemos todos que há, de facto, uma reforma que está a ser empurrada com a barriga.

Que sempre foi.

Que sempre foi. A questão é que eu acho que Passos Coelho lê bem a atualidade política do ponto de vista da dinâmica esquerda-direita. A questão é se esta direita muito volumosa que vota André Ventura quer estas reformas. E aí é que eu acho que Passos Coelho pode ter um erro de análise.

Tal e qual.

Porque eu não acho que este 1.700.000 portugueses que votam em André Ventura queiram uma governação para o país ao estilo Passos Coelho.

Desculpem interromper.

Temos que ir à nota para ainda ir a José Luís Carneiro.

Queres ir ainda? Então tentando ser só muito breve. Há coisas ótimas dentro da questão da Segurança Social, mesmo na reforma laboral, na análise que faz à Europa, que é incrível, aos problemas da Europa, mas isso, que é chamado por título, e a entrevista é bastante mais do que é chamado por título, mas essa ideia do acordo, que já todos tínhamos percebido, mas finalmente é verbalizado, que o que ele gostava era que tivesse havido um acordo com o Chega e com a IL. Para já a IL não ia lá estar. Mas esse pretenso acordo com o Chega, que também acho que não ia funcionar eleitoralmente, porque teria afugentado todo o eleitorado moderado e foi com isso que Costa jogou durante anos. Mas na prática é isso, depois quando ele vai dar o primeiro exemplo de uma reforma, vai falar da TAP, que era logo aquela que não ia conseguir fazer com o Chega, perante qualquer outra, mas que está mais do que dita. Portanto, eu duvido muito da exequibilidade de qualquer destas ideias.

Vamos à tua nota, Alexandre.

A minha nota, apesar de tudo, acho que esta entrevista é histórica e é para voltar. De resto, foi a primeira de Passos em oito anos, é verdade.

É para imprimir e guardar.

É para guardar. Vamos voltar a ela. Eu dou um 14 à entrevista.

Eu ainda vou acrescentar aqui só uma coisa para tu zangares comigo com o tempo.

Não, José Luís Carneiro já foi à vida dele. Pronto.

Não, porque eu acho que ele teve um álibi para estar calado há algum tempo. E é um álibi que cola muito com os portugueses e com aquele Portugal mais profundo, que é o facto de, depois da morte da mulher, ter ficado a criar a filha. Aquela coisa pessoal, que puxa muito ao sentimento, mas que é muito do agrado dos portugueses. Fora isso tudo, eu tinha a dizer esta coisinha pequenina, mas que é importante, muito importante. A nota vai também... Hoje estou muito linear.

Estou a ficar preocupado contigo.

Eu rapidamente dou um 18 a Passos Coelho pela sua capacidade de dominar a atualidade política e já agora, só para o Carneiro não ficar chateado, dou-lhe um oito, porque ele não conseguiu resistir à tempestade do Irão e Passos Coelho está provado que consegue.

E se os nossos estimados ouvintes querem saber o que pensa Alexandre Borges sobre a recandidatura de José Luís Carneiro à liderança do PS, é enviar um e-mail para ceninho@gmail.com.

Eu respondo a cada um.

E o Alexandre responde. Um abraço e até amanhã.