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Não vale a pena virmos dizer que não há racismo, que não há homofobia, que não há preconceito, porque existe tudo. Só que em 2026, o que é que existe? Tudo camuflado. Está tudo escondido. Eu vejo pessoas na internet a aplaudir.

E continuam a ser pessoas agredidas na rua.

Sim, todos os dias.

Todos os dias.

E continuamos a fazer uma marcha.

O Luís Borges teve um episódio desses ainda há pouco tempo.

No concerto do Bad Bunny, creio eu.

Sim.

E continua a acontecer uma marcha que as pessoas não sabem porque é que ela existe. Os maus falam assim: "Está bem, então amanhã por que eu não ponho uma bandeira hétero?" Estás a entender? Eles são capazes de agarrar nesse argumento para calar os outros. Então acho que nos perdemos muito em coisas que não nos ajudam. Eu sei o que se passa no interior. Eu vivo numa cidade onde o partido que ganhou foi o Chega. Uma zona do país que foi a vida toda comunista, que depende muito de laborar a terra, do trabalho, que tem zero a ver com os padrões que o Chega defende.

Sim.

E por que foi o Chega que ganhou? Foi o único sítio onde eles ganharam. O Chega ganhou ali, porque a mensagem que chega é de tal forma deturpada que a pessoa na altura de votar não é esclarecida, não tem o esclarecimento e vota ali. Por quê? Porque ele disse que ia fazer isto. E o que era isto? Era isto que eu quero. Então não quero saber mais nada.

Nasceu sob o sol de Luanda, mas foi no Alentejo profundo, numa casa barulhenta com muitos irmãos, que aprendeu que para sobreviver e ser ouvido, era preciso ser rápido, estratega e obstinado. Aos 16 anos bateu a porta de casa com uma mala cheia de certezas e uma urgência quase febril de emancipação. Dizem que tem o pavio curto, que a sua impulsividade o trai indireto, que é impaciente com a lentidão alheia e que a ansiedade lhe dita um ritmo que nem sempre é fácil de acompanhar. É assumidamente um homem de arestas por limar e dono de uma frontalidade que às vezes pode magoar, mas é também nessa ausência de filtro que reside a sua maior virtude, a verdade crua de quem recusa ser um produto formatado. Por trás de um homem exuberante do pequeno ecrã, há um operário da escrita, um autor melancólico que usa as páginas dos seus romances para sangrar a solidão, o preconceito, mas também as dores do amor. Um autodidata que subiu a pulso, que caiu e se levantou sem nunca perder o norte e que agora, na maturidade da carreira, se dá ao luxo de abrandar e devorar umas quantas caixas de gelado ao sábado, ao domingo, seja que dia for. Cláudio Ramos, em 40 minutos. Muito bem-vindo aqui à Rádio Observador.

Obrigado. Olha que bonita a introdução, vês? Obrigado.

Um bonito bilhete de identidade.

É verdade.

Para resumir esta nossa conversa.

Obrigado.

Eu queria começar por falar disto. É algo que te define, as pessoas olham para ti desta forma, um homem de arestas por limar e sem grandes filtros. No mundo que estamos agora a viver, numa televisão em que tudo é muito rápido, a questão das redes sociais, onde tudo é muito quase calculado, essa tua frontalidade é uma forma de sobrevivência neste mundo?

Não sei. Eu acho que ao mesmo tempo que nós vivemos num ciclo onde nos podemos camuflar muito atrás de redes sociais e coisas do gênero, também estamos debaixo de um escrutínio exagerado. Estamos praticamente na ditadura da palavra. Se dizemos uma coisa fora de contexto ou descontextualizada, ou até num sentido mais descontraído, eu faço uma televisão muito descontraída, vou fazer questão sempre de a fazer, assumindo os riscos, porque eu trabalho para pessoas descontraídas e para pessoas que eu tenho que abranger na totalidade. Às vezes, eu sinto que hoje, em 2026, existe uma espécie de profissão que se chama o caça acerto à procura de likes. Alguém que descontextualiza a nossa conversa agora, tira qualquer coisa que se diga, eu ou tu, fora de contexto, faça disto qualquer coisa descontextualizada para ser formatada numa vertente, eu não diria de ódio, que a palavra é muito forte, mas só de procurar uma discussão, de raiva, sem se tirar dali nada.

Isso alimenta o ódio?

Eu acho que isso alimenta o ódio. As redes sociais alimentam muito o ódio. E há pessoas que vivem disto, porque vivem muito dos likes das redes sociais, dão muita importância, independentemente do que coloques lá para teres um like ou uma reação. Isto a mim faz-me muita confusão. Eu não fiz, não era capaz de o fazer. Eu faço coisas mais complicadas em televisão. Eu digo coisas em televisão que a maioria das pessoas não diria. Eu ajo de forma que muita gente não agiria e pessoas acham mal. Eu não faço com o intuito de magoar, ou ofender, denegrir. E eu sinto que há uma série de gente hoje na internet que faz e busca isto mesmo, busca descontextualizar. E isto é um policiamento tão grande para quem trabalha com o microfone e para quem dá a cara, que muitas vezes sentimo-nos policiados. E há colegas meus, pessoas da área, que podem não estar dispostas a este policiamento ou a esta exposição e preferem ir se resguardando de tal forma, não sei se me entendes, vão recuando tanto, vão dizendo tão pouco para não terem excertos fora de contexto e para não serem policiadas, que às tantas olhas para trás e pensas: "Quem é que são? O que é que foram? O que é que são agora?" Porque estou numa ditadura de palavra. É como se eu não tivesse o direito de dizer o que eu quero dizer, sem magoar ou ofender ninguém, dentro dos limites daquilo que é o bom senso de cada um, porque há sempre alguém que vem roubar esse contexto e colocá-lo noutro lado, que vai gerar uma onda de ódio, regra geral, se vira contra nós, que damos a cara. Eu não quero que isso aconteça comigo.

Tu sempre te protegeste disso. Daquilo que nós conhecemos de ti enquanto Cláudio apresentador e comentador do Social, que foste durante muitos anos. Tu sempre disseste aquilo que pensavas, ou seja, nunca tiveste filtros.

Não tenho, não vou permitir ter. É isso que eu estava a dizer, eu não vou deixar que o policiamento das redes sociais é que me toldem ou me condicionem a forma de falar. O que nós vamos fazendo, todos nós da profissão, à medida que vamos crescendo, evoluindo, eu já passei os 50 anos, é natural Que tinhas uma maior responsabilidade, consigas dizer o mesmo por outras palavras, baixas o tom se for preciso, percebes o contexto em que tu estás, com quem estás.

Mas tens que pensar mais para o fazer e às vezes é difícil ou não?

À medida que vais crescendo, vais ganhando as ferramentas. Hoje de manhã, por exemplo, enquanto estava numa tertúlia com a Cristina e todos os nossos comentadores, é claro que eu ali naquele contexto, digo duas ou três coisas que não diria no contexto da segunda parte do programa, porque estamos num registo diferente, numa linguagem diferente. Também é preciso perceber isto, e as pessoas entendem em casa. Quem descontextualiza é que não se dá ao trabalho de explicar. E eu tento sempre que a mim este policiamento não me aflija e não me tire aquilo que eu acho que me trouxe aqui, porque uma das coisas que me trouxe aqui foi o fato de eu ser esta pessoa, foi o fato de eu ser desta maneira. Eu não quero e não sei ser de outra forma. Eu acho que o que me ajudou a chegar aqui, por muito que tenha custado, foi eu nunca ter abdicado da minha forma de ser, que não é esta coisa do "ai, sou frontal, digo o que me apetece", que isso é falta de educação. Eu acho que é uma espécie de, não quero chamar pela minha palavra, mas genuinidade que se tem. Não é inocência, que não somos, mas aquela sensação de que ainda se pode fazer isto, que as pessoas ainda vão gostar de ver isto, sem armaduras, sem filtros e sem disfarce. E eu vou me batendo para tentar manter este registo.

Já que entramos aqui na questão das redes sociais, tu há uns dias publicaste um texto sobre Cristiano Ronaldo. E sabemos que tu não és um grande conhecedor de futebol.

Nada, nunca vi um jogo de futebol na vida.

Mas sentiste a necessidade de o fazer, muito pelas críticas que têm sido feitas, não é?

A minha filha estava comigo nesse dia.

A tua filha percebe mais de futebol.

Muito mais do que eu, não percebo nada de futebol.

Se eu te disse três nomes dos jogadores da seleção nacional, conseguias dizer?

Dos nossos consigo. O Trincão, o Félix e o Cristiano Ronaldo. Mas há lá mais. Temos vários, pronto. E porque temos a seleção também é mais bonita, pelo que eu ouvi dizer. Somos os homens mais bonitos. Ainda hoje a Cristina mandou uma coisa sobre isso, mas eu não percebo nada de futebol, não gosto da cultura do futebol, não gosto dos meandros do futebol. É uma coisa que nunca me interessou nada.

Não tens clube?

Não, não tenho clube, não tenho nada. Gosto que a nossa seleção ganhe, mas também sou sincero, se não vencer, olha, paciência, não venceu, amanhã será outro dia, outro campeonato.

Não vais largar Portugal ver um jogo à uma da manhã, porque vamos ter alguns.

