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A divisão é o que me deixa mesmo ansioso. Nos anos 90, parecia que estávamos naquela cena de "nós agora vamos ser todos amigos, agora não há fronteiras, agora um mundo". E agora não. Agora estamos num paradigma diferente, é dividir, muita ignorância em relação aos outros. Estamos a falar de inteligência artificial e de notícias, por exemplo. O facto de hoje em dia ser muito difícil distinguir o que é real ou o que não é, vai sendo cada vez mais difícil, e temo que isso vá criar graves problemas nesta questão da polarização, porque esta polarização só serve a pessoas. Nós sabemos quem são as pessoas. Este virar pobres contra pobres não serve os pobres garantidamente, e é o que está a acontecer.
Antes das canções, havia fios ligados onde não deviam estar, cassetes gastas de tanto rebobinar e um miúdo que queria perceber por que duas vozes juntas podiam mudar o mundo. Cresceu a tentar reproduzir harmonias impossíveis, a desmontar instrumentos que não lhe serviam, a inventar maneiras de gravar antes de saber que isso podia ser uma profissão. Mais tarde, saiu do país, trocou a língua, testou outras identidades, estudou o som como quem estuda um corpo por dentro. Quando voltou, percebeu que a música só fazia sentido de ser vivida na vida das outras pessoas e que amadurecer não é perder risco, é escolher melhor onde ocorrer. Hoje faz canções que não pedem pressa, que não competem por atenção ou que se deixam descobrir. É o autor da banda sonora do novo podcast Plus do Observador, os segredos da seita do yoga, Benjamim, em 40 minutos. Bem-vindo aqui à Rádio Observador.
Obrigado. Olá.
Benjamim, já são muitos anos de música e nós daqui a pouquinho vamos até falar de um funeral.
Já é meio elucidativo, pra quem nos está a ouvir, é ficar, porque já é meio caminho andado para ficar com interesse nesta nossa conversa.
Tu estás a caminho dos 40 anos.
É verdade.
Que é uma idade marcante para qualquer pessoa. Ainda estou um bocado longe dessa idade.
Disseste isso pra me fazer sofrer agora.
Não, é porque se fala muito dos 40, mais do que os 30. Não é? Não sei.
Não sei, a minha crise dos 30 não sei se já passou. Já estou a chegar aos 40.
Mas estás ali, se calhar, já ao limite. Este passar de idade assusta-te de alguma forma? Tu olhas pra isso com uma especial atenção? Tens ideias que, se calhar, há 20 anos não faziam sentido e que agora começam a matutar mais na tua cabeça?
Sem dúvida, acho que é inevitável.
Sim.
Mas eu sempre tive um bocado a angústia de crescer, desde criança.
Por que a angústia?
Sempre tive um bocado a noção de que os tempos que estava a viver iam passar. Lembro-me de estar na escola e estar a contar os anos para o décimo segundo ano e pensar quanto tempo é que eu ainda ia estar ali com aqueles meus amigos, a viver aquela vida, que eu sabia que ia mudar para sempre a partir do momento em que deixasse de estar na escola. Mesma coisa com a faculdade. Um bocado com todas as fases da vida, mas ao mesmo tempo, eu também gosto de mudanças radicais.
E nota-se, pelo teu percurso.
Portanto, ao mesmo tempo, eu aceito, faz parte.
Mas lidas bem com a mudança? Em termos de idade, não é uma mudança tão abrupta assim. Se falarmos numa distância temporal de 20 anos, aí sim, se calhar há diferenças maiores. Agora, passar dos 39 para os 40 é apenas um número.
É um número, mas pensares o que quero que seja a minha vida aos 30, aos 40, aos 50. O que eu já devia ter feito, o que eu ainda não consegui fazer. Isso ao mesmo tempo dá-me imensa pica pra fazer coisas e pra me obrigar, pra me pressionar, a vida a pressionar-me pra fazer determinadas coisas.
E és uma pessoa muito ansiosa com o futuro, que gosta de ter as coisas muito planeadas ou deixas a vida fluir?
Sou uma pessoa ansiosa. Sou ansioso com o futuro, planeio algumas coisas, mas também gosto de surpresas. Por uma questão também de realismo, acho um erro também uma pessoa planear tudo como se as coisas fossem acontecer como estavam planeadas, porque nunca vão. E ao longo da vida tenho tido a prova disso. Às vezes aparece uma pandemia de repente, às vezes aparece uma coisa completamente inesperada, uma chaia, não há energia no dia, não há concerto. Portanto, a minha ansiedade não é tanto com planear exatamente o que vai acontecer. Eu me enchi também a ideia de não saber o que vai acontecer também. Por exemplo, quando faço música. A música é planeada sempre a um ano de distância, dois anos, às vezes. E andamos durante esse tempo todo a fazer grandes planos para o que vai acontecer, mas a verdade é que nós sabemos que não sabemos o que vai acontecer. Efetivamente, será que determinada música vai bater ou será que vamos conseguir ter concertos? Essa incerteza constante.
Falaste aí dessa catástrofe que temos vivido ao longo destes últimos dias, a zona centro muito afetada por esta tempestade Christine, nos últimos dias também com várias cheias e inundações um pouco por todo o país. Mas falaste também da pandemia e é pensar que a pandemia já foi há seis anos, ainda que se tenha prolongado um bocadinho no tempo ali no ano 2021 e meio de 2022, se calhar.
Eu até ia mais longe, porque eu acho que em 2023 ainda tive uns casamentos.
Ainda se sentem os efeitos, não é?
Foram dominados pela pandemia. Quem é que ia, quem é que não ia, as máscaras, não podes sair duas semanas antes do casamento.
