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Vem de Beja e desde pequeno que vive e sente a música de maneira intensa. Estreou-se em 2017 e entretanto conta já com dois álbuns e várias colaborações. Cantou para o Papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude, recebeu vários prêmios e tem levado a sua música de norte a sul de Portugal e também além-fronteiras. Hoje recebemos Bernardo Espinho no Em 40 Minutos. Acredito que o conheça por Buba Espinho. Bem-vindo, Buba.
Olá, obrigado. Bernardo deixa-me sempre nervoso.
Desculpa, agora comecei logo aqui e ia mesmo a matar.
Não, é que às vezes não sei quem é o Bernardo. Pergunto: "Será que vem aqui alguém mais alguém?"
Alguém que efetivamente ainda te trate por Bernardo.
Que eu me lembro, não, só mesmo as pessoas nos serviços, quando sou chamado nas finanças ou no centro de saúde.
E não respondes?
Às vezes passa. Não dou mesmo pelo nome Bernardo, é mais uma falta de me chamarem mais vezes.
Desde pequenino que é Buba. Mas olha, Buba, gostava de começar precisamente pela JMJ. Vi numa entrevista que foi um processo super-rápido, não foi? Que recebeste o convite e passado 18 horas, não chegou a fazer um dia, que já estava tudo agilizado. Portanto, nem sequer houve tempo para assimilar, para ficar nervoso.
Nada. Foi tudo muito rápido e normalmente esse tipo de processos onde há logísticas e dinâmicas muito complexas, como foi o caso, normalmente levam muito tempo e eu nem sequer estava a criar expectativas, estava numa de: "Pode ser que arranjem para lá outro".
É sério?
E que vá outro cantar. Mas a verdade é que foi tudo muito rápido. Pediram-me disponibilidade e umas horas a seguir estava confirmado e foi uma alegria. Ainda que eu não seja a pessoa mais crente, respeito muito e sei que move muita gente e que move muitas emoções, principalmente, e eu sou um apaixonado por sensações e emoções. E nesse dia, sentir essa energia tão especial foi mesmo magnífico. Desde o convite até o último segundo em que acabo de cantar, foi realmente um processo incrível.
Mas sendo alguém de sensações e de emoções, como é que estavam os nervos para uma atuação destas?
Foi diferente, porque nós tínhamos uma complicação com o som, porque como sabem, eu cantei de frente para o palco e as colunas estavam viradas para nós e aquelas colunas da dimensão que são, saem um segundo depois daquilo que nós cantamos. E eu estava com os in-ears na mesma, mas aquilo tem tanto som e tanto power que eu ouvia o que cantava nos in-ears e um segundo depois, o que tinha cantado há um segundo.
Isso para manter os tempos...
Esquece. Eu acabei a atuação a pensar: "Será que está tudo bem? Será que não está?"
É que imagina, tu já estavas a cantar para o Papa, estavas a cantar para uma multidão de gente com essas dificuldades técnicas todas.
Sim, mas depois o final...
Quem faz isso, faz tudo.
É verdade. E foi mais um desafio e ser posto à prova dessa maneira com 600 mil pessoas a assistir e tudo o que estava a acontecer em volta. Foi mesmo uma prova de fogo, mas a verdade é que foi um momento muito bonito e muito especial para mim e tenho a certeza que para todas aquelas pessoas que lá estavam e as que estavam em casa. Desde esse dia que até hoje recebo mensagens desse momento. Há pessoas que levam esse momento como um momento histórico, principalmente os portugueses e os alentejanos. Verem o Papa ouvir uma canção que nós escutamos desde miúdos, é realmente algo arrepiante para mim e para toda a gente.
E olhando, há muitos concertos na carreira, uma carreira ainda muito longa pela frente, mas até agora este é um dos momentos mais marcantes da carreira?
Sim, sem dúvida. Pelo impacto, pela dimensão do evento. Eu nunca tinha cantado para tanta gente. Mais de meio milhão de pessoas é uma loucura. Nem nos maiores festivais de Portugal há tanta gente. E sim, olhar em redor e só ver pessoas e cabecinhas e lá está, é muita coisa a acontecer e eu só ter que estar focado numa canção e numa letra e no tocar de uma guitarra. Sim, foi preciso uma concentração acima da média, mas depois, obviamente, que quando dei o último suspiro foi já está. E ficou altamente.
Boa. Olha, vamos agora até ao Alentejo, tu és de Beja. Como é que foi crescer fora da capital? O que é que mais gostas no Alentejo?
Olha, eu acho que foi um crescer com tranquilidade, um crescer sem ser à pressa. Eu sinto muito que as novas gerações estão a viver tudo muito à pressa. Eu sinto que tive essa paz e essa calma, essa tranquilidade. Tive uma educação excelente, os meus pais nunca me pressionaram em nada na vida e acho que isso também faz parte da educação, independentemente do sítio onde nós vivamos. Deixaram-me ser feliz e ser aquilo que eu quis. E Beja é uma cidade muito tranquila, uma cidade muito familiar, muito pequena, onde toda a gente se conhece. Viver em comunidade é uma coisa simples e banal na nossa cidade. Mas foi uma infância muito feliz. Eu brinquei na rua e sou da mesma geração dos computadores e das PlayStations, mas ainda assim, tivemos essa liberdade de ter um grupo de amigos que brincava na rua, de poder fazer desporto, todos os desportos que eu quis. Bem, foi uma infância muito feliz, que eu quero obviamente passar à minha filha, que tem nove meses e que vive lá em Beja também. Eu nunca vivi aqui em Lisboa mais do que sete anos, por isso não sei como é que será crescer aqui, mas acredito que seja muito diferente.
