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Eu não tenho nada contra o Sr. Almirante, mas eu acho que o Sr. Almirante é tão preparado para ser presidente da República como eu seria. Já nem falo no outro que só concorre para a primeira volta. Com certeza absoluta que o Dr. André Ventura não tem nenhuma hipótese de ser presidente da República. Para mim, eu emigrava, mesmo aos 76 anos. Mas para aqueles que podem ser, que são três, eu acho que a gente não pode arriscar. Pessoas fazem agora um curso intensivo para poderem provar que são candidatos à presidência da República, porque eu teria que fazer o mesmo. Se te perguntarem isto, dizes isto, se perguntarem isto, dizes aquilo. E portanto, quem vai ser presidente, no caso de alguém como o Almirante, que eu acho um homem respeitável. Eu só estou a dizer: "Olhe, ouça uma coisa, eu não posso votar em si pela mesma razão que não votaria em mim", que tinha tanto direito de ser candidato como ele.
Desde os primeiros anos, entre brincadeiras e planos imaginários, com amigos inseparáveis, formou-se uma curiosidade e uma determinação que mais tarde se transformou em vocação. Na juventude, sonhos e ambições misturavam-se com dúvidas e receios, preparando-o para abraçar a medicina e a cirurgia. Ao longo da carreira, cruzou-se com decisões éticas complexas, mas a sua história não se limita apenas ao bloco operatório. Participou ativamente na vida pública, discutiu questões sociais e políticas, falou de desporto, da sociedade, entre memórias pessoais e episódios públicos. Hoje desvendamos a história de um homem marcada pela responsabilidade, pelo conhecimento e pela paixão com a qual a faz sempre. Eduardo Barroso, em "40 Minutos", bem-vindo aqui à Rádio Observador.
Eu é que vos agradeço, João e João.
Bem-vindo. Exatamente. É verdade, dupla JJ.
Dupla JJ. Grande avançado do Vitória de Setúbal.
JJ? Pensei que se estava a referir ao treinador. Jorge Jesus.
Não, isso é outro, isso é um amigo meu. Ficámos mais íntimos. Não somos íntimos, ficámos mais chegados quando ele foi treinador do Sporting. Aliás, ele telefonou-me às duas da manhã a dizer: "Doutor, já estamos do mesmo lado". Portanto, eu soube do Sporting às duas da manhã, quando ele me disse: "Doutor, já soube".
E não lhe chamou nomes por ter acordado às duas da manhã.
Não, eu estou habituado. Eu tenho um amigo que me telefona às quatro da manhã e pergunta sempre: "Não te acordei? Pois não."
É uma pessoa notíva, Eduardo Barroso.
Não, não sou nada notívago.
Não?
Nada. Quer dizer, passei muitas noites nos transplantes, passei noites, perdi noites, mas por obrigação. Agora deito-me um pouquinho mais tarde. Isto da reforma ou pré-reforma total permite que veja muita televisão, leia muito e, portanto, às vezes deito-me tarde.
Muito bem. Eduardo Barroso, o senhor confessou publicamente e recentemente que cometeu uma ilegalidade durante o período em que foi médico: realizou um transplante de fígado a um imigrante ilegal. Também disse que não iria comprometer ninguém, por temer eventuais repercussões profissionais. Já foi contactado por alguém a pedir-lhe satisfações desse ato que aconteceu há 20 anos?
Não, eu contei a história. Nunca a escrevi. Já escrevi, até vos trouxe um livro, não sabia que eram dois, da minha vida profissional, e só o contei pelo momento que vivemos. Eu achei que era um bom exemplo dizer que nós não tratamos os doentes por razões, não perguntamos. Eu vou lhe dar um exemplo. Eu falei do transplante porque de facto transplantei esse jovem, que só soube que estava ilegal 15 minutos ou 20 minutos antes de começar a intervenção.
Sabe-se depois se ele teve uma longa vida?
Não, sei que não viveu muito mais tempo, viveu poucos anos, até por razões pessoais. Só o contei por isso, para aqueles que me criticaram. Eu tive uma pergunta verdadeiramente obscena, xenófoba, que foi desse senhor que agora é candidato à presidência, que me disse: "Então e não ficou nenhum doente português ou não morreu por isso?"
Exatamente, a pergunta foi mesmo esta.
E eu expliquei a esse senhor, publicamente, que nunca o facto da nacionalidade deveria ser um critério clínico. Imaginemos que quando surgiu esse fígado para transplantar esse jovem que estava em falência aguda, ou era transplantado ou morria em horas. Nós contactamos outros centros, Porto e Coimbra, há três centros, para saber se há algum doente nas mesmas condições. E se houvesse, eventualmente, um doente, e isso aconteceu muitas vezes na minha vida, mas se houvesse um doente nas mesmas condições, nunca iríamos discutir a nacionalidade, nem a crença política, nem se era rico, se era pobre. Portanto, nunca entraria. Entraria, sim, quem é que precisa mais depressa, quem é que pode esperar mais um tempo, eventualmente, sem ser transplantado. Portanto, nunca seria um critério clínico a nacionalidade, ou a religião, ou outras coisas quaisquer. Portanto, a pergunta é em si mesmo uma pergunta horrível.
Como é que avalia a forma como o país tem debatido nos últimos tempos a questão da imigração?
Eu não sou um político e tenho em relação à imigração a minha qualidade humana. Quer dizer, acho que os imigrantes, nem os escuto na base se são necessários ou não são necessários, isso não me interessa. Para mim, os imigrantes são iguais aos outros como seres humanos. Tratei com certeza muitos imigrantes, operei muitos imigrantes. Houve esse caso, porque eu achei que era um caso paradigmático de como nós não devemos preocupar-nos com aspetos que não são clínicos, mas penso que os temos que saber acolher e que lhes temos que dar condições dignas. Não podemos aceitar que eles entrem e que depois não haja condições para viverem com o mínimo de dignidade. Isso é óbvio.
E quando não conseguimos dar o mínimo, como país?
Mas eu acho que temos que dar o mínimo, se ainda por cima precisamos deles. Eu hoje fiz várias coisas de manhã relacionadas com o Natal, umas compras. Todos os empregados com quem eu falei ou eram brasileiros e mesmo o táxi também era um jovem que me pareceu daquela zona oriental. Portanto, precisamos deles, mas eles são seres humanos, temos que tratá-los com a mesma qualidade que tratamos os cidadãos nacionais.
Mas o certo é que quando fez este transplante há 20 anos, o tema da imigração já se falava.
Talvez fosse um pouquinho mais de 20 anos, não tenho a certeza.
Mas hoje, o tema da imigração, e vê-se isso, se calhar, também pela Assembleia da República e pela forma como este tema é tratado, há uma discussão muito mais inflamada.