Essa altura, e acho que foi dramático muito para o setor, foi para todos, mas o setor artístico, um setor que precisa tanto de público e desse público presente, foi uma altura difícil para ti também enquanto artista?
Foi difícil, sim, foi muito difícil. Eu, como trabalho também em estúdio, consegui dar a minha volta. É tal coisa, não dá para planear as coisas, mas dá para preparar algumas coisas. E eu, como sempre tive um bocado aquela mania paranoica de: "E se eu não conseguir ir gravar, se eu não conseguir ter estúdio para gravar, como é que eu vou fazer?" Então o meu estúdio era uma cavezinha pequenina dentro de casa, onde eu tinha tudo e onde eu sabia, se alguma coisa acontecer, eu tenho sempre este estúdio e consigo acabar. Então eu estava em modo sobrevivência, tipo lata de atum na cave. Portanto, eu sofri um bocado menos porque produzi discos, fiz músicas, consegui acabar o meu disco, ainda consegui lançar um disco em plena pandemia e tocá-lo ao vivo. Tive concertos, portanto eu nem me posso estar aqui a queixar. Há muita malta que sofreu muito. Técnicos, mesmo músicos que se calhar não tinham a capacidade técnica de fazer coisas em casa da forma como eu consegui fazer.
Sim, porque depois há essa questão também. Quem tem equipamentos consegue sobreviver, entre aspas, mas quem depende de terceiros.
Lá está, se alguém vivia numa herdade, no meio da pandemia, a vida não mudou, se calhar, assim tanto. Isto depende sempre do contexto de cada um depois.
Olha, nós já vamos mergulhar a fundo na tua história de vida e desfiar aqui algumas memórias. Já falámos de um funeral, mas também sei que tiveste problemas com um tal violino. Mas antes, vamos falar deste novo projeto, que é criar uma banda sonora para um podcast de lance, "Os Segredos da Seita do Yoga". Nós vamos aqui confidenciar, nós já te recebemos aqui nas manhãs, durante a semana, e aliás, fui eu que estive à conversa contigo, em conjunto com as duas autoras, a Tânia Pereirinha e também a Mariana Marques Tiago. Que tipo de desafio é este? Nesta altura da tua vida, em que tu já fizeste tanta coisa, criar uma banda sonora, como é que este desafio chega às tuas mãos e como é que tu próprio o recebes?
Eu fiquei muito feliz de me terem feito o convite. Isto era um namoro antigo, na verdade, porque já houve assim umas conversas.
Já havia uns zoom zooms.
Em tempos idos. E a coisa nunca se proporcionou por questões de agenda. E agora foi de vez. Isto é o tipo de trabalho que eu imaginava quando eu ia ter teste de Matemática no dia a seguir. Eu odiava estudar Matemática.
Somos dois.
E eu ficava a sonhar enquanto estava a tentar olhar para os números, ficava a sonhar: "Ah, eu dava que um dia o que eu tivesse para fazer amanhã era uma música nova". E eu lembrei muitas vezes disso durante este processo, que foi realmente poder estar no estúdio durante dois, três dias, assim muito intensos, até tarde.
Bastaram dois, três dias?
Dois, três dias efetivos a tocar e a gravar.
Até chegar àquilo que tu achavas que era o ideal.
Sim, primeiro há o trabalho de teres uma reunião, perceber qual é que é o brief.
É uma carta em branco que tu recebes?
Em branco?
Eu estou aqui a perguntar porque acho que também para quem está a ouvir o podcast e está a acompanhar, é interessante perceber a perspectiva de quem recebe este desafio, como é que parte para o criar. Que essa também é a parte interessante.
A carta em branco é no sentido em que aqui não te pedem aprovação, isso é uma coisa muito libertadora.
E hoje em dia é uma bênção.
É uma bênção. Já fiz algumas coisas para publicidade, inclusivamente, em que cada passo que dás, tens que dar à pessoa que vai dar a aprovação, estás sempre com medo. Aqui não, eu sabia que a coisa estava aprovada à partida, mas com isso também vem a responsabilidade, obviamente, que aquilo que eu queria entregar era uma coisa que as pessoas se sentissem entusiasmadas, senão não vale a pena. O que vem é uma conversa primeiro sobre qual é que é o tema, depois vem algumas páginas, foram para aí três episódios, o guião, que eu li de uma assentada. E quando eu li o guião, eu li aquilo com um ritmo específico e esse ritmo foi aquilo que ficou na música, basicamente. Portanto, os três dias para gravar é o tempo, é o processo todo de...
Estou a pôr aqui em fundo, só para ajudar no ambiente. Estes sininhos.
Sim, estes elementos percussivos. Eu fui de lua de mel à Índia.
Levanta-nos muito para lá.
Leva. A Índia é o berço do yoga. E eu fiz yoga, inclusivamente lá em Goa, pela primeira e única vez na vida.
Isto estava tudo destinado, no fundo.
Estava.
Estava destinado que para tu fazeres a banda sonora deste podcast, já ter havido conversações para fazer outros e agora seria este.
Mas lá está, podemos dizer, quando comprei os instrumentos numa loja em Jaipur, apesar de eu não fazer ideia, já foi parte da preparação para fazer isto.
Exato.
E quando eu pensei: "Yoga, OK, tenho os instrumentos certos para isto. Finalmente, vou poder usar isto". E também tinha uma máquina de um amigo meu, que parece um rádio, e aquilo é uma tambura que é este que está no fundo, que é um instrumento indiano. Pronto, e a partir daí comecei a desbondar.