Não, vamos ver à meia-noite e meia, à uma, acho eu. Não vou fazer nada disso. Eu vi aquele, porque estava com a Leonor. Disseram tanto de mal da seleção. E eu pensei: "Mas por que estão a fazer?" Eu ouvi de madrugada dizerem uma coisa sobre o Cristiano Ronaldo, que era o seguinte: "O jogo foi feito entre 10 homens e uma estátua", que era o Cristiano Ronaldo. Depois o outro comentador disse o seguinte: "Não, o jogo pra mim foi feito por 10 estátuas e um homem cujo objetivo são as câmaras de televisão e o seu ego". Falava do Cristiano Ronaldo. Eu não consigo entender como é que alguém, eu que não sou especial adepto, nem uma coisa nem outra, nem sei. Para mim, o Cristiano Ronaldo, alguém disse que era o melhor jogador do mundo. Eu vou crer que sim. Ele é nosso, é uma referência. Basta olhar para a vida dele pra perceber que é um exemplo. Tem 40 anos e joga na seleção. Marcou agora no outro dia dois gols. Alguma coisa boa ele deve ter. Não entendo como é que ontem, por exemplo, no dia que ganharam, estava em reportagem, não sei que canal é que era, e o jornalista dirige-se a uma pessoa do público, a uma mulher. E a primeira coisa que ela diz é: "Marcou, não fez mais que a obrigação dele. E agora a obrigação dele é ultrapassar o Messi". E foi isto que eu falei hoje de manhã que me passei da cabeça. Se eu estivesse na rua e se essa senhora me desse essa resposta, o que me apetecia perguntar-lhe era: "Conte-me lá da sua vida. Diga-me lá, o que já fez? Como é que educou seus filhos?"

Quantas vezes falhou.

Exatamente. Percebes? Porque esta ânsia de acharem que por sermos ou por serem figuras públicas ou por ganharem mais do que a maioria das pessoas, as pessoas têm o direito de os agredir, de os ofender, de os magoar, eu acho muito feio. O que fizeram ao Cristiano Ronaldo, fizeram à seleção inteira.

Mas o protagonista dessas críticas acabou por ser ele.

E o que fizeram a ele foi muito mau. Eu achei muito feio. Foi por causa disso que eu fiz aquele post. Foi só por causa disso. Por mais nada.

Tu já passaste por várias fases. Tu foste comentador social durante muitos anos. Orgulhas-te e dizes muitas vezes que eras o melhor naquilo que fazias e muita gente também o dizia. Eras agredido também muitas vezes por aquilo que dizias.

Eu continuo a ser agredido, porque as pessoas lidam muito mal em Portugal com o sucesso das outras pessoas. Um dia que tu chegares muito alto, tu vais ter seguramente muita gente a fingir que gosta de ti e que aplaude o teu sucesso, mas está mortinho pra que falhes, pra que não ligues o microfone, pra que te falhe a luz, uma coisa qualquer.

Isso aconteceu há pouco tempo também, e permite-me falar sobre isto com a tua colega de painel, a Cristina Ferreira, com uma situação que foi muito falada.

Profundamente descontextualizada, que de todas as críticas que foram feitas, eu não queria falar muito sobre isso, mas vou te dizer.

Sim, desculpa, também estás a ter que inserir isto na questão.

Não faz mal. Eu queria só pra não alimentar a polêmica do outro lado.

Claro.

Mas é importante dizer isto, eu já até mencionei isso no programa, todas as pessoas que criticaram, isso que eu falei com amigos meus, era assunto todos os dias. Não houve uma que me tivesse respondido quando eu disse: "Viram o programa?" Não houve uma que me disse: "Vi." Todas me disseram: "Vi o que estava na internet." E o que estava na internet era uma frase, lá está, profundamente descontextualizada. Pode ter sido uma frase feliz, uma frase infeliz, podes interpretar de uma maneira, eu de outra, a Cristina de outra.

Sim, todos temos uma opinião sobre aquilo que aconteceu.

Exatamente. Todos temos uma opinião e são todos livres. Agora, pra tu formatares uma opinião sobre aquele assunto, de que toda mundo falou, era importante que tu fosses puxar o programa atrás e veres o programa. A partir do momento em que tu me dizes: "Vi um excerto da internet", já não tem valia nenhuma. É aquelas pessoas que não leem O Observador, mas veem as grandes, veem os títulos, mas não sabe o que está lá dentro. Isso a mim faz-me muita confusão, mesmo. Eu enquanto fui comentador durante muito tempo Houve várias fases também do documentário. É uma fase em que tu estás e que as pessoas pensam: "Ele está". Uma fase em que tu dás um pulo e as pessoas olham para ti e pensam: "Já está". É uma fase em que és aquela pessoa dentro daquela área que tem aquela credibilidade ou pelo menos tu achas que tens e é assim que parece. E vais passando por fases. É claro que há pessoas que te criticam, há pessoas que não gostam, porque é uma área suscetível a que as pessoas apreciem, mas não gostem. Se fores ver aqui no Observador, vais ver que naturalmente os cliques no social têm algum impacto, mas raramente ninguém vai dizer que o vê. Mas também nunca me atingiu muito. Sempre percebi que aquilo era um caminho para chegar onde eu estou. Não era o que eu queria fazer na vida, mas nunca fui aquela pessoa: "Não quero fazer isto e vou me esconder, vou ter vergonha." Não. Eu fiz, gostei muito de fazer, fiz muito bem, voltarei lá se for preciso. Aliás, de manhã, nós no programa temos um cantinho cor-de-rosa e eu estou sempre lá a picar o pão.

E tu exaltas muito.

Bastante, porque gosto muito daquilo.

Mas o que alimenta isso para alguém que está de fora e que está a ver? Tu és muito exuberante nesse sentido, porque tu tens muitas opiniões e gostas muito de falar sobre isso. O que alimenta esse entusiasmo de querer falar?

Eu vou te explicar. A mim, o que os famosos fazem é completamente indiferente, porque eu já os conheço a todos. Eu sou um famoso, eu ponho-me do lado de cá e penso que a minha vida tem zero interesse. Se as pessoas soubessem o que é que é a minha vida, tem zero. Eu digo muitas vezes à minha filha: "Olha para nós, a minha vida é isto. As pessoas acham que é outra coisa." A vida do Cristiano Ronaldo é a vida dele. Sabes o que me chateia muito? E é uma luta que eu tenho para mim: que o meio e os pares não respeitem os meus colegas, os que são comentadores hoje, porque é uma profissão que não é respeitada, que não é valorizada. E eu bato-me muito para mostrar. Eu passei por ali, eu estive ali muito tempo, mas eu hoje eu estou aqui. Mas não é por eu estar aqui que eu não sou capaz de voltar ali. Entendes o que eu quero dizer?

Mas por que achas que é tão desvalorizada?

Porque eu acho que nós somos um país de gente preconceituosa, que entende que aquilo é uma área que não precisa de trabalho, que é uma área fútil. São as mesmas pessoas que acham que a Model é fútil, são as mesmas pessoas que acham que ir às Maldivas é fútil. Ou seja, as pessoas valorizam a política, valorizam o futebol, valorizam a economia, mas tu tens comentadores de política, de economia, de futebol e depois tens os comentadores de social ou os mediáticos, e são sempre meio postos de lado como se fosse um trabalho menor. E não é, porque ele alavanca as audiências, porque as pessoas gostam de ver e em países como Itália, França, Espanha, fazem parte do jornalismo.

Exato. Há uma perceção muito diferente. Por exemplo, em Espanha, esses programas são altamente elogiados, não é?

As pessoas podem gostar e não gostar. Eu acho é que se tem que olhar com condição de que são trabalhadores que ali estão e há bom jornalismo e mau jornalismo. Uma pessoa tira um curso de jornalista, eu digo a vida toda isto: tu podes ser ótimo jornalista na revista Maria e podes ser péssimo jornalista no jornal Expresso. É jornalista, ponto. E um bom jornalista tem que fazer bom jornalismo, faça onde fizer. Depois tu podes gostar ou não da área, isso já é um problema teu. E eu quando me bato muito ou quando eu falo e quando digo que não me importo, é para mostrar aos meus colegas que lá estão, que alguns estão lá, não é que tenham vergonha. Quando eu digo, não digo o meu painel, falo da área toda.

Sim.

Dos canais todos. Não é que tenham vergonha, é porque muitos deles acham que não são suficientemente valorizados. E eu também acho que não são. Por isso, eu quando digo isto é para que eles pensem assim: "Espera, ele conseguiu estar naquele lugar, seja ele qual for, mas ele não se importava de voltar a este, é porque este não é tão desconfortável assim." É por causa disso.

Tu sentes que também, de certa forma, és um exemplo, porque há muitos comentadores que têm esse objetivo de um dia ser apresentadores de televisão, por exemplo, e lutam diariamente por esse objetivo. De certa forma, também se inspiram em ti para alcançar esse caminho.

Inspiração, eu não sei. Eu conheço pessoas que são comentadoras, que apreciam o meu caminho, valorizam e pensam: "Olha, eu gostava de fazê-lo para chegar aqui". Mas também conheço muitos comentadores que são comentadores só pelo simples prazer de ganharem algum dinheiro e estarem sentados na televisão. Porque há muito bons, mas também há muito maus. Isto é como em tudo.

Sim, acabaste de falar disso, do bom e do mau jornalismo também.