Não, mas hoje o tema da imigração é uma arma de arremesso político. Sobretudo, há um partido que faz disto a sua razão de existência. Eu, aliás, costumo dizer esse partido, que é o Chega, não tem ideologia. Eu acho que eles não têm ideologia. Eles têm temas fraturantes, temas difíceis, e vão ao que de mais vil há no profundo de todos nós. Um mínimo sentimento anticigano, antiimigrante. É horrível este cultivar desses sentimentos. Vejo o problema da imigração, neste momento, como uma arma de arremesso político.
Este tempo político que estamos a viver assusta-o de alguma forma?
Não, a mim já não me assusta nada. Porque eu tenho 76 anos, tenho filhos, tenho netos e preocupa-me muito que estas ideias possam ter tanta adesão. Para já custa-me a aceitar que haja tanta adesão. E volto a dizer, não é um problema de ser de direita ou até de extrema-direita, eu acho que eles não sabem sequer o que é a extrema-direita. Eles rebatem sempre nos mesmos temas que lhes dão votos, e infelizmente dão votos. Hoje em dia, fazer aquele tipo de ida por cima, temperado com alguma má educação, até com alguma ordinarice. Por exemplo, aquele deputado que mandou o beijo.
Filipe Melo.
Vice-presidente, eu nem sei o nome. Vice-presidente da Assembleia da República e trata assim uma senhora que ainda por cima era filha de um homem-
Filha do Adriano Moreira
...um homem que foi do regime e que eles, pelo menos, a memória do pai deviam respeitar. Mas é horrível. Portanto, é essa má educação, essa ordinarice, essa falta de qualidade, falta de competência. Eu não imagino o que é que seria um governo liderado por esse partido.
Já tivemos um ministro que fez corninhos na Assembleia da República.
Mas foi diferente.
Eduardo Barroso.
Claro, não foi bonito.
Também não é um gesto muito recomendável.
Não foi um gesto recomendável, ainda por cima porque também tinha uma conotação pessoal muito desagradável. Ele pagou esse preço, porque foi demitido do governo por causa disso.
E depois mais tarde teve problemas com a Justiça.
Sim.
Não por causa desse caso.
Sim.
Obviamente, mas outras coisas relacionadas com corrupção. Vamos falar de si.
Vamos embora.
Porque é para isso que cá está. É um homem de fé, Eduardo Barroso?
Eu acho que sou um homem de fé, mas a minha fé eu não sei temperar isto. Porque eu tenho vários amigos que têm uma fé. O meu maior e mais antigo amigo tem uma fé inabalável.
É o presidente da República.
E mesmo em relação ao fim da vida, eu ando um bocado angustiado, ele não está nada angustiado.
Está a falar do amigo que conserva desde os nove anos, Marcelo Rebelo de Sousa.
Desde os nove anos, não, meu amigo, desde os 16 meses. Nove anos, não.
É quase uma relação umbilical.
Ele tinha 17 meses e eu tinha 16 meses. Eu sou a pessoa viva, neste momento, que o conheço há mais tempo, porque os pais já morreram. Os irmãos quando nasceram, eu já era amigo dele. E, portanto, é uma amizade fraternal, umbilical.
Qual é o prato favorito de Marcelo Rebelo de Sousa?
Ele come bem.
Isto é um teste.
Não, não é um teste. A última vez que jantou em minha casa, foi há pouco tempo, comeu um cabrito. Ele gosta de tudo. E gosta muito de um vinho tinto especial, que eu tento sempre ter em casa, que é o Quinta de Valmeão, que aliás, é um vinho caríssimo. Mas por brincadeira, sempre que eu tenho, lhe telefono a dizer: "Cá, que temos esse vinho para tu beberes."
Muito bem, estamos a falar do presidente da República a partir da pergunta se é um homem de fé e disse há instantes que não sabia temperar a sua fé. Quer dizer o quê? Quer dizer que há momentos em que acredita muito e há momentos em que não acredita nada.
Em relação à vida depois da morte. Eu quero muito acreditar que há qualquer coisa, mas às vezes não tenho essa certeza como ele tem, isso é evidente. Isso representa menos fé? Não sei, se calhar representa.
Têm discussões sobre isso, sobre a questão da fé, sobre um acreditar mais, o outro menos.
Sim, com ele. Nós não falamos de política. E falamos de tudo, falamos da família, falamos da fé. Ele agora diz: "É pá, estás muito deprimido e tal, tens que acabar com essa coisa, tens que gozar a vida, tens que aproveitar." Mas as nossas conversas são muito íntimas.
Não fala de política com o seu amigo Marcelo Rebelo de Sousa, agora que é presidente da República ou nunca falou?
Não, nós nunca discutimos muito política. Eu lembro-me que a primeira coisa política, talvez, que tenha tido com ele, foi quando o meu tio Mário foi deportado para São Tomé. Eu tinha 16 ou 17 anos, e sei que Fui ter com ele, até encontrámo-nos à porta do Liceu Pedro Nunes, porque a família queria aproveitar esse meu conhecimento muito íntimo para saber o que é que se vai passar. E foi ele que me disse que o tio ia para São Tomé. Até me disse que ia para o Príncipe. Na altura pensava-se que não ia para São Tomé, e Príncipe. Mas nunca discutimos, mesmo quando eu fui. Sabe que eu fui esquerdista na minha juventude. E ele foi sempre um homem liberal, social-democrata liberal.
Chocavam muito na adolescência?
Não, não chocávamos. Eu vou te explicar. Ele, na véspera de perder as eleições para a Câmara, foi Marcelo contra Jorge Sampaio, e o número dois era o meu primo João.
80 e 1980?
89. E eu tinha os dois mais antigos amigos comigo, um do lado, outro do outro, e também era amigo íntimo do Jorge Sampaio.
Caramba, ninguém queria estar nesses votos.
Não votei.
Não votou.
Mas nesse jantar, eu vou contar uma história, eu penso que ele não se importa que eu conte essa história. Já contei várias vezes. Eu tinha mudado de casa e quem me vendeu a casa era uma pessoa muito high society, e muito gentilmente essa pessoa deixou-me uns cortinados na sala de jantar, que eram uns cortinados que eu próprio e a Manela, minha mulher, dizíamos: "É, pá, isto são cortinados demasiado pesados." Mas ela gentilmente deixou os cortinados. E eu tinha vindo da África do Sul e ele foi jantar à minha casa, que eu fazia muitas vezes sozinho.
Ele e o Marcelo Rebelo de Sousa.