Falavas aqui da aprovação. Tu mostraste este trabalho que foste fazendo a alguém, foste partilhando, mesmo não sendo com a Tânia ou até mesmo com o João Santos Duarte, que são aqui os responsáveis pelos podcast, pela "O Observador"?
Com a Catarina, com a minha mulher.
Foi o jurado.
Ao final do dia, já muito tarde, meia-noite e meia, saio do estúdio e mandei-lhe um WhatsApp com a música: "O que achas?"
Sim.
E também mandei à minha mãe, que são bons filtros. E depois enviei.
Exato. E foi um bom feedback, então?
Foi.
Porque são pessoas críticas também, que criticam quando têm essa necessidade de o fazer.
Sim, sentir um bocado o que as pessoas dizem, não é tanto vão gostar ou não vão gostar, é mais se acham que isto é muito cansativo, ou isto é muito barulhento. Porque às vezes, ao fim de três dias a ouvir, reparem, esta música em loop durante três dias, acaba por ser um bocado um massacre.
Fartaste-te, um bocadinho.
Se soubesses a minha rotina de ouvir músicas em loop, percebias que não é. Estou muito habituado. Eu consigo ouvir uma música durante um dia inteiro.
Mas não, geralmente castigamo-nos muito, vamos dizer assim, porque geralmente quando gostamos de uma melodia ou de uma canção, ficamos a ouvir aquilo em loop, em loop, em loop, e passados três meses já não podemos ouvir aquilo. Se calhar até menos tempo. Há menos essa predisposição. Então quanto tempo é que tu demoraste? Foram três dias exatos para chegar a esta sonoridade que ouvimos aqui?
Para gravar essa sonoridade.
Sim.
Primeiro perceber, OK, como é que eu quero gravar isto. Há um planeamento mental grande.
Sim.
Isto foi numa altura em que eu estava cheio de ensaios, concertos. Também fiz uma banda sonora para uns filmes, para umas curtas-metragens, em que toquei ao vivo essa banda sonora que escrevi. Portanto, isto está enfiado no meio de muitos projetos que eu tenho, mais concertos normais, mais a editora, mais o trabalho de estúdio normal. Portanto, o que eu vou fazendo, a gestão que eu faço destes múltiplos projetos que eu vou fazendo é: eu penso neles quando estou, por exemplo, a andar, quando estou a ir para um sítio.
Quando dá tempo para respirar.
Exato. E penso: "Para o podcast". Depois escrevo umas notas. E depois escrevo um tipo de som. Portanto, eu já ia com uma ideia clara do que seria a abordagem. Na minha cabeça, muitas destas camadas que existem na música, já existiam. Depois foram três dias para as gravar. Não sei se foram mesmo três, se foram dois. Já não me lembro. Assim mesmo intenso de manhã até tarde à noite, nonstop. E é engraçado. Ia dizer uma coisa agora e esqueci-me.
Sem problema, voltamos lá quando quiseres. Eu queria também perceber contigo, porque isto é uma história bastante impactante, até pela qualidade dos testemunhos que temos nesta história, "Os segredos da seita do yoga". Tu disseste numa conversa que tiveste aqui já nas manhãs, aqui na rádio, que leste parte dos guiões e impressionou-te bastante essa parte. Foi o que te impactou mais, os testemunhos ou toda a componente da história?
Toda a história, os testemunhos, é a história, é o que as pessoas passaram. E a maneira como está escrito também, o próprio guião. Eu ouvi todos os podcasts. Já tinha ouvido desde o "Sargento da Célula 7", que eu tenho seguido. E portanto, eu já estava um bocado familiarizado com a linguagem, o ritmo. Eu quando li conseguia imaginar como é que aquilo estava já a soar. Isso foi muito útil para conseguir a tal tensão. Eu comecei a sentir-me ansioso a ler aquilo, a ler rapidamente, eu quero ler isto. É uma coisa tensa. A música é tensa precisamente por causa disso, porque eu antes de ler tinha uma ideia para a música e quando li, para mim foi muito claro, até cantei logo para o meu dictaphone, o ritmo e a ambiência. Mas ao mesmo tempo, também é importante, eu tentei abstrair-me da história quando estava a fazer a música. Eu queria fazer um ambiente mais cinematográfico.
Porque podia condicionar, não é?
Sim, porque não podes estar com pena das pessoas ou não podes estar a pensar: "Isto é uma coisa dramática". Tu aqui tens que dar um elemento cinematográfico. Há um lado de ironia. Tem uns sons mais new age, mais falsos. Mais, não, completamente falsos. Há uma abordagem à música indiana, que é aquela abordagem de quem não faz ideia o que é realmente tocar música indiana. Portanto, é um bocado ir buscar os sons, que é exatamente para mim, o que é uma seita de yoga Basicamente, reinterpretar de maneira completamente falsa o que é o yoga, porque o yoga não é isso.
Sim. E o tom de mistério também está sempre presente.
O tom de mistério é para dar aquele toque cinematográfico à história, porque apesar de tudo é um podcast com uma história, tem esta dimensão.
E tem que ter uma certa cadência em todos os episódios. É preciso conseguir mantê-la, não é?
Sim. E também manter o interesse das pessoas. É como os músicos, as canções são um bocado a exploração emocional da própria vida.
Sim, está aqui espelhado.
E qualquer produto artístico, seja uma série sobre crime, o "Narcos", não há maior exploração emocional do que o que é uma tragédia para um país e para milhares de pessoas que morreram. E eu dou por mim a ver atentamente e a seguir. Tem esta contradição, que também é muito interessante, e dar um cunho autoral depois à história, que é a história de outras pessoas.