Exatamente. É como em todas as áreas. Há muitos que estão ali só por estar. Porque para seres bom, tens que te dar ao respeito e tens que respeitar. Por exemplo, nas minhas tertúlias da manhã, é muito mais importante o que os meus comentadores dizem do que eu, porque eles estão lá a comentar. Eu, no limite, estou lá a mandar foguetes para o ar. A responsabilidade é toda deles. Percebes? É um bocadinho por aí. Têm é que ser naturalmente bons. É como tudo na vida, se vais fazer uma coisa, tenta fazê-la bem.

Muito bem, Cláudio Ramos, vamos ficar por aqui na nossa primeira parte. Ainda temos muito mais para falar. Temos de ir até às tuas raízes, até ao Alentejo, Vilaboim. Já lá vamos. Até já. De regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos". Esta semana com Cláudio Ramos, importa também ir às suas origens, até porque cada vez mais queres te mover para lá. E é disso que também vamos falar. Tu cresceste numa casa com muita gente. Para alguém que gosta de silêncio.

É um drama.

É um drama?

É um drama. Eu estava a falar disso no fim de semana. Eu tenho muitos irmãos, nós somos oito. Tivemos uma casa com muita gente, pai e mãe. Tínhamos duas colaboradoras lá em casa.

Não havia nenhum dia sossegado.

Não, não havia. E eu não gosto de pertencer a uma família grande. Eu acho graça ver ao longe, acho graça no Natal, nas festas, mas acho graça agora que eu sei que posso ir e sair. Eu li uma vez, não sei se li bem ou não ou se isto é verdade

Que no Natal estavam todos em família e tu saíste e depois voltaste. Algo assim, não foi?

E faço uma discussãozinha e depois saio outra vez. Estar a fazer, estilo família italiana. Sim, nós somos todos muito diferentes. Eu sou o mais diferente de eles todos. Eu gosto muito dos meus irmãos, mas eu não aprecio ser uma família numerosa. Acho alguma graça, mas eu não aprecio. Há muita gente que acha mais graça do que eu e que gosta. Eu não valorizo, porque sabemos que estamos uns para os outros, é aquela conversa banal. Não sou apologista da ditadura do sangue, acho que isso não tem nada a ver. Temos boa relação, mas eu não nasci para ser uma família numerosa, porque eu sou meio bicho do mato. Estava a dizer este fim de semana com a minha irmã a falar sobre isso. Eu lembro-me que nós tínhamos uma casa muito grande, éramos muitos em casa, havia o quarto dos rapazes, o quarto das raparigas, e eu fazia muita questão. A minha mãe mudava muitas vezes os móveis de casa, os quartos. Ainda hoje tem essa paranoia. E eu dizia-lhe sempre: "Eu podia dormir num quarto sozinho lá em cima no sótão". E ela não queria. E eu, no fim de semana, fazia sempre a minha casa no sótão. Cheguei a fazer um quartinho sozinho, por capricho, numa casa que nós tínhamos no quintal. Porque eu gosto muito do meu tempo, eu sou assim desde pequenino.

E consegues identificar de onde é que isso vem? De alguém da tua família ou és só mesmo tu que tens essa

Não consigo. Dizia uma amiga minha também, a Sofia, que eu sou muito dessas coisas. Eu mudei de casa agora em Lisboa. Eu escrevo diários da vida toda. Em 1997, eu já escrevia no meu diário.

Que idade é que tinhas na altura?

Não sei. Eu vou fazer 53 anos este ano.

Eu também não somo com contas.

Não sabes. Mas em 1997, eu já escrevia assim: "Não me apetece nada ir à passagem de ano. Eu sou cada vez mais bicho do mato. Não sei se é um problema meu". Em 1997, já devia sentir isto antes. E fui escrevendo de forma muito sucessiva. Eu não me dou bem em lugares com muita gente. Não tem a ver com o centro das atenções, porque em 1997 eu não seria o centro das atenções em lugar nenhum. Eu prefiro uma coisa de três, quatro pessoas. A mim não me vais ver nunca no Rock in Rio, dificilmente me vais ver num sítio destes, nos gêneros populares, é muito difícil, não quer dizer que não aconteça.

Sim.

Eu gosto muito do meu tempo, do meu espaço, mas eu gosto disto, porque eu sei que posso sair disto e ir a outro sítio. Mas eu sou desde pequenino. Minha mãe não é assim.

Falaste aqui de um festival, de uma festividade. O que é que tu gostas de fazer para lá do trabalho e treinar, não é? Sei que gostas muito de treinar.

Eu não gosto nada de treinar.

Ah, não gostas.

Não gosto nada de treinar. Se houvesse uma pílula que nós tomássemos e ficássemos como queremos.

Todos gostávamos. E gelado também.

Gelado. Gelado é sábado e domingo ou sexta e sábado. Gosto. Dois litros de gelado, vou comer isso sempre, na vida toda, até que o médico me diga que não posso comer, mas eu tenho que comer. Eu gosto de estar com amigos, eu gosto de jantar em casa.

Têm é de ser poucos.

Têm que ser poucos. Seis, no máximo. Tem que ser uma mesa onde nós possamos falar uns com os outros. Aquela coisa de tu ires a um jantar e de repente é uma mesa retangular, um está ali, outro está ali, tu não consegues falar com ninguém, perder tempo, sair de casa aos 53 anos, para isso não quero. Quero uma mesa redonda onde nós possamos olhar uns para os outros ou eles vão à minha casa ou vou à deles. Quero não fazer madrugadas. Acho que é um exagero nos dias de hoje eu perder o meu tempo a fazer uma madrugada só porque é bonito apanhar uma bodeira à noite. Não bebo álcool, já não sei há quanto tempo.

Ia te perguntar isso, quando é que foi a última vez que apanhaste a tua última bodeira?

Há muito tempo. Mas há muito tempo. Seguramente há mais de 10 anos. Ou mais.

Na altura ainda na SIC?

Sim. A minha última bodeira foi na SIC, numa festa com meus colegas de trabalho, que ainda os tenho hoje, numa coisa que é o Turbobaile, que é aquela festa do Revenge.

Sei.

Aquela coisa não, que é uma festa muito engraçada. Foi aí, com a Ana Malhoa.

Estavas bem acompanhado.

Foi há muito tempo. Não sou de álcool, porque eu acho que a idade me trouxe uma consciência de que o álcool só me vai estragar, a noitada só me vai estragar e o álcool não me dá assim tanto prazer. O gelado vai-me estragar na mesma. Prefiro comer o gelado a beber o álcool. Eu consigo divertir-me se tiver que me divertir sem álcool. Varar madrugadas, chegar a casa às 6h00, perder depois um dia, não é a minha cena. Gosto de um teatro, gosto de ir ao cinema, gosto de ler, gosto de passear na rua só porque sim, gosto de ir a uma esplanada, jantar fora. Gosto daquilo que a maioria das pessoas gosta, só não gosto é de confusão.

Gostas de ficar em casa com a tua filha, só a conversar.

A Leonor já tem muito pouca paciência para mim. Nós não vivemos juntos. Aliás, a Leonor vive em três casas: na casa da mãe, vive na casa dela e vive na minha casa. Quando eu vou para o Alentejo, para a minha casa, a casa da mãe da Leonor é muito perto da minha.

Não me digas que a Leonor tem um quarto no sótão.

Não, em casa tem a ala dela. A Leonor já tem 22 anos. Quando ela foi viver no futebol na minha casa, foi mera coincidência, porque nós em Lisboa vivemos muito perto um do outro. Eu acho que gosto da maioria daquilo que as pessoas gostam, só com menos confusão.

Tu assumeste e disseste aí uma expressão, bicho do mato. E há muito a ideia que as pessoas que trabalham em televisão são altamente extrovertidas, que são muito simpáticas, não quer dizer que não sejas, mas que têm esse à vontade e que se encontrares na rua, a pessoa vai ser o mais agradável. Tu próprio tens alguma dificuldade com isso ou não?

Eu gosto muito do trabalho que eu faço, gosto muito que as pessoas reconheçam o meu trabalho. Não gosto de ser abordado na rua. Já disse várias vezes. E as pessoas levam muito a mal, mas queria que as pessoas entendessem. Uma coisa é eu ser abordado na rua por uma criança ou por uma senhora com uma certa idade ou um senhor com uma certa idade, cuja eu sou a companhia deles. Para uma senhora com 70 anos, eu sou a companhia dela. Se ela vem ter comigo, a minha obrigação, que faz parte do meu trabalho, é dar lhe um pouco de atenção, porque ela dá-me atenção durante a manhã. Agora, um miúdo de 30 e tal anos, uma miúda de 40 e tal anos. Eu já fui abordado de formas muito estranhas, às vezes até indelicadas.

Já tiveste alguma situação?

Eu já fui abordado num funeral. Já me quiseram tirar uma selfie num funeral, do meu sogro. Também já há algum tempo. Mas não faz sentido nenhum. Já estive a comer, vem uma pessoa por trás e acha a maior das graças meter o telefone à frente e tirar. Eu reajo muito mal. Hoje vou jantar com duas amigas minhas e uma vez estava com elas, foi também num dia destes, só foi um dia, e veio uma mulher e meteu exatamente o telefone assim, como se fosse a cena mais normal do mundo. E eu fiz assim. Porque depois eu vou ter uma reação que eu não quero e eu fico frustrado, porque tenho uma reação que eu não quero e é muito desagradável, porque as pessoas não respeitam. Porque se tu fores cabeleireiro, as pessoas não vão ao supermercado dizer: "Faz-me lá um brushing", de repente. Se fores talhante, não lhe vais pedir para cortar carne. Então eu só queria que as pessoas entendam que eu nem sempre estou disposto.