Mas era uma família muito longa no Alentejo?
A minha família? Sim, nós somos muitos, muitas primas, muitos tios, uma família muito grande, com muita música, com muita arte. Tenho também artistas na família, fotógrafos. É maravilhoso, é uma família incrível, cheia de vida e que também me deu esta predisposição para poder estar num palco e viver da arte. Foi ali com eles, nos jantares de Natal, que nós começámos a ganhar esse bicho.
Cantavam todos juntos nos jantares de Natal?
Sim, ainda hoje continuamos a cantar e a fazer concursos de talentos. 30 por uma linha.
Concurso de talentos nos Natais, por exemplo?
É verdade, todos os anos. Temos um grupo, eu até tenho tatuado, que são os primos em luxo.
E já ganhaste algum Natal?
Agora temos sempre os mais novos. Os mais novos têm que ganhar sempre. E quando era o mais novo, ganhava eu. Agora já há uns aninhos que não ganho.
Tu desde pequenino que, como tu dizias, estás ligado à música por causa do teu pai, não é? Numa entrevista disseste que o teu pai abdicou de seguir a música de uma maneira mais profissional para cuidar de ti e do teu irmão. Tu sentes que de alguma forma tens de deixar o legado que o teu pai não conseguiu deixar com a música?
Também
Sentes isso?
Sim, sinto isso, porque sei o quanto o meu pai ama fazer música e tudo o que isso implica. Sei que nessa altura ele podia, de alguma forma, ter arriscado. Eu sei que iria dar resultado, mas porque agora estou a ver à frente e sei o potencial que ele tem. Mas a verdade é que eram tempos diferentes. Isto foi mais ou menos entre 2000 e 2003. Na altura, ele estava com o Estrala a Bomba, tinham muitos concertos, foi uma altura de muito sucesso, mas ele teve os pés no chão pra perceber que se calhar nem sempre iria ser assim e que poderia estar a pôr em causa a minha educação e do meu irmão, e as condições que tivemos pra poder crescer desta forma, como eu vos disse. Sinto que foi a melhor decisão pra ele, pra nós também. Hoje em dia, obviamente que nunca poderia deixar de fazer isto da minha vida, porque sinto que esse sacrifício foi pra eu poder sonhar e eu continuo a sonhar todos os dias com aquilo que faço. Sei que é um orgulho pra ele a dobrar, porque sabe o quão eu estou realizado e sei que também é uma realização pra ele por nunca poder ter tido o nome nos cartazes e pisar estas salas todas importantes que eu tenho pisado. Eu piso-a por mim, pela minha família toda.
Estás a viver o sonho pelos dois, quase.
Sim, e é algo que eu vejo nos olhos dele, é algo que ele vê sempre nos meus olhos, é um amor que nós temos muito em comum, isto da vida artística e dele na altura não poder seguir isso. Podia até ser um pai ressabiado ou com alguma frustração por terem sido diferentes, mas não.
Mas não foi o caso.
Portanto, é um olhar de orgulho.
É um olhar de orgulho, sim. Muito grande.
E que papel acaba por ter a família nesta vida profissional, que é uma vida diferente de todas as outras, claro. Tem muito trabalho, muito tempo fora de casa, muita dedicação, muito mediatismo também. Qual é o papel da família no meio de tudo isto?
Eu sinto que a parte mais importante da minha família foi a compreensão desse mesmo sacrifício, principalmente de eu nunca estar presente nos aniversários das minhas primas, dos meus tios, de me esquecer às vezes de levar uma prenda ou de alguma coisa que possa ter falhado. Eles são sempre os primeiros a compreenderem, principalmente quando eu não estou presente, mas depois ao mesmo tempo vão vibrando comigo e celebrando cada vitória e cada passo que eu vou dando, que é sempre com eles. Mas o papel deles, eu sinto, como disse, que foi a compreensão, mas obviamente que há muita motivação. Sempre todos os dias há muito amor, somos uma família muito unida e é sempre muito bom ter essa motivação quase diária da parte deles.
Ainda aqui sobre o Alentejo. Nesta altura, uma carreira que ainda não é assim tão longa, mas já é longa o suficiente pra aqui estarmos todos e para falarmos de muitos êxitos. Nesta altura, já te sentes uma figura do Alentejo, no seu imenso território, nas suas imensas figuras, achas que é alguém que representa também um pouco o Alentejo?
Sim, sem dúvida. Sinto-me um embaixador. Não tenho problemas nenhuns e nem acho que é ser convencido, mas sinto que é uma das minhas missões: colocar a minha região no mundo, mostrar tudo aquilo que nós temos enquanto povo, enquanto a gastronomia que nós temos, é uma coisa que eu falo sempre, que é da nossa gastronomia.
Tens um prato favorito?
Tenho vários. Adoro migas de pargos. Migas de pargos é a minha perdição. E sopa de cação. Maravilha! Adoro. E sim, em primeiro lugar é uma missão e obviamente que as pessoas me têm vindo a reconhecer e principalmente os alentejanos que passam por mim na rua ou que me mandam mensagens, enchem-me de orgulho de sentirem que o Alentejo está bem entregue na minha voz e na minha forma de ser, porque eu acho que acima da música é a minha forma de ser e de estar na sociedade. Eu acho que o alentejano tem uma compreensão muito grande de quem está do outro lado. É muito estranho um alentejano vir a Lisboa, mas não é estranho um lisboeta vir ao Alentejo. E sinto que o alentejano está sempre muito aberto e eu sou assim enquanto pessoa e que faço sempre questão de vincar e de colocar a minha terra no mundo e obviamente uso o mediatismo também pra isso. Podia usá-lo pra outras coisas, mas aproveito essa montra pra mostrar aquilo que de bom se faz na minha terra. E sim, sinto-me alentejano 100% e serei sempre um embaixador.