"Os Segredos da Seita do Yoga" é o novo podcast Plus do Observador. Conta com a participação do Benjamim enquanto autor da banda sonora, que é original, e narração da atriz Daniela Ruah. Nós vamos só fazer aqui uma curta pausa e já voltamos para a segunda parte do "Em 40 Minutos". Até já. Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos". Esta semana com Benjamim, autor da banda sonora do novo podcast Plus do Observador, "Os Segredos da Seita do Yoga". Já falámos muito na primeira parte sobre este novo projeto. Para quem nos está a ouvir em FM neste momento, é ouvir a primeira parte, que daqui a pouco fica também disponível em podcast. Mas o Benjamim tem muitas novidades para partilhar conosco. Nós também já vamos à infância, mas antes de mais, tens concerto amanhã.
É verdade.
É um concerto muito interessante, porque eu gosto muito deste conceito que é: conta-me uma canção. E pelo que percebi também vamos ter aqui outros concertos com outros artistas, noutras datas. Já tivemos um, vamos ter ainda o teu e mais outro, pelo que percebi. Para quem não está familiarizado com este tipo de concerto, em que vais estar ao lado de um grande nome da música portuguesa, um nome que impõe bastante respeito, no Maria Matos, o que é isto, conta-me uma canção?
É um conceito criado pelo Paulo Salgado, que é o manager do Samuel Úria, por exemplo, e do Sérgio Godinho.
Samuel Úria que também vai ter um concerto deste género, não é?
Sim, com o Rui Reininho. Em que ele convida dois escritores de canções de duas gerações diferentes e cria este espetáculo em que existe um diálogo entre esses dois escritores de canções. Tocam canções juntos um do outro, mas falam sobre as canções, falam sobre o processo da escrita, falam sobre a história das canções. É uma coisa que não tem um guião. Eu fiz isso uma vez com o Samuel Úria. Somos os dois da mesma geração, curiosamente, mas fizemos os dois juntos e foi muito interessante. E agora vou fazer com o Tozé Brito, o que é muito injusto para mim, obviamente, porque as histórias que ele terá para contar serão muito mais ricas do que as minhas.
No fundo, é uma conversa com as pessoas que vos estão a assistir, não é?
É, é uma conversa-concerto.
E é um espetáculo em que as pessoas também saem de lá, possivelmente, com ainda mais histórias para contar.
Espero que sim.
E perceber também, no fundo, aquilo que estivemos a falar na primeira parte, o processo criativo muitas vezes, e entender a razão e a escolha para certo tipo de tons, de tonalidades, vamos pôr assim nestes termos, para certas canções.
Sem dúvida. Também estávamos a falar da primeira parte, de estar a dizer que fazer a banda sonora do podcast, eu parecia uma criança a pensar: "Uau, tenho este tempo para estar aqui só a fazer isto, não tenho que fazer mais nada". E este tipo de projetos com o Tozé Brito, neste caso, eu tenho ensaiado com ele várias vezes, tenho ensaiado muito para isto. Já o conheço há muitos anos, mas de repente estamos a sacar canções um do outro e ele de repente pega no baixo: "Vou tocar aí baixo nesta música", e de repente parecemos duas crianças a tocar pela primeira vez na garagem e um entusiasmo partilhado, porque a música tem isso. Tu podes ter duas pessoas de idades completamente diferentes, de repente começam a tocar juntas e aquilo não existe diferença.
E o que vos une é só uma coisa, a música.
Exato.
A paixão.
Portanto, também tem esta dimensão de experiência para mim, e possivelmente para ele, mas de poder passar por estas sessões de ensaios, de preparação, que depois é uma espécie de uma residência que culmina com este espetáculo que nós vamos apresentar ao vivo.
Vais falar dos Beach Boys neste concerto, uma das tuas grandes inspirações.
Talvez, não sei. Se surgir o tema, talvez.
O que é que há de interessante para um miúdo? Tu tinhas que idade na altura? Tu gostavas imenso. Acho que tinhas cerca de cinco anos, pelo que tenho aqui na minha pesquisa. O que é que os Beach Boys tinham de mágico para um miúdo de cinco anos que sabia as canções praticamente de cor e ia para a escola cantá-las?
Têm canções mágicas.
Mas ainda hoje consegues sentir essa magia da mesma forma?
Sim. Eu fui ver o Brian Wilson no Primavera Sound, no Porto, e quando ele começou a tocar, eu estava na segunda fila. Velhinho, chega já mal se mexia. Começou a tocar o "California Girls" e eu comecei a chorar Não dava para disfarçar. Estava de óculos escuros e escorriam-me lágrimas que durante duas músicas eu não conseguia parar.
Mas consegues perceber o que é que há de mágico? Porque uma coisa é tu teres cinco anos. Também é a fase em que os nossos sentidos se estão a apurar. Agora, com uma idade mais avançada, ouvir aquilo também é um sentimento de nostalgia, claro, mas o que é que aquilo te causa? O sentimento.
Aquilo é genial. Aquilo é música genial. Ele conseguiu fazer o que é mesmo difícil, que é juntar música de uma complexidade enorme, nem toda a que ele fez, mas alguma sim, e conseguir criar hinos de dois minutos, de três minutos de felicidade dentro de uma garrafazinha. A pessoa arrolha e de repente sai ali uma felicidade qualquer, sai ali uma comunicação. Não sei, aquelas vozes, aquelas harmonias, as melodias, o timbre de tudo, a maneira como as vozes deles eram primos e irmãos, portanto, ouves aquelas harmonias de voz e só eles é que podiam fazer aquilo. Nada mais soa àquilo. São aquelas pessoas juntas. Pronto, canções perfeitas. Eu continuo a amar.