Essa é a parte mais ingrata da tua profissão.

Não é assim tão ingrata. Eu estou a dizer isto, mas eu faço uma vida perfeitamente normal. Eu saio de casa, a minha vida é perfeitamente normal.

Às horas que sais também não encontras praticamente ninguém.

Sim, mas eu não deixo de fazer nada por causa disso. Eu tenho alguns cuidados. Eu não vou à praia, seguramente, se houver muita gente, mas eu já não iria antes, porque eu não gosto de confusão. Não vou ao cinema às 21h, mas eu se calhar também já não iria antes. É mais ou menos por aí, mas eu faço a minha vida normal. Não me queixo: "Ai, sou uma pessoa conhecida, que horror". Nada, eu vou a Badajoz, que é ali ao lado da minha casa, ninguém sabe quem eu sou, por isso é supertranquilo. E se eu não quiser esta profissão, arrumo as malas e vou para fazer outra. Ao fim de seis meses, já ninguém se lembra de nós. Não vale a pena metermos na cabeça: "Ai, somos estrelas galácticas". Nós saímos da televisão hoje, daqui a seis meses já ninguém sabe quem nós somos.

Acreditas nisso?

Acredito. Já há outro no nosso lugar. Acredito e tenho os pés muito no chão.

Mas achas mesmo que com a tua trajetória, por acaso era uma coisa que eu também te queria perguntar. Tu já falaste disso em várias entrevistas, que tens essa intenção de um dia te reformar. E para breve, ou seja, não é uma coisa que tu vais deixar alongar. Lidas bem com essa questão de perder a visibilidade ou achas que até mesmo em seis meses o público se vai esquecer de ti?

Não, eu acho que é assim. Se amanhã eu não tiver um contrato com a TV ou com outra estação de televisão e eu quiser sair e eu sair e eu for para o Alentejo, naturalmente, daqui a um ano as pessoas ainda vão saber: "O Cláudio". Mas é uma memória muito residual. Eu, por exemplo, continuarei a escrever, continuarei a estar presente, mas é uma presença muito residual, porque repara uma coisa: nós temos um grande impacto, porque eu apresento o programa da manhã. Se eu não apresentasse o programa da manhã, que é um programa líder e com muito impacto, eu era só mais um na televisão como muitos são. Nós temos que olhar para a televisão como um esquema, isto é como em todo lado. Tu olhas, tens as figuras da primeira linha, as figuras da segunda linha, depois tens uma data deles na terceira linha, depois tens uns quantos cá em baixo. São residuais, e as pessoas conhecem, reconhecem, é-lhes dado algum destaque, mas é uma coisa muito residual. Sai este, entra outro, não há problema nenhum, foi onde eu estive durante muito tempo. Eu só tenho mais projeção porque eu estou num lugar de muita visibilidade. Porque eu percebo a diferença entre uma coisa e outra. A partir do momento em que tu saes deste lugar, as pessoas vão ainda lembrar de ti, mas tudo o que tu possas fazer, dizer, tem muito menos impacto. Se eu hoje disser uma coisa, tem um impacto, se eu disser a mesma coisa quando não estou a fazer o horário da manhã, tem muito menos. Eu disse coisas gravíssimas enquanto fiz o "Passadeira Vermelha" e não me lembro de elas estarem escrapachadas em lado nenhum. Porque o horário é outro. Há outras pessoas.

E a disponibilidade também se calhar para ouvir ou a forma como as pessoas ouvem é diferente ou não?

Não, eu acho é que a vontade que o país tem de apontar o dedo a quem está numa posição de algum destaque é muito grande. É o que dizíamos no princípio da conversa. É muito grande, mesmo. Vais apontar o dedo a quem está cá embaixo para quê? Tu vais fingir que a pessoa que está cá embaixo tu queres que ela esteja lá em cima, mas é mentira. Noventa pessoas de 100 pessoas não te aplaudem quando tu estás lá em cima. Podem fingir que fazem isto, mas não te aplaudem, estão mortinhas que tu venhas outra vez cá para baixo. É assim que acontece. Ao contrário do que se diz, as pessoas não se veem na tristeza. Na tristeza está toda a gente ao teu lado. As pessoas veem-se nas alegrias. Difícil é tu manteres um amigo ao teu lado quando tu estás satisfeito, alegre, realizado, quando tu ganhas bem, estás feliz no teu trabalho, quando a vida te corre bem, quando tudo te corre bem, manteres o amigo ao teu lado, isso é que é complicado.

E é preciso saber ler pessoas. Tu consegues ler bem as pessoas? Porque eu sei que tens alguns amigos próprios, e até já trabalharam contigo e alguns ainda trabalham, do meio da televisão, mas diz-se que é um meio altamente tóxico, com muita competição, com isso que tu referiste agora.

Mas tu tens que perceber que, por exemplo, eu tenho pessoas para a vida toda com quem eu trabalhei em televisão. Tens é que perceber exatamente para quem aquela pessoa é. Tens que perceber quem é e conhecê-la, os defeitos e as qualidades. A Ana Marques é uma pessoa com quem eu comecei a trabalhar há 20 e tal anos. Sim, a minha filha era pequenina, 16 ou coisa do gênero. Altamente improvável, é minha amiga do coração. E ela conhece-me muito bem, eu conheço-a muito bem. O que nós temos que fazer? Respeitar os limites de cada um. Mas eu acho que isto acontece noutra profissão qualquer. A Liliana Campos é outra pessoa amiga de sempre, só que eu tenho que respeitar como ela é, ela tem que respeitar como é que eu sou. Eu acho que se podem fazer amigos. Eu tenho com a Cristina uma relação tão cúmplice. Eu acho é que temos que descascar as camadas e acho que o que importa mesmo nesta profissão, para já é esvaziar o ego de todos os dias, que todos temos.

Claro.

Eu, tu tens, todos temos. Mas acho que temos em qualquer profissão, na nossa mais ainda, porque tem uma visibilidade diferente.

Isso é fácil de se fazer todos os dias esse exercício?

Eu fiz terapia durante muito tempo e esvaziei o ego à noite Porque eu sei que no outro dia de manhã me pode cair uma coisa em cima ou durante a noite eu posso ter um AVC e estou numa cama do hospital e não me adianta nada que alguém me esteja a mudar as fraldas e eu cheio de ego. Todos os dias recebo pessoas, tenho histórias de gente. Ontem tive uma senhora com 44 anos que teve um AVC. Todos os dias a vida me ensina que nada é garantido. A arrogância, a petulância, o dinheiro, nada nos dá nada. A única coisa que a profissão tem para mim de boa é que eu acordo muito satisfeito por ir fazer o que eu quis a minha vida toda. Eu vivo num sonho profissional. Eu tenho muito bom ambiente de trabalho, eu trabalho com uma pessoa extraordinária, eu divirto-me muito, eu rio-me muito. Eu sou chato, eu sou difícil, eu sou muito chato. A equipa gosta muito de mim, eu tenho a noção, mas gostam porque aprenderam a gostar. Eu não digo bom dia, porque eu chego muito cedo e eu não gosto de falar de manhã.

Para ti, qual era a hora perfeita para começar o programa da manhã?

Às 10h, mas desde que eu pudesse chegar às 10h.

Às 09h57.

Só que eu acordo às 6h da manhã, que eu chego ao meu camarim-

E havia uma altura, eu não sei se isto é, eu acho que sim, a Cristina Ferreira já falou sobre isso, que para se fazer o programa da manhã acordava-se ainda mais cedo. Agora é que se chega mais tarde, não é?

Para uma coisa, tu fazes o programa na véspera, na verdade, porque tu recebes os textos na véspera, fazes o alinhamento na véspera. Nós trabalhamos na véspera para o programa do dia seguinte. Eu chego mais cedo porque eu quero ler no próprio dia, não leio no dia anterior, para não sonhar com as histórias. Eu prefiro lê-las no dia a seguir. Então eu acordo às 6h da manhã, chego ao camarim às 7h, tenho a reunião às 8h, estou me a maquiar às 8h30. Mas eu só começo a raciocinar depois da reunião. Para mim é só depois de beber café que eu começo a raciocinar. Mas eu sei que a equipa já me conhece desta maneira, percebes? Mas eu sei que foi difícil conquistá-los, porque eu caí ali de paraquedas, eu vinha de outro sítio. Eu sei que foi difícil conquistá-los, mas eu sei que eles gostam de mim, mas eu sei que eles adoram a Cristina Ferreira. Eu sei que entre mim e a Cristina Ferreira, eles gostam mais dela. E eu estou-lhes sempre a dizer isto, porque ela é mais paciente com eles, está há mais tempo naquela casa.

Tu és mais exigente? Não, é diferente, paciente e exigente.

Eu sou mais birrento. Eu sou mais menino mimado, caprichoso. Eu sou mais teimoso. Eu quero o ar-condicionado a 20.