Portanto, está bem representado o Alentejo. Tu estreaste em 2017 com "Quem Sabe Um Dia", mas um ano antes disso foste vencedor da Grande Noite do Fado do Coliseu dos Recreios. Achas que esse momento, de alguma maneira, ajudou a impulsionar a tua carreira?
Sim, claro. Foi mais um dos momentos especiais. Eu vim pra Lisboa em 2015, a arriscar um pouco, sem saber o que é que havia de fazer, mas foi nas casas de fado onde eu encontrei uma estética mais aproximada àquilo que eu queria pro meu caminho a solo, porque eu vinha de projetos coletivos, de canto alentejano, todos eles muito tradicionais. Mas houve uma altura em que quis seguir o meu próprio caminho e foi mesmo no fado que eu fui encontrando essa estética. Mudei-me pra Lisboa e depois concorri a essa Grande Noite do Fado e prêmios valem o que valem, mas pra mim foi uma motivação e foi um indicador de que as coisas estavam a ser bem feitas e do trabalho que eu estava a fazer e daquilo que eu já tinha sacrificado nesse ano e meio, dois anos que antecederam à vitória, não tinham sido em vão. E sim, claro que levantar depois o prêmio, no meio de tantos fadistas com tanta qualidade que a minha geração tem, poder ser o vencedor foi muito bom. Ao mesmo tempo, também não gostei nada da sensação de competir, é algo que me deixa muito nervoso. Eu até tinha dito que nunca mais ia competir.
Competir só com a família.
E este ano no Festival da Canção voltei a competir e voltei a sentir outra vez a mesma coisa de música não é competição. Mas sim, foi um bom momento no Coliseu dos Recreios também.
Que idade é que tinhas?
Em 2017 eu tinha 22.
Portanto, supernovinho ali no meio de tanta malta, tantos fadistas.
Sim, eu comecei muito novo, como vocês estavam a dizer há bocado, não tenho uma carreira longa, mas comecei muito novo. Já lá vão 13, 14 anos desta vida dedicado só à música e à minha carreira e a todos os outros projetos.
E como é que eram esses projetos que tu gostavas de falar, por exemplo, de canto alentejano, tu cantares com tanta gente. Como é que descreves isso?
É o nascer na terra, é o nascer no Alentejo. Estamos muito habituados, através dos nossos avós, a ouvir o cante alentejano. E a minha geração tinha o bichinho lá no fundo do cante alentejano, porque na altura em que nós começamos a cantar, o pessoal não queria saber do cante alentejano, era algo muito conectado às tabernas e aos bêbados, e era algo posto de parte. E sinto que nós, toda a minha geração que vive no Alentejo, que tem um bichinho diferente e nós começamos a desbravar mato por aí e começar a cantar com os amigos nos jantares de grupo.
Começou muito por aí.
Sim, começou muito por aí. Há estante estávamos num palco com um grupo só de jovens, que era algo inédito no Alentejo nessa altura, e de repente depois começaram a aparecer outros trabalhos. O meu pai convidou-me para ir para o grupo Adiafa com ele. Eu também fiz dois ou três anos de estrada com eles nessa altura. Tive um projeto também muito interessante, que era Há Lobos sem ser na Serra, que era um projeto com cante alentejano, viola campaniça e desenho digital ao mesmo tempo. Também foi algo muito interessante. Incrível, a sério. E fizemos muitos concertos lá fora, principalmente. E são projetos que fazem muito parte de mim, onde eu aprendi muita coisa, porque eu acho que trabalhar em coletivo, tu aprendes muito a aprender a respeitar outras perspetivas, aprender a juntar essas perspetivas que podem ser opostas à tua e fazer uma fusão ainda muito mais interessante daquilo e fazer crescer, neste caso, as canções. Eu acho que aprendi muito nesse panorama coletivo. Foi um processo de cinco, seis anos, até vir aqui para Lisboa e dedicar-me.
E tu estavas a dizer que também cantaram fora de Portugal, é isso?
Sim, com esse projeto.
Como é que o público lá fora recebia o cante alentejano?
Sempre foi incrível. Felizmente, todos os anos vou cantar lá fora e é sempre surpreendente como as pessoas reagem, principalmente ao cante alentejano. As pessoas não fazem ideia do que é que nós estamos a dizer, mas sentem aquilo de alguma forma.
Mas de alguma maneira, aquilo toca.
Sim. Se a mim me toca quando oiço de fora e estou habituado, para alguém que nunca ouviu 20 e tal homens a cantarem em conjunto, coordenadíssimos, acho que é mesmo muito impactante e senti isso em qualquer lugar do mundo onde já estive a cantar.
Mas se há 15 anos talvez pudéssemos dizer que o cante alentejano era quase um estilo em vias de extinção, hoje em dia já não conseguimos dizer isto.
No caso, precisamente o contrário, não é?
Agora já não o tiram. Acho que vão ter que passar muitas gerações para isso sequer ser uma possibilidade. Porque eu sinto cada vez mais que as pessoas valorizam muito as suas raízes e eu acho que isto da pandemia, principalmente essa fase da pandemia em que nos vimos de longe de tanta coisa, eu acho que valorizámos muito o nosso ponto de partida, os nossos antepassados, a nossa história, olharmos para trás e perceber que somos feitos daquilo que é o nosso passado, tão ou mais do que aquilo que pensamos. E o cante alentejano não foge à regra. Eu acho que qualquer jovem neste momento no Alentejo sonhava poder cantar as suas modas num palco.