Sim, é a tua referência mais antiga no plano musical, aquela que manténs como uma relação mais séria ou estável, vamos pôr estes termos, até aos dias de hoje.
Houve várias nessa altura. Os Beatles, obviamente, o Bob Dylan, que é incontornável também, os Queen, a determinada altura. E muita música portuguesa também, muitas coisas, mas os Doors.
Tudo nomes pequenos.
Música velha.
Tudo nomes pequenos que ninguém conhece.
Eu já nasci velho. Eu na escola já ouvia os Crosby, Stills, Nash & Young no meu discman. Os meus amigos ouviam todos Limp Bizkit e os Papa Roach, e eu estava os Pink Floyd. Mas sim, há música que é realmente, verdadeiramente intemporal. E aquilo é um cânone para mim, a música do Ryan Wilson, como é a música dos Beatles.
Sim, claro. Não tiveste uma relação muito fácil com o violino.
Não, tocava muito mal.
Mas porque tocavas mal e isso irritava-te de alguma forma e canalizava ali uma espécie de energia estranha para uma criança?
Frustrava-me. Eu fui muito entusiasmado, fui eu que quis tocar violino.
E a tua mãe acedeu a esse pedido.
Sim, acedeu. Fui a casa de um senhor que vendia violinos e eu estava excitadíssimo. Ele mostra-me um violino e eu queria muito. Eu via o violino na televisão e eu achava: "Como é que eles têm o arco, como é que eles tocam nas cordas e aquilo dá aquele som? Como é que isso é possível?". Eu acho que eu quis tocar violino porque estava tão motivado com essa curiosidade, mas depois quando percebi que o violino é muito difícil de afinar, para quem sabe música, percebe porque a guitarra tem os trastes. Ou seja, quem olha para o braço de uma guitarra vê uns ferrinhos que separam as notas. Ou seja, quando uma pessoa carrega nesse espaço entre dois ferrinhos, é a nota certa, a nota está afinada, se a guitarra estiver afinada. No violino, não. A afinação é precisa a um nível do absurdo, com os teus dedos, que têm que chegar ao sítio certo no braço. E o braço não é linear, ou seja, o braço vai ficando cada vez mais apertado, portanto o espaço entre os dedos é cada vez mais curtinho à medida que vais subindo no braço.
Acreditas que, se calhar, por seres demasiado novo e teres tido essa frustração inicial, se aprendesses mais tarde, vamos dizer, aos 14, 15 anos, essa relação poderia ter sido diferente?
Eu voltei a ter aulas de violino depois, depois mudei mesmo para o piano. Não sei. Eu hoje penso, eu sou uma pessoa que gosta de acordes, ou seja, instrumentos que toquem várias notas ao mesmo tempo e o violino só toca uma. Às vezes toca duas, mas gosto de canções e gosto de coisas mais graves e o violino é um instrumento mais agudo.
Sim.
Portanto, claramente não era o instrumento para mim. Para mim é o piano ou uma guitarra, porque a minha coisa é escrever canções. Foi uma boa introdução à música, apesar de tudo. Eu ainda apanhei aquele ensino do clássico em que na minha aula de violino, eu estudei numa escola que é a Fundação Musical dos Amigos das Crianças, que agora se chama AMAC, que agora é em Santos, mas na altura era ali na Estrela, era uma coisa muito familiar. E havia a fundadora da fundação, que era a Adriana De Vecchi, uma senhora italiana que tinha para aí 90 anos, na altura, e ela de vez em quando ia às aulas dos alunos e nós tremíamos, porque era aquela coisa.
Aquela pressão.
Ela ficava a ouvir como é que nós tocávamos. Portanto, eu apanhei essa altura em que tínhamos que estar todos muito direitos e o arco do violino, tínhamos que ter o braço preso, que era para conseguir que o arco deslizasse no ângulo certo. Eu depois continuei a estudar nessa escola e fui muito feliz nessa escola, mas num instrumento que me foi mais útil, que foi o piano.
Exato. Tu falavas aqui da questão da escrita das canções. Nessa altura tu eras muito novo e fascinava-te muito a questão dos instrumentos. Mas como é que a escrita, no fundo, passa depois a entrar também na tua vida e sentes, se calhar, essa maior necessidade de passar para o papel aquilo que também querias cantar?
Ao início, eu acho que começou só como a vontade de fazer música. Eu queria fazer música para poder tocá-la, cantá-la e gravá-la.
Não tanto pensando, se calhar, nessa altura, numa carreira. Era mais um escape?
Eu estava na escola.
Sim.
Quer dizer, numa carreira.
Mas as ambições muito grandes já nessa idade.
Eu sei que quero ser músico há muitos anos. Era muito novo. Eu tinha a certeza absoluta que queria ser músico. Depois as pessoas diziam: "Mas pode ser um hobby". Eu digo: "Não, não vai ser um hobby". Mas quando estou no meu quarto a tentar fazer músicas, eu sei que estou a explorar uma coisa só, naquele momento, eu nem sabia como é que funcionava a indústria da música. E ainda hoje não sei, mas na altura era mais inocente. E portanto, tudo se resumia a uma obsessão de querer fazer aquela ideia acontecer. Eu queria gravar, ou seja, tinha uma ideia qualquer, seja o que fosse, um par de acordes, um par de notas, e eu queria explorar aquela ideia, explorar outros sons, melodias por cima, etc. E foi assim, depois chegava aquele momento: "Agora tenho que pôr aqui uma voz, mas não tenho uma letra, não sei escrever letras". Eram dias e dias a tentar escrever alguma coisa para conseguir.
Mas chegaste a questionar, por exemplo, se só eras bom na questão de escrever canções e de atuar com um instrumento, neste caso o piano ou a guitarra, e não ser a voz? Isso chegou a ser uma questão para ti?