Ai, o ar-condicionado, Cláudio.

E a Cristina quer o ar-condicionado a 24 e só diz: "Eu quero a 24", mas não há estresse nenhum. Eu quero a luz do camarim apagada e eu fico mal-disposto se a luz não estiver apagada. Se a Cristina tiver a luz dela apagada ou acesa, é-lhe indiferente. Eu não gosto de calor e eu fico mal-disposto por causa daquilo. A Cristina tem calor, não tem calor, é-lhe indiferente. Ela é muito fácil de lidar neste aspecto, mas isto é uma rivalidade de equipa que eu estou sempre a brincar com eles. É uma coisa saudável, porque eles concordam mais com ela do que comigo. Ou seja, para te dizer que a minha profissão serve-me porque eu vivo dela, consigo ter uma vida confortável graças à profissão e gosto de trabalhar. Eu vou muito contente trabalhar. Agora, à noite tens que esvaziar o ego, porque senão é insuportável.

E falamos aqui de dois egos, o teu e o da Cristina. Duas das personalidades neste momento no ativo que são vítimas, entre aspas, de notícias. Tudo o que vocês dizem é notícia, quer seja descontextualizado ou não, há sempre notícia sobre aquilo que vocês dizem. É fácil ter esse holofote todos os dias?

É, porque nós estamos habituados. Eu acho que dizer que é muito difícil é um bocado mentir. Porque na prática sabemos que a profissão exige isto.

E há dias que se tem mais paciência para ler aquilo que se escreve do que outros, não é? Tu lês aquilo que se escreve sobre ti?

Não, nós recebemos um clipping, eu recebo um clipping. O que eu faço? Eu faço com delay. Por exemplo, eu só quando apresentei o "Big Brother 2 ou 3" é que eu fui ler as coisas do "Big Brother 2020". Eu faço com delay, mas é porque na minha terapia sempre disseram que eu tinha que me proteger. Eu não sou a pessoa que valoriza os comentários das redes sociais. Eu ponho um post, podem lá dizer que eu sou tonto, idiota, isto e aquilo outro.

Não apagas.

Não, quer lá saber. Podem escrever o que quiserem, é-me indiferente. Não conheço aquelas pessoas. Quer lá saber. Vão lá, metem gosto, não metem.

Bloqueias muita gente?

Bloqueio muita gente, mas não por minha causa. Eu bloqueio, por exemplo, se esta entrevista for partilhada e se eles começarem a dizer mal de ti, por exemplo, eu não admito, eu bloqueio. Se dizer mal da Cristina, eu não admito, eu bloqueio. Um amigo meu, ainda hoje falámos disso, curioso.

Essa lista de bloqueados deve ser imensa.

É imensa, tem mais de 37 mil pessoas bloqueadas. Falei no outro dia disto na televisão. Tenho muita gente bloqueada e bloqueio, não me faz diferença nenhuma. Um dia, quando me apetecer, vou desbloquear. Tenho amigos meus, tenho pessoas do meio bloqueadas.

A sério?

Já tive pessoas no programa que me disseram: "Estou bloqueado". Por alguma razão deve ser, já não me lembro, mas deve ser. Bloqueio, não tenho paciência, quer lá saber. Se vejo uma coisa que me dera, bloqueio. Mas lidamos bem, porque faz parte da nossa profissão. O truque é sempre esvaziar o ego. Sempre.

Tu na SIC fizeste programas social, fizeste também muitos programas no teu início de carreira. Esta questão é um bocado difícil e se calhar tu não vais dar uma resposta que seja plausível ou que as pessoas queiram ouvir. Já fizeste reality shows, agora estás com um novo programa também. Consegues olhar para trás, para algum desses programas e dizer: "Caramba, eu neste aqui estive mesmo bem, foi o que eu mais gostei de fazer."?

Eu estive muito bem em alguns. Eu orgulho-me muito de uma coisa que eu fazia no programa da manhã com a Júlia Pinheiro, que era o Jornal Rosa, que é uma rubrica de social feita de uma forma que nunca ninguém fez, em forma de noticiário.

Na altura estava a Cristina e o Manel na TVI.

Estava também ela na TVI. Com peças em cartoon, que foi extraordinário. Éramos só duas pessoas a fazer aquilo e o editor. Eu orgulho-me muito daquilo, foi um trabalho muito bem feito. Orgulho-me muito de um dia a Laura Ferreira, que era a então primeira-dama, não, mas a mulher do nosso primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, na altura, quando ficou doente, de me ter telefonado e me ter dito: "Cláudio, eu estou doente, eu queria que seja o Cláudio a dar a notícia na televisão, porque eu sei que vai sair em todo lado". E eu era um comentador de social e aquilo a mim fez pensar: "Uau, estamos a falar da mulher do primeiro-ministro. Podia fazer aquilo em qualquer lugar. Ela podia ligar para aqui, vocês dariam a notícia". E ela ligou para mim e foi uma coisa muito bonita. Fiquei mesmo muito contente com isso. A Laura depois foi à apresentação de um livro meu Veio a falecer depois mais tarde, doente. Era uma grande mulher, fico com essa dívida de gratidão gigante. No "Passadeira Vermelha" fiz coisas épicas.

Autênticos números de televisão.

Épica. No programa da Cristina, eu e a Cristina, quando começámos a trabalhar juntos, fizemos coisas que eu hoje olho para trás e penso: "Como é que nós fizemos aquilo?" Nós não tínhamos uma linha escrita. Aliás, não tem escrito coisa nenhuma. Nós não tínhamos uma linha escrita e nós fazíamos rábulas de 17 minutos seguidos, uma parte do programa. Eu e ela, do nada. O "Passadeira Vermelha", eu estava uma hora e meia no ar a fazer um espetáculo do nada. Só há um programa que eu não gostei nada de fazer, que foi o "Olha o Vídeo" na TVI há muitos anos, quando eu fui substituir a Fernanda Serrano.

Isso foi quando saíste do-

Foi quando saí do "Big Brother Famosos". Eu fui fazer o "Rosa Shock" com a Teresa Guilherme, repórter, e a Gabriela Sobral, na altura, e o Muniz convidaram para substituir a Fernanda Serrano, que fazia o "Olha o Vídeo". Eu fui fazer, mas eu não gostei nada de fazer o programa. Para já, não gostei porque não gosto de vídeos daqueles em que a gente cai.

Eram insólitos, vídeos engraçados.

Não acho grande graça a aquilo. E depois porque foi muito casé ter de fazer, depois porque os textos não eram escritos por mim e depois porque não era eu que estava a fazer aquilo. Às vezes olho para trás, vejo as imagens, não gostei nada de fazer aquele programa. É o único programa que eu não gostei nada de fazer.

E no meio disto não falaste dos reality shows porque estás com delay.

Não, mas eu gostei. Eu gostei de participar enquanto concorrente, que é outra coisa boa, porque eu sou o único concorrente que passa a apresentador.

Exato.

Gostei muito de fazer o "Big Brother 2020", quando o "Big Brother" volta e ser escolhido, para mim foi uma coisa enorme, gigante.

Isso foi um marco também na televisão portuguesa, voltar com um formato icónico e nas condições que foi, em tempo de confinamento.

Repara uma coisa, quando eu fui convidado, não havia confinamento nenhum. Nós voltámos no confinamento, voltámos com o BB Zoom, foram buscar um comentador para terceiro apresentador do programa, porque eu na altura estava com a Cristina, mas estava também a fazer o "Passadeira Vermelha". Fizemos sem ninguém em estúdio, sem nada. Ou seja, eu adorei fazer o programa, mas eu não desfrutei o programa. Não podia.

Ainda te estavas a conhecer também nesse registo, possivelmente.

Sim, porque tu imaginas uma coisa, mas é sempre outra. Não é aquilo que tu imaginas. Depois não tinhas público, não tinhas câmara, não conhecias a cara das pessoas, estava tudo tapado com máscara. Não havia nada. Eu ia sozinho com o chauffeur para o estúdio. Depois a pessoa que trabalha comigo, que era a Verônica, ia afastada. Éramos só duas pessoas, uma produção daquela gigante, tu imaginas outra coisa? Não. Fui desfrutar mais tarde quando fiz o "Big Brother". Acaba esse, entra a Teresa Guilherme.

Depois fizeste com a Teresa Guilherme.

Volto depois com a Teresa.

Também fizeste com o Manuel Luís Goucha.

E volto depois um sozinho, outro sozinho. Depois fiz vários sozinhos. Mas eu só desfrutei o "Big Brother" mais tarde. Eu tive a noção da produção, tudo bem, muito mais tarde. E houve alturas em que eu olhei, quando estava a fazer sozinho o programa, eu olhei e eu não gosto muito de me ver na televisão, mas eu lembro-me de olhar e pensar assim: "Fogo, está bem feito". Porque quando eu faço mal, eu sei que faço mal. Por exemplo, toda a gente diz que eu faço muito bem o "Linha de Ouro". Eu ainda não vi. Eu não gosto muito de me ver.

Vi muitos comentários positivos nas redes sociais sobre esse programa.

Eu pensava: "Olha, que bom, era um registo novo, ainda bem." Mas eu faço muita coisa mal. E eu naquele momento eu pensei: "Uau!" Porque o "Big Brother" em grande produção, foi a sensação de que o caminho que fizeste foi um bom caminho. Chegaste até aqui, agora já podes ir embora porque já chegaste.