Ele, o Marcelo, a Manela e eu, só os três. E jantámos, e ele pela primeira vez, eu tinha vindo da África do Sul, onde o João tinha caído do avião, e ele chegou e brincador, a meio ou no fim do jantar, dizia-me assim: "Sabes, Eduardo, acabei de vir dos bairros da Lata", ele tinha estado, penso que era no Casal Ventoso, e tinha lhe feito muita impressão. E até me disse uma coisa que agora já posso, ele já está em final de mandato, eu acho que isto só é coerente com a grande categoria humana e sensível que ele tem. E ele dizia: "Eduardo, tinha estado nas barracas e entrou em muitas barracas e muita coisa, e aquilo é uma miséria total." E ele disse: "Sabes, Eduardo, eu estou a ver que a minha costela liberal, dentro da social-democracia, o nosso país não está preparado para ser liberal. Está ainda muita pobreza, o Estado Social tem que ter mais força do que eu pensava." E depois olhou para os cortinados e disse: "Olha, isto é curioso. Tu estás a ver, tu és de esquerda. Olha para isto, pareces um burguês. Eu estou a ir lentamente da direita para a esquerda. E tu estás a ir da esquerda para a direita, qualquer dia cruzamo-nos."
E cruzaram-se?
Não nos cruzamos. Sabe que eu não sou o esquerdista do tempo do MES. Aliás, é engraçado, porque veja bem, a coerência política que eu tenho não era nenhuma, porque eu e o Daniel Sampaio, quando foi a seguir ao 25 de Abril, fomos os dois a pé, oferecendo-nos para ser militantes do PS, porque achávamos que queríamos participar ativamente e fomos ao PS.
E identificavam-se com o PS na altura?
Não, não sei se identificava, a gente queria era participar e achava que só estando num partido é que era importante. E fomos os dois. O Daniel também não se vai importar que eu diga, os dois fomos ali a uma cooperativa que havia do PS na Defensores de Chaves. E quem nos recebeu até foi o Pedro Coelho, coitado, já morreu também, e disse: "Não, a gente não está interessada em que vocês sejam militantes do PS."
Recusaram?
Recusaram. E sabe o que a gente fez? Fomos ao MES e inscrevemo-nos. Veja bem, mas isto é inteiramente verdade. Porque a gente queria era participar, tinha que estar integrado.
Isso foi em que ano?
Isto foi em 84.
Como é que recorda esses tempos de militância mais juvenil?
A militância sempre foi do grupo de saúde. Esta também não vai gostar, mas vocês estão aqui para ouvir umas histórias que ninguém mais sabe.
Claro, é para falar sobre si.
Sabe que o MES era um partido em que para ser candidato à Constituinte, as estruturas é que elegiam. E a estrutura de saúde elegeu-me a mim para ser o candidato.
À Constituinte.
Sabe o que me aconteceu? Fui chamado aos diretores. O meu amigo Ferro Rodrigues vai ficar furioso de eu contar isto em público. E então fui chamado e era o Ferro Rodrigues, o Eduardo Graça e o Mateus, o Augusto Mateus, os três. Era a cúpula, na altura já tinha saído o Jorge Sampaio e aquele grupo que depois foi para o PS. E sabe o que eles me disseram? Que eu não podia ser candidato porque era sobrinho do Mário Soares. Acabou a minha militância. Mas isto é inteiramente verdade, ele ficava sempre furioso. "Tu inventaste essa história." Não inventei nada dessa história. E sabe quem é que foi em meu lugar? Foi o José Gameiro. O José Gameiro, que já aqui esteve, não sei se foi contigo.
Já esteve cá no "Em 40 Minutos".
José Gameiro é meu colega de curso e também um dos amigos mais íntimos que eu tenho. E então, como eles não me deixaram, foi ele. E sabe o que me aconteceu? Eu tive que substituí-lo. Ele fazia uns bancos de medicina em Torres Novas, lá fui eu para Torres Novas e ele foi ser candidato a deputado.
Muito bem. Então, deixe-me lá resumir isto. Teve uma militância muito tosca na política.
Não, a militância foi só na área da saúde, era o grupo da saúde do MES.
Depois disso, nunca mais foi militante de nenhum partido.
Nunca mais fui militante de coisa nenhuma. Estava em Cambridge quando o PS perdeu as eleições para o FSP, não, quando foi o partido que surgiu.
O PRD?
O PRD.
Promovido pelo general Santos.
Eu estava em Cambridge, estava emigrado em Cambridge com a minha mulher e os filhos. E generosamente, nessa altura, disse ao meu tio Mário E ao meu primo Alfredo, que queria ser militante do PS. E ainda recebi a proposta de militância assinada pelo Alfredo Barroso, meu primo, e pelo meu tio, mas nunca a entreguei. Eu não tenho feito para ser militante, sou muito indisciplinado.
E faz bem. Mas sentiu o chamamento, o que o levou a querer ser militante do PS?
Senti, porque o PS tinha tido uma grande derrota e eu achei que podia ser interessante militar em um partido que não estava ao de cima. Mas agora não me ocorre, agora aos 76 anos. Na altura, eu tinha 34. E acabei por não entregar. Hoje em dia, o PS está a passar por a segunda crise maior, ou semelhante a essa. Vocês não eram vivos, ou eram muito jovens, ou você é muito jovem. E eu não existia, mas eu estou a ver as caras, os ouvintes não estão a ver as caras. Mas hoje em dia, não tenho nenhum apelo pra militância. Aliás, eu gosto de ser independente, pensar pela minha cabeça e por isso agora estou também a apoiar. Eu fui sempre um fiel eleitor do PS. Se calhar, até fiel demais. Mas agora achei que era importante apoiar Luís Marques Mendes, porque eu acho que isso não está para brincadeiras.
Muito bem, falaremos disso na segunda parte.
Com certeza, falemos quando vocês quiserem.
No "Bem 40 Minutos" desta semana estamos na conversa, João, com Eduardo Barroso. Até já.
Muito obrigado.
Segunda parte do "Bem 40 Minutos", esta semana estamos com Eduardo Barroso aqui na Rádio Observador. João Miguel Santos, a conversa começou a se encaminhar para um tema que vamos estar a falar até janeiro. É verdade. Presidenciais 2026. O Eduardo Barroso já fez questão de dizer que apoia Luís Marques Mendes, apesar de ter estado sempre muito ligado ao PS e de apoiar o PS.
Eleitor do PS. Eleitor fiel, se calhar um bocadinho fiel demais.
Em que momento é que sentiu que tinha levado a sua fidelidade longe demais, Eduardo Barroso?