Claro, ainda é.
Acho que nesta altura...
Não, eu acho que eu questiono tudo.
Há sempre inquietações, isso é verdade.
Sim, é importante que haja, porque se não houver, não existe desafio. Eu agora estou a fazer um disco novo e quero que a coisa suba de patamar em relação às coisas anteriores que fiz, é normal. Mesmo que depois isso só signifique que vá ser diferente daquilo que eu fiz. Para mim há sempre um bocado de destruição daquilo que foi feito, não literal, mas para construir uma coisa nova. É um bocado como começar do zero, apesar de saber que não estou a começar do zero, apesar de saber que estou num contexto, e isso acaba sempre por condicionar um bocado as coisas que uma pessoa vai fazendo. Mas na altura eu questionava tudo. Eu nem sabia se sabia tocar bem, eu nem sabia se sabia cantar, não sabia. Eu não sei se pensava muito. Eu sabia que queria fazer e que ia fazer.
O que é que diziam os teus pais na altura?
Eles sempre foram muito encorajadores. Eu gostei mesmo de estudar antropologia, apesar da minha dedicação não ter sido a maior, porque eu nessa altura já estava a tocar, já estava a dar aulas de música e, portanto, eu nunca irei dizer que sou antropólogo de maneira nenhuma, nem pouco mais ou menos. Tirei essa licenciatura.
Mas deu-te valências.
Deu para a escrita, para olhar para o mundo, para pensar em coisas. Tive professores, alguns que revolucionaram completamente a maneira como eu penso. Viraram o meu mundo de pernas para o ar. Isso eu sinto que foi muito importante.
Tu há bocadinho falavas aqui da destruição. Tu foste viver para Londres quatro anos, foste estudar engenharia do som.
Esse foi o único curso em que eu fui bom. Estou só a dizer mal de uma percurso escolar, mas devo dizer que eu fui aluno top do ano.
Quadro de honra.
Para as pessoas não acharem que eu sou mau assim.
Ou que és preguiçoso. Foi aí que nasceu também um alter ego, o Alter Benjamin, em que tu exploravas mais o inglês, abandonaste aqui um bocadinho, deixaste parte das canções em português.
Sim, foram uns aninhos. Foi literalmente outra vida.
E depois, eu acho um conceito incrível, tu sentiste a necessidade de fazer um funeral no Lux. O que te lembras desse dia? Primeiro, quero perceber a questão de teres sentido esta necessidade de explorar o inglês. Porque estando em Londres, se calhar, não sei se isto está ligado.
Foi antes de estar em Londres que comecei. Acho que foi por conveniência, foi porque não estava preparado ainda, se calhar. Estavas há bocado a perguntar de quando se começa a fazer canções e se começas a questionar se devias cantar, se não devias cantar, se devias só tocar. Eu comecei a fazer canções, eu não comecei a pensar muito sobre o assunto, então comecei a fazer canções como elas me saíam, que é o que muita gente diz. Eu ouvia muita música americana, muita música inglesa. É quase um exercício de estilo. Se bem que escrever uma canção é um exercício, não é? É criares uma realidade alternativa. Tu podes escrever em qualquer língua, podes fazer uma canção em espanhol, não interessa. Na altura, eu não estava muito preocupado com isso, não pensei muito. É inocente, a maneira como começa a aparecer umas canções, eu gosto desta canção, digo umas coisas, eu gosto disto. As referências que eu tinha também eram americanas, inglesas, para mim fez todo sentido. Foi precisamente em Londres que eu comecei a perceber o quão pouco sentido isso fazia, quando eu estava a tocar, por exemplo, em clubes em Inglaterra, e de repente estava com vergonha de: " Será que eu estou a dizer bem esta palavra?" E depois comecei a ficar com uma grande nóia, parece que eu não sou de lado nenhum, e aconteceu várias vezes, porque se eu for tocar em Portugal, atrás dos montes, e de repente vou cantar canções em inglês. E não sei realmente se as canções que eu escrevi passaram para algumas pessoas, se calhar mais novas.
Depende sempre do público também, não é?
Sim, depende. Parece que eu não sou de lado nenhum. Estou em Portugal a tocar e parece que sou estrangeiro E depois estou em Inglaterra e também me sinto estrangeiro a tocar estas canções.
Mas nunca te passou pela cabeça a capacidade de conseguir manter os dois?
Não.
A intenção foi mesmo reconstruir.
Sim. Isto começa com uma coisa muito inocente, eu estou a pôr as coisas num lado inocente, mas depois há o ponto em que tu de repente percebes que toda a tua vida depende disto. A tua carreira, e já lançaste coisas, e já criaste público e de repente começas a perceber: "Não, isto é mesmo uma coisa a sério". E eu levei tão a sério que saí de Inglaterra para vir para Portugal para escrever canções em português. Na altura eu tinha 27 anos, lembro-me bem. Lá está, a cena da idade. Se eu aos 30 não estiver a fazer uma coisa que eu esteja a levar a sério e que seja realmente o meu foco principal, não faz sentido eu estar a apostar a ser músico.
Sentias quase como se estavas a queimar uma etapa que era precisa no teu caminho, necessária.
Sim, sendo que eu percebi também, e eu apanhei a altura da troika, foi complicado quando estive em Londres, o panorama político era um bocado complicado porque ninguém queria que eu voltasse para Portugal na altura, ninguém da minha família, porque eu tinha um contrato de trabalho, e toda a gente dizia que não havia trabalho cá, e está tudo muito difícil, as pessoas estavam todas a emigrar.
Foi um período muito difícil, tivemos muita emigração.