Sim.

Foi o que eu pensei.

Tu já te sentes validado em televisão?

Já há muito tempo. A partir do momento em que me senti validado, coincidiu com o momento em que pensei: "Não preciso da validação de ninguém". É profundamente indiferente, porque há uma altura que tu como queres chegar a muitos lugares, precisas que as pessoas te vão dizer: "Cá que sim. Olha, estás bem", percebes? Que os teus diretores, os teus colegas vão dizendo isto. Eu do público não tenho razão de queixa, de verdade. Mas quando tu já tens tudo o que queres ou já chegaste, já percebes, não te adianta nada a validação dos outros. Tu já está. A partir do momento em que tu te desprendes da validação dos outros, para ti tudo é muito melhor. E então eu, a partir de 2021, mais ou menos, pensei: "Isto é a minha vida. Eu vou desfrutar isto à minha maneira, não estou à espera que as pessoas me digam que está bem ou que está mal." E foi o que aconteceu.

Por que falas tanto nessa questão de um dia te afastares?

Eu falo isso, mas eu tenho muito a noção de que isto é uma passagem.

É para te protegeres também?

Também, porque repara, este momento, este estágio que nós fazemos na televisão é uma passagem. Eu vim muito de baixo e agora estou numa espécie de autoestrada, onde as coisas estão a correr todas muito bem, onde tu és o escolhido, és o favorito, és o preferido, ganhas bem, lideras, está tudo muito bem. Mas eu já vi muita gente passar pelo mesmo do que eu e hoje não está nem aí, as pessoas nem se lembram já do nome delas. Eu já cá ando há muito tempo. Então é muito bom tu saíres antes do tempo, vá mais isso a saudades, e saberes sair. Eu acho que isso é importante. E ires preparando a tua cabeça para que um dia que não estejas nestas tantas linhas à frente, não te sintas mal, não deprimas, tenhas alternativas e consigas olhar para trás e dizer assim: saíste, não que tenha sido uma escolha tua, mas soubeste sair. O meu objetivo é eu olhar e pensar assim: eu soube sair. E não saí nem magoado. Eu entrevisto tantos colegas meus que estão magoados, amargurados, revoltados e novos, porque também não tiveram tantas oportunidades, porque não têm, porque queriam estar no meu lugar ou queriam estar no teu ou no lugar da Cristina.

Porque tu deves ouvir isso muitas vezes. Há dois lugares neste momento e é talvez os dois lugares que mais pessoas querem estar.

Eu ouço muito e vejo na cara dos meus colegas. Isto eu também digo com toda a franqueza O fazer o programa da manhã não é fazer o Big Brother, não é fazer o Linha do Horizontes. O Big Brother eu acho que muitas pessoas conseguem fazer. Comparado com o programa da manhã é muito fácil fazer, é uma produção gigante.

Sim, na maior parte das vezes são os concorrentes que fazem. Claro que a apresentação é importante.

Um reality não depende do apresentador, depende do formato em si, que é o reality já ter peso, dos concorrentes que estão dentro da casa. O apresentador, se não quiser, lê um teleponto. Eu não uso teleponto, mas pode ler um teleponto e basear-se naquilo. Pode ser uma pessoa qualquer. Qualquer pessoa faz talent shows, qualquer pessoa faz programas do domingo à noite, qualquer pessoa faz um concurso. Nem todas as pessoas fazem daytime. Aliás, no país, se nós tivermos 10 bons apresentadores, e não temos 10 bons apresentadores, nós não temos cinco bons apresentadores de fazer daytime. Daytime é tu teres a capacidade de saber ouvir a outra pessoa e deixar de ouvir a outra pessoa e ouvir a pessoa que está em casa. Tens de ter a capacidade de não teres medo do ridículo, porque tu às vezes tens que ser ridículo. Não tens que estar preocupado com isso. Daytime não é maquiar, pentear, vestir uma roupa bonita, fazer uma bonita fotografia. Isso também é, mas é tudo o resto. E eu digo-te de verdade, e já disse a colegas meus, há muitos que queriam estar no nosso lugar, mas não têm capacidade para estar. Não têm. Não conseguem segurar, não têm uma conversa, não se preparam. Se eu perguntar a colegas meus, pessoas da tua idade, mais jovens que eu: "Queres fazer daytime?" "Quero." "Tu tens já visto?" "Não, não vejo televisão." "Quem é a Yvonne Ferreira?" Não sabem quem é. Não sabem quem foi a Yvonne Ferreira neste país. Foi a primeira apresentadora de daytime no país, na RTP, a primeira mulher a fazer televisão com conversas. As pessoas não sabem de onde veio o Manuel Luís Goucha. As pessoas não sabem onde estreou a Cristina Ferreira. As pessoas não percebem qual foi o caminho da Júlia Pinheiro. As pessoas querem chegar à televisão, estar nas revistas e nos sites e ganhar um bom ordenado.

Ainda existe muito essa imagem de glamour.

Sim, mas também têm que trabalhar, porque nós podemos manter o glamour, mas têm que trabalhar. Há um histórico. Esta história eu vou ter que contar, mas eu não vou dizer nomes. Nós convidámos há algum tempo a Maria Elisa para o nosso programa, Maria Elisa Domingues, que foi diretora de programas na RTP, tem o seu historial, é indiscutível. E uma das grandes amigas da Maria Elisa era uma pessoa que é conhecida, eu não vou dizer o nome. E nós dissemos, e estava no texto, essa pessoa entretanto já tinha morrido, e a nossa jornalista não tinha a mais pequena ideia, trabalha em televisão, de quem era nem a Maria Elisa, nem a amiga de quem nós falávamos. É impossível que a minha filha, que acabou agora de tirar Ciências da Comunicação, não saiba quem é Maria Elisa Domingues, porque se ela não sabe, algum professor vai ter que lhe dizer.

Claro.

Naturalmente, ela não assistiu à carreira televisiva da Maria Elisa, que se retirou dos formatos da televisão há 15 anos, talvez. Mas algum professor numa faculdade destas tem que lhes dizer quem é Maria Elisa, como vai ter que lhes dizer quem é a Júlia Pinheiro. Parece-me que é evidente. E eu senti vergonha e sentiria vergonha se isto me acontecesse. Mas em compensação, e para voltarmos ao início da nossa conversa, são capazes de dizer os nomes todos das seleções que vão ao Mundial de Futebol e dos jogadores e das namoradas dos jogadores. Isso eu não consigo entender. Isso faz-me muita confusão.

Tu também tens jovens na tua equipa, com certeza também com muitos sonhos. Muitas pessoas que trabalham em televisão e que têm esse sonho de um dia estar à frente de uma câmera. O que tens encontrado também nestas novas gerações?

Eu acho que nós temos duas coisas. Nós temos pessoas que querem muito trabalhar no meio e temos pessoas que só querem meter no link do Instagram que trabalham na televisão, na bio, que trabalham na televisão. Temos estas duas coisas, porque estão muito convencidos que a televisão é televisão, rádio, comunicação.

E tem valor social.

Sim, e acham que são muito valorizados. A imagem pesa muito. Eu não tenho nada contra, porque eu também sou mega vaidoso, basta olhar para o meu Instagram, mas há também gente que quer muito trabalhar. Há pessoas boas, há pessoas furonas que descobrem uma boa história, que sabem ouvir, também há. Eu só tenho medo que esta geração do feed

Do scroll

Do scroll, não consiga olhar mais além, não consiga perceber que o jornalismo não se faz na secretária. O meu medo é mandar um jornalista cobrir um incêndio e ele não saiba para onde é que quer ir. Ou o meu medo é mandar fazer um vox pop e ele não saiba fazer. Porque estamos muito fechados. Eu falo dos outros, mas às vezes eu próprio penso: eu hoje conseguiria ir à rua fazer um vox pop como eu fiz a vida toda? Será que eu conseguia? Por exemplo, o Mundial acontece. Eu lembro-me de uma vez, o Mundial, já não me lembro com quem, que o meu papel na SIC era fazer reportagens de rua para o Mundial, ali nos especiais que se faziam no Parque Mayer, há muitos anos. Eu acho estas questões: será que eu ainda era capaz? Será que eu ainda era capaz de fazer vox pops? Há coisas que eu me questiono, mas eu não comecei agora, mas eu tenho a obrigação de saber, atenção. Eu tenho a obrigação de alguém, se me mandar pra rua, eu tenho que me saber desenrascar com aquilo.

Mas não achas que, às vezes, só o fato de pôr um microfone na frente de alguém não se ativa ali um chip? Nunca sentiste isso, até mesmo no teu início, que por mais que haja vontade e que ainda estejas a aprender, que há uma espécie de vontade que cresce ali e cria-se uma espécie de persona capaz de fazer tudo?

Sim. Desde que saibam que o microfone tem uma responsabilidade muito grande. Isto é precioso. Isto é uma espécie de ouro, isto é o veículo que nos vai levar a um sítio qualquer e nós nunca sabemos como é que a mensagem chega ou a quem chega. Pode chegar à tua mãe, mas pode chegar à vizinha da tua mãe que pensa de uma forma completamente diferente. Tu podes dizer: aquilo é uma vaca, e a pessoa entende que aquilo não é uma vaca, é um boi. Isto é um problema. Esta coisa que nós dizemos: "Eu sou responsável pelo que eu digo, eu não sou responsável pelo que os outros interpretam", depende para quem estás a trabalhar. É um bocadinho assim. Eu acho que os jovens estão muito formatados para um tipo de jornalismo que eu, Cláudio, não aprecio e não fui formatado para. Mas eu não perdi a esperança nos jovens, nem pensar. Não perdi.