Se quer saber, depois destes oito anos do governo PS. Porque neste momento as minhas convicções e o sentido do meu voto tem a ver, sobretudo, com o que se passa na saúde e no SNS. E acho que ao fim de oito anos do PS estar com a pasta da saúde e eu ter sido muito amigo de ministros da Saúde do PS, sempre achei que não houve ali coragem política de fazer reformas que eram fundamentais. E custa muito que não as tenham feito. Por exemplo, eu sei que uma das minhas ideias, que é há 30 anos, e sei isso, e também vou dizer isso, que os jovens especialistas formados no SNS deviam obrigatoriamente, à semelhança dos pilotos da aviação, ficar não 12 anos, como os pilotos são obrigados a ficar, mas dois anos, ainda tutelados nos hospitais públicos, com dupla vantagem. Vantagem, obviamente, porque são força de trabalho, para trabalhar, e porque estes jovens especialistas, que eu também fui, tinham ainda o benefício de ser tutelados nos primeiros anos. Não era logo independente. Foi muito bom pra mim. Eu fui cirurgião dos hospitais aos 30 anos, ninguém era, só houve dois no país inteiro, o João Gira e eu. E eu não estava capacitado pra fazer tudo. Especialista, fui o segundo classificado num concurso com 84 candidatos. Mas fez muito bem que o meu chefe, o doutor Rui Câmara Pestana, que continuasse a dizer: "Eduardo, ainda não estás preparado pra esta operação".
Portanto, na geringonça sentiu que-
Não, e portanto, isso era decisivo. E sei que a ministra que substituiu, que foi a seguir ao António Correia de Campos, casada com um colega meu de curso na altura. Como é que se chama a ministra que depois foi pra-
Ana Jorge?
Ana Jorge. Eu sei que ela levou ao Conselho de Ministros esta medida. E o governo PS não aceitou, porque tem medo de perder votos. Esta reforma é uma reforma que devia ser obrigatória, é um sentido cívico e ético. Nós fomos estudantes de uma universidade pública, onde pagamos uma tota e meia. Depois fizemos a formação, seis anos, nos hospitais civis, ou nos hospitais que tínhamos que fazer, e depois acabamos a coisa, ainda por cima pagos. Pode-se dizer: "Ah, mas mal pagos." Está bem, eu sei que, se calhar, gostaria também de ganhar mais. E depois, ao fim dessa formatura, vem um privado qualquer.
Mas não acontece isso também com todas as outras profissões, Eduardo Barroso?
Não, você está confundindo. Eu não estou a dizer.
Eu estou a perguntar.
Não, eu vou te explicar. Um advogado, um arquiteto, um médico, quando se forma, formatura, sim, senhores, aí estão em pé de igualdade. Na minha opinião, não estou em pé de igualdade quando o médico decide: "Não, vou fazer uma especialidade, estou mais seis anos", ou sete, no meu caso. Aí é diferente. Aliás, está a acontecer agora, que é horrível pensar que jovens médicos acabados de formar, que se fazem o internato geral e depois se podem inscrever na ordem, neste momento estão a abdicar de carreiras e de se especializarem para escolherem ser tarefeiros. Isto é que é horrível, está a perceber? Nessa fase é que nós estamos iguais aos advogados, aos arquitetos. Na fase de especialistas Temos mais de seis anos a agradecer a formação que nos deram. Eu sei que trabalhámos muito, fomos força de trabalho, aprendemos. Depois disso, eu acho que era um dever cívico, um dever de solidariedade mínima ficarmos mais dois anos, sem ser em exclusividade. Não era obrigatório: "Não, se ficares aqui, é só aqui." Não, vá fazer outras coisas, mas tem que estar dois anos.
Muito bem. Portanto, arrependeu-se nessa altura de ter votado-
Ana Jorge fez esta proposta em Conselho de Ministro e não foi aprovado.
Não foi aprovado.
Como agora também eu dei este conselho ao Pedro Nuno Santos. Ele chegou a falar nisso, aliás, teve tantas reações. Até houve um ministro, meu amigo, ex-ministro do PS, que disse que isto era uma medida stalinista. Estar no governo e fazer reformas é fazer algo. Eu tenho a certeza que se houvesse um referendo nacional, eu não estou de acordo com os referendos, mas quando eu digo referendo, é uma consulta nacional a dizer: "Acha que os especialistas formados no SNS deviam obrigatoriamente estar dois anos, mesmo podendo fazer outras coisas, e só depois é que pudessem emigrar, e só depois é que pudessem ir para a privada em exclusividade?" Até porque eu sei que privada em exclusividade é um risco para os cidadãos. Eu não quero que os pobres sejam preteridos, mas também não quero que os ricos, ou os que têm dinheiro e não é ricos, possam também ser prejudicados. Um jovem especialista dizia, um grande cirurgião português, que era um homem de direita, com quem eu não falei durante anos, mas que acabámos a vida, acabei a jantar em casa dele. Mas era um homem de direita que dizia com graça que os cirurgiões são como os touros, só são perigosos isolados. Porque nós somos muito perigosos isolados. Decidir pela nossa cabeça sozinhos, sem caldearmos as nossas opiniões clínicas.
Pois.
Aliás, eu devo vos dizer uma coisa: quando eu comecei, eu fui um dos pioneiros a fazer medicina multidisciplinar nos hospitais, criar um centro de referência, que é outra coisa que ninguém sabe o que é, mas que é fundamental, do Hospital Duque de Cabral, que é um dos maiores centros europeus e até mundiais nesta altura, porque quem me substituiu deu o salto da Europa para o mundo. E eu quando comecei aquelas coisas multidisciplinares, nós tínhamos tudo na mesma sala, horas e horas. Por isso é que isto não é rentável no privado, que isto ninguém paga. A discutir cada doente. Nenhum doente era operado sem ser discutido. E no começo, eu criei este centro em 5 de fevereiro de 2005, veja lá, há 20 anos. Claro que eu não falava logo no início, porque a minha opinião era praticamente 99,99999. Ninguém contestava a minha opinião. E uma das coisas curiosas, quando eu perto já de me reformar e que eu chegava a casa e dizia para a minha mulher: "Já não sou preciso para nada", porque já havia a contestação e muitas vezes temos aí uma pessoa muito importante da nossa sociedade, que tinha um tumor do pâncreas, que eu achava que ainda não era a altura de intervencionar. E na discussão, chegamos à conclusão que eu estava minoritário. E esse doente acabou por ser operado mais cedo do que aquilo que eu pensava, mas tudo cientificamente provado e clinicamente provado.
Muito bem.
Não, e ele está hoje vivo e vive porque foi operado a tempo, porque ele tinha, de facto, uma lesão que era um cancro do pâncreas. Isto é magnífico ter acontecido. Isto só prova que eles cresceram e que aquilo, de facto, é a única maneira de se poder exercer a medicina, esta atividade multidisciplinar. Isso é que eu digo, estes tarefeiros que são isolados, e neste momento até já há tarefeiros que são profissionais.
Sim.
Se eu fosse a senhora ministra, eu nunca teria recebido os tarefeiros. Acho que aquilo não faz sentido. Aliás, tive um pesadelo aqui há dois ou três dias, que era o seguinte: imagine que todos os especialistas do SNS decidem demitir-se no dia 1 de janeiro de 2026. Demitir-se, saírem todos da função pública. Terem sido todos contratados como tarefeiros. Já viu?