Muita emigração. E foi precisamente em 2013 que eu decidi voltar. Foi precisamente porque eu sabia que isto era a coisa mais importante da minha vida. Este momento ia ser determinante para o resto da minha vida. Perceber que eu, se quero escrever canções e se quero levar a sério a ideia de ser um escritor de canções, tinha que realmente parar, pensar, escrever, conhecer, conhecer histórias de pessoas, sentar-me com pessoas. Fui para o meio do Alentejo. Fui para o Alentejo, onde eu ia para o café à tarde e ficava. Sentava-me na mesa, dava conversa com o pessoal. Lá está a antropologia. Na antropologia há o método observação participante, que é o método clássico da antropologia, que é tu vais viver para junto de uma comunidade e depois tiras as notas todas, entrevistas as pessoas, fazes a vida da comunidade, e crias uma monografia a partir daí, determinas a economia local, como é que funciona. E foi um bocado esse método que eu apliquei para fazer o meu primeiro disco, o autorrádio, tanto que envolvi as pessoas no primeiro videoclipe que lancei. E comecei a criar esta personagem, que se tornou o Benjamim, que de repente escreve canções em português, que de repente quer escrever canções para a sua geração, e eu queria que as canções que eu fizesse, que as pessoas as conseguissem perceber. E não me senti estrangeiro em lado nenhum, a não ser no estrangeiro.
Em Londres, neste caso. Mas é uma experiência que tu não te arrependes de toda. Há bocado falavas aqui dessa questão de ter sido um curso que fizeste e muito bem e com excelência. É uma etapa que consideras necessária neste teu percurso, até para o homem que tem aqui à minha frente hoje?
Qual das etapas?
A questão de ter estado em Inglaterra.
Sem dúvida. Por todas estas razões e muitas mais.
Até porque depois o questionamento todo, não é?
Sem dúvida. Sim. Isso foi fundamental. Se não tivesse acontecido, não tinha acontecido. Aconteceu porque foi possível, mas para mim foi muito importante. A nível identitário, a nível de crescimento, a nível de estar num contexto muito diferente, estás longe da tua família, de teres que te virar de outras maneiras, é uma cidade muito competitiva, as realidades são outras. Tudo isso foi obviamente fundamental. Depois estavas a falar do funeral.
Exato, o que é que te lembras do funeral de Walter Benjamin?
Eu decidi que queria vir para o Alentejo, eu não fiz logo a passagem direta.
É que tu tiveste direito a um artigo no Público, publicado a 12 de dezembro de 2014, em que o título era: "Hoje morre Walter Benjamin". Qualquer pessoa que lesse isso e não estivesse ao meio da realidade ia pensar: "O que está a acontecer? Tanto dramatismo num título".
Foi muito emocionante. Éramos para aí 18 em palco. Fizemos um concerto, que eu acho que foi épico, está filmado, está alguns num cartão de memória, um disco rígido na minha casa. Muitos amigos, tínhamos malta dos Capitão Fausto, malta que tocava comigo, Samuel Moussa, malta de Cat Wings Charlie Brown. Era muita gente. E foi uma festa para os amigos e para as pessoas que, ao mesmo tempo que eu quis matar este projeto e achava que já não fazia sentido, ao mesmo tempo, todas as canções que eu fiz, dos discos que eu fiz, eu fiz a sério também. E foram canções nas quais eu acreditei muito e para as pessoas que gostaram e que estiveram comigo nisto, era um momento para conseguir partilhar com elas esta despedida.
Um último ato de amor, um último episódio.
Foi uma coisa muito pessoal. E ao mesmo tempo, também foi pensar: eu vou matar este projeto e vou começar outro, e se eu conseguir matá-lo, e de repente estás a falar de um artigo no Público, isso também foi importante para depois quando eu vou renascer como Benjamim.
Porque havia ali aquela referência.
As pessoas a ver: "Ok, ele matou esta personagem e começou outra". E fazer essa história para mim também é importante, até do ponto de vista da comunicação e de conseguir vender concertos e as coisas normais, de conseguir pagar as contas. Lá está, uma coisa é começar as canções no quarto sozinho sem saber de todo como é que funcionam as coisas. De repente, quando a tua vida já depende disso, tu vais ter que ser um bocado mais estratégico também. Quando é que vai acontecer o funeral? Como é que vai ser?
E tu fez o seu caminho. Hoje tenho aqui um músico adulto à minha frente. Como é que tu lidas num tempo, e se calhar numa era de consumo de música, que pede coisas muito imediatas e às tantas muito descartáveis. Isso para um músico é frustrante? Ou não deixas que chegue a esse ponto, a frustração?
Às vezes é muito frustrante. Eu estou a fazer um disco hoje em dia que é uma reação. Agora estamos na altura do AI, da inteligência artificial, e música feita por inteligência artificial agora é mato, no Spotify e nas plataformas. E as pessoas consomem, às vezes nem sabem que estão a consumir.
Sim.