Mas o facto de ter sido considerado patrimônio imaterial da humanidade pela UNESCO, isto levou também a dar uma nova vida ou foi mesmo agentes do Alentejo que perceberam que tinham ali um pedaço de ouro pronto para ser aproveitado?
Sim, mas antes de ser patrimônio imaterial da humanidade, houve muito trabalho a ser feito, não só pela nossa geração, mas por muitas entidades e grupos corais que não são profissionais e nem andam em palcos, mas que são eles também embaixadores todas as semanas e que fazem isto em troca de um jantar e as despesas para os concertos, é a realidade. São amadores, mas fazem isto com o coração e acho que isso traz uma pureza à nossa arte que é quase inalcançável noutros gêneros musicais. Até chegar a esse ponto do patrimônio imaterial da humanidade. Eu acho que sermos considerados patrimônio imaterial da humanidade apenas fez as pessoas olharem para aqui, para o Alentejo e para a música que se faz no Alentejo de outra forma. Eu acho que muita gente foi apanhada de surpresa, mas nós, alentejanos, que vivemos isto todos os dias, para nós foi uma coisa perfeitamente normal.
Fica ao mesmo nível do fado, por exemplo.
Sim. Não gosto de comparar o meu gênero com outros gêneros, mas sim, está com o fado e com os chocalhos também, que é patrimônio imaterial da humanidade. Mas sim, basicamente é isso.
Há pouco estávamos a falar aqui do primeiro single, 2017, mas 2020. Há uma canção com António Zambujo. Como é que isto acontece, "Roubei-te um Beijo", como é que isto acontece, esta parceria, esta ligação? De quem vem o convite? Depois, como é que foi fazer este trabalho? Conte-nos sobre isso.
Olha, o dueto com o António Zambujo foi o materializar de uma relação e de uma forma muito especial com que o António Zambujo me acarinhou desde os primeiros momentos em que nos conhecemos. Uma pessoa que para todos nós, alentejanos, é uma referência. Como homem, como profissional, como músico, como poeta, como compositor, eu acho que, pelo menos para mim, é o expoente máximo do nosso Alentejo, porque realmente foi ele quem desbravou muito mato pelo país fora e pelo mundo fora e levou, em primeiro lugar, há mais de 20 anos, a nossa música a ser conhecida por uma forma diferente, por uma perspetiva diferente. E ele foi o primeiro a rejuvenescer este gênero musical, ainda que não com o mediatismo que ele hoje próprio tem, mas que na altura foi sempre algo que ele levou. E houve uma altura em que eu o conheci e começamos a partilhar momentos juntos e que foi uma pessoa que me apadrinhou de alguma forma, foi o meu pai musical e é uma pessoa a quem eu peço sempre conselhos, porque tenho sempre uma palavra de amizade, uma palavra sincera. É aquela pessoa que diz que não gosta de ouvir aquela música ou que não gosta daquele poema, ou que não gosta daquela interpretação. Não. É das pessoas mais diretas. E depois, obviamente, que isso se materializou num single. Fizemos isso em meia hora.
Meia hora.
O importante era o almoço. Aproveitamos e vamos gravar.
Prioridades.
Mas sim, o Zambujo é um porreiro assim e ter-me dado a mão nessa fase emergente da minha carreira foi muito especial e muito importante para mim.
Que bom. Olha, e tu acabas por mostrar vários estilos musicais nas tuas músicas, não é? Cante alentejano, fado, pop, até. Para ti é fácil fazer esta fusão de tanta coisa? É natural para ti?
É natural.
Sai-te de uma maneira natural.
Sim, é natural. Mas sinto que tem a ver com a abertura que eu tenho para com os outros gêneros musicais, para com outros artistas. Eu não fecho as portas nunca ao ouvir um álbum Seja de que género for, nunca fecho as portas a ir assistir a um concerto, porque sinto que sempre consigo beber alguma coisa importante para a minha música. Isso é o que vou fazendo ao longo do caminho e o caminho faz-se conhecendo pessoas, bandas, programadores. Eu acho que isso tudo vai moldando a minha forma de pensar e de criar os meus conceitos musicais.
Tens algumas referências?
Tenho várias. Tenho muitas. E é muito por fases, mas eu costumo dizer que a minha música é uma panela cheia de ingredientes que eu vou atirando, em que a base, o refogado, é o cante alentejano e o fado e aquilo que é a minha experiência. Depois vou atirando, vou fundindo, vou experimentando, vou-me tentando sentir bem em zonas que não são a minha zona de conforto e isso vai-me preparando para depois, em momentos em que sou colocado noutras perspetivas musicais, em que me sinta mais à vontade e colocando sempre a minha identidade. Isso é a minha prioridade, independentemente de que género eu esteja a abordar ou com que instrumento eu esteja a tocar, eu gosto sempre de ser o Bubha na sua forma máxima. E depois sinto que há sempre outros pontos e outros ingredientes que eu gosto de juntar, obviamente.
Adorei esta analogia. Vamos ter de fazer aqui uma pequena pausa para atualizar as notícias. Já voltamos à conversa com Bubha Espinho no "40 Minutos" desta semana. Segunda parte de em 40 Minutos, esta semana com Bubha Espinho. Bubha, em 2022 sai uma música que dá um boost à tua carreira, "Casa", música que tens com os Dama. Eu sei que esta pergunta pode ser um clichê, mas quando terminaram de fazer a música pensaste algo do tipo: "Isto vai bater"? Ou foi só: "É só mais uma".