Vamos falar aqui de outra veia, além da apresentação dos programas de televisão: da escrita, que é a tua forma também de falar de algumas dores, ainda que haja aqui a ficção.

Claro.

Plumei, não é? Eva é a personagem do teu último livro.

Morreu.

Não sei se está relacionado.

Não, foi antes.

Não está, mas foi uma coincidência. Falou-se tanto na Eva.

Foi uma coincidência, porque o livro estava escrito antes.

Exato. Foi tão falada neste último reality show. Que peso, nem sequer é peso, mas o que te dá vontade de escrever? Para alguém que tem uma vida muito ativa, acordas muito cedo, fazes muitas coisas diferentes. O que traz a escrita, que prazer é esse? Há bocadinho falavas que escrevias muito no teu telemóvel, por exemplo.

Eu acho que a televisão é imediata. As pessoas não me conhecem. Na televisão, as pessoas conhecem uma parte minha, que é verdadeira, que está ali, mas não há tempo para se descobrir a camada das pessoas. Não há tempo. Não é por mal, as pessoas não têm tempo. E na escrita eu permito às pessoas que querem, claro, porque primeiro quero eu, mostrar-lhes uma parte minha que está subjacente em todas as linhas dos textos que eu escreva, todos os romances que eventualmente escreva ou crónicas. E eu sou aquela pessoa, se tu me perguntares: "Tu és mais a pessoa da escrita ou mais a pessoa da televisão?" Mais a pessoa da escrita, porque tens mais camadas, tens mais tempo, podes explicar melhor quem és, sem dizer quem és. A pessoa lê-te, tu conheces através daquilo que ela escreve.

Isso é fácil de fazer?

Para mim é fácil. Eu gosto muito de escrever.

Permite-me esta comparação: a televisão tu vês como um trabalho e a escrita como uma espécie de entrega.

Eu gosto muito de escrever sem obrigação. Não me podem dizer na editora: "Vamos lançar um livro em março do ano que vem." Eu fico logo nervoso. Não, eu quero escrever quando me apetecer. Como eu não vivo de escrever, se vier o touro do dinheiro que vem é extra, eu vou escrever quando me apetece. Eu posso demorar seis meses a escrever um romance ou um ano e meio, como foi o último, depende. Porque eu não tenho obrigação, não dependo dela, graças a Deus. O que eu gostava era de um dia poder viver de escrever, é difícil de acontecer, mas sem tempo. Por exemplo, eu não gosto daquela obrigatoriedade de todas as semanas escrever uma crónica. Não tenho paciência. Até posso escrever hoje 20, mas eu não quero todas as semanas escrever uma.

Ter essa obrigação.

Não, não quero ter essa obrigação. Gosto de escrever pelo prazer de escrever, porque tu quando fazes por obrigação a escrita, tu não estás a escrever, estás a preencher papel, porque é obrigatório tu fazeres. Pelo menos eu penso desta maneira. A minha inspiração não me nasce assim, depende um bocadinho, é preciso laborar, é preciso estar em cima, perceber, entregar um produto bem feito.

E tens essa como meta.

E tenho uma noção, o meu último livro, "O Amor Não Morre", é absolutamente extraordinário. Não tenho dúvida nenhuma. Nem pejo nenhum, nem modéstia no sentido de dizer: "ai, não". O outro já era muito bom, "O Rapaz".

"O Rapaz", eu li.

Não gostaste?

E confirmo. Foi dos melhores livros que li neste ano de 2024, que foi o ano em que saiu.

E se leres "O Amor Não Morre", vais perceber, porque tem um pouco de continuação de "O Rapaz" e tem as histórias desenroladas. Está muito bem escrito. Eu acho que quem lê muito tem mais facilidade em escrever.

Claro.

Eu leio muito e sempre gostei muito de português. Então gosto de entrelaçar as coisas. Escrevo de forma muito simples, como imaginas, porque eu quero chegar a todas as pessoas. É o meu objetivo. Já me elogiei. É o que eu acho.

Há pessoas que te acusam disso, de te autoelogiares muito.

Vá saber. Não me faz diferença nenhuma. Há pessoas que vão dizer mal dos meus livros sem nunca terem lido sequer uma linha.

Claro.

Mas isso eu estou muito habituado, não me faz diferença nenhuma.

E tocar nesses temas, às vezes complexos, a questão da homossexualidade, por exemplo, é algo fácil-

Para mim é

...pôr na escrita, por exemplo?

Sim, eu nunca tive nenhum problema com a minha orientação sexual. Eu quando resolvi o que era, eu resolvi o que era. Eu não precisei nunca de psicólogo para falar sobre o assunto. Eu tinha a minha cabeça muito preparada, às vezes. Quando eu fui ao psicólogo mais tarde para terapia por outras coisas, o que ela sempre me disse foi que eu estava muito preparado para aquilo. Eu elaborei muito na minha cabeça o que era, o que não era, li muito sobre o assunto. Tive também uma coisa que me ajudou bastante. Eu não tive nunca em minha casa nenhum problema com sexualidade. Os meus pais sempre falaram abertamente sobre a sexualidade. E tive outra coisa: eu não dependo financeiramente de ninguém há muito tempo. Eu acho que um miúdo em casa, ou uma miúda, que seja homossexual e com 13, 14, 15 anos e não sinta nos pais a segurança de que lhes vai contar ou lhes vai dizer, se for preciso dizer. Eu nunca tive que dizer à minha mãe. Ela entendeu. Eu nunca me sentei à minha mãe e lhe disse. Esse miúdo que está em casa na dúvida, porque há uma altura em que tu passas ali de dúvida.

E às vezes é uma ideia que se instala pelo bullying, porque a criança nunca sequer pensou nessa possibilidade.

Não, mas é que tu vais crescendo e às vezes são os outros que se lembram primeiro.

Exato, é isso que eu estou a dizer.

É exato. Mas se tu sentires que tens alguém que te apoie, por isso é que eu acho que os psicólogos na escola são tão importantes. Porque as mães, quando se diz: "ai, a mãe não aceita, o pai não aceita". A mãe e o pai não têm que aceitar nada Mas muitas vezes os pais, o que têm em relação aos filhos homossexuais é que eles têm medo do que eles possam vir a sofrer. Eles não têm problemas nenhuns que os filhos sejam homossexuais, gostem de meninas ou que lhes apresentem um genro em vez de uma nora.

É a preocupação.

É a preocupação. E nós quando estamos naquela coisa de: "Eu sou..." não paramos para pensar que eles também são pais, eles só estão preocupados conosco. Eu não passei por isso, mas eu desde que assumi publicamente a minha orientação sexual, quando falei com o Daniel Oliveira na nossa definição, já falei com muitos miúdos, eu recebo mensagens todos os dias, já fui a escolas falar. Nós somos todos diferentes, nós reagimos sempre de maneira diferente. Eu posso ser mais forte para umas coisas, mais frágil para outras, mas eu acho muito importante falar e não se esconder. Mas também não acho nada que o miúdo, porque tenha uma dúvida na cabeça, deve chegar ao pé da mãe ou ao pé do pai e dizer: "Pai, eu sou isso, eu sou aquilo". Não, acho que ele deve pensar, se sentir vontade de falar com um psicólogo, deve falar com um psicólogo, falar com amigos, deve falar com amigos, deve escrever, deve fazer. E os pais têm que estar preparados, mas nós, filhos, também temos que entender, que é uma coisa que em 2026 quase não acontece, as razões dos pais. Se tu me perguntares assim: Cláudio-

Porque a primeira coisa que se pergunta é: e como é que foi a reação dos pais?

Exatamente. Mas é claro que se tu chegares ao pé da tua mãe ou ao pé do teu pai, ou ao pé do teu avô e disseres: "Olha, eu sou homossexual." A preocupação dela não é: "Ele vai dormir com um homem." Não é. A preocupação dela é: "Meu Deus do céu, o que é que lhe vão dizer? Como é que vai ser no trabalho?"

O que as pessoas vão achar.

O que as pessoas vão achar, como é que vai ser. Se tu me dissesses assim: "Cláudio, amanhã a tua filha chega ao pé de ti e diz que é lésbica." Eu sei como é o caminho. Se tu me disseste que ficas muito feliz, eu fico feliz por ela, mas que o caminho dela é mais complicado, é. Se fosse verdade, o caminho dela era mais complicado. Percebes? Porque é assim que as coisas funcionam. Não vale a pena virmos dizer que não há racismo, que não há homofobia, que não há preconceito, porque existe tudo. Só que em 2026, o que é que existe? Tudo camuflado. Está tudo escondido. Eu vejo pessoas na internet a aplaudir.

E continuam a ser pessoas agredidas na rua.

Sim, todos os dias.

Todos os dias.

E continuamos a fazer uma marcha.

O Luís Borges teve um episódio desses ainda há pouco tempo.

No concerto do Bad Bunny, creio eu.

Sim.