E o disco que eu estou a fazer agora é gravado em fita. Músicos ao vivo a tocar numa sala. Não é só, regravamos coisas, etc. Eu sempre usei muitos teclados e não tem teclados, é o máximo. Não é só guitarra acústica e uma coisa muito chata, tem outras coisas, mas a ideia é que tu ouças as pessoas numa sala a tocar, quando ouvires o disco. Portanto, ao mesmo tempo, todas estas coisas que me deixam angustiado e frustrado, eu também reajo. E ao mesmo tempo também sei, há um lado que é, nós sabemos que o computador ganha a qualquer jogador de xadrez. Isso já aconteceu há não sei quantos anos. Não sei se alguém tem interesse em ver campeonatos de xadrez com computadores, ou computadores a jogar xadrez um com o outro, não sei se isso tem grande interesse. Sempre se ouviu má música, sempre houve música descartável. Se formos ver os tops dos anos 70, 80, que é a altura em que nós dizemos que a música era não sei o quê, e depois vais ver e são milhares de coisas que ninguém se lembra. E depois vês até coisas que hoje em dia são clássicos absolutos, muito abaixo de número uns que já ninguém conhece. Enquanto as pessoas gostarem de me ouvir e eu conseguir motivar as pessoas para virem ver os meus concertos e ouvir a minha música, eu vou estar satisfeito com esse facto. E é para as pessoas que eu faço música. Primeiro é para mim, mas a partir do momento em que tens um público, eu sei que eles estão ali e eu preocupo-me muito mais e sou muito mais perfeccionista hoje em dia porque tenho um público, porque eu se calhar quando não tinha, era mais punk. E agora, de repente, se eu vou lançar um disco, eu fico nas misturas e os takes eu penso: "Epá, o pessoal vai ouvir isto, isto tem que estar mesmo bom". Esse lado é o meu foco e vai continuar a ser o meu foco, é fazer música para as pessoas e acho que também nos cabe a nós, enquanto artistas, criar música e sermos exigentes também na música que fazemos para que se possa distinguir. Já é fácil fazer música há muito tempo, no sentido em que já há tecnologia, que tu já não precisas de um estúdio gigante para fazeres música. Agora é menos ainda, agora fazes um prompt, escreves assim: "quero uma música igual à Lana Del Rey".
É cada vez mais fácil.
E de repente aparece um tipo a fingir que é Lana Del Rey. Mas não é. Eu acredito que as pessoas também se vão fartar. Acho que o facto de ser uma raridade.
Ser uma novidade, no fundo, a questão da inteligência artificial.
Agora é uma novidade, mas acho que isto ao mesmo tempo aumenta muito o valor de um músico ou de um artista, que realmente é um artista e que realmente faz uma coisa que é especial e que vai estar sempre acima daquilo que a inteligência artificial vai fazer. Até porque a inteligência artificial o pode copiar, mas nunca vai ser o original.
Exato. É um disco por inteiro, aquilo que aí vem.
É, é um disco por inteiro.
Muito bem. Fica aqui a referência. Ainda este ano, 2026?
Sim. Se tudo correr bem.
Exclusivo. Exclusivo, é verdade. Exclusivo. Benjamim, já falamos aqui de várias inquietações. Há muita coisa a acontecer no mundo. Eu também sei que és um homem que se preocupa muito com, nem digo questões políticas, mas mesmo questões sociais de coisas que acontecem um pouco por todo o mundo. Tu estás numa fase em que hoje precisas mais de silêncio para perceber aquilo que está à tua volta ou consegues também pensar no meio do ruído, naquilo que te preocupa, naquilo que te inquieta?
Eu preciso de silêncio agora, mais. Há muito ruído. Sim, eu preciso de silêncio. Eu estou a par e quero estar a par, mas às vezes é preciso também escolhermos um bocado o que está à nossa volta, ou seja, as notícias que estão à nossa volta, como é que está nosso pai, nossa mãe, como é que está os nossos amigos. Eu tenho amigos meus que não dormem agora por causa das notícias, toda a instabilidade política que há hoje em dia, que vemos, o cenário político é muito imprevisível.
Não só cá, é por todo o mundo.
Não, no mundo. Aliás, eu acho que cá, felizmente, vou dizer isto, mas eu acho que cá, apesar de tudo, acho que existem alguns resquícios da velha ordem. Mas pensar que o mundo é governado por crianças, que é, ou por crianças ou adolescentes, não sei muito bem o que são. Sinto muita malta muito ansiosa com isso e eu próprio já estive nessa fase e, portanto, às vezes também aquilo que nós conseguimos mudar também é muito pouco. E diretamente, não vamos mudar o presidente de outros países. Não votamos sequer nesse país. Portanto, eu preciso de silêncio agora também. Preciso às vezes de desligar. Para conseguir estar no meu mundo, quando estou no meu estúdio, não posso estar rodeado de ruído, de catástrofes e de coisas a acontecer.
O que é que te deixa mais ansioso em relação ao futuro?
A divisão é o que me deixa mesmo ansioso.
No seu todo?
Sim. Nos anos 90, parecia que nós agora vamos ser todos amigos, agora não há fronteiras. E agora não. Agora estamos num paradigma diferente, é dividir, muita ignorância em relação aos outros. Estamos a falar de inteligência artificial e de notícias, por exemplo. O facto de hoje em dia ser muito difícil distinguir o que é real ou o que não é, vai sendo cada vez mais difícil, e temo que isso vá criar graves problemas nesta questão da polarização, porque esta polarização só serve a pessoas. Nós sabemos quem é que são as pessoas. Virar pobres contra pobres não serve os pobres garantidamente, e é o que está a acontecer. Isto, para mim, não tem a ver com questões ideológicas de todo.
É mais do que isso.
É muito mais do que isso. São business plans que existem em certas agendas, que podem ser de uma cor como outra, isso não interessa. Dominar é o que é.
O Benjamim, que vai estar em concerto amanhã, dia 9 de fevereiro, com o Tozé Brito, "Conta-me uma Canção", no Teatro Maria Matos, é autor da nova banda sonora do novo podcast Plus do Observador, "Os Segredos da Seita do Yoga", e ainda em 2026 tem um novo álbum. Vamos ficar à espera disso. Benjamim, muito obrigado por teres vindo aqui à Rádio Observador. Um grande abraço. Até breve.
Até já.