Pois.
De repente, isto era uma greve selvagem que levava a uma tragédia do SNS.
Teríamos outro país. Com certeza, já terá tomado ao longo da sua vida profissional, decisões difíceis. Arrependeu-se de alguma, Eduardo Barroso?
Devo ter arrependido de muitas. Porque eu falo muito. Não é só agora que vocês deram a oportunidade de estar aqui 40 minutos, falar com vocês, mas eu sempre falei muito.
Falava durante as intervenções cirúrgicas?
Não, isso falava. Falava e aí cuidado.
Cuidado por quê?
Às vezes, um transplante a correr bem, ao fim de cinco horas, já justifica uma anota, uma pequena anota.
Claro. Isso não foram às vezes para mais cinco minutos. E tinha uma sempre na algibeira para desbloquear a tensão?
Não, tinha que ser. O meu anestesista, que era um anestesista fabuloso, era e é.
Sim.
Fabuloso. Quando percebia que as coisas estavam a correr bem, tinha muita graça, levava uma revista que era a Maria. Ainda existe, não é?
Sim.
E lia alguns Consultórios da Maria. Mas isso é só em alturas de grande relaxamento, quando as coisas já estavam bem. Mas, às vezes, havia quem pensasse que as coisas estavam a correr bem, eu ainda não estava convencido e muitas vezes disse: "Epá, silêncio total". Está a ver o que está a fazer? Começar o primeiro transplante em Portugal, porque fomos nós que fizemos, não foi Coimbra nem o Porto. Fomos nós que fizemos o primeiro transplante em 22 de setembro de 1992.
Acho graça a Deus.
Num dia, com o primeiro doente cirrótico, já tinha hoje feito outro. Num dia de um Sporting e Benfica, imagina o que isto foi para mim. E depois de estarmos com aquilo tudo, a tensão era brutal. O meu chefe que me ajudou nessa intervenção, porque ele disse: "Eduardo, faz você e eu ajudo". Era um homem encantador Fez aquilo que eu depois também fiz. Quer dizer, deu oportunidade aos mais novos. Combinamos e ele disse: "Não, Eduardo, é você que faz". Eu tinha 20 câmaras, portanto estava com muita preparação técnica pra aquilo, e ele já tinha os seus 60 e poucos anos. E entra o enfermeiro a dizer: "Sr. Toro, o Sporting já está a ganhar 1 x 0, gol do Balakov". Eu disse: "Está uma tensão brutal". Eu parecia um atrasado mental. Tive que passar a mão pro Eduardo: "Calminha". Mas eu ainda não disse, era o enfermeiro Malta, meu querido enfermeiro Malta. Passado 12 minutos, ele entra com o transistor e vai mostrar o segundo gol, que era do Czerniakow. Eu aí tive que dizer: "Ó Malta, por amor de Deus, vamos concentrar-nos nisto". Mas ele não fez aquilo por mal, fez aquilo porque sabia que aquilo a mim era agradável, mas na altura eu estava nas tintas pro Sporting. Mas teve graça, e se não tem acontecido este episódio, eu também já nunca falava dele.
Muito bem. Portanto, não o atormenta nenhuma decisão do passado. Deixamos ontem só aqui-
Não, atormenta. Sabe o que nós tomamos às vezes decisões. Sabe o que é estar o pai, a mãe e um filho de 17 anos, os três internados, a morrer, e nós só termos um fígado para esses três? Imagina a discussão que foi, saber se devíamos transplantar o filho, que tinha 17 anos, a mãe, que tinha outros filhos e que ia ficar a família destroçada, ou o pai, que era o sustentáculo da família. Os três com o mesmo tipo de indicação, a precisarem do fígado pra sobreviver. Já viu o que é tomar estas decisões? Eu tive na mão a morte. Aliás, aconteceu, porque só um é que sobreviveu.
Isso é fazer de Deus, não é? Quase.
É, isso pesou-me muito na consciência. Nem lhe vou dizer quem é que nós transplantámos primeiro.
Não diga.
Não, não lhe vou dizer. Felizmente, depois até um dos doentes mandámos pro Porto e acabou por não haver um fígado a tempo. Mas isso são decisões horríveis que a gente tem que tomar e que se tem que tomar. Imagine que era um pai inglês, o filho sueco e outro português. Nunca, por ser português, passava à frente de qualquer outro, eram sempre critérios clínicos. E aqui não foi só clínico, aqui foi uma discussão importantíssima.
Imagino. Falou há pouco do futebol, é um grande apaixonado.
Não, eu sou sócio 190.
Tem aqui um livro.
Sou sócio.
Capa verde.
Sim.
Que diz muito também do seu coração, que é pintado de verde, não é?
Sim, eu sou o sócio 190.
Do Sporting.
Sou sócio há 76 anos, não tive mérito nenhum nisso. Porque quando se é sócio, quando se nasce, a culpa foi do meu pai.
Exato.
O meu pai que era médico e era grande sportinguista. Portanto, não tenho nenhum mérito nisso. Mas o que é certo é que tenho 76 anos de sócio, recebi o ano passado o emblema dos 75. E fui presidente da Assembleia Geral, como sabe.
Muita gente o conhece por essa paixão acérrima que tem pelo Sporting.
Como sabe, eu também fiz parte daqueles programas iniciais do futebol. Terei estado lá tempo a mais.
Por que diz isso?
Porque eu hoje vejo alguns programas e tenho vergonha. Vergonha daquilo. Aquilo é intelectualmente indigente, alguns programas.
Mas na altura sentia isso quando estava a participar?
Não, o que eu às vezes penso é: será que fui eu um dos precursores desta tampa? Porque alguns programas são uma vergonha. Estão sempre a dizer mal do futebol português, estão sempre a dizer: "O futebol português é uma vergonha". Eles não percebem que são eles a razão da vergonha. E depois, enfim, uns nem sabem falar, não articulam bem os raciocínios, não sabem os termos sequer que utiliza e são horas, e horas, daquilo. E eu às vezes digo: "Eduardo, foste o culpado, porque estiveste nisto e iniciaste isso ainda em canal aberto na SIC". Chamava-se na altura "Os Donos da Bola". Claro que isso me deu muito protagonismo e muita notoriedade.
Convivia bem com isso, na altura?