Na última fase do processo da construção e edição da canção, portanto, mesmo quando terminamos as gravações todas, aí sim, disse que vai bater. Mas até lá chegarmos foi um processo muito engraçado. Eu participei com os Dama no Festival da Canção, eles fizeram uma música para o Festival da Canção, o João Campos foi cantar e eles ligaram-me e foi aí que eu os conheci, porque queriam um coro que trouxesse alguma portugalidade à canção e lembraram-se do Alentejo e de me levar a mim para fazer esse coro. E foi nesse momento que eu os conheci. Tive a oportunidade logo de trabalhar com eles em estúdio, um processo muito intenso e muito criativo. Eu ainda não estava muito nessas andanças e foram eles que me trouxeram para esse ritmo da indústria musical. E é aí que começa a canção "Casa". E na partilha de muitos momentos, ficámos todos muito tristes por não termos passado o Festival da Canção, mas um dos Dama convidou-nos para ir até à casa dele e conhecer uns amigos. E foi nesse momento em que eu percebi que estava ali com amigos para a vida, em que a vitória ou a derrota num prémio, num festival, não tinha nada a ver. O importante era mesmo termos cruzado a perspetiva deles, mais urbana, de outra geração diferente da minha e onde houve um respeito enorme por aquilo que é a minha geração, a minha música e o meu povo. Foi muito difícil até esse momento, eu encontrar pessoas e artistas que olhassem para o cante alentejano e pensassem que realmente aquilo era um género tão ou mais importante do que outros, porque até lá eu sempre senti muito desrespeito e muitas vezes até chacota dos alentejanos e do cante alentejano. E é normal, nós somos um povo descontraído e somos os primeiros a contar anedotas sobre nós. Mas o brilho do olhar deles e o respeito que eles tiveram para connosco, nesse primeiro dia, foi algo que me agarrou logo muito. E a partir daí começou-se a construir uma canção. Eles tinham um refrão e um verso do "Casa". Nós fomos ao estúdio no dia a seguir de termos perdido o Festival da Canção.
Como é que vocês não perdem tempo.
E eu gravei o refrão com mais dois amigos e aquilo ficou na gaveta dois ou três anos. Isto foi em 2018. Eu voltei a ir ao estúdio deles uma vez, já não sei por quê, e um deles chamou-me: "Olha, anda lá ouvir isto que nós gravámos há três anos atrás ou há dois anos atrás". E ficámos todos a ouvir aquilo. "Isto realmente tem algum potencial". E convidei-os para vir ao Alentejo. "Olha, vamos gravar isto no Alentejo. Não quero saber de estúdios aqui em Lisboa, nem estar a contar horas de quantos minutos é que faltam para gravar a voz e a guitarra. Não, vamos para o Alentejo, vamos estar descansados. Eu vou vos mostrar alguns sítios para vocês comerem, para vocês beberem. Vou vos apresentar aos meus amigos para vocês entenderem ainda mais aquilo que é a minha realidade e a essência do cante alentejano". E assim foi. Eles montaram um estúdio em Bringel. Fizemos um primeiro processo, criámos o segundo verso. Depois eles voltaram a ir para o Alentejo mais três ou quatro dias e gravámos o último verso e fizemos o videoclipe. E de repente, tínhamos criado um grupo fantástico de trabalho, de amizade. O Casa, está o Bubha Espinho e os Dama, mas estão mais de 100 pessoas a trabalhar nesta equipa. E todas essas pessoas com o mesmo propósito, todas elas colocar o coração e o amor que têm pela arte nesta canção. E houve esse momento antes de lançar, que realmente olhámos todos para a canção e ouvimo-la com os melhores ouvidos, sem pensar em tudo o que é o processo e todos os pormenores. E foi mesmo um momento de euforia e que era aquilo mesmo que nós tínhamos pensado fazer.
Eu ia perguntar como é que foi trabalhar com os Dama, mas tu já utilizaste pelo menos três, quatro vezes a palavra amizade no meio dessa descrição, portanto, já não é propriamente trabalho.
Não. Eu já lhes disse: "Vocês até me podem ligar para irmos cantar ao Bangladesh e perder 100 mil €, que eu vou". É verdade, vou. Assino por baixo já. Porque sei que eles me convidam sempre para coisas que são benéficas para nós e têm sempre um ponto de amor e de amizade para comigo. Ainda há pouco, no almoço com um amigo, estava a falar sobre isso. Ele estava a me perguntar por quê, mas onde é que tu te apaixonaste, entre aspas, por eles? E é mesmo isso, é sentires que és respeitado, admirado e ouvido de uma forma como eu nunca tinha sentido nesta indústria. E apesar de ter construído aqui uma canção para a vida, também construí uma amizade e uma relação para a vida com eles.
Claro. Olha, Bubha, tu já colaboraste com vários nomes da indústria musical portuguesa. Com quem é que ainda não colaboraste e gostavas?
Boa pergunta.
Se calhar devia ter feito esta pergunta antes para o Buva pensar e depois chegar aqui e responder.
Uma excelente pergunta. Há vários artistas cá em Portugal que eu gostava de trabalhar. Gostava muito de trabalhar com a Carlina dos Santos, que acho que é uma poeta incrível, uma pessoa com uma sensibilidade daquilo que é os tempos atuais, aquilo que se vive e aquilo que se fala acima da média. E gostava muito, e sei que vai acontecer, nós somos amigos e já falámos sobre isso. Vai acontecer. E eu gostava de cantar com tanta gente.
Então tens oportunidade de fazer isso.
Eu nunca fiz um dueto com o meu pai.
Olha!