E continua a acontecer uma marcha que as pessoas não sabem porque ela existe.

Eu ia te perguntar isso, por acaso, porque nós temos um exemplo. Vou trazer aqui esse exemplo, porque o Manuel Luís Goucha fala disso, que não é que não perceba, mas que não alinha em guetos. E fala dessa questão das marchas LGBTQIA+. Qual é a tua posição sobre isso? O que tu pensas sobre isso?

Eu não sou tão radical usando a palavra guetos como o Manuel usa. Eu acho que nós temos que entender que a marcha, ou a parada, ou as marchas se fazem por uma razão. Hoje, nós descemos à avenida. Eu não vou, porque eu não sou, como te disse há bocadinho, não gosto de multidões. Eu só vou a uma manifestação, é a do 25 de Abril, porque acho que é importante fazê-la, corremos o sério risco de a perder de um dia para o outro, sem termos a noção. O que eu acho é que quem desce à avenida tem que saber porque está a fazê-lo. Quem vai à parada gay tem que saber porque está na parada gay. Tu não vais à parada gay para te vestires e desceres só porque é bonito. Eu tenho que parar, e eu como chateio é que os jornalistas param: "O que é que está aqui?" E tu não sabes responder. Percebes? E tu tens que me responder. Tu tens que saber porque é que ali estás. Tu lutas por um direito, tu lutas por uma igualdade, tu lutas para ser aquilo, mas muitos lutaram por ti. E por que se faz uma parada? Por que se começou a fazer? O que aconteceu? É importante haver uma história e às vezes as coisas estão de tal forma desformatadas e descontextualizadas que corre o risco da mensagem passar errada. Não para quem vive em Lisboa e Porto, que isto é muito importante.

Porque há mais país além de Lisboa e Porto.

A maioria do país é fora de Lisboa e Porto. E se eu tenho um miúdo homossexual ou uma miúda que quer contar ao pai e conta na noite em que liga o noticiário e o pai vê no noticiário a parada gay descontextualizada, é importante que se perceba, descontextualizada, com pessoas a quem lhe é perguntado que não sabem o que significa e se incomodam um pouco. Estás a perceber? Isso chateia-me um pouco.

E enfraquece a-

A causa

...a causa.

Que lhe quiseram chamar. Enfraquece a causa. Eu acho que deve haver, deve continuar a haver, devem ir todos. Eu próprio devia ir, embora eu tenha um microfone gigante, eu posso fazer passar a minha voz muito mais do que à avenida. Eu acho que consigo fazê-lo, que eu acho que é o que o Manuel quer dizer com isso. Conseguimos fazê-lo sem necessariamente erguer a bandeira, porque não precisamos erguer a bandeira para sabermos que ela está cá. Porque parece evidente, as pessoas sabem o que é que eu sou. Eu nunca escondi. As pessoas sabem, desde que tenho uma vida pública. As pessoas só não sabem com quem é que eu não moro, mas isso já é outra coisa. Mas as pessoas sabem quem eu sou, o que eu defendo, o que eu não defendo. A mim parece-me evidente que o casamento tem que existir, me parece evidente que os direitos têm que existir. Parece evidente que tu tens o mesmo direito a estar no meu quarto de hospital que teria a minha mulher ou a minha namorada, se namorasse, porque se eu namorasse contigo. Isso tudo parece evidente. E que os direitos são iguais, que as pessoas devem ser olhadas de igual forma. Mas nós que estamos na luta temos que saber porque lutamos.

Assusta-te que neste momento haja partidos na Assembleia da República que põem em causa esses direitos, liberdades?

Eles não põem só em causa.

Ainda há pouco foi o Presidente da República, António José Seguro, não levou avante esse decreto que proibia as bandeiras LGBT em edifícios públicos.

Eu não acho que o grande drama sejam as bandeiras LGBT. Acho que devem estar, mas não devia ser uma discussão.

Sim.

Mas aí levanta-se uma outra questão, porque quando nós nos focamos muito na bandeira, é como se o resto não importasse. É como se dissessem assim: "Então vamos pôr a bandeira, mas vamos tirar os direitos." Temos a bandeira, estamos todos contentes, mas não temos os direitos. Então é assim: eu tenho a bandeira, mas se eu namorar contigo e for pro hospital, tu não podes entrar no hospital que não somos casados, mediante à bandeira. Estás a entender? E às vezes estes barulhos confundem a mensagem, que é o mais importante, que é uma espécie de foco.

Mas é esse o objetivo ou não?

Acho que é o objetivo. Acho que o objetivo é enfraquecer, para que depois o discurso seja este. E o discurso depois é muito pela rama. Pronto, é só: "Ah, é uma bandeira colorida, as pessoas vão achar. Estão a discutir por quê?" Imagina tu vais pro interior: "Estão a discutir por causa da bandeira. Qual é a bandeira? É esta. Ah, é por causa disto, por causa desta bandeira." Porque é assim que as pessoas veem. Nós não somos todos iguais. E a minha luta é sempre um bocadinho essa. Fica meio esfumado. Claro, que se a bandeira estiver ali, tem que estar, é evidente. Mas depois pensamos assim, pensam os maus: "Está bem, então amanhã eu quero que eu não ponha uma bandeira hétero." Estás a entender? Eles são capazes de agarrar nesse argumento para calar os outros. Então acho que nos perdemos muito em coisas que não nos ajudam. Acho que nós devíamos focar em coisas que nos ajudassem mais. De verdade, acho que sim. A bandeira é um símbolo, para muitas pessoas é um símbolo, é importante. Também temos que respeitar que nem todos são tão esclarecidos como nós, nem todos pensam da mesma maneira.

E tu deste aí um exemplo, a questão do interior. E há muitas zonas do país em que não há tanta literacia nesse sentido. E não estamos só a falar da causa LGBT, estamos a falar de tudo.

Eu sei o que se passa no interior. Eu vivo numa cidade onde o partido que ganhou foi o Chega. Uma zona do país que foi a vida toda comunista, que depende muito de laborar a terra, do trabalho, que tem zero a ver com os padrões que o Chega defende. E por que o Chega ganhou? Foi o único sítio onde eles ganharam. O Chega ganhou ali, porque a mensagem que chega é de tal forma deturpada que a pessoa na altura de votar não é esclarecida, não tem o esclarecimento e vota ali. Por quê? Porque ele disse que ia fazer isto. E o que era isto? Era isto que eu quero. Então não querem saber mais nada. E vão ali e votam, porque depois importa é a cruz. Por isso é que eu acho que as mensagens, para que seja que causa for, a nossa, seja que causa for, tem que ser muito bem passada, porque há sempre gente mais forte e o Chega tem uma rede social ativíssima, que chega a muitos jovens. Nós falamos do interior, pessoas mais idosas, mas tu tens pessoas aqui.

Sim, claro.

Miúdos muito novos que votam, que acompanham e seguem. Estás a perceber? Então o Chega tem as suas manhas, que jamais na vida queria que chegassem ao poder, obviamente, mas nós alimentamos muito o Chega. Nós.

A comunicação social.

Sim, alimenta muito. E as pessoas que o seguem alimentam muito, porque depois dizem uma coisa, mas praticam outra. Estás a perceber? E eles agarram isso pra propaganda deles próprios. Quando tu dizes: "Epa, vou ali ao Marquês de Pombal e tenho tudo cheio de estrangeiros", tu estás a dar voz a que o Chega agarre naquilo e diga assim: "Tenho um português que não pode ir ao Marquês de Pombal, que tem tudo cheio de estrangeiros." Estás a perceber? É o início da conversa. Estás a descontextualizar e estás a dar palco a isto, que é tão simples este raciocínio. Estás numa zona do interior, os teus filhos vêm estudar pra Lisboa e vais pensar assim: "Ai, meu Deus do céu, meus filhos pra Lisboa, aquilo está cheio de estrangeiros, meu Deus do céu."

Já se cria essa percepção.

É, não é? Então o Chega vai tirar os estrangeiros, não é? Então vou votar Chega. Pronto, é simples, é assim que as coisas funcionam.

Cláudio Ramos, o que te inquieta?

Uma das coisas que mais me inquieta é nós darmos como garantido a liberdade que temos, porque nós temos a liberdade, mas os nossos avós não a tinham. E de tudo o que mais me inquieta, além dos problemas de saúde, que nós não queremos ter, é mesmo a sensação de darmos como garantida a liberdade que não temos. Não temos a liberdade. Nós temos que lutar por ela todos os dias e nós damo-la como garantida. E irrita-me muito pessoas que não só a questionam, como miúdos que não sabem valorizar, eu nem digo que valorizem o 25 de Abril, eu digo que não sabem valorizar o que é a liberdade como nós.

Ou que conheçam a história, que é acima de tudo o mais importante.

Não, isso já é pedir demais. Isso pra alguém conhecer, um miúdo de 20, 25, 30 anos, 30, às vezes de 40, que nos conta a história, é muito complicado. Poder perder a liberdade é o que mais, tirando os problemas de saúde e o bem-estar de todos de quem gostamos, é o que mais me inquieta.

Cláudio Ramos.

Nós caminhamos pra um mundo muito complicado.

Muito obrigado por teres vindo aqui ao "Em 40 Minutos".

Obrigado.

Muito sucesso e até breve.

Obrigado.

Um abraço.

Obrigado.