É engraçadíssimo, porque um dos meus grandes mestres, o maior cirurgião de fígado do mundo, é um grande amigo meu, tem 92 anos e é como se fosse meu pai. E uma das primeiras vezes que veio a Portugal, ele gostava muito que eu o levasse: "Eduardo, leva-me a jantar, mas não me leves a restaurantes". Gostava de ir a sítios mais típicos e que não fossem turísticos. E eu levei-o. Ele ia a mulher, ia com a Manela, e parámos, ainda se podia estacionar no Largo da Misericórdia, passei e fomos a pé pelo Bairro Alto até ao Papa-Sorda, também posso dizer que era na altura o Bairro Alto. E aquilo foi um escândalo, porque foi o auge dos donos da bola. De maneira que saíam dos restaurantes, vinham me oferecer imperiais, pedir autógrafos, tirar fotografias. E o Henry Bismut, chamava-se Bismut: "Sr. Toro, eu opero-os a todos". Dizia eu: "Opero-os a todos, sou muito conhecido". Ele estava verdadeiramente impressionado com a minha popularidade. Não sabia nada disso, das segundas-feiras no futebol. Quando chegámos ao restaurante, entrámos no Papa-Sorda, nessa altura eram dois ministros que estavam lá, uma grande intimidade. "Ó Sr. Toro, opero-os a todos, sou muito conhecido". E depois, a meio do jantar, disse: "Ó professor Bismut, vamos ver se a gente se entende. Nada disto é por causa da minha profissão, é porque eu apareço às segundas-feiras a fazer de futebol".
Acha que nessa experiência colecionou mais amigos ou inimigos?
Não sei. Inimigos, claro. Eu abandonei, aliás, um programa indireto. Porque aquilo já era de uma indignidade total. Olhe, era alguém que dialogava como o André Ventura dialoga com os políticos. Aquilo é insuportável. Eu era incapaz de aguentar um debate daqueles, porque às tantas estava a fazer o mesmo, que é péssimo. E, portanto, tive que abandonar um dos debates porque eu disse: "O senhor não tem qualidade humana para eu estar aqui a falar consigo."
Eduardo Barroso, acha que se futebolizou a política em Portugal?
Sim, não tenho a mínima dúvida. Isto é um exemplo. De facto, outro dia, penso que foi o Mourinho que disse: "Já há 23 horas e meia de programa desportivo." Foi bem escolhido aquilo, porque aquilo é um exagero. Há dois canais de televisão em que os comentadores saltam de um canal para outro, já nem mudam a camisa nem o casaco, e a dizer as mesmas coisas. Eu às vezes vou só ver para saber como é que é a lata daquilo. E ainda por cima, sempre a dizer: "A nossa casa", eles depois autoprotegem-se: "A nossa casa é que é fantástica, somos livres e falamos". Não são nada livres, porque agora eram debates em que o Ronaldo era tratado como um cão, até atirou uma vez um microfone para o lago, vocês lembram-se?
Isso sim.
Ele comprou 30% daquilo, agora não é só isso, agora é o máximo. A reportagem que aliás o Ricardo Araújo Pereira aproveitou para mostrar. Lá de uma jornalista que eu nem digo o nome, porque acho que ela é completamente insuportável. A falar da ida do Ronaldo à Casa Branca. Eu tive vergonha.
Já agora diga-me uma coisa, o que achou da visita de Cristiano Ronaldo à Casa Branca?
Eu achei que ele não devia ter ido, mas é um problema pessoal dele. Agora achei que não devemos fazer isso. A mim envergonhou-me. Mas ele está no seu direito.
Como português?
E depois quem é o Ronaldo? O Ronaldo é um grande futebolista, dá uns pontapés na bola, e que pontapés! É um jogador fantástico, eu o vi vestir o Sporting muito novinho, que adoro como jogador. Agora, paremos aí. Ele quis ir, vai lá com o príncipe, com o assassino do príncipe. Mas não se justifica dizer que aquilo é uma coisa muito importante para Portugal. Não é nada, nem importante, nem deixa de ser.
Falando aqui ainda de futebol. Tivemos agora uma conquista muito recente dos sub-17, uma nova geração de ouro, pode-se chamar assim. Como é que olha também para o futuro da seleção nacional, falando aqui de um tema mais comum a todos?
O futebol é um desporto muito simples de jogar. Eu fui um grande jogador.
Qual era a sua posição? Estou a ver esta vaidade agora.
Ponta de lança. Tive dois convites para ser profissional. Um do Oriental, na altura, que estava na primeira divisão, e outro da Académica.
E por que não foi?
Não fui porque o meu pai não deixou. Eu queria muito ser futebolista também. E ele cobriu a oferta que me dava a Académica e disse, eu estava no terceiro ano da faculdade, ele disse: "Eu conheço".
Mas desculpe, na altura representava algum clube?
Não. Faculdade de Medicina.
Era jogador da equipe de futebol da Faculdade de Medicina?
Sim. A seleção universitária ia para ir aos Mundiais na Jugoslávia, e depois o Marcelo Caetano não deixou ir. Não percebo porquê, nunca se percebeu. A seleção universitária fez o distrital da primeira divisão de Lisboa para rodar. Fizemos. Aliás, ficamos em segundo lugar. Fizemos a rodar. E foi aí que eu tenho uma história. A seleção jogou contra o México, num dia em que havia um jogo de Portugal particular. Não, Portugal-México. E antes do Portugal-México, no Jamor, houve entre a seleção de juniores e a seleção universitária, mais para rodar. Na altura ainda pensávamos que íamos ao Mundial Universitário. Quem é que treinava a seleção de juniores? O José Maria Pedroto. Era o selecionador nacional desse jogo. Sabe o que ele me disse no fim? "Ó menino, queres jogar futebol a sério?" Mesmo o Pedroto, no fim desse jogo, me disse: "Ó menino, queres jogar futebol a sério?" Eu conto isto, a história, eu sou amigo da filha dele, que é gastroenterologista no Porto, e ela já sabe essa história, já ouviu várias vezes. E o Fernando Peres, que era um grande jogador, que já morreu também há pouco tempo e que era grande jogador, foi da Académica, foi do Sporting, do Vastagame. A seleção de medicina, a equipe tinha os treinadores que eram ex-jogadores. Portanto, ele ainda era jogador ou ex-jogador e era o treinador. E ele dizia-me: "Barroso, Barrosozinho, tens o maior pique do futebol português." Não sei se aquilo era verdade, o arranque.
Portanto, deixe-me lá resumir. Eduardo Barroso, quase militante do PS.
Quase futebolista profissional.
Quase deputado à Constituinte pelo MERS.
Exatamente. Tem toda a razão.
Quase craque do futebol português. Marcava muitos gols de pé e de cabeça.
Não, eu era muito veloz.
De toda maneira, era muito veloz.
Pois vá lá que eu também joguei rugby.
Eu também!
Mas no rugby, enquanto no futebol eu era dos melhores que havia, comparado com aquele nível. No rugby, não. No rugby era o Lins, era o Tibério Antunes, era o Didi Aguiar, que eram jogadores, até internacionais portugueses, que jogavam em medicina, porque medicina jogou na primeira divisão. Eu aí era um jogador médio. Jogava três quartos de ponta, porque na altura jogava-se muito à mão. Eu hoje vejo o rugby, não é nada o rugby desse meu tempo. O rugby desse meu tempo, o ideal era fazer aquelas coisas que a bola chegava ao ponta e o ponta corria desalmadamente. E eu fazia 11 3 aos 100 metros. Foi por isso que eu também joguei rugby, mas no rugby era um jogador mediano.