Já cantei com ele em muitos projetos, mas boa ideia.
Ouviram aqui primeiro.
Fica a promessa. Quanto a palcos, muitos palcos, norte a sul do país, festivais, coliseus, muitas salas de espetáculos, as mais emblemáticas do país. É melhor tocar numa grande sala ou tocar em casa, tocar em Beja? O que é melhor?
É uma excelente pergunta. Há sempre muitos sentimentos diferentes. Tocar em casa é maravilhoso e apesar de haver sempre um peso maior, por ter a minha família sempre na fila da frente. Às vezes parece que sinto mais o peso da responsabilidade.
Ter ali a família toda à frente.
Apesar de nós termos uma relação muito aberta e de naturalidade, é sempre tão bom olhar pra eles, é pensar noutras coisas e isso às vezes provoca uma desconcentração. Mas sim, tocar em casa para os meus amigos e pra minha família é realmente o melhor. O ano passado terminámos o ano em dois concertos esgotadíssimos no Cine Teatro da minha cidade. E sem dúvida, já fiz alguns coliseus do Porto, de Lisboa, festivais com milhares e milhares de pessoas, mas esses dois concertos, dia 23 de dezembro, um às 17h e outro às 21h, foram realmente o ponto alto pra mim, da minha carreira, onde eu pude contar toda a minha história, ainda que muitas das pessoas que lá estivessem soubessem grande parte dela, foi muito especial. Receber depois, obviamente, o retorno das pessoas, de tudo aquilo que eu tenho sacrificado e promovido da minha vida pessoal e daquilo que é a minha tal missão do Alentejo. Eu senti muito nesse momento que estava a ser reconhecido e o retorno foi ótimo.
Ainda nisto dos concertos, houve algum concerto, algum palco, que de repente chegaste ao palco e disseste: "Não estava à espera que isto fosse tão grande, que isto fosse tão importante, que viesse tanta gente". Onde o público te surpreendeu e saíste de lá com um sentimento positivo?
Foi no dia 12, em Famalicão.
Foi recente, então.
Sim, dia 12 em Famalicão.
Longe de casa.
Sim, muito longe. Eu sabia que em Famalicão tinha muitos ouvintes no Spotify, mas vale o que vale, é música digital. O público que está em casa no sofá a ouvir música, às vezes pode não ser o mesmo público que vai às festas. E o concerto foi numa quinta-feira, se não me engano. Lembro-me de pensar sobre isso e pensar: "Olha, se calhar hoje até pode ser um dia giro". E estávamos a minutos de entrar em palco. Parece que os astros se alinharam. Eu pedi uma camisola do clube do Famalicão ao programador. Ele arranjou, porque tinha um bichinho que aquilo ia correr de forma diferente. E não estávamos a ouvir barulho nenhum e o camarim era mesmo atrás do palco. E eu começo a subir as escadinhas e começo a ver capsinhas e às tantas dou por mim e estão tipo quase 10 mil pessoas em Famalicão, numa quinta-feira, no dia a seguir trabalhava-se, e digo-vos, desde o primeiro ao último segundo que as pessoas estiveram, parecia que estava em Beja, com todos os meus amigos e que as pessoas cantavam as músicas todas, das alentejanas, as mais tradicionais, as mais comerciais. Foi como cantar com 10 mil pessoas em cima do palco.
E o que é que tu sentes quando chegas a um público que sabe as tuas letras todas decor? Não é rap.
Realmente bateu muito este agora em Famalicão, porque lá está tão longe de casa, mais de 500 km da minha região. Como é que é possível um povo identificar-se tanto com outra cultura tão diferente? Não faço ideia o que aconteceu naquele dia, mas sinto que houve qualquer coisa que aconteceu, que fez com que aquelas pessoas todas fossem ali parar. Não estava mesmo à espera e foi incrível. O primeiro tema, estávamos todos a olhar uns para os outros.
O que está a acontecer?
O que é que há aqui em Famalicão? Será que tenho aqui algum primo, conhecido, alguma coisa assim?
Um primo distante que foi pra aqui.
Mas não, foi música do início até ao fim, partilha e, como disse nesse dia, vou voltar a Famalicão e a muitos outros sítios com que eu tenho ficado muito contente. Os concertos pra mim correm todos muito bem, mas este de Famalicão não estava mesmo à espera.
Claro. Olha, tu há pouco falaste assim de uma maneira muito rápida do Festival da Canção. Não vamos falar da experiência em si, porque já percebemos que a música não é pra competir, não é pra ti. Mas gostava de falar da música que tu levaste ao festival, "O Farol", que foi uma homenagem ao teu pai, que também participou no mesmo festival há muitos anos. Sentiste o peso da mensagem que essa música tinha?
Sim, isso foi uma canção que eu vou sempre recordar na minha vida toda, porque acontece numa fase muito delicada a nível familiar. A minha mãe estava a passar um processo muito difícil. Infelizmente, acabou por falecer, mas essa música foi uma das minhas armas. Já estava sem saber o que fazer, como trazer alegria pra casa, como trazer força. E olhei pra dentro e pensei: "Uma vez mais vai ter que ser a música". E falei com três amigos, os mais próximos, dois dos meus melhores amigos que fazem parte da minha banda, o Bruno Chaveiro, Luís Aleixo, e um dos poetas com quem eu mais trabalho e mais admiro, que é o Édo Mundo. Foram assim as três pessoas em quem eu confiei pra fazer esta canção e disse que precisava da ajuda deles, cada um deles com uma experiência de paternidade muito oposta daquilo que é a minha. Ainda assim, agarrámo-nos os quatro e falámos sobre os nossos pais e homenageámos o meu. Todos eles também admiram muito o meu pai. O meu pai é uma pessoa muito querida pelos meus amigos. É verdade.