Está a pouco tempo de completar 77 anos. Peço desculpa estarmos aqui a revelar a sua idade. O que é que ainda o fascina ou motiva? Eu fiquei com essa frase na cabeça, quando disse que o professor Marcelo não gostava de o ver deprimido.
Porque eu tenho muita pena de estar no fim da vida. Eu já tive um infarto e outra lesão grave. Já tenho quatro stents aqui. Sabe o que é um stent? Nas coronárias. Duas lesões malignas tratadas e recuperadas. O meu bisavô morreu de infarto do miocárdio, o meu avô morreu de infarto do miocárdio, o meu pai morreu de infarto do miocárdio, um irmão meu já morreu de um infarto, eu já tive um infarto. Portanto, a minha carga genética é brutal. Se eu agora desse um badagaio e acabasse com um enfarte fulminante, o Paulo de Castro subia logo nas audiências.
Era pico de audiência, isso é verdade.
Era o pico de audiências. Mas isto é pra dizer que eu tenho pena de estar no fim da vida. Genuinamente pena de estar no fim da vida. E tenho dois grandes amigos psiquiatras, daqueles amigos de luxo, porque eu classifico os amigos de luxo, de primeira, segunda. Por exemplo, eu agora estou aqui com vocês, os Joões. Eu vou dizer: "É, pá, o João, eu sou muito amigo dele." Não sou nada amigo. Quer dizer, conheci-vos hoje pessoalmente, sou o vosso conhecido de primeira, porque estive com vocês 40 minutos. Se vamos ficar amigos, a vida nos dirá, que se a gente se aproxima. Eu classifico os amigos. E estes dois meus amigos psiquiatras são amigos de luxo. Tenho o amigo de luxo principal, mais antigo, é o Marcelo, e vou pôr aqui a família. E depois eu tenho 20 ou 30 amigos dentro de luxo de primeira, porque eu classifico amigos de luxo, de primeira, de segunda, conhecidos de primeira, conhecidos de segunda.
Vou começar a adotar isso também.
E diferentes inimigos. É assim que eu classifico. Diferentes inimigos.
Onde é que coloca mais gente nessa escala?
Onde é que coloco mais gente?
Hoje.
Amigos de luxo tenho poucos, contam-se pelos dedos das mãos. Com certeza, amigos de primeira, vão subindo. Não tem só a ver com a antiguidade. Não é a antiguidade que me leva a dizer que o Marcelo, que é o mais antigo, é mais amigo que o Daniel Sampaio, que é só desde os 17 anos. Mas de qualquer maneira, sou padrinho de casamento do Daniel. Isto era pra dizer que o Daniel, que é psiquiatra, como vocês sabem, e o José Gameiro, que é psiquiatra, não me ligam nenhuma com esta coisa, porque eles também, no fundo, não são muito confortáveis com a idade que têm. A vida é isto. A vida é uma doença crônica, sexualmente transmitida, com prognóstico invariavelmente fatal. Portanto, a única coisa que a gente sabe quando nasce é que quando nasce a gente nem pensa na morte, mas quando começa a racionar um bocadinho, a gente sabe que isto tem um fim. Isso irrita-me um bocado. Mas não é tanto por mim, tenho pena de não ver os meus netos, não sei se vou ver algum bisneto. Tenho até pena, veja lá o que é ridículo, do desgosto que vou dar durante dois meses ou três, aos meus filhos e aos meus netos, porque depois a vida é assim. Eu também me lembro vagamente da minha mãe e do meu pai e da importância que eles tiveram, tenho saudades. Mas a maior parte do tempo eu só me lembro deles ao fim do dia ou no dia em que fazem anos. Não estou todos os dias a pensar, mas no começo pensava todos os dias. Portanto, esta ideia da finitude da vida é uma coisa que me preocupa e por isso é que eu digo que tenho pena. Tenho pena da situação onde estamos, tenho pena que possa acontecer pessoas sem qualidade humana, que são mal-educadas.
É o que mais o inquieta?
É, inquieta muito, como é que há 1 milhão e 200 ou 300 mil portugueses, com certeza nem todos são uns grunhos, que podem aprovar aquilo, mas é um facto.
Não será culpa de todos os outros?
Não é culpa de nada. Há uma culpa mínima, que é culpa de nós sermos um país que não é muito culto. As pessoas reagem muito a estímulos primários. Por isso é que dizer: "Os ciganos são bandidos." Eu ainda sou do tempo de uma anedota que a gente contava: "Um olho no burro, outro no cigano." Veja bem, isto é uma história tradicional portuguesa. Era uma brincadeira, que hoje em dia ninguém se atreve a contar em público, e muito bem. Mas aquilo dizia-se com alguma à vontade. Apoiar-se para dizer que toda uma etnia. Bem, vocês não imaginam o que era operar uma pessoa da etnia cigana no meu hospital. E chegaram de manhã e estava aqueles acampamentos deles cá fora. Algumas pessoas tinham algum receio. Eu nunca tive receio, falava com eles, explicava tudo, às vezes até lembro-me de pedir pra não estarem ali, dizia: "Vocês percebam o vosso familiar." Mas se aquilo corresse mal, se não houvesse esta empatia, podia haver alguns problemas, porque é cultural, é assim. Isso até me fez chegar mais perto, eu simpatizo muito com essa etnia. Mas claro que há ali um fundo pra haver esse tipo de ditado popular. É porque havia, de facto, cá no íntimo de todos nós, é genético. É ali um bocadinho, educa-se isso. Eu hoje se contasse essa história, esse ditado popular aos meus netos mais velhos. Tenho netos com 22. Eles caíam-me em cima, só não batiam porque era o avô e porque gostam muito de mim, quer dizer, faz sentido. Mesmo algumas anedotas que a gente contava sobre raça negra. Por que tem que ser raça negra? Sobre pretos. Hoje em dia não se tem o mesmo cuidado, porque há ali sempre uma base de racismo inerente até à maneira como se falava.
Todos nós somos racistas, não é? Não acha isso?
Não, os meus netos provocam muito, porque dizem: "Ô avô." Mas não é só isso. Não, essa história eu não posso contar. Teria eu que vos contar outra história também sobre o que não devo estar aqui a falar.
Muito bem. Eduardo Arrudo, foi uma bela viagem pelas suas memórias, por aquilo que nos contou e partilhou aqui. Ainda há muito pra viver. Aproveite, está bem?