Isso é ótimo.
Eles adoram ir ter com meu pai, jantar com meu pai, falar com meu pai. É mesmo um pai fixe. E fizemos esta canção em homenagem pra lhe dar também muita força nesse processo. E ele é que estava todos os dias com a minha mãe. Infelizmente, não conseguimos vencer esta guerra, mas a vida continua e esta canção vai sempre ser relembrada como uma arma pra dar alegria ao meu pai e pra homenageá-lo e pra o fazer sentir aquilo Que ele realmente é e para colocá-lo no sítio que eu acho que ele deve estar, que é no sítio do coração.
Estavas a falar do teu pai. És também pai, já. Em setembro do ano passado, oito meses. Nesta altura ainda não canta.
Já fez nove.
Já fez nove? Portanto, ainda não canta, certamente, mas gosta de te ouvir cantar?
Gosta. É giro. É uma traquinice que eu faço, que é quando ela se porta um bocadinho pior, eu canto.
É sério?
Ela reage muito à minha voz. Quando ela estava na barriga da mãe, eu cantava muito para ela, passou muito tempo a ouvir as minhas coisas, o tempo livre em que ela está antes de adormecer, ouve muitos temas meus. É o pai e ela vai ter que levar com o pai até o resto da vida. Filha, daqui a uns anos vais ouvir esta entrevista, mas olha, é assim, vais ter que levar com o pai até ao final.
É o que é. Olha, e como é que tu recebeste a notícia que ias ser pai? Tu lembras-te do momento?
Sim, foi um momento muito especial, ser pai. Foi muita alegria, mas cada dia é um dia mais feliz ainda. E agora nesta fase em que ela está a evoluir tanto, em que já começa a dizer algumas coisas, que já se vê expressão no olhar, todos os dias é uma aventura maravilhosa.
E o nome?
Maria Amália.
Maria Amália. É uma homenagem também.
É uma homenagem à mãe do meu pai, Maria Amália, que foi a senhora que trouxe, a seguir ao pai dela, a música, que continuou o legado da música na minha família, porque o meu bisavô era violinista. Minha avó tinha muito jeito para a arte também e para a culinária, e tocava muito bem piano, sem qualquer formação musical. Era uma pessoa que-
Tinha bom ouvido
...tupava tudo pelo ouvido e tocava. Eu não a conheci há muito tempo. Ela faleceu quando eu ainda era pequeno, mas desde miúdo que nesses tais jantares e almoços de família, em que a avó vem sempre à baila e fala-se sempre com uma alegria nos olhos e sobre uma pessoa que tinha muito amor e eu sinto que a minha filha vem também ocupar esse espaço de vir trazer amor para a família num momento tão delicado, porque o falecimento da minha mãe foi mais ou menos na altura do nascimento dela também. Sinto que ela veio equilibrar as coisas e era isso que a minha avó Maria Amália, pelo que a minha família me diz, fazia também, que equilibrava a família.
E há pouco, quando falavas do teu pai, daquilo que ele teve de abdicar, da estrada, da música, por causa dos filhos, não é algo que tu sintas necessidade de fazer nesta altura? Também dimensões são diferentes, as realidades são diferentes, a estrada também é diferente, mas não é algo que vejas dessa forma nesta fase.
Não. Primeiro, porque eu faço isto há tantos anos que não me vejo a fazer outra coisa na vida. E obviamente, o que estás a dizer é totalmente correto. Os tempos de hoje não são os tempos de eu digo 20 anos atrás, que foi quando realmente ele teve sucesso, mas o meu pai começou a carreira dele em 1971 ou 72. Mas sim, eu acho que se não estiver a trabalhar, se não estiver na estrada, se não estiver a fazer entrevistas, se não estiver a fazer alguma coisa, sei que vai faltar alguma coisa à minha filha. Eu sei que vou estar longe dela, é algo difícil de pensar. Passo muito tempo fora de casa, longe dela, mas é em prol dela e em prol das condições que eu quero que ela tenha na sua educação e que não lhe falte nada, como não me faltou nada a mim.
Estás fazendo esse balanço. E como é essa vida na estrada?
Hotéis, carrinhas e palcos.
Passar muito tempo numa carrinha não é agradável, pois não?
É o que é. São ossos do ofício. Nós temos uma equipa muito fixe, onde as coisas se tornam muito mais leves e fáceis de se trabalhar. Somos todos muito amigos.
É essencial ter esse bom ambiente entre a equipa.
É essencial teres uma equipa com o mesmo propósito, porque se tiveres egos e... Primeiro, não há hierarquias formais na minha banda, apesar de ser eu que decido sempre, há sempre espaço para a criatividade, há sempre espaço para a expressão, há sempre espaço para a palavra. Toda a gente tem a sua palavra. Eu gosto de fazer as pessoas sentirem-se parte do projeto como se dele se tratasse. E a verdade é que todos eles vestem a camisola com esse propósito de ser também um projeto deles, apesar de não ser o nome deles que lá está, eu sinto que eles muito fazem-
Sim, porque a tua música também passa por eles.
Claro. Eu sou apenas a pessoa que dá a cara e que pode ser um pouco o motor, mas preciso de muita gente. E preciso de muita gente com essa energia. Já passaram muitas pessoas por esta estrutura, nem todas elas se identificaram, mas obviamente que é crucial teres um bom ambiente na estrada.
Mas achas que é um processo difícil até chegares a um grupo que efetivamente está coeso, que funciona, é complicado chegar a esse lugar?