Não, vamos ver. Eu continuo a fumar, que é uma coisa que não se deve fazer, que eu recomendo a toda a gente que não fume. Tive uma vez, não imagina o que é que foi. Uma vez eu fui a um programa do Herman José, na altura que estava aí no auge da popularidade. Os transplantes, mais o futebol, e não sei o quê. E o Herman, que fez o favor de me convidar várias vezes, e com quem eu simpatizo muito e acho que é um gênio. fosse candidato à Presidência da República tinha 10% ou 12%. Não limpava, mas tinha mais votos de quatro, pelo menos, dos candidatos. Eu próprio, se me candidatasse à Presidência da República, e com isto tremento vocês, eu tive muitas pressões para me candidatar, não imagina.
À Presidência da República?
Sim, entre brincadeira e coisas a sério, até instituições de doentes que disseram: "Sr. Professor, nós apoiamos." E eu sempre dizia: "Como é que eu posso ser candidato à Presidência da República se eu não votava em mim?" Eu não votava em mim. E por isso é que eu também quero aproveitar esta oportunidade que vocês me dão. Eu não tenho nada contra o senhor almirante, mas eu acho que o senhor almirante é tão preparado para ser presidente da República como eu seria. Pessoas que tiveram uma profissão absorvente, que se dedicaram à profissão, que tiveram que estar fora de outro tipo de estudos, está a ver? De outro tipo de cultura. Eu não tenho cultura política, não tenho cultura económica, até cultura geral. Eu agora estou a recuperar muito. Eu não tive tempo para ler e para ver cinema como eu queria ter visto e para ler, para ver exposições de pintura. Portanto, a mí faltava-me tudo para ser candidato. Só tinha uma coisa, era alguma empatia. Vocês convidavam para vir fazer uns programas, eu ia à televisão. Aquilo dava ali 12% ou 13%.
Reconhece que Luís Marques Mendes tem esse mundo que é preciso para ser presidente da República?
Eu reconheço que, de facto, Luís Marques Mendes tem, e eu sou insuspeito, mas tem a competência. As competências. Eu não tenho intimidade com este presidente, como tive com o atual. Mas tive outros, Jorge Sampaio, que tratei por tu o fim da vida e o meu tio. Portanto, conheço, com este não tenho essa intimidade. Só temos uma coisa fora da instituição, foi termos ido uma vez, eu acho que ele não se vai importar que eu conte isso, fomos ver uma vez um Real Madrid Barcelona no tempo do Mourinho. Está a ver? Arranjei bilhetes.
Sim.
Não, cada um pagou o seu. Mas arranjei os bilhetes, que era dificílimo. E foi uma ida, fomos a Madrid.
Ver o El Clássico.
Ver o Clássico. Foi o Marcelo, foi o Marques Mendes, fui eu e os meus filhos. Foi muito engraçado. Mas, portanto, não tenho intimidade, mas eu conheço-o bem. Foram 12 anos, ou 10 ou 11, com comentários da televisão. Muitos com eles concordei ou não concordei, não me interessava, mas eu gostava de o ouvir. Conheci-o, acho que ele é um homem culto, é um homem educado, é um homem que sabe fazer pontes e depois tem uma experiência que nós não podemos menosprezar neste momento. Quer dizer, é um homem que sabe como é que se deve lidar com o governo, que sabe como é que se fazem orçamentos do Estado, que sabe como é que se dialoga com a Assembleia. E agora já nem falo no outro que só concorre para a primeira volta. Sinto com certeza absoluta que o doutor André Ventura não tem nenhuma hipótese de ser presidente da República. Isso para mim, eu emigrava, mesmo aos 76 anos. Mas não é isso que está em questão. Mas para aqueles que podem ser, que são três, eu acho que a gente não pode arriscar. Pessoas fazem agora um curso intensivo para poderem provar que são candidatos à Presidência da República. Porque eu também teria que fazer o mesmo, teria que ter uns gajos: "Se te perguntarem isto, dizes isto. Se perguntarem isto, dizes aquilo." E portanto, quem vai ser presidente, no caso de alguém como o almirante, que eu acho um homem respeitável. Eu só estou a dizer uma coisa: "Eu não posso votar em si pela mesma razão que não votaria em mim, que tinha tanto direito de ser candidato como ele." A minha cultura, a minha formação, eu não estava preparado. O senhor também não está preparado. Por isso é que tem esses apoios transversais todos, desde a direita à esquerda, uma trapalhice que ninguém se entende, até amigos meus. Eu nem digo o que é que eles me disseram antes dele. Mas que estão a apoiá-lo por quê? É uma caixa de Pandora.
Tem de ir jantar com eles para discutir essa parte.
Muito respeitável as razões, é um elogio que eu lhe estou a fazer. Só se eu tivesse sido um almirante de terceira é que podia estar preparado para ser um presidente de primeira. Está a ver? Como ele foi um grande almirante e um homem que se associou aos submarinos, carregar nos botões, aquilo deve ser difícil de fazer por baixo de tanta coisa. E depois fez as vacinas. Fez aquilo muito bem, das vacinas, mas eu hoje fui almoçar ali ao Corte Inglês. A mim o responsável do supermercado do Corte Inglês é um homem que sabe fazer aquela gestão daquilo tudo. Já viu? Sempre ali a carninha, as coisas todas nas prateleiras, tudo a fazer. Portanto, foi fantástico aquela das vacinações, mas, sinceramente, não acho que isso seja. Não é curto, é até insultuoso dizer que isso é que é o currículo mínimo.
Eduardo Barroso, foi um gosto. Ficamos por aqui.
Muito bem. Eu é que agradeço ao João e ao João, que só trouxe um livro porque não sabia que eram dois, pensei que era só um.
Nós dividimos, não há problema.
Mas vocês gostavam que lesse, sobretudo, o que eu penso sobre o SNS e o sistema de saúde em Portugal.
Chama-se "Coração ao Pé da Boca".
"Coração ao Pé da Boca".
Memórias de um cirurgião.
Também quer saber por que é "Coração ao Pé da Boca"? Já não tenho tempo.
Em 15 segundos.
Olhe, nesse mesmo jantar, onde eu cruzai, cruzamo-nos, o Marcelo nessa altura tinha acabado de ter um debate com o Sampaio, que eu não vi porque estava na África do Sul, mas que foi um desastre. Ele dizia-me: "Ó Eduardo, tu não imaginas. Obrigaram-me a ir com uma gravata especial, não me deixaram ser irreverente, foi uma tragédia. Mas tu não, tu tens o coração ao pé da boca e às vezes arrependes-te, mas nunca mudes." Coração ao pé da boca, às vezes arrependo-me, se calhar até me vou arrepender de algumas coisas que lhes disse aqui.
Não vai, não.
Mas não vou mudar. Muito obrigado.
E faz bem, Eduardo Barroso. Obrigado, Eduardo Barroso. Até uma próxima. Obrigado.