Primeiro é tu saberes o que é que queres para a estrada, que tipo de ambiente queres. Há artistas que chegam lá hora do concerto e vão embora. Mas é legítimo, há pessoas que podem ter problemas em casa e não ter tanta disponibilidade. Eu não, eu gosto de viver a estrada no seu expoente máximo, desde o encontro na carrinha ou o almoçozinho na tasca. Há tantas coisas fixes na estrada.
Alguma brincadeira?
Há muitas. Estamos sempre a gozar uns com os outros, sempre numa perspectiva de diversão, mas sim, há que ter muito bom ambiente em palco, porque só temos uma hora e meia para mostrar o que valemos e muitas dessas vezes passamos um dia inteiro só para cantar uma hora e meia. Mas eu sinto muito que aquilo que se passa antes e depois do concerto é tão ou mais importante. E começa pelo ambiente que se vive na banda. Mas estava a dizer que a nível de processo, é algo que tu tens que entender o que é que queres. Queres boa música, queres ceder tudo e ter só bons músicos, ou queres ter seres humanos? Ou queres ter o melhor técnico, porque é o técnico do artista Y? Eu acho que há muitos fatores e o fator principal é a parte social, o ser humano.
E tu tens algum ritual antes de entrar em palco?
Gosto de falar com a família mais próxima. Falo com o meu pai às vezes, falo com a minha namorada também. E de abraçar a banda antes de entrar e dizer-lhes que é um prazer fazer isto com eles.
Isso é muito bonito.
E vamos ter novidades em breve, não é? Temos também concertos. Fala-nos um bocadinho sobre isto, o que é que podemos esperar do Spinn aos próximos tempos?
Este ano de 2024 estamos com datas todos os fins de semana, de norte a sul do país. Há três, quatro concertos muito importantes. De referir o de Santarém, dia 23 de novembro, no CNEMA. Concerto muito importante, também um investimento meu, uma produção minha. Vamos ter também o CAE da Figueira da Foz no auditório, também muito importante e muito especial para mim, que eu gostava muito de esgotar, como todos os outros que temos vindo a fazer até agora. E depois começar o ano de 2025 em grande.
Era aí que íamos chegar.
No Coliseu dos Recreios, que é o ponto máximo até agora da minha carreira.
Ponto máximo acima de Páva Francisco?
Sim. Isto foi algo que eu quero fazer nestes moldes.
Já te imaginas a dizer boa noite Coliseu?
Já.
Já ensaiaste?
Já estou a preparar o meu momento.
Ficas em casa no banho, no chuveiro.
Não, mas penso todos os dias. Não sei se vocês sabem, mas há duas formas de se fazer concertos: ou és contratado ou fazes tua própria produção. E fazendo tua própria produção, tem que haver um investimento financeiro, tem que haver um investimento em muitas coisas e começa aí. E está a ser muito fixe. Eu sempre quis esse processo. Já tivemos propostas para ir cantar ao Coliseu, que me comprava o concerto, mas nós nunca quisemos. Quis ser o próprio a arriscar e a sair-me do lombo, todo esse sacrifício, todo esse trabalho. Foi algo que eu sempre quis fazer, que eu prometi à minha família e aos meus amigos próximos no dia em que saí de Beja. Disse-lhes que um dia havíamos de estar no Coliseu todos juntos. Não estou a dizer que vai ser este concerto, este vai ser só o primeiro que eu quero fazer, porque quero realmente fazer muitos Coliseus e muitas salas. É o meu caminho e estou muito contente por poder fazer. Não se trata só de fazer o Coliseu e daquilo que representa, mas tem a ver com tudo o que eu sacrifiquei ao longo destes anos.
Claro.
O que eu estou a ouvir parece que vamos ter um Buba Espinho diferente depois deste Coliseu. E parece ser um virar de página aqui.
Não sei, vamos ver. Acontece muita coisa quando nós não esperamos, mas eu acho que é o fechar de um ciclo e iniciar outro, que vai passar muito pelo estrangeiro, é algo que eu quero muito também começar, ainda mais na afirmação internacional. Vou sempre fazendo cinco, seis concertos por ano. Já fiz uma digressão pela América do Sul, mas quero mesmo passar metade do ano fora e a outra metade cá, a mostrar a nossa música, a nossa cultura, não só o Canta Alentejano, mas Portugal, porque o Canta Alentejano é Portugal.
Sim.
E é isso que eu quero e quero ser um dos embaixadores não só do Alentejo, mas também do país lá fora e poder mostrar nos festivais de world music, auditórios, venha o que vier.
Sim. Olha, acredito que não nos possas revelar muita coisa, mas nós somos um bocadinho cuscos. Para este Coliseu dos Recreios, que vai ser no dia 18 de janeiro de 2025, vai haver convidados? O que é que podemos esperar?
Olha, eu vou desvendar tudo sem desvendar nada. Todos os que estão a pensar, vão.
Ó Buba.
É agora?
Não, não, não dá nada.
Fica assim.
Deixa tudo no ar, isto é uma desgraça. Pronto, isto é mesmo para nos obrigar a ir ao Coliseu dos Recreios no dia 18 de janeiro. Pronto, já vi.
Vai ser incrível. Vou contar a história do início até ao fim e todas as pessoas que passaram neste caminho vão estar neste Coliseu.
Muito bem. Pronto. Olha, acho que então é uma ótima maneira de fechar este "40 Minutos". Buba, muito obrigada por teres estado aqui conosco.
Obrigado eu.
Buba Espinho em "40 Minutos" na Rádio Observador. Nós voltamos na próxima semana.